o meu
pai era do benfica. um bom benfiquista por sinal. logo. um bom chefe de família
– como muitos milhões de benfiquistas.
tenho a certeza. de que também ele se tornou simpatizante do glorioso por conta
das vitórias extraordinárias na década de sessenta – habituei-me em casa a
ouvir relatos minuciosos sobre o prestígio do benfica no mundo. e da sua figura
mais emblemática. eusébio da silva ferreira – fruto desse amor do meu pai pelo
glorioso e do meu amor pelo meu pai. também eu me tornei benfiquista – não um
benfiquista do norte ferrenho. fanático. doente. apenas mais um benfiquista. despretensioso.
que gosta de ver vencer o seu clube com seriedade – para mim as vitórias não tem
que acontecer a qualquer preço e os meios usados para as alcançar tem
obrigatoriamente que advir pelo mérito desportivo dos seus atletas dentro do
campo – ganhar. nos meus ensinamentos de vida. só é importante quando o talento
esta associado à honestidade – recuso-me a ver o futebol a uma só cor. a uma região ou a um bilhete de identidade – nasci
em braga mas sou de outro emblema que não o da cidade que me viu nascer – sou
do benfica que por sinal é de lisboa – há quem vista a camisola do sporting. da
académica. do belenenses. outros ainda de clubes mais distantes. do real
madrid. do milan. do liverpool. de todas as partes do mundo. não encontro
nenhum razão de ética ou moral para não se ser do clube que o coração determina.
por mais distante que morem as raízes dessa coletividade – enquanto a moral se fundamenta
na submissão aos costumes e hábitos praticados num determinado local. a ética.
opostamente. procura assentar as ações morais unicamente pela razão – as
questões éticas raramente são simples. mas a questão principal é salvaguardar a
nossa integridade pessoal. fazendo respeitar as nossa opções de escolha sem
nunca deixar de respeitar quem pensa de forma diferente – e assim sou benfica
dos pés à cabeça – o mais espantoso é que cada um tem a sua razão-história para
gostar do clube A ou B e nenhuma dessas razões-história é mais ou menos válida
do que uma outra qualquer – no meu caso. gosto do benfica porque o meu pai
gostava e porque o meu coração me obrigou – acreditem que não encontro razão
mais bonita para se ser do benfica. obrigado meu pai – mas para lá dos clubes. no
que me diz respeito. gosto do meu país como um todo. sem divisões. sem
fronteiras regionais. sem bairrismos doentios. sem pontos cardeais. sem
chauvinismo. sem montanhas. rios. florestas. searas. falésias ou outra qualquer
forma impeditiva de nos podermos ver. tocar e olhar olhos nos olhos – somos
todos iguais. todos queremos que os nossos clubes vençam – neste mundo
desportivo. onde a paixão clubística faz muitas vezes o homem perder a razão e
o bom senso. esquecendo-se que o desporto [profissional também] tem como
primeira função aproximar as pessoas. os povos. as cidades. mas principalmente.
fazer com que as desigualdades pareçam menos desiguais – o desporto é a maior
força pacífica de agregação do ser humano. atenua as diferenças e torna-as
menos díspares num mundo cada vez mais global e egoísta – fundamental para a
criança. para o seu desenvolvimento. o desporto ajuda a harmonizar o seu
comportamento. incitando a sua capacidade de concentração. desportivismo.
companheirismo. amizade. autoconfiança. espírito de equipa e solidariedade. sendo
estas vermelhas. pretas. mestiças. amarelas e outras que não tendo cor correm
atrás de quem lhes diz que muitas cores juntas fazem um arco-íris – sinto-me um
pouco de todo este meu país. colorido. e em todos os cantos me sinto em casa –
não divido o meu país em cores de camisolas dos que dão chutos a bolas e muito
menos pelo léria ultrapassada de uns quantos senhores grosseiros que por nada
saberem das coisas do coração magoam os que sonham um dia poder ver a sua cor
ganhar – sou do benfica porque sou do meu pai – como diz o ditado. filho és.
pai serás – os antigos sempre sabiam o que diziam. vejamos como tinham razão –
tenho três filhos todos eles benfiquistas. confesso que talvez fruto da sua juventude.
às vezes são um pouco aguerridos a mais para meu gosto. mas mesmo assim bons
rapazes. tal como o meu pai não gostam de festejar as vitórias humilhando os
vencidos – sempre que alguém ganha há outro que perde. para uns estarem felizes
outros estão tristes. é assim o desporto de alta competição ou mesmo uma
peladinha entre amigos. infelizmente não podem ganhar todos – depressa
entenderam que é mais difícil saber ganhar do que saber perder – mas toda esta
conversa. esta minha crónica. para dizer o seguinte: há por aqui [facebook]
muita “boa” gente. minha “conhecida” do mundo virtual e não virtual. que
constantemente coloca imagens e comentários depreciativos em relação ao meu
benfica – ora muito bem. eu até posso compreender que uns quantos parvalhões.
de um qualquer dos clubes. sejam eles do norte ou sul. coloquem aqui um chorrilho
de disparates de mau gosto – parvalhão não tem lugar certo para morar. assim
sendo. não posso fazer nada contra esta praga de imbecis. mas mesmo que pudesse
teria as minhas dúvidas em fazê-lo – no meu entender. enquanto andam ocupados
no facebook não fazem dispartes na vida real. como: lançar very-lights. assaltar
estações de serviço. vandalizar viaturas ou atacar à pedrada viaturas nas autoestradas.
entre muitas outras parvoíces que a juventude não desculpa – o facebook é bom
para este tipo de gente. permite-lhes largar as frustrações pessoais. traumas de
infância. raiva. ódio e linguagem violenta num espaço onde para além dos danos
da alma mais nenhuma mal acontece – o que não quer dizer que uma palavra não
seja capaz de ferir mais que um estalo. pode. mas nada posso fazer a não ser
evitar o segundo estalo. já diz o ditado: à primeira qualquer um cai. à segunda
só cai quem quer – mas também não é grave. já percebi que esta gentinha não tem
o relógio a bater certo. diria que o desenvolvimento do cérebro é inversamente
proporcional ao crescimento do corpo. alfinetes de alinhavar costuras – esta
malta não sabe usar o facebook para criar-manter amizades. não sabe. não tem
condições de saber. e quero acreditar que mesmo que tivessem a oportunidade de
aprender continuariam a não querer – estes anormais precisam do facebook para libertar
a raiva e ódio acumulados ao longo da vida
inútil que fabricaram – já os
outros. que amavelmente se dizem meus amigos. parceiros diários de um espaço
pessoal e “íntimo”. para esses a minha tolerância é agora zero – não voltarei a
permitir que continuem a invadir diariamente o meu lugar de reflexão. diálogo e
partilha de “amigos” que por um qualquer motivo. nobre quero acreditar.
aceitaram coabitar o mesmo espaço cibernético publicando diariamente mensagens obscenas
contra o meu clube de coração – quase que arriscaria a dizer que para esta
gentinha nada mais existe no mundo para fazer do que magoar quem não é do seu
clube – criaturas! há tanto para falar – meu deus. quanto vale um médico que
acaba de salvar uma vida com a arte que aprendeu com tanto esforço e dedicação.
treinando todos os dias afincadamente. dia e noite. procurando a cada dia ser
um melhor do que ontem. e deste modo evitar sobre o risco da vida o triunfo da
morte – quanto vale uma auxiliar de idosos que todos os dias tem que virar o
corpo de acamados para não deixar as escaras ganharem à vida o luto de gente
que não se cansa de lutar por mais um dia de vida. correndo para trás e para a
frente. sem descanso. atacando a solidão de quem já quase tudo perdeu e defendendo
com unhas e dentes o que resto daquelas almas santas e doridas – quanto vale um
professor do primeiro ciclo. que como um treinador de futebol. ano após ano vai
aceitando as crianças como se fossem suas. de todas as cores e credos. altas ou
baixas. bonitas ou feias. ricas ou pobres. e lhes ensina todas as letras de um
mundo de bem para que um dia possam escrever a sua história como adultos
felizes – está a chegar a hora de dizer basta a este tipo de personalidade que
todos os dias invade o meu talento de tolerância para ter o ignóbil prazer de
magoar e humilhar quem não é da sua cor – apesar de ser complemente contra a
censura. não me resta outra solução a não ser o seu bloqueio na minha lista de
amigos. não posso continuar a permitir que os meus filhos me interroguem que
tipo de amigos partilham a minha intimidade – eles não compreendem. e eu também
não – como foi possível deixar esta gente entrar nas nossas vidas? não sei – eu
moro a sul da galiza e a norte do algarve – da minha janela vejo o mundo
redondo. azul. com mar. sol. sal e gaivotas – engraçado. vejo um mar azul e não
um mar vermelho – será assim tão difícil perceber que a amizade só se constrói
com respeito e tolerância – para mim em primeiro lugar estão as pessoas e só
depois o clube do coração – viva o glorioso. viva o benfica – o campeão voltou
e amanhã há mais uma taça para ganhar
17/05/2014
13/05/2014
nicolau maquiavel
nicolau maquiavel
"Porque a todos é concedido ver, mas a poucos é dado perceber. Todos veem o que tu aparentas ser, poucos percebem aquilo que tu és"
12/05/2014
deambulações nocturnas I
adelina aida carrion
medo
se as mãos não tremessem. talvez o medo nunca soubesse que
eu existo – quem sabe. as palavras nasceriam mais íntegras aos olhos - dos que
leem!
papel laminado
o papel guarda a intenção. as mãos. guardam eternamente o
homem
escriba
translúcido
escriba que faz uma cova faz um cemitério
10/05/2014
ao mar tornará
edvard-munch-melancolia
gosto de ver
o mar. gosto de me sentar de frente para o mar. às vezes também de lado –
quando estou de lado devoto um olho ao mar e outro à terra e interrogo-me como
seria a terra sem mar – seria uma terra sem peixes. sem estrelas-do-mar. sem
búzios. sem barcos. sem iodo e sem sal – de seguida pergunto-me o que seria do
mar sem terra – seria um mar sem marés. sem dunas. sem gramíneas. sem varinas.
sem gaivotas e sem crianças a fazer castelinhos de areia – não consigo imaginar
o que seria de um sem o outro – onde esfriava o sol ao fim do dia sem mar? como
nascia o sol aos pulinhos se não houvesse montanhas? há sol porque há mar e
terra e eu só existo porque a terra me aceita nesta posição de queixo nos
joelhos. com braços apertados ao coração a olhar o mar num silêncio feito de um
vai e vem de água que também é memória – ali fico. incrivelmente estático. a
olhar o movimento da maré. e tudo que é mundo vem para cá e logo de seguida o
mundo todo parte para lá. e as gaivotas voam por cima dos meus sonhos num ir e
vir igual ao mundo – como gosto de gaivotas. não me canso de as ver. fico
sempre com a ideia que são elas que guardam o mar. sempre tão elegantes. tão livres.
tão cheias de vento. tão donas de si. gostava de ser assim – nunca lhes vi uma
ponta de medo nos olhos. mesmo quando o vento norte está furioso – no corpo um
silêncio total. e tudo que é sonho a lutar com braços que já não chegam para
tapar os olhos – desaparecem aos poucos os sonhos e tudo é igual à última agonia
dos afogados. tudo na cabeça. tudo tão real. tão certo. tão fácil de alcançar.
e afinal ali vão eles. para lá. enrolados em espuma e sargaço morto. e tudo que
era certo cada vez mais para lá da rebentação. mais longe. e os olhos a deixar
cair o silêncio à areia. talvez vergonha. talvez cansaço. talvez o corpo seja mais
humano do que eu imaginava e o que era confiança é incerteza. talvez tenha
chegado a hora certa para desistir e partir – não tenho medo da morte. nunca
tive – a certeza do meu mundo foi minha no passado – amargura com sal – aqui
estou a ver o fim de um horizonte que não vou alcançar. a dor a dizer que estou
vivo. arranho-me. rasgo-me. atiro contra o corpo o que tenho para sobreviver e
tudo por dentro a queimar e os gritos abafados não saem para não estragar o silêncio
do mar a trazer para terra tudo que não presta – ali estou eu em pedaços que
não sei contar. nem juntar. nem entender. espalhado pelo areal a servir de
alimento a caranguejos que se alimentam de sonhos mortos – o que o mar leva vivo traz morto – nenhum sonho sobrevive
a tanto mar – o mais certo é já estarem afogados ou talvez quem sabe estão amarrados
a uma apara de madeira a resistir às tempestades feitas a norte – é preciso
evitar a morte de quem sonha – o que seria do mundo sem sonhadores? não sei.
não sei mesmo. e também não sei imaginar – bem gostava de saber algumas coisas
que me fazem falta para poder continuar a sonhar. mas não sei. cada vez sei
menos – quem sabe foram engolidos por uma orca assassina ou levados para o
fundo do mar por um polvo gigante. que de tão enorme e pesado. só consegue vir à
superfície uma vez em vida – se assim é escuso de ter esperança. já estive à
superfície uma vez. era criança e o meu pai segurava-me pelo queixo enquanto me
dizia para mexer as mãos e os pés em ritmo acertado com a respiração. mas eu
teimava em fazer à minha maneira – não adiantou. quando me tirou a mão não me aguentei. afundei – nunca fui capaz de ficar
de barriga para o ar em cima da água. boiar. fingir que era barco à vela. a
bolinar a vento bom. sentir o céu a correr atrás das nuvens e o grito do marujo-vigia
a sair com raiva dos pulmões: terra à vista. terra à vista – mas não. nunca
avistei as terras quentes do sul. nunca me aguentei muito tempo a boiar. a água
tapou-me os olhos e logo de seguida a boca. talvez não quisesse que eu visse a
sorte. e falasse muito menos. sempre tive o coração ao pé da boca – raio de
feitio. nunca abdiquei de dizer o que pensava mesmo quando o silêncio é bom
senso – e eu ali sentado no areal. encutinhado. enroscado em mim. a parecer
mais pequeno do que sou. e os olhos parados naquela imensidão de água – ali
estou. só. sentado. sentido e delimitado por um pedaço de terra ora seco. ora
molhado – esta coisa das marés fascina-me – faz silêncio em tudo que é lado. na
terra e no mar. dentro de mim também. tudo é feito de silêncio. o coração bate
em silêncio. o sangue corre em silêncio. os ouvidos ouvem em silêncio. os
cabelos ondulam em silêncio. até a brisa norte corre para sul num silêncio de arrepiar
o corpo – o movimento do meu mar faz um silêncio que me abraça com força – ali
fico eu a olhar o que me resta do mundo – o que no mar nasce ao mar tornará. lágrima
09/05/2014
florbela espanca
“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo
demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo
compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com
uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde
está, que tem saudades... sei lá de quê!”
08/05/2014
correspondência violada - 01
imagem google
e agora.
como resolvo
estar vivo se é na morte das palavras que nós encontramos as mãos com que
escrevemos
como faço
para estar vivo se é com a tristeza da perda que as minhas gaivotas voam
diz-me
diz-me
se morrer é
esta coisa de dizer coisas sem sentido
se morrer é
abraçar as tuas palavras como se fossem tiradas de dentro de mim
se morrer é
gritar pelas cores que enxergo no que escreves
e eu cada
vez mais negro
-
encosto-me
encosto-me
numa marquesa que já foi rainha
e escrevo
nunca fui
nada
penso.
quero pensar
nesta garganta que já não faz barulho
e o vazio é
enorme
vai daqui
até dentro do meu dedo indicador
-
onde está a
aguardente
quero
queimar a voz
as palavras
tem que nascer roucas
como o
coração
rouco de
gritar por socorro
e eu só
morto sem
saber
só tu aí me
ouves
correio privado com a minha querida amiga vânia - abril de 2012
04/05/2014
ilusão
ron mueck
as grandes metragens
cinematográficas quase sempre terminam com o artista a resgatar a amada do
tirano malfeitor – é o triunfo do bem sobre o mal – um abraço. um beijo nos
lábios forte. e os corpos fundidos num só para sempre – a plateia em pé cauciona
com palmas a felicidade eterna: muitos filhos e só a morte os separará – the
end – o mundo da ilusão acabou – o momento é real. os corpos tomam a
verticalidade. o conhecimento apruma-se. olha em frente e parte para o mundo inteligível
– guardam-se apressadamente os lenços encharcados de sentimento. a condição
representa a verdade da ocasião. mas as ideias querem-se enxutas – caminha-se –
há de novo razão dentro dos corpos. a felicidade não é eterna e a realidade é sempre
traçada a partir de microssegundos. alguns
fatais – entrar no filme certo da vida requer habilidade. conhecimento.
inteligência. e porque não uma pitada de sorte – sempre ouvi dizer que a sorte
dá trabalho para caraças. a ventura não nasce para todos. não – é fundamental
ter ao nosso lado os atores certos para um filme único. sem ensaios. sem cortes.
sem homem ponto. sem holofotes. sem pancadas de molière. sem merda. nada do que
é feito tem volta atrás – uma arte complicada. ajustável a uma única fórmula
matemática de resultado quase sempre incerto e com uma variável aplicada à
velocidade com que nos adaptamos ao imprevisto – o
homem das cavernas evoluiu. adaptou-se. e agora o fogo é instantâneo: a fricção
das pedras substituída pela lixa e o fósforo – atrito. faísca. e a explosão
acontece. o calor-luz aparece para dar racionalidade aos corpos. nas paredes as
sombras são agora a verdade projetada em dobro para o bem ou para o mal – é indiferente
para este mundo aligeirado saber que a verdade permanece em todos os
espermatozoides – ninguém quer saber quem é o dono do bem se é o mal que traz a
esperança – o homem da vida real esqueceu que só a partilha justa produz harmonia
– andamos todos enganados.
2.
não esqueças de te portar bem.
não mintas. não faças asneiras. não contraries os teus pais. respeita os mais
velhos. reza sempre ao deitar e vai à igreja receber o senhor para ficares
protegido dos demónios e das más tentações
– as recomendações para a
felicidade plena continuam
faz os deveres da escola para um
dia seres um homem importante. para seres alguém na vida. não queiras ser como
o teu pai. mata-se a trabalhar e nunca tem nada. põe os olhos miguelinho. agora
que é doutor já não lhe faltam companhias – o futuro está nas tuas mãos. faz-te
um senhor para não teres que andar a contar os tostões – receita para uma felicidade
eterna tal e qual como no cinema: um artista doutor. fama. espectadores-clientes
e a vida a sorrir – caminha-se – a esta gente ninguém lhes disse que a vida
também pode ser um filme onde as nossas verdades se apagam com o acender das
luzes – embuste. esperança armadilhada para os pais e para os filhos – pai uma
vez. pai para sempre – mataram a fome com a livros cheios de saber comprados
com trabalho de sol a sol. e nas mãos a
aspereza do sofrer em alegria. nos olhos a vaidade de verem os filhos crescer
com sapatos que nunca tiveram. na boca a felicidade feita de carne da minha
carne
“Só há felicidade se não
exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer.
a hora mágica chega sempre." [hermann hesse]
havia fé até nos nobéis da
literatura – a hora mágica vai chegar – a idade vai passando com alegria nos
corpos doridos de tudo. fé – talvez haja outro mundo melhor para quem sofre por
amor – os filhos são sempre tão imensos para um mundo tão apertado – o tempo
passa – finalmente vão poder descansar. sentarem-se numa sala de cinema. e em
paz. saborearem com prazer um filme da sua juventude. uma daquelas velhas películas
do western americano. onde mais uma vez o bem derrota o mal num duelo marcado
para o pôr do sol – frente a frente. desta vez. o artista apesar de ferido vence
a ganância. saca da pistola com balas feitas de sacrifício. num gesto rápido. o
mais rápido de sempre em filmes de cowboys. crava uma bala-estaca de tudo que
há de bem no corpo do capitalismo selvagem – o mundo dos que amam
incondicionalmente ganhou mais uma vez no grande ecrã – finalmente justiça
3.
na parede uma luz delicada indica
em forma de seta a saída: exit – a geometria perfeita do espaço perde a estética
– plateia vazia. primeiro balcão vazio. segundo balcão vazio. frisas vazias.
tela vazia e o que era gáudio é agora um aglomerado de cadeiras perdidas num
vazio cheio de nada – de cadeira para cadeira difere apenas um número e uma letra
de um abecedário que nunca servirá para dizer o que quer que seja – o impar e o
par trespassados por uma passadeira vermelha. cor de sangue sujo. puída por um
vir imaginário-esperança e um ir de nostalgia-desgraça – há agora um silêncio
que não sei escrever. talvez um silêncio-espera. como se a gravidade terminasse
e o barulho ficasse parado no ar. numa cena de amor. talvez num beijo do clark
gable na marilyn monroe. ou então. quem sabe. o aparecimento inesperado do
homem aranha pendurado nas teias da vida – tudo é uma teia. a vida é uma teia –
isso é que era. um herói de carne e osso. a falar a mesma linguagem dos
mortais. com as mesmas mágoas. com os mesmos malabarismos de equilíbrio. deixa
cair das mãos fios de seda pura que não servem para nada – encantamento.
ilusão. magia – há quanto tempo não temos um herói. viriato o mais antigo. d.
joão II nos descobrimentos. camões por ter perdido um olho para um povo que já
quase não existe. e o tempo a passar sem nada. só reis. e um dia uma república
que nunca trouxe fraternidade. igualdade e liberdade. não trouxe nada. o herói
da modernidade é o túmulo do soldado desconhecido. somos todos nós – há um
silêncio-espera que parece não ter fim
[nem sei bem se este silêncio-espera
pode ser escrito – talvez esteja a ficar irracional – espero que me
compreendam]
4.
novas aparições de humanos só na
próxima sessão – tudo que é vida vai nos corredores – os corpos movem-se num caminhar pós-morte. buscam a luz
para apagar dos olhos o testemunho da consciência afetiva – resistem os fracos.
poucos e com escassas provas da sua humanidade: nariz fungoso. olhos inchados e
a face tomada por feições amenas de mortalidade – todas estas provas num tribunal
não serviriam de nada. qualquer juiz medíocre diria que se tratava apenas de uma
constipação ou em último caso. uma alergia ao pó fabricado por multidões a
correr apressadamente para a indiferença: exit – a consciência afetiva não
sobrevive com a chegada dos corpos à rua – finalmente todos na vida real – só a
morte é igual para todos
como escreve lobo antunes: arte é
longa. a vida breve – tal como a vida também
o belo do cinema não é eterno
01/05/2014
vladimir vladimirovich nabokov
vladimir vladimirovich nabokov
citou Vladimir nabokov: “Penso como um génio, escrevo como
um vulgar homem de letras e falo como um idiota”.
cita sampaio rego:
“penso quando posso. escrevo o que posso e falo como um idiota mesmo
quando não devo”
quem diria que tinha tanto em comum com o camarada vladimir
moral da história: és o que és – por muito que tentes ser
outro acabas sempre em ti
- biografia retirada da wikipédia –
Vladimir Vladimirovich Nabokov
(em russo: Влади́мир Влади́мирович Набо́ков; São Petersburgo, 22 de abril de
1899 — Montreux, Suíça, 2 de julho de 1977) foi um escritor russo-americano.
Nabokov escreveu seus primeiros nove romances em russo e então chegou à fama
internacional como um mestre estilista de prosa em inglês. Também fez
contribuições para a entomologia e tinha interesse em problemas de xadrez .
Lolita (1955) é frequentemente
citado entre seus romances mais importantes e é o mais conhecido, apresentando
o amor por intrincado jogo de palavras e o detalhe descritivo que caracteriza
todas as suas obras. O romance foi classificado na quarta posição na lista dos
100 melhores romances da Modern Library. Sua autobiografia intitulada Speak,
Memory foi listada na oitava posição na lista dos livros de não-ficção da
Library Modern.3
Nascido numa família da antiga
aristocracia, em 1919, a instabilidade produzida pela revolução bolchevique
(1917) obrigou-o a abandonar a União Soviética. Estudou em Cambridge e
licenciou-se em literatura russa e francesa. Mudou-se para Berlim, onde iniciou
sua produção literária e intenso trabalho como tradutor.
Em 1926, foi publicado seu
primeiro romance, Maria, acolhido com interesse e consideração. Fugindo dos
exércitos nazistas e após uma estada em Paris, chegou em 1940 aos Estados
Unidos, onde se dedicou ao ensino de língua e literatura russa em várias
universidades. Embora continuasse a escrever na sua língua materna, começou
também a escrever em inglês, publicando o seu primeiro romance nesta língua em
1941 (The Real Life of Sebastian Knight). Publicou, em 1955, o polêmico romance
Lolita em inglês.
A partir de 1958, o sucesso
alcançado por seus livros permitiu-lhe dedicar-se inteiramente aos seus
principais interesses, a literatura e a entomologia.
29/04/2014
dor elegante
paulo leminski
Dor elegante
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
PAULO LEMINSKI
retalhos – número de série 29042014s(r)ego13
sam jinks e ron mueck
partir - quanta dor cabe dentro de um corpo. quantas noites
escuras consumiu. quantos amigos perdeu de amar. quanto silêncio calou a alma.
quanto luto trajou de preto - partir também pode ser um ato de coragem – paz
26/04/2014
nada
alyssa monks
escrevo. escrevo medo. escrevo pavor. escrevo nesta
carpintaria afligida de textos imperfeitos – nunca escrevo tudo – terror. tenho
sempre tanto horror das palavras. sempre tão cruas. cruéis. aqui mesmo à mão e
eu sem ferramentas para as usar – o corpo treme. não percebo a razão. afinal as
palavras são de todos aqueles que gostam de as escrever. principalmente dos que
precisam delas para falar. como eu – quero-as unicamente para falar. não as
quero punhal. não as quero arremessar. não as quero para condenar. nem para
absolver. nem para as oferecer. quero-as para falar de mim – estou refém das
palavras como as gaivotas do mar – é tão penosa esta procura das palavras. e o
corpo sem posição. e a cadeira a tomar formas que não me deixam sentado. falta
de ar. pânico. e o coração a sofrer por não compreender o que fazer nesta
carpintaria – sou um idiota. as palavras idiotizam quem não sabe escrever. mas
continuo a acreditar que um dia aprenderei a escrever uma palavra esdrúxula. grave
ou simples. juntá-las a feitio dos olhos. e palavra a palavra refazer um nome
num corpo. com olhos castanhos de um aceso alegre. e as maçãs do rosto coradas
de vergonha atraiçoam a timidez com um finíssimo silêncio de uma mão trémula a
desenhar o fim de uma idiotice – quero acreditar que sei falar a escrever –
sonho – de volta à realidade. descanso as mãos idiotas. se as mãos estiverem
caladas deixarei de ser idiota – não posso mais – há tanta gente por aí a
escrever idiotices e não deixam de escrever – talvez saiba escrever. talvez.
nem que seja para uma única pessoa me ouvir – talvez tudo não passe de uma
farpa. uma palavra espetada de esguelha no dedo indicador da mão que teima em escrever
– se for assim é fácil. com uma palavra agulha rasgo a pele e retiro a farpa.
para sempre – as farpas. escritas por eça de queirós e ramalho ortigão. foram uma caricatura da
sociedade da época. talvez esta farpa também represente o que de pior há em mim
– talvez saiba escrever. talvez. nem que seja para duas pessoas – o problema é
dizer o que sou nas palavras. não é fácil dizer-se o que se é em palavras. as
mãos tremem-me penduradas num corpo que também treme – talvez não seja
idiotice. nem demência. talvez seja parkinson. mas o coração também treme.
talvez um ataque cardíaco. talvez uma fobia. uma overdose de palavras difíceis.
talvez esteja num sonho. e a cadeira é afinal uma pedra lascada e o computador
imaginação de um catraio do passado a desenhar letras em cadernos de duas
linhas – talvez não saiba mesmo escrever. e a loucura seja mesmo essa: escrever
– talvez afinal não seja idiota. talvez o corpo esteja infectado por um fungo-bolor
onde a realidade é atacada e manipulada por bolores alucinogénios – ganzo-me a
escrever. quem diria. as palavras são uma droga poderosíssima – um deste dias
sou preso por consumo e tráfego de substâncias perigosas e proibidas – antigamente a policia andava sempre a
procura de quem escrevia. e havia gente especializada na leitura destes textos.
punham carimbos enormes a dizer: censurado – um dia destes sou preso. censurado
não creio. se soubesse escrever talvez me prendessem por um dia – talvez saiba
escrever. talvez. nem que seja para três pessoas – tenho a sensação de que
estou fechado num elevador parado entre o céu e o inferno e a porta teima em
não abrir. carrego num botão. e noutro. e outro. e em todos ao mesmo tempo e
nada. tudo parado. paralisado. e um murro na porta igual ao que dou aos
dicionários e nada. nada se abre aos meus olhos. da porta para lá nada. como as
palavras. da cabeça para lá nada – nada. e o elevador parado. e as palavras paradas.
e eu a bater com a mãos nas teclas a fingir que escrevo o que sou – não sei fazer palavras – mas eu sei que
existem. sei. sei. e sei. ouvi-as na
boca de gente diferente – dinis. eça. antunes. andrade. breyner. garret.
espanca. pessoa. camões. branco. saramago. estes nomes não me são estranhos.
esta gente sabia o que fazer às palavras. existiram. tenho a certeza. vi livros
com estes nomes impressos – existem. não sou idiota – mas eu também existo.
tenho a certeza. não pode ser loucura. talvez as palavras sejam loucas e não
digam o que me vai dentro do corpo. mas só as palavras. porque tudo o que está
à minha volta existe. e do lado da porta deste elevador parado entre o céu e o
inferno há gente. também com nomes. sei – todos temos nomes. mas confesso que
não sei o nome dos meus vizinhos. nunca me escreveram. dizem boa tarde. bom
dia. está sol. está mau tempo. tem que se agasalhar. cuidado com o frio. ainda
ontem entrou no reino de deus o vizinho do cinquenta e três. o que vivia no
terceiro frente. uma pontada de ar e lá foi. que deus o tenha a seu lado – de
seguida silêncio. também não tenho nome. talvez porque nunca lhes escrevi –
tudo se resume à palavra escrita – as pessoas existem mesmo sem saber escrever.
isso eu sei. se não como seria possível eu estar aqui a fingir que sei escrever.
se finjo logo existo – a minha vizinha do quarto andar tem um cão branco também
existe. o meu vizinho do sexto com o
bigode também existe. e o GNR reformado que vive ao lado da vizinha portista
também existe. e o cão do primeiro andar frente também existe – as palavras são
cada vez mais complicadas para alguém como eu: hipopotomonstrosesquipedaliofobia.
medo. doente de medo. sem cura. raio de palavra enorme para dizer tão pouco.
medo – dizem os entendidos que a terapia recomendada para aliviar o corpo deste
mal é escrever mesmo que não se saiba muito bem o que se escreve. como quem
diz. o que se quer dizer – sou mesmo idiota. para que escrevo se não sei
escrever o que tenho dentro do corpo – escrevo – escrevo um texto que não é
este. este é só para desabafar esta raiva de não saber gritar com palavras –
que tristeza – nem por saber que tenho uma amiga que quando acorda se senta na
cama a ler este idiota – sorte a minha. devo ser o único palerma do mundo que
tem alguém que gosta de acordar com palavras de um tolo – debruça-se para um
raio de sol. o primeiro da manhã puxado por deusas vítreas até à sua almofada
feita de penas de anjos onde os seus
cabelos desarrumados seguram os sonhos de um idiota incorrigível – adelgaça as
palavras com afeição. com estima. com um “bem-me-quer” que me abraça em
confiança e a sua leitura é agora tudo o que não escrevi – há outra vida nas palavras. não aquelas que
escrevi em delírio. mas as que são lidas em pureza nos primeiros raios de sol
das manhãs – tudo tão leve. tudo tão sem peso. tudo tão pueril. tudo tão inocente
neste acordar enviado pelos anjos – escrevo. escrevo para acordar as palavras
que dizem o que não consegui dizer enquanto idiota. talvez alquimia. magia. uma
que faz das letras grãos de areia finíssimas. quase inúteis. se não fossem pó
não eram nada – nada também existe no dicionário de português:
na·da
(latim [res] nata, coisa nascida)
pronome indefinido
1. Coisa nenhuma (ex.: estava escuro e não vi nada; nada lhe despertou a
atenção).
substantivo masculino
2. O que não existe; o não-ser.
3. [Por extensão] Pouca coisa. = BAGATELA
4. [Figurado] Fragilidade.
advérbio
5. Expressa negação; de modo nenhum. = NÃO
quando
escrevo sou tudo isto: nada
mas.
talvez saiba escrever. talvez.
nem que seja para meia dúzia de pessoas
25/04/2014
reclassificação de memórias
lynch-Smith
quando não compreendo alguma coisa. ou essa coisa me
magoa ou ainda altera substancialmente o meu equilíbrio emocional e as dúvidas
aparecem a ocupar todo o meu espaço corporal. fico preocupado – não estou
habituado a que o erro acabe por consumir todo o meu lado bom – recorro então à
imaginação e forço o corpo a acreditar que a vida está a seguir o seu percurso normal
da seleção das espécies – o planeta terra não para de centrifugar. voltas e
mais voltas. sempre à mesma velocidade. geram a primavera e o outono – quem
diria – incrivelmente tudo nasce e morre neste ciclo e o planeta sempre a
sorrir com o saber de milhões e milhões de anos de perdas – foi assim que chegamos
ao homem dos nossos dias – imagino então a terra como uma máquina de lavar roupa.
trouxa suja para dentro e o programa a fazer a lavagem a altas temperaturas com
os glutões do presto a comerem tudo que é nódoa – só não me vejo a torcer
16/04/2014
mais um ano
jean-michel folon
a minha juventude foi muito agitada. desajeitada e
rebelde – gosto de culpar o 25 de abril
por todos os males de que padeço. mas não é verdade – o que seria das minhas
palavras sem abril? não trocava abril por nada. crescer com a revolução é um
daqueles momentos únicos que a vida não repete – sem abril estaria vazio.
talvez até vazio de erro – faço parte do
erro. agarrei a liberdade sem defesas e acabei por sucumbir ao seu encanto –
por ali fiquei a trovar. sem métrica. sem rima e a um compasso que nunca soube
acompanhar – agora que envelheci escrevo prosa para sobreviver – estou triste.
escrevo – quero desabafar. escrevo –
quero respirar. escrevo – quero dar uma sova. escrevo – quero dizer amo.
escrevo – quero odiar. escrevo – escrevo para tudo e para mim – escrevo porque
quero continuar a envelhecer com as palavras que ainda não escrevi – escrevo
para não morrer no meio de um amor não correspondido: a vida – a vida nunca me
amou. talvez por não ser poeta. talvez por nunca ter dito que gosto muito de
todos aqueles que fazem parte da minha vida – amo-vos. amo-vos. amo-vos. a todos – escrevo para falar – bem hajam
15/04/2014
heurística
gary milnner
apoiado no lamento
desalegro-me
atrido
desdobro uma noite
apenas minha
no céu: a cassiopeia
retraça-me
inclemente
apela em chama
à heurística
interrogo-me entre:
deuses terrenos
\\
escuto-me entre:
giestas bravas
\\
digo-me entre:
pedras afiadas
\\
respondo-me entre:
teorias de evolução
escancelados
os olhos
deslumbram uma rosa
na beleza:
os espinhos
nota de autor: \\ - pausa Longa
14/04/2014
celestinha tem bombocas
fabian perez
adolescente. um dia para os amigos. um minuto para o corpo. a bola a saltar e o pião a rolar num peito atravessado a vento sul. a puxar gaivotas para um mar nunca antes navegado. e o cabelo castanho. imortal. desviado para o lado mais a jeito – sou primavera. abril. e os dias pequenos para tanto coração – nesse tempo não havia inverno. ossos rijos. braços fortes. pernas a correr acima do tronco e os olhos a avistar dias para lá do ocaso – no corpo. os amigos a trabalhar dia e noite. como relógios pendurados em paredes de pedra. com séculos. os ponteiros a marcar o futuro ao segundo num tic tac impercetível – queria tanto crescer – e os dias a imitar tartarugas. demorados. o sol incapaz de fazer sombra. nem vento. nem frio. nem arrepios. nem medos e a gola alta tapa a garganta franzina que não se cansa de gritar o nome dos amigos. um a um: zé do gerês. tiago. agostinho. jorge. toni. vicente. fernando. fontes. rui. meno. tó mané. carlitos. lúcio. pimenta. joca. luís vieira. quim. leites. paulo (s). pedro. gijo. miguel. joão. zeca [que “deus” me perdoe se me esqueci de algum] – éramos tantos. ainda somos muitos. mas não tantos. há agora um mundo novo. bom. justo. onde os corpos não adoecem. as amizades não acabam. as palavras nunca ficam por dizer – neste mundo. que desejo acreditar. passam-se os dias a jogar à bola. o luís vieira entre duas nuvens. a fingir postes de uma baliza. é guarda-redes e o joca [filho do gaspar chapeiro] a chutar de trivela. em estilo. com o corpo a inclinar para o lado de uma conversa que nunca tivemos
devo-te um pedido de desculpas. espero que me perdoes. mas partiste tão rápido. sem ao menos um café. um abraço. sei lá. uma coisa qualquer que me deixasse ficar em paz
de tanta vida gasta sobra-me hoje este único arrependimento. coisas da juventude – sou dos mais novos do rebanho. sempre quis ter amigos mais velhos. sempre soube que os mais velhos sabiam coisas que eu não sabia – eramos um clã. uma tribo da praça do comércio e quem aqui nasce ou cresce fica marcado para sempre. como ferro quente nos rebanhos – os gregos e romanos também usaram técnicas de fogo nos seus rebanhos. e o seu legado correu o mundo – o nosso fogo era diferente. marcava o coração. era feito de inocência. de ingenuidade. de fé. de camaradagem. de bondade. de amparo. de abraço. de fraternidade. de verdade. e nos olhos duas luzinhas vivas. acesas. brasa para temperar ferro – mais um dia. mais futebol – frente a frente. os dois mais velhos. deitam os pés. como um duelo. o que calca começa a escolher a equipa. primeiro os mais velhos. de seguida os melhores jogadores e finalmente os putos – emudecimento. os putos ficavam sempre para último e acatam o que lhes cabe em sorte em silêncio – tu vais para a baliza – de um lado uma pedra. do outro um poste de luz que nada alumia. fundido pelos remates perdidos em ais de um quase golo e as biqueiras dos sapatos sem tinta. e nos ouvidos a certeza de que a minha mãe um dia destes cumpria a promessa de me comprar umas chancas
ó rapaz. olha como tens esses sapatos comprados há menos de um mês. pensas que o teu pai é rico
um género de praxe académica dos nossos dias. onde os grandes exerciam um poder absoluto na miudagem. físico se necessário. psicológico obrigatório – a livre expressão da individualidade como parceiro de equipa reduzida a um abanar da cabeça. dizer sim – e eu ali. olhos caídos em mudez. acotinhados a um canto. a receber ordens. mas bem lá por dentro alegre por partilhar um espaço-tempo ao lado dos grandes – os putos são felizes com tão pouco – o jogo vai começar. muda aos seis acaba aos doze. e não há desforra – e ali fico eu a vê-los a correr de um lado para o outro. encostado ao poste de luz. fundido. a pedra é muito pequena. mais pequena de que qualquer puto com o sonho de crescer o mais rápido possível
passa. passa. olha o carlitos. chuta. golo. golo. golo
a culpa era sempre do puto da baliza. olhos para baixo. boca fechada antes que um dos grandes se irritasse e me pusesse a andar a mil – os mais velhos tinham sempre razão – mas os amigos grandes são assim. às vezes injustos. não importava. o importante era fazer parte do seu mundo. fazer parte do jogo. estar na equipa. pertencer ao rebanho – e ali estou a crescer. a conhecê-los pelos gestos. pelas vozes grossas. todas diferentes. pela roupa. e eles todos elegantes a falar com palavras que nunca tinha ouvido. não eram da escola. eram da vida. dos anos. da altura do corpo. enquanto batiam com o cigarro na palma da mão. e o fósforo acendia um fogo de desejo nos meus olhos – queria crescer. queria ser também eu enorme e bater com o cigarro. apertar o tabaco naquele tubo de papel e fazer fumo às bolinhas. ritmadas pelos maxilares. a mexer para cima e para baixo. como vulcão a anunciar erupção. explosão. expansão. e o fumo. engolido às golfadas. sai pelo nariz de um novo guerreiro. enquanto a ponta do cigarro era confiscada por mais um puto. e a beata com um novo dono queima entre dedos. pouco mais resta do que o filtro. e os meus olhos a ver arder tempo. e por cada segundo queimado menos uma passa num filtro amarrotado de conversa de amigos. para sempre – quero ser grande – camarada. raio de palavra. companheiro. raio de palavra. amigo. raio de palavra. para onde foram estas palavras? para onde? roubaram-mas e não dei conta. quando estamos a crescer não damos conta de quase nada – agora sou gigantesco. fumo. e por cada golfada de fumo um centímetro de altura – os mais velhos naquele tempo eram mais sábios. ouvi-los era aprender. respeitá-los obrigatório. fumar era crescer no respeito – sabiam tantas coisas que eu não sabia. meus deus. como eram inteligentes. e bonitos. sempre a sorrirem. e eu ali a olhar. invejoso. a querer ser como todos eles. e eles a falar. e eu sem os conseguir ouvir a todos ao mesmo tempo. e eles a apontar para o futuro. e eu sem saber onde estava o meu. e eles com as calças vincadas e eu todo engelhado. e eles com os pés no chão e eu com a cabeça no ar. eram tão bonitos. eram meus amigos e os amigos são sempre bonitos. eram os melhores amigos do mundo. enormes. tão grandes como a roda gigante das diversões. vinha todos os anos para as festas da cidade em honra de s. joão. e eu às voltas a tentar ver o mundo pela sua altura. como a roda. a girar. sem parar. sem parar. sem parar – era enorme esta roda. eles também – ninguém tinha amigos como eu – com a chegada da noite a recolha obrigatória dos corpos. era o meu momento de profunda tristeza – sem eles estava só. num silêncio morte. um silêncio sem existência de vida. de confiança. de segurança. de amor. de tudo – eles eram tudo
até amanhã pessoal
e lá os levava eu para casa. todos. sem saberem. eram tantos. todos tão diferentes e todos especiais – colocava-os na cómoda. de frente para a cama. separados por tamanhos. os mais velhos à frente. queria-os sempre à mão. a fintar a escuridão. a passarem a bola de pé para pé. e o polícia de giro sisudo a dizer.
meninos. toca a guardar a bola. estão fartos de saber que é proibido jogar nos passeios. vamos ter problemas
olhos no chão. a bola nas costas debaixo da camisete. um silêncio de quem é culpado pela quinquagésima vez e as cabeças a dizer que sim. juravam com os dedos em figas que não voltaríamos a jogar na rua – ninguém pecava. ninguém mentia. os dedos cruzados em figas eram a absolvição. código de honra entre amigos – e ali ficavam eles até que o dia chamasse pelo meu nome – queria tanto que me conhecessem. bem sei que estava a dormir. mas também sei que falo enquanto sonho. eles estavam em todos os meus sonhos. quem sabe dizia alguma coisa importante. de afeição. e pela manhã acordava com abraços a dizer: bom dia amigo. estamos à tua espera – tinha tanta coisa importante para lhes dizer. sonhos. pedacinhos de coisas prontas a construir lugares onde a amizade é para sempre – doce vida. doce jovem. doce esperança. as mãos em formação seguravam vidas que não eram minhas – a padaria da lusitana servida por duas portas. era verão se estavam abertas. faziam corrente de ar. e o cheirinho ao pão a passear por cima dos ombros de miúdos a rebolar pelo chão. a jogar à carica na beira de um passeio de pedra silenciosa – ninguém falava quando nós gritávamos. éramos ciclistas. queríamos acreditar. e o camisola amarela eram todos os meus amigos – eu lá ia. pendurado no carro vassoura. feliz por vê-los felizes – não entra nestas corridas quem quer – tanta gente naquela rua. tanta gente naquela praça. tanta gente no meu mundo – a celestinha de bata branca. atrás do balcão. relatava a sua vida aos clientes enquanto a soma era feita de meias dúzias
celestinha dúzia e meia para mim. estaladiços. hoje estou com pressa
a freguesa segurava nas mãos uma saca de tecido bordada à mão com três letras: pão – nada era mais importante do que o pão na vida das famílias. vizinhos. amigos. todos sabiam o meu nome – os meus amigos eram o meu pão. alimentavam-me esperança de um mundo azul. com mar. sol e sal. com gaivotas. livres como o vento. feitas de asas. feitas de eternidade – e as meias dúzias a cair das prateleiras de madeira coloridas de farinha a imitar neve em montanhas mágicas. na saca a lenda da rainha santa isabel: rosas senhor. rosas – havia tanta gente a sorrir. eu também – onde está essa gente dos sorrisos? onde? morreu? talvez. eu também morri e as sacas bordadas também. estamos todos mortos e nem demos ainda conta – o meu amigo tiago pergunta:
celestinha tem bombocas? esgotaram menino. agora só na próxima semana
éramos todos meninos – éramos todos ainda meninos e eu sem saber. e eles sem saber. só o tempo sabia da nossa meninice. talvez por isso me acordava sempre com sol. persiana para cima. pijama fora. escada abaixo. e em duas passadas ali estava eu na rua. aos pinchos. bola na mão. e os compinchas a chegar um a um e os dias a sorrir até cair de cansaço na noite
mais dois e já dá para jogarmos três contra três ou então aos centros. ao deita fora
um a um. depois do jantar. juntávamos a amizade numa roda que se fechava numa aliança imortal – falávamos de tudo que era nada. e tudo fazia sentido. e eu ali a fechar um círculo que nunca percebi onde começava na certeza de que nunca seria mais feliz em lugar nenhum do mundo – o meu mundo era ali. naquele círculo. naquela aliança. afortunado – noite. sou agora silêncio. escondo-me. tenho medo de ficar sozinho – 23.30. está na hora de voltar a casa. o oceano pacífico começa á meia noite na RFM – sintonizo a emissora e ouço o mar a ir e a voltar. as músicas calmas acompanham o corpo numa melancolia-saudade. nunca mais é manhã – noite. longe dos meus amigos é sempre tão demorada. ler era aliviar o corpo do peso do relógio – o silêncio também se distrai com o tempo. leio. leio. leio. só os livros falam comigo. para eles eu estou ali tal e qual como nos sonhos. sem censura. sem idade. sem correrias. sem tristeza. estou apenas ali. deitado de bruços na cama a segurar saber. alumiado por um lâmpada de quarenta velas a florir a minha solidão – as noites eram gastas a sonhar com mundos que não conhecia na companhia do belga hercule poirot. detetive belga. personagem das histórias de agatha christie – tinha que saber tanto como o meu amigo zé do gerês. vestir aqueles pulôveres de decote redondo. chegado ao pescoço. que não deixavam sair as golas da camisa. não gostava do decote em bico. dizia com ar de quem possui a capacidade de saber todas as coisas do mundo – e eu a ouvi-lo. ainda hoje não gosto de pulôveres de bico. fiquei com quase tudo dele. era meu amigo. é meu amigo. será sempre meu amigo – há palavras que nunca lhe disse. possivelmente irei partir sem as dizer – e o tempo fez de mim o que hoje escrevo. fez muito pouco. muito pouco. raio de gajo que não serve para nada. nem para escrever o que sinto. e sinto tanto. nunca deixei de sentir. a infância nunca se deixa de sentir. nem se perde. nem se esquece. muito menos aquele desejo de abraçar um futuro idílico – o tempo passou. e agora descubro que só me trouxe dúvidas. as certezas ficaram todas na juventude
devo-te um pedido de desculpas. espero que me perdoes. mas partiste tão rápido. sem ao menos um café. um abraço. sei lá. uma coisa qualquer que me deixasse ficar em paz
de tanta vida gasta sobra-me hoje este único arrependimento. coisas da juventude – sou dos mais novos do rebanho. sempre quis ter amigos mais velhos. sempre soube que os mais velhos sabiam coisas que eu não sabia – eramos um clã. uma tribo da praça do comércio e quem aqui nasce ou cresce fica marcado para sempre. como ferro quente nos rebanhos – os gregos e romanos também usaram técnicas de fogo nos seus rebanhos. e o seu legado correu o mundo – o nosso fogo era diferente. marcava o coração. era feito de inocência. de ingenuidade. de fé. de camaradagem. de bondade. de amparo. de abraço. de fraternidade. de verdade. e nos olhos duas luzinhas vivas. acesas. brasa para temperar ferro – mais um dia. mais futebol – frente a frente. os dois mais velhos. deitam os pés. como um duelo. o que calca começa a escolher a equipa. primeiro os mais velhos. de seguida os melhores jogadores e finalmente os putos – emudecimento. os putos ficavam sempre para último e acatam o que lhes cabe em sorte em silêncio – tu vais para a baliza – de um lado uma pedra. do outro um poste de luz que nada alumia. fundido pelos remates perdidos em ais de um quase golo e as biqueiras dos sapatos sem tinta. e nos ouvidos a certeza de que a minha mãe um dia destes cumpria a promessa de me comprar umas chancas
ó rapaz. olha como tens esses sapatos comprados há menos de um mês. pensas que o teu pai é rico
um género de praxe académica dos nossos dias. onde os grandes exerciam um poder absoluto na miudagem. físico se necessário. psicológico obrigatório – a livre expressão da individualidade como parceiro de equipa reduzida a um abanar da cabeça. dizer sim – e eu ali. olhos caídos em mudez. acotinhados a um canto. a receber ordens. mas bem lá por dentro alegre por partilhar um espaço-tempo ao lado dos grandes – os putos são felizes com tão pouco – o jogo vai começar. muda aos seis acaba aos doze. e não há desforra – e ali fico eu a vê-los a correr de um lado para o outro. encostado ao poste de luz. fundido. a pedra é muito pequena. mais pequena de que qualquer puto com o sonho de crescer o mais rápido possível
passa. passa. olha o carlitos. chuta. golo. golo. golo
a culpa era sempre do puto da baliza. olhos para baixo. boca fechada antes que um dos grandes se irritasse e me pusesse a andar a mil – os mais velhos tinham sempre razão – mas os amigos grandes são assim. às vezes injustos. não importava. o importante era fazer parte do seu mundo. fazer parte do jogo. estar na equipa. pertencer ao rebanho – e ali estou a crescer. a conhecê-los pelos gestos. pelas vozes grossas. todas diferentes. pela roupa. e eles todos elegantes a falar com palavras que nunca tinha ouvido. não eram da escola. eram da vida. dos anos. da altura do corpo. enquanto batiam com o cigarro na palma da mão. e o fósforo acendia um fogo de desejo nos meus olhos – queria crescer. queria ser também eu enorme e bater com o cigarro. apertar o tabaco naquele tubo de papel e fazer fumo às bolinhas. ritmadas pelos maxilares. a mexer para cima e para baixo. como vulcão a anunciar erupção. explosão. expansão. e o fumo. engolido às golfadas. sai pelo nariz de um novo guerreiro. enquanto a ponta do cigarro era confiscada por mais um puto. e a beata com um novo dono queima entre dedos. pouco mais resta do que o filtro. e os meus olhos a ver arder tempo. e por cada segundo queimado menos uma passa num filtro amarrotado de conversa de amigos. para sempre – quero ser grande – camarada. raio de palavra. companheiro. raio de palavra. amigo. raio de palavra. para onde foram estas palavras? para onde? roubaram-mas e não dei conta. quando estamos a crescer não damos conta de quase nada – agora sou gigantesco. fumo. e por cada golfada de fumo um centímetro de altura – os mais velhos naquele tempo eram mais sábios. ouvi-los era aprender. respeitá-los obrigatório. fumar era crescer no respeito – sabiam tantas coisas que eu não sabia. meus deus. como eram inteligentes. e bonitos. sempre a sorrirem. e eu ali a olhar. invejoso. a querer ser como todos eles. e eles a falar. e eu sem os conseguir ouvir a todos ao mesmo tempo. e eles a apontar para o futuro. e eu sem saber onde estava o meu. e eles com as calças vincadas e eu todo engelhado. e eles com os pés no chão e eu com a cabeça no ar. eram tão bonitos. eram meus amigos e os amigos são sempre bonitos. eram os melhores amigos do mundo. enormes. tão grandes como a roda gigante das diversões. vinha todos os anos para as festas da cidade em honra de s. joão. e eu às voltas a tentar ver o mundo pela sua altura. como a roda. a girar. sem parar. sem parar. sem parar – era enorme esta roda. eles também – ninguém tinha amigos como eu – com a chegada da noite a recolha obrigatória dos corpos. era o meu momento de profunda tristeza – sem eles estava só. num silêncio morte. um silêncio sem existência de vida. de confiança. de segurança. de amor. de tudo – eles eram tudo
até amanhã pessoal
e lá os levava eu para casa. todos. sem saberem. eram tantos. todos tão diferentes e todos especiais – colocava-os na cómoda. de frente para a cama. separados por tamanhos. os mais velhos à frente. queria-os sempre à mão. a fintar a escuridão. a passarem a bola de pé para pé. e o polícia de giro sisudo a dizer.
meninos. toca a guardar a bola. estão fartos de saber que é proibido jogar nos passeios. vamos ter problemas
olhos no chão. a bola nas costas debaixo da camisete. um silêncio de quem é culpado pela quinquagésima vez e as cabeças a dizer que sim. juravam com os dedos em figas que não voltaríamos a jogar na rua – ninguém pecava. ninguém mentia. os dedos cruzados em figas eram a absolvição. código de honra entre amigos – e ali ficavam eles até que o dia chamasse pelo meu nome – queria tanto que me conhecessem. bem sei que estava a dormir. mas também sei que falo enquanto sonho. eles estavam em todos os meus sonhos. quem sabe dizia alguma coisa importante. de afeição. e pela manhã acordava com abraços a dizer: bom dia amigo. estamos à tua espera – tinha tanta coisa importante para lhes dizer. sonhos. pedacinhos de coisas prontas a construir lugares onde a amizade é para sempre – doce vida. doce jovem. doce esperança. as mãos em formação seguravam vidas que não eram minhas – a padaria da lusitana servida por duas portas. era verão se estavam abertas. faziam corrente de ar. e o cheirinho ao pão a passear por cima dos ombros de miúdos a rebolar pelo chão. a jogar à carica na beira de um passeio de pedra silenciosa – ninguém falava quando nós gritávamos. éramos ciclistas. queríamos acreditar. e o camisola amarela eram todos os meus amigos – eu lá ia. pendurado no carro vassoura. feliz por vê-los felizes – não entra nestas corridas quem quer – tanta gente naquela rua. tanta gente naquela praça. tanta gente no meu mundo – a celestinha de bata branca. atrás do balcão. relatava a sua vida aos clientes enquanto a soma era feita de meias dúzias
celestinha dúzia e meia para mim. estaladiços. hoje estou com pressa
a freguesa segurava nas mãos uma saca de tecido bordada à mão com três letras: pão – nada era mais importante do que o pão na vida das famílias. vizinhos. amigos. todos sabiam o meu nome – os meus amigos eram o meu pão. alimentavam-me esperança de um mundo azul. com mar. sol e sal. com gaivotas. livres como o vento. feitas de asas. feitas de eternidade – e as meias dúzias a cair das prateleiras de madeira coloridas de farinha a imitar neve em montanhas mágicas. na saca a lenda da rainha santa isabel: rosas senhor. rosas – havia tanta gente a sorrir. eu também – onde está essa gente dos sorrisos? onde? morreu? talvez. eu também morri e as sacas bordadas também. estamos todos mortos e nem demos ainda conta – o meu amigo tiago pergunta:
celestinha tem bombocas? esgotaram menino. agora só na próxima semana
éramos todos meninos – éramos todos ainda meninos e eu sem saber. e eles sem saber. só o tempo sabia da nossa meninice. talvez por isso me acordava sempre com sol. persiana para cima. pijama fora. escada abaixo. e em duas passadas ali estava eu na rua. aos pinchos. bola na mão. e os compinchas a chegar um a um e os dias a sorrir até cair de cansaço na noite
mais dois e já dá para jogarmos três contra três ou então aos centros. ao deita fora
um a um. depois do jantar. juntávamos a amizade numa roda que se fechava numa aliança imortal – falávamos de tudo que era nada. e tudo fazia sentido. e eu ali a fechar um círculo que nunca percebi onde começava na certeza de que nunca seria mais feliz em lugar nenhum do mundo – o meu mundo era ali. naquele círculo. naquela aliança. afortunado – noite. sou agora silêncio. escondo-me. tenho medo de ficar sozinho – 23.30. está na hora de voltar a casa. o oceano pacífico começa á meia noite na RFM – sintonizo a emissora e ouço o mar a ir e a voltar. as músicas calmas acompanham o corpo numa melancolia-saudade. nunca mais é manhã – noite. longe dos meus amigos é sempre tão demorada. ler era aliviar o corpo do peso do relógio – o silêncio também se distrai com o tempo. leio. leio. leio. só os livros falam comigo. para eles eu estou ali tal e qual como nos sonhos. sem censura. sem idade. sem correrias. sem tristeza. estou apenas ali. deitado de bruços na cama a segurar saber. alumiado por um lâmpada de quarenta velas a florir a minha solidão – as noites eram gastas a sonhar com mundos que não conhecia na companhia do belga hercule poirot. detetive belga. personagem das histórias de agatha christie – tinha que saber tanto como o meu amigo zé do gerês. vestir aqueles pulôveres de decote redondo. chegado ao pescoço. que não deixavam sair as golas da camisa. não gostava do decote em bico. dizia com ar de quem possui a capacidade de saber todas as coisas do mundo – e eu a ouvi-lo. ainda hoje não gosto de pulôveres de bico. fiquei com quase tudo dele. era meu amigo. é meu amigo. será sempre meu amigo – há palavras que nunca lhe disse. possivelmente irei partir sem as dizer – e o tempo fez de mim o que hoje escrevo. fez muito pouco. muito pouco. raio de gajo que não serve para nada. nem para escrever o que sinto. e sinto tanto. nunca deixei de sentir. a infância nunca se deixa de sentir. nem se perde. nem se esquece. muito menos aquele desejo de abraçar um futuro idílico – o tempo passou. e agora descubro que só me trouxe dúvidas. as certezas ficaram todas na juventude
09/04/2014
retalhos – número de série 09042014s(r)ego12
jake e dinos chapman
04/04/2014
02/04/2014
tudo-incondicional
leonid afremov
a minha amiga ana martins recordou no seu facebook uma prosa poética de
minha autoria que dá pelo nome - tudo
passaram-se três anos
acredito que para os mais novos
estes três míseros anos não são relevantes. afinal o que são três anos no corpo
imortal de um jovem – para mim. que a imortalidade já não é atingível. é um horror
de tempo – infelizmente o tempo esgota-se
velozmente
neste três anos. muitas coisas se
passaram dentro do corpo. muitas metamorfoses. mais dúvidas. mais perguntas sem
respostas. mais viagens ao passado num esforço de credibilização do presente –
uma luta contra os meus moinhos de vento - mas vida é isto mesmo. para alguns o
destino é traçado com a hora do nascimento. para outros. são os actos criados à
sua volta a dizer para onde é o caminho – o tempo passa. o corpo envelhece. a
força que nos ergueu é agora aquela que nos empurra para dentro da terra – o
desespero aumenta com a convicção de que
cada vez temos menos verdades absolutas – nada é igual a ontem – tenho o corpo
cansado na procura de uma razão para o que sou – aprender até morrer. o ditado
tem razão
mas há certezas que já não mudam
nunca mais. o “tudo” da minha prosa poética é agora definitivamente um tudo
para sempre. um tudo-incondicional
obrigado ana por trazeres um texto
tão especial para mim
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4049502574085780201#editor/target=post;postID=5163891214402787406;onPublishedMenu=posts;onClosedMenu=posts;postNum=234;src=postname
publicado no blogue em - 22/12/10
tudo-incondicional
.
.
passaram-se mais de três anos desde que escrevi a prosa
poética “tudo”. é muito tempo numa vida que se consome cada vez mais rapidamente
– tudo passa tão depressa. quando damos
conta. tudo o que temos é tempo gasto. algumas memórias e muita saudade de
pessoas que fizeram parte da nossa vida e já partiram – mas é assim para tudo e para todos – por
muito que nos custe a idade traz a morte e dentro desta vai o conhecimento de
um mundo sentido e vivido sempre na primeira pessoa – voltando ao texto. confesso
que este meu tudo está ultrapassado. já
não sinto o que sentia. já não sou capaz de escrever o que escrevi – o dilatar da idade traz um saber que a
juventude desconhece – diz-se que o amor aos filhos é incondicional. um tudo
para toda a vida. para sempre – é verdade. mas para quem gosta de escrever como
eu ainda é mais difícil trasladar para escrita este incondicionalidade – sem
palavras suficientes para o descrever. sem mãos capazes de o abraçar. sem
lágrimas suficientes para ser chorado. um tudo que nos dói mesmo nas alegrias. sempre
a crescer. o biberon. o primeiro passo. o primeiro dia da escola. a
adolescência. a primeira namorada. e o homem feito de tudo que é nosso para
sempre – não há tudo mais belo de que este. sei-o desde o dia em que me deram
para os braços o meu primeiro filho. e a palavra pai é agora amada incondicionalmente.
para o bem. para o mal. para a alegria. para a tristeza. para a saúde. para a
doença. para a chegado do primeiro filho do meu filho – pai duas vezes. duas vezes
tudo. duas vezes amor incondicional – a
minha companheira. a minha mãe dos meus filhos. a minha confidente. a minha
amiga. a minha amante. a minha força de
vida. já não é tudo. não. o tudo é agora uma palavra só. sem sentido se não
acrescentar a incondicionalidade – esse meu tudo passou a um tudo-incondicional
– tudo na MJ é agora incondicional-tudo – os meus filhos e a minha companheira
tem o meu amor incondicional – um tudo-incondicional. mesmo – até sentir os
seus lábios quentes na minha carne gélida
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