.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

17/04/2016

tudo o que me resta é a memória – 17 de abril de 2016







prefácio de autor
tudo o que me resta é a memória e dentro desta guardo uma vida com mais de milhentas vidas – sei que não me posso recordar de cada fragmento de tempo. de cada voz. de cada face. de cada sorriso. de cada flor que me ofereceram. ou de cada lágrima perdida em estados de alma que nunca serei capaz de explicar – de manhã sou um. de tarde outro e á noite sou o da manhã. o da tarde e o de mais uns quantos que não vivem em nenhuma parte do dia – sei que estou a envelhecer. na alma também. sei que os olhos teimam em ver o óbvio. que o amor é toque. e que as mãos se recusam cada vez mais a trazer a dor ao corpo – não se escreve sem dor – faço anos. envelheço. sei. sei. e sei que este saber é ardor – sei que me rasgo em cada aniversário. sei que corto os pulsos. sei que arranco a língua. e sei que me suicido por cada vela. por cada voto de muitos anos de vida. por cada desejo de que viva o dobro do vivido – sei que cada aniversário me traz a confirmação da falência dos órgãos. da imobilidade. das rugas. dos cabelos brancos. da dependência e da falta de independência – a morte também acontece em fascículos – estou a ficar sem tempo para tanta coisa que ainda gostaria de vos entregar. coisas minhas. simplicidades que no vosso sentir pode não significar nada – mas creiam-me. se hoje vos escrevo é porque amo a vida com todos os seus humanos. todos mesmo. pois a todos eu devo tudo o que aos vossos olhos sou – hoje é um dia especial. sei-o porque tenho memória e é dentro desta que vos guardo em gratidão – e por isso vos digo: obrigado por caminharem comigo
1.   pretérito
o meu mar – a primeira vez que senti a imensidão do meu mar tinha os meus doze anos – as recordações anteriores não eram do meu mar. eram de um mar de todos: da família. dos amigos de verão. das barracas de pano listado. do homem de branco a gritar língua da sogra. do cabo-de-mar. dos chocolates regina e de uma areia capaz de guardar para sempre cada amor ali enterrado – no passeio alegre os altifalantes anunciavam uma tristeza que não existia “o toque de silêncio” era abafado pelas brincadeiras da miudagem. dos castelos de areia. da bola da NÍVEA. das caricas. dos búzios. da chegada dos gelados OLÁ que se derretiam em mil e um encantos – éramos felizes – o sol sucumbia num vagar que só o mar entendia e os barcos no horizonte diziam-nos que o mundo é um ciclo. redondo. permanente e inesgotável – as ondas recolhiam-se num silêncio medroso enquanto o vento norte sacudia do areal as últimas toalhas de praia – era hora de recolher a casa – chegava o banho quente e a salitre partia agrilhoada a milhares de grãos de areia polidos pela alegria de quem tinha passado o dia aos mergulhos – a toalha nas mãos da minha mãe limpava-me de todos os males – o mundo era eu – pela noite a sarronca anunciava mau tempo para os adultos – era hora de ir para a cama. os sonhos nas crianças nunca esperam pelo dia seguinte – boa noite papá – chegara o momento de receber de volta o beijo do meu pai que às primeiras horas da manhã partia para o trabalho – acercava-se o sono. o silêncio. e as estrelas em sussurros pediam aos anjos para me levarem a alma para a dimensão do faz de conta – nunca mais descobri esse mundo – ali permanecia eu enroscado nos sonhos e nos agasalhos dos meus pais – a família é um compromisso de afetos – à família acrescentei os amigos e com estes construí a idealidade do meu mundo – hoje sei que é o sonho de todas as crianças do universo – agosto sempre será um mês de saudade e de encontro de mares
2.   encontro
final da tarde. sozinho. como sempre gostei de estar – as gaivotas num voo planado sacodem o vento norte em várias direções. enquanto eu. sentado num corpo dorido. descubro pela primeira vez um mar que nunca tinha sido meu – ali estávamos os dois: eu e um mar imenso – para mim tão desconhecido como os mares de vasco da gama – naquele momento. toda a solidão do mundo estava no molhe da póvoa de varzim – descobri a infelicidade – tomado pelo vento. ali estava: tranquilo. estático. disperso entre o partir do sol e a chegada de uma noite que nunca mais acabou – pela primeira vez percebi que a felicidade é o sal da vida. uma pitada a mais e somos salgadamente infelizes. uma a menos. e ficamos perdidos para sempre numa infelicidade insossa – nunca mais me desliguei do mar. da infelicidade e da noite – adotei o mar e as gaivotas para me acalmar e é junto deles que me sinto sempre mais perto da justeza com que me quis construir – mas mar é mar. ninguém por mais forte que seja pode escolher o mar que lhe toca – o meu mar é apenas o meu mar e a mais ninguém interessa o seu estado – no meu mar só eu sei navegar
3.   essência
no meu mar haverá sempre um pai. uma mãe. filhos. netos. nora e uma mulher que é maior de que todos os mares que inventei – há uma ua maternal. uma irmã de luz e um irmão de paz – há sobrinhos. sobrinhas e há outras sobrinhas que vi nascer e são sangue do nosso sangue – há cunhadas. cunhados. sogra e um sogro que podia ser meu pai – há amigos que já partiram e há outros que vivem dentro de mim – há amigos de cá e outros amigos de acolá. e há aqueles que são de cá e de acolá – há amigos especiais que não sabem falar mas que me aceitam com um único latido – há uma família enorme que vem de tempos e terras que a história não sabe contar e traz nos gestos a essência do que melhor há em nós – no meu mar há uma família ao nascer e a mesma ao morrer – é no meu “mare nostrum” que um dia encerrarei o meu corpo – e nada levarei comigo a não ser o seu perdão
4.   epílogo   
no meu mar há gaivotas de todas as cores e desejos enterrados em ilhas imaginárias – há marujos de camisetas listadas. há piratas bons e piratas com pernas de pau – no meu mar há deus. fé. oração. pecado. perdão. ato de contrição e milagres por realizar – há sonhos grandes. pequenos e sonhos que nunca se tornaram realidade e também há realidades que nunca vi em sonho – no meu mar há peixes apetecíveis. horríveis. ferozes. meigos. contrafeitos. autênticos e outros que por serem bonitos não cabem em mar nenhum – no meu mar há peixes negros. amarelos. brancos. e também há peixes com cores que não sei explicar – há gaivotas tristes. felizes. assim assim. e há gaivotas que querem partir para terras que desconheço – no meu mar há peixes como eu e peixes que não são como eu – há peixes miscigenados com amor de outros peixes e peixes que por serem apenas peixes desconhecem o amor – no meu mar há peixes grandes a comerem pequenos e pequenos a comerem o que podem para não serem tão pequenos – há peixes esguios. e não esguios. redondos e não redondos. quadrados. e outros que ninguém sabe dizer muito bem como são – no meu mar há peixes que nunca tiveram um livro e há livros que nunca foram lidos por não haver um único peixe que o quisesse ler – há ilhas cercadas de sol todo o ano e ilhas cercadas de coisas inúteis – no meu mar há barcos com gente a olhar os peixes e há gente à procura de um único peixe – há medo. mistério. naus. fantasmas. tesouros e amores escondidos num areal que já não existe – no meu mar há canhões. arpões e mosquetes com palavras que depois de disparadas são balas – há lugares de luz e lugares onde as sombras escondem as memórias de uma juventude que não esqueço – há lua cheia. estrelas do mar e sem ser do mar também e há ondas gigantes que carregam amigos que já não voltam – no meu mar há uma única varanda virada a sul e muitas outras viradas a norte – há desgosto por coisas que não fiz e também há desgosto por coisas que fiz – no meu mar há homens que nasceram do mar e há homens que um dia o mar levará – neste meu mar sou isto tudo que vos escrevo mas também sou o que cada um quiser levar de mim – aceitarei o vosso olhar. aceitarei o vosso juízo. aceitarei a vossa pena – peço-vos perdão por tudo que não consegui ser – estou quase de partida. há mares que não esperam


12/04/2016

putrefação




foto - sampaio rego



nas palavras
silenciosas
sofro

[...]
putrefaço-me
[...]

e do cheiro pestilento
o corpo reclama
mais dor
por não as declamar

[covarde. digo eu]


08/04/2016

símile




foto - sampaio rego
 
 

rabisco
afolho as palavras
na armação do tempo
o arval suspira
alinho as sementes ao sol
adubo-as com pequenos reparos
gulosas em minúsculas
é hora do lusco-fusco
entrego-me ao sono

jornaleiro



05/04/2016

o grito


 
voz - maria joão
 
 
 

dizem por aí
que se diz muito em poucas palavras
às vezes acredito
penso que sou poeta
iludo-me
e quero acreditar
que sou fenomenal
único
e mesmo sem falar
basta-me um gesto
para ser um génio do amor
translúcido
penso eu.
então digo-me:
é verdade
não escrevas
não fales
sorri apenas
alguém acreditará que és especial.

 

mas depois
já nu
de tanto meditar
escolho um mundo:
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
aqueles que são poetas só às vezes
esfrego os olhos
e vejo
lá no fundo
onde a luz é escassa
e as sombras são vida
o choro
esse…
que nunca se ouve
é onde os poetas de verdade se tornam homens
onde nascem as dores
as desilusões
as emoções
as perdas
as saudades
as pessoas perdidas
os tempos passados
ou mesmo um grande esforço
para se ser aquilo que nunca se será
e aí…
sinto a falta das palavras.

 

revejo os sons
do que poderiam ser palavras faladas
mas afinal são vaidades
de apenas terem tempo
para o ego

 

descubro então
que afinal
os poetas nada dizem
eles
dizem que dizem
porque escrevem
mas não transpiram
não ofegam
não sorriem
não tocam
não negam
não gemem
não olham
são papel…

 

mas eu
homem deste mundo
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
esgotado para todos estes poetas
digo-lhes:
digam-me na cara
nos olhos
nesta alma que chora
nesta vida que também é vossa
digam-me
apenas mais que uma palavra
mesmo que seja
gosto de ti

 

mas não
não…
desculpem
não chega
eu quero mais
quero que falem
de vocês
de mim
do vizinho
do irmão
do vosso amigo
do meu amigo
do mundo
do vosso mundo
quero-vos sentados
quero-vos ao meu lado
quero esse vosso olhar
mesmo feio
ou bonito
não interessa
só quero que não escrevam
quero que falem
não se calem
falem
sejam poetas de verdade


 

04/04/2016

autofágico




foto - sampaio rego

 

 
escrevo – quem diria que um dia passaria o meu tempo a escrever o passado – aprendi a escrever faz tanto tempo – ainda me lembro muito bem da minha professora primária - dona felismina. que bonita que era - e de um diploma que trouxe para casa - dezassete valores. aprovado – devidamente assinado e autenticado com selo branco escolar – um orgulho de diploma. ainda o guardo – em casa tudo continuou como dantes. os diplomas só valiam quando davam títulos
 
- - gostava tanto que fosses dentista -  dizia a minha mãe
 
mas eu queria ser bombeiro. o risco. a vaidade com que enfeitavam as fardas de medalhas. as sirenes. os carros vermelhos. as escadas suspensas a vozear presa enquanto a esperança se aguentava pendurada em mangueiras aflitas – eram homens bonitos e transportavam com eles uma inesgotável e merecida reverência – eram os soldados dos afetos – passou tanto tempo – agora sei que apesar do diploma nunca aprendi verdadeiramente a escrever. uma mágoa que nunca irei sarar – também nunca cheguei a bombeiro – mas daqui não me resta dor. não se perdeu um grande soldado da paz – estou em guerra comigo desde que nasci – fiquei-me pela arte de juntar letras e assim me dar a entender. com muito custo – resumindo: sou um minúsculo escritor autofágico. alimento-me de tudo que é meu para escrever – e assim vou adiando a morte



02/04/2016

nuit dês rêves - noite dos sonhos






foto - sampaio rego



 
que vos dizer amigos...
de mãos dadas
com a paixão dos tempos
que por mim passaram
sou feliz!
de um lado a torre eiffel.
do outro l´arc de triomphe.
hoje. também meu
em degustação
o dinêr;
“pavé de rumsteak grillé”
e um bom vinho de bordeaux
pelo olhar deixo cair um je t`aime
em surdina recebo um olhar
depois.
um leve pisar do pé
e assim vivo
chegam “les deserts”
“mille-feuille a la vanille bourbon”
sem poder reclamar o coração
diz mais um olá.
somos assim!
agora. aproveitamos o tempo
café. s´il vous plait!
entre abraços congelamos o frio
somos afinal meninos
e em chamas deslizamos
pelo champs-elysées.
em branco. pela iluminação
que agradece
acendemos mais uma luz.
nesta cidade de luz
paris afinal necessitava de nós.
assim!
despidos para a vida.
é noite.
e por aqui andamos a escrever
o que um dia será passado
nosso. e de quem nos lê





01/04/2016

1º abril




foto - sampaio rego



bem sei que este é o seu dia favorito. né
mas sabe: este não é o meu dia e para ser o seu teria que ter a sua mentira como verdade
 
nunca tive
 
 

27/03/2016

ego





foto - sampaio rego
 
 

perdi a sombra
 
e agora?
estarei só?
ou apenas perdi a luz?
na busca da alegoria
voltarei a viver em caverna

se a sombra voltar.
então…
serei outra vez eu.
alma racional.
onde os olhos
a preto e branco
nunca serão
privados da verdade



22/03/2016

vocábulos dubitativos




foto - sampaio rego
 
 

 
sempre que rabisco
crio retábulos
esculpidos em arte nobre do dizer

aos que contabescem
deixo uma diaporese

[nasce o silêncio em formato de
interrogação]

onde acaba o homem
e morre o escritor

 

 

21/03/2016

o poeta




foto - sampaio rego
 
  

o poeta é um ser estranho – encavalita-se no sujeito poético para dizer que não disse o que disse – a culpa. sentimento de mal-estar humano. faz balançar a escrita do seu criador entre a verdade. a meia verdade e catapulta fingida  – o arremesso da alma ao leitor é o desafio – e o sujeito oculto dissimulado em gargalhada fina – pobre poeta. inimputável  para o mal. venerado para o bem – um ser estranho é o poeta



18/03/2016

nunca sei o que fazer com este mês




foto - sampaio rego
 

 
março – nunca sei o que fazer com este mês – março é o mês da primavera. dos dias a crescer para o imenso. do entendimento entre a noite e o dia. do vento franzino atado a um papagaio de papel. das crianças enganchadas a raios de sol delicados – março é memória. ternura. esperança e alento – março é verde. é flor. é pólen. é andorinha. é braço tatuado de um amor interminável – no mês de março sou pai. sou filho. sou saudade. sou arrependimento. sou perdão. sou quase nada. sou quase tudo – sou pai orgulhoso e filho saudoso – sem março ignoraria a verdadeira importância da saudade – se não houvesse o mês de março talvez o meu pai não tivesse partido pelo estreito silêncio dos hospitais – mas março chega logo depois do inverno e no inverno os corpos perdem-se no escuro das noites e da mudez – no teu inverno as bocas calaram-se em dor – a tua e a minha – podia ter conversado. podia ter dado as mãos. podia ter colocado o ouvido no teu peito e guardar para sempre o batimento que te levou – podia ter-te ajeitado o cabelo para o melhor lado. fazer um ternura. trocar todas as minhas lágrimas por uma única tua. uma que trouxesse um pouco de mim. uma recordação da tua memória – podia vestir-te a calça bege vincada. o casaco azul marinho de trespasse. juntar-te ao peito um lenço cor do céu. ajoelhar-me e pedir-te perdão por ter sido demasiado jovem ao teu lado – tu sempre gostaste de gente jovem – podia pôr-te novamente de pé. endireitar-te para um mundo onde nunca te vi curvado – mas março é março – e tudo que posso agora fazer é recordar-te no sorriso e na bondade – sei que o céu continua em festa – meu pai – o mês de março nunca me irá compreender – quando envelhecemos ficamos a saber tantas coisas do nosso pai – hoje é dia do pai – faz hoje dezoito anos que te escondeste para sempre debaixo daquela terra maldita – foi a tua última viagem num silêncio que não para de magoar – era dia do pai – hoje. ainda é dia do pai



17 de março de 1998




 
 
 

sempre me senti só aos domingos. nunca entendi muito bem a metamorfose do corpo ao sétimo dia – no passado. em minha casa. este dia era dedicado ao senhor

     – hoje já não há senhores em minha casa. o último a bater com a porta foi o meu pai 

não gosto do domingo. mas gosto do silêncio dos domingos. gosto da sensação do não barulho. do não movimento. dos cortinados parados. das cadeiras arrumadas em círculo a apertar de lamentos baixinhos a mesa oval – a mesa era redonda mas como eramos muitos o meu pai mandou fazer um aumento que permitia sentar toda a família à sua volta – a mesa ficava oval mas para mim era redonda. um redondo perfeito

     – desde que o meu pai partiu nunca mais conseguimos tirar o aumento ao centro da mesa  

a mesa oval está cada vez mais imperfeita. deve ser da forma geométrica. excêntrica – sempre achei que a forma oval nasceu porque alguém não sabia fazer redondos – os redondos são perfeitos. o sol é redondo. a terra é redonda. a lua também. os olhos são redondos. tudo que é redondo é perfeito. o redondo não tem princípio nem fim. o meu pai também não – o meu pai era perfeito e a mesa oval só era perfeita com ele à mesa – com o meu pai todas as formas geométricas se transformavam em redondos mais-que-perfeitos

    – o meu pai era um homem redondo. não tinha uma única aresta. a vida deslizava por ele como se o corpo estivesse inclinado para o centro do universo

mas a mesa ali estava. inerte. quase morta. perdida no silêncio de todos os domingos – enfeita-a com vida um napperon de linho bordado à mão pela minha mãe. aformoseada por um centro de mesa em louça fina. também oval com uma tampa com furos para segurar flores que a minha mãe substituiu por plástico. duram para sempre – se pudéssemos fazer o mesmo ás pessoas

 


09/03/2016

vou para o inferno III




foto - sampaio rego



3.

não sei – não sei muito bem para que um deus haveria de criar esta coisa redonda que gira como giram os carrosséis – não se faz ninguém feliz com coisas que giram sempre para o mesmo lado – se queria ter um povoado feito de gente feliz criava um céu sem girar. nem precisava de ser um grande céu. bastava que fosse igual àquele que me impingiam nos livros da catequese – anjinhos com asas. cascatas de água translúcidas. pombas brancas e um sol que se desfazia num amarelo silêncio que era ao mesmo tempo paz – tudo perfeito – a harmonia exemplar entre a natureza e o homem – diabo. nem vê-lo

– “portanto. submetam-se a deus – resistam ao diabo. e ele fugirá de vocês”

mas não. deus criou uma coisa redonda que gira como os carrosséis. criou este mundo que é tudo para uns e nada para outros – obstinado. sim –  doentio. talvez – cavalos. girafas. zebras. cestos que rodam sem parar. bicicletas. triciclos e outras coisas que servem para dar cor e animação a um mundo que não sabe girar sem ser em torno de si – o homem não sabe viver sem animação – e a voz no microfone a falar para o mundo inteiro. e o mundo surdo pelo cansaço de nada ouvir quando está em diversão – nada. sempre o nada – o mundo foi desde sempre um divertimento – para deus é com toda a certeza

– mais uma volta. uma nova corrida. uma nova viagem – e a vida toda feita a girar

deus concebeu este carrossel e é dele a voz nos altifalantes – diz que está em todo lado – mentiroso – mas vou continuar com o meu lado criativo. adoro este lado. faz-me bem. distorce a realidade sem me distorcer nada por dentro – lá vem o nada ao de cima novamente – certo dia. deus. há muito muito tempo. estava deprimido. depreciado. desfeito em tristezas. mergulhado em pastilhas de suporte de vida – prozac celestial era a terapia contra a infelicidade – o momento não era fácil. o desespero roubava-lhe lucidez – a depressão era um castigo que o atormentava nos seus silêncios eternos – profundamente triste. esgotado numa dor contínua que lhe atrasava os braços nos compromissos etéreos. ao mesmo tempo que a consciência sensível ia perdendo a salubridade – para pôr fim a esta agonia que anunciava uma morte impossível de acontecer. deus não morre. tomou a seguinte decisão: fazer a terra – é o que eu congemino neste pequeníssimo cérebro – ninguém com o perfeito juízo fazia uma terra com gente como eu – deus não estava bem – falo por mim que sou um pateta e tudo o que penso não serve para nada – mais uma vez o nada

– os meus pais. distraídos. compraram-me um bilhete – naquele tempo os métodos anti concecionais não eram fiáveis – era o tempo do termómetro

apanhei a última cegonha com destino á minha rua – nunca me senti indesejado. bem pelo contrário. foi a vontade de deus como diz a minha mãe – eram tempos difíceis para as cegonhas e para as famílias – muitas lágrimas aportaram os olhos da minha mãe

– e agora como vai ser para criar este menino. como vai ser meu deus. tu sabes que já não sou nova – era assim a apoquentação da minha mãe

duvido que deus soubesse de alguma coisa. mas se algo lhe tivesse assobiado aos ouvidos. tenho a firme convicção que não lhe passava pela cabeça o tamanho da encomenda que lhe chegava em  aborrecimentos – e lá vou eu no carrossel. num cesto que gira sem destino – gira para esquerda e para a direita e nenhuma mão capaz de  dar rumo ao cesto – nem a mão de deus – enquanto as zebras e os cavalos nobres. num galope celestial. certo. com direção. com altivez. elegância. de olhos postos no destino. percorrem tempo num acerto que nunca fui capaz de reproduzir – e o cesto a rodar sem parar e eu perdido em voltas sem saber – “deus ao menino e ao borracho põe a mão por baixo” – nunca fui menino. nunca fui borracho. cresci no dia em que nasci. cresci para fora do corpo e nunca fui capaz de segurar o olhos dentro do tempo certo – há um tempo certo para se fazer o que está certo

 
– nasci preso às asas de uma gaivota rumo a um vento que nunca me entendeu 

 
os carrosséis não giram da mesma forma para todos – o ar dos cavaleiros também conta para dar brio ao carrossel – eu lá vou todo desengonçado a girar para um lado e para o outro. sem saber se vou para norte. ou para sul – que importa se o banco só gira para os lados – os lados não tem norte ou sul – enquanto giro. os altifalantes gritam alegria. só as zebras e os cavalos se mantém  aprumados com o rumo do carrossel. tudo o resto vai para onde calha – vai para cima e para baixo. para um lado ou para o outro este cesto alucinado – ir sem rumo também é destino – tudo roda sobre mim – quem roda unicamente sobre si nunca saberá encontrar o verdadeiro caminho que lhe falta percorrer – o deus que me impingiram em criança não fazia isto. deus não é injusto. não é xenófobo e a minha rua é igual a tantas outras – ele tem obrigação de saber que não fui eu que escolhi aquela  cegonha tresloucada e muito menos escolhi o deus a quem rezar – no primeiro dia deus criou o dia e a noite e os carrosséis
 
 
– “e lá procurarão o senhor. o seu deus. e o acharão. se o procurarem de todo o seu coração e de toda a sua alma”
 
 
se te procurei foi por ordem da minha mãe. e também foi por sua ordem que frequentei a tua casa. apesar de nunca te ter visto por lá – fiz o que me mandaram e se te aborreci foi sem querer – deus não pode ser assim tão injusto. já não falo por mim que estou habituado desde pequeno ao seu silêncio. mas por aqueles que nunca se cansaram de acreditar nas orações que lhe consagram diariamente – deus não pode continuar a esconder-se no silêncio – deus se existisse não era injusto ou então não está em todo lado como faz acreditar

-- deus está cansado – imagino eu que também já estou cansado do seu cansaço

acredito que deus não é o responsável pela pasta da equidade no céu. tem um capataz a quem delegou todo a justiça terrena – concebo-o sisudo. com um bigode farfalhudo. voz grossa e a face cheia de cicatrizes de escaramuças – o feitor coloca-se à porta do céu e quando chega o pecador é com ele as primeiras falas – olha para o aspeto do pobre infeliz. e sem mais nenhum trato. dá-lhe um pontapé no rabo e diz-lhe sorrindo:

-- senta aí. alguém te virá buscar – e psiu! pouco barulho que o senhor teu deus está a descansar

e assim estou. sentado e ainda não entrei no céu – tratado como um verdadeiro nada – espero que alguém me mande para algum lado. um lado sem lado. um lado que por ser redondo abrace todos os pretensos lados renovando a fé dos indecisos com um novo lado mais justo. o lado que me faça aceitar o dever de gratidão por fazer parte deste mundo – o jogo de deus

– i love this game

apesar de não saber escrever. e esta missiva estar um pouco confusa. sei que um dia deus responderá a todas as minhas dúvidas – contrapondo: “abençoado são os teus olhos. porque veem; e os teus ouvidos. porque ouvem. pois. mesmo sem tê-lo visto. tu o amas; e ainda que não estejas podendo contemplar seu corpo neste momento. ”crês em sua pessoa e exultas com indescritível e glorioso júbilo” – qualquer idade necessita de ter um deus de verdade – na minha idade só preciso de um deus para me retirar para a barca – tenho que levar a moeda certa na boca – preciso de acreditar num ser superior – preciso de um deus – preciso que os meus filhos possam continuar a crescer como homens de bem e que sejam capazes de o encontrar onde eu não consegui – preciso que sejam sempre fortes e corajosos em seu caráter. afáveis com as demais pessoas. bondosos. amantes da paz – preciso que valorizem o trabalho. a justiça. a nobreza das ações acreditando sempre que um dia serão capazes de ouvir da sua boca que valeu a pena acreditar num deus que já foi o meu – preciso de um deus para lhe entregar as minhas preces. os meus medos. os meus receios – preciso de um deus para lhe pedir proteção divina para os meus filhos. para a minha maria joão – só assim poderei partir para a minha última viagem – preciso de um deus que me deixe comtemplar pela última vez o que mais amo neste mundo e seguidamente reencontrar definitivamente o meu verdadeiro pai – o meu pai terreno – tenho tantas saudades dele e quero tanto abraçá-lo – para sempre – preciso de um deus para sair definitivamente deste corpo. apanhar a cegonha de volta ao nada acreditando que deus tomará o meu lugar na proteção dos meus – preciso de um deus para todos aqueles que estimo e amo – para mim já é tarde. apesar de toda a minha vida ter feito quase tudo para lhe agradar – para mim basta que me receba pessoalmente na porta de onde quer que viva e me diga: foste um palerma. um tolo. se nunca te apareci foi por tua culpa – és um ingrato – mas sossega que não sou rancoroso e os teus filhos. ao contrário de ti. saberão escolher a estrada certa – mas descansa. podes estar tranquilo. estou de olho neles e tudo farei para lhes mostrar o caminho da luz – sei que só partindo em paz comigo serei capaz de me sentar á direita de deus e do meu pai

– e disse-lhe jesus: em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso

aqui estou eu meu deus. novamente. como quando te visitava na catequese. completamente livre de preconceito. quase ingénuo – desta vez para te dizer que o que aprendi na tua casa não me serviu de grande coisa. a não ser. o fato de me teres dado um padrão moral capaz de decidir com objetividade o que está certo ou errado – coisa de pouca monta neste novo tempo das tecnologias que andam num ar invisível – os  ensinamentos da moral deixaram de ter exclusividade nos homens de deus – mas adiante. se efetivamente existires. e se me vieres realmente receber á porta da tua casa. lembra-te de que os meus filhos existem porque um dia eu acreditei verdadeiramente em ti. na virtude da alma. da família. no amor verdadeiro. no certo a vencer o errado. no bem a se sobrepor ao mal. e na luz a iluminar as trevas – por mais insignificante e minúscula que encontres a minha alma recorda que ela é ainda preenchida pelo que sobra das tuas palavras – um homem de bem nesta idade necessita de acreditar num deus de bem – num deus que seja capaz de dar alento a quem vive a meu lado á mais de trinta anos – uma cama partilhada jamais aceita o silêncio das ausências eternas – que seja também capaz de me guardar os filhos até ao dia que eles encontrem a mesma saudade que hoje tenho pelo meu pai – hoje vou rezar um pai nosso – um homem na minha idade precisa de rezar mesmo que não acredite em nada

– pai nosso que estais no céu

um homem da minha idade só precisa de um deus para poder morrer em paz – eu sempre quis morrer em paz. na companhia dos meus filhos e da minha amada

.
.
.







07/03/2016

transumância




foto - sampaio rego




deslacei
que a inteireza é feita de inverdades
o amor contracena com o desamor


e até o afecto
fenecido
lamenta o tempo


é a hora da transumância humana
sobejam ainda:
alguns frutos selvagens da primavera



29/02/2016

vendido ao melhor preço




foto - sampaio rego



pobre homem – também tu foste picado pelo mosquito dos encómios inteligíveis e espontâneos – pobre tonto – tanta idade gasta à procura de uma coluna jónica capaz de me apartar de todas as almas erradicas do mundo e logo fui picado pelo pior bicho do universo – vendido ao melhor preço – sou agora homem-besta até que as minhas orelhas de burro sejam transplantadas para outro impuro – que seja rápido e sem dor enquanto a alma se torce em programa que não é de lavagem – deuses loucos estes que me fizeram – soubesse eu calar – soubesse eu cegar – soubesse eu deixar de ouvir – nem raios. nem coriscos. nem santa bárbara para dar o meu nome a uma trovoada – tivesse eu um raio para me cair das mãos e iluminaria o purgatório com um aviso – é para lá que vão todos os caçadores de almas – mesmo que os vosso olhos só enxerguem papel creiam que em marca de água vai anexado um sorriso feio – meu e apenas para mim – assim sei que estou vivo e cada vez mais desperto para o mundo dos mortais




01/01/2016

é janeiro




foto - sampaio rego
 

ora cá estou no primeiro dia do ano. seria um dia igual a tantos outros se não fosse a minha vontade de vos dizer tudo o que sinto - quero-vos bem e sei que não é por ser o meu primeiro dia do ano - quero-vos bem porque em minha casa há silêncio-paz e sempre que o silêncio me encontra eu desbulho da memória um amigo a que quero o melhor do mundo - é janeiro. é ano novo. é um dia de encontros com os meus fantasmas. é um dia do caraças e eu sem arte para vos dizer como tenho vontade de vos abraçar com palavras - se eu fosse poeta dizia-vos que janeiro tem mais encanto com vocês
 
poeta eu?
o poeta sobrevive nas vísceras de um cérebro sempre imensamente insatisfeito – sofre dor na procura das palavras que nunca saberá escrever – por mais palavras escritas. por mais palavras pensadas. por mais que deixe o corpo arder no inferno. não será capaz nunca de dizer às mãos o sofrimento de não as saber escrever – não há caminho feliz para quem gosta de escrever o que vê
 
sejam todos muito felizes em 2016 e não se esqueçam de me levar nos vossos sorrisos




29/12/2015

adeus ano velho




foto - sampaio rego
 



também eu gosto do silêncio e tive tão pouco este ano – se fosse possível eu acontecer de forma diferente neste novo ano – nascia em silêncio e juro que nem com a palmada no rabo chorava – respirava silêncio e pedia para me embrulharem num livro de poesia - depois sim. caía nos braços da minha mãe e ali ficava para sempre – em silêncio – feliz ano 2016 para todos os meus amigos – prometo-vos que não deixarei nunca de “perseguir as luzes das estrelas até ao fim da minha vida” - sejam felizes e obrigado por fazerem parte da minha vida
 

13/10/2015

professor marcelo




google - marcelo rebelo de sousa
 
 



gostava de ser como o professor marcelo. marcelo rebelo de sousa – dizem os amigos. inimigos também. que o homem é inteligentíssimo. um reconhecido génio lusitano. feito comendador da ordem militar de santiago da espada e da grã-cruz da ordem do infante d. henrique – estamos perante um homem de uma lucidez rara. com uma rapidez de raciocínio pouco habitual no nosso meio académico e político –sempre ouvi dizer que homem inteligente é aquele que se conhece a si mesmo – pois bem. o professor acumula este dom com o de conhecer ainda melhor os meandros da politiquice nacional – sempre que aparece na tv o professor parece um gaiato. com uma energia de fazer inveja a qualquer catraio – não há uma único sinal de cansaço tanto no argumento da retórica como na línguagem gestual - do primeiro ao último minuto do programa o professor marcelo é um autêntico “showman” – o professor é terrífico. faz ainda questão de alardear perante os seus admiradores que apenas necessita de dormir duas horas por noite para se manter em plena forma física e intelectual – na hora de almoço é vê-lo a dar uns mergulhos na praia de carcavelos. com chuva ou sol. inverno ou verão lá vai o homem como se fosse um homem do mar – é ele que dá força àquela velha teoria de que todos descendemos de um marinheiro – uma fura nas ondas. duas braçadas a favor da corrente e lá sai o sr. professor da água purgado de todas as maleitas de envelhecimento precoce – manuel de oliveira morreu novo quando um dia fizermos as contas entre os toque de finados – para completar esta panóplia de bênçãos. dizem os que com ele partilham a intimidade que o professor catedrático dita duas cartas ao mesmo tempo sem que em momento algum se confunda. mantendo sempre a postura do corpo. o brilho do raciocínio. a fala eloquente e a emoção gestual – marido. pai. professor universitário. político e por fim. comentador político na tv - a hora de marcelo rebelo de sousa. programa semanal de sua responsabilidade – estamos perante um verdadeiro sobredotado lusitano – gosto de o comparar a um automóvel topo de gama – um ferrari de versão esmerada. vermelho. cupê de duas portas e com um motor 3.6 litros V8 de 400cv de potência. acelera de 0–100 km/h em 4.3 segundos – uma loucura de carro – só para gajos com unhas. o motor de oito cilindros leva-o ao fim do mundo – uma bomba atómica com quatro rodas – é aqui que deprimo. afinal a minha inteligência não passa de um comercial de dois lugares comprado em segunda mão – junta da colaça rachada. vielas gastas. escova limpa vidros a nada limpar. retrovisor embaciado com tudo o que ficou para trás. e o “démarre” afogado num cheiro a gasolina que deixa antever uma explosão da “voiture” a qualquer momento –  eis o que é. fumo negro em escape que já não filtra o bom do que é mau. e a caixa das velocidades presa a uma marcha atrás que já não me deixa fazer nenhuma estrada em frente – ao volante. uma condução de raiva. o limite de velocidade nunca se aplicará ao meu cérebro – resignado. acolho-me sem medo. abraço o que posso fazer com gratidão aos deuses da fortuna. e olho o amanhã com esperança limitada para o corpo que me calhou em sorte – estou demasiado gasto para qualquer conserto. já não há peças de substituição – sou assim. o que não tem remédio remediado está – estou a ficar um caco – as noites começam a ficar cada vez mais pequenas para pensar – resta-me a escrita e pouco mais – escrevo então. enfim. é noite. e sendo assim. tenho que aproveitar todas as ideias que andam por aqui em fervura – bem sei que são tipo geiser. o repuxo já só aparece de hora a hora e com tendência a piorar – sou o que me calhou em sorte e a mais não sou obrigado  
 
nota - este texto tem mais de dois anos e por esse motivo não faz nenhuma alusão ao candidato presidencial marcelo rebelo de sousa
 



09/10/2015

aclasto




foto - sampaio rego



 

atrás
dos desfrutáveis olhos
vadiavam memórias temporais
contristados
entressonham lágrimas
em:
bem-aventurança