.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

28/07/2010

será o dia do tudo ou nada










pedi a uma cigana que me lesse o futuro. olhou para mim desconfiada. tirou um espelho do bolso. colocou-me frente a frente com os meus olhos. riu-se – perguntou-me o que queria saber que eu não tivesse visto no espelho. queria apenas saber se eu existia para além do meu reflexo. riu-se ainda mais. deixou-se cair entre as mãos e. pelo nó dos dedos. chegavam gargalhadas engolidas por um ventre cheio de saber – pediu-me a mão. entreguei-lhe a direita. aquela que escreve as noites – chamou-me aldrabão. disse-me que dentro daquela mão nada existe para além do momento que faz o próprio momento – pediu-me a outra mão. a esquerda. aquela que sempre guardo no bolso das calças com medo de perder a identidade – sentamo-nos num banco de jardim. com vista para uma cidade que guarda o livro do meu baptismo. foi ali que um dia um padre me mergulhou em água que veio dum poço de desejos que não o era. a seguir. ungiu-me. fez-me o sinal da cruz. que mais não é do que uma cruz de alguém que tinha partido pelo peso da dor – abri a mão. suada. trazia impressa a marca das unhas no seu interior. há tanto tempo que estava fechada – tenho medo. sei que é com esta mão que posso perder a vida. posso perder o passado. é por lá que existo – no dedo mindinho. há um terraço com os meus primeiros passos. ainda hoje é lá que moro sempre que quero ver a pessoas perdidas. um dia. será naquela bola vermelha que outrora chutei para um lugar que ainda não descobri. que me encontrarei – hoje sei que era o futuro. perdi-me dentro daquele chuto – olhou-me. destemida entrou com os olhos na palma da mão. dentro das linhas da vida encontrou a morte. disse-me que estava perto. matou-a com uma reza de esperança. abriu um sulco para uma nova vida feita com a alma de um antepassado que vendia toalhas de rosto numa feira às portas da desgraça – os vocábulos eram comidos pelos ouvidos. a ladainha sorvia a realidade. as palavras nasciam aos milhares da palma da minha mão. era como se eu tivesse naquele pequeno espaço a odisseia de homero – fitou-me mais uma vez. pela primeira vez percebi que o seu sorriso eram afinal contracções de dor. inclinou-se sobre o indicador. talvez tivesse umas glosas nas bermas deste dedo. com letra de rascunho. por fim disse-me: morrerás com as palavras a nascer dentro de um nada. será o dia do tudo ou nada.



23/07/2010

do amor matar - [dueto com margarete]





andei por aqui. deambulando. enlouquecendo – mais tarde disfarcei a noite com música. melodias que o ouvido guarda do tempo do gostar. por mim passaram as ruas. com algumas tive conversas pequenas. disse - boa noite. sorriram. disse - bom dia. fugiram. tinham horas para cumprir. eram loucas pelo rigor de quem lá passava para despir a vida – construíram num canto da rua. onde havia uma campa de um sonho que em tempos era esperança. um relógio sem ponteiros. e traziam mulheres pesadas nelas. mulheres que queriam correr mas as peles, flácidas, pesavam-lhes para o chão. também com elas falei. pouco. porque encontrei mais à frente uma estrela do mar -tão bonita! cabelos cor de vento, coração d\'água. não tinha boca, quis dar-lhe a minha. respondeu com um gesto. um gesto desenhado num céu que trazia embrulhado num lenço de mão. dentro. guardava as últimas lágrimas que um dia a sua mãe lhe tinha pedido para levar para um mundo onde fossem capaz de fazer um rio. disse que a amava - madrugada já quase manhã. olha-me como quem olha o mar bravo. o coração inundado. mãos de fora do corpo, à espera. abraço-a. porque sei que as memórias que semeio são lugares onde ficar. para sempre. até de manhã falei-lhe do rio que haveriamos de fazer, no colo desapareceu-me com a primeira luz mais forte. chorei. deixei cair as mãos para dentro de mim. segurei o coração. a dor era tão forte. queria morrer – tem que haver uma forma de voltar a nascer. quero voltar á posição fetal e voltar a ouvir a voz do meu pai. encostava a voz ao meu ouvido e dizia que um dia seria uma sereia. dona de todas as estrelas-do-mar.


* obrigado mar. foi um exercício de grande prazer poder construir este texto a meias com as tuas mãos – também gosto muito de ti




autocarro 02.07am










certa vez. apanhei um autocarro. o 02.07am – ia sem destino. para mim – todos os outros passageiros pareciam saber o propósito daquela viagem. eu não – apenas gostei do número. o 02.07am. parecia-me bem para número de autocarro – em boa verdade poderia ser 072ma. 702am ou talvez 2.07am. mas não. era o 02.07am – parou em frente a um precipício – o motorista, homem com uma farda que levava duas asas no coração. abriu-me a porta. olhou para mim com os ouvidos nas mãos. talvez não quisesse que fizesse perguntas. disse-me: -espera mas não desesperes pela tua hora. mais tarde ou mais cedo alguém te virá buscar – estava sem horas. possivelmente deveria ter apanhado um relógio com [am] daqueles que são feitos no Japão. que têm os números vermelhos como olhos do demónio que mora na rua 02.07pm – vive no outro lado de mim. escreve poesia nos dias em que os defuntos são todos encaminhados para o céu - gosto deste demónio. sei que no fundo não é mau rapaz. gosta apenas do inferno. penso que já nasceu dentro de um inferno. agora. já não se dá sem aquele mau estar que o faz escrever coisas infernais – raramente o ouço. com o tempo tornou-se silencioso. sabe sofrer para si. anda entretido com aquela mania de escrever os versículos satânicos de almas deprimentes – um dia. um anjo vestido de fato. enviado por um ser que toma conta de todos os homens felizes. veio-lhe dizer que se deixasse de escrever. talvez lhe arranjasse um lugar numa associação de benfeitores do mundo que não sofre com o pensar - mostrou-lhe as mãos, manchadas de negro. negro de carvão. disse-lhe: -já não sei escrever com caneta de aparo d`ouro – este demónio. já só reconhece as letras. que tal como ele. gemem em silêncio. não pelo tempo que a viagem do 02.07am demorou a fazer. mas porque está sem horas e vê o tempo a passar. e o precipício sempre ali. mesmo ali à frente do tempo.



21/07/2010

também terás um lugar











para mar.

…não adianta. todas as palavras estão diminuídas pela leitura do teu texto – não vou mais escrever. vou apenas olhar cada imagem que me cravaste aqui no canto dos olhos – o barco – nem me disseste a cor do barco. se calhar porque me imaginas gaivota. ou daltónico. inábil para distinguir o verde que sempre trazes quando escreves – talvez não me consigas imaginar a remar. com dois braços de chumbo. ou então. sem coração. incapaz de ver uma estrela que afinal sabe dançar – mas o barco que me deste é de papel. tem impresso as tuas letras. as tuas histórias. a tua vontade de dizer em cada palavra que o mundo afinal também deveria ser teu – este barco. é como aqueles que no passado eu fazia na escola com uma qualquer folha de jornal. de um dia onde nada se tinha passado – os jornais são sempre passado. como estas palavras quando chegarem a ti serão também o ontem de mim – mas descansa. que a rua que tem o poste de electricidade é também a minha rua. e dessa rua. eu tenho tanto para te dizer – foi lá que encontrei uma pena e um tinteiro que me obriga a escrever todos os dias. vou escrever – vou escrever um lugar onde tu possas descansar. um lugar com gaivotas.



o teu lugar -





margarete, chamem-me mar




"A minha Alma, fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da TSF
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma)!..."

ao s.

tenho para ti um barco. atracado num poste de electricidade. estacionado no passeio da rua mais antiga que esta cidade conhece. está cheio de pedras e conchas e sal e ondas e mar. e ainda tem, com vida, uma estrela, que dança no fundo como uma odalisca. a estrela conta tantas histórias que os que passam por ali se demoram, ouvido encostado ao casco. um dia ouvi-a falar de um lugar onde as árvores cresciam para o chão e a água dos rios corria para o céu. onde as pessoas andavam de bruços no sentido contrário aos ponteiros do relógio. era um lugar com vista para os teus braços, sei-o hoje. este barco, que tenho para ti, tem o casco quase podre. quando morrer haverá um mar na rua mais antiga que a cidade conhece. nunca mais será a mesma. até lá procuro o lugar onde atracar o coração.

texto de uma AMIGA, margarete, mar como ela gosta de ser



19/07/2010

berlinde





 




desviei o olhar para o chão. fui reconhecido por uma gaivota cinzenta do passado. sabe tudo de uma outra pessoa que tem o meu rosto – mas este corpo. que apodrece com o tempo. já não tem o mesmo passado – não sei se me quer voltar a falar ou apenas rir do que ainda sobra desse corpo. talvez as duas coisas. talvez. – se soubesse o que esta palavra representa para aqueles que não têm vida. talvez mais ninguém usasse a palavra –talvez–. talvez um qualquer idealista dono do que resta da nossa língua a proibisse – talvez amarrasse no –talvez–. a levasse para o meio do nada e a transformasse num cometa. talvez assim eu fosse levado por uma onda gigante e talvez me tornasse num peixe de olhos azuis. um peixe de aquário gigante com umas mãos ainda maiores que me acarinhassem todos os dias – mas também já não interessa. [soubessem vocês leitores. que tenho agora o mundo ao colo. chora. amarrado às raízes que são suas e minhas] tenho um berlinde que trouxe de um passado onde ainda não havia cores. é transparente. tão transparente que dá para ver todo o futuro que um dia terá que enfrentar – talvez um dia. este berlinde se torne também num peixe que sabe distinguir as cores. talvez os olhos sejam azuis esperança. talvez queira ter outro mar só para ele. outro aquário ainda maior e mais azul que o meu – mas o berlinde é tão límpido. tão redondo. tão brilhante que quando olho para ele o futuro não existe – o céu é então uma bola de fogo. onde os pavores ardem e todas as palavras que não digo. são afinal carinhos que guardo desde aquele dia que alguém me disse que tinha orgulho em mim – este talvez. faz de mim um erro. todos os dias maior. mas. talvez desta vez esteja certo. este –talvez– de um tempo que não é meu faz-me sofrer – quero morrer. morrer com todas as incertezas. com todas as dores. com todos os pasmos. morrer. apenas morrer – tenho tanto medo de perder o berlinde – é tão luminoso.



17/07/2010

o – E –










...não há poetas assim. esse é desenhador. desenha tempos. desenha modos. fornalhas. cunhos de ferro para poder reproduzir o que lhe dizem - um poeta dá-se. entrega-se. despede-se. que de tão nu só os que amam a vida sabem que deixou cair a última peça de roupa - um poeta -mar. alexandra - um poeta é um pranto interminável. ainda hoje acordei com um – E – nas mãos. bonito estava feito à maneira antiga. levava aquelas curvas que lhe davam a beleza de todas as manhãs do mundo. olhei-o. não sabia o que fazer com ele. tão elegante. penso que era a primeira vez que estava no meu mundo. pensei prega-lo um numa parede onde guardo uns quadros com umas pessoas vivas lá dentro – depois. percebi que não tinha boca. nem braços. nem corpo. nem pés. nada onde pudesse levar uma pequena taxa para o segurar à vida - fiquei sem saber o que fazer. escrevi então: Era uma vez. um poeta... - ficou feliz. encontrou a sua família - os poetas tem uma família especial. deles. de mais ninguém

[resposta a um texto da Mar -o poeta.-]



triste porquê?









escrevo com os pés e tenho um ninho de gaivotas atrás de uma orelha - falo por gestos na tentativa de fazer sons e acabo por matar o silêncio - um desastre - estou em negociações para comprar duas mãos em segunda mão e duas rótulas em titânio para me dobrar a cada pôr-do-sol – ofereci-me como voluntário para ser louco na minha terra. não aceitaram - dizem que não tenho estudos para tanto. disse-lhes que quase era poeta. até tinha uma amiga que tinha nome de mar. como este que todos os dias me cobre de sal – riram-se todos – olharam-me como se eu fosse normal – desesperei. meti a mão dentro de mim. arranquei o fígado que já não purifica coisa nenhuma. cortei-o às postas chamei os leões marinhos e atirei-o para o meio de gente culta – foram comidos por uma história que bem podia ser a minha. quando nasci. também podia ter sido cortado às postas. talvez depois de me terem dado uma sapatada no rabo – a parteira. bruxa no pós-parto. tentou mas foi proibida pela legislação. não se pode bater em indefesos - ainda hoje uso com frequência esta lei. também gosto daquela lei que diz que todos aqueles que não pensam são inimputáveis – loucos como eu – tenho pena é de estar tão só - toda a gente me parece tão normal



quase louco










tenho uma parte de mim a pairar por aqui
[o louco. tem a mania que tem asas]

diz que quer falar com a outra parte
[o esticadinho. tem a mania da razoabilidade]

logo hoje
[terça-feira. depois de um segunda-feira e antes de uma quarta-feira]
que não estou para ninguém
[o poeta. absorvidopela classe das palavras determinantes]
veremos. talvez mais tarde
[com o modo imperativo]



queria que me contasses de uma árvore… qualquer










tenho o espectro de uma árvore num vaso do meu terraço. secou há muito tempo. era uma daquelas árvores de companhia. nunca seria uma árvore capaz de me fazer sombra. ou de poder albergar um qualquer ninho de pássaro a tricotar uma nova geração – mas gosto daquele tronco. fino. engelhado. seco – não tem uma única memória visível. nem uma única folha de um tempo verde. de um tempo onde a água era vida. onde a mão do homem era a esperança de uma eternidade que afinal o mundo nunca oferece – hoje. subsiste apenas aquele pau ressequido. preso por um punhado de terra. também esta já sem força para sustentar vida amarrada a si – a seu lado. a companhia de sempre. uma pedra que ainda nova acreditou que um dia faria parte de uma qualquer história de uma árvore gigante. gastou-se pela inutilidade. e acabou por esquecer a sua própria história – rebolou de uma montanha não muito longe dali. queria saber como era o mundo das árvores. estava cansada de viver sozinha – na montanha onde cresceu há já muito tempo que não haviam árvores. tinha ouvido dizer que na cidade que habitava no vale havia uma feiticeira capaz de dar vida ás pedras com ambição – neste pedaço de terra. minúsculo. a árvore sabia que era a diferença para a pedra. era a floresta que a pedra nunca chegou a ver – neste tronco sem vida. que nunca chegou ao céu. guardou tudo que o tempo ensinou – sempre gostou de aprender. saber coisas. muitas coisa. até coisas inúteis. ficou a saber que o cometa halley passa pela terra a cada setenta e seis anos – já não estará cá. ela. e eu – talvez a pedra resista



13/07/2010

resistência – até quando. até quando









acordei com duas árvores amarradas aos olhos – tinha sonhado uma floresta de borboletas com várias cores e formatos. todas batiam as asas sem parar – eram aos milhares. umas para lá. outras para cá. mas nenhuma deixava de bater as asas – vivem pouco tempo e cada bater de asas. é um sopro do outro lado do mundo – o tempo. é uma invenção do homem que acabou por apanhar as borboletas – voam sem direcção como se o mundo não tivesse fim – saí dos meus olhos. amarrei-me às árvores  que altas pareciam tocar o céu e trepei sem parar – parei no topo. sentei-me num galho imaginário – era assim – uma cadeira sem costas. pobre. feita de madeira velha e com os sons de todos aqueles que um dia falaram para mim – olhei. levei as mãos a uma nuvem que por ali passava. lembrou-me (e me lembrou) o algodão doce que um dia o meu pai me deu numa festa de uma santa que prometeu proteger-me – nunca a vi. também havia tantos meninos mais tristes do que eu! uns. não tinham algodão doce. outros. não tinham nem pai nem mãe – talvez por isso a santa não tenha reparado em mim – olhei para baixo que por sinal era já ali. afinal. apenas na minha imaginação um dia tive uma árvore que tocou o céu – deixei cair as mãos. cortei-as. tive medo de me matar e estas. às vezes (de vez em quando) ficam tão magoadas comigo – se calhar têm razão. nunca fizeram nada de jeito! a ambição inchou-as e acabaram por cair de gangrena. depois cortei os pés – estou farto de fugir. tenho a planta dos pés gasta – em tempos tive uns sapatos de cordão. eram pretos. com o tempo ficaram castanhos-claros. o pó da terra que pisei entranhou-se dentro do couro. os anos passaram e o pó que os pés levantaram capturou a pele do meu corpo – hoje queria morrer. quero morrer. tenho um machado que amolei nas memórias do passado. vou cortar as árvores e fazer da minha vida uma fogueira para náufragos – vivo na costa da morte. aqui. morre-se mais vezes.



bom dia









esta é a hora real
se algum poeta existiu
morreu com o nascer do sol
pobrezinho
esqueceu-se de guardar as palavras
sozinho
finou-se despido de valor
sorrindo
disse: bom dia



atlântida









esperei

mas nem uma voz nasceu

mentiste-me

afinal não estavas grávida de mim

enganaste-me

nunca mais te digo onde fica a ilha dos sonhos

tinha duas lágrimas guardadas:

uma para ti

outra

para mim

queria tanto partilhar este choro

dividir a ilha a meias

de um lado tu

do outro

tu e eu

era assim a minha divisão

da ilha que um dia sonhei para ti



descodificar sinais









estou aqui. irei ouvir-te mesmo que não reconheças as minhas orelhas. estão disfarçadas de olhos. por baixo de umas pálpebras que apenas se abrem pela noite. quando a voz é pura. e o barulho das estrelas é o pensar



quando perdemos o pé









soltou-se uma pedra da minha montanha
rebolou
rebolou
passou por um corvo que estava a rir
continuou a rebolar
a rebolar
a rebolar
passou por uma conversa de escárnio
mas continuou rebolando
rebolando
rebolando
passou por uma multidão surda
e rebolaria muito mais
rebolaria
se…
fechei a porta
para rebolar eu teria
que estar no presente
não estou
hoje não estou para ninguém
rebolai vós
eu, rebolarei outro dia
noutra montanha



viva melhor









há posturas que me aniquilam
são balas
e quando me apontam o dedo
já cheiro a defunto

morte estúpida
agora que estava a ler: viva melhor

PS. apenas para os mais íntimos
[entusiasmei-me com estas merdas novas de saber comer - estou convencido que se fosse mais obeso a bala não tinha ultrapassado a couraça – da indiferença]



ab imo pectore









segregação…
das diferenças

silêncio…
nas mãos também

caneta…
jaz como morta

enregelou…
da solidão

abro o fecho éclair…
o coração pula para cima da tábua

escreve…
uma última palestra

à meia-noite…
doze batidas

tudo começa a escurecer…
cambaleou

caiu dentro do tinteiro…
gemeu

soltou os últimos suspiros…
contorceu-se

enrolou-se num mata borrão…
partiu para sempre


(ab imo pectore - do fundo do coração)



05/07/2010

desabafo










…ao lado um almofariz. ainda tem dentro restos de umas ideias que serviram para alimentar a arte de um escritor que teima em escrever o que apenas o seu corpo sabe ler – sento-me nos restos do dia. deixo os olhos acontecer para dentro de mim – estou tão exposto. tão entregue a quem um dia dissecar o meu interior – já não tenho forças para encobrir – tenho a esperança moribunda a olhar para mim. e eu aqui sem nada nas mãos




uma conversa com a mar









não ficas só mar. esse mar onde vais lançar a âncora também é meu. tenho por detrás daquela rocha enorme que te tira o sol uma dor enterrada – dou-te metade dessa ilha minúscula no meio do nada para poderes enterrares as tuas dores – mas não podes enterrar as dores todas. tens que ficar com algumas debaixo do pé direito. temos que conversar – também eu digo ao mundo que há uma razão para escolher as palavras – mesmo quando as mato tenho uma razão – às vezes a razão é uma solidão que mora dentro das multidões – mora num corpo que vê dento o que não há fora – este corpo chulo tira-me tudo. vende-me. prostitui-me e todos os dias. cobra de mim uma alegria que deixo ficar nos pensamentos que afogo em cada soluço de agonia – estou só. estou e estarei só – tenho apenas uma putas de umas palavras que escrevo por aqui na procura de uma ilha maior para enterrar o corpo todo – um dia juntarei toda a poeira que há dentro de mim e faço essa ilha.



coisa









deixem-me ser
um pedaço de coisa
de qualquer coisa
de uma coisa de nada
talvez de um espaço
vazio e sem coisas
aqui vale o tacto
das coisas que dizemos
para vos fazer sentir
que afinal sou uma coisa
no meio das vossas coisas

assim serei nesta coisa
que deixo aqui para lerem
na esperança
de ser
uma pequena coisa
nas palavras
que acasalam
com o vosso olhar
nestas coisas que escrevo
sou esta coisa
de coisa nenhuma
mas hoje
onde o mar sabe levar e trazer
coisas
onde apenas as gaivotas
sabem ler
esta coisa de tentar
pôr as palavras a voar

mas há coisas e coisas
e eu tenho uma coisa
que não se escreve
é uma coisa meiga
daquelas coisas
que apenas damos
aos amigos
os beijos
é a maior coisa que tenho
no meio de tantas palavras
sorriem os beijos
e assim faço desta coisa
um simples beijo
que escrevi como
outra qualquer coisa
uma coisa importante
para a leitura
com um beijo-coisa
que não é qualquer coisa

sou assim mais uma
coisa
presa a coisas que sinto
ser coisa
é medonho
talvez arrogância
de querer ser uma coisa
que não sou
sou esta coisa que sou
nasci com uma dor que com o tempo
passou a uma coisa minha
uma coisa que me mata
de coisas que não compreendo
nem sei lutar
com coisas que afinal são minhas
com coisas que levarei
para um mundo de coisas eternas

sou uma coisa
sim
uma coisa
tão pequenina
tão inútil
para o tamanho da palavra
COISA
escrevo coisas
para aliviar este homem
feito de coisa nenhuma


[dedicado - para uma gaivota-coisa]



Johann Sebastian Bach - Suite nº 3, BWV 1068 (Karajan)










entre os dedos
rebenta um som
hoje é quinta-feira
mas esta música
o som
a melodia
a mansidão
a criatividade
o horror de saber que tem fim
as notas ordenadas
talvez militares
pela forma como marcham
a clave de sol
ilumina
a partitura brilha
o fá
o dó
o ré
as colcheias
as semi-colcheias que seriam metade de tudo que ouço
não são
são um todo
até o mi que é parecido comigo
triste. digo eu
alumiou uma porta
a dor esvanece
o tom é sereno
a remissão do sonho
a pauta treme
a batuta geme
comanda
a música
a vida
o sonho
a esperança
de uma quinta-feira
que apenas quer morrer em paz
ao som
de uma clave de dó
de Bach



era uma vez









notícia de última hora:
um comboio de mercadorias
transportava palavras oriundas do bojo de um poeta
- descarrilou – [fodeu-se]
não há sobreviventes entre as palavras
o artesão.
maquinista desde a invenção do comboio
dormia debaixo de uma árvore
tinha na mão um lápis e uma borracha
a seu lado garrafas de cachaça
bêbado
rasgou a folha a meio



a dúvida









a letra desvanece
os olhos escurecem
a manta encurta
as mãos enrijecem
a dúvida fortalece-se

amarra todas as palavras
todas
mesmo sendo poucas
são todas
um tesouro

“a dúvida” será título
deste excremento
perdoem-me
se o texto vos suscitar
dúvidas
ao excremento

as palavras
sei que são escassas
mas mesmo assim
componho
um vida de excremento
e
excremento sem vida



ferro velho









comecei a chorar. não por me apetecer. mas tinha acabado de comprar estas lágrimas na feira da ladra – o homem de fato treino que mas vendeu. calçava umas sapatilhas nike que já tinham pertencido a um humano que corria os cem metros em menos de dez segundos – caíam-lhe do corpo franzino umas mãos enormes. quase mortas. uma barba espessa. e uns olhos cavados num muro de granito preto – confiei nele. não estava de fato e gravata. nem tinha uma pasta de pele confeccionada por um qualquer estilista francês. tinha um banco de praia enferrujado e um cobertor diferente de todos os que eu conhecia: roto. sujo. e cheio de quadrados irregulares. talvez triângulos isósceles. com ângulos que apenas ele os conhecia – perguntei-lhe onde tinha colhido estas lágrimas tão transparentes. não me quis adiantar muito. o segredo é a alma do negócio. tinha um vício para alimentar que não lhe dava descanso. acordava-o todas as manhãs com as dores de uma jornada incerta. feita de uma corrida contra um tempo que dói – essa dor. de joelhos. silenciosa. segreda-lhe [todos os dias ao levantar] que agora falta menos um dia para o dia do juízo final – mas o sol afinal está onde sempre esteve. ali. onde um dia o pai o levou pela mão a ver o ferro velho que a vida produz. se calhar foi nesse dia de ternura que o corpo se tornou frágil para sempre. quem sabe. se uma daquelas criaturas que naquele domingo vendia a alma ao diabo. visse nele o amor que sempre procurou – apoderando-se do seu corpo. e fazendo dele a sua morada de vida – embrenhou-se para sempre nas suas veias que. com o tempo. se desfizeram na procura do alivio divino – olhávamo-nos. eu imaginava a sua vida e ele imaginava a vida que podia ter tido – queríamos falar mas a roupa dizia que pertencíamos a mundos diferentes. havia um tempo espesso no nosso meio que não nos deixava comunicar – ligou um gira-discos de uma época onde os brinquedos eram de chapa. tinha uma agulha de aço. e uma orelha enorme por cima do corpo de madeira trabalhada. foi aí que percebi o porquê daquele homem ter dentro de si todas as dores do mundo – este ouvido gigantesco. tinha uma caixa capaz de abrigar todos as injustiças que por ali passavam – começou a dar à manivela como se carregasse a caixa de uma vida que há muito já não era sua. lentamente. a música soou. soou para si. e para mim. para nós – começou então a gotejar umas pequenas lágrimas. iguais às minhas. ainda mais transparentes – ficamos por ali a conversar. falamos da vida que ainda faltava viver. falamos da sua manta de restos do mundo que tinha ali para vender – em cima de um tabuleiro de casquinha de prata. havia uns cristais italianos de murano. perguntei-lhe onde os tinha conseguido. disse-me que tinha sido uma herança. um amigo visconde que tinha acabado morto dentro de uma urna de pinho. deixou-lhe também uma colher e um limão. que ainda hoje guarda dentro da caixa de música – era escritor. teimava em escrever o que ninguém lhe lia. nas noites em que abraçavam o mesmo destino sempre lhe dizia com um sorriso que apenas a dor conhecia: um dia nasceremos novamente. num outro mundo. mais bonito. sem dor. sem ostracismo. sem indiferença e sem ferro velho.



desespero





angelo bronzino


as mãos tapam-me os ouvidos. continuo a ver tudo  – como se ontem tivesse solução






chamava-se falhada










hoje morreu uma gaivota malhada. suicidou-se do mar e do vento que trazia dentro de si – chamava-se falhada. tinha nascido com uma falha na ambição. queria voar para lá do mundo que imaginava – todos os dias. ao fim da tarde. olhava o horizonte da sua falésia que um dia tinha sido do seu pai e atirava-se ao vento – com o bico cerrado. teimava em subir até onde nunca outra ave tinha voado. e a favor do vento gritava por si – sabia que apenas o que havia dentro do seu peito. era capaz de a fazer subir mais alto – sonhava. subia. subia. subia e sonhava. não se lembrava nunca de ter voado sem sonhar. subia sempre a gritar. como se tentasse despertar um parte de si que ainda não tinha acordado – acreditava que um dia éolo. deus do vento. comandante de todas as brisas boas e más. iria escutá-la. acreditava que nesse dia. finalmente. o seu deus compreenderia a razão dos seus voos sonhadores – iria poder explicar o porquê dos sonhos não poderem nunca ser abandonados a um qualquer vento norte – finalmente. poderia fazer um desenho no céu capaz de ser entendido pelo tempo que o espiava – não compreendia porque tinha de carregar estradas que afinal no meio do vento não existem. tantas vezes pediu para ser um homem. um homem com um caminho simples. podia ser até feito de terra batida. podia ter cruzes e pedaços de carvão em chama. estava cansada. não compreendia o porquê das noites serem sempre tão frias e enormes. não entendia o porquê. da lua. sua única amiga. estar sempre a mudar de forma e lugar – talvez fosse a forma de recomeçar uma nova vida. sem ninguém saber que afinal era a mesma lua de sempre – será que também ela queria voar e não conseguia? mas uma gaivota é uma gaivota. e esta. sabia que tinha nascido com o infinito nos olhos. sabia que é nos dias em que os pescadores se recolhem em terra. que ela era ainda mais livre no seu mundo – nesses dias. quando o céu escurece e o vento ganha voz. faz de todas as folhas caídas pássaros vagabundos. sopra a brisa das brisas – aquela que é capaz de pegar em todos os seus sonhos. e os transformar em pedaços de vida com carne. sangue e dor – sabia que era o seu fim. sem sonhos tinha que partir – cravaria as memórias nos olhos. cortaria as asas. arrancaria todas as penas que lhe tapavam as cicatrizes dos sonhos. e aí. mergulharia no oceano – será então apenas um ponto na imensidão. um barco à vela. navegando à vista para todos aqueles que acreditam em sonhos. hoje suicidou-se com o sonho que amava. amanhã voltará a voar. com outro sonho.



infinita sabedoria









abri uma janela que sempre esteve aberta – fechei uma porta que sempre esteve fechada – matei uma galinha preta que sempre foi vermelha – ouvi música forró que afinal sempre foi fado – falei com um canário que era cão – desenhei um céu azul que sempre foi cinzento – contei asteriscos dentro de uma saca de feijões – meti um peixe a andar de bicicleta – tornei todas as mulheres lésbicas às quartas-feiras. necessitava de descansar – inventei um touro sem cornos. e no seu lugar plantei repolhos franceses – cortei um carvalho que já estava cortado há muitos invernos. era a lenha que me aquecia em noites de solidão – esta dualidade é inversamente proporcional à minha sanidade – oculta um pseudo-escritor. trazendo à escrita um louco que existe dentro de um bolso que guardo em mim. tem um lápis feito de passas do algarve e o corpo revestido de penas. um dia terei asas. e voarei ao lado de todos os loucos que gostam de escrever a loucura de todas as palavras – são estas putas que de noite me fazem pensar que um dia serei eu também capaz de inventar uma metáfora assassina – nesse dia. mato todos os advérbios de tempo. mandarei uma corda ao eixo da terra. e com um ponto de apoio erguerei o meu ego para o topo de uma pilha de livros – depois. com asas de cera. mergulharei na infinita sabedoria



matem-no por favor









deixo-vos aqui um punhal

trago-vos o corpo mais tarde

já o matei muitas vezes

mas teima em respirar

para não haver engano

o poema estará sem olhos

nos ouvidos dois círios

na boca o silêncio

nas mãos um livro do Miguel Torga

esta dor de ler a dor

um dia tem que morrer



conversa com cristo










trouxe cristo para o centro do meu quarto. tirei-lhe a cruz e carreguei-o com as minhas dores. segredei-lhe as desilusões e lavei-lhe os pés com as noites que passei sem dormir – jurou-me amizade para sempre. disse-lhe que não valia a pena preocupar-se comigo. bastava conversar um pouco. fazer-me um pouco de companhia. afinal. em tempos fomos amigos – com o passar dos anos deixou de aparecer. só o via em livros e em igrejas que nunca deixam falar alto. dizem que perturba o silêncio – falámos. acabámos por perder a noção do tempo. culpa dos relógios. o meu está parado há muito tempo. acabou por falhar a missa matinal das seis – não sei o que vai acontecer. aquelas beatas não costumam perdoar. e mesmo sabendo que a falha é divina acabarão a cortar na casaca – espero que não saibam que está em minha casa. já rasgaram há muito tempo o meu casacão. um de pele. que me cobre a carne mutilada – acabamos a tomar o pequeno-almoço juntos. ajudou-me a arrumar a cruz para um canto atrás da porta do quarto de arrumos. onde meto todos os desesperos que não consigo assimilar – coisas que doem apenas porque doem. assim como o amor que arde sem se ver. merdas complicadas que prefiro guardar num quarto sem janelas – falámos de tudo um pouco. ele falou do meu mundo. eu falei do dele – perguntei-lhe se um dia me podia dar o céu aqui na terra. não me respondeu – perguntei-lhe se todos os que não gostam de mim um dia viriam a gostar. pediu-me mais uma chávena de café – perguntei-lhe se um dia serei capaz de explicar aos meus sonhos o motivo porque nunca os farei reais. pediu-me um pouco mais de açúcar. percebi que a conversa estava azeda – mesmo assim. perguntei-lhe se me poderia arranjar um lugar numa cabeceira da mesa dos meus antepassados. respondeu-me que estava a fazer-se tarde. tinha medo de não chegar a tempo para um milagre que tinha sido encomendado por um gajo que ajuda à missa no bairro novo do Senhor dos Aflitos – meti a mão ao bolso e tirei trinta moedas. dei-lhas – tinha-as no bolso desde o dia em que judas foi crucificado à direita do pai. pediu-me para as entregar caso um dia eu me encontrasse com Cristo – assim fiz. entreguei-lhas em mão. tocámo-nos. apertámo-nos. por fim. olhou-me . calmamente meteu-as no bolso e saiu em direcção à porta. disse-me que tinha ouvido no rádio que se aproximava um dia de chuva. olhei para o fundo da minha chávena. restava ainda uma pergunta – olhei-o nos olhos. e questionei-o porque me chamava de filho se nunca me tinha dado um abraço – olhou para mim. respondeu que talvez fosse melhor sair pela porta de trás. não queria que ninguém o visse por ali – preparei-lhe uma merenda. e aconselhei-o a ter cuidado com os carros. andam por aí uns malucos que não respeitam coisa nenhuma. perderam a fé na vida -



equidade – quanto vale a equidade









tenho medo
tenho medo
tenho medo

não há razões para admirar este medo
vigia-me
mas:

tenho medo
tenho medo
tenho medo

ontem gostei do que senti
hoje gosto do que senti ontem
mas:

tenho medo
tenho medo
tenho medo

e amanhã gostarei ainda mais
do:
antes de ontem
ontem
do hoje que amanhã será:
ontem

sinto:
liberdade
igualdade
amizade

deixarei de ter medo
deixarei de ter medo
deixarei de ter medo

da prepotência da intelectualidade
vencerei com as:
minorias que vivem dentro de mim
terão voz

força
luta
resistência

a ditadura já matou uma metáfora
mas os sonhos:
resistem
resistem
resistem

as mãos serão gaivotas
com pensamentos:
livres
equitativos
universais

(no meu mundo)



disse que voltava









não vou. às vezes pode parecer que vou. mas não. apenas tenho necessidade de ficar um pouco menos tempo com este homem que escreve o mar e as gaivotas – muitas vezes. tenho que ficar em silêncio. encontrar tudo que perdi enquanto escrevo – sempre que escrevo entrego-me. e sempre que me entrego perco algo que era só meu – eram palavras puras porque nunca tinham ido à rua ver os adultos. puras. porque nunca tinham tido medo de sentir a diferença. puras. porque nunca antes tinham saído para uma qualquer paragem com vento. falésia sem mar e sem gaivotas de asas enormes – depois. fico a compreender se fiz bem em soltar aquelas palavras ao olhar cruel. daqueles que apenas procuram um miradouro para encontrar um prazer efémero – é por estas alturas que falo dias e dias para mim. ouço-me. e tento encontrar a razão para voltar a escrever para quem gosta das minhas gaivotas. para quem gosta de sentir ventos que nunca foram contra-alísios. para quem gosta de sentir a força das palavras mesmo quando elas nascem como furacões – o remoinho de ventos circulares distorce a realidade de quem está sentado na ponta da falésia. sei que não é fácil escutar os ventos – abro os braços. sei que não voo. mas sinto o vento a cortar-me o peito. sinto a força das palavras a emergir. e ao contrário das gaivotas que mantêm os olhos abertos para poderem ascender a um céu que sempre lhes pertenceu. eu fecho-os. para poder descer até aos sonhos que em dia de tempestade me dizem que um dia serei eu também uma gaivota com nome – nesse dia. irei voar sem parar. percorrerei todos os continentes. todos os mares. todos os ventos. e quando não tiver mais força voarei em direcção ao sol até que o calor me transforme numa estrela brilhante.



deixo a morte pensar que morri










escrevo
com um punhal ao lado. sinto que a noite está a ameaçar com um turbilhão de cometas – logo hoje que queria ver o céu - há dias em que reconheço no meio da minha galáxia a estrela que um dia me abraçou com saber – logo hoje que queria ficar cego com a escuridão que impera ao lado da minha estrela. dei-lhe um nome. pai – é uma estrela enorme. tão grande que não cabe dentro dos meus olhos – logo hoje que queria ver o céu. logo hoje que as gaivotas estão recolhidas a amar nos seus ninhos. logo hoje que uma onda me molhou os pés com água que ainda não tinha sido nuvem – chegou a hora de ver a foto a cores. a sorrir. a tocar. cravo o punhal nas memórias e solto as primeiras dores de alegria – ainda viajo em primeira classe. cambaleio. atiro-me para dentro de um passepartout que guardo num canto das minhas mãos – incham. crescem. as unhas rasgam a pele. os olhos caem. rolam pelas sedas que cobrem o desejo. os cabelos perdem força e fazem uma trança de esperança que nunca foi penteada – a carne despede-se dos ossos e as formas deixam de ser forma. finalmente a libertação – aparecem os necrófagos. gostam de levar o resto do meu mundo – hoje. até os sonhos estão em risco. fica o cinto de pele com a fivela a ouro martelado. e os sapatos de couro que um dia comprei para ir a um funeral que nunca acaba – hoje. vou-me sentar na minha cadeira de baloiço. deixo a morte pensar que morri.



para lá do meu tempo









dentro do tempo -me- escondo
(ao longe as gaivotas anunciam um cardume)

aqui tudo sou
sinto os verbos
no gerúndio
fazem-me escrever
escrevendo

na brisa que um dia colhi
ouço os búzios ainda no mar
são harpas
lendo
uma vida que ainda não colho

meu tempo
não está ao tempo das marés
o silêncio
é o voo das penas
a leitura
é o voo das palavras



04/07/2010

hoje desenhei uma história dentro de mim









um dia vou escrever uma história num livro. com capa feita de pele de um mamute siberiano. fechará com um dente de marfim de um seu parente africano – as páginas de trapos e fibras vegetais terão castelos. armaduras. lanças. túneis. portas falsas. esconderijos. armadilhas. terá tudo o que é importante para fazer um livro de imagens. até fantasmas antigos para mostrar que em tempos o castelo teve vida – dentro. haverá também um hall com umas escadas imponentes que sobem para lá da imaginação. rodeadas de fotos de gente que um dia foi importante – terminarão numa torre de tortura a norte – na porta. gravado a fogo. anuncia que em tempos ali viveu uma gaivota sem sorte - no começo das escadas. um pedestal em madeira de sucupira sustenta um pote da china da dinastia de ming – no seu interior. um mapa rasgado num pedaço de linho retirado do sarcófago da rainha do egipto. cleópatra – as palavras. desenho-as a carvão. roubei do museu de história natural de nova york. uma tocha de um australopiteco que ainda tinha na ponta a descoberta do fogo – enrolo este pano. que afinal era um pergaminho num osso de dinossauro. e que no tempo dele substituía as gaivotas. pterossauro. significa lagarto com asas – como todos os documentos importantes têm que ser lacrados. vou buscar uma madeixa de cabelo que um dia pensei usar apenas para distinguir a cor do passado. e queimo-o – perco para sempre a esperança de um dia voltar a pegar na pureza – agora. restará apenas o meu tesouro imaginário. os corsários negros que inventei para esta história não querem saber das palavras – disse-lhes que dentro tinha uma fonte de vida eterna. e que quem bebesse dela ficaria para sempre a viver no mar – responderam-me que estavam fartos de pilhar sonhadores. pediram-me em troca uma viagem ao pólo norte. nunca viram a neve. e têm o corpo queimado do sal do mar – desisti. guardei o livro e as marcas com um “X”. deveriam ser tesouros. são apenas rochas viradas para o mar. onde as gaivotas acasalam para sempre com ventos de feição.



segunda de merda









falso é este momento
desafio o talento
sobrevivo
vendo banha da cobra
com fato engomado
entre vénias de actor
recebo aplausos
chorando



o lugar da besta









este livro que trazia toda a esperança nas primeiras páginas. é afinal um bluff. sabia-o desde o início. há coisas na vida que encontramos ao nascer. talvez uma marca do diabo – já procurei por todo o meu corpo o número da besta. encontrei apenas uma verruga. que uma vez um médico disse. que nenhum mal ao mundo viria dali – não acreditei. cogitei que era ali a porta de toda a maldade. aquela verruga tinha mau aspecto. parecia a porta da bruxa má. aquela que um dia ofereceu a maçã à branca de neve – porque é que eu tenho que saber das coisas se ainda não nasceram aos meus olhos? vejo primaveras que nunca floriram. e campos de descanso ainda sem os mármores cinzas. que emprestam dignidade a vidas que nunca existiram – armei o dedo indicador. agucei-o numa aguça que guardei desde a escola primária. a primeira que me aguçou a vida. atarraxei-o na verruga maldita – procurei lúcifer, tinha esperança de o encontrar sentado numa cadeira. que eu sempre sonhei que havia dentro de mim. de couro vermelho. com dois bilros apontados para uma entrada de luz. que sempre faço questão de manter como saída de emergência de uma qualquer ideia que agonize – mas não. tinha apenas um bilhete a dizer que tinha saído e voltava mais tarde. não dizia quando. apenas que voltava mais tarde – vou estar atento. sei que um dia vou dar com as janelas abertas. e as passadeiras a arejar. agora vem poucas vezes. penso que faz de mim uma segunda casa – de vez em quando. apenas quer saber se eu ainda agonizo. se me contorço com as dores que me entregou ao nascer – nunca me dei bem com este homem que um dia foi aliado de deus – já não lhe quero mal. afinal. pouco me fala. penso que sabe tudo de mim. tudo. até daqueles que andam à minha volta – tirei o dedo da verruga. está igual. feia. disforme. perdeu a forma altiva com o tempo. está moribunda. salvam-se lágrimas de sangue que encerram como lacre a porta para outra existência – vou ver o mar. hoje. há por lá uma estrela de um mar longínquo. veio dentro de uma garrafa de vodka. traz uma esperança nova.






subterfúgio para o erro









conheço um homem que apenas tem uma asa
um olho
e uma mão que sabe escrever sem erros
voa em círculo
procura a outra mão
a única que sabe desenhar asas
está farto de caminhar
só com uma asa

na plenitude dos círculos
a selva dos olhares
uns olham para a asa que voa
outros procuram
a asa
que nunca existiu