.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

04/06/2014

estar morto é o contrário de ter memória




pintura digital - ivan solyaev

 
 
 
momentos em que morro – morro para me apagar do mundo – estar morto é bom. estar morto é o contrário de ter memória. é sair do corpo. entrar por uma rua qualquer sem hora de retorno –
 
                                                        perguntam-me: a que horas voltas
 
não sei. não esperem por mim. vão comendo. não deixem arrefecer a comida – quando chegar como o que houver. aqueço os restos – sempre me dei bem com os restos. liga bem com o que resta de mim – nos restos acabo sempre por encontrar muito do que sou – não me importo de comer comida aquecida. às vezes até é melhor. está mais apurada. como eu – também sou apurado – gosto de paladares fortes. às vezes picantes. doces também. e salgados e insossos como nos hospitais. com a enfermeira a gritar em voz dominadora: o sr. doutor mandou fazer uma dietinha. tudo a meio sal. tem que ser sr. sampaio. é para seu bem –
 
                                                              quem é que sabe o que é melhor para mim. na minha doença não há doutores  
 
não gosto nada de comida a meio de qualquer coisa. ou é ou não é. ou desce a garganta ou não desce – não suporto meias descidas. o meu paladar não aguenta estas coisas do era e não era – para mim não há trinta e seis. só o oito ou o oitenta – desde que a comida chegue inteira até pode tostar o céu-da-boca –
 
                                                        merda. a comida está quente pra caraças
 
é o único céu que conheço. sem constelações. sem estrelas. sem cometas a indicar acontecimentos de coisas que depois não acontecem. sem descobertas de novas galáxias onde meia dúzia de iluminados garantem que finalmente é possível provar a existência de extraterrestres – no meu céu-da-boca a única forma de vida resistente ao meu oito ou oitenta são organismos que vivem em comunidade com outros que não dou importância: parasitas – este ser vivo aproveita-se de mim alimentando-se de restos de palavras difíceis que. por não saber escrever. não sei engolir –
 
                                                              ainda não percebi ao certo se são os parasitas que vivem das minhas palavras. ou pelo contrário. sou eu que os alimento para não findar esta vontade de encontrar novas palavras
 
não importa – nada disto é essencial para deglutir o que me escalda o céu-da-boca – importante é saber que a dor existe. não há palavra sem dor. mas homem que é homem aguenta a dor – com o tempo fui aprendendo a proteger-me destas peladelas maldosas. tantas vezes te queimas que passa a ser hábito –  comer muitas vezes é um verdadeiro inferno. mas se o que me chega à boca queimar dou duas voltas e mando tudo para baixo num só trago – prefiro que me queime as tripas do que o céu-da-boca. um homem sem céu não vive em paz –
 
                                                             o inferno conheço eu bem. já do céu sei o que vou ouvindo pelas esquinas do inferno
 
mas se a comida estiver esfriada também engulo. com custo mas engulo. não gosto de fazer dos restos mais restos – sempre ouvi a minha mãe dizer que estragar comida é pecado – o que aprendemos em criança fica para sempre. e pesa como chumbo. por muito que queiras modificar não consegues. afinal de contas foi a tua mãe que disse. e mãe só há uma e onde há mãe há um céu que não queima – por tudo isto não consigo estragar comida. prefiro estragar-me a mim. eu sou forte. aguento tudo. e quando a força me abandona morro. morto sou mais feliz do que quando estou vivo e não sou obrigado a comer o que não quero –  
 
                                                               por favor não esperem. desta vez não sei quanto tempo preciso de estar morto
 
quando deixo de acreditar necessito de ficar morto – quando estou morto não tenho telefone. nem facebook. nem likes. nem email`s. máquina de lavar. micro-ondas ou outra qualquer tecnologia que produza metamorfoses que me usurpem esta vontade de morrer-catarse –  inevitavelmente só a morte limpa o corpo. é assim comigo – acredito nesta inevitabilidade. por isso quero morrer. não sei por quanto tempo. mas também não é importante. o que me faz morrer não me faz viver –
 
                                                              a morte é a conquista definitiva do silêncio
 
quando morro encontro-me com um tempo só meu. um tempo de perdão. também preciso de me perdoar e quem sabe aprendo a perdoar os outros com mais doçura – quando estou morto esqueço os amigos. estimo-os demais para os obrigar a estarem presentes na vida de quem morreu – amigo é coisa séria. não é palavra vã. é sacrifício agradável – sempre que morro o barulho ao meu redor diminui. gente que desconheço parte para locais que nunca saberei entender – gente. apenas gente – desta gente que me abandona nada sei. sei que partiram porque o barulho também partiu – um homem com barulho não consegue pensar. se falassem. nem precisavam de falar para mim. bastava que falassem – gosto tanto de ouvir pessoas a falar umas com as outras – mas perdoem-me. bem sei que não sou justo. e logo eu que não suporto a injustiça. mas incompreensivelmente tenho amigos que fazem barulho e gosto deles. gosto de os ouvir. não suportaria vê-los partir para lugares que nunca saberia entender – não sou injusto. sou apenas um homem –
 
                                                              os homens dos oito ou oitenta acabam sempre por perder amigosquem fala expõe-se  
 
quando chego da morte tenho sempre menos amigos à minha espera – já não me importo. tanto se me faz. eles lá têm as suas razões e eu gosto demasiadamente dos meus amigos para os questionar. quero sempre o melhor para quem gosto – estou convencido que a culpa é minha. ando sempre a morrer de um lado para o outro. não deve ser fácil ter amigos que morrem por tudo e por nada – os tempos mudaram e os amigos já não são como antigamente – hoje cada amigo tem a sua vida. e a maior parte dos que conheço nunca quiseram morrer. são felizes com barulho e estão sempre a sorrir de coisas que não sei valorizar – antigamente a palavra amigo era coisa de responsabilidade. amigo tirava a própria roupa do corpo. para dar ao seu amigo  
 
                                                             dá cá mais um aperto nestes ossos sampaio
 
o último tratado de amizade que li deixou-me com vontade de nunca mais morrer por coisa nenhuma – o romance do escritor húngaro sándor márai. as velas ardem até ao fim – nunca mais fui o mesmo. agora não me sai da ideia de um dia poder morrer por uma amizade igual à do henrik. esperou mais de quarenta anos para terminar o julgamento com o seu amigo konrad e assim poder morrer pela última vez com o amigo de uma vida – os livros são sempre tão bonitos e ensinam tanta coisa. tanta coisa de outras vidas – queria ser um livro assim –
 
 
                                                              como é que vou encontrar uma amizade para morrer feliz?
 
desculpo com mais facilidade aqueles que meteram papelada assinada sobre palavra-de-honra para uma amizade eterna e que. por um qualquer cansaço. separaram o abraço e partiram com a coragem de uma despedida do que aqueles que partem sem dizer que partiram– não gosto de perder amigos. tenho tão poucos e espaço também – quando deixo entrar no corpo novos amigos os que tenho ficam mais apertados. não é justo – nos dias de hoje nunca sabemos quem é o verdadeiro amigo. é tudo tão passageiro. tão material. tão interesseiro – não gosto de ver os meus amigos apertados por outros que não sendo verdadeiros amigos ocupam um espaço reservado a afetos do coração – esqueço igualmente os inimigos. os que fazem barulho e também os silenciosos. os indiferentes. os ingratos. os mal educados. os desarrumados. os que lhes falta bom-senso e que por via disso se tornam injustos teimando em atribuir a culpa ao feitio – todo o pecado tem remissão –
 
                                                        o meu corpo cada vez está mais apertado
 
quando morro. sinto obrigação de morrer de vez. não gosto de morrer aos bocadinhos – não sou capaz de fazer morrer o fígado num dia e no dia seguinte decretar a morte de um rim. ou pior ainda. estrangular a garganta numa semana e passado um mês silenciar os lábios – não sou capaz. não sou homem para deixar morrer o que é meu aos bocados. mesmo que nenhum dos órgãos já não valha grande coisa – não. não seria possível. não fui feito com esse fermento. não consigo ficar a levedar para morrer atrancado de palavras azedas – quando morro estou morto. estou todo morto ao mesmo tempo –
 
                                                        um homem de bem morto vale por dois
 
os mortos têm honra mesmo depois de mortos – não gosto que me tentem ressuscitar com velórios harmoniosos. criados em tempo que não sendo genuíno já não servem para coisa nenhuma e que por estar morto não ouço – estou morto porque optei por morrer. certo ou errado gosto de estar assim é no mundo dos mortos que melhor vejo os vivos – e não tenho dia certo para ressurgir. escusam de esperar. vão às vossas vidas e não deixem arrefecer a vossa comida – a maior parte de vocês não está preparado para comer a comida fria e muito menos aquecida –
 
                                                             há palavras que por serem verdadeiras não podem ser ditas em vida. magoam mais do que a própria morte
 
sou muito melhor morto do que vivo. morto não falo. nem me zango. nem olho para o lado. nem para cima e muito menos para baixo – detesto olhar para baixo quando tudo o que faço é para manter a cabeça em cima – com a cabeça em cima tenho os olhos em cima. e os olhos nunca me enganaram  – quando morro esqueço a falta que me faz ser desejado. esqueço os que não tem amor próprio. os que não sabem que amar é dar mais que receber. esqueço todas as dores que não são do corpo e as do corpo também –  quando morro esqueço que a vida continua mesmo para quem está morto por tempo indeterminado –
 
                                                             morto compreendo melhor o mundo dos vivos
 
não quero que esperem pela minha volta à vida. desta vez morro para poder descansar da vida – há momentos em que é melhor estar morto do que vivo – gosto de estar morto. quando estou morto tenho a certeza de que não posso voltar a morrer. estou protegido da vida – * “Por vezes é preciso morrer para ver melhor. Morrer para renascer.”
 
 
 
*“Por vezes é preciso morrer para ver melhor. Morrer para renascer.” - Paulo José Miranda
 
 

 

 

03/06/2014

Inscrição para um portão de cemitério




mário quintana
 
 
 
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"


Mário Quintana


02/06/2014

balancete




radaelli
 



soutu. escrita. és agora o meu alimento – bem sei que as palavras estão sem sal. sem vinagre. sem cozedura. sem a força do deus fogo. bem sei – trago dentro de mim umas quantas frases feitas e não sei para que servem. recordações – amargurado. escrevo – a mágoa alonga sempre o que escrevo – as palavras multiplicam-se na proporcionalidade da mágoa – o que não era relevante é agora tudo o que me resta de um tempo fértil – e eu em banho-maria. a levantar fervura de recordações que nem sabia existirem – um homem com recordações pode morrer a qualquer momento – tempo-sábio. aprendemos tanto com a soma dos dias – trezentos e sessenta e cinco dias vezes cinquenta e dois isto é igual… não interessa. sei que é muito tempo – depois. chega a prova dos nove e quase tudo é resto zero – nas contas do tempo sobram unicamente as recordações. centésimas que fazem a diferença no acerto das contas – agora sou feito de tempo e recordações – escrever é um ato solitário – quando escrevo encontro o silêncio de todas as almas do mundo. cobrem-me com uma proteção sagrada. e a mão escreve num silêncio divino. em estado puro. sem pecado. sem remorsos. sem relógio. sem idade. sem nenhum dedo a julgar. e a balança parada num equilíbrio justo: de um lado o homem errante. do outro. em jeito de contrapeso. o perdão sobre a minha palavra de honra – sou feito de tempo – o silêncio para quem escreve é a prova de que a vida existe – no interior as palavras libertam-se finalmente das correntes. e o passado volta a ser hoje – com a escrita consigo ser hoje o que fui no passado e então. como criança. sou novamente feliz – ser feliz. alguém consegue ser feliz enquanto pensa?
– só escrevo com a mão direita e a direito
estou só. como gosto. e não tenho para quem ler esta folha. que ainda agora era branca. bastou um leve mover de mão. exagerado. para sarrabiscar tudo o que carrego numa saudade-medo – tenho medo de me esquecer – um dia esqueço-me – sinto que as palavras são a única forma de não deixar esquecer este sou – podia trazer outro sou para a escrita. mas não. trago este – não escolhemos o sou nem o seu fruto. somos o que somos e não há forma de fugir às palavras que me crescem nas mãos deste sou – da mesma forma que as macieiras dão maçãs e não dão cerejas – sou este sou e nunca conseguirei ser outro – cada árvore dá o que tem na raiz. e a minha raiz é esta. assim. com o corpo caído para norte e a mão a teimar escrever para sul – escrevo torto por linhas direitas – escrevo para dizer que existo. se não tivesse estas palavras como testemunhas. neste papel que já foi árvore. ninguém  saberia da minha existência. talvez nem eu – neste tempo grisalho. os sonhos são cada vez mais pequenos – quando escrevo faço-me existir. lerem-me é saber que existo de verdade – escrevo logo existo



29/05/2014

Mário Quintana - Viver




mário quintana



 
Viver

Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!



28/05/2014

abyssus abyssum invocat





annibale carracci
 



o meu nome é sampaio – isto ainda não acabou mas sei obrigatoriamente que um dia vou sossegar – um alpendre virado a sul. uma cadeira de baloiço. um livro por escrever e a saudade a causar uma nostalgia-descanso – do outro lado dos olhos. além-terra. o mar: sereno. formoso. robusto. estático. sem nada a ir e a vir – só silêncio – na cadeira o corpo preso a um olhar demorado na fímbria do tempo andado – contemplação – nada volta – costas. ombros. braços. mãos. dedos. finalmente tudo pronto para um adormecer tranquilo. tudo em descanso. e tudo são agora recordações que enterro para sempre na preia-mar – as pernas estendidas seguram na extremidade pés deformados. cobertos por sapatos pretos-baço numa simetria perfeita – os atacadores cruzados em forma de cruz tombam numa laçada forte para sul. como se quisessem apontar com seguridade o caminho reservado a quem adormece em paz – em cada pé um caminho feito. em cada sapato um pé-de-meia escondido para o dia de todos os dias – três ou quatro fotos. a chave da morada onde o meu pai descansa. o anel de duas cores. o abraço guardado de cada um dos meus filhos e os lábios-aroma da mulher da minha vida – os pés de tempos em tempos cruzam-se. descansam um em cima do outro. revessam-se pela mesmice do descanso – sempre foi assim. nunca se deram parados e tantas vezes andavam sem sair do sítio. mas andavam – conhecem-se como ninguém. o caminho de um foi o de outro – do alpendre tudo se apresenta imóvel. o corpo. os olhos. o mar. as gaivotas. os sonhos. a contrição. as desilusões. a esperança  e a promessa imutável de que um dia partiria feliz – mas as promessas também se quebram. cristal – só bóreas continua inalterável. sacode a ira com um último sopro gélido. trespassa-me  a camisa no decrépito solar rompendo a pele num arrepio quebradiço. cristal-prenunciação – o silêncio é agora imperecível num horizonte que se esgota com a permissão dos olhos. mais pequenos a cada lembrança. quase escuros. inofensivos e a energia do ser augura finalmente aprovação para o fim – o que me sobra dos olhos já não aguenta as minhas gaivotas naquele voar descuidado. livre. espontâneo. destemido. guerreiro. agora voam a favor do vento norte sobrevoando o sobrolho em círculos que se tornam mais pequenos a cada volta – sempre amei a liberdade das gaivotas. talvez por nunca ter percebido se é feita só de vento – finalmente na face uma expressão eterna de um sorriso que num vi – por fim livre. fora do corpo –  morte e vida severina
 
*abyssus abyssum invocat - um abismo atrai o outro
* morte e vida severina – joão cabral de melo neto
 

 

27/05/2014

Morte e Vida severina




joão cabral de melo neto
 
 


Morte e Vida severina

 

O retirante explica ao leitor quem é e a que vai


— O meu nome é Severino,
 não tenho outro de pia.
 Como há muitos Severinos,
 que é santo de romaria,
 deram então de me chamar
 Severino de Maria;
 como há muitos Severinos
 com mães chamadas Maria,
 fiquei sendo o da Maria
 do finado Zacarias.

 
 
 Mas isso ainda diz pouco:
 há muitos na freguesia,
 por causa de um coronel
 que se chamou Zacarias
 e que foi o mais antigo
 senhor desta sesmaria.

 
 
 Como então dizer quem falo
 ora a Vossas Senhorias?
 Vejamos: é o Severino
 da Maria do Zacarias,
 lá da serra da Costela,
 limites da Paraíba.

 
 Mas isso ainda diz pouco:
 se ao menos mais cinco havia
 com nome de Severino
 filhos de tantas Marias
 mulheres de outros tantos,
 já finados, Zacarias,
 vivendo na mesma serra
 magra e ossuda em que eu vivia.

 
 
 Somos muitos Severinos
 iguais em tudo na vida:
 na mesma cabeça grande
 que a custo é que se equilibra,
 no mesmo ventre crescido
 sobre as mesmas pernas finas
 e iguais também porque o sangue,
 que usamos tem pouca tinta.

 
 
 E se somos Severinos
 iguais em tudo na vida,
 morremos de morte igual,
 mesma morte severina:
 que é a morte de que se morre
 de velhice antes dos trinta,
 de emboscada antes dos vinte
 de fome um pouco por dia
 (de fraqueza e de doença
 é que a morte severina
 ataca em qualquer idade,
 e até gente não nascida).

 
 
 Somos muitos Severinos
 iguais em tudo e na sina:
 a de abrandar estas pedras
 suando-se muito em cima,
 a de tentar despertar
 terra sempre mais extinta,

 
 
 a de querer arrancar
 alguns roçado da cinza.
 Mas, para que me conheçam
 melhor Vossas Senhorias
 e melhor possam seguir
 a história de minha vida,
 passo a ser o Severino
 que em vossa presença emigra.

 
 
João Cabral de Melo Neto





23/05/2014

correspondência violada - 02




imagem google
 
 




escrever é esta coisa bonita de juntar palavras para oferecer aos outros.

depois. bem. depois

é necessário que quem as lê possa fazer destas um cobertor para se aconchegar na solidão. um lenço para apanhar uma lágrima que teima em não cair com medo de se perder para sempre. ou então. uma brisa fresca numa tarde de calor tropical – é assim que fazemos. nós. tu daí e eu daqui. pelo meio este mar imenso. com marés tresloucadas por uma lua que teima em não cair e empurra de um lado para o outro tudo o que ainda somos capazes de sentir – hoje. estou eu aí. aqui. com palavras que são afeição


correio privado com a minha amiga vânia - abril de 2012


De Vulgari eloquentia




paulo henriques britto
 

De Vulgari eloquentia  
 
       
A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída - falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.
 
 
por: paulo henriques britto



17/05/2014

o meu pai era do benfica




 
 



o meu pai era do benfica. um bom benfiquista por sinal. logo. um bom chefe de família – como muitos milhões  de benfiquistas. tenho a certeza. de que também ele se tornou simpatizante do glorioso por conta das vitórias extraordinárias na década de sessenta – habituei-me em casa a ouvir relatos minuciosos sobre o prestígio do benfica no mundo. e da sua figura mais emblemática. eusébio da silva ferreira – fruto desse amor do meu pai pelo glorioso e do meu amor pelo meu pai. também eu me tornei benfiquista – não um benfiquista do norte ferrenho. fanático. doente. apenas mais um benfiquista. despretensioso. que gosta de ver vencer o seu clube com seriedade – para mim as vitórias não tem que acontecer a qualquer preço e os meios usados para as alcançar tem obrigatoriamente que advir pelo mérito desportivo dos seus atletas dentro do campo – ganhar. nos meus ensinamentos de vida. só é importante quando o talento esta associado à honestidade – recuso-me a ver o futebol a uma só cor.  a uma região ou a um bilhete de identidade – nasci em braga mas sou de outro emblema que não o da cidade que me viu nascer – sou do benfica que por sinal é de lisboa – há quem vista a camisola do sporting. da académica. do belenenses. outros ainda de clubes mais distantes. do real madrid. do milan. do liverpool. de todas as partes do mundo. não encontro nenhum razão de ética ou moral para não se ser do clube que o coração determina. por mais distante que morem as raízes dessa coletividade – enquanto a moral se fundamenta na submissão aos costumes e hábitos praticados num determinado local. a ética. opostamente. procura assentar as ações morais unicamente pela razão – as questões éticas raramente são simples. mas a questão principal é salvaguardar a nossa integridade pessoal. fazendo respeitar as nossa opções de escolha sem nunca deixar de respeitar quem pensa de forma diferente – e assim sou benfica dos pés à cabeça – o mais espantoso é que cada um tem a sua razão-história para gostar do clube A ou B e nenhuma dessas razões-história é mais ou menos válida do que uma outra qualquer – no meu caso. gosto do benfica porque o meu pai gostava e porque o meu coração me obrigou – acreditem que não encontro razão mais bonita para se ser do benfica. obrigado meu pai – mas para lá dos clubes. no que me diz respeito. gosto do meu país como um todo. sem divisões. sem fronteiras regionais. sem bairrismos doentios. sem pontos cardeais. sem chauvinismo. sem montanhas. rios. florestas. searas. falésias ou outra qualquer forma impeditiva de nos podermos ver. tocar e olhar olhos nos olhos – somos todos iguais. todos queremos que os nossos clubes vençam – neste mundo desportivo. onde a paixão clubística faz muitas vezes o homem perder a razão e o bom senso. esquecendo-se que o desporto [profissional também] tem como primeira função aproximar as pessoas. os povos. as cidades. mas principalmente. fazer com que as desigualdades pareçam menos desiguais – o desporto é a maior força pacífica de agregação do ser humano. atenua as diferenças e torna-as menos díspares num mundo cada vez mais global e egoísta – fundamental para a criança. para o seu desenvolvimento. o desporto ajuda a harmonizar o seu comportamento. incitando a sua capacidade de concentração. desportivismo. companheirismo. amizade. autoconfiança. espírito de equipa e solidariedade. sendo estas vermelhas. pretas. mestiças. amarelas e outras que não tendo cor correm atrás de quem lhes diz que muitas cores juntas fazem um arco-íris – sinto-me um pouco de todo este meu país. colorido. e em todos os cantos me sinto em casa – não divido o meu país em cores de camisolas dos que dão chutos a bolas e muito menos pelo léria ultrapassada de uns  quantos senhores grosseiros que por nada saberem das coisas do coração magoam os que sonham um dia poder ver a sua cor ganhar – sou do benfica porque sou do meu pai – como diz o ditado. filho és. pai serás – os antigos sempre sabiam o que diziam. vejamos como tinham razão – tenho três filhos todos eles benfiquistas. confesso que talvez fruto da sua juventude. às vezes são um pouco aguerridos a mais para meu gosto. mas mesmo assim bons rapazes. tal como o meu pai não gostam de festejar as vitórias humilhando os vencidos – sempre que alguém ganha há outro que perde. para uns estarem felizes outros estão tristes. é assim o desporto de alta competição ou mesmo uma peladinha entre amigos. infelizmente não podem ganhar todos – depressa entenderam que é mais difícil saber ganhar do que saber perder – mas toda esta conversa. esta minha crónica. para dizer o seguinte: há por aqui [facebook] muita “boa” gente. minha “conhecida” do mundo virtual e não virtual. que constantemente coloca imagens e comentários depreciativos em relação ao meu benfica – ora muito bem. eu até posso compreender que uns quantos parvalhões. de um qualquer dos clubes. sejam eles do norte ou sul. coloquem aqui um chorrilho de disparates de mau gosto – parvalhão não tem lugar certo para morar. assim sendo. não posso fazer nada contra esta praga de imbecis. mas mesmo que pudesse teria as minhas dúvidas em fazê-lo – no meu entender. enquanto andam ocupados no facebook não fazem dispartes na vida real. como: lançar very-lights. assaltar estações de serviço. vandalizar viaturas ou atacar à pedrada viaturas nas autoestradas. entre muitas outras parvoíces que a juventude não desculpa – o facebook é bom para este tipo de gente. permite-lhes largar as frustrações pessoais. traumas de infância. raiva. ódio e linguagem violenta num espaço onde para além dos danos da alma mais nenhuma mal acontece – o que não quer dizer que uma palavra não seja capaz de ferir mais que um estalo. pode. mas nada posso fazer a não ser evitar o segundo estalo. já diz o ditado: à primeira qualquer um cai. à segunda só cai quem quer – mas também não é grave. já percebi que esta gentinha não tem o relógio a bater certo. diria que o desenvolvimento do cérebro é inversamente proporcional ao crescimento do corpo. alfinetes de alinhavar costuras – esta malta não sabe usar o facebook para criar-manter amizades. não sabe. não tem condições de saber. e quero acreditar que mesmo que tivessem a oportunidade de aprender continuariam a não querer – estes anormais precisam do facebook para libertar a raiva e ódio acumulados ao longo da vida  inútil que fabricaram  – já os outros. que amavelmente se dizem meus amigos. parceiros diários de um espaço pessoal e “íntimo”. para esses a minha tolerância é agora zero – não voltarei a permitir que continuem a invadir diariamente o meu lugar de reflexão. diálogo e partilha de “amigos” que por um qualquer motivo. nobre quero acreditar. aceitaram coabitar o mesmo espaço cibernético publicando diariamente mensagens obscenas contra o meu clube de coração – quase que arriscaria a dizer que para esta gentinha nada mais existe no mundo para fazer do que magoar quem não é do seu clube – criaturas! há tanto para falar – meu deus. quanto vale um médico que acaba de salvar uma vida com a arte que aprendeu com tanto esforço e dedicação. treinando todos os dias afincadamente. dia e noite. procurando a cada dia ser um melhor do que ontem. e deste modo evitar sobre o risco da vida o triunfo da morte – quanto vale uma auxiliar de idosos que todos os dias tem que virar o corpo de acamados para não deixar as escaras ganharem à vida o luto de gente que não se cansa de lutar por mais um dia de vida. correndo para trás e para a frente. sem descanso. atacando a solidão de quem já quase tudo perdeu e defendendo com unhas e dentes o que resto daquelas almas santas e doridas – quanto vale um professor do primeiro ciclo. que como um treinador de futebol. ano após ano vai aceitando as crianças como se fossem suas. de todas as cores e credos. altas ou baixas. bonitas ou feias. ricas ou pobres. e lhes ensina todas as letras de um mundo de bem para que um dia possam escrever a sua história como adultos felizes – está a chegar a hora de dizer basta a este tipo de personalidade que todos os dias invade o meu talento de tolerância para ter o ignóbil prazer de magoar e humilhar quem não é da sua cor – apesar de ser complemente contra a censura. não me resta outra solução a não ser o seu bloqueio na minha lista de amigos. não posso continuar a permitir que os meus filhos me interroguem que tipo de amigos partilham a minha intimidade – eles não compreendem. e eu também não – como foi possível deixar esta gente entrar nas nossas vidas? não sei – eu moro a sul da galiza e a norte do algarve – da minha janela vejo o mundo redondo. azul. com mar. sol. sal e gaivotas – engraçado. vejo um mar azul e não um mar vermelho – será assim tão difícil perceber que a amizade só se constrói com respeito e tolerância – para mim em primeiro lugar estão as pessoas e só depois o clube do coração – viva o glorioso. viva o benfica – o campeão voltou e amanhã há mais uma taça para ganhar



13/05/2014

nicolau maquiavel




nicolau maquiavel



 
"Porque a todos é concedido ver, mas a poucos é dado perceber. Todos veem o que tu aparentas ser, poucos percebem aquilo que tu és"



12/05/2014

deambulações nocturnas I




adelina aida carrion





medo
se as mãos não tremessem. talvez o medo nunca soubesse que eu existo – quem sabe. as palavras nasceriam mais íntegras aos olhos - dos que leem!


papel laminado
o papel guarda a intenção. as mãos. guardam eternamente o homem


escriba translúcido 
escriba que faz uma cova faz um cemitério



10/05/2014

ao mar tornará




edvard-munch-melancolia
 
 



gosto de ver o mar. gosto de me sentar de frente para o mar. às vezes também de lado – quando estou de lado devoto um olho ao mar e outro à terra e interrogo-me como seria a terra sem mar – seria uma terra sem peixes. sem estrelas-do-mar. sem búzios. sem barcos. sem iodo e sem sal – de seguida pergunto-me o que seria do mar sem terra – seria um mar sem marés. sem dunas. sem gramíneas. sem varinas. sem gaivotas e sem crianças a fazer castelinhos de areia – não consigo imaginar o que seria de um sem o outro – onde esfriava o sol ao fim do dia sem mar? como nascia o sol aos pulinhos se não houvesse montanhas? há sol porque há mar e terra e eu só existo porque a terra me aceita nesta posição de queixo nos joelhos. com braços apertados ao coração a olhar o mar num silêncio feito de um vai e vem de água que também é memória – ali fico. incrivelmente estático. a olhar o movimento da maré. e tudo que é mundo vem para cá e logo de seguida o mundo todo parte para lá. e as gaivotas voam por cima dos meus sonhos num ir e vir igual ao mundo – como gosto de gaivotas. não me canso de as ver. fico sempre com a ideia que são elas que guardam o mar. sempre tão elegantes. tão livres. tão cheias de vento. tão donas de si. gostava de ser assim – nunca lhes vi uma ponta de medo nos olhos. mesmo quando o vento norte está furioso – no corpo um silêncio total. e tudo que é sonho a lutar com braços que já não chegam para tapar os olhos – desaparecem aos poucos os sonhos e tudo é igual à última agonia dos afogados. tudo na cabeça. tudo tão real. tão certo. tão fácil de alcançar. e afinal ali vão eles. para lá. enrolados em espuma e sargaço morto. e tudo que era certo cada vez mais para lá da rebentação. mais longe. e os olhos a deixar cair o silêncio à areia. talvez vergonha. talvez cansaço. talvez o corpo seja mais humano do que eu imaginava e o que era confiança é incerteza. talvez tenha chegado a hora certa para desistir e partir – não tenho medo da morte. nunca tive – a certeza do meu mundo foi minha no passado – amargura com sal – aqui estou a ver o fim de um horizonte que não vou alcançar. a dor a dizer que estou vivo. arranho-me. rasgo-me. atiro contra o corpo o que tenho para sobreviver e tudo por dentro a queimar e os gritos abafados não saem para não estragar o silêncio do mar a trazer para terra tudo que não presta – ali estou eu em pedaços que não sei contar. nem juntar. nem entender. espalhado pelo areal a servir de alimento a caranguejos que se alimentam de sonhos mortos – o que o mar leva vivo traz morto – nenhum sonho sobrevive a tanto mar – o mais certo é já estarem afogados ou talvez quem sabe estão amarrados a uma apara de madeira a resistir às tempestades feitas a norte – é preciso evitar a morte de quem sonha – o que seria do mundo sem sonhadores? não sei. não sei mesmo. e também não sei imaginar – bem gostava de saber algumas coisas que me fazem falta para poder continuar a sonhar. mas não sei. cada vez sei menos – quem sabe foram engolidos por uma orca assassina ou levados para o fundo do mar por um polvo gigante. que de tão enorme e pesado. só consegue vir à superfície uma vez em vida – se assim é escuso de ter esperança. já estive à superfície uma vez. era criança e o meu pai segurava-me pelo queixo enquanto me dizia para mexer as mãos e os pés em ritmo acertado com a respiração. mas eu teimava em fazer à minha maneira – não adiantou. quando me tirou a mão não me  aguentei. afundei – nunca fui capaz de ficar de barriga para o ar em cima da água. boiar. fingir que era barco à vela. a bolinar a vento bom. sentir o céu a correr atrás das nuvens e o grito do marujo-vigia a sair com raiva dos pulmões: terra à vista. terra à vista – mas não. nunca avistei as terras quentes do sul. nunca me aguentei muito tempo a boiar. a água tapou-me os olhos e logo de seguida a boca. talvez não quisesse que eu visse a sorte. e falasse muito menos. sempre tive o coração ao pé da boca – raio de feitio. nunca abdiquei de dizer o que pensava mesmo quando o silêncio é bom senso – e eu ali sentado no areal. encutinhado. enroscado em mim. a parecer mais pequeno do que sou. e os olhos parados naquela imensidão de água – ali estou. só. sentado. sentido e delimitado por um pedaço de terra ora seco. ora molhado – esta coisa das marés fascina-me – faz silêncio em tudo que é lado. na terra e no mar. dentro de mim também. tudo é feito de silêncio. o coração bate em silêncio. o sangue corre em silêncio. os ouvidos ouvem em silêncio. os cabelos ondulam em silêncio. até a brisa norte corre para sul num silêncio de arrepiar o corpo – o movimento do meu mar faz um silêncio que me abraça com força – ali fico eu a olhar o que me resta do mundo – o que no mar nasce ao mar tornará. lágrima



09/05/2014

florbela espanca









“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!”



08/05/2014

correspondência violada - 01




imagem google
 
 

e agora.

como resolvo estar vivo se é na morte das palavras que nós encontramos as mãos com que escrevemos
como faço para estar vivo se é com a tristeza da perda que as minhas gaivotas voam
diz-me
diz-me
se morrer é esta coisa de dizer coisas sem sentido
se morrer é abraçar as tuas palavras como se fossem tiradas de dentro de mim
se morrer é gritar pelas cores que enxergo no que escreves
e eu cada vez mais negro
-
encosto-me
encosto-me numa marquesa que já foi rainha
e escrevo
nunca fui nada
penso.
quero pensar nesta garganta que já não faz barulho
e o vazio é enorme
vai daqui até dentro do meu dedo indicador
-
onde está a aguardente
quero queimar a voz
as palavras tem que nascer roucas
como o coração
rouco de gritar por socorro
e eu só
morto sem saber


só tu aí me ouves

 
-


correio privado com a minha querida amiga vânia - abril de 2012



04/05/2014

ilusão




ron mueck
 



as grandes metragens cinematográficas quase sempre terminam com o artista a resgatar a amada do tirano malfeitor – é o triunfo do bem sobre o mal – um abraço. um beijo nos lábios forte. e os corpos fundidos num só para sempre – a plateia em pé cauciona com palmas a felicidade eterna: muitos filhos e só a morte os separará – the end – o mundo da ilusão acabou – o momento é real. os corpos tomam a verticalidade. o conhecimento apruma-se. olha em frente e parte para o mundo inteligível – guardam-se apressadamente os lenços encharcados de sentimento. a condição representa a verdade da ocasião. mas as ideias querem-se enxutas – caminha-se – há de novo razão dentro dos corpos. a felicidade não é eterna e a realidade é sempre traçada a partir de  microssegundos. alguns fatais – entrar no filme certo da vida requer habilidade. conhecimento. inteligência. e porque não uma pitada de sorte – sempre ouvi dizer que a sorte dá trabalho para caraças. a ventura não nasce para todos. não – é fundamental ter ao nosso lado os atores certos para um filme único. sem ensaios. sem cortes. sem homem ponto. sem holofotes. sem pancadas de molière. sem merda. nada do que é feito tem volta atrás – uma arte complicada. ajustável a uma única fórmula matemática de resultado quase sempre incerto e com uma variável aplicada à velocidade com que nos adaptamos ao imprevisto    o homem das cavernas evoluiu. adaptou-se. e agora o fogo é instantâneo: a fricção das pedras substituída pela lixa e o fósforo – atrito. faísca. e a explosão acontece. o calor-luz aparece para dar racionalidade aos corpos. nas paredes as sombras são agora a verdade projetada em dobro para o bem ou para o mal – é indiferente para este mundo aligeirado saber que a verdade permanece em todos os espermatozoides – ninguém quer saber quem é o dono do bem se é o mal que traz a esperança – o homem da vida real esqueceu que só a partilha justa produz harmonia – andamos todos enganados.

 

2.

não esqueças de te portar bem. não mintas. não faças asneiras. não contraries os teus pais. respeita os mais velhos. reza sempre ao deitar e vai à igreja receber o senhor para ficares protegido dos demónios e das más tentações

– as recomendações para a felicidade plena continuam

faz os deveres da escola para um dia seres um homem importante. para seres alguém na vida. não queiras ser como o teu pai. mata-se a trabalhar e nunca tem nada. põe os olhos miguelinho. agora que é doutor já não lhe faltam companhias – o futuro está nas tuas mãos. faz-te um senhor para não teres que andar a contar os tostões – receita para uma felicidade eterna tal e qual como no cinema: um artista doutor. fama. espectadores-clientes e a vida a sorrir – caminha-se – a esta gente ninguém lhes disse que a vida também pode ser um filme onde as nossas verdades se apagam com o acender das luzes – embuste. esperança armadilhada para os pais e para os filhos – pai uma vez. pai para sempre – mataram a fome com a livros cheios de saber comprados com trabalho de sol a sol.  e nas mãos a aspereza do sofrer em alegria. nos olhos a vaidade de verem os filhos crescer com sapatos que nunca tiveram. na boca a felicidade feita de carne da minha carne

“Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. a hora mágica chega sempre." [hermann hesse]

havia fé até nos nobéis da literatura – a hora mágica vai chegar – a idade vai passando com alegria nos corpos doridos de tudo. fé – talvez haja outro mundo melhor para quem sofre por amor – os filhos são sempre tão imensos para um mundo tão apertado – o tempo passa – finalmente vão poder descansar. sentarem-se numa sala de cinema. e em paz. saborearem com prazer um filme da sua juventude. uma daquelas velhas películas do western americano. onde mais uma vez o bem derrota o mal num duelo marcado para o pôr do sol – frente a frente. desta vez. o artista apesar de ferido vence a ganância. saca da pistola com balas feitas de sacrifício. num gesto rápido. o mais rápido de sempre em filmes de cowboys. crava uma bala-estaca de tudo que há de bem no corpo do capitalismo selvagem – o mundo dos que amam incondicionalmente ganhou mais uma vez no grande ecrã – finalmente justiça

 

3.

na parede uma luz delicada indica em forma de seta a saída: exit – a geometria perfeita do espaço perde a estética – plateia vazia. primeiro balcão vazio. segundo balcão vazio. frisas vazias. tela vazia e o que era gáudio é agora um aglomerado de cadeiras perdidas num vazio cheio de nada – de cadeira para cadeira difere apenas um número e uma letra de um abecedário que nunca servirá para dizer o que quer que seja – o impar e o par trespassados por uma passadeira vermelha. cor de sangue sujo. puída por um vir imaginário-esperança e um ir de nostalgia-desgraça – há agora um silêncio que não sei escrever. talvez um silêncio-espera. como se a gravidade terminasse e o barulho ficasse parado no ar. numa cena de amor. talvez num beijo do clark gable na marilyn monroe. ou então. quem sabe. o aparecimento inesperado do homem aranha pendurado nas teias da vida – tudo é uma teia. a vida é uma teia – isso é que era. um herói de carne e osso. a falar a mesma linguagem dos mortais. com as mesmas mágoas. com os mesmos malabarismos de equilíbrio. deixa cair das mãos fios de seda pura que não servem para nada – encantamento. ilusão. magia – há quanto tempo não temos um herói. viriato o mais antigo. d. joão II nos descobrimentos. camões por ter perdido um olho para um povo que já quase não existe. e o tempo a passar sem nada. só reis. e um dia uma república que nunca trouxe fraternidade. igualdade e liberdade. não trouxe nada. o herói da modernidade é o túmulo do soldado desconhecido. somos todos nós – há um silêncio-espera que parece não ter fim

[nem sei bem se este silêncio-espera pode ser escrito – talvez esteja a ficar irracional – espero que me compreendam]

 

4.

novas aparições de humanos só na próxima sessão – tudo que é vida vai nos corredores – os corpos  movem-se num caminhar pós-morte. buscam a luz para apagar dos olhos o testemunho da consciência afetiva – resistem os fracos. poucos e com escassas provas da sua humanidade: nariz fungoso. olhos inchados e a face tomada por feições amenas de mortalidade – todas estas provas num tribunal não serviriam de nada. qualquer juiz medíocre diria que se tratava apenas de uma constipação ou em último caso. uma alergia ao pó fabricado por multidões a correr apressadamente para a indiferença: exit – a consciência afetiva não sobrevive com a chegada dos corpos à rua – finalmente todos na vida real – só a morte é igual para todos

como escreve lobo antunes: arte é longa. a vida breve  – tal como a vida também o belo do cinema não é eterno

 

 




01/05/2014

vladimir vladimirovich nabokov




vladimir vladimirovich nabokov


 
 
citou Vladimir nabokov: “Penso como um génio, escrevo como um vulgar homem de letras e falo como um idiota”.
cita sampaio rego:  “penso quando posso. escrevo o que posso e falo como um idiota mesmo quando não devo” 
quem diria que tinha tanto em comum com o camarada vladimir

moral da história: és o que és – por muito que tentes ser outro acabas sempre em ti


 
- biografia retirada da wikipédia –

Vladimir Vladimirovich Nabokov (em russo: Влади́мир Влади́мирович Набо́ков; São Petersburgo, 22 de abril de 1899 — Montreux, Suíça, 2 de julho de 1977) foi um escritor russo-americano. Nabokov escreveu seus primeiros nove romances em russo e então chegou à fama internacional como um mestre estilista de prosa em inglês. Também fez contribuições para a entomologia e tinha interesse em problemas de xadrez .

Lolita (1955) é frequentemente citado entre seus romances mais importantes e é o mais conhecido, apresentando o amor por intrincado jogo de palavras e o detalhe descritivo que caracteriza todas as suas obras. O romance foi classificado na quarta posição na lista dos 100 melhores romances da Modern Library. Sua autobiografia intitulada Speak, Memory foi listada na oitava posição na lista dos livros de não-ficção da Library Modern.3

Nascido numa família da antiga aristocracia, em 1919, a instabilidade produzida pela revolução bolchevique (1917) obrigou-o a abandonar a União Soviética. Estudou em Cambridge e licenciou-se em literatura russa e francesa. Mudou-se para Berlim, onde iniciou sua produção literária e intenso trabalho como tradutor.

Em 1926, foi publicado seu primeiro romance, Maria, acolhido com interesse e consideração. Fugindo dos exércitos nazistas e após uma estada em Paris, chegou em 1940 aos Estados Unidos, onde se dedicou ao ensino de língua e literatura russa em várias universidades. Embora continuasse a escrever na sua língua materna, começou também a escrever em inglês, publicando o seu primeiro romance nesta língua em 1941 (The Real Life of Sebastian Knight). Publicou, em 1955, o polêmico romance Lolita em inglês.

A partir de 1958, o sucesso alcançado por seus livros permitiu-lhe dedicar-se inteiramente aos seus principais interesses, a literatura e a entomologia.