michael burris johnson
nota de autor:
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“desapareci” por
uns tempos do ciberespaço para escrever este “pequeno-tratado-pessoal”. são cerca de dez páginas. que tem por objetivo explicar o [meu]
ato de comunicação. a escrita que
produzo como emissor. como eu-artista
ou [também] como eu-lírico. confesso
que com mais raridade – do outro lado. em anonimato quase sempre absoluto. o recetor-leitor. o recetor-amigo mais ou menos próximo. mais ou menos silencioso.
crítico. ponderado. com capacidade de reflexão e
principalmente. com sensibilidade
para me ler as pausas. a pontuação e
as entrelinhas – um desafio para quem gosta de ler e um risco para quem gosta
de escrever – sei que em cada palavra escrita serei menos meu e mais de quem me
lê – toda [quase] a minha escrita é autobiográfica – como diz alberto manguel: “O autor morre quando põe o ponto
final. O leitor nasce a seguir” – nem sempre é fácil escrever o que trazemos no
miolo da alma. a dificuldade
torna-se desespero e o apelo interior para fugir é ensurdecedor – escrever dá
trabalho pra caraças – mas há coisas dentro de mim que nunca se tornará palavra. coisas que só o coração sente e que
por mais esforço e entrega nunca chegará ao leitor – não sou suficiente mestre –
em boa contramão. a bondade que
encontramos diariamente no leitor-amigo e também no leitor-anónimo que. graciosamente. se entrega a decifrar uma mensagem que. na maior parte das vezes.
não passa de desabafo – para estes leitores-companheiros o meu mais profundo
agradecimento – e termino com um pensamento do saramago que de certo maneira resume
em muito a minha motivação para escrever - “No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos
a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma
forma de eternidade”
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introdução:
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“Não
vale a pena ter vaidades no processo, porque o que existe de facto é o leitor”
– josé ilídio torres
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foi com
esta frase do meu amigo josé torres.
poeta. professor. treinador no
futebol de formação. político. pai. companheiro e fazedor de sonhos enquanto escritor que dei início
a mais esta minha crônica-lírica-dissertativa – conheço o josé torres vai para
caminho de quinze anos [não sei ao certo e não sou bom nas contas de tempo]. nunca imaginei que o tempo fugisse
tão depressa. é tudo tão rápido. tudo tão estupidamente acelerado. desconcertante e ilusório. de repente já não sou novo. já não escrevo sem cadeira almofadada. sem óculos. sem uma pomadinha nas costas para combater os bicos de papagaio e
principalmente. sem aquela resmunguice
de quem envelhece contrariado – o problema nem está na idade. está na memória. nas recordações da juventude.
na infinita alegria de ser jovem e irresponsável. nas correrias sem cansaço.
na esperança inesgotável com que olhava as mãos. na mobilidade do cérebro.
sem medo. selvagem. irrequieto. sempre à procura do impossível. do difícil. do
perigoso. enquanto a adrenalina
produzia sonhos e sorrisos em série.
tudo em escala XXL – os dias eram intermináveis. acordava com os braços a tocar os polos. a envolver o mundo de peito aberto que me prometia em surdina vida
eterna – a fragrância da juventude
eram duas gotas de patchouli misturadas
com a certeza de que o mundo sempre nos haveria de arranjar um cantinho para
viver. muita loucura. excentricidade. irreverência. cabelos
compridos. bota bicuda de salto alto. blusão de ganga lois e o corpo a
gingar ao som da guitarra de david gilmour que afogueava o tino para as
primeiras pastilhas lipoperdur – viver era uma dor fantástica – mas não há
volta a dar. nada volta ao passado –
fico sem saber ao certo se o que dói hoje é um problema que parte do geral para
o particular. do corpo para a alma
ou pelo contrário. a dor nasce na
alma e alastra-se ao corpo no seu todo – bem… não adianta lamuriar.
o único remédio que conheço para combater o tempo é escrever. escrever muito. se possível bem. mas
se não for possível. então… que se escreva mal. porque
enquanto se escreve não há idade – no meu caso o assunto é ainda mais sério. nasci sem uma única palavra dentro de
mim. disléxico e completamente desprovido
de qualquer tipo de acordo ortográfico.
tudo o que rabisco é feito com trabalho.
à sacholada. ao suor e à teimosia – ultimamente
só a escrita me faz verdadeiramente feliz – isto tudo para dizer que conheci o
josé torres no luso poemas. um site para gente que gosta de escrever. e por mais que envelheça e que a
memória se torne decrépita a entrada nesse grupo de poetas foi um momento marcante
na minha vida: o luso e os seus
membros trouxeram-me definitivamente para o mundo da escrita. fizeram-me bem. fizeram-me sonhar.
fizeram renascer essa dor fantástica que é escrever – vou escrever pela
primeira vez algo que nunca tive coragem:
o luso amarrou-me à vida. deu-me uma
nova oportunidade para me reinventar como homem. salvou-me de uma ociosidade inútil e profetizou a imortalidade. deu-me uma nova ordem no tempo. repensou prioridades e renovou-me a
confiança nas mãos – todos os dias digo para mim: não quero morrer sem deixar uma última palavra escrita – sou um
homem grato a essa boa gente do luso poemas – o zé torres era e é um fazedor de
sonhos desse mundo da escrita.
pertencia a um grupo restrito de escritores que estavam muito acima da média
dos restantes companheiros – gozo-lhe a paciência e pachorra. não era fácil aturar a mediocridade
de tanto ego balofo numa casa enfestada de poucos poetas e muitos não poetas – hoje. sem nenhuma dúvida. estaria muito melhor preparado para
ler alguns dos seus textos corrosivos e mal amados – para se escrever é fundamental
amar as palavras. sem vaidade. com humildade. com vontade de aprender e sacrifício – bem sei que não há
escritores perfeitos. nunca haverá. mas há aqueles que brigam todos os
dias com a imperfeição – aprendi muito desde esse primeiro dia em que ganhei
coragem de escrever para o leitor – é pelo leitor que releio os meus textos vezes
sem conta antes de os levar para o ciberespaço. é por ele que fico nervoso.
fico feito de medo. fico com as mãos
trémulas e em oração – bem sei que quem dá tudo o que tem a mais não é obrigado
– que vos posso dizer mais… não sei. talvez repetir o que não me canso de
dizer: escrever dá trabalho pra
caraças – o que sei mesmo é que uma folha de papel para se imortalizar só
precisa de uma palavra escrita – mas eu escrevo apenas para falar com o leitor
– e basta-me um para me fazer feliz

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