.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

30/04/2012

trapézio




 heidi taillefer



noite-escuro
a meia-noite são 12 badaladas
noite-silêncio
a voz do meu pai aparece
noite-dor
a metamorfose acontece
noite-doce
a criança ressurge no homem
noite-esperança
a fantasia está de volta
noite-real
a manhã saqueia as estrelas
dia-luz

a normalidade
anormal

não sei
sei

notícia de última hora:
o desemprego desceu





27/04/2012

retalhos – número de série 27042012s(r)ego02




eduardo ferreira




todos os corpos são gaivotas. vivem pousados em vento. o destino é feito pelo tamanho das asas



na hora de pôr a mesa




josé luís peixoto




na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


josé luís peixoto


26/04/2012

almanaque




foto do autor




lembro – as caras sorriem. os olhos falam e a mesa redonda maior que o mundo que deixei em espera á porta da rua – tudo na mesa é perfeito. a  toalha branca anuncia a vontade dos espíritos para aquele encontro. as palavras são feitas de sorrisos e a conversa é conforto –  as perguntas aparecem: estás bem? tudo vai bem? como estás? a saúde? e a cabeça  acena que sim contra o peito que dói. um homem nunca pode dizer não quando o corpo repousa numa toalha branca – os olhos apertam. as mãos tocam. os pulmões respiram baixinho. só as vozes ocupam espaço. e a toalha é agora feita de palavras que não param de mexer de um lado para o outro às cores como se fossem arco-íris. caminham como se estivessem á mercê de uma corrente de ar e tudo é abraço. e eu ali preso ao que vive dentro de mim e as palavras sempre meigas como se tivessem inteligência e soubessem que é assim que magoam – só estas ainda são capazes de me magoar – e a cabeça abana. e sim. e sim. e sim. e a cabeça para baixo e para cima – esta coisa de não saber falar é dor – nunca digo o que deveria dizer. nunca olho como deveria olhar. nunca sou capaz de desobstruir aquela rua que desaproveitei nas primeiras palavras que aprendi a escrever. era uma criança. numa escola feita de pedra. talvez por isso fiquei feito de palavra-pedra. não falam. nunca falam quando preciso delas – e o corpo cada vez mais pequeno para a alegria – há momentos na vida em que perdemos a memória. e o que era bom deixou de ser e o que era bondade é fel e a crença é demónio e a dor é hábito como quem faz do fumo do tabaco o cheiro do corpo – somos para sempre este cheiro que não é perfume e a primavera são silvas e o meu ano o pior dos últimos duzentos anos. e o vinho a pior colheita. e os pomares vazios pela tempestade feita de chuva-pedra e tudo a meu lado pisado pela fome de quem não sabe alimentar o corpo a não ser com sorrisos que não passaram da flor. e o fruto perdido para sempre – confesso. tenho ainda alguns adjectivos por usar na sinopse da vida - sem querer forçar muito a memória ainda dorida com o embate do corpo contra a idade. lembro com ajuda de bach. que toda a melodia necessita de vida para ser ouvida. adjectivar a minha vida seria desastroso. ainda há gente que me vê como eu não me consigo ver. ainda há gente que me beija como se os lábios fossem milagre. e o pão são rosas e o toque da mão diz-me que estou vivo. e a dor do que perdi esqueço. a gaivota voa e as asas cortam o tempo. a palavra chega aos poucos para dizer um pouco do que não consigo dizer – não sou capaz. nunca serei feito de palavras na boca – dentro de mim esta rua que me corta ao meio é feita de gente que me fala ao ouvido com vontade de viver –  desiludir os que nos tocam com a suavidade que o tempo não destrói é agora mais uma palavra – gratidão – 1962. afinal nasci em 1962. havia almanaques em 1962. quem havia de dizer – nunca me tinha passado pela cabeça que havia gente a fazer vida acontecer em 1962. curioso. nunca encontrei nada de relevante nesta data. talvez “malapata” do ano. também nunca encontrei nada de valioso no que sou ou no que faço – percebi porquê – o santo do meu dia chama-se aniceto, décimo primeiro papa. proibiu os padres de deixar crescer o cabelo para este não ser motivo de vaidade. e tudo se resume a um par de tesouras e gadelhas a bater nos ombros – nada em 62 é importante. nem santo. nem papa. nem eu que nasci depois das doze. já o sol estava a cair para o ocaso – Importante mesmo são aqueles que passados cinquenta anos me fizeram saber que a vida é consumida na sua totalidade. cinquenta anos mais tarde sei que antes de 62 havia outro ano capaz de dar ao meu ano a razão que eu desconhecia – no últimos anos da minha vida esqueci tanta coisa. tantas caras. tantos corpos que me eram familiares. e a vida sempre a caminhar e os séculos a passar em livros. e os jornais a dizer que em 1862 a vida e as casas tinham gente que faziam tempo e todo o tempo é importante para dar sentido ao meu – onde há um avô há um filho e depois outro e depois ainda outro e depois a rua cruza-se e o dia de chuva abre sol. e o sol é tudo o que preciso para viver – ninguém vive sem nascer. viver é um abraço que só se sente quando é saboreado – e a mão por cima da minha faz-me estremecer. afinal estou vivo e amanhã tenho que escrever mais do que hoje para poder voltar a dizer que em 1962 alguém nasceu para colher sorrisos cinquenta anos mais tarde



23/04/2012

no tecto do quarto onde escrevo há uma luz







károly ferenczy






no quarto onde escrevo tudo é incompleto. inacabado. imperfeito – no tecto a lâmpada contínua a luta – o filamento resiste em brasa. pequenas faíscas esbarram mortas nas paredes finas de vidro baço – dentro da lâmpada uma partícula do electrão resiste estoicamente à dúvida intermitente que avança ao olhar – apaga não apaga – há vida na luz e morte no escuro – a luz é movimento –  presa ao tecto o electrão dá vida às sombras. não há sombras sem luz como não há felicidade sem tristeza nem tempestade que não traga acalmia – na cadeira um corpo em espera. não há lugares inacessíveis para quem está preso à luz – só o tempo persegue a luz e o corpo viaja na imaginação à velocidade de uma gaivota – a morte não pode ser olhada de frente. a luz é a certeza da sua presença – a luz treme. o corpo vacila e a palavra aparece – escrevo –






18/04/2012

vânia lopez - amém







amém



é pra você esse poema
como girassóis pelo caminho
água contra a natureza
a primeira tragada da manhã

é pra você
toda palavra que voa
o pulso que treme
minha colheita de milho
tua alma canto baixinho
como pássaros na borda da veste
um punhado de beleza
que ronda o céu do seu peito

passo a vida com teu cheiro
para molhar meu bordado
de lembrar-te
num sentimento fino
do que quer ficar
enquanto você vai em tantos planos

na pausa da oração
... depois do amém


vânia lopez - dedicou ao meu aniversário



respondo:



se este poema fosse para mim
juntava ao girassóis um sorriso
pela terra
as pegadas de uma voz que não ouves
colhe palavra a palavra
na água
o orvalho das minhas manhãs

se este poema fosse para mim
o corpo diria
que todas as gaivotas sabem voar
no peito
o belo de um céu estrelado
na boca
o nascer da primavera

se este poema fosse para mim
fazia dele uma ponte
um braço a cair para dentro de ti
no toque
traçava ruas feitas
de nós
assim como somos
com este vai e volta
imaginário
de que a terra
é afinal
uma mão aberta de girassóis

se este poema fosse para mim
assim como só eu sei que sou
vou ser sincero
não sei o que faria com ele
talvez uma oração
a cair da boca
em forma de beijo

sampaio rego



16/04/2012

monólogo




                                               ´Sala Escura da Tortura´- trabalho coletivo:
                          Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra.



um descuido

uma cria
um parto
um abril
um 17
um choro
uma família
uma palavra
um deus
um baptismo
uma vela
uma concha
uma escola
um aprender
um caminho
um destino
uma renovação
uma comunhão
um recomeço
uma luta
uma revolta
uma rua
uma solidão
um 10


um livro
uma diferença
um destino
um amigo
um desconhecido
uma honra
uma desonra
um carma
um cristal
um futuro
um cravo
uma revolução
um cigarro
um liceu
um desnorte
uma loucura
um piquete
um manifesto
um partido
um calvário
um 16


um semideus
uma renúncia
um trabalho
um erro
um desafio
um silêncio
uma corrida
um 18

uma festa
um homem
um carro
uma paixão
um encantamento
uma loucura
uma viagem
uma ferida
uma ressurreição
um destino
um amor
um sonho
um casamento
um 22


um desígnio
um objectivo
uma certeza
um atalho
uma lida
uma luta
um guerreiro
uma vitória
uma madrugada
uma alegria
uma barriga
um coração
um sol
um rebento
um 23


um pai
uma jura
uma lida
um combate
um cansaço
um triunfo
uma esperança
uma regeneração
uma aurora
uma convicção
uma existência
um batimento
um gáudio
uma pancada
um choro
um 27


uma responsabilidade
um sucesso
um crescer
uma imagem
uma marca
uma vitória
um líder
um orgulho
um desassossego
uma fraqueza
uma visão
um deslize
um choro
uma preocupação
um rapaz
um 32

um abraço
uma pauta
uma alegria
uma europa
uma queda
uma áfrica
um emigrante
uma angústia
um desastre
um desespero
uma jornada
um louco
uma doença
uma dor
um silêncio
um adeus
um abraço
um beijo
um gelo
um 36


um recomeço
uma escola
uma universidade
uma escrita
um desespero
um farrapo
uma mãe
uma mãezinha
um amigo
uma amiga
um inimigo
um 40
um humano
um sábio
um caminho
uma família
uma (a)
um nó
uma certeza
um sorriso
uma luta
um destino
uma religião
uma (d)
uma renovação
uma união
uma prata
um 47


um doutor
um 48


uma nora
uma honra
uma partida
uma vitória
um projecto
uma alegria
um medo
um destino
uma (m)
uma certeza
um 50


13/04/2012

descansa em paz




                                                   michelangelo merisi da caravaggio



não sei qual é o dia certo para morrer – procuro – como garimpeiro que sou. peneiro insistentemente o que ainda sou capaz de pensar – resisto – vómito – há um rio na vida que não entendo. leva-me para onde não quero e sou o que os outros não vêem – as mãos abanam o corpo. os pés  enterrados em lodo e a cabeça pula de margem para margem onde moram abutres ocultos. vivem por detrás das silvas com que me pico todos os dias – negros e enormes. afiam os bicos em gargalhadas que anunciam festim – troçam – eles e eu sabemos o destino – na rede que me peneira. a sujidade disputa cada quadradinho minúsculo por onde escapa o que de mim resta – na água os peixes cantam canções de embalar e as harpas não deixam de anunciar a chegada do náufrago que não consegue morrer em paz na terra que o viu crescer – há dias em que a morte é a única solução para continuar a viver – encontrar o destino dentro do vazio é cada vez mais difícil e a pepita gigante do sossego. presa a uma parede de quadros que já só são recordações e a voz da saudade a dizer: o interruptor está por baixo da moldura da tua árvore genológica – descansa em paz



11/04/2012

uma questão de verbos




andrew newell wyeth



I.

entrelacei o braço num amontoado de palavras suspensas na vida e arranquei com elas para uma folha de papel – medo – há muita crueldade nos olhos de quem lê – o leitor. tal como o texto. é feito de palavras. e o seu sentido nem sempre é inteligível – quando escrevo pertenço ao mundo sensível. sombreados. sombras. silhuetas. medos e as palavras a nascer como se já soubessem que o mundo é bárbaro para quem gosta de escrever como pensa – a verdade. aquela que queremos como verdade. é muitas vezes só a nossa verdade. o nosso sentir. o nosso carma. o nosso génio de verbalizar sem som – aqueles que emprestam os olhos. aqueles que juntam as palavras com uma ordem que na maior parte das vezes desconheço ignoram que as palavras escritas são o que me resta para sobreviver. o que resta para me manter homem racional – as palavras. todas as minhas palavras escritas são uma tentativa cobarde de matar o medo e roubar às trevas a dor de um silêncio que nunca ninguém ouviu – mas papel sempre será papel – há um mundo do real onde vivo. um mundo de medo. um mundo onde se avaliam os sentimentos. e em cada dia que vivo meço o tamanho da dor [encontro sempre o passado]. das crenças [cada vez menores]. das virtudes [já não tenho]. e sem dar conta do tempo. sem dar conta do que me tornei. só trago dentro de mim palavras por escrever [para sempre. quero acreditar] – tudo o que se escreve é eterno. imortal – bem sei que a palavra não encerra em si nada de absoluto. é quase sempre ambígua. confusa. incerta. tão flexível que sempre se pode decompor pelo mundo das causas de cada leitor – um dia. alguém diz: essa palavra é cruel. essa palavra magoa. essa palavra é morte. eu olho. e volto a olhar. e vejo que a maldade não está na minha palavra. nem em quem a leu. a maldade está na vida que levamos a preencher os olhos e tudo o que os olhos veem cai para dentro do corpo e dentro do corpo tudo envelhece. tudo entra em putrefação. e as palavras suspensas ganham mais de mil sentidos num corpo de uma só vida – o meu mundo desconfia. há uma dor deitada dentro de mim. palavras – na noite as palavras incham. ficam maiores do que eu. e o sol da manhã não abre porque as palavras nasceram primeiro e colocam-se entre os meus olhos e o mundo – escrevo sem sol. mas escrevo. imagino o leitor a dizer: não. não posso ler porque estas palavras são minhas. eram o meu segredo. só os meus ouvidos sabem ouvir o silêncio das palavras no cérebro – as palavras concebem agora uma dor nossa. minha e do leitor. e a manhã é agora feita de sol. sol-palavra. sol-leitor. leitor e eu. eu e leitor. ligados para sempre – não há sol que sempre dure nem palavra que nunca acabe 



II.
escrevo. e o que era sol é agora palavra incompreendida – as palavras dizem o que querem e o que não querem. belas ou monstros dizem o que não dizem. e dentro dos olhos do leitor sou agora o mostrengo. o arrogante. o fedelho que se vestiu de escritor – como se o escritor tivesse um direito divino de dizer o que só o seu corpo sabe pensar – escrevo e dentro deste amontoado de palavras suspensas só uma sobrevive para ser história verídica: arrependimento – como deixei o meu silêncio transformar-se em palavra? e agora? o que vou fazer das palavras que o leitor nunca irá compreender? tinha as palavras seguras no verbo ser. sou: solitário. meditação. pensamento. sofrimento. sou árvore que um dia morrerá de pé. e neste silêncio tudo o que aprendi a ver nos que falavam demais – escrevo a esperança de que um dia encontrarei a felicidade na ausência a que devotei a alma do mundo que fala – e agora onde vou segurar as palavras? talvez no verbo entender. compreender. numa qualquer fantasia que tenha resistido ao crescimento do corpo e num dia próximo tudo isto possa ser som – a minha palavra é apenas uma palavra como outra qualquer. não é pedra. nem pau. nem sequer faca capaz de cortar a intenção de um desabafo – e é esta tristeza que mata as palavras. as palavras também morrem de desgosto. morrem porque dizem aos outros o que não foi escrito por mim. morrem de incompreensão – e as vozes que leem. pregam. e a semente que sou divide-se em pedacinhos de motivos que não encontro. e as vozes pregam mais. e a palavra que me dava nome deixa de ser palavra. e o som das gargantas a esquecer o nome que não tem voz. e agora já sou outro que não sei se existe. nem os outros sabem que mataram a minha verdade para dar vida a uma verdade que nunca lhes pertenceu – as palavras são minhas ainda. não as escrevo para serem julgadas. escrevo para ter voz – leitor. meu amigo leitor. se puderes ouvir a minha voz. se puderes perceber esta necessidade que tenho de dizer. se souberes encontrar-me nas palavras sossegadas que escrevo. talvez consigas descobrir as razões por que ainda vivo. os nomes que me amarram aos verbos trazem o futuro nas conjugações – dentro da palavra. nos contornos das linhas que lhe dão a minha forma de ser. onde a cabeça nunca está no corpo e o sossego é um enorme buraco escuro com uma luz que se acende e apaga. nunca percebi se me chamam ou se é um farol que me diz: não te aproximes em demasia. já outros aqui ficaram com mais palavras do que tu – uma palavra de nada vale. só palavras juntas fazem um corpo. e só muitas ganham direito ao entendimento e ao nome – tenho medo. mas o meu silêncio continua a ser feito de palavras por escrever


10/04/2012

noite




                                                               andy warhol



não há seres vivos no chat – que estranho – tudo isto por causa do movimento de rotação da terra



04/04/2012

fernando pessoa - autopsicografia





Autopsicografia



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



insónia




théodore géricault



um altercação grave entre mim e a necessidade de dormir – com isto tudo quem ganha é a noite. contínua com a minha companhia





03/04/2012

o juízo dos juízos




albrecht dürer




onde está o interruptor deste comboio de corda a que chamam razão – não encontro descanso dentro do que vejo – os olhos. sempre abertos veem com realismo o que do alto desta janela imagino – o futuro está aqui ao meu lado. e eu sei o que não quero saber. e morro aonde outros vivem – não há esperança para o saber. só a dúvida tem força para fazer caminho e todo o caminho se faz caminhando – e a janela sem portadas. e os olhos do lado do vento caem por terra que nunca foi sagrada. e os corvos a bicar a única maçã resistente num monte de oliveiras. e as almas a sorrirem. e os mortos a falarem. e as pessoas vestidas de preto. e a urna de pé como se fosse um estandarte. feita de gritos que nunca ninguém ouviu. e o corpo a pensar se cai ou não cai na vida que não lhe pertence. e a dor a dizer não. não e não. deixa-te ir. é do outro lado que o sol se põe no mar e as gaivotas falam a língua dos homens. e os sermões não são aos peixes. e os tubarões estão sentados em bancos de pedra e todo o “pe” é de pedra. de pé. de pó. de porcos. de proscritos – todo o “pe” é de dor e seu anagrama. ror. dro. e esta palavra junta mata mais que qualquer peste negra. ratos e esgotos e suor manchado de tinta preta – desta vez serei eu a vender o judas por trinta moedas. cristo não existe dentro dos infelizes – a minha arca está cheia de pedaços de um eu que quero afogar para sempre. já só espero o dilúvio – um dia todos o “pes” serão sentados na balança da justiça. no contrapeso eu e os meus pecados. na guilhotina eu e o lobo vestido com pele de cordeiro – hoje não há história. nem lenda. nem poema. nem coisa nenhuma que as minhas mãos queiram escrever. amo o que é meu e o meu defeito será virtude e dentro desta luz. que ainda alumia a porta dos que me entram na alma







fernando pessoa – “comboio de corda”




30/03/2012

mal[me]queres de pedra




pablo picasso



uma janela voltada para norte. um quarto. uma cama. uma cruzeta vazia. uma cadeira de pinho presa ao casaco preto que descansa tempo às costas – à esquerda da cabeceira um par de sapatos. novos. pretos também. sola de cartão. aguardam a chegada dos pés – imperturbados. moram de costas para a janela. a vida é apenas feita de sons que ocupam ruas que já não conheço –à direita da cabeceira. um lápis descansa em cima de uma folha de papel que quero acreditar estar em branco. aguarda a mão que um dia esmagará o coração até que a dor do bater termine. ao lado. meia dúzia de molduras. fotos são dor. são corações a bater e todos os corações doem – quero-as vazias. sem olhos. sem sorrisos. sem corpos. sem marcas do tempo. longe da vista longe do coração – quero a cabeceira limpa de tempo de vida. quero amnésia. quero esquecer-me de mim e talvez assim deixe de existir e possa definitivamente partir sem que nenhuma foto chore – ninguém pode chorar pelo que não há. por quem não existe – resta-me o cheiro das fotos que um dia foram pessoas – embelezo o vazio das mesinhas com uma jarra branca presa a malmequeres em agonia – sentado no chão. onde vivo. dobro a camisa branca que também é tempo. abotôo o botão junto ao pescoço. colarinhos engomados. aflitos com a rigidez das mãos. caiem contra mim – alinho as costuras pelas formas do corpo. nem mais nem menos. as costuras são importantes. têm a talha de quem as produziu. os olhos de que quis que encaixassem ás formas de um pano que antes de ser cortado não tinha nome. era vendido a centímetro. estendido num balcão de madeira. o comerciante olhava para mim e dizia: -- o menino só precisa de cinquenta centímetros de pano – e eu digo que quarenta e nove devem chegar – meto as mangas para dentro do peito. escondo as mãos. acerto os punhos. na vertical dos colarinhos e deixo que brilhe o bolso do lado do coração – com um bordado. a letra pequena. onde ainda posso ler: nasceu a tantos dos tantos. do ano do senhor de mil novecentos e qualquer coisa e partiu para a companhia do senhor no ano de dois mil e. porra. os olhos estão uma trampa e a letra está trémula. talvez esteja a chorar. talvez já esteja morto. talvez estas mãos que ainda me abraçam sejam de outro mundo e tenham por lapso. vindo até mim para me dizer que o futuro existe noutra dimensão – talvez a infelicidade seja isto. ser feliz é ser doido. não pensar. não sonhar. não poder morrer porque sempre esteve morto e os mortos não falam e logo tudo o que eu ouço. mesmo quando estou a dormir. são só pássaros a voar. gaivotas à procura de peixe para alimentar a alma e justificar a vida dos peixes – talvez um monstro me leve e se encontre a justificação para a minha vida. talvez um dia. saiba que as cores das paredes são brancas por que sempre vivi num manicómio. onde o castigo é obrigarem-me a escrever. talvez um dia abra a porta e veja penduradas nas árvores todas as palavras que perdi dentro de mim. e por baixo essa gente que se diz minha amiga. espera de braços abertos o fruto que cai dos meus olhos – onde estou se não estou em lado nenhum. onde estão aqueles que um dia disseram que tinham a mesma loucura. viviam no mesmo hospício e eu que sempre disse: não. não somos loucos. somos apenas jovens – agora. janto voltado para o douro. onde a água doce corre para o mar. indivisível. guardada por margens feitas de luz e vozes que não se casam de falar que o tempo e a água caminham como se fosse ali que acabasse tudo. e depois. afinal. é na imensidão do mar ou do tempo que se faz a renovação e tudo começa de novo – não falo da morte. que para mim essa é eterna. falo ainda da vida. da imensidão da vida – tal como a água doce acaba no mar eu acabo a dizer: claro que sim. o mundo é isto. os abraços afinal renovam-se. e a água. como por milagre parou – eu também – só hoje voltei a envelhecer e a ficar doido – talvez seja o contrário. hoje. estou lúcido. os outros é que estão doidos






17/03/2012

para sempre




rafael sanzio




hoje os sinos voltam a tocar e eu aqui com a memória na mão – o tempo passa sempre tão depressa quando o corpo não existe – ao olhar só mesmo a recordação. diria que foi ontem. nas mãos um desejo irracional de te tocar. como se ainda fosse possível – não é –  e o corpo sempre em arrepios por ainda ouvir aquela voz – o papá faleceu – foi assim. e o que era feito de pó partiu para deus. o teu deus. aquele por quem fazias o sinal da cruz pedindo-lhe que te acolhesse no dia de todos os choros – ficamos com as lágrimas a cair para sempre – os sinos tocam março e aquele pedaço de terra que me caiu das mãos ainda vai no ar. nunca te cobriu  – março é o meu mês. o nosso mês. filho és. pai serás. assim como fizeres. assim acharás – é já depois de amanhã o nosso dia – feliz dia do pai



13/03/2012

epistola




* o arco-íris de alain guerra e neraldo de la paz




ainda que encontre o pote de ouro continuarei a querer as cores do arco-íris




* os artistas cubanos alain guerra e neraldo de la paz, que hoje moram nos estados unidos, acharam um jeito bem interessante de reaproveitar roupas que as pessoas não querem mais: eles transformaram blusas, calças e outras peças usadas em arte.



11/03/2012

«HÁ UMA PORTA QUE EU FECHEI ATÉ AO FIM DO MUNDO»




jorge luis borges





Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.





Jorge Luis Borges traduzido por Ruy Belo


07/03/2012

ensaio mudo da palavra




jacques-louis david





1.


no cimo da minha igreja os sinos batem a repique. assim se junta gente em falatório. aos meus olhos muita. aos meus ouvidos – as vozes passeiam em círculo. os pés. alinhados pelas conversas. arrastam-se – as conversas são feitas de palavras – quem pode confiar nas palavras que caem de bocas agitadas pelo ir e vir de um sino que nunca saiu do alto daquela torre – há uma multidão anunciada desde o dia em que o padre da paróquia lançou a água benta na primeira pedra – multidão palavra – na multidão há sempre o ruído das palavras. muitas. as mais incautas perdem-se no ar como balões. empurradas pelo som dos sinos. sobem ao céu. para sempre. outras. procuram ouvidos que não encontram – os corpos estão em festa – é a vida. desesperadas caem por terra. moribundas. cansadas da procura. calam-se – há palavras que não nasceram para serem ouvidas – silêncio – rente aos pés. esquecidas pelos corpos em festa contínua. desistem dos sons – calcadas pelo desprezo. serão chão de terra batida – os foguetes estoiram. os corpos dançam. a multidão eufórica abraça-se em palavras-gesto. sem boca. sem lábio. sem som. sem uma única corda vocal – e aquele silêncio-ruído continua abafado pelo toque da banda de música. quarenta músicos. quarenta instrumentos e nestes uns pratos redondos em ouro polido que quando batem um contra o outro. anunciam tempestade – o mau tempo não desmoraliza o homem de bigode que. de batuta na mão. comanda os quarenta músicos e os quarenta instrumentos de fazer música. sem uma única palavra – talvez os quarenta instrumentos toquem por medo à batuta-vara – no compasso da música. aprontada pelos instrumentos. os sorrisos dos quarenta músicos sobem e descem nas pautas de claves de sol ao ritmo da batuta – as palavras-gesto que ninguém ouve insistem em confundir o ruído – palavra. palavra-gesto ou gesto-palavra. tudo serve para construir silêncio nas multidões. nas cidades. nos amigos e até servem os propósitos dos inimigos. estes. já há muito tempo deixaram de se falar – silêncio. tudo se resume ao silêncio das palavras – se escrevo falo para mim. as palavras nascem-me no corpo. ouço-as. como nascente de água. pura. tudo o que é novo é puro. o pecado precisa de tempo para corromper o silêncio – toda a palavra é limpa ao nascer. só na boca ganha som. só ao vento é defeito – como pássaro parte em busca do ouvido. talvez abrigo. talvez acolhimento. amigo. prostituta. bondade. amparo – não entendo nada de palavras – tenho dias em que sou mudo. e como nos filmes mudos só o gesto do corpo. do olhar. do piano que não se vê e corre atrás das personagem em gritos que imagino – como é fácil contrafazer o som dos lábios – palavra. gostava de ser palavra para sempre. mesmo que fosse só em lábios contrafeitos – sou mudo há tanto tempo. à boca as palavras cansadas reclamam descanso – preciso de mergulhar a palavra-corpo numa banheira de água quente. bem quente. um gel de banho com aroma a pinheiro bravo – tonifico o corpo e a palavra-corpo – só o desprendimento traz silêncio –




2.


as palavras só têm uma vida dentro de mim. quando partem nunca mais voltam. são palavras-som. bravas. como o gel de banho. livres como a gaivota que vive dentro do meu pulmão – palavras-som. partem e não voltam – algumas deixam saudades. outras desespero. outras arrependimento. outras incompreensão e outras uma raiva capaz de me levar a morrer afogado nesta água com aroma a pinheiro bravo – tudo na palavra-som é efémero – ingratas. se soubessem o que custa trazê-las à boca – restam-me as palavras-papel. imagino-as minhas para sempre – guardo-as. enquanto durar o papel. a secretária. a gaveta ou a estante castanha escura encostada a uma parede que nunca sei quando irá ruir – tenho medo de tudo o que pode ruir. já ouvi ruir palavras a viver em corpos. corpos a sobreviver em palavras. promessas. amores destruídos por amantes de corpo estilizado a mão cirúrgica – tudo pode ruir dentro das minhas palavras – na semana passada ruiu um prédio no bairro do aleixo pela mão do homem que tinha dinamite – implodiu – implodiu com tudo o que tinha dentro. só as pessoas foram capazes de abandonar o passado – aprendi que com o tempo tudo acaba por desmoronar – nascemos e logo começamos a perder vida. perdemos a infância. a inocência. a juventude. a família começa a ficar curta. depois começamos a perder um tempo que desconhecíamos e por último os sonhos. até que chega o dia em que perdemos o último travo – escrevo para não me esquecer – agora tenho um sonho como martin luther king. sonho que um dia vou ter uma palavra que falará tudo sobre mim. uma palavra que depois de estar impressa deixe de ser minha para sempre – o que não é meu não pode ruir – o que é de todos a todos pertence. e o mundo que é meu também não mais deixará arder pilhas de livros. nem que as palavas sejam bravas. não arderão – não sou escritor – não me parece importante ser o que quer que seja neste país. de gente que não é nada. um dia encontrei uma chave numa rua deserta. guardei-a. nunca abriu coisa nenhuma na minha vida. no entanto continuo a guardar a chave. com a mesma esperança que tinha quando a encontrei. a rua estava deserta e imaginei que a chave tinha caído do céu só para me fazer feliz – não. hoje tenho a certeza de que foi alguém desesperado que ali a deixou. por nunca ter aberto o que quer que fosse com aquela chave. e eu. igual. atormentado com esta chave e sem coragem para a largar no deserto que tenho nesta vida. quero tornar a minha palavra em papel – talvez um dia. depois da minha morte física. no túnel de luz aparecerá uma porta com a fechadura para a minha chave – já não servirá para nada. nem a porta. nem a chave. usarei a chave mas as ruas continuarão desertas e as paredes continuarão a ruir. os livros a implodir e as palavras escritas gritarão –




3.


palavras-papel – palavra-papel. é isto que faço agora. digo-vos o que faço com as palavras que não têm som. palavras que sobrevivem em ruas desertas e que não quero perder. esquecer.– tenho tanto medo de me esquecer da vida que agora a guardo em palavras escritas – o meu pai morreu esquecido de todas as palavras. a doença roubou-lhe tudo. não guardou uma única palavra em papel. só tenho as fotos. a preto e branco. são aquelas onde a voz é mais nítida. nos olhos vejo o corpo a andar. e os lábios a correr em direção a mim dizem palavras que já não entendo. saudade – faltam as palavras-papel – escrevo. escrevo palavra-papel. gosto de escrever em papel. gosto de pensar que sei escolher as teclas negras. onde o branco é o desenho que cada palavra representa para mim. tenho a certeza de que as palavras são o que resta de um som que só eu ouço – tenho tantas palavras ainda por escrever. palavras-papel – um dia todas as palavras que guardo na cabeça serão do mundo. do meu mundo. do mundo que criei. dos amigos inócuos. dos inimigos de maldizer. dos curiosos céticos. dos leitores ocasionais. e dos vampiros de palavras – é por estes que escrevo. compreendem-me. e para me compreender é preciso provar o sangue que cada palavra carrega dentro e por fim adivinhar não o som-papel mas o som-leitura. o som que é feito da vida em papel – palavra – no cimo da montanha mais longínqua da minha vida. imagino-a: em volta da gota que corre encosta abaixo. só há pedras. no topo das montanhas o verde é raro. tudo é cinzento-terra e azul-céu. talvez por isso algumas palavras que escrevo agem como pedras. pedra-cinza-terra – redondas. chegam-me à cabeça redondas como o mundo que habito. como os olhos castanhos presos à concavidade do rosto. mais não são do que dois furos numa caveira. com alguns neurónios loucos por palavras que falam por mim de boca fechada – tudo o que digo é de boca fechada. quando falo não sou eu. sou o que vocês querem ver. sorrisos quase sempre. esperança quase sempre. força quase sempre. determinação quase sempre. projeto quase sempre. futuro quase sempre. confiança quase sempre. sempre gostei da palavra quase. dá sempre uma margem de complacência a quem à minha volta vê o que não sou – quase escrevo. quase morri. quase consegui chegar ao pólo norte quando o que queria mesmo era chegar ao pólo sul. ou quase podíamos ser amigos mas somos quase inimigos – este mundo quase é quase fantástico e quase sempre escrevo coisas que ninguém quer ler – escrevo. escrevo. estes raios em palavras que ninguém ouve. palavras pedra-cinza-terra. importantes para mim que faço do silêncio voz –




4.


as palavras sem arestas nunca se fazem ouvir – só as palavras arremessadas da montanha. pela força de uns braços de um viriato rebelde. é que chegam à minha cabeça com força de se fazerem ruído – atiro-as com a força de uma raiva que não se pode escrever em palavras. só o ar regista a sua trajetória como cometa. à velocidade da luz – o espanto é então geral e a multidão. em pânico. olha agora para a palavra como se esta fosse capaz de matar. nunca lhes passou pela cabeça que esta boca aberta fizesse das palavras som – estupidez. escrevo palavra-bala. palavra-canhão. palavra-míssel. mas por muito que queira exterminar os ruídos que vivem em círculos não o sei fazer – tudo funciona ao contrário em mim. e as palavras que atirei pela minha montanha abaixo são agora palavras-bala a enterram-se no meu corpo. castigo do deus em que ainda acredito [não sei se alguém conhece o meu deus. é meu. criei-o só para mim – um pedaço de madeira. dois pés. duas mãos e quatro pregos – é só meu. só eu sei se faz milagres] – já são tantas as balas perdidas no meu corpo que um dia serei o homem-bala. ou quem sabe possa implodir de pólvora – só falta o rastilho – seria uma morte sem honra. uma milésima de segundo e depois do barulho já não existe nada. só o cheiro a pólvora queimada – nunca mais haveria o som-silêncio. o ruído triunfaria. que é como quem diz o mal triunfaria. nunca mais teríamos sentimento em papel. acabariam os livros. as sebentas. os rascunhos e até os aviõezinhos que na primária lançava com mensagens de amor para uma amiga que ainda não sabia ler. acabaria tudo. até esta minha liberdade envergonhada de vos dizer como guardo os sons. de uma cabeça que não consegue parar de imaginar palavras – estão todos confusos com tanto barulho. as festas sempre criam confusão nos homens que vivem ao som dos sinos que vão e vêm – eu é que não aguento mais estas palavras que andam em círculos arrastadas por corpos de gente que não ouve – eu só quero ser artesão. um homem de um só ofício. quero fazer palavras-peças que em silêncio falam – tenho que as tirar da cabeça. trabalhá-las. dar-lhes forma. cor. sentido. um céu que lhes caia em cima ou uma cama para dormirem um sono seguido. sossegado. com os primeiros raios de sol as vogais abrirão em sons nascidos para lá da faringe. no estômago. ou mais abaixo. nos pés. no dedo grande do pé. aquele que por ser o maior a gente imagina que é o mais importante – quero ser assim. grande como o dedo do meu pé. não fala mas também não precisa. é o maior – ninguém entende a vida dos artesões silenciosos. as multidões não sabem que o silêncio os mantém vivos. mesmo que na sua cabeça sejamos ignorantes. pior. como não usamos boca. não há voz. não há palavras. e sem estas não há inteligência – multidão. já li algures que é nas multidões que nos sentimos mais sós. esse aglomerado de pessoas não sabe que o silêncio é uma forma de vida dolorosa. faz-nos amigos da morte. a morte é silêncio. solidão. ausência de som. de luz. de primavera. de mar. de gaivotas. de maçãs – tal como o sono de shakespeare. também o silêncio é a antecâmara da morte – para a multidão só o bater do martelo é parecido com o bater do coração – o silêncio é sinónimo de nada e tudo o que é nada não tem boca nem alma – tem de haver pregos. muitos. muito barulho. só na casa de deus é que se quer silêncio – pedintes. temos que arrastar a voz pelo meio dos santos a pedir absolvição para o pecado mortal dos que vivem sem voz – o que não entendem é obra do diabo. e só o fogo libertará do mal o homem. caído nas profundezas do inferno – fogueira. inquisição da sociedade – nunca perceberam o porquê de cristo estar seguro por pregos a uma cruz. e agora não percebem por que é que um artesão usa pregos para se manter preso à vida – hoje apetece-me morrer com um prego. não um prego qualquer. não. um prego feito de contrações. preposições. advérbios de lugar. interrogações e negativas na primeira pessoa: eu não sou. eu não escrevo. eu não vivo. eu não serei nunca coração a bater como prego – não morrerei como um prego qualquer. morrerei artesão nesta vida feita de silêncio – para quem ainda não sabe. quero dizer que tenho alma. bem sei que é uma alma de merda. que quer um dia morrer por dá-cá-aquela-palha. já lhe tenho dito que não pode ser. temos que morrer por dá cá este prego – não posso ser ingrato. afinal de contas foi este meu prego que. em silêncio. me trouxe até ao dia de hoje. trouxe-me até vós – talvez aquela chave que um dia encontrei numa rua deserta sirva para que aqueles que me leem possam decifrar o que as minhas palavras em ruína dizem