.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

03/02/2014

retalhos – número de série 20012014s(r)ego07




debora arango
 
 
se pudesse calar este silêncio da noite talvez me pudesse ver à lupa do sherlock holmes - quem sabe descobria-me sentado na cauda da ursa maior



30/01/2014

ladainha contra o mau olhado




a. j. s. azevedo
 
 
 


não posso mentir. estou proibido pelo passado – lido muito mal com injustiças. mas também não me parece que seja diferente da maioria das pessoas. injustiça é injustiça e não tem tamanho para homem de bem – se eu tivesse uma macieira no meu quintal era fácil. dois coices fortes. e as maçãs podres no chão pela força da razão – ali ficariam a entrar em decomposição. na lama. ao inferno do tempo. à boca dos infiéis da terra – o pecado nunca apodrece. tem que ser comido – da minha janela. retirado da arrelia. peço aos santos e demónios piedade – olhos no céu. acrescento dedos ao rosário em contas que nunca dão certo na prova dos nove – um terço pelas vítimas do mau olhado. amém - um terço pelos desafortunados. deficientes e desbocados. amém – um terço pelas vítimas da ejaculação precoce. amém – um terço pelas doenças da próstata.  amém – um terço pelas mulheres da má vida. finalmente um terço por mim. que não gosto de me sentir assim. amém – mão no bolso. boca em forma de assobio e o coração a dar o tic tac numa angústia de quem espera por um novo dia – o sol vai nascer novamente – acreditam no mau olhado?

- volto já -

[estou a pendurar no corpo uns amuletos contra o mau olhado. uma rasa de sal pelos cantos da casa e a partir de hoje as cuecas serão sempre vestidas do avesso]



retalhos – número de série 16012014s(r)ego06




tintoretto
 
 
 
depois de morto não me roubem nenhuma palavra da boca



29/01/2014

alberto pimenta




alberto pimenta



 
 
ao que parece
parece que
os poetas
dizem o que dizem
diz um poeta

segue-se
ao que parece
segundo o mesmo poeta
que os poetas
dizem o que dizem
mas o que dizem
não quer dizer
o que dizem

os especialistas
uns dizem
que alguns poetas
querem dizer o que dizem
e outros
não

ora
quem sou eu
para discordar
de facto
também me parece
que muitos poetas
não querem dizer
o que dizem
quando dizem
o que querem

outros sim
quer dizer
pelo contrário
não dizem
o que querem
mas querem dizer
o que dizem

por exemplo
quando
le nouveau bec
d' assurancetourix
diz
que mais vale
uma ordem injusta
que a desordem
eu sei tu sabes ele sabe
que é isso
que le mec quer dizer



Alberto Pimenta, Resumo: a poesia em 2012, Documenta/Fnac, pp. 23-24. Originalmente publicado em De Nada, ed. Boca


27/01/2014

escrever reconcilia-me com a vida




 graciela rodo boulanger

           



introdução para contextualizar o aparecimento deste novo texto – “escrever reconcilia-me com a vida”

 

mário osório comenta no facebook a minha crónica – “não é escritor quem quer”

 

Mário Osório – um carpinteiro de palavras, não sei, mas escreves e és escritor, um daqueles com uma inteligência emocional maravilhosa, um toque muito próprio. é muito bom seguir-te, são viagens que valem sempre a pena - um abraço.

23/01/2014

 

Sampaio Rego – abraço mário. mesmo

23/01/2014

 

Sampaio Rego – "Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo." hermann hesse - obrigado nuno [mário]. o abraço sabia a pouco

23/01/2014

 

António Viana – Na leitura não há a procura de compreender quem escreve, há a procura de sermos compreendidos, assim como na escrita!

24/01/2014

 

António Viana – E não é escritor quem escreve, não faltariam escritores, eu por exemplo, é escritor quem sabe descrever a alma humana!

24/01/2014

 

Sampaio Rego – creio estares a fazer um comentário a um meu comentário e não ao texto que originou o comentário – confesso que só li um livro do hermann hesse – no entanto. já várias vezes tive oportunidade de ler pequenos trabalhos académicos sobre este autor. insignificantes para o valor que representa a sua obra na literatura mundial – um nobel é sempre um nobel [bem sei que há exceções] – és bem capaz de ter alguma razão. todos temos sempre alguma razão quando trazemos ao papel o que nos vai na alma – no entanto. este meu comentário é feito a uma pessoa que conheço pessoalmente. tive o prazer de poder usufruir da sua companhia na minha casa. com a minha família. em momentos especialíssimos para mim. nos jantares de domingo – o pensamento do herman hesse serviu apenas para reafirmar a estima e consideração que tenho pelo “mário osório” que está muito para lá do homem que escreve no facebook. luso ou blogue – mas isso é outra história dentro da minha história – compreendo-te – estas coisas da escrita são como os medicamentes. como a penicilina. salva milhões. no entanto. alguns não a toleram e acabam por sucumbir – felizmente são poucos – o importante destas amizades virtuais é que quando estava a responder ao teu comentário perdi a noção do tempo e das palavras e quando dei por mim tinha duas páginas preenchidas – resolvi então transformar o meu comentário em mais uma crónica. dá pelo nome: escrever reconcilia-me com a vida – [irei postar de seguida. estou apenas à procura de uma pintura para lhe fazer companhia]

27/01/2014

 

António Viana – Sim, foi a um comentário teu e a outro comentador, sem querer por em causa quem fosse! Tento ao máximo não personalizar as minhas opiniões, mas sim ao que a pessoa diz. Há uma tendência geral para se dizer que quem escreve é escritor, ou em sentido mais restrito, quem faz "poemas" é poeta e nesse sentido dei uma opinião tentando desconstruir esta concepção, que eu vejo cada vez mais generalizada. Dentro da linha de não querer saber qual o nome que está por trás de uma afirmação, opinião, texto o que valha de manifestação, dei a minha opinião sobre o que Hermann Hesse afirmou, sem tentar beliscar ao mínimo a sua qualidade como escritor, poeta e também filósofo que aprecio. Nunca um nome influenciará opinião minha, poderá chamar-me mais à atenção, não mais do que isso. Fico contente por de alguma forma a minha intervenção ter ajudado um pouco à tua escrita, como contente fico quando assim acontece comigo, é sinal que estamos atentos e não só centrados em nós. Abraço.

27/01/2014

 

 

escrever reconcilia-me com a vida

 

escrever reconcilia-me com a vida – se existir uma tabela de preferências para o que nos leva a escrever e a ler é obvio que os motivos que apresentas estão com toda a certeza no pódio dessa tabela – no entanto. no que diz respeito à minha pessoa. melhor dizendo. ao escrivão que escreveu o texto “não é escritor quem quer”. digo. com sinceridade. que as razões que me levam a escrever não competiriam pelos primeiros lugares dessa tabela – escrevo por necessidade – escrevo para fugir da solidão. quando o faço encontro-me – escrevo porque é com as palavras no papel que a minha verdade fica eterna. importante – escrevo para voltar ao passado. e com a lucidez do tempo que já me consumiu. encontrar razões coerentes para perceber o que sou hoje – escrevo porque a escrita me obriga a ser autêntico. escrever é um acto nobre – escrevo porque sou feliz a guardar-me em papel. eu tenho uma história – sou feliz a escrever. escrever recompensa. se assim não fosse não o faria – dezenas de vezes escrevi nas minhas crónicas. que o meu maior embaraço  é não saber falar – quem diria. eu que falo pelos cotovelos – não sei explicar nada com a oralidade. defeito do DNA – falo então a escrever. não é fácil. acredita que não. mas um dia. estou em crer. os meus filhos. mais maduros. na segunda idade dos porquês.  terão estes papeis para poderem saber um pouco mais do pai que escreve. e quem sabe. saberem também um pouco mais deles – hoje quanto não daria eu por uns papeizinhos do meu pai. fiquei com tantas perguntas por lhe fazer. tantas mesmo – tenho a certeza que são mais de mil. muitas mais – percebi tardiamente que o que nos distanciava na minha juventude. é agora na meia idade. o que me torna mais parecido – sou tanto dele e não sabia – se mais nenhuma razão houvesse esta já seria suficiente para me fazer escrever – um dia os meus filhos também poderão ficar ainda mais próximos de mim – a questão que coloco muitas vezes é o motivo porque torno público uma escrita quase sempre autobiográfica. interrogo-me se o deveria fazer – confesso. estou muito dividido nas certezas e nas dúvidas – por variadas razões entendi que o melhor era escrever – uma das muitas razões é esta que me leva a responder ao teu comentário: falar para ti. dizer o que penso – escrever o que sou. porque o sou. é para mim uma necessidade tão forte que não basta ser dita da boca para fora. tem que ser escrita – outra das razões é que só posso melhorar a minha escrita se a tornar pública – se não vos entregasse os textos não poderia aspirar a escrever sempre melhor. o esforço por encontrar as palavras certas deixaria de fazer sentido. bastaria um caderno de notas. cheio de erros. sem concordâncias. sem metáforas. sem hipérboles. sem sentimento. sem nada do que é meu verdadeiramente meu. genuíno. bom ou mau. não interessa. sendo o que sou porque cada um é como é – se não me entregasse na escrita. para que serviria o corretor do word. para que serviria a gramática que tenho em cima da escrevaninha. os dicionários. para que serviria a voz de um filho a perguntar se uma qualquer palavra se escreve com um H ou um A – não quero compreensão para o que sou. nem para o que fui. quero apreço pelo esforço a que me devoto para trazer as palavras mais acertadas para o que me proponho a falar – escrevo para marcar o tempo. como quem marca um trilho numa floresta com pedrinhas para saber o caminho de volta – quando escrevo saio da alma. quando leio entro na alma. mas no final. na escrita ou na leitura. é para mim que quero voltar. sempre – escrever para mim não é fácil. não nasci com essa arte. e para cada palavra procurada a busca é quase sempre extenuante. fico sempre com a sensação de que nunca deixo ficar na escrita o sentimento que me acontece na alma – e assim digo: não sou escritor. mas gosto de escrever. gosto de fazer amigos com a escrita. gosto de saber que quem me lê entende que o faço com prazer. que dou tudo tenho e que sei para me compreenderem. como se lhes estivesse a amarrar as mãos – quando alguém me diz que sou escritor. está a dizer-me que gostou de tomar um café na minha companhia. que fomos ao cinema ver um filme qualquer apenas para estarmos um tempo juntos. que vimos uma partida de futebol e pulamos de alegria com um golo que não foi o da nosso equipa – quando alguém me diz que escrevo. diz-me para não desistir. diz-me vai em frente. diz-me que já lhe chega ser o que sou mesmo que nunca possa ser um verdadeiro escritor. para essas pessoa já é importante me terem nessa meia dúzia de palavras – escrevo para mim. gosto de mim quando escrevo. mas se pudesse mudar o passado tenho a certeza de que hoje seria muito melhor escritor. no entanto. não estou certo se seria melhor pessoa – o que não mudaria nunca era as pessoas que passaram na minha vida. elas são tudo o que sou hoje. não guardo culpados dentro de mim. sou o que sou porque em momentos da minha vida escolhi caminhar sem colocar pedrinhas nos trilhos que escolhi – quando nos perdemos por convicção demoramos sempre mais tempo a encontrar o caminho mais certo para o que somos na verdade – escrevo hoje para que a verdade de amanhã não me atormente nunca mais o passado – sei que o tempo muda o homem. amanhã poderei ser outro. mas agora tenho estes papeis escritos – quando escrevo sou o que sou no momento. mas em cada momento nunca deixo de ser o que fui. acredito – eugénio de andrade um dia escreveu esta coisa maravilhosa. "Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida." – também eu me reconcilio comigo a escrever

 

 

 



22/01/2014

não é escritor quem quer






fabian perez





não é escritor
quem quer



escrevo prosa. não sei escrever poesia – escrevo prosa porque gosto de falar com pessoas. imagino-as a escutar o que escrevo. acenando a cabeça para cima e para baixo. a dizerem sim. sim de compreenderem o que as palavras não sabem dizer – as palavras nunca dizem tudo – quando escrevo falo muito. sempre mais do que o necessário – sou assim. o corpo pede e as palavras aparecem. acontecem – tenho muito medo de dizer pouco. escrevo. escrevo. e o medo a fazer eco: estás a falar muito. estás a falar muito. estás a falar muito. e centenas de ouvidos nas palmas das mãos em agonia – escrevo. escrevo mais. mais. resisto com palavras guardadas num pavor-silêncio. meu – e se não me compreendem? escrevo. escrevo como se me poisassem andorinhas numas mãos disfarçadas de cabos de alta tensão. sacodem a penugem como eu sacudo letras – para elas não há inverno. cantam  primavera em dias de chuva molha tolos. esperança – sou tolo por gostar de escrever? não sei. palavra de honra que não sei. possivelmente sou – talvez a minha tolice derive de um conflito existencial: um corpo dividido em dois – de um lado o destino. do outro a fé de que todos os caminhos vão dar a roma – não é verdade. há caminhos para o nada. para um fim do mundo que nunca se alcança – haverá castigo pior do que saber que metade do corpo não descobre a sua outra metade cuidada? – não há – punição que não merece nenhuma das metades – talvez um dia alguém diga que a verdadeira obra de arte nasce da comparação entre belo e o monstro. talvez – aceitação. as metades olham-se em compaixão e as palavras lutam com a  imobilidade do corpo. nada acontece às mãos  – ali fico. estático. de olhos parados no nada. a gozar a antecâmara da morte num silêncio interior inimaginável – o que de mim resta guarda-me a música tocada com acordes de notas graves com arranjos de desilusão – só escrevo com música. é uma questão de ritmo. dizem que são feitos de fórmulas matemáticas. talvez seja esta a única ocasião de me encontrar com a lógica – às vezes não encontro nenhuma fórmula capaz de me atirar ao futuro. nem uma insignificante regra de três simples. triste – tenho tantos dias onde não existo. com tudo a permanecer no escuro. com tanta coisa sem nome. e o coração a bater ao ritmo de uma porta açoitada por vento tirano – um dia destes apunhalo-me com uma qualquer palavra ordinária – estou cansado. os dias estão mais rápidos e a mobilidade mais difícil. estou a ficar com as costas tombadas cada vez mais para a terra – os invernos chamam cuidados. estou frio. sempre que escrevo fico enregelado. e os brônquios a chiar. pingo no nariz e eu sem o lenço da mão – o pingo suspenso. fungo. escrevo. fungo. escrevo – escrevo. hoje tenho um adjetivo qualificativo importante para rabiscar: a minha escrita é uma palhaçada – e também um superlativo absoluto sintético: sinto-me sapientíssimo quando escrevo – contradição lunática. fungo – confesso que por cada dia de escrita o medo duplica e o desespero multiplica-se numa equação de resultado infinito – quem sabe hoje é o meu dia da sorte e as palavras fazem uma primavera-abril sem águas mil – gracejo levemente. como se fosse uma daquelas pinceladas minúsculas de van gogh. colho o ramo de flores da sua jarra. girassóis brancos. ao meu olhar. ato-o com dois verbos fortes: sou o que fui – escrevo. aligeiro mais duas linhas ao pensamento. se soubesse escrever com arte talvez o livro da minha vida estivesse no último capítulo. não sei – trago nas mãos palavras que não são minhas. ouvi algumas. li outras. senti muitas mais. e sem saber qual das partes do corpo resiste à incerteza. entre silêncios da noite. encontro outras que não sou capaz de descrever. quer dizer. escrever – destino – paz à sua alma e luto eterno para um homem que nunca deixou de ser órfão – crueldade. ninguém deveria nascer com o destino traçado – depois de morto não me roubem palavras da boca. peço – enfrento o que sou  com o que fui. toco-me. e parto ao futuro navegando à bolina numa agitação norte que nunca parou de anunciar desordem – agora. agora faço estas páginas de palavras para espalhar no mundo dos justos. há tantos. basta procurá-los nos morais da modernidade – todos temos que ser qualquer coisa – o que sou eu quando não sou o que sou por obrigação? – talvez um carpinteiro* de palavras. operário de palavras. soletradas por uma boca putrificada por uma inquietude autobiográfica 



– onde é que já ouvi isto –
 

passo tanto tempo a ouvir-me. e o corpo a dizer: desiste. desiste. o destino está traçado – nunca compreendi a motivação dos órgãos para não se suicidarem – não me compreendo – talvez a palavra compreender não seja a mais correta para definir esta coisa de querer dizer o que não pode ser dito por quem gosta de falar – não sei escrever. não sei falar. não sei ler o futuro. vivo no meu silêncio de barulho. sobrevivo – escrevo então com este barulho dos dedos a bater nas teclas. dou-lhe com força para fingir que não estou apenas na companhia de um silêncio silêncio e ganho coragem para escrever a palavra “graal”: aceito-me – aceito-me assenta melhor num corpo dividido – aceito-me. gosto da palavra. alivia uma dor que gosto de negar aos que me tentam fazer acreditar na soma das partes – sei que existo porque me obrigo a escrever – aceito-me. esta é a palavra mais-que-perfeita. a palavra de quem escreve para implorar compaixão a uma dor que nunca sei onde doía – escrevo prosa porque gosto de falar

[*] – antónio lobo antunes -

 


21/01/2014

retalhos – número de série 08012014s(r)ego04






giovanni domeni


 

 
para onde foi troia
do heitor herói


talvez helena esconda
o motivo de tal traição

 

 

 

nuit dês rêves - noite dos sonhos




edouard léon cortès


 

que vos dizer amigos…
de mãos dadas
com a paixão dos tempos
que por mim passaram
sou feliz!
de um lado a torre eiffel,
do outro l`arc de triomphe.
hoje. também meu
 
em degustação
o dinêr;
“pavé de rumsteak grillé”
e um bom vinho de bordeaux .
pelo olhar deixo cair um je t`aime
em surdina recebo um sorrir
depois.
um leve pisar do pé
e assim vivo
 
chegam “les deserts”
“mille-feuille a la vanille bourbon”
sem poder reclamar o coração
diz mais um olá
 
somos assim!
agora. aproveitamos o tempo
café. “s´il vous plait”!
entre abraços congelamos o frio
somos afinal meninos
e em chamas deslizamos
pelo champs-elysées
 
em branco. pela iluminação
que agradece
acendemos mais uma luz.
nesta cidade de luz
paris afinal necessitava de nós.
assim!
despidos para a vida
 
é noite.
e por aqui andamos a escrever
o que um dia será passado
nosso. e de quem nos lê
 
 
 
02 de dezembro de 2009
 
 



16/01/2014

retalhos – número de série 07012014s(r)ego03




jean-michel folon
 


às vezes estou só eu. imóvel. como a noite.
de dentro de mim o desejo de trazer sonhos para a realidade
e assim
matar a solidão e a noite
de uma só vez
com a raiva de uma palavra gelo
 
aos retalhos
já basto eu




sou




gustave courbet



 
 
sou
sou
sou
mesmo contra vossa vontade sou
não sou este
o que desse palanque cogitais
sou aquele
aquele que daqui
deste meu reservatório
de ideias sou
sou assim
duro como pedra
mole como os pensamentos
tramados pelas mãos
sou
sou
sou
sou convencido no que sou
sou até um qualquer
sempre que quero
e quando não quero
também sou
hoje. por acaso. sou um ruído com olhos castanhos
vejo todos os sons com um sou
um sou único
talvez um sou com som
um que se ouve a si
para dizer
assim serei
com o meu som eu sou
sou
sou
sou
sou de um tamanho que já não existe
presente para o mundo
dos que nada são
sou afinal um sou só
só porque sou teimoso
para não ser um sou dos outros
sou meu
sou do meu sou
talvez louco. sim talvez
mas sou
sou



09/01/2014

goya







mário osório - "esta obra de goya não é muito conhecida. O primeiro biografo de Goya, Matheron, no fim do século XIX, ignora-a no catálogo das obras. O enfermo é o próprio Goya, é um autoretrato. O médico é o doutor Arrieta, que o tratou de uma doença no fim da vida e assim Goya, de presente, ofereceu-lhe esta pintura. atrás vêem-se os fantasmas, figuras do seu delírio. eu adoro mesmo esta pintura, fico mesmo feliz de partilhar este gosto contigo."


23/11/2013

púrpura




james ensor
 
 



acreditei que o luto estava encerrado. disse. acreditei – esta coisa da morte é estranha. quando menos se espera volta a viver como se nunca nada tivesse partido – se eu me compreendesse talvez pudesse escrever alguma coisa com mais sentido. mas não. não me compreendo. quiçá uma parte de mim está morta e quem escreve este rascunho de coisa nenhuma não é mais do que uma debilidade de uma parte do corpo que teima em escrever para viver

[quando saio à rua vejo tudo tão vivo. como se nunca nada tivesse partido do mundo)

tu que me estás a ler. sim tu. tu mesmo. achas que estou louco? sabes o que é a morte? sabes? já sei o que vais responder. vais dizer que sabes o que é a vida. e que a vida são pássaros a voar em bando e roupa a secar num estendal de uma varanda num quarto andar desabitado – mas quem me manda escrever? quem? neste dia de merda talvez o certo fosse mudar a terra naquele vaso que ninguém consegue ver – o bando de pássaros vê – um dia vou mostrar-vos – talvez depois de morto os sonhos possam florir anunciando a ressurreição de quem chegou sempre atrasado às palavras. no vaso que ninguém vê



21/11/2013

mário cesariny - é importante foder




mário cesariny




É IMPORTANTE FODER

É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d’ir urinar.

Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
“O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é
”Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).

Também aquela do “outrora-agora” e do “ah poder ser tu sendo eu
” foi um bom trabalho.
Para continuar tudo co’a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.

Mário Cesariny



in “o virgem negra” assírio & alvim (1996)



07/11/2013

dissertação sobre os loucos moinhos de vento de dom quixote - 4 de 4




autor desconhecido 




no corpo. em local desconhecido. um minúsculo grupo de átomos ligados por  palavras fundem-se: nasce o texto – as trompetes rompem o silêncio e anunciam a nova obra do cavalheiro-artista. alegria – no céu. as nuvens desistem de profetizar tempestade e o céu dá agora lugar a um novo astro-anunciador. este. indica o caminho aos amantes da leitura para as novas do homem que escreve – a comprovação. em papel. é feita de vocábulos organizados pelo talento dos olhos que ouvem no silêncio – no corpo. a gente silenciosa parte para o descanso. recolhe à mudez das catacumbas do homem que guarda o cavalheiro. harmonia – é a hora do leitor apaixonado. é a hora da calmaria. é a hora da serenidade – tudo escrito à mão numa paixão abençoada pelo ouvir dos olhos  – “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo” [carlos drummond de andrade]. sinto – o momento é de paz – o cavalheiro feliz. digo. quase feliz. se não houvesse aquela dúvida persistente. talvez hoje fosse o dia certo para morrer acorrentado a uma palavra de gratidão – mas há – a dúvida perdura. sufoca o mundo das pessoas que guarda sem nome. das gaivotas. dos frutos. da sorte. dos animais. das árvores. da chuva. da criança protegida no colo da sua mãe. da bicicleta que nunca existiu. do vento norte. dos pesadelos das noites do nada. do corpo a pedir morte por um distúrbio mental – paranoico. vive num delírio permanente na procura da palavra que nunca existiu. mito – o cavalheiro que escreve vive doente na recapitulação de um texto que nunca está pronto. louco – lê. volta a ler. a calma a doer. e já vai em cem dias. e o coração a segredar pânico para um abismo de silêncio sepulcral – não! acabou. não leio mais. a perfeição é a morada dos deuses. só conheço a casa onde guardo o corpo. agonia – solidão. sofrimento. suicídio – chegou o momento. coragem. um dia tinha que ser. o cavalheiro resistirá. o homem resistirá. sobreviver é também escrever – o homem que escreve ali. relembro. os olhos também. o sentimento. o mesmo de sempre. de dentro. medo – tantos corpos parados a murmurar cada vez mais baixinho. e as noites que nunca foram noites em memória-dor. teimavam iluminar um caminho que nunca encontrei – louco. acreditei no silêncio das noites. e o corpo cada vez mais doente por não saber distinguir a loucura da ambição genuína. resignação – tudo parte. tudo na vida é assim. tudo tem um principio e um fim. eu também. o cavalheiro também – para trás uma porta aberta indica desespero: perder para sempre as palavras ouvidas com o olhar – mais medo – agora sou de quem não me conhece – sobra-me o corpo. tudo o resto nu. despido pela leitura – contratava a morte por um dia – mais medo. muito medo. terror. as palavras no leitor podem dizer o que nunca senti. mais terror – não há boa escrita sem consciência. sem angústia. sem gemido. sem arrependimento – amanhã sei que escreveria tudo diferente – morte e ressurreição – para o leitor a descoberta de novas vidas. ou talvez não. talvez assim assim. não importa. nunca haverá certezas para olhos que não ouvem – no cavalheiro. finalmente um momento silencioso anuncia descanso. acredita na mensagem das palavras. paz – o belo não tem pressa. aparece a cada leitura e descansa num marcador de livro: é ali que a vida parou. mais tarde será noutra página – tudo é agora texto. fundido em verdade ganhou existência terrena. como o verde das montanhas. como o mar batido a vento. como instrumento que trabalha a terra. como árvore de fruto. como flor a nascer e o fruto a aparecer – as palavras dão pão às bocas e a saciam a alma de quem as lê. tudo é real na escrita de quem escreve para falar. o cavalheiro mais não é do que um homem a lutar pela sobrevivência do homem que lhe oferece o corpo para se revelar – para o homem que lê a leitura é apenas a junção das letras de dois homens que se toleram para sobreviver – a boa leitura é invisível. sente-se – no corpo  o sentimento da leitura encurta o tempo e tudo é  como se hoje fosse o primeiro dia do universo – lá está adão. e eva. nus. desta vez sem parra. e o cavalheiro ali a ouvir tudo com os olhos. com  as árvores vergadas ao fruto – assim está o homem que escreve. vergado pelo peso das palavras – há um novo mundo sempre que há um novo texto e também um novo cavalheiro – o homem que escreve prolonga-se na procura da perfeição – a morte não sobrevive à imperfeição – escrever pouco e dizer tudo é delírio – para o cavalheiro o texto já não mais voltará a pertencer-lhe. a alma do homem-escritor perdida para sempre – e o humano que lê gosta e ama. não gosta e não ama – recorda e ama. não gosta e esquece – acredita e sonha. não acredita e o pesadelo acontece – sente verdade e acalenta. experimenta mentira e o gelo aparece – exigente. egoísta. quer sentir as palavras como se fossem suas. uma boca para compensar outra – sou também tu –“ser poeta é ser mais alto é ser maior” – uma vida à procura do belo-supremo e o tudo é quase sempre nada ao dia seguinte – as palavras de ontem estão mortas. o belo é agora arrependimento. a história repete-se. tudo que é palavra está amaldiçoado – tudo se resume a dar vida ao ouvir dos olhos – o escrevedor vive com o nascer das palavras e morre com o sono  


[4 de 4] – fim 




29/10/2013

dissertação sobre os loucos moinhos de vento de dom quixote - 3 de 4




jeans paladino





a morte do cavalheiro é também a morte das palavras que não sabe escrever. o suicídio é adiado pela honra. resistência – escrevo erro. ninguém me sabe pelo que escrevo. sou assim. retorcido para dentro do que penso. procuro - cavo o que é meu. e mais um buraco. e outro. e mais outro e todos os buracos ocupados com nada – como o vedor procura a água eu procuro as palavras. e tudo seco. e a vara aponta para todos os livros que guardo no tampo da secretária – cavalheiro. sonhador por dentro. louco por fora. e o homem no seu tino perfeito – e as celebridades ali. mesmo ao pé de um texto destruído por mãos de quem escreve por necessidade. nada – dostoiévski tem uma frase que ilustra bem esta loucura doentia de fazer do nada aconchego: “não podendo encontrar o seu lugar no mundo, o homem deixa de ser homem, tornando-se um sonhador” – tal como zero mais zero é igual a zero. também o nada mais nada é igual a nada. utopista – tudo isto é nada – quem sabe se a loucura de escrever nada não é mais que um sintoma de deficiência vitamínica no enredo do que quero escrever – um dia queixei-me a um médico de dores intensas nas articulações das falanges – disse-me que talvez fosse défice de cálcio. não há nada a fazer. ainda não há cura nem prevenção para esse mal – aconselhou-me a fazer muitos exercícios com os dedos. assim faço. agora todos os dias. as dores não param de aumentar. não sinto melhoras – tenho dias que as dores aliviam um pouco. nas mudanças de textos. sempre que começo algo novo sinto-me mais confiante e as dores ficam adormecidas enquanto o cavalheiro sonha. expectativa – é assim desde o dia que comecei a tentar escrever. dores. mais dores e mais dores –  desespero com o silêncio das mãos pregadas no papel que não pára de florir estrelícias. esperança – esta flor não necessita de sol direto para abrir em flor. ambição – os cavalheiros que escrevem precisam – o tempo de quem escreve é feito de escravidão. sentado. ali fico à espera do milagre dos olhos. do ver dentro. do ver fora. do sentir dentro. do sentir fora e rabisco o que vejo. o que sinto. e a palavra embala a sofrer. vai para o papel? não. e mais outra e outra e os dias a contar para um homem que não gosta da idade que tem – escrevo para não envelhecer – corpo curvado. um sorriso para dentro. um ai. um acenar de cabeça leve. a testa a franzir no sentido do queixo. e o corpo a derrear para o lado do nada – só ele é que ainda acredita que existe vida nos buracos do corpo. demência – e depois o sentir do puxar das mãos para trás das costa enquanto os olhos gritam raiva por não alcançarem tudo. papel – tudo se torna maior que o cavalheiro. e o nada é gigantesco – no papel nada. no cavalheiro nada. dentro do homem tudo o que pode matar – o tudo é agora imenso para quem não sabe escrever – atiro o corpo ao chão. as mãos à guilhotina. e a cabeça ao fundo da terra onde os bichos nunca escolhem os cadáveres – dentro da terra não há cavalheiros. só homens. todos iguais. sem nada que os traga à vida. só à superfície as lápides falam da eternidade do tempo. livros – o lápis partido dois dedos acima do meu tamanho descansa perpetuamente no rascunho de um cavalheiro sem nome. lápide vazia – sobra a música. johann sebastian bach a esmagar com suavidade a esperança de uma clave de sol desenhada em papel de música. piedade – escrevo como se hoje fosse o meu último dia de cavalheiro – escrevo com a mesma bondade com que as gaivotas vivem na perpetuidade do mar. e tomam cada pedacinho do oceano como se fosse a sua casa. tranquilidade


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25/10/2013

dissertação sobre os loucos moinhos de vento de dom quixote - 2 de 4




alexandre pavan


e a vida sem quase nada é gasta a anotar a presença de quem se me demora no olhar – e são tantos os que por aqui ficam em silêncio. a ocupar o tempo. sem pressa. a falar baixinho. e sempre com tanta coisa pendurada no corpo – chegam em pezinhos de lã. sem olhos. sem sorriso. sem fé. e com os braços a suspirar em todas as direções. olham sul esperança. e eu ali a ouvir com os olhos – gosto de ouvir assim. a sentir os corpos a invadir o que é só meu. e o cavalheiro ali. aflito. a guardar tudo que consegue agarrar. às vezes tanto. dorido. pesado. às cores. também a preto e branco. e o que era meu deixou de ser: sou feito de gente. sou nós – quem entende este nós? alguém? não sei. não sei mesmo. sei que os sinto. sinto toda esta gente amarrada ao corpo. nosso. e o espaço dentro do cavalheiro cada vez mais apertado para o homem que já não consegue viver sem ele – a culpa é do homem que escreve. deixo entrar sempre tanta gente pelo corpo. mas como faria a escolha. pela roupa? pelo corte do cabelo? pelas mãos? não sei. sou um ingénuo? não. preciso deles para falar. quer dizer. para escrever o que sou com eles – são eles que me fazem escrever. é com eles que sinto – só não sei porque aceitam viver num corpo agitação. não sei mesmo. imagino que seja esperança. talvez acreditem que a eternidade é feita da palavra escrita – loucos. alguém pode acreditar que posso dar a eternidade ao que quer que seja com o que escrevo – pobre gente. enganados por todos. até pelos cavalheiros – já não há cavalheiros como antigamente. esses sim. tudo que escreviam era para sempre. basta olhar para a minha estante e vê-los vivos. com as capas duras. gravadas a ouro importante. e os nomes como se fossem família. orgulho – escrevo. não tenho outra forma de dizer o que sinto se não escrever. mesmo que nunca chegue a ter a certeza de que o que escrevo é verdadeiramente sentido. loucura – a dúvida das palavras é grande. do homem que escreve é o dobro – se houvesse uma palavra para cada coisa que sinto. mas são tantas a dizer sempre tanto e o corpo encurralado em ilusão.  serei capaz de escrever a minha vida sentida na primeira pessoa? o que sinto é verdade? tenho a certeza que não. se fosse verdade escrever seria fácil e as palavras surgiriam a qualquer instante do dia. baixavam da boca às gargalhadas – o papel branco. raivoso. agonia. nem uma pinga de tinta. nem uma palavra escrita. solidão – e os olhos cada vez mais cansados de procurar as palavras desta gente que me entra pelo corpo. pesam – tem de existir uma área de bem-estar neste corpo enorme. tem de haver um local de sossego onde o olhar descanse do que sente. tem de haver – acredito e procuro – talvez esse local esteja escondido nas pernas. não escrevo com as pernas. nem penso. nem corro. as pernas servem para me manter de pé. e quando quero parecer maior também servem para me colocar em bicos de pés. não fico muito maior. mas há quem pense que sim – mas a vida dobrou-me e passo a maior parte do tempo de joelhos à procura de palavras perdidas – dentro do corpo que escreve. um nada gigantesco. sinto-me tomado por um nada que não sei explicar. tenho mais de meio dia gasto no corpo. e nada de palavras – sinto que a solução é trazer os corpos até às mãos. povoá-las. dar-lhes vida. escrever – nenhum relógio de sol marca o tempo sem sombra. projeção – a chegada da noite é a qualquer hora. acontece com a escrita. recolha – um papel. e logo aparece gente sem nome. e ali ficam dias e dias a fazer de conta que o tempo não pesa para os homens que gostam de escrever. para os cavalheiros – talvez saibam ler o futuro de quem trabalha constantemente orações subordinadas. sabem que o erro e o belo está na mão que escreve. na linha da escrita. no apuro da dúvida. mestria – somos tantos dentro deste corpo – mas ali ficam. às voltas no papel. à espera da palavra mais-que-certa para perdurarem na eternidade de uma folha – escrevo. escrevo cada vez o que é menos meu e mais desta gente que não se cansa de me acompanhar. tudo é deles. tudo. não tenho nada meu. nem o cavalheiro. nada – quem sou eu para lhes retirar o que só a eles pertence? o homem que escreve não é dono de nada. escreve porque escreve. escreve para ter voz. escreve para dar sentido ao que sente. ao que lhe entra pelos olhos dentro. escreve para não adoecer – não conheço mais nenhuma razão para escrever – escreve porque o coração não se cansa de bater palavras – quem sabe um dia a ciência faz “mea culpa” de tudo o que disse sobre o coração –  afinal o músculo não bate por bater. o músculo bate paixão. bate pessoas. bate abraços. bate vida. bate sentir – há um fundamento sério dentro do homem que não escreve para aceitar esta gente sem nome dento de si. sente-os  – o cavalheiro sem eles não existiria – e o homem que escreve em alerta. vigilante. tenso. a doer. a devastar minuciosamente cada corpo. em espera. estáticos. clementes. transparentes. humanos. e eu a sentir. a ver como sentem. tudo. tudo de um lado ao outro – sinto.  paulatinamente sinto. escrevo. e esqueço o mundo dos que me amam tal e qual como sou. nada – o coração a trabalhar calmamente. sereno. doce. sem ruído. e o silêncio perfeito silencia a dor das palavras que nascem a ferros – a cada batimento um golpe no músculo que sustenta o cavalheiro. e o homem vai sofrer – pela boca a chegada de um sopro frio de melancolia existencial. mais silêncio – e os corpos que me ocupam a passearem de um lado para o outro sem saberem que os sinto como se fossem meus. nascidos de mim. cobertos de palavras. alimentam-me a esperança de um dia saber falar sem ser a escrever – e o cavalheiro em duelo de morte promete ao homem o sossego – um dia cravo o lápis no coração – a beleza perfeita está sempre nas palavras que ficam por escrever. sofrimento


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18/10/2013

dissertação sobre os loucos moinhos de vento de dom quixote - 1 de 4




autor desconhecido
 



sou um escrevente de histórias do peito – só falo com o que escrevo. sou assim: grande na idealidade. descolorido na boca. vacilante nas mãos – mas escrevo. sem palavras seria quase nada – sempre que me conto em palavras os dias tornam-se pequeníssimos. as narrativas agigantam-se em embaraços. o corpo estremece e a janela que me abriga do mundo já não é solução para os medos – escrevo. digo. tento escrever. a procura da palavra autêntica é contínua[mente]. trabalhosa. esgotante. e o belo oculto na minha falta de arte – quando escrevo transformo-me num cavalheiro – fato preto. camisa branca. adornada com laço de cetim. preto-cinza. colete de veludo escuro. justo ao tronco. botões madrepérola e dois bolsos pequeníssimos debruados com duas costuras fortes. elegância – apesar de pequeniníssimos estes bolsos são marcantes. é no seu interior que faço descansar os dedos magoados de agarrar o lápis com que me narro – são assim como os abrigos dos pastores no meio das montanhas: feitos de pedra granítica. entrada rente ao chão onde os homens entram de gatas. sem janelas. terra batida. cama de urze e fetos. e em tão pouco o corpo descansa da imensidão do mundo. isolamento – vive no sossego de tudo que marca tempo. com as estrelas acama. com o sol desperta – despojados de qualquer conforto. ali resistem à demora do tempo de uma nova pastorícia – acolher. proteger e agasalhar o pastor e o seu rebanho é a sua missão. palavras – os meus bolsos também são assim. abrigos graníticos.  acolhem-me sempre que o corpo é açoitado pelo desalento de não saber trazer às mãos o sentir em palavras – um deles. o da direita. a sul do coração. guarda o tempo numa engrenagem fantástica: rodinhas minúsculas. parafusinhos insignificantes. chapinhas retorcidas e outras coisas que o meu saber não sabe descrever. tudo isto a fazer andar o tempo com uma precisão inacreditável – é neste tempo que sofro pela falta das palavras – o homem faz coisas incríveis – quantas mãos abençoou deus para purificar estas criaturas com o dom de fazerem coisas genuinamente incríveis? quantas? e todos estes homens divinos encurralados num bolso minúsculo a tomar conta do meu tempo. relógio – no silêncio. feroz. posso ouvir um tic-tac. delicioso. suave. compassado. intervala com o ritmo intenso do coração ansioso – tic. relógio. tac. coração. tic. relógio. tac. coração e tudo isto numa cadência perfeita. melodiosa. a grandeza do tempo no corpo a gastar vida tantas vezes inútil – e as mão a pedir papel. muito papel. e um lápis com o dobro do meu tamanho. enorme. e dentro de mim tudo agora é perfeito. tudo mesmo. tudo que pode ser feito com palavras escritas – sou feito de gaivotas. de liberdade. de braços abertos ao vento. ao tempo. e o meu melhor amigo. de braço dado. caminha comigo a passo. em palavras nossas diz-me: sabes! há uma razão para o vento existir. belo – talvez haja – lembro-me de no passado ler num qualquer livro que não recordo o nome que o belo é aquilo que desespera – acredito. sinto-me desesperado – na mão a bengala. punho de marfim. feita à mão por mais um par de mãos abençoadas. talvez haja um grupo de deuses divididos por áreas de interesse. a criar homens com dons para tornar o mundo mais belo. e todos aqueles que gosto desiludidos com tanta falta de palavras – na cabeça uma cartola imponente. pomposa. importada do país de sua majestade – sempre ouvi dizer que o primeiro cavalheiro nasceu nas ilhas britânicas. não sei se é verdade mas para o caso também não é importante – para perturbar este cavalheiro da escrita [desconhecido do homem que escreve] na sua infindável busca da palavra mais-que-certa. a dúvida e a sua mais-que-perfeita omnipresença em toda a criação. sou aflição – uma maldade autofágica para uma criatura muda que tem como o mais belo dos prazeres a escrita. ingratidão
 
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