.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

04/05/2014

ilusão




ron mueck
 



as grandes metragens cinematográficas quase sempre terminam com o artista a resgatar a amada do tirano malfeitor – é o triunfo do bem sobre o mal – um abraço. um beijo nos lábios forte. e os corpos fundidos num só para sempre – a plateia em pé cauciona com palmas a felicidade eterna: muitos filhos e só a morte os separará – the end – o mundo da ilusão acabou – o momento é real. os corpos tomam a verticalidade. o conhecimento apruma-se. olha em frente e parte para o mundo inteligível – guardam-se apressadamente os lenços encharcados de sentimento. a condição representa a verdade da ocasião. mas as ideias querem-se enxutas – caminha-se – há de novo razão dentro dos corpos. a felicidade não é eterna e a realidade é sempre traçada a partir de  microssegundos. alguns fatais – entrar no filme certo da vida requer habilidade. conhecimento. inteligência. e porque não uma pitada de sorte – sempre ouvi dizer que a sorte dá trabalho para caraças. a ventura não nasce para todos. não – é fundamental ter ao nosso lado os atores certos para um filme único. sem ensaios. sem cortes. sem homem ponto. sem holofotes. sem pancadas de molière. sem merda. nada do que é feito tem volta atrás – uma arte complicada. ajustável a uma única fórmula matemática de resultado quase sempre incerto e com uma variável aplicada à velocidade com que nos adaptamos ao imprevisto    o homem das cavernas evoluiu. adaptou-se. e agora o fogo é instantâneo: a fricção das pedras substituída pela lixa e o fósforo – atrito. faísca. e a explosão acontece. o calor-luz aparece para dar racionalidade aos corpos. nas paredes as sombras são agora a verdade projetada em dobro para o bem ou para o mal – é indiferente para este mundo aligeirado saber que a verdade permanece em todos os espermatozoides – ninguém quer saber quem é o dono do bem se é o mal que traz a esperança – o homem da vida real esqueceu que só a partilha justa produz harmonia – andamos todos enganados.

 

2.

não esqueças de te portar bem. não mintas. não faças asneiras. não contraries os teus pais. respeita os mais velhos. reza sempre ao deitar e vai à igreja receber o senhor para ficares protegido dos demónios e das más tentações

– as recomendações para a felicidade plena continuam

faz os deveres da escola para um dia seres um homem importante. para seres alguém na vida. não queiras ser como o teu pai. mata-se a trabalhar e nunca tem nada. põe os olhos miguelinho. agora que é doutor já não lhe faltam companhias – o futuro está nas tuas mãos. faz-te um senhor para não teres que andar a contar os tostões – receita para uma felicidade eterna tal e qual como no cinema: um artista doutor. fama. espectadores-clientes e a vida a sorrir – caminha-se – a esta gente ninguém lhes disse que a vida também pode ser um filme onde as nossas verdades se apagam com o acender das luzes – embuste. esperança armadilhada para os pais e para os filhos – pai uma vez. pai para sempre – mataram a fome com a livros cheios de saber comprados com trabalho de sol a sol.  e nas mãos a aspereza do sofrer em alegria. nos olhos a vaidade de verem os filhos crescer com sapatos que nunca tiveram. na boca a felicidade feita de carne da minha carne

“Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. a hora mágica chega sempre." [hermann hesse]

havia fé até nos nobéis da literatura – a hora mágica vai chegar – a idade vai passando com alegria nos corpos doridos de tudo. fé – talvez haja outro mundo melhor para quem sofre por amor – os filhos são sempre tão imensos para um mundo tão apertado – o tempo passa – finalmente vão poder descansar. sentarem-se numa sala de cinema. e em paz. saborearem com prazer um filme da sua juventude. uma daquelas velhas películas do western americano. onde mais uma vez o bem derrota o mal num duelo marcado para o pôr do sol – frente a frente. desta vez. o artista apesar de ferido vence a ganância. saca da pistola com balas feitas de sacrifício. num gesto rápido. o mais rápido de sempre em filmes de cowboys. crava uma bala-estaca de tudo que há de bem no corpo do capitalismo selvagem – o mundo dos que amam incondicionalmente ganhou mais uma vez no grande ecrã – finalmente justiça

 

3.

na parede uma luz delicada indica em forma de seta a saída: exit – a geometria perfeita do espaço perde a estética – plateia vazia. primeiro balcão vazio. segundo balcão vazio. frisas vazias. tela vazia e o que era gáudio é agora um aglomerado de cadeiras perdidas num vazio cheio de nada – de cadeira para cadeira difere apenas um número e uma letra de um abecedário que nunca servirá para dizer o que quer que seja – o impar e o par trespassados por uma passadeira vermelha. cor de sangue sujo. puída por um vir imaginário-esperança e um ir de nostalgia-desgraça – há agora um silêncio que não sei escrever. talvez um silêncio-espera. como se a gravidade terminasse e o barulho ficasse parado no ar. numa cena de amor. talvez num beijo do clark gable na marilyn monroe. ou então. quem sabe. o aparecimento inesperado do homem aranha pendurado nas teias da vida – tudo é uma teia. a vida é uma teia – isso é que era. um herói de carne e osso. a falar a mesma linguagem dos mortais. com as mesmas mágoas. com os mesmos malabarismos de equilíbrio. deixa cair das mãos fios de seda pura que não servem para nada – encantamento. ilusão. magia – há quanto tempo não temos um herói. viriato o mais antigo. d. joão II nos descobrimentos. camões por ter perdido um olho para um povo que já quase não existe. e o tempo a passar sem nada. só reis. e um dia uma república que nunca trouxe fraternidade. igualdade e liberdade. não trouxe nada. o herói da modernidade é o túmulo do soldado desconhecido. somos todos nós – há um silêncio-espera que parece não ter fim

[nem sei bem se este silêncio-espera pode ser escrito – talvez esteja a ficar irracional – espero que me compreendam]

 

4.

novas aparições de humanos só na próxima sessão – tudo que é vida vai nos corredores – os corpos  movem-se num caminhar pós-morte. buscam a luz para apagar dos olhos o testemunho da consciência afetiva – resistem os fracos. poucos e com escassas provas da sua humanidade: nariz fungoso. olhos inchados e a face tomada por feições amenas de mortalidade – todas estas provas num tribunal não serviriam de nada. qualquer juiz medíocre diria que se tratava apenas de uma constipação ou em último caso. uma alergia ao pó fabricado por multidões a correr apressadamente para a indiferença: exit – a consciência afetiva não sobrevive com a chegada dos corpos à rua – finalmente todos na vida real – só a morte é igual para todos

como escreve lobo antunes: arte é longa. a vida breve  – tal como a vida também o belo do cinema não é eterno

 

 




01/05/2014

vladimir vladimirovich nabokov




vladimir vladimirovich nabokov


 
 
citou Vladimir nabokov: “Penso como um génio, escrevo como um vulgar homem de letras e falo como um idiota”.
cita sampaio rego:  “penso quando posso. escrevo o que posso e falo como um idiota mesmo quando não devo” 
quem diria que tinha tanto em comum com o camarada vladimir

moral da história: és o que és – por muito que tentes ser outro acabas sempre em ti


 
- biografia retirada da wikipédia –

Vladimir Vladimirovich Nabokov (em russo: Влади́мир Влади́мирович Набо́ков; São Petersburgo, 22 de abril de 1899 — Montreux, Suíça, 2 de julho de 1977) foi um escritor russo-americano. Nabokov escreveu seus primeiros nove romances em russo e então chegou à fama internacional como um mestre estilista de prosa em inglês. Também fez contribuições para a entomologia e tinha interesse em problemas de xadrez .

Lolita (1955) é frequentemente citado entre seus romances mais importantes e é o mais conhecido, apresentando o amor por intrincado jogo de palavras e o detalhe descritivo que caracteriza todas as suas obras. O romance foi classificado na quarta posição na lista dos 100 melhores romances da Modern Library. Sua autobiografia intitulada Speak, Memory foi listada na oitava posição na lista dos livros de não-ficção da Library Modern.3

Nascido numa família da antiga aristocracia, em 1919, a instabilidade produzida pela revolução bolchevique (1917) obrigou-o a abandonar a União Soviética. Estudou em Cambridge e licenciou-se em literatura russa e francesa. Mudou-se para Berlim, onde iniciou sua produção literária e intenso trabalho como tradutor.

Em 1926, foi publicado seu primeiro romance, Maria, acolhido com interesse e consideração. Fugindo dos exércitos nazistas e após uma estada em Paris, chegou em 1940 aos Estados Unidos, onde se dedicou ao ensino de língua e literatura russa em várias universidades. Embora continuasse a escrever na sua língua materna, começou também a escrever em inglês, publicando o seu primeiro romance nesta língua em 1941 (The Real Life of Sebastian Knight). Publicou, em 1955, o polêmico romance Lolita em inglês.

A partir de 1958, o sucesso alcançado por seus livros permitiu-lhe dedicar-se inteiramente aos seus principais interesses, a literatura e a entomologia.




29/04/2014

dor elegante




paulo leminski






Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


PAULO LEMINSKI



retalhos – número de série 29042014s(r)ego13




sam jinks e ron mueck
 



 
partir - quanta dor cabe dentro de um corpo. quantas noites escuras consumiu. quantos amigos perdeu de amar. quanto silêncio calou a alma. quanto luto trajou de preto - partir também pode ser um ato de coragem – paz




26/04/2014

nada




alyssa monks
 




escrevo. escrevo medo. escrevo pavor. escrevo nesta carpintaria afligida de textos imperfeitos – nunca escrevo tudo – terror. tenho sempre tanto horror das palavras. sempre tão cruas. cruéis. aqui mesmo à mão e eu sem ferramentas para as usar – o corpo treme. não percebo a razão. afinal as palavras são de todos aqueles que gostam de as escrever. principalmente dos que precisam delas para falar. como eu – quero-as unicamente para falar. não as quero punhal. não as quero arremessar. não as quero para condenar. nem para absolver. nem para as oferecer. quero-as para falar de mim – estou refém das palavras como as gaivotas do mar – é tão penosa esta procura das palavras. e o corpo sem posição. e a cadeira a tomar formas que não me deixam sentado. falta de ar. pânico. e o coração a sofrer por não compreender o que fazer nesta carpintaria – sou um idiota. as palavras idiotizam quem não sabe escrever. mas continuo a acreditar que um dia aprenderei a escrever uma palavra esdrúxula. grave ou simples. juntá-las a feitio dos olhos. e palavra a palavra refazer um nome num corpo. com olhos castanhos de um aceso alegre. e as maçãs do rosto coradas de vergonha atraiçoam a timidez com um finíssimo silêncio de uma mão trémula a desenhar o fim de uma idiotice – quero acreditar que sei falar a escrever – sonho – de volta à realidade. descanso as mãos idiotas. se as mãos estiverem caladas deixarei de ser idiota – não posso mais – há tanta gente por aí a escrever idiotices e não deixam de escrever – talvez saiba escrever. talvez. nem que seja para uma única pessoa me ouvir – talvez tudo não passe de uma farpa. uma palavra espetada de esguelha no dedo indicador da mão que teima em escrever – se for assim é fácil. com uma palavra agulha rasgo a pele e retiro a farpa. para sempre – as farpas. escritas por eça de queirós  e ramalho ortigão. foram uma caricatura da sociedade da época. talvez esta farpa também represente o que de pior há em mim – talvez saiba escrever. talvez. nem que seja para duas pessoas – o problema é dizer o que sou nas palavras. não é fácil dizer-se o que se é em palavras. as mãos tremem-me penduradas num corpo que também treme – talvez não seja idiotice. nem demência. talvez seja parkinson. mas o coração também treme. talvez um ataque cardíaco. talvez uma fobia. uma overdose de palavras difíceis. talvez esteja num sonho. e a cadeira é afinal uma pedra lascada e o computador imaginação de um catraio do passado a desenhar letras em cadernos de duas linhas – talvez não saiba mesmo escrever. e a loucura seja mesmo essa: escrever – talvez afinal não seja idiota. talvez o corpo esteja infectado por um fungo-bolor onde a realidade é atacada e manipulada por bolores alucinogénios – ganzo-me a escrever. quem diria. as palavras são uma droga poderosíssima – um deste dias sou preso por consumo e tráfego de substâncias perigosas e proibidas  – antigamente a policia andava sempre a procura de quem escrevia. e havia gente especializada na leitura destes textos. punham carimbos enormes a dizer: censurado – um dia destes sou preso. censurado não creio. se soubesse escrever talvez me prendessem por um dia – talvez saiba escrever. talvez. nem que seja para três pessoas – tenho a sensação de que estou fechado num elevador parado entre o céu e o inferno e a porta teima em não abrir. carrego num botão. e noutro. e outro. e em todos ao mesmo tempo e nada. tudo parado. paralisado. e um murro na porta igual ao que dou aos dicionários e nada. nada se abre aos meus olhos. da porta para lá nada. como as palavras. da cabeça para lá nada – nada. e o elevador parado. e as palavras paradas. e eu a bater com a mãos nas teclas a fingir que escrevo o que sou  – não sei fazer palavras – mas eu sei que existem. sei. sei. e sei.  ouvi-as na boca de gente diferente – dinis. eça. antunes. andrade. breyner. garret. espanca. pessoa. camões. branco. saramago. estes nomes não me são estranhos. esta gente sabia o que fazer às palavras. existiram. tenho a certeza. vi livros com estes nomes impressos – existem. não sou idiota – mas eu também existo. tenho a certeza. não pode ser loucura. talvez as palavras sejam loucas e não digam o que me vai dentro do corpo. mas só as palavras. porque tudo o que está à minha volta existe. e do lado da porta deste elevador parado entre o céu e o inferno há gente. também com nomes. sei – todos temos nomes. mas confesso que não sei o nome dos meus vizinhos. nunca me escreveram. dizem boa tarde. bom dia. está sol. está mau tempo. tem que se agasalhar. cuidado com o frio. ainda ontem entrou no reino de deus o vizinho do cinquenta e três. o que vivia no terceiro frente. uma pontada de ar e lá foi. que deus o tenha a seu lado – de seguida silêncio. também não tenho nome. talvez porque nunca lhes escrevi – tudo se resume à palavra escrita – as pessoas existem mesmo sem saber escrever. isso eu sei. se não como seria possível eu estar aqui a fingir que sei escrever. se finjo logo existo – a minha vizinha do quarto andar tem um cão branco também existe. o  meu vizinho do sexto com o bigode também existe. e o GNR reformado que vive ao lado da vizinha portista também existe. e o cão do primeiro andar frente também existe – as palavras são cada vez mais complicadas para alguém como eu: hipopotomonstrosesquipedaliofobia. medo. doente de medo. sem cura. raio de palavra enorme para dizer tão pouco. medo – dizem os entendidos que a terapia recomendada para aliviar o corpo deste mal é escrever mesmo que não se saiba muito bem o que se escreve. como quem diz. o que se quer dizer – sou mesmo idiota. para que escrevo se não sei escrever o que tenho dentro do corpo – escrevo – escrevo um texto que não é este. este é só para desabafar esta raiva de não saber gritar com palavras – que tristeza – nem por saber que tenho uma amiga que quando acorda se senta na cama a ler este idiota – sorte a minha. devo ser o único palerma do mundo que tem alguém que gosta de acordar com palavras de um tolo – debruça-se para um raio de sol. o primeiro da manhã puxado por deusas vítreas até à sua almofada feita de penas de anjos  onde os seus cabelos desarrumados seguram os sonhos de um idiota incorrigível – adelgaça as palavras com afeição. com estima. com um “bem-me-quer” que me abraça em confiança e a sua leitura é agora tudo o que não escrevi –  há outra vida nas palavras. não aquelas que escrevi em delírio. mas as que são lidas em pureza nos primeiros raios de sol das manhãs – tudo tão leve. tudo tão sem peso. tudo tão pueril. tudo tão inocente neste acordar enviado pelos anjos – escrevo. escrevo para acordar as palavras que dizem o que não consegui dizer enquanto idiota. talvez alquimia. magia. uma que faz das letras grãos de areia finíssimas. quase inúteis. se não fossem pó não eram nada – nada também existe no dicionário de português:

na·da

(latim [res] nata, coisa nascida)
pronome indefinido

1. Coisa nenhuma (ex.: estava escuro e não vi nada; nada lhe despertou a atenção).
substantivo masculino
2. O que não existe; o não-ser.
3. [Por extensão]  Pouca coisa. = BAGATELA
4. [Figurado]   Fragilidade.

advérbio

5. Expressa negação; de modo nenhum. = NÃO

 
 
quando escrevo sou tudo isto: nada
 
mas.
 

talvez saiba escrever. talvez. nem que seja para meia dúzia de pessoas

 




25/04/2014

reclassificação de memórias




lynch-Smith
 
 
quando não compreendo alguma coisa. ou essa coisa me magoa ou ainda altera substancialmente o meu equilíbrio emocional e as dúvidas aparecem a ocupar todo o meu espaço corporal. fico preocupado – não estou habituado a que o erro acabe por consumir todo o meu lado bom – recorro então à imaginação e forço o corpo a acreditar que a vida está a seguir o seu percurso normal da seleção das espécies – o planeta terra não para de centrifugar. voltas e mais voltas. sempre à mesma velocidade. geram a primavera e o outono – quem diria – incrivelmente tudo nasce e morre neste ciclo e o planeta sempre a sorrir com o saber de milhões e milhões de anos de perdas – foi assim que chegamos ao homem dos nossos dias – imagino então a terra como uma máquina de lavar roupa. trouxa suja para dentro e o programa a fazer a lavagem a altas temperaturas com os glutões do presto a comerem tudo que é nódoa – só não me vejo a torcer
 

 


16/04/2014

mais um ano




jean-michel folon
 
 
a minha juventude foi muito agitada. desajeitada e rebelde  – gosto de culpar o 25 de abril por todos os males de que padeço. mas não é verdade – o que seria das minhas palavras sem abril? não trocava abril por nada. crescer com a revolução é um daqueles momentos únicos que a vida não repete – sem abril estaria vazio. talvez até vazio de erro –  faço parte do erro. agarrei a liberdade sem defesas e acabei por sucumbir ao seu encanto – por ali fiquei a trovar. sem métrica. sem rima e a um compasso que nunca soube acompanhar – agora que envelheci escrevo prosa para sobreviver – estou triste. escrevo –  quero desabafar. escrevo – quero respirar. escrevo – quero dar uma sova. escrevo – quero dizer amo. escrevo – quero odiar. escrevo – escrevo para tudo e para mim – escrevo porque quero continuar a envelhecer com as palavras que ainda não escrevi – escrevo para não morrer no meio de um amor não correspondido: a vida – a vida nunca me amou. talvez por não ser poeta. talvez por nunca ter dito que gosto muito de todos aqueles que fazem parte da minha vida – amo-vos. amo-vos. amo-vos.  a todos – escrevo para falar – bem hajam


 

15/04/2014

heurística




gary milnner
 
 
 


apoiado no lamento
desalegro-me
atrido
desdobro uma noite
apenas minha

no céu: a cassiopeia
retraça-me
inclemente
apela em chama
à heurística

interrogo-me entre:
deuses terrenos

          \\

escuto-me entre:
giestas bravas

          \\

digo-me entre:
pedras afiadas

          \\

respondo-me entre:
teorias de evolução


escancelados
os olhos
deslumbram uma rosa
na beleza:
os espinhos


nota de autor: \\ - pausa Longa



14/04/2014

celestinha tem bombocas




fabian perez



adolescente. um dia para os amigos. um minuto para o corpo. a bola a saltar e o pião a rolar num peito atravessado a vento sul. a puxar gaivotas para um mar nunca antes navegado. e o cabelo castanho. imortal. desviado para o lado mais a jeito – sou primavera. abril. e os dias pequenos para tanto coração – nesse tempo não havia inverno. ossos rijos. braços fortes. pernas a correr acima do tronco e os olhos a avistar dias para lá do ocaso – no corpo. os amigos a trabalhar dia e noite. como relógios pendurados em paredes de pedra. com séculos. os ponteiros a marcar o futuro ao segundo num tic tac impercetível – queria tanto crescer – e os dias a imitar tartarugas. demorados. o sol incapaz de fazer sombra. nem vento. nem frio. nem arrepios. nem medos e a gola alta tapa a garganta franzina que não se cansa de gritar o nome dos amigos. um a um: zé do gerês. tiago. agostinho. jorge. toni. vicente. fernando. fontes. rui. meno. tó mané. carlitos. lúcio. pimenta. joca. luís vieira. quim. leites. paulo (s). pedro. gijo. miguel. joão. zeca [que “deus” me perdoe se me esqueci de algum] – éramos tantos. ainda somos muitos. mas não tantos. há agora um mundo novo. bom. justo. onde os corpos não adoecem. as amizades não acabam. as palavras nunca ficam por dizer – neste mundo. que desejo acreditar. passam-se os dias a jogar à bola. o luís vieira entre duas nuvens. a fingir postes de uma baliza. é guarda-redes e o joca [filho do gaspar chapeiro] a chutar de trivela. em estilo. com o corpo a inclinar para o lado de uma conversa que nunca tivemos


devo-te um pedido de desculpas. espero que me perdoes. mas partiste tão rápido. sem ao menos um café. um abraço. sei lá. uma coisa qualquer que me deixasse ficar em paz


de tanta vida gasta sobra-me hoje este único arrependimento. coisas da juventude – sou dos mais novos do rebanho. sempre quis ter amigos mais velhos. sempre soube que os mais velhos sabiam coisas que eu não sabia – eramos um clã. uma tribo da praça do comércio e quem aqui nasce ou cresce fica marcado para sempre. como ferro quente nos rebanhos – os gregos e romanos também usaram técnicas de fogo nos seus rebanhos. e o seu legado correu o mundo – o nosso fogo era diferente. marcava o coração. era feito de inocência. de ingenuidade. de fé. de camaradagem. de bondade. de amparo. de abraço. de fraternidade. de verdade. e nos olhos duas luzinhas vivas. acesas. brasa para temperar ferro – mais um dia. mais futebol – frente a frente. os dois mais velhos. deitam os pés. como um duelo. o que calca começa a escolher a equipa. primeiro os mais velhos. de seguida os melhores jogadores e finalmente os putos – emudecimento. os putos ficavam sempre para último e acatam o que lhes cabe em sorte em silêncio – tu vais para a baliza – de um lado uma pedra. do outro um poste de luz que nada alumia. fundido pelos remates perdidos em ais de um quase golo e as biqueiras dos sapatos sem tinta. e nos ouvidos a certeza de que a minha mãe um dia destes cumpria a promessa de me comprar umas chancas


ó rapaz. olha como tens esses sapatos comprados há menos de um mês. pensas que o teu pai é rico


um género de praxe académica dos nossos dias. onde os grandes exerciam um poder absoluto na miudagem. físico se necessário. psicológico obrigatório – a livre expressão da individualidade como parceiro de equipa reduzida a um abanar da cabeça. dizer sim – e eu ali. olhos caídos em mudez. acotinhados a um canto. a receber ordens. mas bem lá por dentro alegre por partilhar um espaço-tempo ao lado dos grandes – os putos são felizes com tão pouco – o jogo vai começar. muda aos seis acaba aos doze. e não há desforra – e ali fico eu a vê-los a correr de um lado para o outro. encostado ao poste de luz. fundido. a pedra é muito pequena. mais pequena de que qualquer puto com o sonho de crescer o mais rápido possível


passa. passa. olha o carlitos. chuta. golo. golo. golo


a culpa era sempre do puto da baliza. olhos para baixo. boca fechada antes que um dos grandes se irritasse e me pusesse a andar a mil – os mais velhos tinham sempre razão – mas os amigos grandes são assim. às vezes injustos. não importava. o importante era fazer parte do seu mundo. fazer parte do jogo. estar na equipa. pertencer ao rebanho – e ali estou a crescer. a conhecê-los pelos gestos. pelas vozes grossas. todas diferentes. pela roupa. e eles todos elegantes a falar com palavras que nunca tinha ouvido. não eram da escola. eram da vida. dos anos. da altura do corpo. enquanto batiam com o cigarro na palma da mão. e o fósforo acendia um fogo de desejo nos meus olhos – queria crescer. queria ser também eu enorme e bater com o cigarro. apertar o tabaco naquele tubo de papel e fazer fumo às bolinhas. ritmadas pelos maxilares. a mexer para cima e para baixo. como vulcão a anunciar erupção. explosão. expansão. e o fumo. engolido às golfadas. sai pelo nariz de um novo guerreiro. enquanto a ponta do cigarro era confiscada por mais um puto. e a beata com um novo dono queima entre dedos. pouco mais resta do que o filtro. e os meus olhos a ver arder tempo. e por cada segundo queimado menos uma passa num filtro amarrotado de conversa de amigos. para sempre – quero ser grande – camarada. raio de palavra. companheiro. raio de palavra. amigo. raio de palavra. para onde foram estas palavras? para onde? roubaram-mas e não dei conta. quando estamos a crescer não damos conta de quase nada – agora sou gigantesco. fumo. e por cada golfada de fumo um centímetro de altura – os mais velhos naquele tempo eram mais sábios. ouvi-los era aprender. respeitá-los obrigatório. fumar era crescer no respeito – sabiam tantas coisas que eu não sabia. meus deus. como eram inteligentes. e bonitos. sempre a sorrirem. e eu ali a olhar. invejoso. a querer ser como todos eles. e eles a falar. e eu sem os conseguir ouvir a todos ao mesmo tempo. e eles a apontar para o futuro. e eu sem saber onde estava o meu. e eles com as calças vincadas e eu todo engelhado. e eles com os pés no chão e eu com a cabeça no ar. eram tão bonitos. eram meus amigos e os amigos são sempre bonitos. eram os melhores amigos do mundo. enormes. tão grandes como a roda gigante das diversões. vinha todos os anos para as festas da cidade em honra de s. joão. e eu às voltas a tentar ver o mundo pela sua altura. como a roda. a girar. sem parar. sem parar. sem parar – era enorme esta roda. eles também – ninguém tinha amigos como eu – com a chegada da noite a recolha obrigatória dos corpos. era o meu momento de profunda tristeza – sem eles estava só. num silêncio morte. um silêncio sem existência de vida. de confiança. de segurança. de amor. de tudo – eles eram tudo


até amanhã pessoal


e lá os levava eu para casa. todos. sem saberem. eram tantos. todos tão diferentes e todos especiais – colocava-os na cómoda. de frente para a cama. separados por tamanhos. os mais velhos à frente. queria-os sempre à mão. a fintar a escuridão. a passarem a bola de pé para pé. e o polícia de giro sisudo a dizer.

meninos. toca a guardar a bola. estão fartos de saber que é proibido jogar nos passeios. vamos ter problemas

olhos no chão. a bola nas costas debaixo da camisete. um silêncio de quem é culpado pela quinquagésima vez e as cabeças a dizer que sim. juravam com os dedos em figas que não voltaríamos a jogar na rua – ninguém pecava. ninguém mentia. os dedos cruzados em figas eram a absolvição. código de honra entre amigos – e ali ficavam eles até que o dia chamasse pelo meu nome – queria tanto que me conhecessem. bem sei que estava a dormir. mas também sei que falo enquanto sonho. eles estavam em todos os meus sonhos. quem sabe dizia alguma coisa importante. de afeição. e pela manhã acordava com abraços a dizer: bom dia amigo. estamos à tua espera – tinha tanta coisa importante para lhes dizer. sonhos. pedacinhos de coisas prontas a construir lugares onde a amizade é para sempre – doce vida. doce jovem. doce esperança. as mãos em formação seguravam vidas que não eram minhas – a padaria da lusitana servida por duas portas. era verão se estavam abertas. faziam corrente de ar. e o cheirinho ao pão a passear por cima dos ombros de miúdos a rebolar pelo chão. a jogar à carica na beira de um passeio de pedra silenciosa – ninguém falava quando nós gritávamos. éramos ciclistas. queríamos acreditar. e o camisola amarela eram todos os meus amigos – eu lá ia. pendurado no carro vassoura. feliz por vê-los felizes – não entra nestas corridas quem quer – tanta gente naquela rua. tanta gente naquela praça. tanta gente no meu mundo – a celestinha de bata branca. atrás do balcão. relatava a sua vida aos clientes enquanto a soma era feita de meias dúzias


celestinha dúzia e meia para mim. estaladiços. hoje estou com pressa


a freguesa segurava nas mãos uma saca de tecido bordada à mão com três letras: pão – nada era mais importante do que o pão na vida das famílias. vizinhos. amigos. todos sabiam o meu nome – os meus amigos eram o meu pão. alimentavam-me esperança de um mundo azul. com mar. sol e sal. com gaivotas. livres como o vento. feitas de asas. feitas de eternidade – e as meias dúzias a cair das prateleiras de madeira coloridas de farinha a imitar neve em montanhas mágicas. na saca a lenda da rainha santa isabel: rosas senhor. rosas – havia tanta gente a sorrir. eu também – onde está essa gente dos sorrisos? onde? morreu? talvez. eu também morri e as sacas bordadas também. estamos todos mortos e nem demos ainda conta – o meu amigo tiago pergunta:


celestinha tem bombocas? esgotaram menino. agora só na próxima semana


éramos todos meninos – éramos todos ainda meninos e eu sem saber. e eles sem saber. só o tempo sabia da nossa meninice. talvez por isso me acordava sempre com sol. persiana para cima. pijama fora. escada abaixo. e em duas passadas ali estava eu na rua. aos pinchos. bola na mão. e os compinchas a chegar um a um e os dias a sorrir até cair de cansaço na noite


mais dois e já dá para jogarmos três contra três ou então aos centros. ao deita fora


um a um. depois do jantar. juntávamos a amizade numa roda que se fechava numa aliança imortal – falávamos de tudo que era nada. e tudo fazia sentido. e eu ali a fechar um círculo que nunca percebi onde começava na certeza de que nunca seria mais feliz em lugar nenhum do mundo – o meu mundo era ali. naquele círculo. naquela aliança. afortunado – noite. sou agora silêncio. escondo-me. tenho medo de ficar sozinho – 23.30. está na hora de voltar a casa. o oceano pacífico começa á meia noite na RFM – sintonizo a emissora e ouço o mar a ir e a voltar. as músicas calmas acompanham o corpo numa melancolia-saudade. nunca mais é manhã – noite. longe dos meus amigos é sempre tão demorada. ler era aliviar o corpo do peso do relógio – o silêncio também se distrai com o tempo. leio. leio. leio. só os livros falam comigo. para eles eu estou ali tal e qual como nos sonhos. sem censura. sem idade. sem correrias. sem tristeza. estou apenas ali. deitado de bruços na cama a segurar saber. alumiado por um lâmpada de quarenta velas a florir a minha solidão – as noites eram gastas a sonhar com mundos que não conhecia na companhia do belga hercule poirot. detetive belga. personagem das histórias de agatha christie – tinha que saber tanto como o meu amigo zé do gerês. vestir aqueles pulôveres de decote redondo. chegado ao pescoço. que não deixavam sair as golas da camisa. não gostava do decote em bico. dizia com ar de quem possui a capacidade de saber todas as coisas do mundo – e eu a ouvi-lo. ainda hoje não gosto de pulôveres de bico. fiquei com quase tudo dele. era meu amigo. é meu amigo. será sempre meu amigo – há palavras que nunca lhe disse. possivelmente irei partir sem as dizer – e o tempo fez de mim o que hoje escrevo. fez muito pouco. muito pouco. raio de gajo que não serve para nada. nem para escrever o que sinto. e sinto tanto. nunca deixei de sentir. a infância nunca se deixa de sentir. nem se perde. nem se esquece. muito menos aquele desejo de abraçar um futuro idílico – o tempo passou. e agora descubro que só me trouxe dúvidas. as certezas ficaram todas na juventude


09/04/2014

retalhos – número de série 09042014s(r)ego12




jake e dinos chapman
 
 

 
"desajeitado para o mundo" - o termo é mesmo esse. sou um desajeitado para o meu mundo. no dos outros estou quase sempre a mais




02/04/2014

tudo-incondicional




leonid afremov
 
 
a minha amiga ana martins recordou no seu facebook uma prosa poética de minha autoria que dá pelo nome - tudo
 
passaram-se três anos
 
acredito que para os mais novos estes três míseros anos não são relevantes. afinal o que são três anos no corpo imortal de um jovem – para mim. que a imortalidade já não é atingível. é um horror de tempo – infelizmente o  tempo esgota-se velozmente
 
neste três anos. muitas coisas se passaram dentro do corpo. muitas metamorfoses. mais dúvidas. mais perguntas sem respostas. mais viagens ao passado num esforço de credibilização do presente – uma luta contra os meus moinhos de vento - mas vida é isto mesmo. para alguns o destino é traçado com a hora do nascimento. para outros. são os actos criados à sua volta a dizer para onde é o caminho – o tempo passa. o corpo envelhece. a força que nos ergueu é agora aquela que nos empurra para dentro da terra – o desespero aumenta  com a convicção de que cada vez temos menos verdades absolutas – nada é igual a ontem – tenho o corpo cansado na procura de uma razão para o que sou – aprender até morrer. o ditado tem razão
 
mas há certezas que já não mudam nunca mais. o “tudo” da minha prosa poética é agora definitivamente um tudo para sempre. um tudo-incondicional
 
obrigado ana por trazeres um texto tão especial para mim
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https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4049502574085780201#editor/target=post;postID=5163891214402787406;onPublishedMenu=posts;onClosedMenu=posts;postNum=234;src=postname
 
publicado no blogue em - 22/12/10
 
 
 
 
tudo-incondicional
 
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passaram-se mais de três anos desde que escrevi a prosa poética “tudo”. é muito tempo numa vida que se consome cada vez mais rapidamente – tudo passa tão depressa.  quando damos conta. tudo o que temos é tempo gasto. algumas memórias e muita saudade de pessoas que fizeram parte da nossa vida e já partiram  – mas é assim para tudo e para todos – por muito que nos custe a idade traz a morte e dentro desta vai o conhecimento de um mundo sentido e vivido sempre na primeira pessoa – voltando ao texto. confesso que este meu tudo está ultrapassado.  já não sinto o que sentia. já não sou capaz de escrever o que escrevi –  o dilatar da idade traz um saber que a juventude desconhece – diz-se que o amor aos filhos é incondicional. um tudo para toda a vida. para sempre – é verdade. mas para quem gosta de escrever como eu ainda é mais difícil trasladar para escrita este incondicionalidade – sem palavras suficientes para o descrever. sem mãos capazes de o abraçar. sem lágrimas suficientes para ser chorado. um tudo que nos dói mesmo nas alegrias. sempre a crescer. o biberon. o primeiro passo. o primeiro dia da escola. a adolescência. a primeira namorada. e o homem feito de tudo que é nosso para sempre – não há tudo mais belo de que este. sei-o desde o dia em que me deram para os braços o meu primeiro filho. e a palavra pai é agora amada incondicionalmente. para o bem. para o mal. para a alegria. para a tristeza. para a saúde. para a doença. para a chegado do primeiro filho do meu filho – pai duas vezes. duas vezes tudo. duas vezes amor incondicional  – a minha companheira. a minha mãe dos meus filhos. a minha confidente. a minha amiga.  a minha amante. a minha força de vida. já não é tudo. não. o tudo é agora uma palavra só. sem sentido se não acrescentar a incondicionalidade – esse meu tudo passou a um tudo-incondicional – tudo na MJ é agora incondicional-tudo – os meus filhos e a minha companheira tem o meu amor incondicional – um tudo-incondicional. mesmo – até sentir os seus lábios quentes na minha carne gélida
 
 



31/03/2014

retalhos – número de série 23022014s(r)ego10




paola epifani
 




na verdade. há uma pergunta que sempre faço para mim: vives em paixão?
não sei a resposta. possivelmente nunca a irei saber
vivo sei que estou. ouço vozes. vejo olhos e o vento toca-me o cabelo em palavras miudinhas - é domingo e os braços descansam encostados às memórias - somos tantos em tantos dias. alguns sem nome. rostos que passaram por passar como os dias passam e nunca voltam
vivo em paixão?
não sei
beijo quem posso e em abraços parto em palavras que não sei dizer - sou
sou uma dúvida certa no fascínio de quem se descobre
vivo em paixão?
não sei

se um dia souber prometo escrever-me
 




intransitivo





olivier de sagazan
 




que raio de sábado. se pudesse construir de novo o corpo -  faz favor. é para mudar o óleo e as velas. a frio já não pega bem - ó amigo. já agora lave por dentro e por fora. principalmente por dentro. está um esterco - visto um jeans claros. camisa preta. desabotoada. a ver-se o coração e lá ia eu para mais uma jornada. limpinho de tudo - que raio de sábado. os olhos amarrotados de escuro procuram a palavra salvação - vai com deus meu filho. eu te abençoo - a salvação está na ponta de uma flecha. a cortar o tempo. enquanto diz: goodbye my friend. my love - e a pintura gasta. metalizada. a reluzir ao luar e o cano de escape a fumegar amor num areal onde as ondas morrem com saudade – já não há beijos sôfregos a prometer felicidade eterna - morre sábado. atira-te do meu penhasco. tenho tantos. todos altos. escolhe um e salta. voa como voam as gaivotas – livres




29/03/2014

a minha metrópole




tamara de lempicka
 



a minha cidade não é nova york. nem tóquio. nem londres. a minha cidade é do tamanho do meu país. pequenina e encravada entre montanhas pequeninas – para os metrossexuais das grandes cidades do mundo a minha cidade não passa de uma rua gigante –  raramente se vê no meu burgo um desses homens modernos lotados de autoestima – para este homem. belo. o bem-estar do corpo e da mente são fundamentais para alcançar uma vida saudável e mais longa – cremes. perfumes. depilações. barba bem-feita. cabelo tratado e finalmente a excelência da roupa assente num corpo também ele forçado à elegância – o ginásio é a sua segunda casa e os alteres erguidos em dificuldade exibem o peso da vaidade – para trás ficou definitivamente a ideia dos nossos pais de que homem que é homem cheira a cavalo –  finalmente um homem rivaliza com as mulheres na estética. nos cabelos. na maquiagem. na pele. nos perfumes. na saúde e bem estar – há um novo universo macho  – este novo modelo de homem das cidades modernas parte à conquista do mundo. sem medo e sem vergonha das transformações – leva com ele uma nova mensagem masculina: criatura moderna. cavalheiro. delicado. simpático. exigente. urbano e consciente de que o seu lado feminino é agora uma conquista definitiva do homem contemporâneo – sempre preocupado com a projeção da imagem parte para o galanteio das miúdas seguríssimo da sua sexualidade – se nascesse hoje seria muito mais do que metro. mas como nasci há muito tempo sou apenas uns centímetros – bem medidos como diria a minha mãe quando na mercearia pedia: dois quilos de maçãs bem medidos

 




retalhos – número de série 04022014s(r)ego09




goya



 
toda a noite de um lado para outro e o sono sempre dois passos á frente - já não há quarto escuro que me guarde os olhos - serial killers movies


22/02/2014

retalhos – número de série 27012014s(r)ego08





david altmejd



 
estou dividido em partes que não são iguais - de um lado o bom tempo. do outro. a bonança - a tempestade não tem lado e é sempre passageira



21/02/2014

para uma amiga com aftas na língua




konstantin kosmur
 
 



com que então a menina anda metida nas aftas. a vida da treta é dolorosa para quem como nós gosta de dar à língua a qualquer custo – escutamos então o mundo em silêncio – mas não te apoquentes. isso passa rápido e logo ficas novamente tagarela – quando era pequeno dizia que tinha “africas” na boca. talvez venha daí o meu primeiro abeiramento ao continente africano – adoro áfrica e o seu povo. o “selvagem”. o “virgem”. o “puro”. o das savanas. das florestas. dos rios com pirogas cortados a lanças plagiando anzóis – gosto das suas mulheres de seios nus. sentadas num almofariz de pedra gigante. catam cabeças da criançada parada num tempo sem números – nesta terra o dia acaba coma as árvores a engolir o céu como se fossem feijoeiros mágicos  devorando um sol que nunca viu o mar. e os peixes vestem-se de rugidos ferozes. aterrorizando o escuro. e o silêncio quebrado pela fogueira a dançar rezas de um feiticeiro amamentado pelo leite de hiena – hoje. quero acreditar num deus que fez o mundo em setes dias. só hoje – estou a falar de homens bons. sem pecado. estou a falar de áfrica.  do cheiro à terra queimada. da noite às cinco da tarde. do calor a deslizar pelo corpo em gotas pegajosa onde os mosquitos se amarram como se fossem aquelas fitas do antigamente que se penduravam nas portas das casas. dos leões. das gazelas. rinocerontes e toda a bicharada amiga do tarzan e da jane    gosto de áfrica. dos homens que usam uma tanga para tapar o que ninguém quer ver. gosto das velhas com as mamas a cair no umbigo e a rirem da cara de parvo do caixeiro viajante que lhes quer vender um soutien – lá estou eu a divagar. queria apenas dizer-vos que uma amiga tinha “africas” na língua – mas afinal o que são umas quantas “áfricas” na ponta da língua. nada. uma mesquinhez. umas minúsculas borbulhas excitadas com algum condimento mais apurado. afrodisíaco na construção excessiva de ditongos orais numa necessidade quase  orgásmica para poder atingir o prazer supremo da comunicação – não basta falar com os olhos. não. não basta. e mesmo que as mãos pulem dos bolsos e se amarrem em abraços aos corpos que nos pedem socorro por um beijo que lhe diga: gostamo-nos – nenhum beijo substitui a palavra atirada de uma língua mesmo com aftas – sou louco. dizem – grave mesmo é se nos aparece um leão entre os dentes a correr atrás de uma gazela. e uns quantos canibais de ossos enrolados no cabelo. em gritos de fome a dizer: os restos da carne do almoço nos dentes é nossa – lá estou eu novamente a vaguear. a fantasiar tipo peter pan – por falar nisso. hoje comi peixe ao almoço será possível ter um canibal sentado no dente do siso de cana de pesca a lançar o anzol para a boca do estômago á procura de uma qualquer lombriga pré-histórica – não sei. talvez o remédio para estes meus devaneios cerebrais seja mesmo entregar-me a uma casa de saúde mental para finalmente descansar nas paredes brancas. curar-me penso eu – quartos brancos. janelas brancas protegidas por grades verdes esperança. paredes brancas. aparadeira branca. escondida numa mesinha de cabeceira também branca.  chinelos brancos. pijama branco com o bolso bordado a letras douradas: casa de saúde dos aflitos. fundada em 1790 e inaugurada por sua excelência marquês do pombal. columbófilo. dono de vários pombais e outras excentricidades com aves de rapina – tudo branco. e um homem preso a um colete de forças negro feito por escravos embarcados na nau catrineta – e lá vem a nau catrineta anónima a navegar nas paredes do meu hospício. em ângulos de noventa graus. como se o mundo ainda tivesse um bom fim num dos cantos da minha imaginação – mas não. para a cada ângulo de visão uma recta com fim noutro ângulo – vejo tudo em ângulos que não sei dar nome. são ângulos meus. onde nas dobras faço acontecer sonhos estúpidos em histórias de coragem duvidosa. protegidas por roupagem branca lavada com omo – com omo toda a roupa e imaginação fica mais branca do que o branco – dentro destas casas brancas nenhum homem é culpado de nada. somos mesmo brancos dentro de olhos pretos – não sei onde estou. perdi-me. sei que estou a escrever uma missiva resposta a umas quantas “africas” no ponta da língua – quem me dera ter na ponta da língua agora umas respostas para todas as dúvidas brancas com que me embrulharam à nascença – talvez seja doença. talvez os diabetes em formação de ataque. excesso de doce. e as espadas empunhadas em gritos aflitos avisam o cérebro que está para breve o fim da lucidez e finalmente o triunfo do eterno sobre a  vida terrena – no céu os anjos são brancos. tão brancos que até se confundem com as nuvens e todos os homens são transparentes. e os poemas a rimar com palavras que nunca foram usadas por poetas de olhos encovados de dor na procura das palavras certas. é preciso sobreviver para além do cabo da boa esperança. o fim do mundo – e as andorinhas brancas fazem ninhos de algodão nas mãos dos que querem escrever e não sabem. talvez um dia nasça uma capaz de voar para lá do que os homens sabem – não quero mais ter a cabeça no inferno. quero ir para o céu. para as nuvens que não vejo desde aquele dia em que me empurraram para o mundo cerebral – não quero cérebro. um homem sem cérebro não tem maldade e quando não há maldade não há lombrigas e sem lombrigas não há canibais a pescar e sem canibais não há leões. nem gazelas e muito menos carne no meio dos dentes e sem dentes não há mordeduras e as marcas não são nódoas. são beijos loucos  nascidos para amar – eu gosto de amar. amo tudo. até o candeeiro da minha rua que fundiu por viver ao abandono de gente como eu – um dia pego num escadote e mudo-lhe a lâmpada. e depois talvez me enforque num filamento iluminado de esperança – e agora vou fazer o jantar. cabrito assado no forno com batata a murro. não gosto de cabrito. mas apetece-me dar uns murros – o mundo é cego e eu vivo dentro dele

 - // -
 

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro





03/02/2014

retalhos – número de série 20012014s(r)ego07




debora arango
 
 
se pudesse calar este silêncio da noite talvez me pudesse ver à lupa do sherlock holmes - quem sabe descobria-me sentado na cauda da ursa maior