.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

22/09/2016

é então que o silêncio se faz de outono





foto - sampaio rego



cai o sol. cai a folha. cai a árvore. cai o frio. cai o homem e o descanso fica eterno – é então que o silêncio se faz outono numa simbiose perfeita entre a hora da morte e o interminável sofrimento da  lembrança – emerge a saudade – afinal. um dia. eu existi nos teus olhos



19/09/2016

moisés ainda anda descalço. no deserto




foto - sampaio rego


pior do que apenas ter um rim. um pulmão. uma perna ou um braço é não ter cabeça – sem cabeça não há passado. perde-se a vergonha. esquece-se a razão. iludimo-nos com o acessório aconteceu a moisés enquanto guiava os cristãos pelo deserto da galileia. alguns bons cristãos perderam a cabeça – estas pobres criaturas. desesperados pela viagem parecer não ter fim. deixaram de acreditar no seu deus. e nos valores que os levaram à caminhada – revoltados fizeram num ápice um novo deus. mais bonito. mais valioso por ser de ouro. e principalmente mais presente – este falava. dizia tudo que o povo gostava de ouvir – agora sim. o povo podia finalmente ser feliz. com este deus não há meios que não justifiquem os fins – a festa estalou: música. dançarinas. ilusionistas e malabaristas. animais selvagens e seus domadores iluminaram a noite – valeu moisés. fiel aos princípios. bateu com o punho na terra que era de todos. e num gesto sensato. sacou das pedras da boa índole. atirou-as aos foliões e em voz grave disse: “vem teu inimigo humilhado? guarda-te dele como do diabo” – deus não dorme. continuou moisés. estas são leis para qualquer deus de uma qualquer religião. leis para um qualquer homem respeitar. seja preto. vermelho. verde ou azul


milhares de anos depois


lamentavelmente havia uma lacuna. deus também não pode saber tudo. digo eu que gosto de ver o meu deus parecido com os homens – um conselho de sábios bem formados. de todas as regiões da terra reuniram e unanimemente concluíram ser necessário um aditamento à tábua das leis de deus – assim nasceu o 11º mandamento – não SUBORNARÁS

termino com mais um provérbio:

"o destino não é uma questão de sorte. é uma questão de escolha:

não é algo a se esperar. e sim a conquistar"




16/09/2016

deambulações noturnas - X




foto - sampaio rego



neste lugar da noite sou muito mais que um lego - desmonto-me e monto-me - e as peças sem acerto gritam-me em acenos diabólicos: -- eu sou daqui. aquela é dali e tu... não és de lado nenhum




11/09/2016

as lágrimas também podem sorrir III




                                                                        foto - sampaio rego





na maior parte dos dias não sou nada. noutros. sou eu. que nada sou também – mas há dias em que me sinto herói. assim como aqueles super-heróis americanos que voam. que andam pelas paredes. que se transformam em rochas e deitam fogo pelas mãos sempre com uma única motivação: a de proteger os mais débeis – nesses dias. sou então fenomenal. sou herói por inteiro. mesmo que os pés sejam de barro – sou feliz – a razão é simples para essa felicidade. os meus super poderes anularam [temporariamente] umas quantas forças do mal que me infernizam a memória – são vitórias curtas. inofensivas e tantas vezes inconsequentes. não servindo rigorosamente para nada a não ser ganhar uns míseros instantes de bem estar para o corpo – mas são estas janelas no tempo que me permitem debruçar no seu parapeito e olhar o mundo de uma forma mais tranquila. com mais tolerância. mais sossego. mais ternura. sem amargura. sem desumanidade. sem culpabilidade. sem desassossego  aceitando a sua forma de girar. de centrifugar. de arrumar as pessoas. de criar amigos. de os estimar e de me levar ao cimo da minha montanha. olhar o futuro com misericórdia. perdoar o passado. reajustar o corpo com o que me resta da alma sã. meter as mãos aos bolsos. escutar o coração e devolver aos olhos a vontade de caminhar. de não desistir. de acreditar. de contornar o destino mais uma vez – e ali fico. estático. à procura de um lugar no céu  que nunca conheci e que por via de um crescimento apressado nunca percebi se o seu azul anuncia tempestade ou bom tempo – isto tudo numa resignação tranquila. de aceitação do mundo que me foi oferecido e de uma absolvição sincera. merecida e desejada mesmo que condicionada pelo tamanho do horizonte da minha janela – sempre acreditei que o [meu] mundo é tendencionalmente bom – mas às vezes a minha memória atraiçoa-me e não me autoriza ver o seu lado melhor – é o seu lado mais sombrio. mais adulterado. mais egoísta. portando-se como os antigos corsários: terrífica. de tapa olho. perna de pau e espada em riste pilha-me a alegria de viver deixando-me ficar os revés como sinal de aviso: não estás a sonhar – cruel – mas a realidade é que a memória não é mais do que o armazenamento da nossa vida através de experiências ouvidas ou vividas – em boa verdade é tudo aquilo que eu quis que fosse – libertar-me do passado indesejado é apagar a memória mas também é apagar uma parte da minha essência como homem que cresceu numa soma da totalidade de todas as experiências – sou assim tanto do bom como do erro – mas mesmo assim gostava de apagar tanta coisa – nem sei se são assim tão más. mas cresci e quando crescemos mudamos em tanta coisa que. inexplicavelmente. nos leva a querer apagar ainda mais – cresci – cresci tanto que há faces que já só reconheço nos sonhos. surgindo-me então os corpos afeiçoados com os sorrisos do dia em que os esqueci – quando crescemos a saudade cresce connosco e aquele até amanhã sumido na despedida do amigo é agora necessário que aconteça – é urgente rever os amigos de calções. da bola. da carica. do polícia ladrão – é absolutamente essencial. para o meu sossego. saber que estão vivos e que afinal o tempo não os mudou por dentro – é  o lado bom da memória sem a corrosão do tempo –  recordo então os que já partiram e peço-lhes perdão por erros que só a juventude é capaz de perdoar e lamentar – a morte é a saudade vestida de negro – cresci para partes do corpo que não gosto. mas também cresci para outras que aceito com humildade – cresci. cresci para um futuro que já não é só meu. cresci tanto que já sento ao colo os netos. um avô é pai duas vezes – cresci para os meus filhos. estão enormes. homens bons. dignos. a saberem coisas do mundo que eu na idade deles não sabia. a prometerem o resgate da felicidade em definitivo para a nossa família. com honra. com nobreza – cresci para a minha mãe que do cimo dos seus noventa e dois anos não se cansa de me dizer para ter cuidado com os invernos: -- toma a vacina para a gripe meu filho. tem cuidado contigo. já não és nenhuma criança – mas cuidado para quê minha mãe se o único mal que temo é este que me permite sobreviver no vosso meio sem acerto com a minha consciência – fernando pessoa diz que “a memória é a consciência inserida no tempo” – que verdade tão cruel. há verdades que dói como o fogo de camões – não gosto de algumas memórias e tudo faço para as apagar – infelizmente. quase sempre. temporariamente – não é fácil – há momentos gravados a cinzel. para sempre. inapagáveis – como dizia cervantes: “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!” – são estes momentos que nos fazem sofrer – ainda estou a ouvir a minha mãe a dizer: -- um dia vais puxar pelas orelhas – quando um homem quer safar o passado o final está sempre para breve – nunca me passou pela cabeça. bemtalvez não seja bem verdade. que um dia iria querer dar um apagão à memória. desativá-la. eliminá-la. destruí-la – há recordações que se comportam como a peste negra – a única diferença para pior é a forma lenta como nos leva à morte – nunca imaginei que ao longo do tempo esta adquirisse um tal poder de persuasão capaz de ordenar a destruição do seu próprio corpo – rouba-lhe o sorriso. a vontade de viver. a auto estima. a fala. a vontade de amar e de ser amado – dá-nos a solidão e com esta chega a coragem para esquecer o amor de quem nos quer bem – quando damos conta já não temos nada de nós. gelamos e daí a fragmentar a alma é apenas a ocasião –  não é possível lutar contra a vontade de algo que não sei como dominar. alterar. reformular ou até ajoelhar. pedir perdão e prometer-lhe um novo par de olhos. de ouvidos. de gestos. de sorrisos. tudo para construir uma numa nova dimensão humana – confesso que não sei o que fazer. tudo que tinha para fazer já fiz – não podemos entregar a nossa memória a ninguém para retificar o que quer que seja – não foi feita de um dia para o outro. é feita de tempo. do que ouvi. do que vi. do que senti em cada momento e que por ser apenas minha só eu serei capaz de a compreender as suas opções – sou um par de olhos e ouvidos – agora. hoje que vos escrevo. sei apenas que os olhos cegaram e os ouvidos são zumbidos que não me deixam descansar – só a memória. em momentos raros de lucidez. ainda é capaz de distinguir o bem do mal. o certo do errado. a luz da escuridão – talvez esteja louco e a memória me esteja a trair fazendo-me esquecer a razão principal  da minha chegada a este mundo. levando-me a ver outra forma do meu corpo. outras vozes. outros gestos. outros sorrisos – agora todo eu sou estranho. e tudo que imaginava ser meu em definitivo afinal não é. e estou cada vez mais só porque não me reconheço e também já não tenho a certeza de que esta memória seja realmente minha – compreender-me  neste todo é cada vez mais difícil – há um bruído bem lá no fundo. um cansaço que apela à autodestruição – já não sei se vivi muito ou pouco. tenho dias que quero ir para casa e outros que continuo a magoar-me nesta luta que não me leva para lado nenhum – estou com uma vontade enorme de voltar ao sul – sei que nasci a sul e depois caminhei para norte – é no sul que as andorinhas fazem os ninhos e os rios encontram o mar em definitivo – é no sul que os meninos jogam à bola numa rua igual à que me viu nascer – é no sul que descobrimos o saber de toda a humanidade. que encontramos tudo o que perdemos violentamente: o meu pai. a sua paz. a sua serenidade e finalmente a seu lado a verdadeira aceitação do que realmente sou – com a idade percebi que sou tanto do meu pai – é no sul que podemos definitivamente dizer à memória que já não nos faz mais falta – eliminamos de vez o que nos magoa porque a sul não habita nem a desonra. nem o erro. nem o pecado – a sul existimos tal e qual como nascemos – a memória é pertença de um corpo com uma vontade intrínseca para conquistar a paz – neste mundo. este que me consome diariamente. o corpo existe só para a carregar. é um alforge que a suporta em sorrisos angelicais. em gesticulações graciosas. em fonemas musicais descarregados em boca gentil: --sim. está tudo bem obrigado – mas a memória diz que não – dentro da memória cabe o corpo. e dentro do corpo a dor que. não sendo visível. é sempre possível descrevê-la: uma lâmina abstrata. de contornos pouco definidos. sem linhas retas. com arestas vivas. curvas e contra curvas envoltas em ângulos que não levam aos cortes nenhuma cicatriz que se transforme numa impressão digital – com esta lâmina abstrata nenhum corte é repetido. nem sequer parecido. imitado. nem rebuscado. nem desenhado. é apenas um corte que corta de acordo com uma dor que é só nossa. uma dor exclusiva da memória – é uma dor silenciosa que nos mata em duodécimos para ganhar ao tempo mais humilhação – dor e mais dor – a angústia desta dor não pode ser explicada – sente-se e magoa. só – não há dores iguais. não há cortes iguais – pode parecer. mas não há – por isso peço aos meus amigos que não imaginem esta dor. não a criem à sua semelhança. não a desenhem. não a preencham com as dores da vossa vida – não seria justo e eu não gosto de  amigos injustos. perco-os na memória e confesso que depois já não sou capaz de os procurar – varrem-se-me para sempre – os verdadeiros amigos. os afetuosos. não se zangam pelas dores que não são suas. respeitam-nas – um dia recordarão a minha existência num silêncio-entendimento. de aceitação-paz. de amizade-incondicional. de verdade. de saudade. de compreensão – cada metamorfose da memória projeta no corpo uma dor diferente – bem sei que as dores se tornam públicas quando oferecidas em palavras. também sei que todas estão sujeitas a um julgamento. a um exame. um estudo até. crítica também. mas não se esqueçam nunca da compreensão. da amizade. da tolerância. mesmo da sua aprovação por compaixão e mais importante. da legitimidade das minhas escolhas – bem sei que nem sempre as escolhi. muitas tocaram-me em sorte – a dor é pertença apenas de um corpo com a sua memória e apenas essa memória será capaz de a julgar e compreender as suas motivações – a memória é uma armadilha dolorosa que depois de escolher a sua vítima prolonga-lhe as dores numa continuidade suicida – são dores que ficam para sempre. nos dias melhores adormecem atordoadas. anestesiadas. mas na maior parte das vezes. disfarçámo-la com sorrisos. com festas surpresas. com brindes e com amigos que estimamos o suficiente para não lhes transmitir uma dor que não lhes pertence – para sofrer já basta um corpo – acumulamos dor. acumulamos sofrimento. acumulamos falta de compreensão. acumulamos indiferença e todo mundo acha que seriamos melhores de uma outra forma qualquer – como se eu não quisesse ser outra coisa – às vezes queria mesmo ser o resto do mundo menos ser o que sou – a dor é um vulcão que de tempos a tempos se sente obrigada a expurgar a sua larva para permitir ao corpo mais um dia de vida. para se reinventar. reformular. reajustar e aceitar uma nova verdade  por tempo limitado – mas nem sempre é possível. já não há força. a honra foi perdida definitivamente – o tempo é um embuste: na juventude somos feitos de idiotices. no entanto. juramos a pés juntos que tudo é perfeito – envelhecemos e tudo que era certeza é agora dúvida. erro. remorso. arrependimento e o perdão perdido entre o castigo violento e um julgamento com direito a pena de morte – e o nosso dedo apontado a tudo. e o dedo dos outros apontado ao nosso coração e a justiça feita com a cabeça na guilhotina – dor. arrependimento. dor. arrependimento. dor arrependimento – e esta repetição a ecoar sofrimento. sem cessar. sem piedade – nietzsche dizia que “é possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer” – eu não consigo esquecer – com o tempo a memória rouba-nos a boca. as lágrimas. os olhos incham. esbugalham. deformam-se. rouba a cor. rouba a realidade e a morte surge por um afogamento que dura tantos anos como quantos levo a pensar – o filme da vida passa-nos diariamente numa agonia de quem sabe que tudo pode acabar de um momento para o outro – o erro e a dor arrogados a um passado de fé: é a vontade de um deus – perdi a morada deste deus. não sei onde é a sua casa  – um caminho errado mais cedo ou mais tarde rouba as pernas ao peregrino – morrer sufocado pelas memórias é desumano – os amigos mereciam muito mais de mim do que este final – que me perdoem os que comigo caminharam porque são poucos – estimá-los deveria ser a minha última honra





[continua] – para a IV e última parte


03/09/2016

post mortem




foto - sampaio rego





hoje. a velha amizade foi suspensa
mas a culpa não é tua.
acredita.
é apenas a vida a rolar
seguindo uma nova aventura
sinto que nada mais tenho para te dar
e tudo ainda para relembrar…
sei no entanto que não será fácil
aceitares as minhas razões
estará para lá do teu entendimento


tu que vias com os meus olhos
e sempre ouvias o meu sofrer
com silêncio acertavas a aprovação.
hoje. estás atónico 


talvez até tenhas a tua razão
talvez esteja a ser louco
talvez me arrependa
talvez mereça ser réu
talvez encontres um erro no meu eu
talvez não me possas perdoar
precisas de uma razão


envelheceste! dirás tu
rejuvenesci! direi eu
dirás então:
é assim!
eu direi apenas:
assim é!
falarás do passado
eu falarei do que não passamos.
lembrarás as borgas
eu falarei das ressacas.
dirás porquê.
eu direi porque não!
dirás que eu sou outro
eu direi que sou eu


apenas acrescentarei:
não mais serei
nem aquele.
nem outro.
serei apenas eu.
e dos novos caminhos
jamais receberei
risos aos sonhadores


hoje. ao fim da noite
sonhador. cairei na cama.
sozinho?
nunca mais…
entrelaçar-me-ei nos lençóis
e com a alma de um poeta qualquer
adormecerei a dizer:
sou quem sou


sorrindo lembro.
“o sonho comanda a vida”


30/08/2016

morte




                                                                         foto - sampaio rego



tudo amadurece
com sol
ou com chuva

a vindima chegará



26/08/2016

as lágrimas também podem sorrir - II





foto - sampaio rego


II.


a memória pode decidir no agora o destino a dar ao seu corpo – só esta tem algo a perder –  tudo pertence à memória e é esta que sentenceia. é esta que tem a espada dâmocles. é esta que tem o saber da humanidade com todos os seus desgostos em contrapeso – a questão é simples: continuar ou não a absorver a vida para perseverar a forma do corpo que. apesar de deformado pela corrosão do tempo. será sempre o fiel depositário de todo o conhecimento – manter o corpo é manter a memória – assente num transtorno dissociativo de personalidade. acirra os sentidos quase sempre aflitos. disfarçando-os de uma alegria silenciosa. pacífica. pacata. pueril. aliando gestos artísticos estonteantes criando a ilusão de um corpo gigantesco – alto como ninguém. ali vem ele. num volume de alma enorme. inconfundível. distinto. único. reconhecido por uma multidão de quase ninguém  – podem-nos chamar pelo nome. podem até dizer que nos conhecem bem. de abraço. de paixão também. mas ninguém poderá ousar dizer que conhece o que temos de mais autêntico. mais verdadeiro. mais nosso: a memória – essa é só nossa – ninguém por mais íntimo. por mais intrínseca que seja a sua ligação poderá atrever-se contrariar esta afirmação – talvez possam dizer que conhecem algumas características suas mais particulares. algumas manias. fetiches. taras. jeitos. um pouco daquela forma de andar. de não dizer toda a verdade. de encontrar a sua justiça com palavras que se repetem de oratória em oratória. de experimentar a partilha de noitadas. de ressacar de um whisky rasco misturado num hálito a SG gigante. de trocar palavras de camaradagem. de abraço por um golo de camisola vermelha. ou por um campeonato ganho pelo glorioso – isto e mais meia dúzia de “manigâncias” é o que os mais chegados podem garantir como conhecimento privilegiado – pseudo-amigos que nunca passarão de isso mesmo – para estes pseudo-amigos pouco mais há para um [re]conhecimento – que mais se poderá quere saber de um humano? para estes amigáveis controversos. com este saber. neste enquadramento. o resultado da equação é simples: são amigos de coração – os amigos do coração não necessitam de ter mais nada – passo a ter então direito a um diminutivo: o zézinho. o pedrinho. o joãozinho. e tudo isto é como medalha ao peito. comenda. reconhecimento. um herói de guerra fraterna. com direito a um nome gravado no passeio dos amigos para sempre – raio de tempo vivido em troco de nada. raio de discípulo idiota. raio de caminhada inglória. tempo consumido em zero – bronco. estúpido. asno. tanto tempo para aprenderes a contar por uma mão os amigos que trouxeste ao coração [as exceções têm um cantinho especial dentro de mim com gratidão e memória eterna – os meus amigos de coração jamais partilharão as minhas amarguras numa crónica deste teor] – os mais atentos talvez lhe possam acrescentar umas inflexões da voz. um revirar dos olhos. de um torcer de nariz. do formato da boca nas saudações da praxe e a autenticação do tamanho de um corpo que nem sempre condiz com o da alma – para os meus amigos sempre quis muito mais e sempre estive disposto a dar-lhes muito mais – dava-lhes a minha única riqueza: a memória – mas não. que interesse há numa memória que fala de si como se estivesse apaixonado por cada palavra. por cada suspiro. por cada olhar a pedir uma resposta para um corpo a mostrar tantas dúvidas – nunca tive certeza de nada – é a incerteza que nos leva ao desconhecido – sempre procurei o desconhecido – falava-se de futebol. das mulheres dos outros. da velocidade com que os outros passavam com os seus automóveis de luxo. da sua riqueza.  das ilhas do onassis. dos iates e da nossa memória nem uma palavra. nada. nada de nada – um absoluto deserto de afeição – restava-me rir e fazer papel de parvo – a memória. essa coisa que é só nossa. imaterial. abstrata em tanta mesquinhez. autêntica para nós. subjetiva quando partilhada. louca quando tantas vezes o que lhe era exigido era ponderação. um pouco de racionalidade – e o que recebes: inquietação absurda com quase sempre dor a posteriori – como se tudo isto fizesse parte do contrato que assinaste para ser humano – veste-se de luto. de dor. de farrapos e de agonia assiduamente como se fosse um hábito. um vício sem cura. como se fosse uma doença terminal – não é – quando pensas que é o fim tudo volta ao começo – haverá pior castigo do que este? – é esta memória que retira a coerência à vida. a certeza. a planificação. os sonhos. a bondade das ações. a glorificação. a perseverança. a capacidade de lutar. a nobreza dos atos. a certeza de que fizemos o melhor pelos outros e por nós enquanto corpo com memória – nunca sabes quando um elo se quebra e uma parte de nós desiste – chega o momento em que nada do que fizeste é uma certeza – mas a minha memória é só minha e é com ela que me tenho que entender – o que é nosso. é nosso – nada podemos fazer a não ser aceitar o que por lá cresceu – não lhe quero mal por isso. também não me adiantava de muito – aceito-a. aceito-a por sua culpa – estou agora numa paz que não sei quanto tempo vai durar. nem sei muito bem o nome que terá. sei que de espírito não é porque este continua turvo. sinto-o cada vez mais escurecido. mais irrequieto. mais tumultuoso. impetuoso. com menos mel –  talvez esteja a passar o olho do furacão ou quem sabe a cumprir um ritual qualquer que o corpo ainda desconhece a finalidade – há tanta coisa que ainda desconheço – um passo a sorrir traz sempre três passos para a vala – fado –os sorrisos ao mundo são quase sempre para enganar a plateia no mundo do ninguém – para a memória não há subterfúgios. nem algazarras. nem silêncio que a possa enganar. nada mesmo – às vezes o silêncio quase mata – refugio-me num catraio que ainda há dentro de mim. na ingenuidade. nas palermices que ninguém compreende e na maior parte das vezes escondo-me no nada – mesmo assim. e por mais que queira. não consigo mudar nada da memória – tenho como destino final o que dentro de minha memória vive



[continua]