.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

31/03/2014

retalhos – número de série 23022014s(r)ego10




paola epifani
 




na verdade. há uma pergunta que sempre faço para mim: vives em paixão?
não sei a resposta. possivelmente nunca a irei saber
vivo sei que estou. ouço vozes. vejo olhos e o vento toca-me o cabelo em palavras miudinhas - é domingo e os braços descansam encostados às memórias - somos tantos em tantos dias. alguns sem nome. rostos que passaram por passar como os dias passam e nunca voltam
vivo em paixão?
não sei
beijo quem posso e em abraços parto em palavras que não sei dizer - sou
sou uma dúvida certa no fascínio de quem se descobre
vivo em paixão?
não sei

se um dia souber prometo escrever-me
 




intransitivo





olivier de sagazan
 




que raio de sábado. se pudesse construir de novo o corpo -  faz favor. é para mudar o óleo e as velas. a frio já não pega bem - ó amigo. já agora lave por dentro e por fora. principalmente por dentro. está um esterco - visto um jeans claros. camisa preta. desabotoada. a ver-se o coração e lá ia eu para mais uma jornada. limpinho de tudo - que raio de sábado. os olhos amarrotados de escuro procuram a palavra salvação - vai com deus meu filho. eu te abençoo - a salvação está na ponta de uma flecha. a cortar o tempo. enquanto diz: goodbye my friend. my love - e a pintura gasta. metalizada. a reluzir ao luar e o cano de escape a fumegar amor num areal onde as ondas morrem com saudade – já não há beijos sôfregos a prometer felicidade eterna - morre sábado. atira-te do meu penhasco. tenho tantos. todos altos. escolhe um e salta. voa como voam as gaivotas – livres




29/03/2014

a minha metrópole




tamara de lempicka
 



a minha cidade não é nova york. nem tóquio. nem londres. a minha cidade é do tamanho do meu país. pequenina e encravada entre montanhas pequeninas – para os metrossexuais das grandes cidades do mundo a minha cidade não passa de uma rua gigante –  raramente se vê no meu burgo um desses homens modernos lotados de autoestima – para este homem. belo. o bem-estar do corpo e da mente são fundamentais para alcançar uma vida saudável e mais longa – cremes. perfumes. depilações. barba bem-feita. cabelo tratado e finalmente a excelência da roupa assente num corpo também ele forçado à elegância – o ginásio é a sua segunda casa e os alteres erguidos em dificuldade exibem o peso da vaidade – para trás ficou definitivamente a ideia dos nossos pais de que homem que é homem cheira a cavalo –  finalmente um homem rivaliza com as mulheres na estética. nos cabelos. na maquiagem. na pele. nos perfumes. na saúde e bem estar – há um novo universo macho  – este novo modelo de homem das cidades modernas parte à conquista do mundo. sem medo e sem vergonha das transformações – leva com ele uma nova mensagem masculina: criatura moderna. cavalheiro. delicado. simpático. exigente. urbano e consciente de que o seu lado feminino é agora uma conquista definitiva do homem contemporâneo – sempre preocupado com a projeção da imagem parte para o galanteio das miúdas seguríssimo da sua sexualidade – se nascesse hoje seria muito mais do que metro. mas como nasci há muito tempo sou apenas uns centímetros – bem medidos como diria a minha mãe quando na mercearia pedia: dois quilos de maçãs bem medidos

 




retalhos – número de série 04022014s(r)ego09




goya



 
toda a noite de um lado para outro e o sono sempre dois passos á frente - já não há quarto escuro que me guarde os olhos - serial killers movies


22/02/2014

retalhos – número de série 27012014s(r)ego08





david altmejd



 
estou dividido em partes que não são iguais - de um lado o bom tempo. do outro. a bonança - a tempestade não tem lado e é sempre passageira



21/02/2014

para uma amiga com aftas na língua




konstantin kosmur
 
 



com que então a menina anda metida nas aftas. a vida da treta é dolorosa para quem como nós gosta de dar à língua a qualquer custo – escutamos então o mundo em silêncio – mas não te apoquentes. isso passa rápido e logo ficas novamente tagarela – quando era pequeno dizia que tinha “africas” na boca. talvez venha daí o meu primeiro abeiramento ao continente africano – adoro áfrica e o seu povo. o “selvagem”. o “virgem”. o “puro”. o das savanas. das florestas. dos rios com pirogas cortados a lanças plagiando anzóis – gosto das suas mulheres de seios nus. sentadas num almofariz de pedra gigante. catam cabeças da criançada parada num tempo sem números – nesta terra o dia acaba coma as árvores a engolir o céu como se fossem feijoeiros mágicos  devorando um sol que nunca viu o mar. e os peixes vestem-se de rugidos ferozes. aterrorizando o escuro. e o silêncio quebrado pela fogueira a dançar rezas de um feiticeiro amamentado pelo leite de hiena – hoje. quero acreditar num deus que fez o mundo em setes dias. só hoje – estou a falar de homens bons. sem pecado. estou a falar de áfrica.  do cheiro à terra queimada. da noite às cinco da tarde. do calor a deslizar pelo corpo em gotas pegajosa onde os mosquitos se amarram como se fossem aquelas fitas do antigamente que se penduravam nas portas das casas. dos leões. das gazelas. rinocerontes e toda a bicharada amiga do tarzan e da jane    gosto de áfrica. dos homens que usam uma tanga para tapar o que ninguém quer ver. gosto das velhas com as mamas a cair no umbigo e a rirem da cara de parvo do caixeiro viajante que lhes quer vender um soutien – lá estou eu a divagar. queria apenas dizer-vos que uma amiga tinha “africas” na língua – mas afinal o que são umas quantas “áfricas” na ponta da língua. nada. uma mesquinhez. umas minúsculas borbulhas excitadas com algum condimento mais apurado. afrodisíaco na construção excessiva de ditongos orais numa necessidade quase  orgásmica para poder atingir o prazer supremo da comunicação – não basta falar com os olhos. não. não basta. e mesmo que as mãos pulem dos bolsos e se amarrem em abraços aos corpos que nos pedem socorro por um beijo que lhe diga: gostamo-nos – nenhum beijo substitui a palavra atirada de uma língua mesmo com aftas – sou louco. dizem – grave mesmo é se nos aparece um leão entre os dentes a correr atrás de uma gazela. e uns quantos canibais de ossos enrolados no cabelo. em gritos de fome a dizer: os restos da carne do almoço nos dentes é nossa – lá estou eu novamente a vaguear. a fantasiar tipo peter pan – por falar nisso. hoje comi peixe ao almoço será possível ter um canibal sentado no dente do siso de cana de pesca a lançar o anzol para a boca do estômago á procura de uma qualquer lombriga pré-histórica – não sei. talvez o remédio para estes meus devaneios cerebrais seja mesmo entregar-me a uma casa de saúde mental para finalmente descansar nas paredes brancas. curar-me penso eu – quartos brancos. janelas brancas protegidas por grades verdes esperança. paredes brancas. aparadeira branca. escondida numa mesinha de cabeceira também branca.  chinelos brancos. pijama branco com o bolso bordado a letras douradas: casa de saúde dos aflitos. fundada em 1790 e inaugurada por sua excelência marquês do pombal. columbófilo. dono de vários pombais e outras excentricidades com aves de rapina – tudo branco. e um homem preso a um colete de forças negro feito por escravos embarcados na nau catrineta – e lá vem a nau catrineta anónima a navegar nas paredes do meu hospício. em ângulos de noventa graus. como se o mundo ainda tivesse um bom fim num dos cantos da minha imaginação – mas não. para a cada ângulo de visão uma recta com fim noutro ângulo – vejo tudo em ângulos que não sei dar nome. são ângulos meus. onde nas dobras faço acontecer sonhos estúpidos em histórias de coragem duvidosa. protegidas por roupagem branca lavada com omo – com omo toda a roupa e imaginação fica mais branca do que o branco – dentro destas casas brancas nenhum homem é culpado de nada. somos mesmo brancos dentro de olhos pretos – não sei onde estou. perdi-me. sei que estou a escrever uma missiva resposta a umas quantas “africas” no ponta da língua – quem me dera ter na ponta da língua agora umas respostas para todas as dúvidas brancas com que me embrulharam à nascença – talvez seja doença. talvez os diabetes em formação de ataque. excesso de doce. e as espadas empunhadas em gritos aflitos avisam o cérebro que está para breve o fim da lucidez e finalmente o triunfo do eterno sobre a  vida terrena – no céu os anjos são brancos. tão brancos que até se confundem com as nuvens e todos os homens são transparentes. e os poemas a rimar com palavras que nunca foram usadas por poetas de olhos encovados de dor na procura das palavras certas. é preciso sobreviver para além do cabo da boa esperança. o fim do mundo – e as andorinhas brancas fazem ninhos de algodão nas mãos dos que querem escrever e não sabem. talvez um dia nasça uma capaz de voar para lá do que os homens sabem – não quero mais ter a cabeça no inferno. quero ir para o céu. para as nuvens que não vejo desde aquele dia em que me empurraram para o mundo cerebral – não quero cérebro. um homem sem cérebro não tem maldade e quando não há maldade não há lombrigas e sem lombrigas não há canibais a pescar e sem canibais não há leões. nem gazelas e muito menos carne no meio dos dentes e sem dentes não há mordeduras e as marcas não são nódoas. são beijos loucos  nascidos para amar – eu gosto de amar. amo tudo. até o candeeiro da minha rua que fundiu por viver ao abandono de gente como eu – um dia pego num escadote e mudo-lhe a lâmpada. e depois talvez me enforque num filamento iluminado de esperança – e agora vou fazer o jantar. cabrito assado no forno com batata a murro. não gosto de cabrito. mas apetece-me dar uns murros – o mundo é cego e eu vivo dentro dele

 - // -
 

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro





03/02/2014

retalhos – número de série 20012014s(r)ego07




debora arango
 
 
se pudesse calar este silêncio da noite talvez me pudesse ver à lupa do sherlock holmes - quem sabe descobria-me sentado na cauda da ursa maior



30/01/2014

ladainha contra o mau olhado




a. j. s. azevedo
 
 
 


não posso mentir. estou proibido pelo passado – lido muito mal com injustiças. mas também não me parece que seja diferente da maioria das pessoas. injustiça é injustiça e não tem tamanho para homem de bem – se eu tivesse uma macieira no meu quintal era fácil. dois coices fortes. e as maçãs podres no chão pela força da razão – ali ficariam a entrar em decomposição. na lama. ao inferno do tempo. à boca dos infiéis da terra – o pecado nunca apodrece. tem que ser comido – da minha janela. retirado da arrelia. peço aos santos e demónios piedade – olhos no céu. acrescento dedos ao rosário em contas que nunca dão certo na prova dos nove – um terço pelas vítimas do mau olhado. amém - um terço pelos desafortunados. deficientes e desbocados. amém – um terço pelas vítimas da ejaculação precoce. amém – um terço pelas doenças da próstata.  amém – um terço pelas mulheres da má vida. finalmente um terço por mim. que não gosto de me sentir assim. amém – mão no bolso. boca em forma de assobio e o coração a dar o tic tac numa angústia de quem espera por um novo dia – o sol vai nascer novamente – acreditam no mau olhado?

- volto já -

[estou a pendurar no corpo uns amuletos contra o mau olhado. uma rasa de sal pelos cantos da casa e a partir de hoje as cuecas serão sempre vestidas do avesso]



retalhos – número de série 16012014s(r)ego06




tintoretto
 
 
 
depois de morto não me roubem nenhuma palavra da boca



29/01/2014

alberto pimenta




alberto pimenta



 
 
ao que parece
parece que
os poetas
dizem o que dizem
diz um poeta

segue-se
ao que parece
segundo o mesmo poeta
que os poetas
dizem o que dizem
mas o que dizem
não quer dizer
o que dizem

os especialistas
uns dizem
que alguns poetas
querem dizer o que dizem
e outros
não

ora
quem sou eu
para discordar
de facto
também me parece
que muitos poetas
não querem dizer
o que dizem
quando dizem
o que querem

outros sim
quer dizer
pelo contrário
não dizem
o que querem
mas querem dizer
o que dizem

por exemplo
quando
le nouveau bec
d' assurancetourix
diz
que mais vale
uma ordem injusta
que a desordem
eu sei tu sabes ele sabe
que é isso
que le mec quer dizer



Alberto Pimenta, Resumo: a poesia em 2012, Documenta/Fnac, pp. 23-24. Originalmente publicado em De Nada, ed. Boca


27/01/2014

escrever reconcilia-me com a vida




 graciela rodo boulanger

           



introdução para contextualizar o aparecimento deste novo texto – “escrever reconcilia-me com a vida”

 

mário osório comenta no facebook a minha crónica – “não é escritor quem quer”

 

Mário Osório – um carpinteiro de palavras, não sei, mas escreves e és escritor, um daqueles com uma inteligência emocional maravilhosa, um toque muito próprio. é muito bom seguir-te, são viagens que valem sempre a pena - um abraço.

23/01/2014

 

Sampaio Rego – abraço mário. mesmo

23/01/2014

 

Sampaio Rego – "Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo." hermann hesse - obrigado nuno [mário]. o abraço sabia a pouco

23/01/2014

 

António Viana – Na leitura não há a procura de compreender quem escreve, há a procura de sermos compreendidos, assim como na escrita!

24/01/2014

 

António Viana – E não é escritor quem escreve, não faltariam escritores, eu por exemplo, é escritor quem sabe descrever a alma humana!

24/01/2014

 

Sampaio Rego – creio estares a fazer um comentário a um meu comentário e não ao texto que originou o comentário – confesso que só li um livro do hermann hesse – no entanto. já várias vezes tive oportunidade de ler pequenos trabalhos académicos sobre este autor. insignificantes para o valor que representa a sua obra na literatura mundial – um nobel é sempre um nobel [bem sei que há exceções] – és bem capaz de ter alguma razão. todos temos sempre alguma razão quando trazemos ao papel o que nos vai na alma – no entanto. este meu comentário é feito a uma pessoa que conheço pessoalmente. tive o prazer de poder usufruir da sua companhia na minha casa. com a minha família. em momentos especialíssimos para mim. nos jantares de domingo – o pensamento do herman hesse serviu apenas para reafirmar a estima e consideração que tenho pelo “mário osório” que está muito para lá do homem que escreve no facebook. luso ou blogue – mas isso é outra história dentro da minha história – compreendo-te – estas coisas da escrita são como os medicamentes. como a penicilina. salva milhões. no entanto. alguns não a toleram e acabam por sucumbir – felizmente são poucos – o importante destas amizades virtuais é que quando estava a responder ao teu comentário perdi a noção do tempo e das palavras e quando dei por mim tinha duas páginas preenchidas – resolvi então transformar o meu comentário em mais uma crónica. dá pelo nome: escrever reconcilia-me com a vida – [irei postar de seguida. estou apenas à procura de uma pintura para lhe fazer companhia]

27/01/2014

 

António Viana – Sim, foi a um comentário teu e a outro comentador, sem querer por em causa quem fosse! Tento ao máximo não personalizar as minhas opiniões, mas sim ao que a pessoa diz. Há uma tendência geral para se dizer que quem escreve é escritor, ou em sentido mais restrito, quem faz "poemas" é poeta e nesse sentido dei uma opinião tentando desconstruir esta concepção, que eu vejo cada vez mais generalizada. Dentro da linha de não querer saber qual o nome que está por trás de uma afirmação, opinião, texto o que valha de manifestação, dei a minha opinião sobre o que Hermann Hesse afirmou, sem tentar beliscar ao mínimo a sua qualidade como escritor, poeta e também filósofo que aprecio. Nunca um nome influenciará opinião minha, poderá chamar-me mais à atenção, não mais do que isso. Fico contente por de alguma forma a minha intervenção ter ajudado um pouco à tua escrita, como contente fico quando assim acontece comigo, é sinal que estamos atentos e não só centrados em nós. Abraço.

27/01/2014

 

 

escrever reconcilia-me com a vida

 

escrever reconcilia-me com a vida – se existir uma tabela de preferências para o que nos leva a escrever e a ler é obvio que os motivos que apresentas estão com toda a certeza no pódio dessa tabela – no entanto. no que diz respeito à minha pessoa. melhor dizendo. ao escrivão que escreveu o texto “não é escritor quem quer”. digo. com sinceridade. que as razões que me levam a escrever não competiriam pelos primeiros lugares dessa tabela – escrevo por necessidade – escrevo para fugir da solidão. quando o faço encontro-me – escrevo porque é com as palavras no papel que a minha verdade fica eterna. importante – escrevo para voltar ao passado. e com a lucidez do tempo que já me consumiu. encontrar razões coerentes para perceber o que sou hoje – escrevo porque a escrita me obriga a ser autêntico. escrever é um acto nobre – escrevo porque sou feliz a guardar-me em papel. eu tenho uma história – sou feliz a escrever. escrever recompensa. se assim não fosse não o faria – dezenas de vezes escrevi nas minhas crónicas. que o meu maior embaraço  é não saber falar – quem diria. eu que falo pelos cotovelos – não sei explicar nada com a oralidade. defeito do DNA – falo então a escrever. não é fácil. acredita que não. mas um dia. estou em crer. os meus filhos. mais maduros. na segunda idade dos porquês.  terão estes papeis para poderem saber um pouco mais do pai que escreve. e quem sabe. saberem também um pouco mais deles – hoje quanto não daria eu por uns papeizinhos do meu pai. fiquei com tantas perguntas por lhe fazer. tantas mesmo – tenho a certeza que são mais de mil. muitas mais – percebi tardiamente que o que nos distanciava na minha juventude. é agora na meia idade. o que me torna mais parecido – sou tanto dele e não sabia – se mais nenhuma razão houvesse esta já seria suficiente para me fazer escrever – um dia os meus filhos também poderão ficar ainda mais próximos de mim – a questão que coloco muitas vezes é o motivo porque torno público uma escrita quase sempre autobiográfica. interrogo-me se o deveria fazer – confesso. estou muito dividido nas certezas e nas dúvidas – por variadas razões entendi que o melhor era escrever – uma das muitas razões é esta que me leva a responder ao teu comentário: falar para ti. dizer o que penso – escrever o que sou. porque o sou. é para mim uma necessidade tão forte que não basta ser dita da boca para fora. tem que ser escrita – outra das razões é que só posso melhorar a minha escrita se a tornar pública – se não vos entregasse os textos não poderia aspirar a escrever sempre melhor. o esforço por encontrar as palavras certas deixaria de fazer sentido. bastaria um caderno de notas. cheio de erros. sem concordâncias. sem metáforas. sem hipérboles. sem sentimento. sem nada do que é meu verdadeiramente meu. genuíno. bom ou mau. não interessa. sendo o que sou porque cada um é como é – se não me entregasse na escrita. para que serviria o corretor do word. para que serviria a gramática que tenho em cima da escrevaninha. os dicionários. para que serviria a voz de um filho a perguntar se uma qualquer palavra se escreve com um H ou um A – não quero compreensão para o que sou. nem para o que fui. quero apreço pelo esforço a que me devoto para trazer as palavras mais acertadas para o que me proponho a falar – escrevo para marcar o tempo. como quem marca um trilho numa floresta com pedrinhas para saber o caminho de volta – quando escrevo saio da alma. quando leio entro na alma. mas no final. na escrita ou na leitura. é para mim que quero voltar. sempre – escrever para mim não é fácil. não nasci com essa arte. e para cada palavra procurada a busca é quase sempre extenuante. fico sempre com a sensação de que nunca deixo ficar na escrita o sentimento que me acontece na alma – e assim digo: não sou escritor. mas gosto de escrever. gosto de fazer amigos com a escrita. gosto de saber que quem me lê entende que o faço com prazer. que dou tudo tenho e que sei para me compreenderem. como se lhes estivesse a amarrar as mãos – quando alguém me diz que sou escritor. está a dizer-me que gostou de tomar um café na minha companhia. que fomos ao cinema ver um filme qualquer apenas para estarmos um tempo juntos. que vimos uma partida de futebol e pulamos de alegria com um golo que não foi o da nosso equipa – quando alguém me diz que escrevo. diz-me para não desistir. diz-me vai em frente. diz-me que já lhe chega ser o que sou mesmo que nunca possa ser um verdadeiro escritor. para essas pessoa já é importante me terem nessa meia dúzia de palavras – escrevo para mim. gosto de mim quando escrevo. mas se pudesse mudar o passado tenho a certeza de que hoje seria muito melhor escritor. no entanto. não estou certo se seria melhor pessoa – o que não mudaria nunca era as pessoas que passaram na minha vida. elas são tudo o que sou hoje. não guardo culpados dentro de mim. sou o que sou porque em momentos da minha vida escolhi caminhar sem colocar pedrinhas nos trilhos que escolhi – quando nos perdemos por convicção demoramos sempre mais tempo a encontrar o caminho mais certo para o que somos na verdade – escrevo hoje para que a verdade de amanhã não me atormente nunca mais o passado – sei que o tempo muda o homem. amanhã poderei ser outro. mas agora tenho estes papeis escritos – quando escrevo sou o que sou no momento. mas em cada momento nunca deixo de ser o que fui. acredito – eugénio de andrade um dia escreveu esta coisa maravilhosa. "Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida." – também eu me reconcilio comigo a escrever

 

 

 



22/01/2014

não é escritor quem quer






fabian perez





não é escritor
quem quer



escrevo prosa. não sei escrever poesia – escrevo prosa porque gosto de falar com pessoas. imagino-as a escutar o que escrevo. acenando a cabeça para cima e para baixo. a dizerem sim. sim de compreenderem o que as palavras não sabem dizer – as palavras nunca dizem tudo – quando escrevo falo muito. sempre mais do que o necessário – sou assim. o corpo pede e as palavras aparecem. acontecem – tenho muito medo de dizer pouco. escrevo. escrevo. e o medo a fazer eco: estás a falar muito. estás a falar muito. estás a falar muito. e centenas de ouvidos nas palmas das mãos em agonia – escrevo. escrevo mais. mais. resisto com palavras guardadas num pavor-silêncio. meu – e se não me compreendem? escrevo. escrevo como se me poisassem andorinhas numas mãos disfarçadas de cabos de alta tensão. sacodem a penugem como eu sacudo letras – para elas não há inverno. cantam  primavera em dias de chuva molha tolos. esperança – sou tolo por gostar de escrever? não sei. palavra de honra que não sei. possivelmente sou – talvez a minha tolice derive de um conflito existencial: um corpo dividido em dois – de um lado o destino. do outro a fé de que todos os caminhos vão dar a roma – não é verdade. há caminhos para o nada. para um fim do mundo que nunca se alcança – haverá castigo pior do que saber que metade do corpo não descobre a sua outra metade cuidada? – não há – punição que não merece nenhuma das metades – talvez um dia alguém diga que a verdadeira obra de arte nasce da comparação entre belo e o monstro. talvez – aceitação. as metades olham-se em compaixão e as palavras lutam com a  imobilidade do corpo. nada acontece às mãos  – ali fico. estático. de olhos parados no nada. a gozar a antecâmara da morte num silêncio interior inimaginável – o que de mim resta guarda-me a música tocada com acordes de notas graves com arranjos de desilusão – só escrevo com música. é uma questão de ritmo. dizem que são feitos de fórmulas matemáticas. talvez seja esta a única ocasião de me encontrar com a lógica – às vezes não encontro nenhuma fórmula capaz de me atirar ao futuro. nem uma insignificante regra de três simples. triste – tenho tantos dias onde não existo. com tudo a permanecer no escuro. com tanta coisa sem nome. e o coração a bater ao ritmo de uma porta açoitada por vento tirano – um dia destes apunhalo-me com uma qualquer palavra ordinária – estou cansado. os dias estão mais rápidos e a mobilidade mais difícil. estou a ficar com as costas tombadas cada vez mais para a terra – os invernos chamam cuidados. estou frio. sempre que escrevo fico enregelado. e os brônquios a chiar. pingo no nariz e eu sem o lenço da mão – o pingo suspenso. fungo. escrevo. fungo. escrevo – escrevo. hoje tenho um adjetivo qualificativo importante para rabiscar: a minha escrita é uma palhaçada – e também um superlativo absoluto sintético: sinto-me sapientíssimo quando escrevo – contradição lunática. fungo – confesso que por cada dia de escrita o medo duplica e o desespero multiplica-se numa equação de resultado infinito – quem sabe hoje é o meu dia da sorte e as palavras fazem uma primavera-abril sem águas mil – gracejo levemente. como se fosse uma daquelas pinceladas minúsculas de van gogh. colho o ramo de flores da sua jarra. girassóis brancos. ao meu olhar. ato-o com dois verbos fortes: sou o que fui – escrevo. aligeiro mais duas linhas ao pensamento. se soubesse escrever com arte talvez o livro da minha vida estivesse no último capítulo. não sei – trago nas mãos palavras que não são minhas. ouvi algumas. li outras. senti muitas mais. e sem saber qual das partes do corpo resiste à incerteza. entre silêncios da noite. encontro outras que não sou capaz de descrever. quer dizer. escrever – destino – paz à sua alma e luto eterno para um homem que nunca deixou de ser órfão – crueldade. ninguém deveria nascer com o destino traçado – depois de morto não me roubem palavras da boca. peço – enfrento o que sou  com o que fui. toco-me. e parto ao futuro navegando à bolina numa agitação norte que nunca parou de anunciar desordem – agora. agora faço estas páginas de palavras para espalhar no mundo dos justos. há tantos. basta procurá-los nos morais da modernidade – todos temos que ser qualquer coisa – o que sou eu quando não sou o que sou por obrigação? – talvez um carpinteiro* de palavras. operário de palavras. soletradas por uma boca putrificada por uma inquietude autobiográfica 



– onde é que já ouvi isto –
 

passo tanto tempo a ouvir-me. e o corpo a dizer: desiste. desiste. o destino está traçado – nunca compreendi a motivação dos órgãos para não se suicidarem – não me compreendo – talvez a palavra compreender não seja a mais correta para definir esta coisa de querer dizer o que não pode ser dito por quem gosta de falar – não sei escrever. não sei falar. não sei ler o futuro. vivo no meu silêncio de barulho. sobrevivo – escrevo então com este barulho dos dedos a bater nas teclas. dou-lhe com força para fingir que não estou apenas na companhia de um silêncio silêncio e ganho coragem para escrever a palavra “graal”: aceito-me – aceito-me assenta melhor num corpo dividido – aceito-me. gosto da palavra. alivia uma dor que gosto de negar aos que me tentam fazer acreditar na soma das partes – sei que existo porque me obrigo a escrever – aceito-me. esta é a palavra mais-que-perfeita. a palavra de quem escreve para implorar compaixão a uma dor que nunca sei onde doía – escrevo prosa porque gosto de falar

[*] – antónio lobo antunes -

 


21/01/2014

retalhos – número de série 08012014s(r)ego04






giovanni domeni


 

 
para onde foi troia
do heitor herói


talvez helena esconda
o motivo de tal traição

 

 

 

nuit dês rêves - noite dos sonhos




edouard léon cortès


 

que vos dizer amigos…
de mãos dadas
com a paixão dos tempos
que por mim passaram
sou feliz!
de um lado a torre eiffel,
do outro l`arc de triomphe.
hoje. também meu
 
em degustação
o dinêr;
“pavé de rumsteak grillé”
e um bom vinho de bordeaux .
pelo olhar deixo cair um je t`aime
em surdina recebo um sorrir
depois.
um leve pisar do pé
e assim vivo
 
chegam “les deserts”
“mille-feuille a la vanille bourbon”
sem poder reclamar o coração
diz mais um olá
 
somos assim!
agora. aproveitamos o tempo
café. “s´il vous plait”!
entre abraços congelamos o frio
somos afinal meninos
e em chamas deslizamos
pelo champs-elysées
 
em branco. pela iluminação
que agradece
acendemos mais uma luz.
nesta cidade de luz
paris afinal necessitava de nós.
assim!
despidos para a vida
 
é noite.
e por aqui andamos a escrever
o que um dia será passado
nosso. e de quem nos lê
 
 
 
02 de dezembro de 2009
 
 



16/01/2014

retalhos – número de série 07012014s(r)ego03




jean-michel folon
 


às vezes estou só eu. imóvel. como a noite.
de dentro de mim o desejo de trazer sonhos para a realidade
e assim
matar a solidão e a noite
de uma só vez
com a raiva de uma palavra gelo
 
aos retalhos
já basto eu




sou




gustave courbet



 
 
sou
sou
sou
mesmo contra vossa vontade sou
não sou este
o que desse palanque cogitais
sou aquele
aquele que daqui
deste meu reservatório
de ideias sou
sou assim
duro como pedra
mole como os pensamentos
tramados pelas mãos
sou
sou
sou
sou convencido no que sou
sou até um qualquer
sempre que quero
e quando não quero
também sou
hoje. por acaso. sou um ruído com olhos castanhos
vejo todos os sons com um sou
um sou único
talvez um sou com som
um que se ouve a si
para dizer
assim serei
com o meu som eu sou
sou
sou
sou
sou de um tamanho que já não existe
presente para o mundo
dos que nada são
sou afinal um sou só
só porque sou teimoso
para não ser um sou dos outros
sou meu
sou do meu sou
talvez louco. sim talvez
mas sou
sou



09/01/2014

goya







mário osório - "esta obra de goya não é muito conhecida. O primeiro biografo de Goya, Matheron, no fim do século XIX, ignora-a no catálogo das obras. O enfermo é o próprio Goya, é um autoretrato. O médico é o doutor Arrieta, que o tratou de uma doença no fim da vida e assim Goya, de presente, ofereceu-lhe esta pintura. atrás vêem-se os fantasmas, figuras do seu delírio. eu adoro mesmo esta pintura, fico mesmo feliz de partilhar este gosto contigo."