.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

12/08/2013

sorefame – importante construtor de material circulante ferroviário










foto google




I.

1943. as estradas do mundo estão cobertas de explosivos – em portugal o metal de côr branca torna-se abastança dos que vivem da terra – os candongueiros. a soldo dos alemães. pagam pelo volfrâmio valores impensáveis a gente afeita à escravidão do trabalho nos campos – finalmente uma oportunidade traz alguma dignidade à vida miserável das gentes do interior – trocaram o sol dos campos pelo escuro das minas e fizeram-se nos novos mercadores do século XX – substituíram os camelos pelos burros. as areias pelos montes. os oásis pelas aldeias e criaram a rota do ocidente: o destino não era veneza mas berlim. capital do império nazi – winston churchill bem protestava. mas antónio salazar. com habilidade. lá ia conseguindo acalmar os ingleses com a promessa do fim da neutralidade – a prioridade para o nosso ditador era impedir que portugal entrasse para o conflito que mais vítimas causou [60 milhões] em toda a história da humanidade – por tudo isto. a terra e o governo aceitavam ser esburacada e o volfrâmio com pressa marchava para as fábricas da guerra – na capital do império as notícias do conflito chegam pela voz de fernando pessa que. via BBC [rádio] de londres. dava conta do avanço das forças hitlerianas pelo mundo – todas as noites. os ouvidos dos portugueses colavam-se à rádio. a voz da verdade do mundo livre tinha hora certa para chegar – o medo agigantava-se na casa das famílias. ninguém queria ver os seus filhos partir para uma guerra desta dimensão – as consequências trágicas da nossa participação na I guerra mundial ainda estavam bem presentes na memória dos portugueses – as baixas humanas quase chegaram aos dez mil mortos. milhares de feridos. para não falar nos custos económicos. um desastre com consequências sociais muito graves – os telégrafos não paravam de picar fita. decifrar a notícia rapidamente é crucial para que o jornal da manhã informe a população da coragem com que os soldados da aliança tentam impedir o avanço do inimigo – as páginas dos jornais tornam-se cada vez mais escassas para dar conta de todas as atrocidades cometidas pelo avanço no terreno das forças nazistas – chegam as primeiras notícias da perseguição ao judeus pela polícia secreta do estado [gestapo] – recomeçou a carnificina de um povo originário das tribos de israel – talmud. é a palavra da fé numa aliança secular entre deus com os filhos de Israel – no entanto. desta vez. depressa perceberam que as leis e mandamentos de deus reveladas a moisés no monte sinai não lhes serviriam de proteção – a sobrevivência é a fuga – começaram a chegar ao nosso país os primeiro refugiados judeus – poucos foram os que se fixaram definitivamente em portugal. a maior parte apanhou o oceano e rumou para o brasil e estados unidos da américa – de país em país a cruz suástica conquista o mastro das soberanias numa europa cada vez mais vermelha de sangue – resistia estoicamente leninegrado e londres – o mundo volta a ter um inferno aceso pela mão do homem – o papel da imprensa é importantíssimo. os jornais são a fonte de notícias e informação mais credível na época – apesar do pouco espaço editorial para informações não relacionadas com a guerra é notícia a intenção do governo português criar uma nova indústria – pequenas empresas da porcalhota juntaram-se para dar corpo a um plano estratégico de interesse nacional – o projeto aparece. os fornos aquecem. o minério derrete e o milagre acontece – novos operários. ainda sem nome. trabalham o ferro com mãos fundidas numa liga resistente com mais de nove séculos – o ferro é um elemento químico. uma união de minérios. com símbolo Fe. liga com a fé de deus do regime fascista do nosso país – e novos homens de fato macaco. de gancho em punho. atiram-se com coragem ao fogo de um inferno nunca antes trabalhado – a confiança destes novos operários é agora guardada em coquilhas-molde – há um novo saber. passá-lo de geração em geração é obrigatório – todas as grandes nações do mundo assentam nesta herança de sangue e dentro deste correrá para sempre a cultura. a tradição. a língua. a bandeira – a alma de um povo como o nosso nunca morre. renova-se com o melhor dos seus antepassados – tudo agora é aço. temperado pela força do acreditar de gente com esperança – neste complexo industrial há gente de todos os cantos do país. vieram à procura de uma vida digna para os seus filhos – deixaram tudo para trás: a família. a fome dos campos cobertos de invernos rigorosos. o ceifar da erva tenra para os animais. as desfolhadas de um pão que o diabo amassou. a meninice descalça com os seus pés gretados do gelo. a malga de sopa de couves e feijão. a sardinha para quatro e as casas acesas com candeeiros de petróleo de luz trémula e sombria – partiram vazios de tudo. dentro de si as memórias e a certeza de que as campas rasas dos antepassados nunca mais seriam aparelhadas – desta vez a morte dos seus avós chegou para sempre. a saudade não vence [ainda] as distâncias – deixaram a noite e acreditaram nos rumores de uma nova luz cristalina para os lados da capital – tudo valia a pena naquele tempo. a vida era parida em quartos escuros e a infância roubada para sempre no secar das tetas – aprender era trabalho e a escola um mistério que só os ricos sabiam desvendar – para a gente que vivia do que a terra fazia o favor de dar. escrever era revolver o solo de enxada na mão. ao ritmo das estações do ano – semear. regar. colher e sobreviver – finalmente a vida dava-lhes razão: para bater o ferro não é necessário saber ler e escrever – e a nação a respirar vaidade com esta gente de trabalho e silêncio – o fontismo está morto. mas o seu povo à beira-mar plantado não – nasceu a sorefame



II.

pouca terra. pouca terra. o comboio apita caminho – pouca terra. pouca terra. passo a passo. assinala a conquista de novas terras a gente nova – e a gente esquecida no tempo de uma nação ingrata a levar os seus afazeres à cabeça para dentro de braços lusitanos – o norte e o sul estavam ligados desde os primeiros anos do seculo XX. mas agora tudo é diferente. nos carris a fadiga dos materiais é nacional. e as rodas de ferro estão cunhadas com a mesma cruz de valentia com que partiram as naus do tejo à descoberta do novo mundo – descobrir outro portugal com a mesma esperança dos nossos navegadores – há uma audácia neste povo que ninguém entende. somos corajosos. destemidos. arrojados. atrevidos e o medo é sempre para conquistar – somos nós. somos lusitanos. e agora a fazer rolar as rodas das locomotivas como viriato o fez com as pedras – as pedras eram enormes. os homens também – tudo começa com viriato. a defesa da soberania lusitana é feita contra os invasores romanos – verdadeiramente ninguém ainda hoje sabe dizer quem era este homem que empurrava pedras nos montes – dizem que era pastor e que os romanos lhe chamavam dux – dux fez-se guerreiro e das debilidades fez a robustez – tudo estava na força dos braços – mas os traidores também fazem parte da nossa história: o melhor amigo entregou-o à morte do inimigo – vendeu a soberania a troco de um par de mordomias – foi um de nós que o traiu – talvez seja sina da nação parir traidores –

mas…

falamos da sorefame. importante construtor de material circulante ferroviário – nós somos como somos. e dentro de nós há povos de tantas partes do mundo que não é possível saber porque somos assim – somos assim porque somos. e nunca seremos capazes de valorizar o que construímos no tempo desta pátria que não se cansa de ser nossa – este país é único. apesar de todas as imbecilidades dos seus governantes o povo continua a envelhecer como afigurou o nosso primeiro afonso – e de branco e azul tomamos o verde da esperança e o vermelho do sangue – sina. penoso o sofrimento e o povo obrigado a cantar o fado para caminhar – uma nação feita com a penitência de gente enganada de século em século – vendemos tudo. tudo. e a nossa identidade é agora um estrangeirismo que não sabemos entender – dois caracteres em chinês. um verbo em alemão e por fim a vénia inglesa. cor-de-rosa como manda a tradição – e o mundo mais uma vez cortado à faca dos interesses que não são os nossos e o talento de um povo em fuga à séculos – já ninguém se lembra do tratado de tordesilhas – construímos e de logo de seguida destruímos – não somos solidários. não há fraternidade. camaradagem. solidariedade. crescemos em demasia. envelhecemos depressa – na juventude somos amigos apenas porque somos. falamos a mesma língua. o mesmo calão. jogamos na mesma equipa. somos do mesmo bairro. vivemos na mesma rua. vamos à mesma igreja. subimos a mesma árvore e o pai do meu amigo é amigo do meu pai – somos – quando nos zangamos resolvemos o problema de punhos ao léu e no final tudo que é importante contínua dentro de nós: continuamos a falar a mesma língua. o mesmo calão. jogamos na mesma equipa. somos do mesmo bairro. vivemos na mesma rua. vamos à mesma igreja. subimos a mesma árvore e o pai do meu amigo é amigo do meu pai – somos – somos deveria ser suficiente para uma nação abraçar e proteger o seu povo – mas a história repete-se e quem diz que a água só passa uma vez debaixo da mesma ponte engana-se – mais uma vez o impensável acontece. as nossas cabeças de ferro contaminado ditam a sentença: sorefame condenada à morte por injeção letal no conhecimento adquirido – nunca mais haverá saber a passar de uma geração-respeitada pelo saber alcançado para uma geração-jovem pronta a saber tudo da vida de quem lhes prometeu um país equitativo – portugal já não corre em carris para lá e para cá – povo deixa de entender o apito da boa nova. a língua já não é de camões e o comboio já não diz: pouca terra. pouca terra – ninguém entende o barulho desta coisa que anda para lá e para cá – do somos já não resta nada. nem fado. nem futebol. nem fátima. nem traidores. estes ficaram na praça do comércio a olhar para d. josé I de portugal. nome completo: josé francisco antónio inácio norberto agostinho de bragança. cognominado o reformador devido às reformas que empreendeu durante o seu reinado – que cognome daremos ao nossos governantes? defunteiros? – josé sócrates I. o defunteiro – passos coelho I. o defunteiro – e os séculos vão passar e de nós nada haverá. nem dor. nem agonia. nem perda. nem ossos. nem remorsos. nada de nada. só história em papel enganado e vendida em escolas aos filhos da geração do pecado – estamos em pecado mortal. não matamos mas deixamos matar – o último traidor tinha vendido o país a espanha – raios parta esta gente parida na revolução de abril – abril não foi feito para isto. este somos não é liberdade. igualdade. fraternidade. não é cravo – gentalha de malfeitores. fizeram-se políticos. homens do saber. e sem saber como nos fizemos ao longo dos tempos – gente falsa. esta que diz e desdiz. não entendem o somos – somos: um povo de camaradagem nas guerras contra castelã. de camaradagem nas naus dos descobrimentos. de camaradagem nas camaratas da guerra ultramarina. de camaradagem na história da nação – já não há nevoeiro que traga um d. sebastião – ó gente que decide! o que fizeste à nossa nação? que fizeste ao nosso somos? agora as rodas de ferro não conhece as nossas gentes. vem de terras distantes. feitas por mãos que não nos entende. não são. não querem saber do somos – uma bomba(rdier) acabou com a sorefame – não foi uma bomba atómica. não. foi uma injeção. aniquilou a empresa. aniquilou o saber de gente que nunca soube escrever para se defender – foi um envenenamento controlado à distancia: primeiro a falência de um rim. depois um pulmão de seguida um válvula do coração e quando tudo fazia acreditar que a culpa seria atribuída ao colapso dos principais órgãos da máquina. primeiro corta-se um perna e de seguida outra – o corpo cai desamparado e o que era ferro trabalhado é agora sucata – lágrimas. ainda não. mais tarde o povo chora – ninguém acredita que dentro do ferro retorcido houve um dia ali gente de martelo em punho a fazer bater o coração de centenas de vidas – e o povo culto grita: é lixo. é lixo. vai para reciclar – o que é nacional nem sempre é bom diz o político feito às três pancadas numa revolução de cravos que diz: o futuro somos nós – já não somos – já não falamos a mesma língua. não temos o mesmo calão. não jogamos na mesma equipa. não somos do mesmo bairro. não vivemos na mesma rua. não vamos à mesma igreja. não subimos a mesma árvore e o pai do meu amigo não é amigo do meu pai – já não temos ninguém capaz de voltar a ensinar um modo de vida que já ninguém sabe como nasceu – eles sabem que há coisas que nunca mais podem voltar a fazer história – assim se destrói o tecido empresarial de uma nação – primeiro um milhão para as pessoas. depois um milhão para o abate e depois um milhão para calar os que mandaram abater – o trabalho está concluído – agora pagamos a mercadoria que nos faz falta – ficamos para sempre sem um saber que não vem nos livros e já não há mais gente sem saber ler e escrever para nos ensinar – no passado o ferro era batido ao som da lembrança das pedras a rolar monte abaixo – já não somos como dantes – somos desempregados. somos desgraça. somos descartáveis – somos gente sem esperança –




01/08/2013

alívios




anton semenov 







para cada patranha esculpida germinarei cem verdades – não há beleza na mentira nem dignidade na ingratidão – um dia acordarás com as portas a bater




//




“a faca não corta fogo” - herberto helder

 


28/07/2013

estou assim







.

.

nunca entendi muito bem a metamorfose do corpo ao sétimo dia. no passado. em minha casa. este dia era dedicado ao senhor –



– hoje já não há senhores em minha casa. o último a bater a porta foi o meu pai



não gosto do domingo


22/07/2013

imelda marcos




                                               coleção de sapatos de Imelda marcos 
                                                                   foto google




certo dia. na feira da literatura do luso poemas. um poeta ambulante desta “escola”. elitista [penso]. postou no seu espaço de opinião umas linhas de sua autoria sobre um qualquer assunto que já não recordo – lembro-me que gostei – despertada a minha modesta atenção. peguei no teclado. toquei as teclas com muito jeitinho e comentei como entendi – não sei se bem ou mal. comentei com a arte que ao longo do tempo fui capaz de amealhar – não foi muita. confesso com vergonha – já fiz muitas coisas na vida. não nestas coisas da literatura. destas. infelizmente. nada sei. mas de outras que sendo menos eruditas. ensinaram-me a compreender vagarosamente o que os hábeis escritores vão escrevendo numa arte que invejo – confesso que a minha destreza para a escrita é muito modesta. mas na oralidade o desastre é multiplicado por dez – um mal nunca vem só – daí a importância da “escrituração” para os mancebos como eu – escrever é comunicar – nesta habilidade feita a punho é sempre possível voltar atrás. reescrever o que pensamos estar menos bem. repensar. voltar a reescrever – fico sempre com a sensação de que quando reescrevo a emenda é pior que o soneto – aprendi a suportar com tristeza esta marca – burro velho não aprende línguas –

     [prosseguindo. penso ainda]

comentar um autor. que através da escrita. teve a mestria de conquistar a minha [leitor] atenção. deve ser gratificante – que inveja tenho desta gente que é lida – eu bem tento. mas nada. ninguém me comenta – só deus [se houvesse] e eu é que sabemos a dor que me consome o corpo – as palavras são sempre tão difíceis de juntar –

     [andando]

confesso que para mim comentar. é na maior parte das vezes um impulso  impregnado de gratidão. com resultados quase sempre inesperados pela perturbação emocional com que me entrego ao teclado. quero dizer: desfecho de escrita duvidosa –

     [raios partam a minha sorte]

é amargo para quem não tem o dom da escrita – dentro da cabeça milhentas coisas lutam desesperadamente por um lugar no papel. as ideias penetradas por um sentimento maravilhado pulam de lado para lado. empurram-se. esmagam-se e arrumam-se como podem no espaço branco de uma folha a4 sem expressarem uma milésima parte do que deveriam dizer – tanto deslumbramento e o corpo sem forma de o mostrar – e a desarrumação aos gritos no branco da folha – desordem emocional é tudo o que ganhei por um dia ter aprendido a ler –

     [que inveja da cegueira dos analfabetos. nenhuma letra os atrapalha]

mas nem sempre somos o que queremos. na maior parte das vezes somos o acaso de um caso na vida – um dia o meu pai e a minha mãe resolveram dar um beijo no período fértil. aconteci – cresci a imaginar coisas e de cravo na mão parti no meio de uma manifestação a cantar zeca afonso – quando olhei para mim era homem –

     [menos homem do que sou hoje. era um garoto de maior idade]

assim foi. e o tempo a fazer-me crescer e a consumir vontades – os dias eram pequeníssimos para tudo o que sonhava fazer – as coisas do saber exigiam-me tempo que não podia dar e tudo foi ficando adiado em nome de ideais que hoje já não existem  

     [também o meu muro caiu. eu e berlim unidos pelo mesmo destino]

os dias tornam-se compridos e impertinentes – envelheço a sonhar com uma casa virada para o mar. um sofá. uma lareira e uma mesa carregada de saber: livros e livros de gente que não sabe que existo. eu ali estou – sozinho para eles. acompanhado de amigos para mim – todos tão diferentes e todos como eu. unidos pela força das palavras – eu e eles virados para a lareira. eu e eles a ouvir o ir e o vir do meu mar e todos felizes com tão pouco – no resto do mundo as minhas gaivotas rasgam o vento numa liberdade que nunca alcancei – se eu pudesse acontecer de novo – na cabeça a morte trágica de romeu e julieta alimenta-me a esperança de eu também partir envenenado por uma última leitura do amor da minha vida: júlio dinis – havia tanto nos livros deste homem: saber. honra. verdade. tradição. família. trabalho. esperança. amor. caridade. humildade. humanidade. havia sonhos – sempre sonhei com um mundo bom –

     [adiante]

uns dias mais tarde recebi em jeito de resposta ao meu comentário um pequeníssimo amontoado de palavras. que reconheço. talvez por minha culpa. nunca fui capaz de as compreender – lembro-me de ficar irritadíssimo – resisti – ao longo de muitos dias não fui capaz de encontrar no meu conhecimento o mérito suficiente para compreender o meu ilustríssimo escrevente – fiquei arrasado. mas logo percebi que o autor escreveu tudo num superlativo absoluto sintético – não tenho estudos para superlativos –  envergonhado. remeti o meu corpo ao silêncio –

     [desonra pensei. e como manda a tradição do país ao melhor soldado japonês. suicidei-me no meu silêncio]

não se vive em desonra – como foi possível não ter sido capaz de interpretar um simples amontoado de palavras – sei que estavam cobertas por uma ambiguidade sarcástica – como foi possível isto acontecer – tudo isto sufocava. tudo isto era como o enrolar da jiboia. apertava cada vez mais e a asfixia total era uma questão de tempo – o que o nobre colega retratou naquele breve comentário pode ser descrito como uma pintura abstrata lírica. de cores pouco definidas. traço largo. firme e suficiente forte para abraçar toda a ingenuidade do leitor ao ponto de o deixar confuso [louco] –

     [havia naquelas palavras um cheiro forte a tons pastel-terra. lembrando o outono. o cair da folha. as primeiras geadas e a morte dos mais débeis  à crueldade da natureza]

lembro-me de ficar com um misto de intriga e fascínio pela imagem do avatar do colega – era arrasadora: os olhos inclinavam-se para dentro. protegidos por uns óculos de massa que mais pareciam uma prisão. a boca como se nunca tivesse falado. perfeita – a barba [percebia-se] cortada à tesoura. a tombar para a esquerda como se impõe a um verdadeiro revolucionário com estudos – toda a imagem era profundamente perturbante. uma mistura deliciosa de madre teresa de calcutá com a heroicidade de che guevara – lembro-me de pensar: a história jamais apagará um retrato como este – nunca lhe perdi a admiração. ainda hoje. em segredo. pé ante pé para não incomodar. lá vou eu dar um escapadelazinha ao seu covil de saber – fico sempre estarrecido com a humildade de quem sabe que sabe –

     [sou um romântico]

fiquei tempos sem fim a olhar para as palavras. ora lia o meu comentário. ora lia a resposta ao meu comentário – hoje posso garantir com verdade que não foi nada fácil aguentar aquela dor de saber que nada sabemos – é como nas corridas de fundo no atletismo. a meio da prova. surge uma dor na zona abdominal. chamam-lhe dor de burro. confesso que não sei o porquê – na dor de burro. sabemos que dói. colocamos a mão sobre o local da dor para comprimi-la mas não há nada a fazer. só pára mesmo de doer quando paramos de correr. neste caso de ler – assim fiz. e logo a dor parou – hoje à distância do tempo já gasto. lembro-me do local da dor e de um pequeno excerto do comentário que originou uma das piores dores de burro que tive na vida – dizia o meu caro colega: as minhas palavras lhe traziam à memória imelda marcos pela adoração que esta tinha por sapatos – este comentário mudou a minha vida – hoje. sou um comprador compulsivo de sapatos. fanático e sem tratamento – tudo faço para embelezar os pés – aprendi que é absolutamente necessário estar bem calçado para que uma escrita se torne credível. formosa e principalmente lida – nunca escrevo descalço. não. nunca mais quero ter aquela dor de burro –

     [escrevi. li. pensei. escrevi e passaram-se provavelmente dois anos]
e agora vou dormir em paz




12/07/2013

confissão




marc chagall



chegou o momento de voltar a colocar o silêncio no corpo – branquear a memória. reconciliar e envelhecer – nada em mim tombou apodrecido




11/07/2013

nuno higino - talvez deus se tenha enganado




nuno higino




Queria centrar-me todo em certas palavras, ocupar o espaço
sem necessidade de coordenadas, errar o tempo
tomando-o por tempos que nunca existiram. Desejaria a sorte
dos que morreram em naufrágios e foram poupados
à habitação dos cemitérios. Nunca tive jeito para ser feliz
[nem para gritar] e pior que isso: condenado à efémera
duração dos sonhos [bastava a poesia para condenar-me]
Talvez Deus se tenha enganado: sobre o barro soprou a vida
em vez do sonho.




    Nuno Higino. Talvez Deus se tenha enganado. Letras & Coisas (2004)


05/07/2013

beijo




van gogh




e do nada um beijo – tinha pedido um cigarro aceso. chegou-me um beijo aceso – os beijos não fazem mal. os acesos também – sempre gostei de beijos que nos abraçam – estou com os olhos fora da latrina – estou sem braços. sem pernas. sem olhos. sem pulmão. sem ar. sem paladar. estou sem o meu corpo – mas estou para beijos. ainda tenho face – nunca perco a face. deve ser de família. vamos perdendo tudo menos a face – estou agasalhado para mais uma noite. estou com um beijo aceso que me abraça de bem



04/07/2013

o que é lucidez?




sam jinks




tenho ainda tanta coisa para escrever – tudo que tenho corre para as mãos como os rios correm para o mar – tudo confusão. e os olhos dentro da latrina gritam para não mais voltar a ver – tudo é desordem. desarrumação – e as mãos não sabem dar ordens – desapegado do corpo – arranco um braço e os jornais  anunciam o fim da greve geral – arranco uma perna e gasolina é mais cara dez cêntimos a partir da meia-noite – arranco a outra perna e o vizinho atira-se da varanda por não ter um empregador – estou de rastos. ao nível dos vermes – arranco um pulmão. e os médicos anunciam uma vacina contra o cancro do pulmão –  arranco a língua. e ninguém quer saber do que escrevo – arranco os miolos. e a casa amarela não aceita doentes sem adse – arranco o outro braço e fico para sempre em silêncio – não escrevo. não ando. não penso. respiro mal e já nada corre para lado nenhum – ouço. ouço o tempo. ouço as pernas. ouço as mãos. ouço o cérebro. ouço o que me ficou dentro – há coisas que não conseguimos arrancar – ouço o meu silêncio como nunca fui capaz de ouvir – alguém afectuoso por perto me traz um cigarro aceso? preciso de escrever




//

significado de lucidez:


mente limpa, coerente, quando a pessoa tem discernimento, atento, alerta, acordado, enfim sóbrio.
exemplo do uso da palavra lucidez:

o casal apesar de ter saído tarde da festa estava lúcido, no entanto colidiram o carro por inabilitação do outro motorista.

//




o outro motorista sou eu







edith piaf









não lamento nada. nada de nada - estou a caminho do caminho que me escolheu - nem sempre temos o poder da escolha - não lamento nada. nada de nada



03/07/2013

em que estás a pensar?




sam jinks




sempre que abro o facebook dou de caras com esta coisa medonha - em que estás a pensar?


será que alguém consegue pensar neste país? não acredito - talvez haja para aí algum iluminado que ainda pense - no que diz respeito à minha pessoa. e para vos falar verdade. já não penso. já só tenho tempo para me desviar dos obstáculos que aparecem em catadupa - e tudo cada vez mais rápido e eu cada vez mais lento - creio que estou no famoso jogo playstation-sonic - o pormenor é que neste jogo as argolinhas douradas não trazem vidas extras e eu já estou na última [parte da] vida - confesso que estou com medo. ainda não vi nenhum botão start



02/07/2013

não renascerei




lucian freud






se eu quisesse falar com deus tenho a certeza que o todo poderoso me mandava à merda – de mau. desiludido e com cara de quem já não procura amigos também digo: não quero falar contigo – prefiro recordar-te como te vi no livro da catequese – nesse tempo fazias milagres





01/07/2013

maçã




sokram





o silêncio também cai de maduro



não há ressurreição




ron mueck




se eu quisesse falar com deus tenho a certeza que o todo poderoso me mandava à merda – de mau. desiludido e com cara de quem já não procura amigos também digo: não quero falar contigo – prefiro recordar-te como te vi no livro da catequese – nesse tempo fazias milagres



30/06/2013

kali




vladimir kush




nunca compreendi pessoa – como é possível ser tanto num corpo só - estou a meio de  um fim-de-semana num corpo desmanchado por processos que não reconheço – sou um eu agora e logo não sou – um corpo meio morto de desgosto. respiro – outro meio corpo vive para ver a outra parte morrer. respiro –  a festa vai ser de arromba num funeral de cortar a respiração



17/06/2013

embuste




caravaggio - o beijo de judas




imensamente tranquilo – o tempo é realmente a única cura contra a dor da desilusão – é o que faço neste momento. aguardo – aguardo com a verdade de um coração que nunca se deixou manipular – aguardo com tudo o que sempre tive – nós aguardamos – aguardamos todos neste lugar com janelas a que chamo lar – lá fora. do outro lado deste lugar que nos cobre com dignidade. corre a mentira – não se engana o mundo sábio. alguns tolos talvez – corre descalço o embuste. carrega em fardo pesado uma vida de fraude – pobre e coitada. só como sempre. inverte o mundo para ficar de pé – estamos aqui todos. todos como se fôssemos um só tempo – como sempre e para sempre. aguardamos imensamente tranquilos - nós


13/06/2013

elegia na morte da manipulação




federico castellon




estou finalmente numa paz feita de algodão doce – a última vez que senti esta paz aconchegadora  foi  no dia em que enterrei o meu pai – a doença foi cruel e o sofrimento muito. para todos – estar em paz é voltar a viver  em harmonia com as leis naturais da vida. doce – lar doce lar  



10/06/2013

todos




fernando botero





nada melhor do que um dia de chuva para compreender que aqui por casa continuamos todos



08/06/2013

de pernas para o ar




 edvard munch




"Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de valor que fosse ingrato."




johann goethe