.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

20/10/2012

para: vânia lopez




amadeo de souza cardoso






para: vânia lopez



a minha parceira das palavras teceu o seguinte comentário ao meu texto sophia:

A simplicidade fala como a continuação de uma música,
mar solto... desejava que não fosse pecado escrever assim:
com o mar solto sem nenhum grampo impedindo a brisa.

mas... 'de costas para a realidade' (é antes de tudo um abuso)
uma disritmia aos olhos de quem lê.
de qualquer diabo: escolho essa tal de simplicidade dos olhos,
por ser absoluto de quem olha.

por hoje obrigada, mas não sempre
porque gosto de mais e mais. beijo





respondi com amizade:



que mais poderei escrever. que mais poderei entregar de mim para dizer que a escrita é uma caneta e um olhar que guarda corpos e objectos num papel – tudo o que é existência é imagem – gosto de sentir. de contemplar. de ouvir. gosto de ver o movimento das coisas e os bancos sós no jardim. gosto da solidão. do silêncio do nomes que não conheço e das coisas com nome – gosto mais do mundo dos outros do que do meu – dentro de mim a ilusão de te escrever tudo o que sinto. o cheiro do meu mar. o sol que cai por uma encosta que nunca subi. o vento sul a roçar as folhas de levezinho e as árvores a gemer como cantos de sereias encantando os pássaros-primavera em campos cobertos de magnólias – escrevo – e os olhos a ver cores que não existem para ninguém. vejo eu porque sou eu. irracional. idiota de um amor impossível – assim sem saber bem como o fazer digo-te: quando escrevo sou eu e os outros podem ainda ver mais longe. as searas estão ceifadas e o fim do mundo é ali. onde o meu dedo aponta. onde morrem todos os que querem ser poetas. ali onde os teus olhos veem com os meus – um mundo que não existia antes dos poetas de verdade – como faço agora para te dizer tudo isto que sinto sem boca e sem arte? escrevo como sei. e o corpo grande está cada vez mais carregado de coisas pequenas que não sei escrever





18/10/2012

para: sandra fonseca





amadeo de souza cardoso






a minha colega sandra fonseca escreveu o seguinte comentário ao meu texto sophia:




- Ainda hoje lí uma frase do poeta Ferreira Gullar que também diz bem do tema desse belo texto: "A arte existe porque a vida não basta". É salvação e vida, diz Sophia.E tão bem nos traduz neste ofício, palavra por palavra, no teu silêncio aflito e ao mesmo tempo encantado diante dessa "felicidade irrecusáve. Nua e inteira." -




respondi agradecido:




é no meu silêncio aflito que encontro um prazer que até há pouco tempo não imaginava ser possível conseguir – não há forma de me reinventar. não há forma de me fazer diferente desta vontade única de continuar a escrever o que sinto – escrever não pode ser um sofrimento sem sentido. tem que ser um sofrimento feliz. como diz e bem a conceição – é esse sofrimento feliz. [sempre acompanhado por johann sebastian bach - orchestral suite nº 3]. que procuro na minha escrita – escrever a cada dia melhor é absolutamente imperioso. pois só assim serei capaz de transmitir com verdade o que vivi. o que vi. o que senti. o que sou e o que gostava de não ser – gostava de me saber escrever no olhar de cada leitor – utopia sim. desistir não






16/10/2012

para: conceição [roque silveira]






amadeo de souza cardoso





a minha camarada da escrita conceição [roque silveira] escreveu o seguinte comentário ao meu texto sofhia:


 "Já eu acredito que há génios dentro de nós nalgum momento da vida, ou em vários; não sei que te dizer sobre os que tens, mas acredito que os mostras cada vez mais a cada dia, a cada texto, que ser génio não é ser perfeito é ter essa capacidade de caminhar, seja na vida, ou por dentro de si e isso é de algum modo felicidade. Eu noto na tua escrita uma espécie de sofrimento feliz. Ah, sempre tive uma admiração pela poesia de Sophia."


respondi grato:


palavra que não sei o que te dizer – sei que não lido muito bem com elogios. tenho medo. obrigam-me a qualquer coisa que não sei explicar. talvez me obriguem a ser melhor. não um não ser melhor. mas um ser melhor trajado a rigor. assim como quem vai a uma festa de gala. na entrega de um prémio. assim uma coisa importante – às vezes penso que sou mesmo muito confuso a escrever. quando tomamos café sou muito mais povo. mais popular. mais arteiro. mais humano. mais sem jeito de dizer coisas – mas há um elogio que gosto de ter. de preferência muitos. às centenas. escritos. orais. sinais de fumo. gestuais. sei lá. tudo o que possam encontrar e que faça o corpo estremecer. que faça os olhos humedecer de timidez. e o cérebro dizer-me que ninguém chora por tão pouco. pára. guarda essa lamechice para as coisas da dor e não da alegria. porque estes elogios são fruto do esforço. numa luta gigantesca entre o que posso dar e o que gostaria de dar – mas sou assim. e a porra das comparações sempre a dizer que ainda tenho que ser mais. e que os outros são todos muito melhores do que estas palavras que encontro para dizer que sou feliz. como nunca fui ao escrever – sou tão feliz que respondo desta forma. não por vaidade. não porque gosto de textos grandes. não porque tenha assim tanta coisa importante para te dizer. respondo assim porque sou feliz ao escrever. porque descobri que esta é a única forma de dizer coisas boas às pessoas que merecem ter palavras boas – sofrimento feliz? sim. sim porque gosto. e gosto porque me define em todos os silêncios que encontro para escrever – sou tanta coisa que não quero ser e o que sou mesmo acabo por não ser – ah que raiva que tenho de não poder escrever tudo o que penso. se soubesse. tenho a certeza de que ficarias mais feliz e eu mais sossegado por saber que disse exactamente o que queria dizer. e queria dizer tanta coisa. escrever-te assim como se estivesse a falar contigo. com os braços a gesticular e o corpo a gemer de um lado para o outro. os olhos a inchar e a desinchar e eu a abanar-te implorando que me dissesses com os olhos que me compreendias. assim como eu me compreendo quando estou lúcido – rais parta este comentário. e eu por aqui sem saber se disse tudo ou se como em quase tudo na vida. me fico pelas metades. o que por esta idade já não sei se é defeito ou a ambição de querer fazer sempre cada vez mais coisas – não estou louco acredita. nem perdi a noção do papel já gasto. estou assim como quem sabe que a felicidade é feita de coisas pequenas. de palavras pequenas. de maçãs vermelhas enormes. e de um mar cheio de gaivotas que por serem donas do vento são donas do rumo que querem dar à vida – eu quero ser feliz. só






14/10/2012

sophia




a. c. delfino




não há génios. nada me dizem as palavras quando de costas para a realidade – todo aquele que trabalha à procura da palavra mais-que-perfeita. sofre – escrevo acoberto de paredes brancas. tudo é branco. tudo menos a abertura da janela. dos olhos – entre o olhar e a luz uma maçã enorme. vermelha e imóvel brilha no tampo da mesa – na parede o reflexo distorce a verdade – sombra – duas realidades. dois tamanhos para um só objecto – na janela o caixilho quadrado guarda um mundo que se quer azul oceano. encoberto por um tule feito a ponto cruz. um círculo sem princípio nem fim. transparente – tudo o que é mar é brilho. tudo menos os barcos à vela pousados num horizonte que a cor dos olhos desconhece – presas ao caixilho quadrado também as gaivotas voam em círculo – às mãos o trabalho. aos olhos a contemplação. ao coração o sentimento – como artesão. de sol a sol. procuro nas palavras o fabrico do belo. faço-o num silêncio aflito que por ser só meu ninguém sabe que existe – há neste escrever “uma felicidade irrecusável. nua e inteira”



*dedicado a sophia mello breyner



nota de autor:

sofhia mello breyner aquando do seu discurso de 11 de julho de 1964. na sociedade portuguesa de escritores. na entrega do grande prémio de poesia à sua obra livro sexto:

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. Eu também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Souza Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.”




09/10/2012

Café Com Saudade




                                                           amora - dila santos





Um dia provei do teu açúcar a leveza na brevidade de um beijo de amor

- iguaria que no céu da boca se derrete, qual estrela de polvilho.




...Como lembrança de uma infância morna, o teu gosto distante visita-me a língua,
à mesa do café.



A xícara também sofre, quebrada na borda.





* amora heterónimo de dila santos – colega brasileira pela qual tenho uma grande admiração pelo modo suave e belo como encontra as palavras para os seus textos – escrita melodiosa que abraça o leitor e o leva a um estado de grande satisfação interior – ler-te é um abraço que não acaba nunca






08/10/2012

hasta la victoria siempre







estamos em guerra – ele comem tudo e não deixam nada - os impostos. as fundações. as ppp. os emi. os desempregados. os tachos - precisamos de um glenn miller para animar as tropas nesta ocupação silenciosa dos políticos – temos que manter a moral em cima – hasta la victoria siempre


05/10/2012

apalavrar




esao andrews




uma agitação dentro do corpo. os órgãos reclamam liberdade às palavras – não sei se alguma vez serei capaz de largar as palavras das mãos sem perceber o que cada uma de mim leva – tenho medo. tenho muito medo das palavras – há tanta coisa que desconheço das palavras. são sempre tão complicadas. difíceis. problemáticas. com tantos sinónimos. a dizer tanta coisa ao mesmo tempo – as palavras amedrontam-me. assustam-me. como quando ouço o vento norte. anuncia sempre mau tempo e o bater das portas não pára. e vão para lá e vêm para cá. e o corpo sem saber o que entra ou sai – sempre que as palavras partem deixo o olhar fixo à procura de ouvidos que as queiram colher. como se colhe o centeio da terra que mata a fome às bocas – e o medo é um novo adamastor feito de palavras que partem com tudo o que é meu. e o corpo em mar navega com terra à vista. em desassossego. inquieto. receoso afunila a esperança para quem as quer colher: adota. não adota – há certezas que desaparecem entre a boca e o corpo de quem escuta. e na caverna auditiva o monstro aparta as palavras. boa. má. boa. má. e tudo é diferente para sempre: deixei partir o que só eu sei dizer e os outros ficaram a saber o que eu nunca disse – não há lábios íntegros nem ouvidos puros – e depois aquela incerteza que trouxe do berço. e tudo sempre tão difícil. e tudo dúvida. e tudo terror. e o dia sempre a puxar para o escuro. e ao longe a nuvem a correr sempre para norte e as mãos sempre pequenas num corpo que quer crescer com as palavras – não consigo descansar desta aflição de saber se escrevo palavras autênticas. a cabeça a dizer sim. as coisas no papel a dizer não – a arte do pregador é falar e a do escritor é escrever. e eu não sei nem uma coisa nem outra – porque me castiga deus com tanta palavra hesitante – a cabeça teimosa a dizer que sim com mais força. e acena. e acena. e as lombadas dos livros viradas para a parede. estou de castigo – um escritor é feito por todas as palavras que escreve. mas eu escrevo sempre poucas. para o tanto que quero dizer – e a cabeça continua a acenar. imagino então que todos são como eu. tolos. feitos de palavras que não existem em papel. nunca nenhum escritor escreve em papel o que lhe cai nas mãos. aquela sensação de calor. a falta de ar. o desassossego. os ossos a partir de cansaço e as lágrimas a escorrer por dentro e por fora. os olhos perdidos do corpo lutam por cada página do dicionário. folha para trás. folha para a frente. da boca um raios partam isto. não encontro sinónimo para a palavra felicidade sem esta maneira de dizer as coisas – e o corpo reclama escrita. e escrevo resmas e resmas de papel para dizer nada. nada que os outros entendam – e a loucura é agora reconhecida. atestado por um médico

- - está louco. já não reage à medicação. não consegue abandonar a obsessão de que um dia todas as palavras terão sentido – façam o favor de internar este pseudoescritor. não esqueçam. colete de forças e sala branca por tempo interminável até que faça outra avaliação do seu estado mental –

sempre que junto palavras invento-lhes uma nova vida. ricas. poderosas. fortes. elegantes. viajadas. a falar francês. inglês. bem vestidas. reconhecidas e sempre a apontar para mim – mentira. tanto quero dizer e no fim do parágrafo o que sobressai é apenas o ponto final – também eu tenho que por um ponto final nesta forma de escrever. tenho que largar as palavras tal e qual como elas me erguem do chão. não posso senti-las de uma forma e depois entregá-las ao leitor de outra. têm que partir sem erosão. sem polimento. sem brilho. sem maquilhagem. têm que partir do que sou. do que sinto em silêncio. quando encostado ao pulmão coloco as pernas em cima do coração. para facilitar a circulação sanguínea. incham-me os pés e com os pés inchados as palavras incham também. e fico com os canais lacrimais entupidos e eu não sei escrever sem chorar – se as palavras fossem choro era fácil. uma música. uma voz e a liberdade do corpo era a grândola vila morena – se as palavras fossem gaivotas era fácil. um dia de sol. um pouco de vento e a liberdade eram asas – se as palavras fossem peixes era fácil. um oceano. uma onda. e a liberdade eram barbatanas – se as palavras fossem saudade era fácil. uma recordação. uma foto na mão e a liberdade era o passado – se as palavras fossem vento era fácil. uma criança. uma praia e a liberdade era um papagaio de papel – se as palavras fossem um homem era fácil. um papel. um poema e a liberdade eram as metáforas – não há liberdade para as palavras que escrevo. elas são eu. e eu estou preso em cada palavra – eu sou a prisão das palavras as palavras as grades da vida




02/10/2012

fantasmagoria




salvador dali




“Só há uma diferença entre um louco e eu. O louco pensa que é sádio. Eu sei que sou louco.” – salvador dali






acontece-me algumas vezes quando escrevo um texto literário. “conjunto de palavras e frases articuladas. escritas sobre qualquer suporte”. chegar ao seu fim sem compreender uma única palavra do que escrevi – o corpo cai em depressão – digo o corpo porque tudo começa a funcionar mal. cabeça. coração. vesícula. bexiga. olhos a lacrimejar. falta de ar. arrepios de frio. mãos a tremer. sensação de temperatura elevada. boca seca. e o número de emergência do inem não me sai da cabeça – agoniado. aguento. conforme posso. sei pelo passado que a solução. na maior parte destes casos. só aparece com o passar do tempo – volto a ler. reescrevo este ou aquele pedaço de texto. corto aqui. retoco acolá. acoplo umas quantas palavras novas e pronto. sinto-me outro. e tudo agora no corpo são olhos abertos à segurança – o tempo e o trabalho cura tudo – mais calmo. mais lúcido e certo de que o meu suporte de vida aguentará até ao próximo texto. caio em mim. percebo que tudo não passou de um momento tresloucado do cérebro. um tipo de loucura estranhíssima que geralmente ataca alguns jovens que escrevem. os que gostam de passar o seu tempo livre a ligar palavras – ainda existe muita falta de informação acerca destas perturbações doentias. de gente que abdica de quase tudo. cinema. futebol. café. tv. amigos. sono. harmonia. etc. – somos quase sempre incompreendidos. a pergunta que nos colocam constantemente é porque insistimos em continuar a escrever o que ninguém lê. o que não serve para nada. o que não acrescenta nada – não é fácil explicar esta necessidade doentia de colocar em papel todas as palavras que diariamente explodem dentro da cabeça. fragmentando-se em mil e uma interrogações que não sei responder – é loucura dizem os mais céticos – começo a acreditar no modo como esta gente nos olha – estes jovens que escrevem têm realmente problemas que inclinam tendencialmente para o grave ou muito grave – estas anomalias ou perturbações patogénicas do cérebro. temporárias ou permanentes. cada vez mais frequentes no meio literário. não foram ainda suficientemente perigosas para que o meio-técnico-cientifico dedicasse mais tempo e meios capazes de enfrentar. tratar ou minorar estas crises de quem quer escrever tudo o que pensa – sabe-se no entanto que um pequeno grupo de cidadãos ligados à área das letras. professores. escritores. poetas. filósofos. pensadores. entre outros. continuam à procura de uma razão plausível para estes devaneios cerebrais – a patologia é o ramo da ciência médica que estuda as alterações morfológicas e fisiológicas dos estados de saúde. as causas estão identificadas. só ainda não foram capazes de reconhecer onde e quando se dá a modificação do gene que faz um homem comum ter um acesso de raiva feita palavra escrita. suficientemente forte para se transformar num texto literário incompreendido até pelo seu autor. quando este recupera o seu estado normal – o que se sabe. segundo os estudiosos ligados a este ramo de desvios. é que estas mutações podem ser causadas por um vírus. ou por erros de cópia do material durante a divisão celular. por exposição a radiação. ou mais grave. por influência direta ou contacto com outros seres humanos que. acometidos da mesma maleita. também escrevem coisas que a maior parte dos humanos é incapaz de perceber – estou em crer que este desinteresse. do corpo científico que estuda problemas do foro neurológico. ao crescente aparecimento de textos que não servem para coisa nenhuma. ainda não mereceu devida atenção – uma das razões que aponto para este “facilitismo” por parte das entidades responsáveis da saúde intelectual pública a nível mundial é a de que até à data não há nenhum ato de violência associado aos criadores destes textos destoantes. impercetíveis. tresloucados. estes limitam-se a levar para o papel um conjunto de palavras que não chega a lado nenhum e ponto final – um neurónio desce pelo braço. mão. dedos e acaba morto no fim de um parágrafo. cravado no peito com um ponto final –




27/09/2012

última oportunidade




salvador dali




um dia. antes de partir. voltarei à minha igreja. aquela que me baptizou para o mundo dos justos – pela última vez. suplicarei ao “meu” deus que aceite no seu reino homens que não tiveram coragem de morrer pregados a uma cruz – estou quase certo de que não obterei qualquer tipo de resposta – o silêncio na sua casa é sepulcral – concluirei que deus é surdo. mudo. e não conhece a linguagem gestual – desconfortável com o próprio corpo. castigarei a fé cega com que animei os sonhos – partirei. invocarei todos os demónios que acolho em mim. cerrarei definitivamente os olhos em frente ao santo que jurou proteger-me contra todos os males. passados. presentes e futuros. tanto da alma como do corpo – não há justiça nos homens que criaste à tua imagem e semelhança – parto. deixo a tua casa com o sabor de uma partida amarga – sossega. não acredito na ressurreição. como diz mia couto “ o que está queimado não volta a arder”






18/09/2012

carne. lembra-te que és mortal - II




sámal joensen-mikines




2.
gosto da palavra partida. não gosto da palavra morte – quando partimos deixamos sempre qualquer coisa para trás que um dia voltamos para encontrar. um livro. uma cadeira. uma história. uma foto com um sorriso enganoso. um sinal que nos descreve por dentro. um gesto calmo marcado por contornos subtis. leves. delicados. feitos de carvão abandonado dum fogo que “arde[u] sem se ver”. e tudo isto guardado num jeito de andar que não é de mais ninguém. de mais nada no mundo. é só meu – gosto da palavra partir porque é vaga. verbo. verbo de ação. onde o sujeito se desloca para algum lugar. ninguém sabe para onde. nem em que direção. mas vai – partir. partiu. partirás. partirei. não importa a forma verbal. gosto da palavra. deixa a ideia de que quando partimos alguém fica à nossa espera num ideal sebastianista – um dia. numa manhã de nevoeiro. estamos de volta. chegamos e tudo estará igual. ninguém envelheceu. e todas as coisas no mesmo lugar inacessíveis às mãos – há gente que parte tão devagarinho que verdadeiramente nunca chega a partir. e as imagens aqui paradas para sempre. os olhos em cima do jornal repousam os óculos castanhos nostálgicos e o corpo a cair para a frente contraria a fotografia na caderneta militar. capa preta. folhas amarelas. ombros em confronto com o quico caído ligeiramente para a frente da vida. a dizer ao bigode à errol flynn que a boca anda agitada pela procura de beijos – tudo são imagens – as pernas a fazer andar o corpo. de uma lado para o outro. um braço para a frente e outro em espera. balança num porta-chaves alfa romeu – calça creme. casaco azul marinho apertado por uns botões de metal dourado forte. e no cimo do corpo. um estupor de um lenço ao pescoço. cheio de cores fortes a dizer que a vida é consumida num carro desportivo de alta cilindrada – à cabeceira da mesa a sombra assenta nos cotovelos. os lábios batucam desespero que ninguém ouve. o silêncio é agora feito num caminho de memórias que já não são o presente e o peito sente os gestos presos às cadeiras. com nomes. estamos todos ali. todos em carne. e o ar dos pulmões cai lentamente para um prato sopeiro vazio e a bucha de pão partida em bocados certos como o número de lugares na mesa – a roupa do dia seguinte à espera na cadeira. camisa engomada. calças dobradas pelas vincas com o cinto a roçar a alcatifa. sapatos bem engraxados e alinhados pela biqueira. cordões abertos em sorrisos à espera dos pés. e depois aquele quadro na parede diz que a vida é quase sempre feita no outono. as folhas mortas no chão esperam por um vento que nunca acontece. e a casa de pedra anuncia vida. a chaminé não para de bocejar fumo que não corre – naturezas mortas de pintores que partiram. sem saber que deixaram a vida parada para sempre em quadros de tabopan – quando partir não quero que a minha vida fique assim parada. não me quero em pinturas com pessoas que não vão para lado nenhum. paradas como o fumo na casa de pedra – quando partir quero virar as costas à vida com a certeza de que para trás tudo fica igual. continuará o movimento. e toda a gente de um lado para o outro a gastar a vida como sabe. falam. protestam. trabalham. sorriem. fazem crescer famílias. amam-se. recordam os que partiram felizes – quero olhar para trás e ouvir os meus dizerem: lembras-te dos kilos de perfume com que aparecia pela manhã. como era teimoso. raio de feitio. gostava daquele casaco preto de bombazine com cotoveleiras de pele castanha. assentava-lhe bem. fazia-o mais magro. mais elegante. havia dias em que nem parecia ele. aparecia tão esticado. aquele cabelo sempre a cair para trás – mas o que eu mais gostava mesmo era aquela mania de que sabia escrever e o like no facebook era obrigatório. de que se esforçava não há dúvidas – quero partir com a saudade a ser a razão da conversa. e as memórias feitas de corpos sãos. corpos contentes. corpos ágeis. corpos sábios. onde o mundo roda porque as pessoas rodam de um lado para o outro com tranquilidade por saberem que quem parte parte feliz – esta gente que roda sem parar ainda não descobriu que um dia também terá de partir – gente que amo. gente nuvem. todos os dias guarda uma gota. e depois outra e mais outra. e o corpo cada vez mais feito de água-afecto. água-amor. água-companheirismo. água-amigo. água-vida e um dia. sem que no horizonte se vislumbre sinal de tempestade. o corpo vai tombar e toda água vai partir em torrente levando tudo o que é alegria. para sempre – não há forma das mãos segurarem esta água. nem a dor de um corpo seco. e tudo o que foi deixou de ser. e o que vem nunca será igual ao que partiu – só o tempo é capaz de amainar o corpo. e o que era enxurrada transforma-se numa linha de água límpida. cristalina. pura. como tudo o que chega ao mundo pela primeira vez caminhando pelos sulcos da pele. de um modo tão suave que mais parece uma bailarina em pontas. a rodar sobre si como se quisesse imitar o mundo quando gera vida e sem que se aperceba chega ao chão como toda a água dos rios chega aos oceanos. e os pés para sempre húmidos – entro na cama. ajeito o corpo ao travesseiro e ali permaneço quieto. o coração bate nos ouvidos. o cobertor tapa o frio do mundo. olhos serrados. silêncio em espera. e quando a voz atravessa o sonho tudo é como dantes. volto a ter tudo o que tinha antes de todas as partidas – como diz shakespeare “um homem que não se alimenta de seus sonhos, envelhece cedo” – o meu sonho é escolher o dia da partida. não quero morrer sem memória. não quero morrer em dor. não quero que ninguém me veja fechar os olhos. ou me abrace em lágrimas. quero partir. partir como parte o vento das janelas – “os covardes morrem mais vezes antes da morte; o valente experimenta o gosto da morte [partida] apenas uma vez" – gosto da palavra partir porque imita as andorinhas. o fim do verão. uma nuvem no céu. uma gota de chuva apanhada pelo oceano. um vento fresquinho. e o bando parte em fuga para uma vida melhor. para o sul quente – a esperança está de volta. novas casas. novos telhados. novos caleiros. novos fios elétricos. novas árvores. frutos sem nome. e um novo mundo. um novo recomeço prometido pela intuição de saber partir à hora certa – gosto das partidas de quem acredita que há um mundo novo à sua espera. diz-se que para encontrar este novo mundo é obrigatório partir pela vontade de deus – confesso que não sei muito bem se assim é. já muitas vezes escrevi que a minha relação com deus não é a mesma desde o dia em que o meu pai morreu. não partiu. morreu como morrem os cães abandonados. cercado de gente branca sem nome. sem memória. sem semelhanças. sem uma mão que o ajudasse a partir como o vento por aquela janela que dava para o mundo das andorinhas – morreu. gelado. sozinho. perdido no escuro. onde a luz não existe. podia ter partido. mas não. morreu. morreu ele e morri eu e tudo o que escrevo é agora pela revolta de saber que não quero morrer assim. nunca. quero partir – junto todas as minha coisas numa mala pequena. uma camisa branca. um casaquinho de lã que me aconchegue o corpo às memórias. uma gravata preta. uns sapatos de sola de borracha porque não gosto de sentir os pés frios. um par de lâminas. gosto de ter um ar asseado. sempre ouvi dizer que um homem de barba bem feita não necessita de roupa. um aftershave. umas quantas fotos. um livro. nem sei bem qual. talvez em branco. assim poderei escrever de novo todas as palavras que ninguém compreendeu. dar-lhes outro trilho. outro rumo. com a caneta mais inclinada para sul. mais sol. mais calor. mais mar. mais gaivotas. mais esperança. juntá-las a outras que ficaram esquecidas nas mãos. e por fim reescrever-me. de novo para dizer exactamente o mesmo. eu só sei escrever o que sou – a escrita não muda o homem. ensina-o a ver-se tal e qual como é – pensando bem talvez alterasse esta mania de escrever na primeira pessoa e passasse a escrever na terceira. diria então: eles pensam que são donos do tempo e depois partimos. partimos sem destino. para sempre – parto. para trás deixo o corpo. fica como sempre foi. grande. firme. hirto. com o cabelo empastado em gel superforte. e o cheiro ao perfume jean paul gaultier a dizer em voz grossa: sou vaidoso. até já. até já. não se esqueçam que não morri. um homem não morre. parte – como dizia lucan “os deuses escondem dos homens a beleza da morte [partida] para levá-los a aguentar a vida” – mas ainda não parti. ainda ando por aqui a desiludir – estou debilitado. desalentado. desanimado. desgostoso. estou exausto. tão cansado que as palavras já não se amarram ao papel. tudo o que penso ou escrevo parte em busca de descanso e o corpo ainda aqui. quase moribundo. e as palavras por dentro a sofrer num lugar que já não conheço. escuro. tão escuro que já não consigo ver com clareza o que dizem – estou desesperado nesta certeza de partir. gostava de ter dúvidas. gostava de estar cortado ao meio. não estou. estou inteiro. firme. pela primeira vez todo eu sou certeza. todo eu sou partida – tenho medo. ainda amo tanta gente – partirei então como uma andorinha. descubro esse outro lugar onde a vida é vivida sem interrogações. sem esta dor que me nasceu num canto qualquer do corpo. eu nunca soube onde e as mãos por dentro a revolver tudo o que sou e cada vez a encontrar menos de mim – estou cada dia mais sozinho. estou cada dia mais parecido com aqueles que já partiram. branco. gelado. lábios colados com cola. ossos partidos. velas. fumarolas. os anjos cantam a canção dos rejeitados: não aceitamos traidores. não aceitamos. não aceitamos – silêncio. e o corpo sem uma única lágrima. coberto por um tule que já não tapa coisa nenhuma. nem desespero. nem revolta. nem raiva. nem saudade. nada. em cima em forma de cruz só a honra brilha como o ouro a palavra foi cumprida. sempre cumpri com a minha palavra. é de família – finalmente o céu dos céus. o jardim dos jardins. o lugar onde aqueles que partiram esperam por aqueles que livremente decidiram partir. a colina dos reencontros – fernando pessoa dizia: “morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada” – eu digo: partir é apenas não ser visto – partir é a curva da estrada



continua




12/09/2012

gula II




nanduxa




depois de escrever o microtexto gula dois colegas que estimo escreveram as seguintes notas:


1.

“Oscar Wilde lá dizia que resistia a tudo menos à tentação.

Mas este assim ficou monástico, misterioso.”



2.

Como nos deixa curiosos assim?!!!
Vou-te deixar um poema de gula, então, para pecar de vez:



Delicioso Pecado


Satânico é o meu desejo
De despir seu corpo
Naquela manhã ensolarada
Tirar da minha boca a fome
Dos seus sabores
Olhando pra você
Enquanto lhe desejo
Desfaço da sua pele
Em suaves descidas
Até que se mostre
Eu lhe mordo a ponta
Até chegar o fim
Do meu prazer
Saciando o mel
Da forma em riste
Da banana que comi
Até o fim!!



não resisti e escrevi:



misterioso? não. nunca – não sou homem de mistérios – escrevo-me em papel para dizer o que não sei falar – escrevo-me em papel para dar mais horas de luz aos dias – escrevo-me em papel para me convencer que o coração tem razão para continuar a bater – escrevo-me em papel porque a escrita é como um analgésico para uma dor que nem sei se existe – escrevo-me em papel porque quando escrevo penso e logo existo – escrevo-me em papel porque as palavras obrigam-me a gostar de mim tal e qual como sou – escrevo-me em papel porque quando escrevo sou muito mais do que homem. sou todos os homens do mundo. sou gaivota. mar. planta. pinheiro manso. musgo. terra. pó insignificante. porque todo o pó é insignificante – escrevi a gula por ser covarde e não saber falar. por não saber contar o tempo. não saber contar as palavras nem perceber o seu valor quando o homem está possuído pelo pecado da gula – escrevi a gula para não arremessar nenhuma palavra de que me pudesse arrepender. e como diz o provérbio chinês: a palavra e a flecha lançada não podem voltar atrás – comi então todas as palavras do mundo. não falei. não pequei – tudo o que não disse. engoli. digeri. desgastei. assimilei e encontrei razões que o coração desconhecia – de homem cobarde fiz-me homem sensato – engoli todas as palavras do mundo e o mundo não deu falta de nenhuma – não existo para o mundo. existo para mim. e é para mim que escrevo [será que alguém entende o que escrevo? não acredito – ainda bem que não há inquisição]




27/08/2012

o verbo e o profano




albert samuel anker




- e que faço agora com o teu pedido. não é justo. mas não é mesmo. sempre a embaraçar a vida do corpo que gosta de escrever – e eu perdido nesta escrita maluca. enfarpelada de roupa esfarrapada -




ainda sou. sou um emaranhado de coisas que nem sei se existem – às vezes não sei ler. não sei escrever. não sei ouvir. fico perdido de mim – quando me encontro imagino que fiquei a contemplar o que já passou. digo imagino porque não sei por onde me perdi – o tempo é uma coisa estranha. andamos sempre encravados nas suas roldanas. mas no alinhar dos ponteiros. na hora de todas as verdades. percebemos que a carne foi comida e os ossos estão presos por um fio pobremente coberto por uma pele enrugada. engelhada. encarquilhada – é o desânimo. o corpo cai no silêncio e o desespero é agora uma folha de jornal de um ano que já não temos em memória. as novidades velhas. passadas. gastas. amarrotadas. as palavras comidas pelos ultravioleta. pelas intempéries estão agora rasgadas e quando queremos reler um pedacinho de uma história esquecida é tarde. tudo está desaparecido no tempo para sempre – o desespero de nada serve. o terrífico não tem remédio. resta-nos a resignação – paramos então pela primeira vez no tempo certo. o tempo da meditação. da reflexão. arrastamos o certo à coluna da direita e o errado à coluna da esquerda. o deve e o haver. e as contas são agora feitas com a ajuda dos dedos: e vai um. e vai nove. e vão sete. e vão sete e tira um. e tira nove e tira dois e tira três e a verdade do tempo consumido não necessita da prova dos nove – agora só me resta fazer um acordo de cavalheiros com o tempo. amarrar nas recordações. ano por ano. uma a uma. sem pressa. sem prazo. e voltar a descobrir tudo com um novo olhar. um novo toque. um novo sentir. um novo saber. e a sensibilidade a exigir sentimento para conseguirmos restaurar o que sobra das memórias que deixamos escapar – calmamente. reconstruimos as cores. as palavras perdidas. os abraços esquecidos. os afectos. os cheiros. os lugares. e os olhos nos olhos voltam finalmente a dizer coisas em silêncio e o tempo deixa de ser tempo humano. tudo é inexplicável à luz da física e tudo é agora presente. e o tom da pele. a voz. o riso e até os nomes voltam a ter sentido. e o farol acesso. e o caminho é a ponta do dedo a dizer: nós somos dali. dali mesmo. onde tudo se explica pelo amor – é possível restaurar pedaços de tempo. recuperar parte do que perdemos. mas infelizmente nada será como dantes. como com a gata borralheira. à décima segunda badalada a carruagem volta a ser abóbora e o sapato de vidro perdido na correria do tempo nunca mais encontrará o seu pé – demoramos anos a carregar coisas para dentro de nós. e o corpo a abarrotar de saber. sobranceria. vaidade. de palavras. de tanta bugiganga que sabiamente encaixamos em espaços ínfimos. e tudo é ouro e tudo é valor. e tudo é nosso para sempre – mentira que a crueldade do tempo no dia certo faz questão de mostrar com dor. de um dia para o outro tudo é um vazio. um deserto onde o único sentimento que sobrevive é o nosso arrependimento – há partidas que nos deixam vazios para sempre. restam-me as palavras que ficaram por dizer. estas. ocupam agora todo o espaço que há dentro do corpo – agora sei que ainda sou. sou uma luta contra o tempo e abrigo uma vontade enorme de um dia partir sem uma única palavra por dizer



nota de autor – “o que a Bíblia já sabia…” texto dedicado pela minha companheira vânia lopez ao meu texto “ainda sou” – em gratidão escrevi este meu texto / comentário – obrigado vânia pelo teu excelente e carinhoso poema – há entre nós uma estima que apenas o sagrado das palavras compreende



o que a Bíblia já sabia...


ah, se eu pudesse
desfronteirar o verbo e o profano
semicerrar os olhos no apocalipse
amansaria léguas de bem querer
de seus lábios que reclamam
e fazem crer em Deus novamente


ah, se eu pudesse
ensinar a memória das palavras
na rota da tua boca messalina
viver o tamanho de um isso
escondido no meio do ar
fazendo o violino cantar
até que dele possa tirar o último sorriso


ah, se eu tivesse
a sacra palavra
como hóstia na língua
confessaria em uma folha de papel
coisas esquecidas


falaria alto junto ao guia das ruas de São Paulo:
“Arrume todas as nossas coisas,
é hora “de fazer cumprir a lei”




vânia lopez


25/08/2012

chove feio




bia





a chuva e o frio entranharam-se-me no corpo – em frente. a janela entregue a uma pelicula de água escorregadiça deixa passar suavemente a noite feia batida a vento – chove feio – não há forma de escapar a uma noite feia com uma chuva feia. ficamos então também feios. ficamos inverno. as mãos gelam e o coração começa a bater em retirada para um agasalho tricotado de silêncio – e todos aqueles que partiram estão de volta – falta o pingo no nariz. as meias de lã. e aquele esfregar das mãos. uma e outra enrodilham-se. cruzam-se. esfregam-se. fazem calor. suportam-se e partem cada uma para seu lado – retomo a escrita. acelero as palavras. e a rábula da cigarra e da formiga ganha um novo feitio – sempre gostei mais da cigarra. arteira. manhosa. astuta. esperta. atiçada. enfim. com todos os predicados para um dia poder escrever um livro sobre as suas memórias – então. para afastar a maldição das noites de verão feias escrevi este desabafo nocturno a que lhe dei o nome de “chuva” – a minha interrogação é se o título não deveria ser “chove feio” – também eu me sentia feio e mergulhado em chuva



* texto em forma de resposta a um comentário da colega mabreu ao meu texto postado com o título de "chuva"




24/08/2012

chuva




leonid afremov




hoje. na minha cidade chove feio. tão feio que parece inverno - e eu dentro desta chuva feia - a fortuna é que fiz de formiga. amealhei um pouco de sol na altura certa - e a cigarra o que estará a fazer? não sei. talvez a amealhar chuva para quando vier o sol - veremos. mas tenho um palpite



salomão




nicolas poussin - julgamento de salomão




nada será igual – não tenho dúvidas de que o silêncio faz de mim uma melhor pessoa - hoje. este silêncio que me habituei a ouvir disse-me de uma forma crua o que já sabia: não há boas famílias sem grandes sacrifícios. não há bons filhos sem grandes sacrifícios e não há bons íntimos sem pequenos sacrifícios - saber escolher o mais certo é fundamental. não basta inteligência. não basta ser melhor. não basta  abraçar. não basta rir. não basta coisa nenhuma destas sem que venha acompanhada de bom senso. tino. siso e principalmente gratidão –  não se pode ter o sol na eira e chuva no naval. a vida não é uma festa diária. nem o telhado de um lar cobre o mundo inteiro – em nossa casa somos sete á mesa. sete pratos. sete copos. sete cadeiras – o setembro está aí







08/08/2012

e assim comecei a escrever




tolstoi. pintado por nicolai ghe




escrever foi a minha maior descoberta. tão importante como o fogo para o homem pré-histórico [reforço. para mim] – a partir do momento em que comecei a escrever. ganhei voz. corpo. volume e trouxe finalmente algum descanso ao silêncio-barulhento que habitualmente habita e partilha comigo este pré-cadáver – no entanto. este ruído que só eu sei ouvir. não para de me lembrar que por mais palavras inventadas. fabricadas. engendradas. ou seja lá o que for mais. este não silêncio terá sempre o seu lugar cativo no meu desespero. mesmo que eu teime em tornar a minha descoberta na solução de todos os males – bem sei que sou ainda egoísta. interesseiro. talvez até mau carácter. pois escrevo sobretudo a pensar em mim e para mim – mas isto está a mudar aos poucos. um dia destes. acordo diferente. não sei se perdido ou encontrado. passarei a escrever tudo o que deslindo nos outros e nada. mesmo nada. do que esta carcaça guarda [penso que isto não é possível, mas vamos fazer de conta que é] – por isso digo para mim. escritor de meia tijela. escrever é um ato de desespero onde a minha verdade se acorrenta às palavras transcritas para papel – escrever é fazer sobreviver um corpo muito para além de uns lábios que só sabem beijar para saudar. dizer obrigado. estou feliz ou ainda bem que existem – adoro este falar silencioso das palavras – ainda não há terra à vista. mas o tempo corre sempre a favor dos náufragos. quanto mais tempo conseguir manter as palavras à tona da água mais hipóteses há destes textos sobreviverem ao seu autor





nota de autor - e assim comecei a escrever o que seria um comentário de duas linhas – mas a escrita tem destas coisas. amarra-nos pela exultação e pela gratidão e pronto. já nada nos consegue parar e vamos por aí fora de linha em linha afortunados por fazer parte deste mundo fantástico das palavras – o amável comentário do meu colega sommerville ao meu texto “ainda sou”. fez o restante – as linhas começaram a aparecer uma atrás de outras. concluindo que para sobreviver neste mundo da escrita amadora é necessário haver leitores – assim vou escrevendo



06/08/2012

ainda sou




jean-michel folon




5 de agosto e tu sentado nas traseiras da casa na aldeia. rodeado de gente em dor – mais um ontem passou sem que a vela fosse acesa – nos ouvidos guardo ainda o som do último beijo de parabéns que te entreguei – com os olhos desarrumados pelo tempo tentei encontrar um pedaço de ti quente onde deixar o calor dos meus lábios. estavas gelado. desaparecido na escuridão do corpo e já não conhecias nada do que era teu – eu era teu. ainda sou – estávamos os dois dispersos. tu pela doença e eu a fingir que tudo não passava de um resfriado – as palavras trémulas já não remendavam a mentira com que cantamos esse feliz aniversário. com muitos anos de vida e muitos amigos – todos sabíamos que seria o último ano. menos tu. tinhas sido pilhado do saber – parabéns pai. cantarei em silêncio sempre o teu dia até que também me pilhem as recordações que de ti guardo – às vezes imagino que chamas por mim. e eu vou…



03/08/2012

02/08/2012

carne. lembra-te que és mortal - I




     pintura de 1894 intitulada 'o cadáver',
exposta no museu alemão da higiene em dresden
– não me foi possível identificar o pintor

1.
este mundo não me larga e eu sem saber o que fazer com tudo o que está dentro dele – acredito na morte como grande libertação do corpo. como dizia hamlet: “a morte é um sono sem sonhos” – não há nela nada de trágico. o destino certo de quem nasce é morrer – a morte é também descanso. serenidade. calma. silêncio. sempre gostei do silêncio calmo – faz tempo que não tenho esse silêncio calmo. faz tempo que não tenho onde deitar a cabeça. faz tempo que não tenho um sono inteiro – há uma coisa na morte que me aborrece: aparece quase sempre sem avisar. disfarçada de desastre ou doença. como se não houvesse outras formas de levar o corpo – não gosto deste formato de levar o corpo. soa-me a cobardia. deslealdade. traição. ninguém merece morrer assim. rápido. ninguém merece morrer com o corpo em ferida. ninguém – depois da voz morta sei que já não será possível reclamar. protestar ou escrever um manifesto anti esta forma de morrer – protesto em vida. bem sei que já não é uma vida plena. uma vida de forcado. com o barrete campino caído para sul. peito para fora. mãos na cinta. pés a arribar. enquanto os olhos emparelham com os gestos e a voz engrossada pela inconsciência desafia a morte. e os pés para trás e para a frente. e o peito a arfar de força e as mãos a fazer ranger os ossos da cinta de sobrançaria. e o desafio sem contar o tempo por ter a certeza de que a morte só traz glória – mas o tempo passa. mesmo que no pulso a ampulheta seja agora um pilha automática. capaz de fazer reverter qualquer pedaço de tempo que não seja real. e os ponteiros rodem então em sentido contrário ao do relógio e 2012 já não existe – estou na idade das trevas. acusado de bruxaria por fazer desaparecer o medo da morte de todos aqueles que viveram tempo suficiente para desistir de rezar – enquanto a água benta tenta apagar o fogo que me consome a alma. grito bem alto. para que fique cravado no tempo que ainda há-de chegar. que a morte é insolente. mal cheirosa. víbora. ingrata. sim ingrata. porque precisa de gente viva para poder sobreviver – só há morte porque há gente viva. e sendo assim. a morte deveria levar os corpos com dignidade. morrer de corpo são. sem dor. sem arrependimento. sem aquela sensação de que perdemos a vida e não somos também merecedores de uma morte justa – o direito à vida é também o direito á morte. porque a morte faz parte de a vida – viver deveria ter esta opção. principalmente quando percebemos que o que fazemos é já uma subtração ao que conseguimos somar – partiríamos então em paz e sem sermos banidos do céu ou excomungados por uma sociedade que se limita. na maior parte das vezes. a ver morrer – deveria ser permitido que cada corpo escolhesse o dia da sua partida


continua