goya
29/03/2014
retalhos – número de série 04022014s(r)ego09
22/02/2014
retalhos – número de série 27012014s(r)ego08
david altmejd
estou dividido em partes
que não são iguais - de um lado o bom tempo. do outro. a bonança - a tempestade
não tem lado e é sempre passageira
21/02/2014
para uma amiga com aftas na língua
konstantin kosmur
com que
então a menina anda metida nas aftas. a vida da treta é dolorosa para quem como
nós gosta de dar à língua a qualquer custo – escutamos então o mundo em
silêncio – mas não te apoquentes. isso passa rápido e logo ficas novamente tagarela
– quando era pequeno dizia que tinha “africas” na boca. talvez venha daí o meu
primeiro abeiramento ao continente africano – adoro áfrica e o seu povo. o “selvagem”.
o “virgem”. o “puro”. o das savanas. das florestas. dos rios com pirogas
cortados a lanças plagiando anzóis – gosto das suas mulheres de seios nus.
sentadas num almofariz de pedra gigante. catam cabeças da criançada parada num
tempo sem números – nesta terra o dia acaba coma as árvores a engolir o céu
como se fossem feijoeiros mágicos devorando
um sol que nunca viu o mar. e os peixes vestem-se de rugidos ferozes.
aterrorizando o escuro. e o silêncio quebrado pela fogueira a dançar rezas de
um feiticeiro amamentado pelo leite de hiena – hoje. quero acreditar num deus
que fez o mundo em setes dias. só hoje – estou a falar de homens bons. sem
pecado. estou a falar de áfrica. do
cheiro à terra queimada. da noite às cinco da tarde. do calor a deslizar pelo
corpo em gotas pegajosa onde os mosquitos se amarram como se fossem aquelas
fitas do antigamente que se penduravam nas portas das casas. dos leões. das
gazelas. rinocerontes e toda a bicharada amiga do tarzan e da jane –
gosto de áfrica. dos homens que usam uma tanga para tapar o que ninguém
quer ver. gosto das velhas com as mamas a cair no umbigo e a rirem da cara de
parvo do caixeiro viajante que lhes quer vender um soutien – lá estou eu a
divagar. queria apenas dizer-vos que uma amiga tinha “africas” na língua – mas
afinal o que são umas quantas “áfricas” na ponta da língua. nada. uma mesquinhez.
umas minúsculas borbulhas excitadas com algum condimento mais apurado.
afrodisíaco na construção excessiva de ditongos orais numa necessidade quase orgásmica para poder atingir o prazer supremo
da comunicação – não basta falar com os olhos. não. não basta. e mesmo que as
mãos pulem dos bolsos e se amarrem em abraços aos corpos que nos pedem socorro
por um beijo que lhe diga: gostamo-nos – nenhum beijo substitui a palavra atirada
de uma língua mesmo com aftas – sou louco. dizem – grave mesmo é se nos aparece
um leão entre os dentes a correr atrás de uma gazela. e uns quantos canibais de
ossos enrolados no cabelo. em gritos de fome a dizer: os restos da carne do
almoço nos dentes é nossa – lá estou eu novamente a vaguear. a fantasiar tipo
peter pan – por falar nisso. hoje comi peixe ao almoço será possível ter um
canibal sentado no dente do siso de cana de pesca a lançar o anzol para a boca
do estômago á procura de uma qualquer lombriga pré-histórica – não sei. talvez
o remédio para estes meus devaneios cerebrais seja mesmo entregar-me a uma casa
de saúde mental para finalmente descansar nas paredes brancas. curar-me penso
eu – quartos brancos. janelas brancas protegidas por grades verdes esperança. paredes
brancas. aparadeira branca. escondida numa mesinha de cabeceira também
branca. chinelos brancos. pijama branco
com o bolso bordado a letras douradas: casa de saúde dos aflitos. fundada em
1790 e inaugurada por sua excelência marquês do pombal. columbófilo. dono de
vários pombais e outras excentricidades com aves de rapina – tudo branco. e um
homem preso a um colete de forças negro feito por escravos embarcados na nau
catrineta – e lá vem a nau catrineta anónima a navegar nas paredes do meu hospício.
em ângulos de noventa graus. como se o mundo ainda tivesse um bom fim num dos
cantos da minha imaginação – mas não. para a cada ângulo de visão uma recta com
fim noutro ângulo – vejo tudo em ângulos que não sei dar nome. são ângulos
meus. onde nas dobras faço acontecer sonhos estúpidos em histórias de coragem
duvidosa. protegidas por roupagem branca lavada com omo – com omo toda a roupa
e imaginação fica mais branca do que o branco – dentro destas casas brancas
nenhum homem é culpado de nada. somos mesmo brancos dentro de olhos pretos – não
sei onde estou. perdi-me. sei que estou a escrever uma missiva resposta a umas
quantas “africas” no ponta da língua – quem me dera ter na ponta da língua
agora umas respostas para todas as dúvidas brancas com que me embrulharam à
nascença – talvez seja doença. talvez os diabetes em formação de ataque.
excesso de doce. e as espadas empunhadas em gritos aflitos avisam o cérebro que
está para breve o fim da lucidez e finalmente o triunfo do eterno sobre a vida terrena – no céu os anjos são brancos.
tão brancos que até se confundem com as nuvens e todos os homens são
transparentes. e os poemas a rimar com palavras que nunca foram usadas por
poetas de olhos encovados de dor na procura das palavras certas. é preciso
sobreviver para além do cabo da boa esperança. o fim do mundo – e as andorinhas
brancas fazem ninhos de algodão nas mãos dos que querem escrever e não sabem.
talvez um dia nasça uma capaz de voar para lá do que os homens sabem – não
quero mais ter a cabeça no inferno. quero ir para o céu. para as nuvens que não
vejo desde aquele dia em que me empurraram para o mundo cerebral – não quero
cérebro. um homem sem cérebro não tem maldade e quando não há maldade não há
lombrigas e sem lombrigas não há canibais a pescar e sem canibais não há leões.
nem gazelas e muito menos carne no meio dos dentes e sem dentes não há
mordeduras e as marcas não são nódoas. são beijos loucos nascidos para amar – eu gosto de amar. amo
tudo. até o candeeiro da minha rua que fundiu por viver ao abandono de gente
como eu – um dia pego num escadote e mudo-lhe a lâmpada. e depois talvez me
enforque num filamento iluminado de esperança – e agora vou fazer o jantar.
cabrito assado no forno com batata a murro. não gosto de cabrito. mas apetece-me
dar uns murros – o mundo é cego e eu vivo dentro dele
Não basta
abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto
Caeiro
03/02/2014
retalhos – número de série 20012014s(r)ego07
debora arango
se pudesse calar este
silêncio da noite talvez me pudesse ver à lupa do sherlock holmes - quem sabe
descobria-me sentado na cauda da ursa maior
30/01/2014
ladainha contra o mau olhado
a. j. s. azevedo
não posso mentir. estou proibido pelo
passado – lido muito mal com injustiças. mas também não me parece que seja
diferente da maioria das pessoas. injustiça é injustiça e não tem tamanho para homem
de bem – se eu tivesse uma macieira no meu quintal era fácil. dois coices
fortes. e as maçãs podres no chão pela força da razão – ali ficariam a entrar
em decomposição. na lama. ao inferno do tempo. à boca dos infiéis da terra – o
pecado nunca apodrece. tem que ser comido – da minha janela. retirado da
arrelia. peço aos santos e demónios piedade – olhos no céu. acrescento dedos ao
rosário em contas que nunca dão certo na prova dos nove – um terço pelas vítimas
do mau olhado. amém - um terço pelos desafortunados.
deficientes e desbocados. amém – um terço pelas vítimas da ejaculação precoce.
amém – um terço pelas doenças da próstata. amém – um terço pelas mulheres da má vida. finalmente
um terço por mim. que não gosto de me sentir assim. amém – mão no bolso. boca
em forma de assobio e o coração a dar o tic tac numa angústia de quem espera
por um novo dia – o sol vai nascer novamente – acreditam no mau olhado?
- volto já -
[estou a pendurar no corpo uns
amuletos contra o mau olhado. uma rasa de sal pelos cantos da casa e a partir
de hoje as cuecas serão sempre vestidas do avesso]
retalhos – número de série 16012014s(r)ego06
tintoretto
depois de morto não me
roubem nenhuma palavra da boca
29/01/2014
alberto pimenta
alberto pimenta
ao que parece
parece que
os poetas
dizem o que dizem
diz um poeta
segue-se
ao que parece
segundo o mesmo poeta
que os poetas
dizem o que dizem
mas o que dizem
não quer dizer
o que dizem
os especialistas
uns dizem
que alguns poetas
querem dizer o que dizem
e outros
não
ora
quem sou eu
para discordar
de facto
também me parece
que muitos poetas
não querem dizer
o que dizem
quando dizem
o que querem
outros sim
quer dizer
pelo contrário
não dizem
o que querem
mas querem dizer
o que dizem
por exemplo
quando
le nouveau bec
d' assurancetourix
diz
que mais vale
uma ordem injusta
que a desordem
eu sei tu sabes ele sabe
que é isso
que le mec quer dizer
parece que
os poetas
dizem o que dizem
diz um poeta
segue-se
ao que parece
segundo o mesmo poeta
que os poetas
dizem o que dizem
mas o que dizem
não quer dizer
o que dizem
os especialistas
uns dizem
que alguns poetas
querem dizer o que dizem
e outros
não
ora
quem sou eu
para discordar
de facto
também me parece
que muitos poetas
não querem dizer
o que dizem
quando dizem
o que querem
outros sim
quer dizer
pelo contrário
não dizem
o que querem
mas querem dizer
o que dizem
por exemplo
quando
le nouveau bec
d' assurancetourix
diz
que mais vale
uma ordem injusta
que a desordem
eu sei tu sabes ele sabe
que é isso
que le mec quer dizer
Alberto Pimenta, Resumo: a poesia em 2012, Documenta/Fnac, pp. 23-24. Originalmente publicado em De Nada, ed. Boca
28/01/2014
27/01/2014
escrever reconcilia-me com a vida
graciela rodo boulanger
introdução para
contextualizar o aparecimento deste novo texto – “escrever reconcilia-me com a vida”
mário
osório comenta no facebook a minha crónica – “não é escritor quem quer”
Mário
Osório – um carpinteiro de palavras, não sei, mas escreves e és escritor, um
daqueles com uma inteligência emocional maravilhosa, um toque muito próprio. é
muito bom seguir-te, são viagens que valem sempre a pena - um abraço.
23/01/2014
Sampaio
Rego – abraço mário. mesmo
23/01/2014
Sampaio
Rego – "Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de
pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que
possível, fazer dele um amigo." hermann hesse - obrigado nuno [mário]. o
abraço sabia a pouco
23/01/2014
António
Viana – Na leitura não há a procura de compreender quem escreve, há a procura
de sermos compreendidos, assim como na escrita!
24/01/2014
António
Viana – E não é escritor quem escreve, não faltariam escritores, eu por
exemplo, é escritor quem sabe descrever a alma humana!
24/01/2014
Sampaio
Rego – creio estares a fazer um comentário a um meu comentário e não ao texto
que originou o comentário – confesso que só li um livro do hermann hesse – no
entanto. já várias vezes tive oportunidade de ler pequenos trabalhos académicos
sobre este autor. insignificantes para o valor que representa a sua obra na
literatura mundial – um nobel é sempre um nobel [bem sei que há exceções] – és
bem capaz de ter alguma razão. todos temos sempre alguma razão quando trazemos
ao papel o que nos vai na alma – no entanto. este meu comentário é feito a uma
pessoa que conheço pessoalmente. tive o prazer de poder usufruir da sua
companhia na minha casa. com a minha família. em momentos especialíssimos para
mim. nos jantares de domingo – o pensamento do herman hesse serviu apenas para
reafirmar a estima e consideração que tenho pelo “mário osório” que está muito
para lá do homem que escreve no facebook. luso ou blogue – mas isso é outra
história dentro da minha história – compreendo-te – estas coisas da escrita são
como os medicamentes. como a penicilina. salva milhões. no entanto. alguns não
a toleram e acabam por sucumbir – felizmente são poucos – o importante destas
amizades virtuais é que quando estava a responder ao teu comentário perdi a
noção do tempo e das palavras e quando dei por mim tinha duas páginas
preenchidas – resolvi então transformar o meu comentário em mais uma crónica.
dá pelo nome: escrever reconcilia-me com
a vida – [irei postar de seguida. estou apenas à procura de uma pintura
para lhe fazer companhia]
27/01/2014
António
Viana – Sim, foi a um comentário teu e a outro comentador, sem querer por em
causa quem fosse! Tento ao máximo não personalizar as minhas opiniões, mas sim
ao que a pessoa diz. Há uma tendência geral para se dizer que quem escreve é
escritor, ou em sentido mais restrito, quem faz "poemas" é poeta e
nesse sentido dei uma opinião tentando desconstruir esta concepção, que eu vejo
cada vez mais generalizada. Dentro da linha de não querer saber qual o nome que
está por trás de uma afirmação, opinião, texto o que valha de manifestação, dei
a minha opinião sobre o que Hermann Hesse afirmou, sem tentar beliscar ao
mínimo a sua qualidade como escritor, poeta e também filósofo que aprecio.
Nunca um nome influenciará opinião minha, poderá chamar-me mais à atenção, não
mais do que isso. Fico contente por de alguma forma a minha intervenção ter
ajudado um pouco à tua escrita, como contente fico quando assim acontece
comigo, é sinal que estamos atentos e não só centrados em nós. Abraço.
27/01/2014
escrever
reconcilia-me com a vida
escrever reconcilia-me com a vida – se existir
uma tabela de preferências para o que nos leva a escrever e a ler é obvio que
os motivos que apresentas estão com toda a certeza no pódio dessa tabela – no
entanto. no que diz respeito à minha pessoa. melhor dizendo. ao escrivão que
escreveu o texto “não é escritor quem quer”. digo. com sinceridade. que as razões
que me levam a escrever não competiriam pelos primeiros lugares dessa tabela –
escrevo por necessidade – escrevo para fugir da solidão. quando o faço
encontro-me – escrevo porque é com as palavras no papel que a minha verdade
fica eterna. importante – escrevo para voltar ao passado. e com a lucidez do
tempo que já me consumiu. encontrar razões coerentes para perceber o que sou
hoje – escrevo porque a escrita me obriga a ser autêntico. escrever é um acto
nobre – escrevo porque sou feliz a guardar-me em papel. eu tenho uma história –
sou feliz a escrever. escrever recompensa. se assim não fosse não o faria – dezenas
de vezes escrevi nas minhas crónicas. que o meu maior embaraço é não saber falar – quem diria. eu que falo
pelos cotovelos – não sei explicar nada com a oralidade. defeito do DNA – falo
então a escrever. não é fácil. acredita que não. mas um dia. estou em crer. os
meus filhos. mais maduros. na segunda idade dos porquês. terão estes papeis para poderem saber um pouco
mais do pai que escreve. e quem sabe. saberem também um pouco mais deles – hoje
quanto não daria eu por uns papeizinhos do meu pai. fiquei com tantas perguntas
por lhe fazer. tantas mesmo – tenho a certeza que são mais de mil. muitas mais
– percebi tardiamente que o que nos distanciava na minha juventude. é agora na
meia idade. o que me torna mais parecido – sou tanto dele e não sabia – se mais nenhuma
razão houvesse esta já seria suficiente para me fazer escrever – um dia os meus
filhos também poderão ficar ainda mais próximos de mim – a questão que coloco
muitas vezes é o motivo porque torno público uma escrita quase sempre
autobiográfica. interrogo-me se o deveria fazer – confesso. estou muito dividido
nas certezas e nas dúvidas – por variadas razões entendi que o melhor era
escrever – uma das muitas razões é esta que me leva a responder ao teu comentário:
falar para ti. dizer o que penso – escrever o que sou. porque o sou. é para mim
uma necessidade tão forte que não basta ser dita da boca para fora. tem que ser
escrita – outra das razões é que só posso melhorar a minha escrita se a tornar
pública – se não vos entregasse os textos não poderia aspirar a escrever sempre
melhor. o esforço por encontrar as palavras certas deixaria de fazer sentido.
bastaria um caderno de notas. cheio de erros. sem concordâncias. sem metáforas.
sem hipérboles. sem sentimento. sem nada do que é meu verdadeiramente meu.
genuíno. bom ou mau. não interessa. sendo o que sou porque cada um é como é – se
não me entregasse na escrita. para que serviria o corretor do word. para que
serviria a gramática que tenho em cima da escrevaninha. os dicionários. para
que serviria a voz de um filho a perguntar se uma qualquer palavra se escreve
com um H ou um A – não quero compreensão para o que sou. nem para o que fui. quero
apreço pelo esforço a que me devoto para trazer as palavras mais acertadas para
o que me proponho a falar – escrevo para marcar o tempo. como quem marca um
trilho numa floresta com pedrinhas para saber o caminho de volta – quando
escrevo saio da alma. quando leio entro na alma. mas no final. na escrita ou na
leitura. é para mim que quero voltar. sempre – escrever para mim não é fácil.
não nasci com essa arte. e para cada palavra procurada a busca é quase sempre
extenuante. fico sempre com a sensação de que nunca deixo ficar na escrita o
sentimento que me acontece na alma – e assim digo: não sou escritor. mas gosto
de escrever. gosto de fazer amigos com a escrita. gosto de saber que quem me lê
entende que o faço com prazer. que dou tudo tenho e que sei para me compreenderem.
como se lhes estivesse a amarrar as mãos – quando alguém me diz que sou
escritor. está a dizer-me que gostou de tomar um café na minha companhia. que
fomos ao cinema ver um filme qualquer apenas para estarmos um tempo juntos. que
vimos uma partida de futebol e pulamos de alegria com um golo que não foi o da
nosso equipa – quando alguém me diz que escrevo. diz-me para não desistir.
diz-me vai em frente. diz-me que já lhe chega ser o que sou mesmo que nunca
possa ser um verdadeiro escritor. para essas pessoa já é importante me terem nessa
meia dúzia de palavras – escrevo para mim. gosto de mim quando escrevo. mas se
pudesse mudar o passado tenho a certeza de que hoje seria muito melhor escritor.
no entanto. não estou certo se seria melhor pessoa – o que não mudaria nunca
era as pessoas que passaram na minha vida. elas são tudo o que sou hoje. não guardo
culpados dentro de mim. sou o que sou porque em momentos da minha vida escolhi
caminhar sem colocar pedrinhas nos trilhos que escolhi – quando nos perdemos
por convicção demoramos sempre mais tempo a encontrar o caminho mais certo para
o que somos na verdade – escrevo hoje para que a verdade de amanhã não me
atormente nunca mais o passado – sei que o tempo muda o homem. amanhã poderei
ser outro. mas agora tenho estes papeis escritos – quando escrevo sou o que sou
no momento. mas em cada momento nunca deixo de ser o que fui. acredito –
eugénio de andrade um dia escreveu esta coisa maravilhosa. "Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão
desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais
estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a
vida." – também eu me reconcilio comigo a escrever
22/01/2014
não é escritor quem quer
fabian perez
não é
escritor
quem quer
escrevo prosa. não sei escrever poesia – escrevo prosa porque gosto de falar com pessoas. imagino-as a escutar o que escrevo. acenando a cabeça para cima e para baixo. a dizerem sim. sim de compreenderem o que as palavras não sabem dizer – as palavras nunca dizem tudo – quando escrevo falo muito. sempre mais do que o necessário – sou assim. o corpo pede e as palavras aparecem. acontecem – tenho muito medo de dizer pouco. escrevo. escrevo. e o medo a fazer eco: estás a falar muito. estás a falar muito. estás a falar muito. e centenas de ouvidos nas palmas das mãos em agonia – escrevo. escrevo mais. mais. resisto com palavras guardadas num pavor-silêncio. meu – e se não me compreendem? escrevo. escrevo como se me poisassem andorinhas numas mãos disfarçadas de cabos de alta tensão. sacodem a penugem como eu sacudo letras – para elas não há inverno. cantam primavera em dias de chuva molha tolos. esperança – sou tolo por gostar de escrever? não sei. palavra de honra que não sei. possivelmente sou – talvez a minha tolice derive de um conflito existencial: um corpo dividido em dois – de um lado o destino. do outro a fé de que todos os caminhos vão dar a roma – não é verdade. há caminhos para o nada. para um fim do mundo que nunca se alcança – haverá castigo pior do que saber que metade do corpo não descobre a sua outra metade cuidada? – não há – punição que não merece nenhuma das metades – talvez um dia alguém diga que a verdadeira obra de arte nasce da comparação entre belo e o monstro. talvez – aceitação. as metades olham-se em compaixão e as palavras lutam com a imobilidade do corpo. nada acontece às mãos – ali fico. estático. de olhos parados no nada. a gozar a antecâmara da morte num silêncio interior inimaginável – o que de mim resta guarda-me a música tocada com acordes de notas graves com arranjos de desilusão – só escrevo com música. é uma questão de ritmo. dizem que são feitos de fórmulas matemáticas. talvez seja esta a única ocasião de me encontrar com a lógica – às vezes não encontro nenhuma fórmula capaz de me atirar ao futuro. nem uma insignificante regra de três simples. triste – tenho tantos dias onde não existo. com tudo a permanecer no escuro. com tanta coisa sem nome. e o coração a bater ao ritmo de uma porta açoitada por vento tirano – um dia destes apunhalo-me com uma qualquer palavra ordinária – estou cansado. os dias estão mais rápidos e a mobilidade mais difícil. estou a ficar com as costas tombadas cada vez mais para a terra – os invernos chamam cuidados. estou frio. sempre que escrevo fico enregelado. e os brônquios a chiar. pingo no nariz e eu sem o lenço da mão – o pingo suspenso. fungo. escrevo. fungo. escrevo – escrevo. hoje tenho um adjetivo qualificativo importante para rabiscar: a minha escrita é uma palhaçada – e também um superlativo absoluto sintético: sinto-me sapientíssimo quando escrevo – contradição lunática. fungo – confesso que por cada dia de escrita o medo duplica e o desespero multiplica-se numa equação de resultado infinito – quem sabe hoje é o meu dia da sorte e as palavras fazem uma primavera-abril sem águas mil – gracejo levemente. como se fosse uma daquelas pinceladas minúsculas de van gogh. colho o ramo de flores da sua jarra. girassóis brancos. ao meu olhar. ato-o com dois verbos fortes: sou o que fui – escrevo. aligeiro mais duas linhas ao pensamento. se soubesse escrever com arte talvez o livro da minha vida estivesse no último capítulo. não sei – trago nas mãos palavras que não são minhas. ouvi algumas. li outras. senti muitas mais. e sem saber qual das partes do corpo resiste à incerteza. entre silêncios da noite. encontro outras que não sou capaz de descrever. quer dizer. escrever – destino – paz à sua alma e luto eterno para um homem que nunca deixou de ser órfão – crueldade. ninguém deveria nascer com o destino traçado – depois de morto não me roubem palavras da boca. peço – enfrento o que sou com o que fui. toco-me. e parto ao futuro navegando à bolina numa agitação norte que nunca parou de anunciar desordem – agora. agora faço estas páginas de palavras para espalhar no mundo dos justos. há tantos. basta procurá-los nos morais da modernidade – todos temos que ser qualquer coisa – o que sou eu quando não sou o que sou por obrigação? – talvez um carpinteiro* de palavras. operário de palavras. soletradas por uma boca putrificada por uma inquietude autobiográfica
– onde é que já ouvi isto –
passo tanto tempo a ouvir-me. e o
corpo a dizer: desiste. desiste. o destino está traçado – nunca compreendi a
motivação dos órgãos para não se suicidarem – não me compreendo – talvez a
palavra compreender não seja a mais correta para definir esta coisa de querer
dizer o que não pode ser dito por quem gosta de falar – não sei escrever. não
sei falar. não sei ler o futuro. vivo no meu silêncio de barulho. sobrevivo –
escrevo então com este barulho dos dedos a bater nas teclas. dou-lhe com força
para fingir que não estou apenas na companhia de um silêncio silêncio e ganho
coragem para escrever a palavra “graal”: aceito-me – aceito-me assenta melhor
num corpo dividido – aceito-me. gosto da palavra. alivia uma dor que gosto de
negar aos que me tentam fazer acreditar na soma das partes – sei que existo
porque me obrigo a escrever – aceito-me. esta é a palavra mais-que-perfeita. a
palavra de quem escreve para implorar compaixão a uma dor que nunca sei onde
doía – escrevo prosa porque gosto de falar
[*] – antónio lobo antunes -
21/01/2014
nuit dês rêves - noite dos sonhos
edouard léon cortès
que vos
dizer amigos…
de mãos
dadas
com a paixão
dos tempos
que por mim
passaram
sou feliz!
de um lado a
torre eiffel,
do outro
l`arc de triomphe.
hoje. também
meu
em
degustação
o dinêr;
“pavé de
rumsteak grillé”
e um bom
vinho de bordeaux .
pelo olhar
deixo cair um je t`aime
em surdina
recebo um sorrir
depois.
um leve
pisar do pé
e assim vivo
chegam “les
deserts”
“mille-feuille
a la vanille bourbon”
sem poder
reclamar o coração
diz mais um
olá
somos assim!
agora. aproveitamos
o tempo
café. “s´il
vous plait”!
entre
abraços congelamos o frio
somos afinal
meninos
e em chamas
deslizamos
pelo
champs-elysées
em branco.
pela iluminação
que agradece
acendemos
mais uma luz.
nesta cidade
de luz
paris afinal
necessitava de nós.
assim!
despidos
para a vida
é noite.
e por aqui
andamos a escrever
o que um dia
será passado
nosso. e de
quem nos lê
02 de dezembro de 2009
16/01/2014
retalhos – número de série 07012014s(r)ego03
jean-michel folon
às vezes estou só eu. imóvel. como a noite.
de dentro de mim o desejo de trazer sonhos para a realidade
e assim
matar a solidão e a noite
de uma só vez
com a raiva de uma palavra gelo
de dentro de mim o desejo de trazer sonhos para a realidade
e assim
matar a solidão e a noite
de uma só vez
com a raiva de uma palavra gelo
aos retalhos
já basto eu
já basto eu
sou
gustave courbet
sou
sou
sou
mesmo contra
vossa vontade sou
não sou este
o que desse
palanque cogitais
sou aquele
aquele que
daqui
deste meu reservatório
de ideias
sou
sou assim
duro como
pedra
mole como os
pensamentos
tramados
pelas mãos
sou
sou
sou
sou convencido
no que sou
sou até um
qualquer
sempre que
quero
e quando não
quero
também sou
hoje. por
acaso. sou um ruído com olhos castanhos
vejo todos
os sons com um sou
um sou único
talvez um
sou com som
um que se
ouve a si
para dizer
assim serei
com o meu
som eu sou
sou
sou
sou
sou de um
tamanho que já não existe
presente
para o mundo
dos que nada
são
sou afinal
um sou só
só porque
sou teimoso
para não ser
um sou dos outros
sou meu
sou do meu
sou
talvez louco.
sim talvez
mas sou
sou
14/01/2014
09/01/2014
goya
mário osório - "esta obra de goya não é muito conhecida. O primeiro biografo de Goya, Matheron, no fim do século XIX, ignora-a no catálogo das obras. O enfermo é o próprio Goya, é um autoretrato. O médico é o doutor Arrieta, que o tratou de uma doença no fim da vida e assim Goya, de presente, ofereceu-lhe esta pintura. atrás vêem-se os fantasmas, figuras do seu delírio. eu adoro mesmo esta pintura, fico mesmo feliz de partilhar este gosto contigo."
05/01/2014
23/11/2013
púrpura
james ensor
acreditei que
o luto estava encerrado. disse. acreditei – esta coisa da morte é estranha.
quando menos se espera volta a viver como se nunca nada tivesse partido – se eu
me compreendesse talvez pudesse escrever alguma coisa com mais sentido. mas
não. não me compreendo. quiçá uma parte de mim está morta e quem escreve este
rascunho de coisa nenhuma não é mais do que uma debilidade de uma parte do corpo
que teima em escrever para viver
[quando saio à rua vejo tudo
tão vivo. como se nunca nada tivesse partido do mundo)
tu que me estás a ler. sim tu. tu mesmo. achas que estou louco? sabes o que é a morte? sabes? já sei o que vais responder. vais dizer que sabes o que é a vida. e que a vida são pássaros a voar em bando e roupa a secar num estendal de uma varanda num quarto andar desabitado – mas quem me manda escrever? quem? neste dia de merda talvez o certo fosse mudar a terra naquele vaso que ninguém consegue ver – o bando de pássaros vê – um dia vou mostrar-vos – talvez depois de morto os sonhos possam florir anunciando a ressurreição de quem chegou sempre atrasado às palavras. no vaso que ninguém vê
21/11/2013
mário cesariny - é importante foder
mário cesariny
É IMPORTANTE FODER
É importante
foder (ou não foder)?
É evidente
que não, não é importante.
Fode quem
fode e não fode quem não quer.
Com isso
ninguém tem nada
Mas mesmo
nada
A ver.
O que um
tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa
que estica e depois encolhe,
Uma coisa
que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a
dilatar
Até não se
poder nem deixar andar
Para depois
se sumir
E dar
vontade de rir e d’ir urinar.
Isso eu o
quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
“O amor é um
sono que chega para o pouco ser que se é
”Verso que,
como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).
Também
aquela do “outrora-agora” e do “ah poder ser tu sendo eu
” foi um bom
trabalho.
Para
continuar tudo co’a cara de caralho
Que todos já
tinham e vão continuar a ter
Antes
durante e depois de morrer.
Mário
Cesariny
in “o virgem
negra” assírio & alvim (1996)
07/11/2013
dissertação sobre os loucos moinhos de vento de dom quixote - 4 de 4
autor desconhecido
no corpo. em
local desconhecido. um minúsculo grupo de átomos ligados por palavras fundem-se: nasce o texto – as trompetes
rompem o silêncio e anunciam a nova obra do cavalheiro-artista. alegria – no
céu. as nuvens desistem de profetizar tempestade e o céu dá agora lugar a um
novo astro-anunciador. este. indica o caminho aos amantes da leitura para as
novas do homem que escreve – a comprovação. em papel. é feita de vocábulos
organizados pelo talento dos olhos que ouvem no silêncio – no corpo. a gente silenciosa parte para o descanso. recolhe à mudez das catacumbas do homem que
guarda o cavalheiro. harmonia – é a hora do leitor apaixonado. é a hora da
calmaria. é a hora da serenidade – tudo escrito à mão numa paixão abençoada
pelo ouvir dos olhos – “tenho apenas
duas mãos e o sentimento do mundo” [carlos drummond de andrade]. sinto – o
momento é de paz – o cavalheiro feliz. digo. quase feliz. se não houvesse aquela
dúvida persistente. talvez hoje fosse o dia certo para morrer acorrentado a uma
palavra de gratidão – mas há – a dúvida perdura. sufoca o mundo das pessoas que
guarda sem nome. das gaivotas. dos frutos. da sorte. dos animais. das árvores.
da chuva. da criança protegida no colo da sua mãe. da bicicleta que nunca
existiu. do vento norte. dos pesadelos das noites do nada. do corpo a pedir morte
por um distúrbio mental – paranoico. vive num delírio permanente na procura da
palavra que nunca existiu. mito – o cavalheiro que escreve vive doente na recapitulação
de um texto que nunca está pronto. louco – lê. volta a ler. a calma a doer. e
já vai em cem dias. e o coração a segredar pânico para um abismo de silêncio
sepulcral – não! acabou. não leio mais. a perfeição é a morada dos deuses. só
conheço a casa onde guardo o corpo. agonia – solidão. sofrimento. suicídio – chegou
o momento. coragem. um dia tinha que ser. o cavalheiro resistirá. o homem
resistirá. sobreviver é também escrever – o homem que escreve ali. relembro. os
olhos também. o sentimento. o mesmo de sempre. de dentro. medo – tantos corpos
parados a murmurar cada vez mais baixinho. e as noites que nunca foram noites
em memória-dor. teimavam iluminar um caminho que nunca encontrei – louco.
acreditei no silêncio das noites. e o corpo cada vez mais doente por não saber
distinguir a loucura da ambição genuína. resignação – tudo parte. tudo na vida
é assim. tudo tem um principio e um fim. eu também. o cavalheiro também – para
trás uma porta aberta indica desespero: perder para sempre as palavras ouvidas
com o olhar – mais medo – agora sou de quem não me conhece – sobra-me o corpo. tudo
o resto nu. despido pela leitura – contratava a morte por um dia – mais medo.
muito medo. terror. as palavras no leitor podem dizer o que nunca senti. mais
terror – não há boa escrita sem consciência. sem angústia. sem gemido. sem
arrependimento – amanhã sei que escreveria tudo diferente – morte e
ressurreição – para o leitor a descoberta de novas vidas. ou talvez não. talvez
assim assim. não importa. nunca haverá certezas para olhos que não ouvem – no
cavalheiro. finalmente um momento silencioso anuncia descanso. acredita na
mensagem das palavras. paz – o belo não tem pressa. aparece a cada leitura e
descansa num marcador de livro: é ali que a vida parou. mais tarde será noutra
página – tudo é agora texto. fundido em verdade ganhou existência terrena. como
o verde das montanhas. como o mar batido a vento. como instrumento que trabalha
a terra. como árvore de fruto. como flor a nascer e o fruto a aparecer – as palavras
dão pão às bocas e a saciam a alma de quem as lê. tudo é real na escrita de
quem escreve para falar. o cavalheiro mais não é do que um homem a lutar pela
sobrevivência do homem que lhe oferece o corpo para se revelar – para o homem
que lê a leitura é apenas a junção das letras de dois homens que se toleram
para sobreviver – a boa leitura é invisível. sente-se – no corpo o sentimento da leitura encurta o tempo e
tudo é como se hoje fosse o primeiro dia
do universo – lá está adão. e eva. nus. desta vez sem parra. e o cavalheiro ali
a ouvir tudo com os olhos. com as árvores
vergadas ao fruto – assim está o homem que escreve. vergado pelo peso das
palavras – há um novo mundo sempre que há um novo texto e também um novo
cavalheiro – o homem que escreve prolonga-se na procura da perfeição – a morte
não sobrevive à imperfeição – escrever pouco e dizer tudo é delírio – para o
cavalheiro o texto já não mais voltará a pertencer-lhe. a alma do
homem-escritor perdida para sempre – e o humano que lê gosta e ama. não gosta e
não ama – recorda e ama. não gosta e esquece – acredita e sonha. não acredita e
o pesadelo acontece – sente verdade e acalenta. experimenta mentira e o gelo
aparece – exigente. egoísta. quer sentir as palavras como se fossem suas. uma
boca para compensar outra – sou também tu –“ser poeta é ser mais alto é ser maior”
– uma vida à procura do belo-supremo e o tudo é quase sempre nada ao dia
seguinte – as palavras de ontem estão mortas. o belo é agora arrependimento. a
história repete-se. tudo que é palavra está amaldiçoado – tudo se resume a dar
vida ao ouvir dos olhos – o escrevedor vive com o nascer das palavras e morre
com o sono
[4 de 4] – fim
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