.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

29/04/2011

conversas ocasionais









ontem gostava de me ter dado por acabado. gostava de me ter posto um fim. gostava de me ter posto um “the end” – não é possível. ainda tenho uma cidade. uma multidão de olhos que me reconhece e que com lábios afogueados me diz:

• bom dia;
• que bom rever-te;
• não envelheces;
• estás na mesma;
• sempre jovem;
• os anos não passam por ti;
• qual é o segredo;
• quando foi a última vez que falámos;
• estou feliz por voltar a ver-te;
• estás sempre igual;
• tinha saudades tuas;
• bons tempos aqueles;
• parece que foi ontem;
• foste importante;
• nem imaginas a alegria;
• eras bom rapaz;
• malandrote;
• vi-te no facebook;
• não tens desculpa.

há um espaço de tempo aberto no cimento. ainda há quem reconheça o rosto. ainda há saudade. ainda há as férias grandes. ainda há liceu. ainda há namoradas. ainda há carros. ainda há noitadas. ainda há palavras ditas. ainda há palavras guardadas. ainda há abraços. ainda há juras eternas. ainda há esperança. ainda há tempo dentro do tempo todo – ainda há. há. há e há. ainda há tanta coisa – quero uma cidade vazia. uma cidade onde não haja ninguém - não quero. o dia seguinte. igual ao de hoje. não quero – quero um mar. com gaivotas. com vento norte. quero uma sarronca a dizer que o sol vai desaparecer – ainda estou aqui. só me resta o sonho – sonho com uma cidade desigual. indiferente aos nomes. uma cadeira virada a sul. abrigada do vento norte e no ombro a minha gaivota cinza – um dia partiremos os dois com o mesmo vento. sorrindo para o tempo que já não é tempo



16/04/2011

num abril e fechar do tempo









meio-dia. metade de um dia ganho ao tempo  - doze horas. setecentos e vinte minutos. quarenta e três mil e duzentos segundos. biliões de micro espaços tempo – ainda não há big bang – o sol está a pique. os sorrisos caídos tropeçam nas pernas que rasgam abril. pedras em silêncio. janelas fechadas. mãos redondas em bolsos quadrados. geometria moderna. picasso. cubos. cores. deformações. intuições de aguarela e a boca resmunga  – ainda uma criança chora no tempo. arranca cabelos que o ligam ao meio-dia de todos os dias – meio-dia. meio copo vazio. os sapatos alinhados. engraxados. presos por atacadores pretos a ponteiros de relógios que correm num pé só – meio-dia. meio dia de coisa nenhuma. não há tarde que não traga noite. escuridão – o corpo quer dormir. dorme. dorme à velocidade da luz. espera outro meio-dia. o futuro gira o passado na ponta de um dedo – meio-dia. o mesmo sol. a mesma nuvem. o mesmo pássaro regressa. as mesmas pedras em silêncio. as mesmas janelas. a mesma calmaria. a mesma criança a enrolar os cabelos – meio-dia. sossego. toda a tempestade traz sossego. um bater marca o corpo. ouço agora como nunca. gira como a terra gira. em círculos. rápido. muito rápido . em descompasso . vermelho bate. bate. bate e as veias a galgar abril. mais um abril. outro abril e os  neutrões sempre a crescer. a crescer. a crescer. e o ar a desaparecer – meiodia e o futuro cada vez mais cansado – meio-dia em abril. meio-dia de uma vida. meio-dia de um dia cada vez menor



14/04/2011

1 – oceano pacífico









a terra gira sobre um eixo imaginário – gira. gira com afinco. volta atrás de volta. dia após noite. gira num eixo que não existe. é imaginário como todas as coisas que escrevo à volta do meu eixo. imaginário também. imaginário porque é feito de palavras que ainda não escrevi



09/04/2011

às vezes nem sempre nem nunca









vivo. respiro. sonho ser poeta - acredito que um poeta é aquele que diz tudo por palavras - todos os sentidos são pequenas palavras que se agigantam aos olhos do leitor - vejo. sinto. ouço. toco. e nas mãos o cheiro de palavras por escrever. e eu sempre sem ser poeta - um dia. talvez um pouco mais tarde do que a noite que me adormece vou decapitar as mãos – encerrá-las com a vontade de escrever – quando morrem as mãos morre o sonho do poeta



04/04/2011

tudo que me acontece pela manhã









a noite. a noite é tudo. tudo que me acontece pela manhã vem da noite. mesmo quando arranho as paredes. mesmo quando choro. mesmo quando me entretenho a dizer às estrelas que a noite sou eu também - noite pura. noite branca. noite de oração. noite. noite. noite - amo-te



02/04/2011

bonjour mon ami









acordei a saber que afinal existo – aquele que com ar frágil. debruçado na solidão. arrasado no silêncio. cego na lamparina. é apenas uma cópia de mim – o meu corpo [avatar] tem futuro – o futuro são as palavras que me chegam do passado – todo o futuro é passado – também eu sou passado para mim – de ti meu novo amigo. que vieste do futuro de tudo que ainda quero dizer. deixo-te um abraço – vamos com toda a certeza um dia ser ambos felizes. sei que somos dois. mas as dores são apenas de um



01/04/2011

fotolitografia









- nota introdutória

- existência – não imaginava que os objectos simples estivessem assim tão dentro dos olhos. tudo afinal é vida -


- a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu. estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo está quente ao olhar. tal como os objectos que me rodeiam. quentes – tenho-os junto ao umbigo. sinto-os meus. muito meus. estimo-os. protejo-os com tudo que tenho e que não tenho. trouxe-os para dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas. estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários. clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só. livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia serão tiras de papel [uma forma de coacção que encontrei para o que exerce poder sobre mim]. só a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo que nos rodeia – há muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de ninguém. não quero ser de coisa alguma. nem de um qualquer dia primeiro de sol a chamar-se primavera – quero ser livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado. para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos e até da forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho tanta coisa à volta. imagens de gente que um dia foram importantes. alguns até amigos – coisas. tanta coisa com tanto peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além da minha vontade. coisas que um dia foram todo o tempo e que agora são apenas tempo passado. ficaram os nomes – destes nomes que um dia foram enormes já não tenho mais medo. não me doem mais. não me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho tanta coisa à frente: paredes. olhos. portas. sol – há dias em que comunicam silenciosas. e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazer ouvir. gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado. deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio dominical. tenho agora uma única preocupação. trazer a lã que me protegerá em definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. todos os domingos são de deus mas se não amanhar a lã em cima da alma pode ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres. anedotas porcas e mentiras – é assim que o mundo anda nos primaveris domingos de sol fora da minha janela. mas as minhas coisas. essas. estão dentro da minha janela –