.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

13/06/2012

a morrer do mundo




 
pedro américo




como é que um homem deita o corpo a descansar se o descanso está a falecer – tudo o que vejo é apatia. tudo o que sinto é desespero. tudo o que faz cor dá negro – tudo está falecido antes de estar – e olho. e volto a olhar. e tudo está a desaparecer. até a luz. ainda hoje pela manhã era dia aberto e agora já é noite – quer dizer. ainda não é. mas já se faz anunciar – e rodo para norte o corpo. e depois para sul. sem saber como sossegar – entre mim e o nada  uma flor. desgostosa. desamparada. desprotegida. sem nome – nunca soube o nome de flores. talvez seja um girassol. um jacinto. uma  estrelícia. uma papoila. ou uma rosa – não interessa o nome dos que estão doentes. afinal está murcha. está a falecer. talvez falta de chuva. não chove dentro das casas. ou então. talvez seja falta de pessoas capazes de trazer a água do céu para casa . não sei. se soubesse talvez pudesse ajudar. mas não sei – sei tão pouco da vida – estou somente capaz de observar as coisas. sinto-me estranho. esquisito. talvez não venha de mim este mal-estar. talvez sejam os outros a fazer de mim um homem sem certeza na vida – para ser sincero não sei. eu estou igual. sempre fui pálido. com olheiras. lábios gretados. e a cabeça sem saber para que lado tombar. sempre me senti a falecer. sempre olhei mais para o passado do que para o futuro. aquele é certo. e no futuro há sempre homens a olhar para longe – agora tudo mudou. não há futuro. e as pessoas falecem antes do reconhecimento do óbito. e já não há gritos porque não há corpos para chorar. e já não há flores porque também estas já faleceram antes dos corpos. e já não há campas abertas porque o coveiro faleceu no dia em que lhe roubaram a pá. e já não há missas porque o padre faleceu antes de deus mandar o seu filho à terra para falecer por gente que não vale coisa nenhuma – também deus já sabia do falecimento do seu filho mesmo antes de falecer. e cristo também sabia que tinha nascido para falecer numa cruz feita por homens que nunca trazem água para as flores doentes e sem nome – todos querem um pedaço de tempo a qualquer preço – e tudo seca quando as nuvens não carregam água. e judas sabia que só o falecimento do filho do criador daria sentido à sua vida. e a vida está cheia de gente que só aparece com corpos a falecer – as moedas de judas só entram na narração para criar enredo. faleceu para ficar na história. faleceu pela ganância. e nunca ressuscitou. e nunca soube o nome de uma flor. e nunca trouxe água na palma da mão. e o mar morto infestado de sal não deixa o corpo desaparecer. e o mal sempre à tona da água. e o homem também – só não sei o que vou fazer ao meu corpo para o fazer descansar. estou numa história que não é minha. não consigo dormir. não consigo amar as vozes que reconheço. não consigo sossegar. e tudo dentro de mim está cada vez mais distante do mundo dos que ainda não faleceram – quando era novo sabia tudo e agora nunca sei nada. talvez esteja a falecer também das ideias – e o mundo anda. e eles mandam o mundo andar como se o pão sobrasse pela falta de bocas. e uns comem. e outros olham.  e a chuva parada entre o céu e a terra. e os pássaros com asas de cera gritam pelo nome da santíssima trindade e moisés às gargalhadas. não há terra prometida. nem vida depois da morte. e a igreja falecida manda rezar. e o comunismo falecido manda gritar. e o capitalismo falecido manda roubar. e as doutrinas na mão de gente que nunca faleceu por nunca ter nascido para a vida das flores sem nome. dos pássaros. da chuva. das manhãs feitas de sol. da juventude. dos doentes. da mulher esperança. do pai de mãos ásperas. da justiça. da rua verde. da cerejeira. do cão. do abraço. do olá. do bom dia. da história contada à cabeceira da cama ao filho com medo de um fantasma que se chama papão. da estrela polar. e da lua que cresce e minga com os dias que fazem dos velhos gente sábia e respeitada – nunca se ama o que não tem nome. nunca falece o que não nasceu para os olhos. o que não tem rosto – faleço. faleço todos os dias – escrevo para continuar a falecer desta dor que nunca foi capaz de saber viver dentro de um corpo que teima em parecer saudável – um dia falecerá de vez



08/06/2012

de partida




 
joão josé bica
 janela - fotografia 1997
1º prémio acert





deitado no tempo


                                           pouso os olhos

                                                             numa janela acesa de um mar azul gaivota

distal

           os olhos

                        presos a uma braçada de tempo



                                                                        e a mesa fendida sustém a maça

                                                                                         memória

da terra pisada

                         o grito vermelho do inferno

                                                                    amarra-me às raízes de um pardal que não canta

desamável

                  o silêncio da maça

                                               dentro de um mar que nunca deixou de ser azul



do caixilho

                  o encontro da luz que sai com a luz que entra

                                                eu





descubro o belo e o adeus





05/06/2012

nêmesis




   gosha levochkin




sem luz os quadros desaparecem. o relógio de sala deixa de dizer as horas. o espelho passa a buraco negro e toda a vida é sugada para uma espiral de incerteza – eu deixo de ser eu





02/06/2012

agonia




luís zuluaga




e as baleias (1) transformaram-se em homens desesperados
.
desemprego não
.
fome não
.
 escravidão não
.
e tudo agora voltou ao passado
.
e o fogão não liga
.
e a despensa sem comida
.
e o cano sem água
.
e o fio sem electricidade
.
e eu aqui com o meu prato em equilíbrio
.
e o corpo
.
e a lágrima cai ou não cai
.
e o grito
.
e a raiva
.
e este mal estar
.
agonia
.
está na hora
.
não sei de que hora falo
.
mas está na hora


(1)- roberto carlos - as baleias (1981)





27/05/2012

arlequim dourado




pablo picasso




uma dor enorme a pagar para quem procura o conforto na verdade dos factos – felicidade – procurar a satisfação terrena é dor. luta. agonia. vómito. insónia. medo. mau estar generalizado pelo corpo. ressaca. aperto. e os dias sempre a seguir atrás uns dos outros e a dor nunca é habituação. e não sara a mente. nem as mãos que querem escrever sossego –  este sossego nunca será escrito em palavras. não tenho arte suficiente para o fazer – e tudo dói. e como dói. e aonde dói. e dói em tanto de mim que já sou só este desassossego de doer – dói. dói como quando usámos sapatos novos. e na face o sorriso. e o andar torto. e o lábio a contrair. e dentro da cabeça uma vontade enorme de arrancar o corpo de dentro daquele aperto. que ao princípio era aflição e agora é desespero – e quem olha somente vê o brilho do sapato. firme nas formas. novo. e o cheiro a couro entranhado nos pés. os atacadores enlaçados com arte. esticados para este e oeste. e o corpo no norte a olhar o sul e tudo feito como se de um embrulho de oferta se tratasse – presente envenenado. não há vida sem liberdade. não há vida para os oprimidos. não há vida na dor. não há vida nos corpos castrados do livre arbítrio – quero morrer em paz – mas tudo por dentro é como é. como sempre foi. e se um dia rio outro choro. se um dia faço nascer a esperança. outro logo a enforco com a laçada de uma corda que não pára de pensar – e nunca tenho razão. e toda a razão necessita de um homem bobo. e clarice a dizer: “o bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.”. e os pés inchados. as unhas encravadas. as bolhas nos calcanhares e cada passo maior que um quilómetro e a dor a crescer até à boca. torta e depois os olhos. semifechados. e a face a enrodilhar em sofrimento e o desânimo ali e aqui e tudo o que era perto é agora impossível de alcançar – tempo – necessitamos de tempo para cambar os sapatos. e a vida sempre a doer – demora uma vida. e toda a vida é sacrifício. e o meu sapato não camba. e o corpo de hoje igual ao de ontem – o sujeito sou eu – neste corpo. o sujeito não necessita do complemento directo – o verbo é determinante. forte o suficiente para que só as mãos saibam falar. como se em cada dedo houvesse um boca com alma e tudo o resto amarrado a um corpo dentro de um sapato



15/05/2012

regresso




antero de quental. em banco, no jardim. na praça das amoreiras
 lisboa




hoje o antero de quental (*) vai de asas abertas - as palavras voarão com destino a lisboa. depois outro destino. e outro. e outro. que mais pode querer um poeta se não que o seu nome seja um nome do mundo - eu só quero chegar a casa. não sou poeta. sou pai e filho e o meu mundo é este. e acreditem que é enorme



*antero de quental - nome com que foi baptizado o a319 da tap




11/05/2012

esta gente sempre tão igual




adolf eberle




esta gente tão fria. tão sem nada e eu perdido neste modo de vida que não é o meu - gostava de saber se somos mesmo melhores e por via disso somos assim: quentes. cheios de gestos onde as palavras nascem debaixo dos dedos. debaixo dos olhos. dos lábios. no toque. no vento que fazemos a imaginar a forma de fazer feliz quem nos ouve. gostava de saber - dói estar sozinho nesta dúvida maldita - e eles a dizer que nós somos sol. e eu a ver para lá deste mar que faz de nós marinheiros em terra sem porto de mar - hoje jurei que vi uma gaivota. uma cinzenta. amiga. não queria acreditar - percebi. voava sobre um grupo de brasileiros



09/05/2012

natureza humana




max scheler - filósofo alemão






não há fado palavra ou calor que traga nestes homens grandes e loiros o vento sul a sorrir das bocas plantadas na minha praia lusitana- somos assim. somos abraço. somos gesto. somos carinho. somos défice. somos dor. somos quase sempre assim assim. mas também somos fado cantado por um luís que sem um olho via para além de taprobana - somos gente pequena de um país pequeno. mas andamos de forma tão generosa. em bicos de pés como bailarinas. dançamos e encantamos os dias com o rodar dos corpos a dizer: somos nação valente e imortal - vamos recuperar o orgulho - hoje sinto-me imensamente português





04/05/2012

as pedras não têm dor




desenho - paul cadden *



e eu aqui penso. aqui onde o certo e o incerto nascem. onde a dúvida e a certeza gozam dos mesmos privilégios e deveres: o corpo insatisfeito – os antigos acreditavam que tudo vinha do coração. eu. sempre racional a esta hora da noite. sei que o vómito vem do cérebro – por isso esta dor de cabeça que me come o corpo por inteiro – não compreendo porque não sou capaz de ignorar esta dor que não deveria ser dor. ser hábito – talvez defeito de ser humano – mas nem todos os seres humanos são humanos – os humanos que conheço têm uma veia que vai do coração à cabeça. a dor. mergulhada em sangue. desagua no cérebro em forma de delta. ramificações distorcidas pela força da corrente – nos seus extremos os detritos lutam por um lugar seguro na razão – empírico – o coração com o passar do tempo já não filtra todas as impurezas. cansado? não. defeito. sempre foi assim – o coração dói. não há médico que o cure. nem viagem que o distraia. dói porque dói. dói porque bate. dói porque é dentro daquele músculo que vivo. vivo em dor e em dor idílica escrevo – romântico? estou certo que sim. é no coração que deito os olhos – interrogo-me se conheço a raça humana. a reposta é que conheço alguns humanos. gosto deles porque a dor lhes dói onde me dói a minha dor – belo – por último coloco a interrogação em mim e pergunto-me: conheces-te? não. não conheço. porque não conheço todos os humanos. principalmente os humanos-pedra – se me conhecesse. se me conhecesse mesmo bem. seria outro humano. diferente deste que se magoa com dores que não são de magoar. dor-pedra – as pedras não têm dor


* os desenhos hiper-realistas do escocês paul cadden puseram-no no centro das atenções no mundo da arte – aqui fica o alerta para quem gosta de arte para uma viagem obrigatória ao ateliê deste artista – impressionante



clarice lispector - a hora da estrela








"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através do meu trabalho. Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos - sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável."




clarice lispector - a hora da estrela



02/05/2012

necrologia





caravaggio




necrologia – na penúltima página do meu jornal regional. diário do minho. os defuntos anunciam a sua morte sempre pela mão dos seus familiares – a mulher. filhos. noras e demais família têm o doloroso dever de anunciar que este homem da foto. o saudoso. morreu. faleceu. finou-se. foi-se. passou-se ao caralho. deu à soleta dos problemas – é nesta última que me revejo. dar à soleta. pôr-me ao fresco – espero um dia falecer com tudo o que me aborrece desta vida terrena – poderei então dizer: apesar da câmara ardente finalmente uma notícia boa – o equívoco é não poder vivê-la



01/05/2012

que vai ser dos filhos do nosso mundo




                                                                 pieter bruegel



1º de maio. dia do trabalhador. das palavras também. e das ideias. e das dores. e da morte. e do riso. e do fogo. e do sol. e da água. e da terra. e do vento que engole gaivotas pelo grito da garganta dos homens sem casa. sem trabalho. sem campo. sem mar. sem fábrica. sem pão. sem saúde. sem amigo. sem abraço. sem fraternidade e sem tempo para chorar - e eu aqui. escrevendo como se a minha arte fosse palavra. não é. não é. não é – é raiva de não saber falar a deus e dizer-lhe que em criança acreditava na sua justiça – hoje. homem. não acredito em nada. nem abril. nem outubro. nem cravo. nem em coisa nenhuma. morto de fé - descrente. quero que este dia passe rápido. pelo respeito ao meio milhão de desempregados do meu país – que vai ser dos filhos do nosso mundo?



30/04/2012

trapézio




 heidi taillefer



noite-escuro
a meia-noite são 12 badaladas
noite-silêncio
a voz do meu pai aparece
noite-dor
a metamorfose acontece
noite-doce
a criança ressurge no homem
noite-esperança
a fantasia está de volta
noite-real
a manhã saqueia as estrelas
dia-luz

a normalidade
anormal

não sei
sei

notícia de última hora:
o desemprego desceu





27/04/2012

retalhos – número de série 27042012s(r)ego02




eduardo ferreira




todos os corpos são gaivotas. vivem pousados em vento. o destino é feito pelo tamanho das asas



na hora de pôr a mesa




josé luís peixoto




na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


josé luís peixoto


26/04/2012

almanaque




foto do autor




lembro – as caras sorriem. os olhos falam e a mesa redonda maior que o mundo que deixei em espera á porta da rua – tudo na mesa é perfeito. a  toalha branca anuncia a vontade dos espíritos para aquele encontro. as palavras são feitas de sorrisos e a conversa é conforto –  as perguntas aparecem: estás bem? tudo vai bem? como estás? a saúde? e a cabeça  acena que sim contra o peito que dói. um homem nunca pode dizer não quando o corpo repousa numa toalha branca – os olhos apertam. as mãos tocam. os pulmões respiram baixinho. só as vozes ocupam espaço. e a toalha é agora feita de palavras que não param de mexer de um lado para o outro às cores como se fossem arco-íris. caminham como se estivessem á mercê de uma corrente de ar e tudo é abraço. e eu ali preso ao que vive dentro de mim e as palavras sempre meigas como se tivessem inteligência e soubessem que é assim que magoam – só estas ainda são capazes de me magoar – e a cabeça abana. e sim. e sim. e sim. e a cabeça para baixo e para cima – esta coisa de não saber falar é dor – nunca digo o que deveria dizer. nunca olho como deveria olhar. nunca sou capaz de desobstruir aquela rua que desaproveitei nas primeiras palavras que aprendi a escrever. era uma criança. numa escola feita de pedra. talvez por isso fiquei feito de palavra-pedra. não falam. nunca falam quando preciso delas – e o corpo cada vez mais pequeno para a alegria – há momentos na vida em que perdemos a memória. e o que era bom deixou de ser e o que era bondade é fel e a crença é demónio e a dor é hábito como quem faz do fumo do tabaco o cheiro do corpo – somos para sempre este cheiro que não é perfume e a primavera são silvas e o meu ano o pior dos últimos duzentos anos. e o vinho a pior colheita. e os pomares vazios pela tempestade feita de chuva-pedra e tudo a meu lado pisado pela fome de quem não sabe alimentar o corpo a não ser com sorrisos que não passaram da flor. e o fruto perdido para sempre – confesso. tenho ainda alguns adjectivos por usar na sinopse da vida - sem querer forçar muito a memória ainda dorida com o embate do corpo contra a idade. lembro com ajuda de bach. que toda a melodia necessita de vida para ser ouvida. adjectivar a minha vida seria desastroso. ainda há gente que me vê como eu não me consigo ver. ainda há gente que me beija como se os lábios fossem milagre. e o pão são rosas e o toque da mão diz-me que estou vivo. e a dor do que perdi esqueço. a gaivota voa e as asas cortam o tempo. a palavra chega aos poucos para dizer um pouco do que não consigo dizer – não sou capaz. nunca serei feito de palavras na boca – dentro de mim esta rua que me corta ao meio é feita de gente que me fala ao ouvido com vontade de viver –  desiludir os que nos tocam com a suavidade que o tempo não destrói é agora mais uma palavra – gratidão – 1962. afinal nasci em 1962. havia almanaques em 1962. quem havia de dizer – nunca me tinha passado pela cabeça que havia gente a fazer vida acontecer em 1962. curioso. nunca encontrei nada de relevante nesta data. talvez “malapata” do ano. também nunca encontrei nada de valioso no que sou ou no que faço – percebi porquê – o santo do meu dia chama-se aniceto, décimo primeiro papa. proibiu os padres de deixar crescer o cabelo para este não ser motivo de vaidade. e tudo se resume a um par de tesouras e gadelhas a bater nos ombros – nada em 62 é importante. nem santo. nem papa. nem eu que nasci depois das doze. já o sol estava a cair para o ocaso – Importante mesmo são aqueles que passados cinquenta anos me fizeram saber que a vida é consumida na sua totalidade. cinquenta anos mais tarde sei que antes de 62 havia outro ano capaz de dar ao meu ano a razão que eu desconhecia – no últimos anos da minha vida esqueci tanta coisa. tantas caras. tantos corpos que me eram familiares. e a vida sempre a caminhar e os séculos a passar em livros. e os jornais a dizer que em 1862 a vida e as casas tinham gente que faziam tempo e todo o tempo é importante para dar sentido ao meu – onde há um avô há um filho e depois outro e depois ainda outro e depois a rua cruza-se e o dia de chuva abre sol. e o sol é tudo o que preciso para viver – ninguém vive sem nascer. viver é um abraço que só se sente quando é saboreado – e a mão por cima da minha faz-me estremecer. afinal estou vivo e amanhã tenho que escrever mais do que hoje para poder voltar a dizer que em 1962 alguém nasceu para colher sorrisos cinquenta anos mais tarde



23/04/2012

no tecto do quarto onde escrevo há uma luz







károly ferenczy






no quarto onde escrevo tudo é incompleto. inacabado. imperfeito – no tecto a lâmpada contínua a luta – o filamento resiste em brasa. pequenas faíscas esbarram mortas nas paredes finas de vidro baço – dentro da lâmpada uma partícula do electrão resiste estoicamente à dúvida intermitente que avança ao olhar – apaga não apaga – há vida na luz e morte no escuro – a luz é movimento –  presa ao tecto o electrão dá vida às sombras. não há sombras sem luz como não há felicidade sem tristeza nem tempestade que não traga acalmia – na cadeira um corpo em espera. não há lugares inacessíveis para quem está preso à luz – só o tempo persegue a luz e o corpo viaja na imaginação à velocidade de uma gaivota – a morte não pode ser olhada de frente. a luz é a certeza da sua presença – a luz treme. o corpo vacila e a palavra aparece – escrevo –






18/04/2012

vânia lopez - amém







amém



é pra você esse poema
como girassóis pelo caminho
água contra a natureza
a primeira tragada da manhã

é pra você
toda palavra que voa
o pulso que treme
minha colheita de milho
tua alma canto baixinho
como pássaros na borda da veste
um punhado de beleza
que ronda o céu do seu peito

passo a vida com teu cheiro
para molhar meu bordado
de lembrar-te
num sentimento fino
do que quer ficar
enquanto você vai em tantos planos

na pausa da oração
... depois do amém


vânia lopez - dedicou ao meu aniversário



respondo:



se este poema fosse para mim
juntava ao girassóis um sorriso
pela terra
as pegadas de uma voz que não ouves
colhe palavra a palavra
na água
o orvalho das minhas manhãs

se este poema fosse para mim
o corpo diria
que todas as gaivotas sabem voar
no peito
o belo de um céu estrelado
na boca
o nascer da primavera

se este poema fosse para mim
fazia dele uma ponte
um braço a cair para dentro de ti
no toque
traçava ruas feitas
de nós
assim como somos
com este vai e volta
imaginário
de que a terra
é afinal
uma mão aberta de girassóis

se este poema fosse para mim
assim como só eu sei que sou
vou ser sincero
não sei o que faria com ele
talvez uma oração
a cair da boca
em forma de beijo

sampaio rego



16/04/2012

monólogo




                                               ´Sala Escura da Tortura´- trabalho coletivo:
                          Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra.



um descuido

uma cria
um parto
um abril
um 17
um choro
uma família
uma palavra
um deus
um baptismo
uma vela
uma concha
uma escola
um aprender
um caminho
um destino
uma renovação
uma comunhão
um recomeço
uma luta
uma revolta
uma rua
uma solidão
um 10


um livro
uma diferença
um destino
um amigo
um desconhecido
uma honra
uma desonra
um carma
um cristal
um futuro
um cravo
uma revolução
um cigarro
um liceu
um desnorte
uma loucura
um piquete
um manifesto
um partido
um calvário
um 16


um semideus
uma renúncia
um trabalho
um erro
um desafio
um silêncio
uma corrida
um 18

uma festa
um homem
um carro
uma paixão
um encantamento
uma loucura
uma viagem
uma ferida
uma ressurreição
um destino
um amor
um sonho
um casamento
um 22


um desígnio
um objectivo
uma certeza
um atalho
uma lida
uma luta
um guerreiro
uma vitória
uma madrugada
uma alegria
uma barriga
um coração
um sol
um rebento
um 23


um pai
uma jura
uma lida
um combate
um cansaço
um triunfo
uma esperança
uma regeneração
uma aurora
uma convicção
uma existência
um batimento
um gáudio
uma pancada
um choro
um 27


uma responsabilidade
um sucesso
um crescer
uma imagem
uma marca
uma vitória
um líder
um orgulho
um desassossego
uma fraqueza
uma visão
um deslize
um choro
uma preocupação
um rapaz
um 32

um abraço
uma pauta
uma alegria
uma europa
uma queda
uma áfrica
um emigrante
uma angústia
um desastre
um desespero
uma jornada
um louco
uma doença
uma dor
um silêncio
um adeus
um abraço
um beijo
um gelo
um 36


um recomeço
uma escola
uma universidade
uma escrita
um desespero
um farrapo
uma mãe
uma mãezinha
um amigo
uma amiga
um inimigo
um 40
um humano
um sábio
um caminho
uma família
uma (a)
um nó
uma certeza
um sorriso
uma luta
um destino
uma religião
uma (d)
uma renovação
uma união
uma prata
um 47


um doutor
um 48


uma nora
uma honra
uma partida
uma vitória
um projecto
uma alegria
um medo
um destino
uma (m)
uma certeza
um 50


13/04/2012

descansa em paz




                                                   michelangelo merisi da caravaggio



não sei qual é o dia certo para morrer – procuro – como garimpeiro que sou. peneiro insistentemente o que ainda sou capaz de pensar – resisto – vómito – há um rio na vida que não entendo. leva-me para onde não quero e sou o que os outros não vêem – as mãos abanam o corpo. os pés  enterrados em lodo e a cabeça pula de margem para margem onde moram abutres ocultos. vivem por detrás das silvas com que me pico todos os dias – negros e enormes. afiam os bicos em gargalhadas que anunciam festim – troçam – eles e eu sabemos o destino – na rede que me peneira. a sujidade disputa cada quadradinho minúsculo por onde escapa o que de mim resta – na água os peixes cantam canções de embalar e as harpas não deixam de anunciar a chegada do náufrago que não consegue morrer em paz na terra que o viu crescer – há dias em que a morte é a única solução para continuar a viver – encontrar o destino dentro do vazio é cada vez mais difícil e a pepita gigante do sossego. presa a uma parede de quadros que já só são recordações e a voz da saudade a dizer: o interruptor está por baixo da moldura da tua árvore genológica – descansa em paz