.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

18/05/2013

a definição do amor





jorge reis-sá

 

um poema do poeta e editor jorge reis-sá




dantes escrevia poemas de amor. para viver com o amor
nos poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a
gente o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor.
que o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei
o conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi
muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi
que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo
do amor. e voltei a escrever o que nada havia a
dizer. porque até o poema é sinónimo de amor.







também eu escrevia
escrevo

pai:
fazes-me tanta falta

tenho saudades
desse teu jeito
de dar cor
ao preto e branco









05/05/2013

1ª de maio – o povo já não ordena





1º de maio de 1974
[foto google - autor desconhecido]




foram-se os chapéus e a nação assobiou – foi-se o ardina e a nação assobiou – foi-se o alfaiate e a nação assobiou – foi-se o leiteiro e a nação assobiou – foi-se o aduaneiro e a nação assobiou – fecharam-se os guarda-chuvas e a nação assobiou mais forte – há um novo iluminismo na europa e as nações gritam de braço no ar: o povo é quem mais ordena. a luz quando nasce é para todos – e o povo em manifestação a dizer: assim se vê a força da ingenuidade – quem não gosta de sol? quem não quer andorinhas nos beirais? e o povo sempre a assobiar em postura de orquestra e o ritmo a sair como marcha militar – os pés batem certos. comem caminho. e as mãos andam para trás e para a frente. fazem desenhos geométricos com ângulos de 180 graus – tudo é reto. tudo está de pernas para o ar na exploração do homem pelo homem – não tardou partiram os merceeiros e os assobios a chegar escoltados pelo ruído dos carrinhos de metal – agora tudo gira sem parar noite e dia – e a europa a uma só voz: somos mais fortes juntos. e a livre circulação a trazer o supérfluo. e o povo a gritar: somos euro e vamos para onde quisermos com o cartão de cidadão e a soberania a ruir e as vozes do além a dizer: também sodoma e gomorra foram destruídas [gênesis 19] – foi-se o escudo e o dinheiro circula à velocidade de um tgv pela mão de gente que não sabe cantar o fado – tudo é embrulho. e o que é nosso é deles e o que é deles nunca será nosso – é a lei do mais forte a escrever torto por linha tortas e a nação lusitana saqueada das leis tomadas pelo nosso primeiro afonso – foram-se as fronteiras. as doutrinas. a nação e a iniciativa de quem com coragem dobrou o cabo da boa esperança – e os mastros com a cruz de cristo regateiam ao vento força para lutar contra os adamastores. e todos remam para o mesmo lado. e o contra–mestre a gritar: terra à vista – somos lusos. somos gente do sul. somos gente de sol e as gaivotas pasmas por verem gente a falar a língua de camões – e os mastros com quinas a dizer: somos nós sim. somos gente destemida. gente de fé. de abraço e é sempre bem vindo quem vier por bem – e a dinastia de aviz. e o d. nuno. e a padeira de aljubarrota. e o d. joão. e o d. henrique. e o vasco da gama . e o cabral. e o colombo. e o fontes pereira de melo. e o pombal. e a amália. e tu. e eu. e nós a pensar se tudo isto valeu a pena – e os abutres a chegar com trabalho que não é para durar. e o camponês passa a capataz. trabalha o alcatrão – e a varina passa a técnica de limpeza. limpa a bosta das multinacionais – e o pastor passa a comercial. vende lã da china – e a profissão de futuro é um balcão com gente a vender crédito até ao fim da vida – e os montes a arder de abandono. e as marés sem o levar e trazer de barcos. e os campos vazios de tudo e tudo a andar para trás. e os doutores a dizer: é para a frente que se faz caminho – e tudo é afinal precipício – e o tempo a sorrir para muitos e os assobios a romper barulho para o lado de poucos – e festa é festa. e o povo dividido por grupos canta ao desafio: eu estou bem com o mal de alguém – e os dias amenos disfarçam a tempestade nascida a oriente – e tu ris. e ele ri. nós rimos e o choro de alguns abafado pela gargalhada coletiva de tantos e os ditados populares esquecidos. “quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de molho” – e o povo-nação sempre a assobiar. e as primaveras sempre a nascer mais cedo. e o degelo aumentou 120 vezes e os rios galgaram as margens da sensatez e tudo está louco e fácil – e as mãos esfregam-se de ganância e o frio sem estação do ano certa e o povo-carnaval a dançar sobre o mal dos outros. e o parlamento-pinóquio diz que é esta a casa do povo de quem mais ordena – o abril murchou e o zeca volta a cantar a grândola na boca dos esfomeados de pão. de emprego. de habitação. de dignidade. de honra. de gente que é a minha gente. carne da minha carne. o meu povo – e o mal agora é de muitos e o bem de poucos. e paga a saúde. e paga a escola. e paga a justiça. e paga a estrada. e paga o imposto. e paga o que não tem e povo a ferver. e o passo já não é certo e o ouvido a escutar o rufar dos canhões e grita: o povo já não está contigo – e a confiança é choro. e as andorinhas são abutres. e o povo triste grita: contra os canhões marchar. marchar – estamos fartos de tanta mentira. estamos fartos de engenheiros. de doutores. de deputados. de políticos. de banqueiros. estamos fartos de gente que fala por falar – o sol a torrar e a pele a tostar. e o fator 6 passou a 66 e depois a 666 e o número da burra estampado na teste de cada zé enganado – e o mal de poucos passou a cem e a razão já não é de ninguém – e tudo o vento levou com polícias a correr de um lado para o outro sem saber onde está o ladrão – e o povo ergue as mãos no ar e grita: “só há liberdade a sério quando houver a paz. o pão. habitação. saúde. educação”. e as mãos cada vez mais no ar. mãos que abanam como abanadores – e a revolta é agora uma palavra de ordem: “assim se vê a força de um povo” enganado – e a nação mais antiga da europa pronta a explodir com novecentos anos de unidade e nós enganados. roubados. e os filhos enganados. roubados. e os netos vão pagar. e os bisnetos vão pagar. e os trinetos vão pagar – o culpado sou eu



30/04/2013

ai de abril que chegou o maio




sam jinks




– ai. ai de terror. de pânico. de medo. ai de cerrar os olhos e fingir que não vejo o que vejo

– ai. ai de bandido. de leproso. de excluído. de rejeitado. ai de saber hoje o que não sabia ontem

– ai. ai de desânimo. de desistência. de desemprego. de fome. ai de não compreender o que me sai da boca para  fora

– ai. ai. ai… que é feito da minha fé. ai. ai… era do tamanho do dedo indicador

– ai. ai de silêncio. de descanso. de paragem. de pausa. de intervalo. ai de quem era e não volta a ser

– ai. ai de esgotado. de cansado. de louco. de raiva. ai de um sinal que é cruz

– ai. ai de adeus. de saudade. de suicídio. de covarde. de perdão. ai de quem parte para nunca mais voltar

– ai. ai cada palavra uma orelha. uma opinião. uma sentença. uma prisão. um morcego e nunca sei onde chego

– ai. ai. ai… que é feito da minha fé. ai. ai… era do tamanho do dedo indicador

– ai. ai de solidão. de aperto. de miséria. de desgraça. ai da culpa que nunca morre solteira quando há uma aparadeira

– ai. ai de todos os ais. de grito. de corda. de veneno. de guilhotina e corta. e corta. e corta e toda a seara morta

– ai. ai. de balança. de justiça. de causa. de equidade. ai de espada que mutila a razão do pensamento

– ai. ai. de religião. de terço. de salvação. ai de um deus surdo que não escuta a oração

– ai. ai. ai… que é feito da minha fé. ai. ai… era do tamanho do dedo indicador

– ai. ai de ânsia. de agonia. de pandemia. ai de aflição. ai de quem já não acredita na multiplicação do pão

– ai. ai de morte. de morte sem salvação… ai. um corpo sem fé é um corpo sem medo da morte





tributo a mário viegas – cantigas dos ais de armindo mendes de carvalho




26/04/2013

o grito - declamado pela voz da minha vida













ainda há tanto para te dizer. muito mais do que duas palavras. muito mais do que gosto de ti - gosto de estar no teu mundo


25/04/2013

abril. há amigos à tua espera nesta esquina do teu povo




frida kahlo




estamos a fechar o ventre da esperança – ouvem-se gritos inocentes e o céu embrulhado numa bola de fogo cega – há morte de gente boa. há jardins a secar. há medo. há mulheres com medo. há homens com medo. há povo com medo. o meu povo está com medo dos vampiros – o mundo não fica prenhe. não há primaveras. não há flores a nascer. não há cravos brancos – renasce zeca. renasce com voz. há amigos à tua espera nesta esquina do teu povo

23/04/2013

a morte das flores




keukenhof - holanda
foto do autor




equidade - como se previa. depois da morte dos cravos. das magnólias. das estrelícias. das margaridas e dos malmequeres a morte chegou à banca das floristas – e o mundo a mirrar




22/04/2013

daniel faria / ando um pouco acima do chão




daniel faria





Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema


Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe



19/04/2013

sol




francisca bayardo




vamos todos rezar um credo a esta alma - o inverno está morto - tenho esperança. tenho sempre esperança no que chega de novo






18/04/2013

bastou um abril... para encher o cantil de sede




vânia lopez


o abandono do céu no dobrar de uma gaivota, é música, para de joelhos rezar o silencio. nunca houve tanto silencio semeado com os dedos das mãos juntas. a hora se faz mais bonita nos momentos que testam a alma, sequestram os olhos no último limite da emoção, uma lamparina estremece. e de repente a gaivota some em queda livre, a música corre solta pelos jardins enluarando meu interior. nas pinceladas, o impacto. e a gente... até esquece-se de morrer.



para um amigo


respondi:

ouço – bach. ave maria – e pergunto ao destino se o tempo é igual para todos - não sei. sei tão pouco de mim. sei tão pouco - abril. abril. abril. cinquenta e um e só me lembro dos invernos e desta dor que carrego nas mãos de não saber escrever o que sinto - sinto - sinto tanta coisa por dentro da carne e não sei se é meu por amor ou doença de maldade - restam-me as gaivotas e o vento

obrigado vânia. obrigado por estares sempre aqui



16/04/2013

abril. doente




james ensor




depois de uma análise cuidada aos exames radiológicos o médico. com um ar sério e inquieto. informou-me: -- essa falta de ar que lhe está a tirar o prazer de viver é provocada por um linfoma-troikiano. afeta não só o seu sistema imunológico mas também aqueles que partilham de perto a sua companhia – esta nova doença. ainda sem tratamento. é também conhecida por necrose aguda capitalista – Infelizmente. as notícias não são boas para si. a doença está descontrolada e ramificações espalharam-se pelo corpo. danificando gravemente o funcionamento normal dos principais órgãos da república – a solução. na minha opinião. é estripá-lo integralmente – queira o estimado doente saber que esta intervenção cirúrgica é bastante melindrosa e perigosa – bem sei que não será a cura total. mas aliviará em grande parte esse mal estar generalizado. aumentando consideravelmente a sua qualidade de vida – mas mais do que isso. acredito piamente que com esta abordagem universalizada. mais cedo ou mais tarde. conseguiremos encontrar a solução definitiva para esta maldade. erradicaremos para sempre esta monstruosidade da superfície da terra – não ficaria de bem comigo se não o alertasse com autenticidade para a possibilidade existirem sérios riscos de recidivas complicadas – há imensos imponderáveis neste tipo de intervenção. não é ainda possível avaliar todos. o risco de uma septicémia generalizada é bem real – infelizmente a ciência dos homens bons  ainda não encontrou solução para derrotar de vez banqueiros. políticos ao serviço do capital selvagem. administradores de grandes empresas. multinacionais sem escrúpulos entre outros – é verdade que o cancro do homem ganancioso ainda ganha terreno. no entanto. acredito que está para breve a revolução que fará nascer um novo mundo. o mundo dos homens justos – até à vitória final



12/04/2013

sinto. abril




lucian freud


 
o céu caiu no mar – sinto – o vento veste agora uma “fininha melancolia” que não sei descrever – talvez este vento estranho traga dentro de si a partida dos dias pequenos. dos corpos cansados da luz tímida. dos agasalhos. ou quem sabe um anjo arrependido por ter entregue a alma ao diabo – não sei. não sei mesmo nada. agora só sei o que vejo com estes olhos escancarados à espera do que der e vier – vejo a boca acorrentada a um naco de pão. o corpo a tombar incerteza e uma deusa inútil com mil mãos. mora num mundo que não conheço. não sei se as usa para dar trabalho ou roubar a pouca fé capaz de ainda de me segurar a carne aos ossos – não há céu. não há estrelas. não há nuvens. não há nada que faça acreditar os homens neste tempo maldito. no seu lugar um vazio-nada que as mãos não sabem escrever. nada de nada – sinto – há um novo tempo. um novo escuro-tempo dentro de um corpo velho – sem céu não há noite. e sem noite não há estrelas. os fantasmas são agora de carne em putrefação – bate o relógio. bate tempo. bate sem parar. bate caminho. desequilibrado. desengonçado. desgovernado. um dia atrasa. outro adianta. e a corda presa a um peso de ferro envelhecido pelo bater sem parar – bate. bate. bate por bater. bate para não estar parado – marcha o tempo em guerra contra soldados de papel. e os dedos apontam palavras amarguradas para gente que não sabe o que é partilhar – e os homens bons morrem maus. e os filhos renegam o pai. e o cão sem dono. e os deuses sem leis naturais e o que era verde esperança é agora terra queimada – não haverá sobreviventes o tempo está a mudar e ao vento norte não resistirá – para trás nada. nada. só memórias sem valor para a história – há tanto silêncio no tempo que fica para trás – sinto – os olhos cerrados. as mãos esmagadas. os ouvidos apertados. o sol a pique e a sombra a rir do futuro. – o tempo-ladrão saqueia para sempre as recordações de um corpo que nunca estimei – já não há dia nem noite. há tempo. vento. apenas tempo-vento num corpo apeado de tudo. vazio – sinto – sempre gostei de sonhar. sonho para criar verdade á vida que escolhi – não sei se sonho muito ou pouco. não sei mesmo. sei que sonho porque acredito que há sempre uma boa razão para viver a vida com sonhos-paixão – sinto – sonho porque necessito de dar sentido à vida que escolhi. sonho para que a linhagem saiba sonhar. sonho porque os meus antepassados também sonharam – sinto – sonho para que os sonhos saibam que existo. sonho para explicar o porquê de ainda estar vivo – não há homem sem sonho. não há céu sem gente que sonhe – sinto – sonhar é fazer caminho. de tanto caminhar fui perdendo os pés. depois perdi as pernas. e agora o tronco arrasta-se pelo chão que levantei – não há homens sem esperança – sinto. sinto as gaivotas no ar. o vento a empurrar o corpo para baixo. e o ar a entrar aos soluços sufoca a vida com coisas cravadas entre a boca e um tempo de esperança – não há vento que me carregue para fora desta coisa maldita que cresceu comigo. sina – entre o tudo e o nada está um mundo que deixei de querer ver – mas sei que há em algures deste mundo um pedaço de terra marcada a cinza da minha carne – sinto  



11/04/2013

abril. mentiras mil




eugène delacroix





tenho o corpo preso entre a alegoria da caverna de platão e as teorias económicas de karl marx – revolução. marchar. e as mãos no ar


09/04/2013

24/12/2012

sou natal




ceia de natal - carl larsson




que saudades do natal do meu pai. que saudades do meu pai. não há natal sem pai - há um lugar por ocupar na nossa mesa. para sempre - sou pai. sou natal. amo os meus filhos. a minha companheira. a minha mãe. a família. os meus amigos. não há natal sem sentimento. sem a mesa estar completa - hoje fecho o círculo. sou pai. sou natal - obrigado pai




te




joão guimarães




chamei-te princesa e o mundo ficou pequenino dentro do teu sorriso 





20/12/2012

os cometas caem sempre no mar




van gogh





um dia. há muito tempo. corria um catraio – os calções cortavam-lhe as pernas pela metade que não parava de crescer. queria ser enorme. crescer até que as árvores lhe dessem pelos joelhos e os pássaros lhe descansassem nos dedos das mãos. já cansados de correrem o mundo – gosto de pássaros. gosto de os ouvir cantar em liberdade. gosto de os sentir nos dias que crescem. gosto de os ver à espera do fim do mundo – gosto de pássaros. não consigo imaginar as árvores sem pássaros. ruy belo escreveu que as árvores dão pássaros. eu acredito. com a idade passei a acreditar em tanta coisa: na intuição. no cheiro. no olhar casual. nos abraços das palavras. nos poetas. nos homens tímidos que não sabem falar – eu não sei falar. nunca soube. esta maldição de não saber dizer o que penso mata-me. só as árvores me mantêm de pé. as árvores prenhas de flores. às cores – cor esperança. cor tempo. cor saudade. cor de gente que não morre. de gente que anda por aqui. entre nós. como diz o antónio lobo antunes – sei que o meu pai anda por aí. tenho a certeza que anda com o tio joão. devem andar a falar de pássaros. de árvores. de flores. das coisas boas do mundo deles. do meu mundo. do nosso mundo – e o sol sempre às voltas e as sombras sempre a desaparecer. e tudo o que gosto cada vez mais dentro de mim. num silêncio que dói – gosto das flores amarelas. são da cor do sol – o tempo caminha. ordenado por leis que deconheço. e tudo o que é agora é passado. e o futuro são sonhos e sonhos são sempre sonhos. e o medo a trabalhar como um relógio. e os segundos contam horas e dias e anos e a memória a esquecer-se que tudo não passa de uma linha recta. e o princípio está cada vez mais distante do que sou: um triciclo. uma voz doce. uma babete suja. um avião com luzes que acendiam e apagavam num terraço feito de cimento. e a roupa a secar. e a bola a saltar no pé. e um beijo na boca. um abraço. um pedaço de terra a cair das mãos. e flores. árvores. pássaros e o fim já ali e as rectas afinal têm princípio e fim – o passado é sempre tão distante. velho. engelhado. amarrotado. só a juventude é especialmente ingénua. bela. pura. amarela como o sol. como as flores. como as árvores –  somos vida. eu e os pássaros. somos primavera. o fruto nasce sempre depois da flor – depois. chega abril. e os meses começam a correr. os dias grandes multiplicam-se. e os frutos ganham cor. forma. são cada vez uns mais iguais a outros. e as laranjas são laranjas. e as maçãs são maçãs. e os morangos são morangos. e cada árvore com o seu pedaço de terra. e em cada pedaço de terra mais primaveras que se fizeram saudade – é o tempo do que tem princípio e fim. tudo às cores. e branco. e  azul. e amarelo. e vermelho. e todas juntas são quadros de van gogh. flores feitas à medida para cada tela imaginada. e tudo sem vento. sem chuva. sem sorrisos que se possam ver – o sol cai. e tudo parado. tudo menos os calções. cobriram as pernas. o corpo. as cicatrizes. e os olhos à procura do quadro feito de flores às cores que nunca existiram – só eu sou dono das cores que vi. toda a terra que dá fruto é sagrada. terra de terra. ventre –  mãe. mãe natureza. eu sei que tudo o que nasce morre – estar vivo é aguentar – aguento um cansaço que ninguém compreende. um cansaço dor – e o tempo sempre com no mesmo compasso – gosto de pássaros. de árvores. de flores. gosto de palavras que matam silêncios – perdi tanta gente que gostava. perdi dias. perdi fé. perdi amigos. perdi confiança. perdi quase tudo o que um homem de verdade não perde – sou agora cada vez mais mortal – resta-me escrever com o corpo. nas mãos os pássaros continuam a descansar. um dia partem




13/11/2012

suportação




josé maría velasco




quando temos várias vidas dentro de um único corpo não é fácil dividir [às vezes impossível] as urgências de cada eu – “o corpo aqui”. no meio da escrita. do estudo. do conhecimento. do aprender. do guardar da memória. do fazer acontecer palavras sem magia. do louco que ouve os loucos a falar e o eu a escrever tudo como se tudo fosse um tesouro – escuto com tudo o que o corpo tem para escrever. duelo. 40 passos e tudo se resume a um tiro certeiro – morro de alegria. as palavras são balas e as metáforas ramos de flores que adornam a esperança – “as mãos entre a vida e a morte”. esgravatam as ideias. procuram o saber de um eu que tem por obrigação fazer pão – sem pão não há vida e sem vida não há palavras – há desabafos que são gritos de raiva



03/11/2012

a falar com




josé malhoa





 
comentário do meu colega uesus ao meu texto “apalavrar”:


A angústia (existencial?) do escritor perante a exigência do seu ofício/arte e tu exiges-te e és exigente na arte de bem escrever!

E sabe bem te ler! (sempre)

abraço, sampaio rego (és tu!)



assim respondi:

os elogios são sempre terríveis para quem gosta de escrever – primeiro tocam campainhas de satisfação. depois. e quando o corpo retoma a forma do artesão. permanece um ruído que mais não é do que um zumbido escrito nas mãos para sempre – o medo de errar é cada vez mais uma dor e o trabalho uma canseira insuportável – o conceito do mais certo e do belo está sempre associado ao momento – estou agora no momento do zumbido