…ao lado um almofariz. ainda tem dentro restos de umas ideias que serviram para alimentar a arte de um escritor que teima em escrever o que apenas o seu corpo sabe ler – sento-me nos restos do dia. deixo os olhos acontecer para dentro de mim – estou tão exposto. tão entregue a quem um dia dissecar o meu interior – já não tenho forças para encobrir – tenho a esperança moribunda a olhar para mim. e eu aqui sem nada nas mãos
05/07/2010
desabafo
…ao lado um almofariz. ainda tem dentro restos de umas ideias que serviram para alimentar a arte de um escritor que teima em escrever o que apenas o seu corpo sabe ler – sento-me nos restos do dia. deixo os olhos acontecer para dentro de mim – estou tão exposto. tão entregue a quem um dia dissecar o meu interior – já não tenho forças para encobrir – tenho a esperança moribunda a olhar para mim. e eu aqui sem nada nas mãos
uma conversa com a mar
não ficas só mar. esse mar onde vais lançar a âncora também é meu. tenho por detrás daquela rocha enorme que te tira o sol uma dor enterrada – dou-te metade dessa ilha minúscula no meio do nada para poderes enterrares as tuas dores – mas não podes enterrar as dores todas. tens que ficar com algumas debaixo do pé direito. temos que conversar – também eu digo ao mundo que há uma razão para escolher as palavras – mesmo quando as mato tenho uma razão – às vezes a razão é uma solidão que mora dentro das multidões – mora num corpo que vê dento o que não há fora – este corpo chulo tira-me tudo. vende-me. prostitui-me e todos os dias. cobra de mim uma alegria que deixo ficar nos pensamentos que afogo em cada soluço de agonia – estou só. estou e estarei só – tenho apenas uma putas de umas palavras que escrevo por aqui na procura de uma ilha maior para enterrar o corpo todo – um dia juntarei toda a poeira que há dentro de mim e faço essa ilha.
coisa
deixem-me ser
um pedaço de coisa
de qualquer coisa
de uma coisa de nada
talvez de um espaço
vazio e sem coisas
aqui vale o tacto
das coisas que dizemos
para vos fazer sentir
que afinal sou uma coisa
no meio das vossas coisas
assim serei nesta coisa
que deixo aqui para lerem
na esperança
de ser
uma pequena coisa
nas palavras
que acasalam
com o vosso olhar
nestas coisas que escrevo
sou esta coisa
de coisa nenhuma
mas hoje
onde o mar sabe levar e trazer
coisas
onde apenas as gaivotas
sabem ler
esta coisa de tentar
pôr as palavras a voar
mas há coisas e coisas
e eu tenho uma coisa
que não se escreve
é uma coisa meiga
daquelas coisas
que apenas damos
aos amigos
os beijos
é a maior coisa que tenho
no meio de tantas palavras
sorriem os beijos
e assim faço desta coisa
um simples beijo
que escrevi como
outra qualquer coisa
uma coisa importante
para a leitura
com um beijo-coisa
que não é qualquer coisa
sou assim mais uma
coisa
presa a coisas que sinto
ser coisa
é medonho
talvez arrogância
de querer ser uma coisa
que não sou
sou esta coisa que sou
nasci com uma dor que com o tempo
passou a uma coisa minha
uma coisa que me mata
de coisas que não compreendo
nem sei lutar
com coisas que afinal são minhas
com coisas que levarei
para um mundo de coisas eternas
sou uma coisa
sim
uma coisa
tão pequenina
tão inútil
para o tamanho da palavra
COISA
escrevo coisas
para aliviar este homem
feito de coisa nenhuma
[dedicado - para uma gaivota-coisa]
Johann Sebastian Bach - Suite nº 3, BWV 1068 (Karajan)
entre os dedos
rebenta um som
hoje é quinta-feira
mas esta música
o som
a melodia
a mansidão
a criatividade
o horror de saber que tem fim
as notas ordenadas
talvez militares
pela forma como marcham
a clave de sol
ilumina
a partitura brilha
o fá
o dó
o ré
as colcheias
as semi-colcheias que seriam metade de tudo que ouço
não são
são um todo
até o mi que é parecido comigo
triste. digo eu
alumiou uma porta
a dor esvanece
o tom é sereno
a remissão do sonho
a pauta treme
a batuta geme
comanda
a música
a vida
o sonho
a esperança
de uma quinta-feira
que apenas quer morrer em paz
ao som
de uma clave de dó
de Bach
era uma vez
notícia de última hora:
um comboio de mercadorias
transportava palavras oriundas do bojo de um poeta
- descarrilou – [fodeu-se]
não há sobreviventes entre as palavras
o artesão.
maquinista desde a invenção do comboio
dormia debaixo de uma árvore
tinha na mão um lápis e uma borracha
a seu lado garrafas de cachaça
bêbado
rasgou a folha a meio
a dúvida
a letra desvanece
os olhos escurecem
a manta encurta
as mãos enrijecem
a dúvida fortalece-se
amarra todas as palavras
todas
mesmo sendo poucas
são todas
um tesouro
“a dúvida” será título
deste excremento
perdoem-me
se o texto vos suscitar
dúvidas
ao excremento
as palavras
sei que são escassas
mas mesmo assim
componho
um vida de excremento
e
excremento sem vida
ferro velho
comecei a chorar. não por me apetecer. mas tinha acabado de comprar estas lágrimas na feira da ladra – o homem de fato treino que mas vendeu. calçava umas sapatilhas nike que já tinham pertencido a um humano que corria os cem metros em menos de dez segundos – caíam-lhe do corpo franzino umas mãos enormes. quase mortas. uma barba espessa. e uns olhos cavados num muro de granito preto – confiei nele. não estava de fato e gravata. nem tinha uma pasta de pele confeccionada por um qualquer estilista francês. tinha um banco de praia enferrujado e um cobertor diferente de todos os que eu conhecia: roto. sujo. e cheio de quadrados irregulares. talvez triângulos isósceles. com ângulos que apenas ele os conhecia – perguntei-lhe onde tinha colhido estas lágrimas tão transparentes. não me quis adiantar muito. o segredo é a alma do negócio. tinha um vício para alimentar que não lhe dava descanso. acordava-o todas as manhãs com as dores de uma jornada incerta. feita de uma corrida contra um tempo que dói – essa dor. de joelhos. silenciosa. segreda-lhe [todos os dias ao levantar] que agora falta menos um dia para o dia do juízo final – mas o sol afinal está onde sempre esteve. ali. onde um dia o pai o levou pela mão a ver o ferro velho que a vida produz. se calhar foi nesse dia de ternura que o corpo se tornou frágil para sempre. quem sabe. se uma daquelas criaturas que naquele domingo vendia a alma ao diabo. visse nele o amor que sempre procurou – apoderando-se do seu corpo. e fazendo dele a sua morada de vida – embrenhou-se para sempre nas suas veias que. com o tempo. se desfizeram na procura do alivio divino – olhávamo-nos. eu imaginava a sua vida e ele imaginava a vida que podia ter tido – queríamos falar mas a roupa dizia que pertencíamos a mundos diferentes. havia um tempo espesso no nosso meio que não nos deixava comunicar – ligou um gira-discos de uma época onde os brinquedos eram de chapa. tinha uma agulha de aço. e uma orelha enorme por cima do corpo de madeira trabalhada. foi aí que percebi o porquê daquele homem ter dentro de si todas as dores do mundo – este ouvido gigantesco. tinha uma caixa capaz de abrigar todos as injustiças que por ali passavam – começou a dar à manivela como se carregasse a caixa de uma vida que há muito já não era sua. lentamente. a música soou. soou para si. e para mim. para nós – começou então a gotejar umas pequenas lágrimas. iguais às minhas. ainda mais transparentes – ficamos por ali a conversar. falamos da vida que ainda faltava viver. falamos da sua manta de restos do mundo que tinha ali para vender – em cima de um tabuleiro de casquinha de prata. havia uns cristais italianos de murano. perguntei-lhe onde os tinha conseguido. disse-me que tinha sido uma herança. um amigo visconde que tinha acabado morto dentro de uma urna de pinho. deixou-lhe também uma colher e um limão. que ainda hoje guarda dentro da caixa de música – era escritor. teimava em escrever o que ninguém lhe lia. nas noites em que abraçavam o mesmo destino sempre lhe dizia com um sorriso que apenas a dor conhecia: um dia nasceremos novamente. num outro mundo. mais bonito. sem dor. sem ostracismo. sem indiferença e sem ferro velho.
chamava-se falhada
hoje morreu uma gaivota malhada. suicidou-se do mar e do vento que trazia dentro de si – chamava-se falhada. tinha nascido com uma falha na ambição. queria voar para lá do mundo que imaginava – todos os dias. ao fim da tarde. olhava o horizonte da sua falésia que um dia tinha sido do seu pai e atirava-se ao vento – com o bico cerrado. teimava em subir até onde nunca outra ave tinha voado. e a favor do vento gritava por si – sabia que apenas o que havia dentro do seu peito. era capaz de a fazer subir mais alto – sonhava. subia. subia. subia e sonhava. não se lembrava nunca de ter voado sem sonhar. subia sempre a gritar. como se tentasse despertar um parte de si que ainda não tinha acordado – acreditava que um dia éolo. deus do vento. comandante de todas as brisas boas e más. iria escutá-la. acreditava que nesse dia. finalmente. o seu deus compreenderia a razão dos seus voos sonhadores – iria poder explicar o porquê dos sonhos não poderem nunca ser abandonados a um qualquer vento norte – finalmente. poderia fazer um desenho no céu capaz de ser entendido pelo tempo que o espiava – não compreendia porque tinha de carregar estradas que afinal no meio do vento não existem. tantas vezes pediu para ser um homem. um homem com um caminho simples. podia ser até feito de terra batida. podia ter cruzes e pedaços de carvão em chama. estava cansada. não compreendia o porquê das noites serem sempre tão frias e enormes. não entendia o porquê. da lua. sua única amiga. estar sempre a mudar de forma e lugar – talvez fosse a forma de recomeçar uma nova vida. sem ninguém saber que afinal era a mesma lua de sempre – será que também ela queria voar e não conseguia? mas uma gaivota é uma gaivota. e esta. sabia que tinha nascido com o infinito nos olhos. sabia que é nos dias em que os pescadores se recolhem em terra. que ela era ainda mais livre no seu mundo – nesses dias. quando o céu escurece e o vento ganha voz. faz de todas as folhas caídas pássaros vagabundos. sopra a brisa das brisas – aquela que é capaz de pegar em todos os seus sonhos. e os transformar em pedaços de vida com carne. sangue e dor – sabia que era o seu fim. sem sonhos tinha que partir – cravaria as memórias nos olhos. cortaria as asas. arrancaria todas as penas que lhe tapavam as cicatrizes dos sonhos. e aí. mergulharia no oceano – será então apenas um ponto na imensidão. um barco à vela. navegando à vista para todos aqueles que acreditam em sonhos. hoje suicidou-se com o sonho que amava. amanhã voltará a voar. com outro sonho.
infinita sabedoria
abri uma janela que sempre esteve aberta – fechei uma porta que sempre esteve fechada – matei uma galinha preta que sempre foi vermelha – ouvi música forró que afinal sempre foi fado – falei com um canário que era cão – desenhei um céu azul que sempre foi cinzento – contei asteriscos dentro de uma saca de feijões – meti um peixe a andar de bicicleta – tornei todas as mulheres lésbicas às quartas-feiras. necessitava de descansar – inventei um touro sem cornos. e no seu lugar plantei repolhos franceses – cortei um carvalho que já estava cortado há muitos invernos. era a lenha que me aquecia em noites de solidão – esta dualidade é inversamente proporcional à minha sanidade – oculta um pseudo-escritor. trazendo à escrita um louco que existe dentro de um bolso que guardo em mim. tem um lápis feito de passas do algarve e o corpo revestido de penas. um dia terei asas. e voarei ao lado de todos os loucos que gostam de escrever a loucura de todas as palavras – são estas putas que de noite me fazem pensar que um dia serei eu também capaz de inventar uma metáfora assassina – nesse dia. mato todos os advérbios de tempo. mandarei uma corda ao eixo da terra. e com um ponto de apoio erguerei o meu ego para o topo de uma pilha de livros – depois. com asas de cera. mergulharei na infinita sabedoria
matem-no por favor
deixo-vos aqui um punhal
trago-vos o corpo mais tarde
já o matei muitas vezes
mas teima em respirar
para não haver engano
o poema estará sem olhos
nos ouvidos dois círios
na boca o silêncio
nas mãos um livro do Miguel Torga
esta dor de ler a dor
um dia tem que morrer
conversa com cristo
trouxe cristo para o centro do meu quarto. tirei-lhe a cruz e carreguei-o com as minhas dores. segredei-lhe as desilusões e lavei-lhe os pés com as noites que passei sem dormir – jurou-me amizade para sempre. disse-lhe que não valia a pena preocupar-se comigo. bastava conversar um pouco. fazer-me um pouco de companhia. afinal. em tempos fomos amigos – com o passar dos anos deixou de aparecer. só o via em livros e em igrejas que nunca deixam falar alto. dizem que perturba o silêncio – falámos. acabámos por perder a noção do tempo. culpa dos relógios. o meu está parado há muito tempo. acabou por falhar a missa matinal das seis – não sei o que vai acontecer. aquelas beatas não costumam perdoar. e mesmo sabendo que a falha é divina acabarão a cortar na casaca – espero que não saibam que está em minha casa. já rasgaram há muito tempo o meu casacão. um de pele. que me cobre a carne mutilada – acabamos a tomar o pequeno-almoço juntos. ajudou-me a arrumar a cruz para um canto atrás da porta do quarto de arrumos. onde meto todos os desesperos que não consigo assimilar – coisas que doem apenas porque doem. assim como o amor que arde sem se ver. merdas complicadas que prefiro guardar num quarto sem janelas – falámos de tudo um pouco. ele falou do meu mundo. eu falei do dele – perguntei-lhe se um dia me podia dar o céu aqui na terra. não me respondeu – perguntei-lhe se todos os que não gostam de mim um dia viriam a gostar. pediu-me mais uma chávena de café – perguntei-lhe se um dia serei capaz de explicar aos meus sonhos o motivo porque nunca os farei reais. pediu-me um pouco mais de açúcar. percebi que a conversa estava azeda – mesmo assim. perguntei-lhe se me poderia arranjar um lugar numa cabeceira da mesa dos meus antepassados. respondeu-me que estava a fazer-se tarde. tinha medo de não chegar a tempo para um milagre que tinha sido encomendado por um gajo que ajuda à missa no bairro novo do Senhor dos Aflitos – meti a mão ao bolso e tirei trinta moedas. dei-lhas – tinha-as no bolso desde o dia em que judas foi crucificado à direita do pai. pediu-me para as entregar caso um dia eu me encontrasse com Cristo – assim fiz. entreguei-lhas em mão. tocámo-nos. apertámo-nos. por fim. olhou-me . calmamente meteu-as no bolso e saiu em direcção à porta. disse-me que tinha ouvido no rádio que se aproximava um dia de chuva. olhei para o fundo da minha chávena. restava ainda uma pergunta – olhei-o nos olhos. e questionei-o porque me chamava de filho se nunca me tinha dado um abraço – olhou para mim. respondeu que talvez fosse melhor sair pela porta de trás. não queria que ninguém o visse por ali – preparei-lhe uma merenda. e aconselhei-o a ter cuidado com os carros. andam por aí uns malucos que não respeitam coisa nenhuma. perderam a fé na vida -
equidade – quanto vale a equidade

tenho medo
tenho medo
tenho medo
não há razões para admirar este medo
vigia-me
mas:
tenho medo
tenho medo
tenho medo
ontem gostei do que senti
hoje gosto do que senti ontem
mas:
tenho medo
tenho medo
tenho medo
e amanhã gostarei ainda mais
do:
antes de ontem
ontem
do hoje que amanhã será:
ontem
sinto:
liberdade
igualdade
amizade
deixarei de ter medo
deixarei de ter medo
deixarei de ter medo
da prepotência da intelectualidade
vencerei com as:
minorias que vivem dentro de mim
terão voz
força
luta
resistência
a ditadura já matou uma metáfora
mas os sonhos:
resistem
resistem
resistem
as mãos serão gaivotas
com pensamentos:
livres
equitativos
universais
(no meu mundo)
disse que voltava
não vou. às vezes pode parecer que vou. mas não. apenas tenho necessidade de ficar um pouco menos tempo com este homem que escreve o mar e as gaivotas – muitas vezes. tenho que ficar em silêncio. encontrar tudo que perdi enquanto escrevo – sempre que escrevo entrego-me. e sempre que me entrego perco algo que era só meu – eram palavras puras porque nunca tinham ido à rua ver os adultos. puras. porque nunca tinham tido medo de sentir a diferença. puras. porque nunca antes tinham saído para uma qualquer paragem com vento. falésia sem mar e sem gaivotas de asas enormes – depois. fico a compreender se fiz bem em soltar aquelas palavras ao olhar cruel. daqueles que apenas procuram um miradouro para encontrar um prazer efémero – é por estas alturas que falo dias e dias para mim. ouço-me. e tento encontrar a razão para voltar a escrever para quem gosta das minhas gaivotas. para quem gosta de sentir ventos que nunca foram contra-alísios. para quem gosta de sentir a força das palavras mesmo quando elas nascem como furacões – o remoinho de ventos circulares distorce a realidade de quem está sentado na ponta da falésia. sei que não é fácil escutar os ventos – abro os braços. sei que não voo. mas sinto o vento a cortar-me o peito. sinto a força das palavras a emergir. e ao contrário das gaivotas que mantêm os olhos abertos para poderem ascender a um céu que sempre lhes pertenceu. eu fecho-os. para poder descer até aos sonhos que em dia de tempestade me dizem que um dia serei eu também uma gaivota com nome – nesse dia. irei voar sem parar. percorrerei todos os continentes. todos os mares. todos os ventos. e quando não tiver mais força voarei em direcção ao sol até que o calor me transforme numa estrela brilhante.
deixo a morte pensar que morri
escrevo com um punhal ao lado. sinto que a noite está a ameaçar com um turbilhão de cometas – logo hoje que queria ver o céu - há dias em que reconheço no meio da minha galáxia a estrela que um dia me abraçou com saber – logo hoje que queria ficar cego com a escuridão que impera ao lado da minha estrela. dei-lhe um nome. pai – é uma estrela enorme. tão grande que não cabe dentro dos meus olhos – logo hoje que queria ver o céu. logo hoje que as gaivotas estão recolhidas a amar nos seus ninhos. logo hoje que uma onda me molhou os pés com água que ainda não tinha sido nuvem – chegou a hora de ver a foto a cores. a sorrir. a tocar. cravo o punhal nas memórias e solto as primeiras dores de alegria – ainda viajo em primeira classe. cambaleio. atiro-me para dentro de um passepartout que guardo num canto das minhas mãos – incham. crescem. as unhas rasgam a pele. os olhos caem. rolam pelas sedas que cobrem o desejo. os cabelos perdem força e fazem uma trança de esperança que nunca foi penteada – a carne despede-se dos ossos e as formas deixam de ser forma. finalmente a libertação – aparecem os necrófagos. gostam de levar o resto do meu mundo – hoje. até os sonhos estão em risco. fica o cinto de pele com a fivela a ouro martelado. e os sapatos de couro que um dia comprei para ir a um funeral que nunca acaba – hoje. vou-me sentar na minha cadeira de baloiço. deixo a morte pensar que morri.
para lá do meu tempo
dentro do tempo -me- escondo
(ao longe as gaivotas anunciam um cardume)
aqui tudo sou
sinto os verbos
no gerúndio
fazem-me escrever
escrevendo
na brisa que um dia colhi
ouço os búzios ainda no mar
são harpas
lendo
uma vida que ainda não colho
meu tempo
não está ao tempo das marés
o silêncio
é o voo das penas
a leitura
é o voo das palavras
04/07/2010
hoje desenhei uma história dentro de mim
um dia vou escrever uma história num livro. com capa feita de pele de um mamute siberiano. fechará com um dente de marfim de um seu parente africano – as páginas de trapos e fibras vegetais terão castelos. armaduras. lanças. túneis. portas falsas. esconderijos. armadilhas. terá tudo o que é importante para fazer um livro de imagens. até fantasmas antigos para mostrar que em tempos o castelo teve vida – dentro. haverá também um hall com umas escadas imponentes que sobem para lá da imaginação. rodeadas de fotos de gente que um dia foi importante – terminarão numa torre de tortura a norte – na porta. gravado a fogo. anuncia que em tempos ali viveu uma gaivota sem sorte - no começo das escadas. um pedestal em madeira de sucupira sustenta um pote da china da dinastia de ming – no seu interior. um mapa rasgado num pedaço de linho retirado do sarcófago da rainha do egipto. cleópatra – as palavras. desenho-as a carvão. roubei do museu de história natural de nova york. uma tocha de um australopiteco que ainda tinha na ponta a descoberta do fogo – enrolo este pano. que afinal era um pergaminho num osso de dinossauro. e que no tempo dele substituía as gaivotas. pterossauro. significa lagarto com asas – como todos os documentos importantes têm que ser lacrados. vou buscar uma madeixa de cabelo que um dia pensei usar apenas para distinguir a cor do passado. e queimo-o – perco para sempre a esperança de um dia voltar a pegar na pureza – agora. restará apenas o meu tesouro imaginário. os corsários negros que inventei para esta história não querem saber das palavras – disse-lhes que dentro tinha uma fonte de vida eterna. e que quem bebesse dela ficaria para sempre a viver no mar – responderam-me que estavam fartos de pilhar sonhadores. pediram-me em troca uma viagem ao pólo norte. nunca viram a neve. e têm o corpo queimado do sal do mar – desisti. guardei o livro e as marcas com um “X”. deveriam ser tesouros. são apenas rochas viradas para o mar. onde as gaivotas acasalam para sempre com ventos de feição.
segunda de merda
falso é este momento
desafio o talento
sobrevivovendo banha da cobra
com fato engomado
entre vénias de actor
recebo aplausos
chorando
o lugar da besta
este livro que trazia toda a esperança nas primeiras páginas. é afinal um bluff. sabia-o desde o início. há coisas na vida que encontramos ao nascer. talvez uma marca do diabo – já procurei por todo o meu corpo o número da besta. encontrei apenas uma verruga. que uma vez um médico disse. que nenhum mal ao mundo viria dali – não acreditei. cogitei que era ali a porta de toda a maldade. aquela verruga tinha mau aspecto. parecia a porta da bruxa má. aquela que um dia ofereceu a maçã à branca de neve – porque é que eu tenho que saber das coisas se ainda não nasceram aos meus olhos? vejo primaveras que nunca floriram. e campos de descanso ainda sem os mármores cinzas. que emprestam dignidade a vidas que nunca existiram – armei o dedo indicador. agucei-o numa aguça que guardei desde a escola primária. a primeira que me aguçou a vida. atarraxei-o na verruga maldita – procurei lúcifer, tinha esperança de o encontrar sentado numa cadeira. que eu sempre sonhei que havia dentro de mim. de couro vermelho. com dois bilros apontados para uma entrada de luz. que sempre faço questão de manter como saída de emergência de uma qualquer ideia que agonize – mas não. tinha apenas um bilhete a dizer que tinha saído e voltava mais tarde. não dizia quando. apenas que voltava mais tarde – vou estar atento. sei que um dia vou dar com as janelas abertas. e as passadeiras a arejar. agora vem poucas vezes. penso que faz de mim uma segunda casa – de vez em quando. apenas quer saber se eu ainda agonizo. se me contorço com as dores que me entregou ao nascer – nunca me dei bem com este homem que um dia foi aliado de deus – já não lhe quero mal. afinal. pouco me fala. penso que sabe tudo de mim. tudo. até daqueles que andam à minha volta – tirei o dedo da verruga. está igual. feia. disforme. perdeu a forma altiva com o tempo. está moribunda. salvam-se lágrimas de sangue que encerram como lacre a porta para outra existência – vou ver o mar. hoje. há por lá uma estrela de um mar longínquo. veio dentro de uma garrafa de vodka. traz uma esperança nova.
subterfúgio para o erro
conheço um homem que apenas tem uma asa
um olho
e uma mão que sabe escrever sem erros
voa em círculo
procura a outra mão
a única que sabe desenhar asas
está farto de caminhar
só com uma asa
na plenitude dos círculos
a selva dos olhares
uns olham para a asa que voa
outros procuram
a asa
que nunca existiu
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















