.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

21/08/2016

as lágrimas também podem sorrir - I




foto - sampaio rego



I.

o dia das lágrimas – com vida certa ou incerta. verdadeira ou falsa. bela ou feia. rica ou pobre. trágica ou iluminada. excêntrica ou comum. aqui estou perante este tempo néscio de compromisso com a memória: um comprometimento de honra com o meu corpo por inteiro – o contrato – é este corpo. com a sua face. as suas mãos arrestadas a impressões digitais únicas. banhado por um sangue enlaçado num DNA que nunca se compreendeu como molécula única – tudo isto oferecido numa jeito de caminhar tortuoso. sinuoso. confuso. assim como quem vai tropeçar a cada passo. a cada folgo da vida – os olhos. de um castanho morno. arregalam-se como faróis em noites de tempestade. procuram em ansiedade o destino num inconformismo furioso – o futuro em movimento acelerado corre sem misericórdia atrás de um corpo que sempre se recusou a descansar – nunca fui nada sem movimento. sem corrida. sem ação meditativa. como se o corpo estivesse sempre atrasado ao pensamento – o lugar seguinte era sempre o melhor e mais certo para acalmar o desejo de alcançar o fim do mundo – mentira – só a fala se arrastava num vagar ansioso para uma boca que sempre almejou o silêncio – nunca me dei bem a falar. confesso que às vezes nem comigo – e é tudo isto que faz de mim um ser com memória. único. singular. excecional para o bem e para o que há de pior – por fim. e para que não houvesse enganos.  deram-me um nome sem nenhum tipo de atenção. e um último nome que diz mais do meu corpo do que todas os particulares descritos – sou então o único dono e responsável da minha palavra. da minha honra. da minha vergonha. das minhas opções e das minhas falhas – sou assim um responsável com memória. que gosta da autenticidade. umas vezes pelo contrato assinado. outras pela convicção de que o valor de uma vida não se mede em tempo mas sim pelo que deixamos no tempo – “o futuro e o passado não existe no agora” é apenas uma medida de evolução que neste momento não se aplica a mim – claro que há exceções dentro do meu próprio corpo. exceções essas que se amarram à memória e que determinam que a evolução da razão nem sempre se sobrepõe á virtude – os princípios que obrigam a virtude a determinadas opções são sempre influenciados por um estado de alma que no meu caso. pouco crente no sobrenatural. foi infetada no meu primeiro sim à vida pela tômbola da sorte – todos temos uma tômbola que gira sem nos perguntar a cor em que queremos apostar – baralha. dá cartas. escolhe o trunfo e diz: vais a jogo – e vamos mesmo pois acabamos de respirar e quem respira aceita as regras do jogo – estamos a viver e ganhar memória que é como quem diz: estamos humanos – nada acontece de um dia para o outro –  pelo meio as leis da sociedade induzem-nos a sua ética e moralismo. nunca tendo em conta a dor. o sofrimento. a falta de vontade de viver. a extinção da motivação. o eclipse da fé – normas pensadas e elaboradas para quando tudo está perfeito por homens mais imperfeitos do que eu – mas a razão de uma vida existir divide-se em mais de mil razões para poder pertencer a um único ato único – sou tantas coisas que jamais poderia eleger uma razão para viver e outra para morrer – o fim da vida é uma opção feita de tempo e o tempo é feito de memória e toda a memória é feita basicamente de desespero e horror – vivemos a felicidade de forma tão intermitente e rara que quando necessitamos de a recordar esta resume-se a meia dúzia de momentos que quase sempre nos obriga a recorrer à descendência. à companheira que é a luz da minha vida. à família no seu compromisso de afetos. aos raros amigos que conseguimos preservar e a dois ou três caninos que nunca me deixaram de receber com a cauda a abanar – tudo isto avalizado individualmente por um batimento cardíaco. ora sobe. ora desce. ora corre. ora descansa. ora nos diz que já nada compensa o sacrifício de ouvir as suas pancadas – o batimento do único músculo que no passado escondia o amor: o coração – já não há amor no coração. não há remorso. nem arrependimento. e também não há nenhuma medida universal para uma dor que nos teima em dizer: basta. chega. chegou a hora do descanso. do verdadeiro silêncio. da paz – chegou a hora de fazer descansar a memória –


[continua]





18/07/2016

deambulações noturnas - IV




foto - samapio rego

 

a intuição é o guarda-freio da alma - só ela compreende verdadeiramente as suas engrenagens. e a mantém no rumo certo



13/07/2016

convite a uma amiga





foto do autor

 

eu sei amiga!
mas vamos fazer de conta que é pertinho
tu apanhas o BUS
colocas um pouco de batom
sapatos altos
saia pelo joelho
e pronto…
estás na entrada
com um sorriso do tamanho do mundo
eu. escritor de amigos
faço o meu sol descer aos teus olhos
esqueço os sonhos
desenho um trono no meio do salão
onde sento a verdade
que sinto por te ter perto de mim
e sem arte deixo cair aos teus pés
toda a gratidão que me deste em palavras
no fim nasce o nosso Best-seller
afinal somos nós a escrever os livros
ah!
para voltares para casa…
não te preocupes
levo-te de braço dado
e pelo caminho
conversamos
afinal de contas também é preciso falar

 

 



28/06/2016

oficina do mestre astrolábio




foto - sampaio rego
 
 
 

lá longe
onde o mar acaba
há uma linha…

 
numa ponta a imaginação
na outra a realidade
geram um movimento
como o rodar da corda

 
aos saltos
os astros rejubilam
uma vez vénus
outra marte
e as estrelas. poderosas
aplaudem em confraria
o sol a morrer


por dentro
a engrenagem
fabrica o sonho
com a sua força
agiliza em promessas
a dor de um parto

 
na montanha
volto a sentir
o sol a sorrir…

 
assim me deito e levanto



27/06/2016

4 da manhã





foto - sampaio rego
 
o apocalipse na ponta de um lápis e eu sem saber escrever uma puta de palavra



21/06/2016

ocupação selvagem




foto - sampaio rego



não escrevo para outros e nada dos outros vos trago para ler – sou assim sem saber porquê – escrevo com a mão de um outro que me ocupa selvaticamente um corpo extorquido com usufruto – uma caução de morada até à morte – e é este miserável que me entrega com rudez tal e qual como sou. sem nenhum padrão de gratidão. ignorando o meu apelo sofrido ao silêncio – para a frente da fala não há mais recuo – a palavra é uma escritura onde o meu corpo exterior é avalista no mundo dos sons – não é fácil. acreditem – mas um dia serei pó e poderei definitivamente ocupar o lugar à direita do meu pai numa eternidade piedosa – o ocupador. selvagem. elementar hospedeiro de um corpo amaldiçoado por um deus de pedra. vai perdurando a ocupação numa simbiose forçada – ficará para sempre acorrentado ao peso das palavras. umas vezes em pecado capital. outras em clemência sofrida – quanto a mim. quando ando por aí. perdido numa modéstia de nojo. nunca nada vos direi. o silêncio não me é imposto. é uma forma de vida – a felicidade chegará com a mutilação



11/06/2016

coluna dos deuses




foto - sampaio rego
 
 
 
 
 

na poesia mora a ilusão.
tantas vezes erguida em colunas jônicas.
personificam sabedoria
e a força da beleza trabalhada a quatro voltas -
em cada volta gira um sonho
talhado para cada mente.
mais ou menos traído
em sonhos rendilhados
dum passado desenhado
a esquadro e a compasso -
giram as colunas.
gira a esperança.
as quimeras? esperam ainda
por deuses férteis -
mas a alma do poeta
continua deitada e chorosa
aos pés elegantes da coluna.
e dos sonhos nunca esquecidos
num chão
nem sempre geométrico -
lá no topo. a coluna toca o olimpo
espalhando sapiência para semideuses
sentados aos lados dos deuses -
partilhavam dizeres e banquetes
sacrificando a mitologia
ao mundo dos mortais -
o poeta que cá em baixo agonia
vestido da mesma dignidade.
lamenta amarrado às colunas graníticas
por não ser “aquilo” que os deuses esperam -
violado na alma
pela culpa das letras
declama em forma de remissão:
por aqui escreve-se assim.
sem ilusão de algum dia escrever diferente -
serei sempre um pequeno trovador
ao cuidado dos humores dos deuses
mas nunca dos semideuses. morrerei por este lugar
onde moram almas “impuras”




paredes com vida - I





coimbra 2016 - sampaio rego

                                                              



05/06/2016

dasabafo




foto - sampaio rego
 
 
 

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro” - Clarice Lispector
 
e é nestes cortes que sustento o corpo num equilíbrio suicida. um impulso contido de raiva. de expurgação e de purificação – escrever é um ato de fé – sou um homem só numa só escrita – as amizades estão cada vez mais difíceis de se escrever – os dia são agora de um outro mundo. tecnológico. amplificador para o bem ou para o mal. divergente na escrita. convergente na identificação da felicidade. extremados no amor e no ódio onde os amigos nascem ao pontapé: és um querido meu amigo. és bonito meu amigo. amigo o teu sorriso é o espelho da tua alma. adoro-te amigo. tenho saudades de te ver amigo. és único meu amigo. e as ligações em fibra ótica a levar a burla aos quatro cantos do mundo – aqui estou eu neste desabafo inócuo apenas porque me recuso a usar a palavra amigo em vão – cada vez gosto menos das pessoas que me entregam adjectivações de excepção e depois as vejo gastas ao preço da uva mijona – nesta nova arte de fazer amigos pelas redes sociais sou um inadaptado - por isso corto nos gestos. nas palavras. nos abraços. nos sorrisos. nesta forma de me dar e de raramente dar uma palavra a quem não a merece - não gosto de enganos. não gosto de erros grosseiros  e também não gosto de erros de simpatia. – não quero lacunas nos cânones da palavra amigo - não sou santo agostinho e de peixes pouco entendo mas sei que a palavra amizade é o único brilho que me incendeia os olhos – há palavras que me custaram a ganhar. muito mais que um dia de trabalho. ou um mês. mais de um ano. quase tanto como a vida que agarrei. um esforço que não vem de nenhum músculo. de nenhuma corrida. de nenhuma trovoada ou bonança. vem de um arrepio na pele. tão leve que ás vezes engana o coração – esta minha liberdade de amar pelo sentir é o único amor certo que ficará para depois da minha morte – não me enganem
.
.
e agora vou sair para o mundo onde a mentira é feita de sorrisos. mais podre que a internet. mais rasa que a lama. mais perigosa que um saco de víboras – amigos. vou a caminho
 




02/06/2016

sombras





foto - sampaio rego
  

 

alcanço um som.
leve. muito leve.
não são harpas
não são anjos
são fantasmas descalços.
sabem-se implicantes
por tão antigos serem
 

vivem no sótão.
nos medos e segredos
de quem nada sabe

 
inquietam. procuram.
abanam.
remexem o passado:
matam as palavras.
as desculpas.
os lamentos.
os choros
ainda vivos.
sofridos no sangrar
dos pulsos


nas sombras da noite
onde sopra uma pitada
de luar.
meus olhos sempre criança.
gemem de pavor…
nas mãos uma cruz.
na boca.
um anjo da guarda.


o hábito veste de branco
na luta contra o medo.
quando partem.
sem cuidado.
advém a desarrumação.

 
na parede.
sem mais…
um lembrete!
amanhã. à mesma hora!
cerram os suores.
por fim. durmo                  


31/05/2016

zero





imagem google
 
 
 
o capitalismo também se apresenta em lata. e agora. para decepar os resistentes. nasceu a zero. zero calorias – a coca-cola conquistou o mundo da escrita. as palavras tombam embriagadas de cafeína – o artista não dorme. devassa a noite em glosas marginais – contorce-se o papel em mãos geladas – amanhece – solta-se o dia. e todas as palavras ensopadas. ensonadas e encravadas organizam-se em música – começa a tocata e fuga em ré menor. johann sebastian bach – saia um expresso rápido por favor. tenho o carro mal estacionado e um pacto de estabilidade para fazer cumprir



26/05/2016

triste é...





 
 
 
triste é estar só
triste! é não saber o que fazer
não saber o que pensar
não preparar o futuro
esquecer o passado
chorar sem saber porquê
desfrutar de lágrimas insossas
dizer não ao sim.

triste é não ver o pôr-do-sol
não sentir a chuva
o vento
o aroma das flores
o grito dos animais
os gestos mudos
os carros a passarem
o telefone a tocar.

triste é não poder vaguear
não sentir dor
escrever sem saber
largar os remorsos
partir os espelhos
ser o que não somos
ter medo do dia
querer o que não podemos

triste é não amar
não olhar
filosofar para o espaço
não ter hora nem abraço
não ter leito
paz ou capataz
correntes, amarras ou
âncoras.

triste é não ter poemas
livros com prosas
bíblias de amor
saudades finitas
pensamentos
pecados
omissões
guardiões.

triste é não ter mãe
esquecer o pai
estragar o fruto
congelar o sabor
ter um tempo depois
um adeus
uma cobardia
um fantasma.

triste é não ter memória
um abrigo
um choro de irmãos
um avô que te espera
uma avó que tricota
um vizinho
um amigo
um inimigo.

triste é sermos diferentes
desprezados no olhar
referenciados e marcados
esquecidos
contidos e odiados
chorados
olhados
espoliados.

triste: é apenas o contrário de alegre
.
.
26 / 12 / 2002 - “ na companhia da solidão “
.
.
poema na voz da poetisa vony ferreira que. de uma forma especial deu ás palavras do poema uma outra interpretação desconhecida ao seu autor - sempre fiz uma leitura rápida e intensa onde cada oitava é uma respiração - mas gostei também muito desta declamação - a “pacatez” das palavras

 



25/05/2016

corrente[s] na escrita




foto - sampaio rego

 
bem que deixo o corpo partir pela corrente de água do que penso – depois. chegado ao fim do percurso. olho para trás. e dou conta de que tudo o que escrevi foi unicamente trabalhado pela força da água. arrastou ao acaso as palavras. e eu iludido a imaginar que eram as mais certas – desilusão – e aqui começa o desespero – volto atrás. corto palavras. risco. modifico. altero. recupero memórias e deixo partir tudo na mesma linha de água – reescrever é sofrimento. desespero. agonia. frustração e a água cada vez mais transparente. mostra o caminho tal e qual como é – levanto as mãos aos santos em quem não acredito e pergunto: se gosto de escrever porque não me destes vós a arte e o engenho de escrever o que sou em harmonia com o meu corpo – revolta – não sou como aquela mãe extremosa que é atraiçoada pelo amor. ao contemplar o seu filho feiinho sorri com o único sorriso verdadeiro do mundo. e os seus olhos. sem mentir. dizem que é o mais belo – tudo o que faço está aquém do belo que imagino – mas a luta continua. sempre – obrigado e um grande beijo


comentário para uma amiga - mulher de 1 texto só

06/05/2016

a tenda




foto - google



1.

a tenda está montada – as colunas de som anunciam mais um grande espetáculo numa noite toda ela investida pelo rigor dos trajes – começa o desfile dos decotes e dos entretenimentos – o espaço é todo ele glamour. um desafio ao infinito da mente humana. ao deslumbramento. ao encantamento. ao sonho – a cair do céu. lustres envoltos em brilhos. projetam cores de um arco-íris que. na sua extremidade. esconde o santo graal das mil e uma noites – tudo leve. tudo alma. tudo transparência. tudo sensualidade. enquanto a música toca charme em decibéis que são melodia de acasalamento – e todo mundo sabe conversar. sabe manear o corpo num tempo perfeito de insinuações – e as luzes acendem e apagam. e agora uma vermelha. logo outra azul. e mais uma amarela. e em cada intervalo de luz o belo protegido por sombras intermitentes – cai dos altifalantes um encosta-te a mim. cai gesto. cai charme. cai um beijo dos lábios e os sorrisos desfazem-se de boca para boca – as palavras são agora notas de concordância numa clave de sol perfeita – o ar quente sobe. os vestidos também. o astral. o charme. os sapatos de plataforma. os soutiens push-up. tudo a subir sem parar. o deleite. a volúpia e a loucura também – a descer só mesmo os decotes atracados aos olhos cobiçosos dos cavalheiros que. silenciosamente. deslizam para o seu interior numa gula luxuriosa e delirante – preso em jeans. o cio.  rompe dos corpos num rugido de guerra silencioso. mostrando ao corpo que não há luxúria sem imaginação – o que é da noite. na noite em segredo fica para sempre – e entra a “elegantérrima”.  logo em seguida a excitadíssima e a estranhíssima. e num toque de magia rola o sumiço da sensatez – explode a insinuação – e a boca do lobo mau na face de cada macho. perseguem o gozo perdidos em ereções azuis. robustas e vigorosas – homem que é homem bebe whisky. tresanda a tabaco. brota cabelo do sovaco e promete à mulher o orgasmo de todos os orgasmos – o delírio masculino retratado pela fábula do sapo e do escorpião: é a sua natureza – o bom senso. aos poucos. é corroído em goladas curtas e obstinadas – e o desfile dos corpos cada vez mais entrelaçado com o pecado – entra na vitrina a mal casada. seguindo-se a oferecida. e mais uma que não se dá por nome nenhum – o vazio da tenda começa a desaparecer. enquanto em sentido inverso emerge a provocação quente e sensual – as fantasias avolumam-se e a espectativa agiganta-se num espaço cada vez mais comprimido  – finalmente homens e mulheres em igualde na sua plenitude – e o barman. numa ligeireza absoluta. esgueira-se em sorrisos pelo meio de roucos e desesperados apelos gorjais. e a cada súplica. grunhe em simpatia uma jura de que a culpa é de vénus – ele é apenas um simples mortal enviado para matar a secura das bocas. sabe que mais tarde ou mais cedo a desvirtude tomará conta do seu corpo – a festa também é dele – o álcool não protege a moral dos bons costumes – rompe pelo balcão mais uma caipirinha que. não vinda do brasil. traz no seu interior as batidas sensuais do samba. a ousadia. prometendo fazer rolar bundas num ritmo da excitação raivosa. enquanto os másculos. em uníssono. reclamam mais tesão para o salão – os RP`s. com mais de mil amigos facebookianos. recebem todo mundo numa aflição galopante – -- boa noite. sejam bem-vindos ao nosso espaço – multiplicam-se os meneios íntimos. amontoam gestos. dobram simpatia. descobrem sorrisos. inventam adaptabilidade e prometem a cada cliente uma noite para mais tarde recordar – para estes colaboradores cada palavra gasta é um empurrão de afetos para a confusão – e as apresentações repetidas até ao esgotamento – o barulho das vozes e dos gestos é agora infernal num bar atulhado em súplicas de prazer – e mais um red bull com vodka para ali.  e um bulldog com frutos às cores para a amante do cavalheiro de negro – os corpos encontram-se. tocam-se. beijam-se e insinuam-se em danças que já são de pré copulação – e a tenda repleta de gente. repleta de glamour. repleta de encantos. de ilusão. de desejo sexual primitivo – a noite a explode – os decibéis da música deslaçam finalmente a timidez da cinquentona que. promete tudo o que tem num corpo XS. enquanto a da alta sociedade. ao lado da de nariz-empinado. faz brilhar num triple XL o valor de cada lantejoula – o ambiente na tenda enlouquece. as paredes tremem. e a batida house faz pular a olívia que não é palito. deixando a multidão a dizer: que borrachito. que borrachito. e o povo em suspiros diz em voz de surdina: quero dançar com ela. quero dançar com ela – e quem não pula não tem tesão – loucura loucura. diz a turma em voz viril enquanto a mulata mostra o rabo até à exaustão – e elas. perdidas em lascivas agitações. derretem-se em sorrisos vaginais – toca uma quizomba do anselmo. não me toca. lenta. muito lenta. e tudo aos pares. perfeitos. protegidos pela magia do encantamento que só se quebrará com o orgasmo. enlaça as almas pecaminosas em gemidos que não são de sofrimento – os corpos entrelaçam-se. colam-se. os traseiros contorcem-se numa dor que vem da falta de pudor. e os joelhos para ali. e as ancas para o outro lado. enquanto as mãos se perdem em desejos desesperados – e o pecado a dizer ao ouvido: mais. mais. não pares agora. e um arrepio. e uma mão na cabeça a dizer vais ser minha. e a outra para cima e para baixo. e o desejo promiscuo amarrado a um beijo que fica para o resto da noite a latejar – e tudo que era mulher séria é agora mulher excêntrica. adultera. pervertida. tudo que era cavalheiro virtuoso é agora cavalheiro adúltero. gigolô. atulhado num tesão escorado numa robustez eriçada pelos químicos – e a música a acelerar a decomposição dos corpos num protocolo assexuado – a noite não para de surpreender. os corpos não desistem da excitação. os rostos pedem mais aperto enquanto as nádegas saltitantes gemem entaladas em rendas que já não são mais elástico – todo o XL é um ESSE justo que não se cansa de dizer: sou a mais bela gaja do universo e de cima dos meus sapatos luís onofre sei falar como ninguém – sou toda etiqueta. sou alta costura e não estou aqui para qualquer um – olhai olhai. no que é meu não tocais a não ser que digam que sou a mais gostosona do reino – sou rainha. ninfomaníaca. louca e sinto-me toda molhada – enquanto a mal casada. num sorriso que é passadeira diz: cheguei meus amores. estou linda de morrer e é bem-vindo quem vier por bem – a repinhas. cada vez mais mal-amanhada. para não ficar atrás. abre o decote e diz em espanhol que não é de espanha: “estoy muy caliente y soy una chica guapíssima. mui respetada y apreciada” enquanto o marido. de vigores estrogénicos. vai abanando a cabeça numa anuência predadora – para este chico a arte de caçar é igual à praticada pelo homem da pré-história. uma selvajaria sem regras disfarçada numa simpatia saloia – nada lhe escapa – e os copos a baloiçar entre a cerveja e o blue lagoon. entre uma kizomba e um movimento de olhos que anuncia a qualquer momento sexo em doses ilimitadas – e tudo é boca. sorriso. e tudo honoris causa. saber. arte produzida de encomenda. costurada corpo a corpo. mente a mente – em cada cérebro o ímpeto tosco de uma exclusividade suportada por um ego só suplantado pelo divino – e quem nasce macho. macho morre – é a hora do zé triste – encostado ao balcão. de copo na mão. ginga o corpo num enredo de cautela aristocrática – fidalgo. exclusivo e elitista arfa arrogância em ritmo de nobreza real e em cada golada a fantasia de um orgasmo imperial  – vai  imitando o camaleão com desdém: um olho para as gajas e o outro na sua garina que. em hábitos curtos e maliciosos. mostra aos homens o arrojo carnal de quem sabe que o seu clímax será sempre cerebral – estamos no epicentro da noite. a música é agora aglutinadora. tudo salta. tudo canta. e tudo é dito em delírio pela françesa: “oui. je me sent une fou” – e o suor a emanar cheiro que é sinal de desvario – na pele a explosão de hormonas canibalescas fazem cintilar os corpos de desejo agâmico – e elas dissimétricas da razão contorcem-se. tudo já é padecimento. aspiração. desespero. aflição. e entre o corrimento fértil de uma vida a certeza de que finalmente estão emancipadas do mundo das normas  – sexo por sexo precisa-se e exige-se – e os machos sem saberem o que fazer a tanta profanação do bom senso. perdem-se em galanteios desnecessário – desdobram-se em ereções inúteis que terminam em ejaculações precoces –  o mundo masculino lida mal com o que lhe é oferecido por prazer – há uma nova liberdade. um novo pulsar da vida no relógio biológico humano – e todo o mundo se interroga: será que sou louco? não. não. e não

2.

e a divina comédia de dante reformulada numa viagem renovadora ao mundo da libertinagem – já não há mais inferno para quem quer ser feliz. a pureza da alma constrói-se com a simplicidade do amor – a felicidade só pode ser alcançada na sua plenitude  a partir da verdade e da lealdade que cada um tem com o seu próprio corpo. o seu autoconhecimento de um eu genuíno – só a mentira mata o afeto. mata a autoestima. a autoconfiança. a autoaceitação positiva – o purgatório está agora desabitado para sempre enquanto satanás devora o manual do pecado capital – já não mais serão sete – o paraíso é feito na terra e só está ao alcance daqueles que amam a justeza – quando nos aceitamos na totalidade aceitamos tudo o resto como um complemento positivo à nossa vida – a manhã traz um novo sol para dentro dos corpos. e em paz. regressamos ao lar em perfeita consonância com as leis universais do amor – há uma harmonia com a natureza das coisas que não se explica – os corpos são devolvidos a outra realidade numa mesmíssima alma – a explosão da afeição. da ternura. da estima. do companheirismo e da cumplicidade acontece com a chegada ao lar – tudo por aqui é perfeito – o mundo é redondo. e cada um de nós habita-o numa milésima partícula de terra. única. como uma impressão digital – o nosso ninho espiritual que ninguém sabe onde fica a não ser o próprio – um ponto imaginário para quem nos marca pela indiferença.  um ponto real para os que nos abraçam com a bondade de um universo tendencialmente fraterno – o meu está aqui. mesmo à frente do vosso sentir – basta acreditar





04/05/2016

solidificação do belo




foto - sampaio rego



 
 

os jardins a florir
e a lua sempre a
nascer e morrer

ser ou não ser. eis a questão
talvez um estrangeirismo aformoseie:
“to be, or not to be”

ou

uns e os outros
“les uns et les autres”

adito apenas arte à estética
o belo aos sentidos
mesmo que apenas conte cinco
a emoção existe

na morte
no nascimento
nalua
na flor
no mar

poderá ser:
bolero de ravel
trauteando [meticulosamente]
imagens em pautas de música



02/05/2016

para uma ana




foto - sampaio rego
 
 
 
que bom ana que vieste até aqui. que saudades de te ter perto das palavras – estou feliz. mesmo feliz. a felicidade não se escreve. digo eu que quando fico feliz desapareço do corpo e as mãos ficam á deriva – as palavras. estas que me fazem escrever compulsivamente partem também. livram-se deste maluco que tem a mania de escrever testamentos – que tu conheces – hoje. como estou feliz por me estenderes a mão às palavras vou-te abraçar. abraçar com força e segredar-te o que já todo o mundo sabe: é bom saber que eu existo para ti – dizem que isso é amizade. que palermice. que simplicidade. que insensibilidade. é mais. muito mais. para mim é sobreviver. é saber que ocupo espaço no espaço de alguém que gosta de mim assim. doido por apenas saber dizer as coisas a escrever – desculpa ana. tens razão. já tive tempo para te dizer que também é bom estares na minha vida. tu e o filipe – agora vou embora. nem sei muito bem como acabar este comentário. talvez como quando escrevi o primeiro comentário para ti. quando as noites eram grandes e tu ainda andavas sem relógio



29/04/2016

encómios




foto - sampaio rego
 
 
 
os elogios são sempre terríveis para quem gosta de escrever – primeiro tocam as campainhas da satisfação. depois. e quando o corpo retoma a forma do artesão. fica um ruído que mais não é do que um zumbido escrito nas mãos – o medo de errar é cada vez mais uma dor e o trabalho uma canseira insuportável – a imagem do belo está sempre associada a cada momento do leitor – estou agora na fase do zumbido continuado