24/09/2010
f.a.m.a
neste passeio da fama
descobri a arte da lama
se rima é apenas
porque tenho penas
não de gaivota
mas de idiota
por juntar palavras
que apenas foram cagadas
por gente em solidão
assim como:
putrefacção
22/09/2010
dezembro é já aí
Van Gogh - Homem sem esperança
amarrei na armadura que guardo por detrás dos dentes. tirei os olhos fora. despenteei o cabelo e berrei. berrei tão alto que todo o meu interior abalou – já não sou o mesmo homem desde o dia em que vi partir a ambição de ser um pedaço de ferro temperado. esta chuva fria que sempre faz no mês de setembro amolece-me – merda de berro. silencioso para todos os ouvidos que carrego comigo – berrei para dentro. os olhos saíram para um mundo que eu não gosto. cavalgaram por entre umas flores tingidas de verde – em tempos. pelas manhãs. eram uma tela branca em busca de um farol que me alumiasse o dia. o negro nascia pelo acordar da noite. salpicando o luar dos sonhos adiados – mandei as mãos trémulas buscá-los. sei que apesar de tudo. são capazes de os convencer a mergulhar novamente nestas órbitas feitas de osso de dinossauro – encontrei-os numa poça de suor de um cavalo-marinho que andava a lavrar um campo de papoilas. tinha um assobio na boca para chamar a atenção de todas as aves que por ali passavam – havia um castanheiro plantado ao alto por um moleiro que tinha um periquito para levar o pão que as mós de uma vida de burro tinham moído – era a imagem perfeita do quadro de van gogh. não há esperança – este homem também é feito de falta de esperança. apenas o coração ainda bate em dias mudos. bate devagar. afinal a vida corre depressa demais – no topo da árvore. do lado direito. vivem duas gaivotas – do lado esquerdo um melro de bico amarelo – ao centro um abutre chegado do corno de áfrica. estava de férias. trazia ainda como merenda um pedaço de uma gazela que já se tinha cansado de correr – o melro. servia apenas para assustar um espantalho que vivia encostado a uma espiga vermelha. desde o dia que tentaram semear esperança entre giestas – o abutre. é o único que sabe sempre onde a carne vai cair sem vida. mantém a ordem na desordem – paciente. vê nas nuvens o destino dos que caminham sem raciocínio. vive da morte. de qualquer morte. até da morte da esperança – a gaivota de asas redondas. gastas pela erosão do vento norte. já não voa. observa enquanto lê um livro do jorge reis-sá. um que fala da morte em dezembro – a outra gaivota. sem asas. louca por querer alcançar de uma só vez o que estava para lá da linha que um dia tinha imaginado. atirou-se abaixo do castanheiro que já não dava fruto há mais de um século – pobre gaivota. caiu em cima da única formiga que todos os dias gritava a dizer que o destino dela tinha que ser cumprido – por muito curto que o voo fosse. a morte tinha que ser engolida pelo único ar que ainda lhe restava nos pulmões – a queda é apenas uma consequência de um dia ter imaginado que nasceu com asas – o castanheiro cresceu demais – talvez o corte pela metade. dezembro é já aí.
17/09/2010
ó meu deus
ainda há quem acredite que eu tenho um nome – ó meu deus. para que raio querem eles saber o meu nome se moro dentro de uma caixa onde apenas guardo o nada – o nada é a minha vida – é neste nada que encontro quase sempre uma palavra para salvar – palavras antigas. tristes. sufocadas por um tempo sem ponteiros – salvam-se nas leituras. onde apenas o vosso olhar sabe atormentar a procura da redenção – é o leitor. também este sem nome – o nada. é uma coisa que eu encontrei para esboçar todas as coisas belas que um dia descobri que me caíram das mãos – ó meu deus. agora que pensava que jamais o nada teria corpo. mãos. pernas a correr à frente dos olhos. descubro que o nada afinal não pode ser nada – ó meu deus. logo agora que estava quase a quebrar o aloquete daquela caixa de ferro que um dia guardou uma criança morta de doçura – ó meu deus. e agora que faço à chave? talvez a meta dentro de um envelope aberto. fechada. continuará a caixa de ferro gravada com as iniciais s.r. – em baixo. as palavras trabalhadas a cinzel de prata: morrerá sem saber o dia em que nasceu – pensava que estava mesmo para nascer – abrupto. caía de entre pernas – estatelado num chão feito de memórias dos dias que vivi sem nada. procurava a antítese – numa lousa negra pregada a uma parede que dividia o nada do todo. podia ler eugénio de andrade:
Escrevo
Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.
ó meu deus. e agora. quando as mãos forem entaladas pelo olhar dos que me julgam – serás tu mais uma vez o culpado. só podes ser tu. és o único que me podes perdoar da injustiças de ter a camisa ainda negra – ó meu deus. quero tanto escrever. esqueci até de rezar.
Anjo da guarda
Minha companhia
Guardai a minha alma
De noite e de dia
16/09/2010
sem rosto
tentei falar com uma gaivota. andava a voar. parecia-me feliz. mesmo assim disse-lhe que gostava de lhe explicar que também eu descanso no seu mar – respondeu-me não me respondendo. continuou a voar. suponho que é a sua linguagem para me dizer que também é mar – continuou a voar em círculos – eu também falo em círculos. podia falar em linha recta. mas quem me ouviria? apenas as gaivotas. aquelas que vivem do outro lado do oceano – essas como estas voam nos meus olhos. gostam do mar como eu. voam para comunicarem. escrevem com as asas novos caminhos – também eu só sei comunicar assim. voando. sozinho. sem nome. sem rosto e sem ontem. só assim encontro tempo para dizer as coisas que nunca foram ditas – olho para as mãos. e choro. por ver tanta palavra nua resistir a um tempo que já é tempo demais para mim – quero escrever. dizer-vos o que sou. sem que nos vossos olhos posso ver a minha face. não quero ombros. não quero descansar em nenhuma palavra construída para me abrigar. quero voar. escrever. escrever. escrever. quero voar com as minhas gaivotas e dizer-vos que sampaio. sou eu. este que escreve a loucura de nunca saber dizer nada com voz – sampaio. sou eu. assim. sem formas. sem roupa. sem caneta na mão – ainda tenho tanto para vos contar. necessito de voar livre – preso estou eu desde o dia que alguém me perguntou o nome. não sei o que respondi. talvez… que era eu.
13/09/2010
eco
deito os olhos ao chão. sempre o faço quando tenho vergonha das imagens que o meu passado me devolve – o eco – este eco não termina nunca. há sempre um ontem a nascer hoje – enlouqueço. amarro o corpo a uma tábua de espinhos. preciso de me distrair com a dor. cerro os olhos. os braços já não chegam aos ouvidos. e da boca resta apenas a gengiva magoada de tanto mastigar as palavras que regurgitam de um tempo que não viveram – pouco resta de mim nestes dias de ecos. fui perdendo bocados aos poucos. restam-me dois cotos presos a ombros moribundos. teimam em cair para a frente – ainda me lembro daqueles braços. chegavam ao chão. eram grandes. cheguei a plantar jardins. regava-os com o suor que me caía da esperança – um dia uma papoila apanhou-me um desabafo. puxou-me. abraçou-me forte. choramos juntos. ficamos amigos – nunca lhe falei. encostava-me ao caule a contar os dias que ainda me faltavam para morrer – ficou amarela – morreu uma semana depois – ensinou-me a morte – enterrei-a virada para sul. onde o sol vive sem humilhações e as gaivotas brilham em ventos contra-alísios – ainda hoje visito a sua casa eterna. descanso. é aqui que ainda dou conta de mim. falo-me – agora conto-lhe os dias que vivi desde o dia em que a vi partir. talvez um dia saiba que ainda há esperança para mim – talvez um dia eu lhe possa contar uma história de: ERA UMA VEZ – era uma vez uma vida. que ainda hoje vive à procura da vida.
07/09/2010
algumas ainda não foram inventadas
sentei-me a ouvir o mar num bocado de terra virgem de crueldade. não que fosse um dia. onde os meus ouvidos fossem capazes de dar grandes ouvidos ao silêncio que o mar docemente soletra com o movimento das marés – nunca percebi este vai e vem da água. nunca sei o que vem para ficar. nunca sei o que a água traz ou o que vem buscar. sei apenas que este movimento é igual ao que sinto com as ideias. estas. também vêm e vão. umas vezes frias. outras a ferver. algumas carregam lágrimas. outras esperança. outras ainda conseguem trazer palavras inchadas por se saberem adoptadas – mas o que é do mar sempre será reclamado pelo mar. fico sempre sem saber o que fica para o amanhã – no dia seguinte. quando já não há marés a baloiçar no meu olhar. tenho um punhado de ideias idiotas – da última vez que a água me tocou nos pés. deixou-me ficar uma medusa venenosa – eram palavras que não entendia e nos seus tentáculos uma estrela apagada – tinha caído do céu numa noite de luar – cravado no seu coração. o eixo imaginário que segura a terra a uma rotação que não regula coisa nenhuma – pobre estrela – deitei-me. deixei a maré subir. cobriu-me de palavras. quase todas loucas. algumas ainda não foram inventadas – só eu as compreendo – como eu quero que tu me compreendas.
02/09/2010
putas de palavras
hoje. no resto do sol que ainda falta consumir vou descalçar um sapato. apenas um sapato – caminharei por um desejo que tenho em mente – mancarei – para nunca mais esquecer esta vontade de ter o que nunca vou ter – mas a puta da vida saberá que até a mancar saberei caminhar – sou doido varrido – este que escreve é doido. mas escreve – escreve uma merda qualquer. loucura. dizem as palavras que moribundas caem no papel – algumas tombam mortas de tanto gemerem dentro de mim – não me peçam piedade. não me peçam uma nova oportunidade – vocês. as nobres. as que dizem sempre tudo. já subiram para todos os papéis que fui capaz de escrever – até aquele muro. o da minha vergonha. tem palavras que nunca me quiseram receber – putas. não vos perdoarei – se para mais nada servem. morrereis. não às minhas mãos. sereis espetadas pelo crayon deste lápis que acabei de afiar – no fim. restará apenas a aguça que fez da minha ferramenta a lança que vos trespassou – eu. louco sem saber porque. meterei a mão. afiando-a cada vez mais – ficará tão fina que quebrará com as primeiras geadas de inverno.
29/08/2010
eu
porque achas que eu não sou eu. apenas porque choro? não. não são lágrimas. são desesperos feitos de pedaços de amor que se derretem sempre que olho para mim no túnel do tempo – a água vem dos teus olhos. quando em silêncio me dizes que afinal serei sempre eu – apenas nunca terei asas
era domingo
trago-me às costas desde um tempo em que não me compreendia. sabia apenas que para além da cama que me albergava as dores havia um jardim onde ainda eu ria – era domingo - o sol neste dia. crescia com vozes que nunca ouvia. e dentro das manhãs os passos cresciam por corredores de sonhos – havia gente a passar por um chão ainda estremunhado. as passadeiras enrodilhavam-se apenas pelo som dos novos andares – era domingo – neste dia. o pijama era a última peça a despir. a manhã não podia ter fim – faltava ainda o cheiro de um fogão. assava a diferença. e nas mãos que corriam sempre sobrava uma para me acenar – era domingo – no meu quarto os lençóis brancos imitavam a cor dos meus pensamentos – havia tudo no meu quarto. a macieira no lugar da mesinha de cabeceira. do outro lado. um ramo de laranjeira crescia de dentro da gaveta das meias – no tecto. caiam grinaldas verdes. pingavam gotas de orvalho. a noite tinha acabado. o calor ardia – no lugar da cama o mar. baloiçava-me como se fosse um baloiço. aos pés. o peluche era agora a gaivota. cinzenta. no peito uma mancha branca. as asas cobriam todos os meus sonhos – as lágrimas tombam mortas – hoje estão encerradas num túmulo do soldado desconhecido. mas a minha gaivota. continua a voar. todos os dias vos dá um pedaço de mim. deste. que fala por cada palavra que decepa a razão. deste. que de mãos vazias vos entrega a alma – tratem-na bem – agora tenho que chorar.
26/08/2010
estado terminal
tenho um mundo interminável de pensamentos. mas o meu cosmos está desorganizado. estou zangado comigo – ontem não consegui falar com uma ferida que tenho dentro de mim. sangrou – o sangue desceu-me pelas mãos. queria encontrar um caminho natural para poder abandonar um corpo que sofre de lepra – as palavras. malditas pelo tamanho que tomam dentro deste mundo que habito – trazem dentro de si sentimentos que me fazem chorar. um dia. deixarei o meu corpo depois de morto a um louco que saiba esquartejá-lo – quero que arranque todas as palavras que tenho escondidas neste olhar que nunca sabe calar – dentro daquela caixa de costura haverá uma agulha capaz de coser a minha vida de retalhos – os meus amigos. esses. que apenas quando olho o mar distingo. domarão as palavras que andaram à solta. e ao mar soltarão todas as gaivotas do universo – os outros. raivosos e comidos pelo caruncho que ataca a muleta da língua. morrerão cansados de me ouvir – nesse dia. convidarei todos para o velório da puta da vida. que todos os dias me deixa cansado de ter que me coser com linhas que sendo minhas. não são minhas.
20/08/2010
sevícias culturais
estava para escrever. hoje. mas o dia tinha tanta luz que resolvi fingir que não escrevo – prefiro falar. com esta língua que me sai do fundo da goela e que me morde os lábios para calar – malditos fígados – maldita herança. maldita raça que morre em cada palavra - hoje. não escrevo. tenho um ramo atravessado nos olhos. um ramo bailarino. descabido. um ramo que nasce onde o nada costuma nascer com nome. a barriga das putas prenhes em noites de sevícias culturais – ainda hoje procura o pai – é por isso que alguns ramos escrevem. procuram um pénis. desconfiam da mãe e de todas as artes que colidem com a pequenez da mente – o corpo. esse é água. evapora-se no meio da orvalhada. é lá que transpira. é lá que se torna cidadão do mundo. muda. transmuda-se da única cadeira capaz de suportar o seu querer. a imaginação vagueia pelas putas que nunca conseguiu emprenhar – é viagem dentro de uma mesma viagem – tem um cão que se chama nobel e uma faneca que saltou de uma dorna de vinho – passeia com ela com uma trela feita de poemas – agora quer um gato. diz que já está farto de se masturbar – talvez esta minha mente esteja doente e quem sabe queira apenas ensinar o gato a ler. talvez necessite de palmas – o corpo nunca foi grande. o tempo passa e a corcunda incha – talvez o gato acabe por o fazer feliz – talvez. e um dia os dois comam ratas e apanhe os cacos que a sua mão da masturbação me fez ejacular neste papel que era para ser branco
16/08/2010
hora
há horas onde a morte é a única mão amiga – momentos em que os olhos morrem de dor e a porta sem luz é o farol – nestas horas. a morte faz-me viver cada segundo. corro no passado. procuro a razão que me faz adiar o segundo. procuro a eternidade – o relógio. acerto-o às lembranças - bate as horas. as meias e os quartos. assim. nunca adormeço pendurado na morte – suspenso ao dedo mindinho uma corda que teci com a vontade de renascer. tem na ponta um bola de ferro que atirei para dentro dos olhos. amarra-me a esta realidade falsa. adia. apenas adia a viagem – quero ir para casa – sempre soube que é do outro lado a minha casa – é do outro lado que existo – aqui. nesta imagem invertida sou apenas reflexo – sangro. mas não deixarei de tecer a corda que um dia me levará – sangro. mas não deixarei de escrever a dor – sou o maior serial killer de todos os tempos. mato-me todos os dias – um dia serei feliz – necessito de uma bala de prata.
10/08/2010
é agora
não fui capaz de lhe dizer que era hora de também ela partir. habituei-me a esta ferida que é dor – estou a pensar um destes dias juntar a uma mesa de café todos as feridas da minha terra – quero sentir com os olhos que as feridas são todas iguais. todas capazes de me fazer gritar por igualdade – este muro que se ergue entre as mãos e o papel mata-me. esquarteja-me a esperança – não sei como resisto a morrer tantas vezes. estou a ficar cansado de me asfixiar e até os dedos me parecem gastos de procurar a vida – este som que bate aqui dentro enche-me os olhos de ruídos. crava-me estes buracos que vêem no peito. e as lágrimas de sal. são amigas agora de uma agonia que não sabe chorar – rebenta-me. impludo – um deste dias arranco o coração. talvez a culpa seja deste monstro enorme que não me deixa sossegar. sempre a mexer – bate. bate. bate. este barulho que ouço sempre que olho para a mão que escreve. bate. como se todo o corpo fosse dele – tenho que morrer depressa. não posso deixar que este bater me diga que um dia vai parar – serão as mãos as primeiras a matar a dor – talvez assim ele possa calar em sossego – será a mão que escreve a dizer – é agora
09/08/2010
vou ter que chorar. morri
o telefone tocou. ligaram-me a dizer que faleci. eu que estava mesmo agora a falar comigo – como é possível. ainda tenho tanta coisa para dizer e fazer – como irá viver a outra parte de mim – talvez não chore. talvez descubra finalmente que eu era apenas um estorvo e que todo o azar do mundo era meu – ainda me lembro do dia em que deixei cair aquele verbo do azar em cima do pé da outra parte de mim – mancou durante toda a noite. e até os sonhos dourados que lhe tinha prometido ficaram negros – vou ter que chorar. afinal morri. e quando se morre é normal chorar – vou ter que dar esta prenda final a mim. vou chorar. talvez assim me sinta mais perto da outra parte de mim – já nada me interessa. afinal morri e sempre que alguém morre tocam os sinos – mas quem vai saber que morri? se a outra parte nada de mim quer. que se foda. mesmo que ninguém os toque vou imaginá-los. não vou deixar a outra parte pensar que a morte não é uma coisa séria para mim – tenho que chorar e não consigo encontrar uma única gota dentro deste corpo. talvez seja uma imunidade da outra parte que acabou por contaminar o meu olho. o único que afinal sabia chorar – mas também já não me importo. sei apenas que sou eu que escrevo. e já que morri também não terá nem mais uma palavra capaz de o fazer adormecer sem dores – hoje. dormirei sem estas agulhas malditas que me corroem os ossos, mutilam os membros. descalça a alma em cada segundo de sono – hoje. dormirá sobre os trapos. aqueles que lhe tapam os ouvidos sempre que eu grito – morri para o outro. mas o mar continua a bailar e até as minhas gaivotas continuam a cortar o vento. procuram um barco com casco amarelo.
06/08/2010
acreditar
tenho uma casa que muitas vezes não é casa. um corpo que não é corpo. diz-me que os lugares são efémeros. mas as dores são tão longas. passam para lá de tudo que tenho. restam-me as flores que ainda crescem. germinam sonhos em silêncio - hoje vais sorrir. tenho um truque para te fazer sorrir. vive dentro de todos os desejos que ainda não alcancei - um dia. acredito que também eu poderei cair no meu mar. envolto em correntes e aloquetes de ferro. sem ar. sem espaço para sonhos que não sejam erigidos em pedra granítica - lá. onde o sol não entra. e a areia é pura. apenas há estrelas do mar com olhos negros a sorrir - é um mundo lindo – um mundo. cheio de peças de teatro. de declamações. encenações. cheio de gente a escrever coisas felizes – na tribuna dos olhares sinceros encontrarás um dia um polvo. noutro dia um peixe espada. ainda suado de uma luta à moda antiga. onde defendeu a honra de todos os poetas. e até um tubarão martelo. é ele que dá as pancadas de moulière. para logo de seguida surgir uma raia cheia de eletricidade capaz de acender todos os holofotes que um dia alumiarão a tua criatividade - o mar revolto no topo do mundo. contrasta com este mar – neste lugar. a água é de um tempo feliz. não há correntes a trazer o dia para lá e para cá. aqui. há uma tábua de escrita. cheia de livros que um dia terão títulos – os teus títulos – as correntes cairão corroídas pelo sal. e todos os sonhos virão à superfície – o corpo ficará no fundo do mar. em paz.
04/08/2010
linha
solidão do homem da nuvem
quantas vezes estou só. como um cão. e a companhia é só um amontoado de gente sem rosto – tiro-lhes os olhos. a boca. o nariz. as feições que me façam lembrar a carne que ainda tenho por apodrecer – dou-lhes uma caiadela. quero-os brancos. da cor dos fantasmas – arranco-lhes as pernas e os braços. tiro-lhe os gestos e a subtileza do movimento dos corpos. assim não me enganam – finalmente posso continuar só. como um cão que habitava na esquina da minha rua – vivia de olhos fechados. e à minha passagem enroscava-se ainda mais em si. talvez tivesse medo que os meus olhos um dia descobrissem que afinal não era um cão vadio – era apenas um cão só – adoptei-o. e sem ele saber guardei-o debaixo da língua que nunca soube falar – é ele que rosna quando o mundo me interrompe a solidão – hoje rosnou para uma nuvem. levava um homem de braços caídos – talvez um dia eu tenha uma nuvem só minha. onde possa morrer com a minha solidão – entretanto e enquanto não me dispo do resto da carne que ainda aqui sobrevive. olho para a nuvem do homem de braços caídos. imagino o mundo sem mim. sem o meu cão. sem a minha rua. a casa que guarda os retratos do que fui. a minha gaveta da roupa que me faz ser pessoa sempre que a dor chega aos ossos em forma de gelo – um dia este coração vai deixar de bater. e todos as estalactites se cravarão na terra que albergará o meu corpo – a nuvem prosseguirá o seu destino
futuro
hoje matei a esperança. mas também está habituada. já morreu tantas vezes – esta esperança acaba sempre por me desiludir. diz que tem uma hora que não é de todos. um caminho para gente especial – arrependi-me. ressuscitei-a – penso que já me conhece. brinca comigo. sabe que nunca a deixarei morrer só – um dia vou descobrir um caminho dentro da vida. onde as pernas possam correr. talvez possa até tirar os sapatos e sorrir para o passado – será um dia ainda dentro desta vida. não da outra que um dia vou encontrar – prometo. prometo. prometo – prometo que farei um caminho aberto a todos os lugares do mundo e quando for pó. saberás que no pescoço. terás apenas os meus braços
se tu

se tu estivesses por aí. agora
se tu adivinhasses. agora
se tu fosses minha. agora
se tu me olhasses. agora
se tu me ouvisses. agora
se tu me lesses. agora
tudo o que:
há dentro deste pedaço de papel
abriríamos uma porta
uma porta que desse para um todo
e
talvez
quem sabe
provavelmente:
tomássemos veneno
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