.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

27/08/2012

o verbo e o profano




albert samuel anker




- e que faço agora com o teu pedido. não é justo. mas não é mesmo. sempre a embaraçar a vida do corpo que gosta de escrever – e eu perdido nesta escrita maluca. enfarpelada de roupa esfarrapada -




ainda sou. sou um emaranhado de coisas que nem sei se existem – às vezes não sei ler. não sei escrever. não sei ouvir. fico perdido de mim – quando me encontro imagino que fiquei a contemplar o que já passou. digo imagino porque não sei por onde me perdi – o tempo é uma coisa estranha. andamos sempre encravados nas suas roldanas. mas no alinhar dos ponteiros. na hora de todas as verdades. percebemos que a carne foi comida e os ossos estão presos por um fio pobremente coberto por uma pele enrugada. engelhada. encarquilhada – é o desânimo. o corpo cai no silêncio e o desespero é agora uma folha de jornal de um ano que já não temos em memória. as novidades velhas. passadas. gastas. amarrotadas. as palavras comidas pelos ultravioleta. pelas intempéries estão agora rasgadas e quando queremos reler um pedacinho de uma história esquecida é tarde. tudo está desaparecido no tempo para sempre – o desespero de nada serve. o terrífico não tem remédio. resta-nos a resignação – paramos então pela primeira vez no tempo certo. o tempo da meditação. da reflexão. arrastamos o certo à coluna da direita e o errado à coluna da esquerda. o deve e o haver. e as contas são agora feitas com a ajuda dos dedos: e vai um. e vai nove. e vão sete. e vão sete e tira um. e tira nove e tira dois e tira três e a verdade do tempo consumido não necessita da prova dos nove – agora só me resta fazer um acordo de cavalheiros com o tempo. amarrar nas recordações. ano por ano. uma a uma. sem pressa. sem prazo. e voltar a descobrir tudo com um novo olhar. um novo toque. um novo sentir. um novo saber. e a sensibilidade a exigir sentimento para conseguirmos restaurar o que sobra das memórias que deixamos escapar – calmamente. reconstruimos as cores. as palavras perdidas. os abraços esquecidos. os afectos. os cheiros. os lugares. e os olhos nos olhos voltam finalmente a dizer coisas em silêncio e o tempo deixa de ser tempo humano. tudo é inexplicável à luz da física e tudo é agora presente. e o tom da pele. a voz. o riso e até os nomes voltam a ter sentido. e o farol acesso. e o caminho é a ponta do dedo a dizer: nós somos dali. dali mesmo. onde tudo se explica pelo amor – é possível restaurar pedaços de tempo. recuperar parte do que perdemos. mas infelizmente nada será como dantes. como com a gata borralheira. à décima segunda badalada a carruagem volta a ser abóbora e o sapato de vidro perdido na correria do tempo nunca mais encontrará o seu pé – demoramos anos a carregar coisas para dentro de nós. e o corpo a abarrotar de saber. sobranceria. vaidade. de palavras. de tanta bugiganga que sabiamente encaixamos em espaços ínfimos. e tudo é ouro e tudo é valor. e tudo é nosso para sempre – mentira que a crueldade do tempo no dia certo faz questão de mostrar com dor. de um dia para o outro tudo é um vazio. um deserto onde o único sentimento que sobrevive é o nosso arrependimento – há partidas que nos deixam vazios para sempre. restam-me as palavras que ficaram por dizer. estas. ocupam agora todo o espaço que há dentro do corpo – agora sei que ainda sou. sou uma luta contra o tempo e abrigo uma vontade enorme de um dia partir sem uma única palavra por dizer



nota de autor – “o que a Bíblia já sabia…” texto dedicado pela minha companheira vânia lopez ao meu texto “ainda sou” – em gratidão escrevi este meu texto / comentário – obrigado vânia pelo teu excelente e carinhoso poema – há entre nós uma estima que apenas o sagrado das palavras compreende



o que a Bíblia já sabia...


ah, se eu pudesse
desfronteirar o verbo e o profano
semicerrar os olhos no apocalipse
amansaria léguas de bem querer
de seus lábios que reclamam
e fazem crer em Deus novamente


ah, se eu pudesse
ensinar a memória das palavras
na rota da tua boca messalina
viver o tamanho de um isso
escondido no meio do ar
fazendo o violino cantar
até que dele possa tirar o último sorriso


ah, se eu tivesse
a sacra palavra
como hóstia na língua
confessaria em uma folha de papel
coisas esquecidas


falaria alto junto ao guia das ruas de São Paulo:
“Arrume todas as nossas coisas,
é hora “de fazer cumprir a lei”




vânia lopez


25/08/2012

chove feio




bia





a chuva e o frio entranharam-se-me no corpo – em frente. a janela entregue a uma pelicula de água escorregadiça deixa passar suavemente a noite feia batida a vento – chove feio – não há forma de escapar a uma noite feia com uma chuva feia. ficamos então também feios. ficamos inverno. as mãos gelam e o coração começa a bater em retirada para um agasalho tricotado de silêncio – e todos aqueles que partiram estão de volta – falta o pingo no nariz. as meias de lã. e aquele esfregar das mãos. uma e outra enrodilham-se. cruzam-se. esfregam-se. fazem calor. suportam-se e partem cada uma para seu lado – retomo a escrita. acelero as palavras. e a rábula da cigarra e da formiga ganha um novo feitio – sempre gostei mais da cigarra. arteira. manhosa. astuta. esperta. atiçada. enfim. com todos os predicados para um dia poder escrever um livro sobre as suas memórias – então. para afastar a maldição das noites de verão feias escrevi este desabafo nocturno a que lhe dei o nome de “chuva” – a minha interrogação é se o título não deveria ser “chove feio” – também eu me sentia feio e mergulhado em chuva



* texto em forma de resposta a um comentário da colega mabreu ao meu texto postado com o título de "chuva"




24/08/2012

chuva




leonid afremov




hoje. na minha cidade chove feio. tão feio que parece inverno - e eu dentro desta chuva feia - a fortuna é que fiz de formiga. amealhei um pouco de sol na altura certa - e a cigarra o que estará a fazer? não sei. talvez a amealhar chuva para quando vier o sol - veremos. mas tenho um palpite



salomão




nicolas poussin - julgamento de salomão




nada será igual – não tenho dúvidas de que o silêncio faz de mim uma melhor pessoa - hoje. este silêncio que me habituei a ouvir disse-me de uma forma crua o que já sabia: não há boas famílias sem grandes sacrifícios. não há bons filhos sem grandes sacrifícios e não há bons íntimos sem pequenos sacrifícios - saber escolher o mais certo é fundamental. não basta inteligência. não basta ser melhor. não basta  abraçar. não basta rir. não basta coisa nenhuma destas sem que venha acompanhada de bom senso. tino. siso e principalmente gratidão –  não se pode ter o sol na eira e chuva no naval. a vida não é uma festa diária. nem o telhado de um lar cobre o mundo inteiro – em nossa casa somos sete á mesa. sete pratos. sete copos. sete cadeiras – o setembro está aí







08/08/2012

e assim comecei a escrever




tolstoi. pintado por nicolai ghe




escrever foi a minha maior descoberta. tão importante como o fogo para o homem pré-histórico [reforço. para mim] – a partir do momento em que comecei a escrever. ganhei voz. corpo. volume e trouxe finalmente algum descanso ao silêncio-barulhento que habitualmente habita e partilha comigo este pré-cadáver – no entanto. este ruído que só eu sei ouvir. não para de me lembrar que por mais palavras inventadas. fabricadas. engendradas. ou seja lá o que for mais. este não silêncio terá sempre o seu lugar cativo no meu desespero. mesmo que eu teime em tornar a minha descoberta na solução de todos os males – bem sei que sou ainda egoísta. interesseiro. talvez até mau carácter. pois escrevo sobretudo a pensar em mim e para mim – mas isto está a mudar aos poucos. um dia destes. acordo diferente. não sei se perdido ou encontrado. passarei a escrever tudo o que deslindo nos outros e nada. mesmo nada. do que esta carcaça guarda [penso que isto não é possível, mas vamos fazer de conta que é] – por isso digo para mim. escritor de meia tijela. escrever é um ato de desespero onde a minha verdade se acorrenta às palavras transcritas para papel – escrever é fazer sobreviver um corpo muito para além de uns lábios que só sabem beijar para saudar. dizer obrigado. estou feliz ou ainda bem que existem – adoro este falar silencioso das palavras – ainda não há terra à vista. mas o tempo corre sempre a favor dos náufragos. quanto mais tempo conseguir manter as palavras à tona da água mais hipóteses há destes textos sobreviverem ao seu autor





nota de autor - e assim comecei a escrever o que seria um comentário de duas linhas – mas a escrita tem destas coisas. amarra-nos pela exultação e pela gratidão e pronto. já nada nos consegue parar e vamos por aí fora de linha em linha afortunados por fazer parte deste mundo fantástico das palavras – o amável comentário do meu colega sommerville ao meu texto “ainda sou”. fez o restante – as linhas começaram a aparecer uma atrás de outras. concluindo que para sobreviver neste mundo da escrita amadora é necessário haver leitores – assim vou escrevendo



06/08/2012

ainda sou




jean-michel folon




5 de agosto e tu sentado nas traseiras da casa na aldeia. rodeado de gente em dor – mais um ontem passou sem que a vela fosse acesa – nos ouvidos guardo ainda o som do último beijo de parabéns que te entreguei – com os olhos desarrumados pelo tempo tentei encontrar um pedaço de ti quente onde deixar o calor dos meus lábios. estavas gelado. desaparecido na escuridão do corpo e já não conhecias nada do que era teu – eu era teu. ainda sou – estávamos os dois dispersos. tu pela doença e eu a fingir que tudo não passava de um resfriado – as palavras trémulas já não remendavam a mentira com que cantamos esse feliz aniversário. com muitos anos de vida e muitos amigos – todos sabíamos que seria o último ano. menos tu. tinhas sido pilhado do saber – parabéns pai. cantarei em silêncio sempre o teu dia até que também me pilhem as recordações que de ti guardo – às vezes imagino que chamas por mim. e eu vou…



03/08/2012

02/08/2012

carne. lembra-te que és mortal - I




     pintura de 1894 intitulada 'o cadáver',
exposta no museu alemão da higiene em dresden
– não me foi possível identificar o pintor

1.
este mundo não me larga e eu sem saber o que fazer com tudo o que está dentro dele – acredito na morte como grande libertação do corpo. como dizia hamlet: “a morte é um sono sem sonhos” – não há nela nada de trágico. o destino certo de quem nasce é morrer – a morte é também descanso. serenidade. calma. silêncio. sempre gostei do silêncio calmo – faz tempo que não tenho esse silêncio calmo. faz tempo que não tenho onde deitar a cabeça. faz tempo que não tenho um sono inteiro – há uma coisa na morte que me aborrece: aparece quase sempre sem avisar. disfarçada de desastre ou doença. como se não houvesse outras formas de levar o corpo – não gosto deste formato de levar o corpo. soa-me a cobardia. deslealdade. traição. ninguém merece morrer assim. rápido. ninguém merece morrer com o corpo em ferida. ninguém – depois da voz morta sei que já não será possível reclamar. protestar ou escrever um manifesto anti esta forma de morrer – protesto em vida. bem sei que já não é uma vida plena. uma vida de forcado. com o barrete campino caído para sul. peito para fora. mãos na cinta. pés a arribar. enquanto os olhos emparelham com os gestos e a voz engrossada pela inconsciência desafia a morte. e os pés para trás e para a frente. e o peito a arfar de força e as mãos a fazer ranger os ossos da cinta de sobrançaria. e o desafio sem contar o tempo por ter a certeza de que a morte só traz glória – mas o tempo passa. mesmo que no pulso a ampulheta seja agora um pilha automática. capaz de fazer reverter qualquer pedaço de tempo que não seja real. e os ponteiros rodem então em sentido contrário ao do relógio e 2012 já não existe – estou na idade das trevas. acusado de bruxaria por fazer desaparecer o medo da morte de todos aqueles que viveram tempo suficiente para desistir de rezar – enquanto a água benta tenta apagar o fogo que me consome a alma. grito bem alto. para que fique cravado no tempo que ainda há-de chegar. que a morte é insolente. mal cheirosa. víbora. ingrata. sim ingrata. porque precisa de gente viva para poder sobreviver – só há morte porque há gente viva. e sendo assim. a morte deveria levar os corpos com dignidade. morrer de corpo são. sem dor. sem arrependimento. sem aquela sensação de que perdemos a vida e não somos também merecedores de uma morte justa – o direito à vida é também o direito á morte. porque a morte faz parte de a vida – viver deveria ter esta opção. principalmente quando percebemos que o que fazemos é já uma subtração ao que conseguimos somar – partiríamos então em paz e sem sermos banidos do céu ou excomungados por uma sociedade que se limita. na maior parte das vezes. a ver morrer – deveria ser permitido que cada corpo escolhesse o dia da sua partida


continua




31/07/2012

santos. anjos e bicicletas




ticiano




houve tempos em que acreditava em deus - era criança. e por cada pai nosso rezado. ao cair na cama os sonhos apareciam feitos de fé. o sol despertava com tanta força dentro do corpo que o pecado era não aproveitar a esperança da água baptismal – acordar sem pecado e crescer para pecar - hoje não acredito em nada e quando digo nada é mesmo nada - deus foi desaparecendo com os ciclos contínuos do nascer e morrer dos dias. e com ele os santos milagreiros. o advogado dos dentes. o dos cravos. o das causas impossíveis. o da memória. a da trovoada e mais uns quantos que por nunca ter precisado deles acabei por abandonar – mais tarde acabei por esquecer os anjos. o primeiro foi o anjo da guarda. ao deitar costumava rezar sempre três orações. três vezes a mesma. por ser pequena e ficar com medo de que uma significasse pouca fé para um anjo que se queria sempre alerta aos perigos diários que um catraio sempre é capaz de fabricar – confesso que na altura tinha medo de zangar o anjo da guarda. era um anjo importante. aparecia em todos os livros da catequese. e mesmo nas igrejas estava sempre presente na maior parte das telas pintadas a óleo. preenchia as paredes ao lado de todos os santos e na minha igreja estava mesmo ao lado da nossa senhora. num dos altares mais importantes de oração – ainda me recordo de ouvir dizer em casa um provérbio que sempre me deixou a pensar: ao menino e ao borracho põe deus a mão por baixo – eu queria ter este deus por perto. queria ter o meu anjo da guarda a meu lado. precisava deles. precisava de crescer devagar e em segurança. não os podia zangar. porque zangados podiam atirar-me abaixo da bicicleta que um dos meus amigos me emprestara. e se então partisse a cabeça destruía a esperança de que o meu pai. mais tarde ou mais cedo. acabasse por me realizar o sonho de ter uma bicicleta só minha. uma onde eu pudesse pedalar para lá dos montes da minha cidade. eram altos para a idade que não imaginava sequer que tinha. mas não me saía da cabeça nunca poder subir ao cimo daquelas colinas com a minha bicicleta – mas as pernas não paravam de crescer e eu sempre a rezar. sempre a fazer o correto. sempre a tentar ser justo. sempre a ver os defeitos e nunca a valorizar as virtudes. queria ser todos os dias melhor. queria crescer. queria ser livre. queria ser dono da minha vontade. queria ir onde o corpo me quisesse levar – não adianta rezar quando deus não te quer ouvir – nunca caí abaixo da bicicleta. mas também o meu pai nunca caiu abaixo daquele medo que hoje sei que era amor – acabei por morrer de tristeza. ainda hoje estou morto desta tristeza – talvez para os filhos o melhor seja mesmo morrerem a pedalar de felicidade – aos meus filhos dei-lhes bicicletas. sei que tudo é ainda igual ao meu tempo. a única coisa que mudou foi o tamanho dos montes. hoje são muito mais difíceis de transpor. as estradas são mais perigosas. mais artimanhas. mais curvas. mais tudo que por ser mais velho já não tenho a certeza do que seja – mas nem tudo é pior. em contrapartida vou atrás a empurrar. a pé. mas feliz por os ver em cima das minhas bicicletas


-

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia

-

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia

-

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia




18/07/2012

dia zero




antónio gisbert




O tempo vai mudar – sinto. sinto porque sinto. sempre senti tudo na vida. e o tempo deu-me razão – sinto – talvez me corra nas veias algum sangue de nostradamus. ou então sangue cigano. e a sina não se encontra na leitura das mãos mas na forma como a vida me entra pelos olhos. pelos ouvidos. pela pele. pelo cheiro. pela boca com que beijo os corações que batem ao pé do meu – sentir é saber – eu sei. sei pelo o olhar. o pestanejar. o tossir. o mover do pescoço para o lado esquerdo. quando o normal é virar para a direita. a mão que entra no bolso. o olhar para o chão. o sorriso que não o é. o sim de não assentimento. o limpar os óculos. e todas as palavras que não servem para coisa nenhuma nem os cinquenta dicionários que guardo na memória de um relógio que nunca parou de trabalhar. que bate um tic tac que é um coração a rasgar a carne. tentando chegar à superfície para respirar – tudo o que me transmitem serve para fazer do amanhã uma certeza inalterável – sei tudo o que sinto. sei que sinto e não sei dizer como o sinto. nem porque o sinto – e o corpo reclama a paz. o vento. o perfume. o futuro incerto. o dia sem fantasmas. e tudo o que parece sombra é afinal o sol a crescer num horizonte que está por detrás de mim – e sinto. e sinto mãos. e sinto os sinos a tocar. e as velas a gotejar cera por um pavio que ainda arde e a luz trémula corre por uma brisa que não é certeza – sinto. sinto se estou só. sinto ainda mais se estou só com os meus eus. e por não estar também sinto. e tudo o que é sentir é arrastar à força o amanhã para hoje. e o sofrimento vivido duas vezes. e o choro ouvido duas vezes. e a dor contínua entre o que sinto pela antecipação e a dor feita certeza porque finalmente está no centro do corpo – e a razão satisfeita. orgulhosa de tanto saber – sinto. sinto a história que construí à minha volta como se fosse uma corda de enforcado – chegam os amigos. os inimigos. os cães. os pássaros e até os deuses de uma mitologia que não serve para nada – resta-me a certeza de que o hoje é a verdade. sou hoje porque vim de ontem e o ontem chegou não sei de onde. talvez do corpo que me trouxe ao mundo e deu rigidez ao que sou. porque sou e nada posso fazer para que não o seja – sinto. sinto um corpo que teima em ver defeitos até nas dobras da pele que cobre a carne que sempre me cheirou a podre – mas não pedirei nada a ninguém. nem ajuda. nem mar. nem água. nem sequer um ombro para chorar – nunca o fiz. nunca o farei – os amigos servem para rir. para ser o que não sou. para dizer que tudo vai bem. para enganar o copo de vinho fermentado em pipos de madeira protegidos pelo sarro da vida – gosto da morte. nunca percebi o motivo porque os homens choram os homens que optam por morrer – morrer é descansar. morrer é sossegar os amigos. morrer é deixar um abraço de felicidade em quem conhece o sofrimento de um homem enganado pelo tempo – jamais pedirei conforto. nunca o fiz e nunca o farei – aos amigos não os quero nem no funeral. a terra cairá da pá do coveiro e no final. depois de bem calcado. talvez um punhado de ervas aromáticas resolva a existência do meu cheiro em vida





14/07/2012

quimera




kent williams




escrever é para mim muito difícil – gostava de trazer as palavras para a boca com mais agilidade. mas não. tudo é tão duro. tão complicado. tão vermelho. tão sangue. tão sofrimento – leio. releio e tudo merece ser rasurado. riscado. rasgado. rompido com o corpo que quer escrever – depois chega um leitor e o desespero metamorfoseia-se e a calmaria volta a anunciar esta vontade de escrever   



13/07/2012

mnemosine




almeida júnior




mas na verdade eu queria mesmo era falar contigo. dizer apenas um olá. um bom dia. um como está passando? e os sorrisos? encantados como sempre – e então quando tomamos um cafezinho naquele botequim feito de palavras? estou ansioso para te mostrar dois verbos novos que encontrei a fazer uns arrumos à vida que já passou - irias gostar de os conhecer - estavam amarrados a dois adjetivos que nunca adjetivaram coisa nenhuma – confesso. eram tão maus que nunca os levei à rua. acabaram por ficar esquecidos - o tempo passou e agora tudo é diferente. estou mais velho. e o cheiro das palavras já não é igual - no passado estava mais à procura de coisas novas e agora quero achar tudo que é velho dentro de mim e não encontro - não guardei nada da vida. os beijos foram esquecidos. os abraços perdidos. as pessoas foram morrendo dentro de mim. e a saliva presa ao céu da boca rodando de um lado para o outro e eu sem encontrar um lugar digno para poder cuspir esta azia que me vem de dento de uma moela seca - e o verbo era é agora o começo de uma história - era uma vez um abril - era uma vez um dia com uma nuvem tão louca que sugou toda a água do mundo. e todos os peixes se fizeram pássaros. e todas as flores se fizeram sonhos. e tudo que era mundo era afinal um pontinho num espaço que nenhum mês do ano sabia que existia - era uma vez eu e mais tu e mais os teus amigos e os meus amigos e os teus vizinhos e os meus e o teu mundo e o meu mundo e tudo é mundo e nós somos mundo e em cada pedaço de mundo. um mundo mais completo - nunca esquecerei mais nenhum segundo do mundo - escrevo cada sorriso. escrevo cada momento. escrevo mundo




* comentário a um texto da vânia lopez que. carinhosamente. faz o favor de ser minha amiga preenchendo os silêncios da escrita com palavras de incentivo ao meu louco amadorismo de tentar escrever



09/07/2012

desambiguação




asako eguchi




volto a face para sul. é para lá que correm as gaivotas – no norte sobrevive ainda a macieira do pecado. mas a serpente cresceu. e um dia transfigurou-se em homem-pássaro. pássaro-liberdade. pássaro-mar. pássaro-palavra – fez-se gaivota. cinzenta. malhada. e dona de tudo o que é imenso: mar. sal. vento. e a falésia sempre a gritar por um nome que desconhecia e no eco. o aparecimento de um novo mundo a dizer: voa. voa – todo o homem é feito de pecado – e os sonhos realizados. e tudo cada vez mais azul. e a estrela do mar subiu ao céu. e a água a ir e a vir. e a areia a receber as pegadas do homem que se purifica com a primeira onda da manhã – ilusão – penso. pensar é fundamental para quem gosta de escrever – penso. e tudo é reboliço por dentro. e para fora só o movimento dos olhos na procura de um papel em branco – depois. escrevo nada. isto é. não sou capaz de escrever nada do que sinto e dentro de mim tanta coisa por dizer – não basta pensar para escrever. não basta levar o pensamento às mãos. há um sentir particular dentro de mim quando penso. ou talvez seja o contrário. é o pensar que me traz este sentir e juntos fazem-me ter medo de esquecer tudo o que sou no momento – quero guardar numa folha este homem que ninguém conhece – não sei se deva –  é esta a melhor maneira de guardar o que só os meus eus sentem quando penso? não sei – homem real. homem pecador – mas sinto. sinto um sofrimento por não saber escrever o que sinto. se soubesse. se soubesse tirar o meu coração para dentro das mãos – não sei. não posso. não sei – e as mãos sempre revistas. e os olhos a pedir para escrever tudo o que viram por dentro e por fora. e o corpo trémulo por cada palavra caída de dentro de si – sinto. sinto esta coisa de nunca ser eu quando escrevo. e tudo o que tenho para escrever não interessa a ninguém a não ser a mim – homem desapontado – que falsidade. que injustiça. que angústia. se tudo o que tenho é dos outros. se tudo o que sou é o que sinto. o que vejo. o toque da pele com pele. o beijos. os sorrisos. as lágrimas. e as vozes. as vozes que guardo nos ouvidos e os abraços que de tão apertados quase me silenciam a respiração. e as mãos amarradas a todas as mãos. como se todos fizéssemos uma corrente de ferro capaz de amarrar o mundo dentro do meu corpo – sou tanto neste meu silêncio imperfeito de palavras por dizer – e o mundo dos outros sempre a carregar-me as costas com coisas. e tudo parece nada. e eu a colher. e o tempo a passar. rápido. acelerado. brusco. sem piedade. e agora já tudo parece tudo. e eu a colher e a filosofia é sofia e kant a dizer que a “missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem” e sempre que penso não sou nada porque tudo é tanto para saber. e eu cada vez mais distante de ser homem. de ser saber.  e ele volta a dizer: “a felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação” e eu cada vez mais infeliz porque tudo o que vejo é tudo menos imaginação – o que vejo é tudo. e o corpo tão pequeno para tanto. e nunca descanso. nunca durmo. e o cérebro sempre a pedir mais espaço. mais saber para me fazer feliz e no mais de tudo o menos de saber viver com o que tenho. e tudo anda. e o corpo pede. e o cérebro exige. e mais uma chave no molhe de chaves. e mais uma porta a abrir dentro de outra porta. e outra. e outra. e tudo confuso e cada vez menos chaves para abrir tantas portas. e a confusão. e a loucura. e a dor. e os gritos que só dentro se ouvem. e depois uma janela voltada para os quatro pontos cardeais. e as asas sempre a querer mais vento para se manterem no céu em labaredas. e eu de cabeça no ar e tudo dentro de mim a ficar cheio com tanto do mundo. e os olhos em compaixão. e a boca a ferver. e a tinta da caneta seca de tanto pensar e nada escrever - sou tanto dos outros que de mim já só os ossos são duros de roer – o meu mundo é dos que me sabem ler



26/06/2012

cronos




tamara lempicka




arranquei os olhos e guardei-os dentro de uma lata à prova de dor. à prova de som. à prova da luz. à prova de mim – sentei-me de costas para a vida e ali fiquei. a ver-me pelos buracos dos olhos – pousei as mãos em cima dos joelhos. armei os braços. e encostei o pescoço ao peito – ouço agora o coração. não sei se bate depressa ou devagar. não sei. sei apenas que bate – sempre pensei saber tudo sobre o bater do coração. mas enganei-me. perdi-me por partes do corpo que. sem saber. não serviam para nada. cresci em dias que corriam. onde fabricava palavras para justificar a vida que desperdiçava – enganei-me com o tamanho dos dias. mingam dez vezes mais depressa por cada segundo mal gasto – e o corpo sempre a crescer. só os pés não cresciam e o equilíbrio mais difícil. e o coração a bater sorte. azar. sorte. azar. sorte. azar. azar – a face a mudar a cada sorriso perdido. com gente que também acabei por perder. e a barba a crescer. e a vontade de ser cada vez maior a matar a razão de cada coisa no seu lugar – o dezoito passa sempre às meias horas – aos meus olhos veio. pausadamente. o motorista. dono do volante. não é dono do destino. e o corpo na paragem à espera da velocidade da luz – tudo é tão rápido – toda a vida é feita naquele ir e nunca voltar atrás – e os travões deslaçados. e o pé a acelerar. e as casas a ficar para trás. e gente a vir e eu sempre a ir. e as paragens aos gritos a dizer: sai aqui. sai aqui. e a mão na campainha a pensar: toca. não toca. saio. não saio. e dentro de mim nenhuma voz a dizer: fica. fica. ainda há tanto para viver – e o lugar certo das coisas não existia. e todas as estradas vão dar a roma. e o céu cheio de estrelas. e o mar com gaivotas livres e com as asas do tamanho dos meus sonhos. e a liberdade disfarçada de coisa nenhuma e tudo o que faço está bem feito. e tudo posso fazer. e tudo eu sou. e a força superior ao sansão e o cabelo cortado à máquina zero – e o corpo a correr para a frente. sem medo. sem pensar. sem destino. em juízo. sem nada.  e a vida era feita de gente imortal que comigo corria e gritava: somos eternos –



20/06/2012

sr. antónio




 
antónio lobo antunes




não é fácil responder ao teu comentário. nada fácil – faz já algum tempo comprei o último livro de crónicas do lobo antunes. este traz emparelhado com o papel um cd onde se pode ouvir o autor a ler algumas das suas crónicas – quando o ouço tudo se transforma. tudo é desarrumação. confusão. agitação – aquela voz rasga-me os tímpanos e o desgosto aparece: não sei escrever – agora também tu sabes o que ouço nas viagens solitárias. quer dizer. nas viagens que eu e o sr. antónio fazemos – não o trato por dr. porque sei que ele prefere ser tratado por sr. antónio – e as histórias gravadas dentro do meu corpo correm com o cd. sintonia e sinfonia. e tudo é orquestra. e tudo é música. e o absurdo sou eu a viajar dentro de uma outra viagem – a viagem é conhecida. uma parte do corpo em alerta. enfrenta as curvas com as mãos no volante e o ouvido na convicção de que a voz do cd não mudará nunca e por cada segundo falado a certeza das tossidelas. das hesitações da voz. das pausas  e até o ruído de fundo das ambulâncias a vozear por socorro – há milagres que não sei explicar – e é aqui que recorro à fé com que me ensinaram a crescer – lourdes. a minha segunda mãe. nome herdado da nossa senhora de lourdes francesa. sempre manteve uma amizade intensa com o divino e seus seguidores – não há anjo ou santo que não saiba que ela existe e não há noite que entre um pai nosso e uma avé maria. não caia aos pés de um canonizado um pedido de protecção divina contra os males do mundo: - - há lá em cima alguém que toma conta de tudo o que se passa aqui em baixo. mais tarde ou mais cedo tudo se paga aqui na terra. os milagres só acontecem aos crentes – quase sou crente – incrivelmente o milagre acontece. de cada vez que ouço uma narrativa sou resgatado da mediania. e as palavras agitam-se. alteram-se. agigantam-se deliciosamente invadindo cada poro da pele em bicos de pés. tão harmoniosas. geométricas. sincronizadas. como se fossem um bailado russo a fazer lembrar rudolf nureyev. e tudo é agora novo – há um novo sentir das palavras. uma nova descoberta. um terraço onde o fim do mundo fica adiado – e aquela voz serena. mansa. pacata a fazer desarrumação  – afinal há outras vidas para além da vida gravada naquela rodela de tecnologia – afinal ainda não ouvi tudo o que tinha para ouvir – será que alguma vez serei capaz de ouvir tudo? não creio – lobo antunes é como o labirinto de creta. quando entramos dentro do seu texto somos devorados por um novo minotauro. este lusitano – e há um homem com raiva de não saber escrever. este silêncio que ouço enquanto o ar desce aos pulmões para trazer mais um abundar de imagens feitas ao segundo pela força da vontade de trazer a vida dos simples ao conhecimento – ai se eu soubesse apanhar este silêncio escrito pelo antónio que separa a palavra do parágrafo. da vírgula. da interrogação. da exclamação. e o meu corpo a tremer – e ele continua a falar. e eu ali. escutando o que nunca tinha escutado. e a felicidade presa à dor do belo e a comoção feita na descoberta de um novo caminho para cada leitura – quando ouço lobo antunes sei que perco uma parte de mim. é como se me arrancassem um pedaço do que sou para me ocupar com um pedaço do que é o antónio. e dentro de mim vive agora aquele desespero da descoberta de não saber escrever – hoje quando entrei no automóvel lembrei-me do teu comentário. não resisti. e lá fui a ouvir o meu amigo – ele não sabe. nem nunca saberá que por braga há um corpo preenchido com pedaços das suas palavras – obrigado cleo* –





*este texto serve de resposta a um comentário muito simpático feito pela minha colega de escrita – cleo / lurdes dias – a um texto postado por mim num site dedicado à escrita




13/06/2012

a morrer do mundo




 
pedro américo




como é que um homem deita o corpo a descansar se o descanso está a falecer – tudo o que vejo é apatia. tudo o que sinto é desespero. tudo o que faz cor dá negro – tudo está falecido antes de estar – e olho. e volto a olhar. e tudo está a desaparecer. até a luz. ainda hoje pela manhã era dia aberto e agora já é noite – quer dizer. ainda não é. mas já se faz anunciar – e rodo para norte o corpo. e depois para sul. sem saber como sossegar – entre mim e o nada  uma flor. desgostosa. desamparada. desprotegida. sem nome – nunca soube o nome de flores. talvez seja um girassol. um jacinto. uma  estrelícia. uma papoila. ou uma rosa – não interessa o nome dos que estão doentes. afinal está murcha. está a falecer. talvez falta de chuva. não chove dentro das casas. ou então. talvez seja falta de pessoas capazes de trazer a água do céu para casa . não sei. se soubesse talvez pudesse ajudar. mas não sei – sei tão pouco da vida – estou somente capaz de observar as coisas. sinto-me estranho. esquisito. talvez não venha de mim este mal-estar. talvez sejam os outros a fazer de mim um homem sem certeza na vida – para ser sincero não sei. eu estou igual. sempre fui pálido. com olheiras. lábios gretados. e a cabeça sem saber para que lado tombar. sempre me senti a falecer. sempre olhei mais para o passado do que para o futuro. aquele é certo. e no futuro há sempre homens a olhar para longe – agora tudo mudou. não há futuro. e as pessoas falecem antes do reconhecimento do óbito. e já não há gritos porque não há corpos para chorar. e já não há flores porque também estas já faleceram antes dos corpos. e já não há campas abertas porque o coveiro faleceu no dia em que lhe roubaram a pá. e já não há missas porque o padre faleceu antes de deus mandar o seu filho à terra para falecer por gente que não vale coisa nenhuma – também deus já sabia do falecimento do seu filho mesmo antes de falecer. e cristo também sabia que tinha nascido para falecer numa cruz feita por homens que nunca trazem água para as flores doentes e sem nome – todos querem um pedaço de tempo a qualquer preço – e tudo seca quando as nuvens não carregam água. e judas sabia que só o falecimento do filho do criador daria sentido à sua vida. e a vida está cheia de gente que só aparece com corpos a falecer – as moedas de judas só entram na narração para criar enredo. faleceu para ficar na história. faleceu pela ganância. e nunca ressuscitou. e nunca soube o nome de uma flor. e nunca trouxe água na palma da mão. e o mar morto infestado de sal não deixa o corpo desaparecer. e o mal sempre à tona da água. e o homem também – só não sei o que vou fazer ao meu corpo para o fazer descansar. estou numa história que não é minha. não consigo dormir. não consigo amar as vozes que reconheço. não consigo sossegar. e tudo dentro de mim está cada vez mais distante do mundo dos que ainda não faleceram – quando era novo sabia tudo e agora nunca sei nada. talvez esteja a falecer também das ideias – e o mundo anda. e eles mandam o mundo andar como se o pão sobrasse pela falta de bocas. e uns comem. e outros olham.  e a chuva parada entre o céu e a terra. e os pássaros com asas de cera gritam pelo nome da santíssima trindade e moisés às gargalhadas. não há terra prometida. nem vida depois da morte. e a igreja falecida manda rezar. e o comunismo falecido manda gritar. e o capitalismo falecido manda roubar. e as doutrinas na mão de gente que nunca faleceu por nunca ter nascido para a vida das flores sem nome. dos pássaros. da chuva. das manhãs feitas de sol. da juventude. dos doentes. da mulher esperança. do pai de mãos ásperas. da justiça. da rua verde. da cerejeira. do cão. do abraço. do olá. do bom dia. da história contada à cabeceira da cama ao filho com medo de um fantasma que se chama papão. da estrela polar. e da lua que cresce e minga com os dias que fazem dos velhos gente sábia e respeitada – nunca se ama o que não tem nome. nunca falece o que não nasceu para os olhos. o que não tem rosto – faleço. faleço todos os dias – escrevo para continuar a falecer desta dor que nunca foi capaz de saber viver dentro de um corpo que teima em parecer saudável – um dia falecerá de vez



08/06/2012

de partida




 
joão josé bica
 janela - fotografia 1997
1º prémio acert





deitado no tempo


                                           pouso os olhos

                                                             numa janela acesa de um mar azul gaivota

distal

           os olhos

                        presos a uma braçada de tempo



                                                                        e a mesa fendida sustém a maça

                                                                                         memória

da terra pisada

                         o grito vermelho do inferno

                                                                    amarra-me às raízes de um pardal que não canta

desamável

                  o silêncio da maça

                                               dentro de um mar que nunca deixou de ser azul



do caixilho

                  o encontro da luz que sai com a luz que entra

                                                eu





descubro o belo e o adeus





05/06/2012

nêmesis




   gosha levochkin




sem luz os quadros desaparecem. o relógio de sala deixa de dizer as horas. o espelho passa a buraco negro e toda a vida é sugada para uma espiral de incerteza – eu deixo de ser eu