.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

11/06/2016

paredes com vida - I





coimbra 2016 - sampaio rego

                                                              



05/06/2016

dasabafo




foto - sampaio rego
 
 
 

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro” - Clarice Lispector
 
e é nestes cortes que sustento o corpo num equilíbrio suicida. um impulso contido de raiva. de expurgação e de purificação – escrever é um ato de fé – sou um homem só numa só escrita – as amizades estão cada vez mais difíceis de se escrever – os dia são agora de um outro mundo. tecnológico. amplificador para o bem ou para o mal. divergente na escrita. convergente na identificação da felicidade. extremados no amor e no ódio onde os amigos nascem ao pontapé: és um querido meu amigo. és bonito meu amigo. amigo o teu sorriso é o espelho da tua alma. adoro-te amigo. tenho saudades de te ver amigo. és único meu amigo. e as ligações em fibra ótica a levar a burla aos quatro cantos do mundo – aqui estou eu neste desabafo inócuo apenas porque me recuso a usar a palavra amigo em vão – cada vez gosto menos das pessoas que me entregam adjectivações de excepção e depois as vejo gastas ao preço da uva mijona – nesta nova arte de fazer amigos pelas redes sociais sou um inadaptado - por isso corto nos gestos. nas palavras. nos abraços. nos sorrisos. nesta forma de me dar e de raramente dar uma palavra a quem não a merece - não gosto de enganos. não gosto de erros grosseiros  e também não gosto de erros de simpatia. – não quero lacunas nos cânones da palavra amigo - não sou santo agostinho e de peixes pouco entendo mas sei que a palavra amizade é o único brilho que me incendeia os olhos – há palavras que me custaram a ganhar. muito mais que um dia de trabalho. ou um mês. mais de um ano. quase tanto como a vida que agarrei. um esforço que não vem de nenhum músculo. de nenhuma corrida. de nenhuma trovoada ou bonança. vem de um arrepio na pele. tão leve que ás vezes engana o coração – esta minha liberdade de amar pelo sentir é o único amor certo que ficará para depois da minha morte – não me enganem
.
.
e agora vou sair para o mundo onde a mentira é feita de sorrisos. mais podre que a internet. mais rasa que a lama. mais perigosa que um saco de víboras – amigos. vou a caminho
 




02/06/2016

sombras





foto - sampaio rego
  

 

alcanço um som.
leve. muito leve.
não são harpas
não são anjos
são fantasmas descalços.
sabem-se implicantes
por tão antigos serem
 

vivem no sótão.
nos medos e segredos
de quem nada sabe

 
inquietam. procuram.
abanam.
remexem o passado:
matam as palavras.
as desculpas.
os lamentos.
os choros
ainda vivos.
sofridos no sangrar
dos pulsos


nas sombras da noite
onde sopra uma pitada
de luar.
meus olhos sempre criança.
gemem de pavor…
nas mãos uma cruz.
na boca.
um anjo da guarda.


o hábito veste de branco
na luta contra o medo.
quando partem.
sem cuidado.
advém a desarrumação.

 
na parede.
sem mais…
um lembrete!
amanhã. à mesma hora!
cerram os suores.
por fim. durmo                  


31/05/2016

zero





imagem google
 
 
 
o capitalismo também se apresenta em lata. e agora. para decepar os resistentes. nasceu a zero. zero calorias – a coca-cola conquistou o mundo da escrita. as palavras tombam embriagadas de cafeína – o artista não dorme. devassa a noite em glosas marginais – contorce-se o papel em mãos geladas – amanhece – solta-se o dia. e todas as palavras ensopadas. ensonadas e encravadas organizam-se em música – começa a tocata e fuga em ré menor. johann sebastian bach – saia um expresso rápido por favor. tenho o carro mal estacionado e um pacto de estabilidade para fazer cumprir



26/05/2016

triste é...





 
 
 
triste é estar só
triste! é não saber o que fazer
não saber o que pensar
não preparar o futuro
esquecer o passado
chorar sem saber porquê
desfrutar de lágrimas insossas
dizer não ao sim.

triste é não ver o pôr-do-sol
não sentir a chuva
o vento
o aroma das flores
o grito dos animais
os gestos mudos
os carros a passarem
o telefone a tocar.

triste é não poder vaguear
não sentir dor
escrever sem saber
largar os remorsos
partir os espelhos
ser o que não somos
ter medo do dia
querer o que não podemos

triste é não amar
não olhar
filosofar para o espaço
não ter hora nem abraço
não ter leito
paz ou capataz
correntes, amarras ou
âncoras.

triste é não ter poemas
livros com prosas
bíblias de amor
saudades finitas
pensamentos
pecados
omissões
guardiões.

triste é não ter mãe
esquecer o pai
estragar o fruto
congelar o sabor
ter um tempo depois
um adeus
uma cobardia
um fantasma.

triste é não ter memória
um abrigo
um choro de irmãos
um avô que te espera
uma avó que tricota
um vizinho
um amigo
um inimigo.

triste é sermos diferentes
desprezados no olhar
referenciados e marcados
esquecidos
contidos e odiados
chorados
olhados
espoliados.

triste: é apenas o contrário de alegre
.
.
26 / 12 / 2002 - “ na companhia da solidão “
.
.
poema na voz da poetisa vony ferreira que. de uma forma especial deu ás palavras do poema uma outra interpretação desconhecida ao seu autor - sempre fiz uma leitura rápida e intensa onde cada oitava é uma respiração - mas gostei também muito desta declamação - a “pacatez” das palavras

 



25/05/2016

corrente[s] na escrita




foto - sampaio rego

 
bem que deixo o corpo partir pela corrente de água do que penso – depois. chegado ao fim do percurso. olho para trás. e dou conta de que tudo o que escrevi foi unicamente trabalhado pela força da água. arrastou ao acaso as palavras. e eu iludido a imaginar que eram as mais certas – desilusão – e aqui começa o desespero – volto atrás. corto palavras. risco. modifico. altero. recupero memórias e deixo partir tudo na mesma linha de água – reescrever é sofrimento. desespero. agonia. frustração e a água cada vez mais transparente. mostra o caminho tal e qual como é – levanto as mãos aos santos em quem não acredito e pergunto: se gosto de escrever porque não me destes vós a arte e o engenho de escrever o que sou em harmonia com o meu corpo – revolta – não sou como aquela mãe extremosa que é atraiçoada pelo amor. ao contemplar o seu filho feiinho sorri com o único sorriso verdadeiro do mundo. e os seus olhos. sem mentir. dizem que é o mais belo – tudo o que faço está aquém do belo que imagino – mas a luta continua. sempre – obrigado e um grande beijo


comentário para uma amiga - mulher de 1 texto só

06/05/2016

a tenda




foto - google



1.

a tenda está montada – as colunas de som anunciam mais um grande espetáculo numa noite toda ela investida pelo rigor dos trajes – começa o desfile dos decotes e dos entretenimentos – o espaço é todo ele glamour. um desafio ao infinito da mente humana. ao deslumbramento. ao encantamento. ao sonho – a cair do céu. lustres envoltos em brilhos. projetam cores de um arco-íris que. na sua extremidade. esconde o santo graal das mil e uma noites – tudo leve. tudo alma. tudo transparência. tudo sensualidade. enquanto a música toca charme em decibéis que são melodia de acasalamento – e todo mundo sabe conversar. sabe manear o corpo num tempo perfeito de insinuações – e as luzes acendem e apagam. e agora uma vermelha. logo outra azul. e mais uma amarela. e em cada intervalo de luz o belo protegido por sombras intermitentes – cai dos altifalantes um encosta-te a mim. cai gesto. cai charme. cai um beijo dos lábios e os sorrisos desfazem-se de boca para boca – as palavras são agora notas de concordância numa clave de sol perfeita – o ar quente sobe. os vestidos também. o astral. o charme. os sapatos de plataforma. os soutiens push-up. tudo a subir sem parar. o deleite. a volúpia e a loucura também – a descer só mesmo os decotes atracados aos olhos cobiçosos dos cavalheiros que. silenciosamente. deslizam para o seu interior numa gula luxuriosa e delirante – preso em jeans. o cio.  rompe dos corpos num rugido de guerra silencioso. mostrando ao corpo que não há luxúria sem imaginação – o que é da noite. na noite em segredo fica para sempre – e entra a “elegantérrima”.  logo em seguida a excitadíssima e a estranhíssima. e num toque de magia rola o sumiço da sensatez – explode a insinuação – e a boca do lobo mau na face de cada macho. perseguem o gozo perdidos em ereções azuis. robustas e vigorosas – homem que é homem bebe whisky. tresanda a tabaco. brota cabelo do sovaco e promete à mulher o orgasmo de todos os orgasmos – o delírio masculino retratado pela fábula do sapo e do escorpião: é a sua natureza – o bom senso. aos poucos. é corroído em goladas curtas e obstinadas – e o desfile dos corpos cada vez mais entrelaçado com o pecado – entra na vitrina a mal casada. seguindo-se a oferecida. e mais uma que não se dá por nome nenhum – o vazio da tenda começa a desaparecer. enquanto em sentido inverso emerge a provocação quente e sensual – as fantasias avolumam-se e a espectativa agiganta-se num espaço cada vez mais comprimido  – finalmente homens e mulheres em igualde na sua plenitude – e o barman. numa ligeireza absoluta. esgueira-se em sorrisos pelo meio de roucos e desesperados apelos gorjais. e a cada súplica. grunhe em simpatia uma jura de que a culpa é de vénus – ele é apenas um simples mortal enviado para matar a secura das bocas. sabe que mais tarde ou mais cedo a desvirtude tomará conta do seu corpo – a festa também é dele – o álcool não protege a moral dos bons costumes – rompe pelo balcão mais uma caipirinha que. não vinda do brasil. traz no seu interior as batidas sensuais do samba. a ousadia. prometendo fazer rolar bundas num ritmo da excitação raivosa. enquanto os másculos. em uníssono. reclamam mais tesão para o salão – os RP`s. com mais de mil amigos facebookianos. recebem todo mundo numa aflição galopante – -- boa noite. sejam bem-vindos ao nosso espaço – multiplicam-se os meneios íntimos. amontoam gestos. dobram simpatia. descobrem sorrisos. inventam adaptabilidade e prometem a cada cliente uma noite para mais tarde recordar – para estes colaboradores cada palavra gasta é um empurrão de afetos para a confusão – e as apresentações repetidas até ao esgotamento – o barulho das vozes e dos gestos é agora infernal num bar atulhado em súplicas de prazer – e mais um red bull com vodka para ali.  e um bulldog com frutos às cores para a amante do cavalheiro de negro – os corpos encontram-se. tocam-se. beijam-se e insinuam-se em danças que já são de pré copulação – e a tenda repleta de gente. repleta de glamour. repleta de encantos. de ilusão. de desejo sexual primitivo – a noite a explode – os decibéis da música deslaçam finalmente a timidez da cinquentona que. promete tudo o que tem num corpo XS. enquanto a da alta sociedade. ao lado da de nariz-empinado. faz brilhar num triple XL o valor de cada lantejoula – o ambiente na tenda enlouquece. as paredes tremem. e a batida house faz pular a olívia que não é palito. deixando a multidão a dizer: que borrachito. que borrachito. e o povo em suspiros diz em voz de surdina: quero dançar com ela. quero dançar com ela – e quem não pula não tem tesão – loucura loucura. diz a turma em voz viril enquanto a mulata mostra o rabo até à exaustão – e elas. perdidas em lascivas agitações. derretem-se em sorrisos vaginais – toca uma quizomba do anselmo. não me toca. lenta. muito lenta. e tudo aos pares. perfeitos. protegidos pela magia do encantamento que só se quebrará com o orgasmo. enlaça as almas pecaminosas em gemidos que não são de sofrimento – os corpos entrelaçam-se. colam-se. os traseiros contorcem-se numa dor que vem da falta de pudor. e os joelhos para ali. e as ancas para o outro lado. enquanto as mãos se perdem em desejos desesperados – e o pecado a dizer ao ouvido: mais. mais. não pares agora. e um arrepio. e uma mão na cabeça a dizer vais ser minha. e a outra para cima e para baixo. e o desejo promiscuo amarrado a um beijo que fica para o resto da noite a latejar – e tudo que era mulher séria é agora mulher excêntrica. adultera. pervertida. tudo que era cavalheiro virtuoso é agora cavalheiro adúltero. gigolô. atulhado num tesão escorado numa robustez eriçada pelos químicos – e a música a acelerar a decomposição dos corpos num protocolo assexuado – a noite não para de surpreender. os corpos não desistem da excitação. os rostos pedem mais aperto enquanto as nádegas saltitantes gemem entaladas em rendas que já não são mais elástico – todo o XL é um ESSE justo que não se cansa de dizer: sou a mais bela gaja do universo e de cima dos meus sapatos luís onofre sei falar como ninguém – sou toda etiqueta. sou alta costura e não estou aqui para qualquer um – olhai olhai. no que é meu não tocais a não ser que digam que sou a mais gostosona do reino – sou rainha. ninfomaníaca. louca e sinto-me toda molhada – enquanto a mal casada. num sorriso que é passadeira diz: cheguei meus amores. estou linda de morrer e é bem-vindo quem vier por bem – a repinhas. cada vez mais mal-amanhada. para não ficar atrás. abre o decote e diz em espanhol que não é de espanha: “estoy muy caliente y soy una chica guapíssima. mui respetada y apreciada” enquanto o marido. de vigores estrogénicos. vai abanando a cabeça numa anuência predadora – para este chico a arte de caçar é igual à praticada pelo homem da pré-história. uma selvajaria sem regras disfarçada numa simpatia saloia – nada lhe escapa – e os copos a baloiçar entre a cerveja e o blue lagoon. entre uma kizomba e um movimento de olhos que anuncia a qualquer momento sexo em doses ilimitadas – e tudo é boca. sorriso. e tudo honoris causa. saber. arte produzida de encomenda. costurada corpo a corpo. mente a mente – em cada cérebro o ímpeto tosco de uma exclusividade suportada por um ego só suplantado pelo divino – e quem nasce macho. macho morre – é a hora do zé triste – encostado ao balcão. de copo na mão. ginga o corpo num enredo de cautela aristocrática – fidalgo. exclusivo e elitista arfa arrogância em ritmo de nobreza real e em cada golada a fantasia de um orgasmo imperial  – vai  imitando o camaleão com desdém: um olho para as gajas e o outro na sua garina que. em hábitos curtos e maliciosos. mostra aos homens o arrojo carnal de quem sabe que o seu clímax será sempre cerebral – estamos no epicentro da noite. a música é agora aglutinadora. tudo salta. tudo canta. e tudo é dito em delírio pela françesa: “oui. je me sent une fou” – e o suor a emanar cheiro que é sinal de desvario – na pele a explosão de hormonas canibalescas fazem cintilar os corpos de desejo agâmico – e elas dissimétricas da razão contorcem-se. tudo já é padecimento. aspiração. desespero. aflição. e entre o corrimento fértil de uma vida a certeza de que finalmente estão emancipadas do mundo das normas  – sexo por sexo precisa-se e exige-se – e os machos sem saberem o que fazer a tanta profanação do bom senso. perdem-se em galanteios desnecessário – desdobram-se em ereções inúteis que terminam em ejaculações precoces –  o mundo masculino lida mal com o que lhe é oferecido por prazer – há uma nova liberdade. um novo pulsar da vida no relógio biológico humano – e todo o mundo se interroga: será que sou louco? não. não. e não

2.

e a divina comédia de dante reformulada numa viagem renovadora ao mundo da libertinagem – já não há mais inferno para quem quer ser feliz. a pureza da alma constrói-se com a simplicidade do amor – a felicidade só pode ser alcançada na sua plenitude  a partir da verdade e da lealdade que cada um tem com o seu próprio corpo. o seu autoconhecimento de um eu genuíno – só a mentira mata o afeto. mata a autoestima. a autoconfiança. a autoaceitação positiva – o purgatório está agora desabitado para sempre enquanto satanás devora o manual do pecado capital – já não mais serão sete – o paraíso é feito na terra e só está ao alcance daqueles que amam a justeza – quando nos aceitamos na totalidade aceitamos tudo o resto como um complemento positivo à nossa vida – a manhã traz um novo sol para dentro dos corpos. e em paz. regressamos ao lar em perfeita consonância com as leis universais do amor – há uma harmonia com a natureza das coisas que não se explica – os corpos são devolvidos a outra realidade numa mesmíssima alma – a explosão da afeição. da ternura. da estima. do companheirismo e da cumplicidade acontece com a chegada ao lar – tudo por aqui é perfeito – o mundo é redondo. e cada um de nós habita-o numa milésima partícula de terra. única. como uma impressão digital – o nosso ninho espiritual que ninguém sabe onde fica a não ser o próprio – um ponto imaginário para quem nos marca pela indiferença.  um ponto real para os que nos abraçam com a bondade de um universo tendencialmente fraterno – o meu está aqui. mesmo à frente do vosso sentir – basta acreditar





04/05/2016

solidificação do belo




foto - sampaio rego



 
 

os jardins a florir
e a lua sempre a
nascer e morrer

ser ou não ser. eis a questão
talvez um estrangeirismo aformoseie:
“to be, or not to be”

ou

uns e os outros
“les uns et les autres”

adito apenas arte à estética
o belo aos sentidos
mesmo que apenas conte cinco
a emoção existe

na morte
no nascimento
nalua
na flor
no mar

poderá ser:
bolero de ravel
trauteando [meticulosamente]
imagens em pautas de música



02/05/2016

para uma ana




foto - sampaio rego
 
 
 
que bom ana que vieste até aqui. que saudades de te ter perto das palavras – estou feliz. mesmo feliz. a felicidade não se escreve. digo eu que quando fico feliz desapareço do corpo e as mãos ficam á deriva – as palavras. estas que me fazem escrever compulsivamente partem também. livram-se deste maluco que tem a mania de escrever testamentos – que tu conheces – hoje. como estou feliz por me estenderes a mão às palavras vou-te abraçar. abraçar com força e segredar-te o que já todo o mundo sabe: é bom saber que eu existo para ti – dizem que isso é amizade. que palermice. que simplicidade. que insensibilidade. é mais. muito mais. para mim é sobreviver. é saber que ocupo espaço no espaço de alguém que gosta de mim assim. doido por apenas saber dizer as coisas a escrever – desculpa ana. tens razão. já tive tempo para te dizer que também é bom estares na minha vida. tu e o filipe – agora vou embora. nem sei muito bem como acabar este comentário. talvez como quando escrevi o primeiro comentário para ti. quando as noites eram grandes e tu ainda andavas sem relógio



29/04/2016

encómios




foto - sampaio rego
 
 
 
os elogios são sempre terríveis para quem gosta de escrever – primeiro tocam as campainhas da satisfação. depois. e quando o corpo retoma a forma do artesão. fica um ruído que mais não é do que um zumbido escrito nas mãos – o medo de errar é cada vez mais uma dor e o trabalho uma canseira insuportável – a imagem do belo está sempre associada a cada momento do leitor – estou agora na fase do zumbido continuado

 

28/04/2016

lembranças




foto - sampaio rego


 

lembrar não é pecado
evoca-lo não é sofrimento
apenas vemos o passado
lembrando o agrado


lembrar é sentir novamente
amar o perdido
passear nas recordações
rir no coração


lembrar é dar as mãos
passear pelos campos
flutuar nas memórias
viver nas alegrias


lembrar é saber que existiu
aprovar o tempo
ganhar os segundos
valorizar o que temos
 

lembrar é fantasiar
poder chorar em companhia
partilhar o que tememos
com quem queremos


lembrar é eterna recordação
fruto do nascimento
edificado com o crescimento
num espaço que não é nosso


lembrar é uma música nossa
uma melodia de sonhos
uma canção real
um piano de soluços


lembrar é ramo de flores
colhido no campo da primavera
numa manhã de eternidade
num sonho sem fim


lembrar é perdurar o sorriso
é saber que valeu
é escrever poesia
num livro só nosso


lembrar é saber que perdemos
é saber que já tivemos
é ter uma estrela
um destino nosso


lembrar é olhar para dentro
esconder a atenção
disfarçar a dor
dizer adeus ao presente

 

lembrar é olhar para a frente
é subir a montanha
erguer as mãos ao céu
e dizer um olá


lembrar é retribuir
é poder ver, sentir, chorar
agradecer por ter sido eu
sentir-me distinto
memorar para a eternidade
dizer que valeu
dizer até já
até já...
até já.


 

poema dedicado a dois homens muito especiais - meu pai e tio joão evangelista – 31.12.2002



17/04/2016

tudo o que me resta é a memória – 17 de abril de 2016







prefácio de autor
tudo o que me resta é a memória e dentro desta guardo uma vida com mais de milhentas vidas – sei que não me posso recordar de cada fragmento de tempo. de cada voz. de cada face. de cada sorriso. de cada flor que me ofereceram. ou de cada lágrima perdida em estados de alma que nunca serei capaz de explicar – de manhã sou um. de tarde outro e á noite sou o da manhã. o da tarde e o de mais uns quantos que não vivem em nenhuma parte do dia – sei que estou a envelhecer. na alma também. sei que os olhos teimam em ver o óbvio. que o amor é toque. e que as mãos se recusam cada vez mais a trazer a dor ao corpo – não se escreve sem dor – faço anos. envelheço. sei. sei. e sei que este saber é ardor – sei que me rasgo em cada aniversário. sei que corto os pulsos. sei que arranco a língua. e sei que me suicido por cada vela. por cada voto de muitos anos de vida. por cada desejo de que viva o dobro do vivido – sei que cada aniversário me traz a confirmação da falência dos órgãos. da imobilidade. das rugas. dos cabelos brancos. da dependência e da falta de independência – a morte também acontece em fascículos – estou a ficar sem tempo para tanta coisa que ainda gostaria de vos entregar. coisas minhas. simplicidades que no vosso sentir pode não significar nada – mas creiam-me. se hoje vos escrevo é porque amo a vida com todos os seus humanos. todos mesmo. pois a todos eu devo tudo o que aos vossos olhos sou – hoje é um dia especial. sei-o porque tenho memória e é dentro desta que vos guardo em gratidão – e por isso vos digo: obrigado por caminharem comigo
1.   pretérito
o meu mar – a primeira vez que senti a imensidão do meu mar tinha os meus doze anos – as recordações anteriores não eram do meu mar. eram de um mar de todos: da família. dos amigos de verão. das barracas de pano listado. do homem de branco a gritar língua da sogra. do cabo-de-mar. dos chocolates regina e de uma areia capaz de guardar para sempre cada amor ali enterrado – no passeio alegre os altifalantes anunciavam uma tristeza que não existia “o toque de silêncio” era abafado pelas brincadeiras da miudagem. dos castelos de areia. da bola da NÍVEA. das caricas. dos búzios. da chegada dos gelados OLÁ que se derretiam em mil e um encantos – éramos felizes – o sol sucumbia num vagar que só o mar entendia e os barcos no horizonte diziam-nos que o mundo é um ciclo. redondo. permanente e inesgotável – as ondas recolhiam-se num silêncio medroso enquanto o vento norte sacudia do areal as últimas toalhas de praia – era hora de recolher a casa – chegava o banho quente e a salitre partia agrilhoada a milhares de grãos de areia polidos pela alegria de quem tinha passado o dia aos mergulhos – a toalha nas mãos da minha mãe limpava-me de todos os males – o mundo era eu – pela noite a sarronca anunciava mau tempo para os adultos – era hora de ir para a cama. os sonhos nas crianças nunca esperam pelo dia seguinte – boa noite papá – chegara o momento de receber de volta o beijo do meu pai que às primeiras horas da manhã partia para o trabalho – acercava-se o sono. o silêncio. e as estrelas em sussurros pediam aos anjos para me levarem a alma para a dimensão do faz de conta – nunca mais descobri esse mundo – ali permanecia eu enroscado nos sonhos e nos agasalhos dos meus pais – a família é um compromisso de afetos – à família acrescentei os amigos e com estes construí a idealidade do meu mundo – hoje sei que é o sonho de todas as crianças do universo – agosto sempre será um mês de saudade e de encontro de mares
2.   encontro
final da tarde. sozinho. como sempre gostei de estar – as gaivotas num voo planado sacodem o vento norte em várias direções. enquanto eu. sentado num corpo dorido. descubro pela primeira vez um mar que nunca tinha sido meu – ali estávamos os dois: eu e um mar imenso – para mim tão desconhecido como os mares de vasco da gama – naquele momento. toda a solidão do mundo estava no molhe da póvoa de varzim – descobri a infelicidade – tomado pelo vento. ali estava: tranquilo. estático. disperso entre o partir do sol e a chegada de uma noite que nunca mais acabou – pela primeira vez percebi que a felicidade é o sal da vida. uma pitada a mais e somos salgadamente infelizes. uma a menos. e ficamos perdidos para sempre numa infelicidade insossa – nunca mais me desliguei do mar. da infelicidade e da noite – adotei o mar e as gaivotas para me acalmar e é junto deles que me sinto sempre mais perto da justeza com que me quis construir – mas mar é mar. ninguém por mais forte que seja pode escolher o mar que lhe toca – o meu mar é apenas o meu mar e a mais ninguém interessa o seu estado – no meu mar só eu sei navegar
3.   essência
no meu mar haverá sempre um pai. uma mãe. filhos. netos. nora e uma mulher que é maior de que todos os mares que inventei – há uma ua maternal. uma irmã de luz e um irmão de paz – há sobrinhos. sobrinhas e há outras sobrinhas que vi nascer e são sangue do nosso sangue – há cunhadas. cunhados. sogra e um sogro que podia ser meu pai – há amigos que já partiram e há outros que vivem dentro de mim – há amigos de cá e outros amigos de acolá. e há aqueles que são de cá e de acolá – há amigos especiais que não sabem falar mas que me aceitam com um único latido – há uma família enorme que vem de tempos e terras que a história não sabe contar e traz nos gestos a essência do que melhor há em nós – no meu mar há uma família ao nascer e a mesma ao morrer – é no meu “mare nostrum” que um dia encerrarei o meu corpo – e nada levarei comigo a não ser o seu perdão
4.   epílogo   
no meu mar há gaivotas de todas as cores e desejos enterrados em ilhas imaginárias – há marujos de camisetas listadas. há piratas bons e piratas com pernas de pau – no meu mar há deus. fé. oração. pecado. perdão. ato de contrição e milagres por realizar – há sonhos grandes. pequenos e sonhos que nunca se tornaram realidade e também há realidades que nunca vi em sonho – no meu mar há peixes apetecíveis. horríveis. ferozes. meigos. contrafeitos. autênticos e outros que por serem bonitos não cabem em mar nenhum – no meu mar há peixes negros. amarelos. brancos. e também há peixes com cores que não sei explicar – há gaivotas tristes. felizes. assim assim. e há gaivotas que querem partir para terras que desconheço – no meu mar há peixes como eu e peixes que não são como eu – há peixes miscigenados com amor de outros peixes e peixes que por serem apenas peixes desconhecem o amor – no meu mar há peixes grandes a comerem pequenos e pequenos a comerem o que podem para não serem tão pequenos – há peixes esguios. e não esguios. redondos e não redondos. quadrados. e outros que ninguém sabe dizer muito bem como são – no meu mar há peixes que nunca tiveram um livro e há livros que nunca foram lidos por não haver um único peixe que o quisesse ler – há ilhas cercadas de sol todo o ano e ilhas cercadas de coisas inúteis – no meu mar há barcos com gente a olhar os peixes e há gente à procura de um único peixe – há medo. mistério. naus. fantasmas. tesouros e amores escondidos num areal que já não existe – no meu mar há canhões. arpões e mosquetes com palavras que depois de disparadas são balas – há lugares de luz e lugares onde as sombras escondem as memórias de uma juventude que não esqueço – há lua cheia. estrelas do mar e sem ser do mar também e há ondas gigantes que carregam amigos que já não voltam – no meu mar há uma única varanda virada a sul e muitas outras viradas a norte – há desgosto por coisas que não fiz e também há desgosto por coisas que fiz – no meu mar há homens que nasceram do mar e há homens que um dia o mar levará – neste meu mar sou isto tudo que vos escrevo mas também sou o que cada um quiser levar de mim – aceitarei o vosso olhar. aceitarei o vosso juízo. aceitarei a vossa pena – peço-vos perdão por tudo que não consegui ser – estou quase de partida. há mares que não esperam


12/04/2016

putrefação




foto - sampaio rego



nas palavras
silenciosas
sofro

[...]
putrefaço-me
[...]

e do cheiro pestilento
o corpo reclama
mais dor
por não as declamar

[covarde. digo eu]


08/04/2016

símile




foto - sampaio rego
 
 

rabisco
afolho as palavras
na armação do tempo
o arval suspira
alinho as sementes ao sol
adubo-as com pequenos reparos
gulosas em minúsculas
é hora do lusco-fusco
entrego-me ao sono

jornaleiro



05/04/2016

o grito


 
voz - maria joão
 
 
 

dizem por aí
que se diz muito em poucas palavras
às vezes acredito
penso que sou poeta
iludo-me
e quero acreditar
que sou fenomenal
único
e mesmo sem falar
basta-me um gesto
para ser um génio do amor
translúcido
penso eu.
então digo-me:
é verdade
não escrevas
não fales
sorri apenas
alguém acreditará que és especial.

 

mas depois
já nu
de tanto meditar
escolho um mundo:
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
aqueles que são poetas só às vezes
esfrego os olhos
e vejo
lá no fundo
onde a luz é escassa
e as sombras são vida
o choro
esse…
que nunca se ouve
é onde os poetas de verdade se tornam homens
onde nascem as dores
as desilusões
as emoções
as perdas
as saudades
as pessoas perdidas
os tempos passados
ou mesmo um grande esforço
para se ser aquilo que nunca se será
e aí…
sinto a falta das palavras.

 

revejo os sons
do que poderiam ser palavras faladas
mas afinal são vaidades
de apenas terem tempo
para o ego

 

descubro então
que afinal
os poetas nada dizem
eles
dizem que dizem
porque escrevem
mas não transpiram
não ofegam
não sorriem
não tocam
não negam
não gemem
não olham
são papel…

 

mas eu
homem deste mundo
redondo
azul
com mares
com alma. sol e sal
cheio de gente como eu
esgotado para todos estes poetas
digo-lhes:
digam-me na cara
nos olhos
nesta alma que chora
nesta vida que também é vossa
digam-me
apenas mais que uma palavra
mesmo que seja
gosto de ti

 

mas não
não…
desculpem
não chega
eu quero mais
quero que falem
de vocês
de mim
do vizinho
do irmão
do vosso amigo
do meu amigo
do mundo
do vosso mundo
quero-vos sentados
quero-vos ao meu lado
quero esse vosso olhar
mesmo feio
ou bonito
não interessa
só quero que não escrevam
quero que falem
não se calem
falem
sejam poetas de verdade