.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

25/06/2018

a imensidão de uma folha de papel. a escrita e o leitor





michael burris johnson





nota de autor:
.
“desapareci” por uns tempos do ciberespaço para escrever este “pequeno-tratado-pessoal”. são cerca de dez páginas. que tem por objetivo explicar o [meu] ato de comunicação. a escrita que produzo como emissor. como eu-artista ou [também] como eu-lírico. confesso que com mais raridade – do outro lado. em anonimato quase sempre absoluto. o recetor-leitor. o recetor-amigo mais ou menos próximo. mais ou menos silencioso. crítico. ponderado. com capacidade de reflexão e principalmente. com sensibilidade para me ler as pausas. a pontuação e as entrelinhas – um desafio para quem gosta de ler e um risco para quem gosta de escrever – sei que em cada palavra escrita serei menos meu e mais de quem me lê – toda [quase] a minha escrita é autobiográfica – como diz alberto manguel: “O autor morre quando põe o ponto final. O leitor nasce a seguir” – nem sempre é fácil escrever o que trazemos no miolo da alma. a dificuldade torna-se desespero e o apelo interior para fugir é ensurdecedor – escrever dá trabalho pra caraças – mas há coisas dentro de mim que nunca se tornará palavra. coisas que só o coração sente e que por mais esforço e entrega nunca chegará ao leitor – não sou suficiente mestre – em boa contramão. a bondade que encontramos diariamente no leitor-amigo e também no leitor-anónimo que. graciosamente. se entrega a decifrar uma mensagem que. na maior parte das vezes. não passa de desabafo – para estes leitores-companheiros o meu mais profundo agradecimento – e termino com um pensamento do saramago que de certo maneira resume em muito a minha motivação para escrever - “No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade”

.
introdução:
.
“Não vale a pena ter vaidades no processo, porque o que existe de facto é o leitor” – josé ilídio torres
.
foi com esta frase do meu amigo josé torres. poeta. professor. treinador no futebol de formação. político. pai. companheiro e fazedor de sonhos enquanto escritor que dei início a mais esta minha crônica-lírica-dissertativa – conheço o josé torres vai para caminho de quinze anos [não sei ao certo e não sou bom nas contas de tempo]. nunca imaginei que o tempo fugisse tão depressa. é tudo tão rápido. tudo tão estupidamente acelerado. desconcertante e ilusório. de repente já não sou novo. já não escrevo sem cadeira almofadada. sem óculos. sem uma pomadinha nas costas para combater os bicos de papagaio e principalmente. sem aquela resmunguice de quem envelhece contrariado – o problema nem está na idade. está na memória. nas recordações da juventude. na infinita alegria de ser jovem e irresponsável. nas correrias sem cansaço. na esperança inesgotável com que olhava as mãos. na mobilidade do cérebro. sem medo. selvagem. irrequieto. sempre à procura do impossível. do difícil. do perigoso. enquanto a adrenalina produzia sonhos e sorrisos em série. tudo em escala XXL – os dias eram intermináveis. acordava com os braços a tocar os polos. a envolver o mundo de peito aberto que me prometia em surdina vida eterna – a fragrância da juventude eram duas gotas de  patchouli misturadas com a certeza de que o mundo sempre nos haveria de arranjar um cantinho para viver. muita loucura. excentricidade. irreverência. cabelos compridos. bota bicuda de salto alto. blusão de ganga lois e o corpo a gingar ao som da guitarra de david gilmour que afogueava o tino para as primeiras pastilhas lipoperdur – viver era uma dor fantástica – mas não há volta a dar. nada volta ao passado – fico sem saber ao certo se o que dói hoje é um problema que parte do geral para o particular. do corpo para a alma ou pelo contrário. a dor nasce na alma e alastra-se ao corpo no seu todo – bem não adianta lamuriar. o único remédio que conheço para combater o tempo é escrever. escrever muito. se possível bem. mas se não for possível. entãoque se escreva mal. porque enquanto se escreve não há idade – no meu caso o assunto é ainda mais sério. nasci sem uma única palavra dentro de mim. disléxico e completamente desprovido de qualquer tipo de acordo ortográfico. tudo o que rabisco é feito com trabalho. à sacholada. ao suor e à teimosia – ultimamente só a escrita me faz verdadeiramente feliz – isto tudo para dizer que conheci o josé torres no luso poemas. um site para gente que gosta de escrever. e por mais que envelheça e que a memória se torne decrépita a entrada nesse grupo de poetas foi um momento marcante na minha vida: o luso e os seus membros trouxeram-me definitivamente para o mundo da escrita. fizeram-me bem. fizeram-me sonhar. fizeram renascer essa dor fantástica que é escrever – vou escrever pela primeira vez algo que nunca tive coragem: o luso amarrou-me à vida. deu-me uma nova oportunidade para me reinventar como homem. salvou-me de uma ociosidade inútil e profetizou a imortalidade. deu-me uma nova ordem no tempo. repensou prioridades e renovou-me a confiança nas mãos – todos os dias digo para mim: não quero morrer sem deixar uma última palavra escrita – sou um homem grato a essa boa gente do luso poemas – o zé torres era e é um fazedor de sonhos desse mundo da escrita. pertencia a um grupo restrito de escritores que estavam muito acima da média dos restantes companheiros – gozo-lhe a paciência e pachorra. não era fácil aturar a mediocridade de tanto ego balofo numa casa enfestada de poucos poetas e muitos não poetas – hoje. sem nenhuma dúvida. estaria muito melhor preparado para ler alguns dos seus textos corrosivos e mal amados – para se escrever é fundamental amar as palavras. sem vaidade. com humildade. com vontade de aprender e sacrifício – bem sei que não há escritores perfeitos. nunca haverá. mas há aqueles que brigam todos os dias com a imperfeição – aprendi muito desde esse primeiro dia em que ganhei coragem de escrever para o leitor – é pelo leitor que releio os meus textos vezes sem conta antes de os levar para o ciberespaço. é por ele que fico nervoso. fico feito de medo. fico com as mãos trémulas e em oração – bem sei que quem dá tudo o que tem a mais não é obrigado – que vos posso dizer mais não sei. talvez repetir o que não me canso de dizer: escrever dá trabalho pra caraças – o que sei mesmo é que uma folha de papel para se imortalizar só precisa de uma palavra escrita – mas eu escrevo apenas para falar com o leitor – e basta-me um para me fazer feliz




Sem comentários:

Enviar um comentário