.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

03/09/2016

post mortem




foto - sampaio rego





hoje. a velha amizade foi suspensa
mas a culpa não é tua.
acredita.
é apenas a vida a rolar
seguindo uma nova aventura
sinto que nada mais tenho para te dar
e tudo ainda para relembrar…
sei no entanto que não será fácil
aceitares as minhas razões
estará para lá do teu entendimento


tu que vias com os meus olhos
e sempre ouvias o meu sofrer
com silêncio acertavas a aprovação.
hoje. estás atónico 


talvez até tenhas a tua razão
talvez esteja a ser louco
talvez me arrependa
talvez mereça ser réu
talvez encontres um erro no meu eu
talvez não me possas perdoar
precisas de uma razão


envelheceste! dirás tu
rejuvenesci! direi eu
dirás então:
é assim!
eu direi apenas:
assim é!
falarás do passado
eu falarei do que não passamos.
lembrarás as borgas
eu falarei das ressacas.
dirás porquê.
eu direi porque não!
dirás que eu sou outro
eu direi que sou eu


apenas acrescentarei:
não mais serei
nem aquele.
nem outro.
serei apenas eu.
e dos novos caminhos
jamais receberei
risos aos sonhadores


hoje. ao fim da noite
sonhador. cairei na cama.
sozinho?
nunca mais…
entrelaçar-me-ei nos lençóis
e com a alma de um poeta qualquer
adormecerei a dizer:
sou quem sou


sorrindo lembro.
“o sonho comanda a vida”


30/08/2016

morte




                                                                         foto - sampaio rego



tudo amadurece
com sol
ou com chuva

a vindima chegará



26/08/2016

as lágrimas também podem sorrir - II





foto - sampaio rego


II.


a memória pode decidir no agora o destino a dar ao seu corpo – só esta tem algo a perder –  tudo pertence à memória e é esta que sentenceia. é esta que tem a espada dâmocles. é esta que tem o saber da humanidade com todos os seus desgostos em contrapeso – a questão é simples: continuar ou não a absorver a vida para perseverar a forma do corpo que. apesar de deformado pela corrosão do tempo. será sempre o fiel depositário de todo o conhecimento – manter o corpo é manter a memória – assente num transtorno dissociativo de personalidade. acirra os sentidos quase sempre aflitos. disfarçando-os de uma alegria silenciosa. pacífica. pacata. pueril. aliando gestos artísticos estonteantes criando a ilusão de um corpo gigantesco – alto como ninguém. ali vem ele. num volume de alma enorme. inconfundível. distinto. único. reconhecido por uma multidão de quase ninguém  – podem-nos chamar pelo nome. podem até dizer que nos conhecem bem. de abraço. de paixão também. mas ninguém poderá ousar dizer que conhece o que temos de mais autêntico. mais verdadeiro. mais nosso: a memória – essa é só nossa – ninguém por mais íntimo. por mais intrínseca que seja a sua ligação poderá atrever-se contrariar esta afirmação – talvez possam dizer que conhecem algumas características suas mais particulares. algumas manias. fetiches. taras. jeitos. um pouco daquela forma de andar. de não dizer toda a verdade. de encontrar a sua justiça com palavras que se repetem de oratória em oratória. de experimentar a partilha de noitadas. de ressacar de um whisky rasco misturado num hálito a SG gigante. de trocar palavras de camaradagem. de abraço por um golo de camisola vermelha. ou por um campeonato ganho pelo glorioso – isto e mais meia dúzia de “manigâncias” é o que os mais chegados podem garantir como conhecimento privilegiado – pseudo-amigos que nunca passarão de isso mesmo – para estes pseudo-amigos pouco mais há para um [re]conhecimento – que mais se poderá quere saber de um humano? para estes amigáveis controversos. com este saber. neste enquadramento. o resultado da equação é simples: são amigos de coração – os amigos do coração não necessitam de ter mais nada – passo a ter então direito a um diminutivo: o zézinho. o pedrinho. o joãozinho. e tudo isto é como medalha ao peito. comenda. reconhecimento. um herói de guerra fraterna. com direito a um nome gravado no passeio dos amigos para sempre – raio de tempo vivido em troco de nada. raio de discípulo idiota. raio de caminhada inglória. tempo consumido em zero – bronco. estúpido. asno. tanto tempo para aprenderes a contar por uma mão os amigos que trouxeste ao coração [as exceções têm um cantinho especial dentro de mim com gratidão e memória eterna – os meus amigos de coração jamais partilharão as minhas amarguras numa crónica deste teor] – os mais atentos talvez lhe possam acrescentar umas inflexões da voz. um revirar dos olhos. de um torcer de nariz. do formato da boca nas saudações da praxe e a autenticação do tamanho de um corpo que nem sempre condiz com o da alma – para os meus amigos sempre quis muito mais e sempre estive disposto a dar-lhes muito mais – dava-lhes a minha única riqueza: a memória – mas não. que interesse há numa memória que fala de si como se estivesse apaixonado por cada palavra. por cada suspiro. por cada olhar a pedir uma resposta para um corpo a mostrar tantas dúvidas – nunca tive certeza de nada – é a incerteza que nos leva ao desconhecido – sempre procurei o desconhecido – falava-se de futebol. das mulheres dos outros. da velocidade com que os outros passavam com os seus automóveis de luxo. da sua riqueza.  das ilhas do onassis. dos iates e da nossa memória nem uma palavra. nada. nada de nada – um absoluto deserto de afeição – restava-me rir e fazer papel de parvo – a memória. essa coisa que é só nossa. imaterial. abstrata em tanta mesquinhez. autêntica para nós. subjetiva quando partilhada. louca quando tantas vezes o que lhe era exigido era ponderação. um pouco de racionalidade – e o que recebes: inquietação absurda com quase sempre dor a posteriori – como se tudo isto fizesse parte do contrato que assinaste para ser humano – veste-se de luto. de dor. de farrapos e de agonia assiduamente como se fosse um hábito. um vício sem cura. como se fosse uma doença terminal – não é – quando pensas que é o fim tudo volta ao começo – haverá pior castigo do que este? – é esta memória que retira a coerência à vida. a certeza. a planificação. os sonhos. a bondade das ações. a glorificação. a perseverança. a capacidade de lutar. a nobreza dos atos. a certeza de que fizemos o melhor pelos outros e por nós enquanto corpo com memória – nunca sabes quando um elo se quebra e uma parte de nós desiste – chega o momento em que nada do que fizeste é uma certeza – mas a minha memória é só minha e é com ela que me tenho que entender – o que é nosso. é nosso – nada podemos fazer a não ser aceitar o que por lá cresceu – não lhe quero mal por isso. também não me adiantava de muito – aceito-a. aceito-a por sua culpa – estou agora numa paz que não sei quanto tempo vai durar. nem sei muito bem o nome que terá. sei que de espírito não é porque este continua turvo. sinto-o cada vez mais escurecido. mais irrequieto. mais tumultuoso. impetuoso. com menos mel –  talvez esteja a passar o olho do furacão ou quem sabe a cumprir um ritual qualquer que o corpo ainda desconhece a finalidade – há tanta coisa que ainda desconheço – um passo a sorrir traz sempre três passos para a vala – fado –os sorrisos ao mundo são quase sempre para enganar a plateia no mundo do ninguém – para a memória não há subterfúgios. nem algazarras. nem silêncio que a possa enganar. nada mesmo – às vezes o silêncio quase mata – refugio-me num catraio que ainda há dentro de mim. na ingenuidade. nas palermices que ninguém compreende e na maior parte das vezes escondo-me no nada – mesmo assim. e por mais que queira. não consigo mudar nada da memória – tenho como destino final o que dentro de minha memória vive



[continua]


21/08/2016

as lágrimas também podem sorrir - I




foto - sampaio rego



I.

o dia das lágrimas – com vida certa ou incerta. verdadeira ou falsa. bela ou feia. rica ou pobre. trágica ou iluminada. excêntrica ou comum. aqui estou perante este tempo néscio de compromisso com a memória: um comprometimento de honra com o meu corpo por inteiro – o contrato – é este corpo. com a sua face. as suas mãos arrestadas a impressões digitais únicas. banhado por um sangue enlaçado num DNA que nunca se compreendeu como molécula única – tudo isto oferecido numa jeito de caminhar tortuoso. sinuoso. confuso. assim como quem vai tropeçar a cada passo. a cada folgo da vida – os olhos. de um castanho morno. arregalam-se como faróis em noites de tempestade. procuram em ansiedade o destino num inconformismo furioso – o futuro em movimento acelerado corre sem misericórdia atrás de um corpo que sempre se recusou a descansar – nunca fui nada sem movimento. sem corrida. sem ação meditativa. como se o corpo estivesse sempre atrasado ao pensamento – o lugar seguinte era sempre o melhor e mais certo para acalmar o desejo de alcançar o fim do mundo – mentira – só a fala se arrastava num vagar ansioso para uma boca que sempre almejou o silêncio – nunca me dei bem a falar. confesso que às vezes nem comigo – e é tudo isto que faz de mim um ser com memória. único. singular. excecional para o bem e para o que há de pior – por fim. e para que não houvesse enganos.  deram-me um nome sem nenhum tipo de atenção. e um último nome que diz mais do meu corpo do que todas os particulares descritos – sou então o único dono e responsável da minha palavra. da minha honra. da minha vergonha. das minhas opções e das minhas falhas – sou assim um responsável com memória. que gosta da autenticidade. umas vezes pelo contrato assinado. outras pela convicção de que o valor de uma vida não se mede em tempo mas sim pelo que deixamos no tempo – “o futuro e o passado não existe no agora” é apenas uma medida de evolução que neste momento não se aplica a mim – claro que há exceções dentro do meu próprio corpo. exceções essas que se amarram à memória e que determinam que a evolução da razão nem sempre se sobrepõe á virtude – os princípios que obrigam a virtude a determinadas opções são sempre influenciados por um estado de alma que no meu caso. pouco crente no sobrenatural. foi infetada no meu primeiro sim à vida pela tômbola da sorte – todos temos uma tômbola que gira sem nos perguntar a cor em que queremos apostar – baralha. dá cartas. escolhe o trunfo e diz: vais a jogo – e vamos mesmo pois acabamos de respirar e quem respira aceita as regras do jogo – estamos a viver e ganhar memória que é como quem diz: estamos humanos – nada acontece de um dia para o outro –  pelo meio as leis da sociedade induzem-nos a sua ética e moralismo. nunca tendo em conta a dor. o sofrimento. a falta de vontade de viver. a extinção da motivação. o eclipse da fé – normas pensadas e elaboradas para quando tudo está perfeito por homens mais imperfeitos do que eu – mas a razão de uma vida existir divide-se em mais de mil razões para poder pertencer a um único ato único – sou tantas coisas que jamais poderia eleger uma razão para viver e outra para morrer – o fim da vida é uma opção feita de tempo e o tempo é feito de memória e toda a memória é feita basicamente de desespero e horror – vivemos a felicidade de forma tão intermitente e rara que quando necessitamos de a recordar esta resume-se a meia dúzia de momentos que quase sempre nos obriga a recorrer à descendência. à companheira que é a luz da minha vida. à família no seu compromisso de afetos. aos raros amigos que conseguimos preservar e a dois ou três caninos que nunca me deixaram de receber com a cauda a abanar – tudo isto avalizado individualmente por um batimento cardíaco. ora sobe. ora desce. ora corre. ora descansa. ora nos diz que já nada compensa o sacrifício de ouvir as suas pancadas – o batimento do único músculo que no passado escondia o amor: o coração – já não há amor no coração. não há remorso. nem arrependimento. e também não há nenhuma medida universal para uma dor que nos teima em dizer: basta. chega. chegou a hora do descanso. do verdadeiro silêncio. da paz – chegou a hora de fazer descansar a memória –


[continua]





18/07/2016

deambulações noturnas - IV




foto - samapio rego

 

a intuição é o guarda-freio da alma - só ela compreende verdadeiramente as suas engrenagens. e a mantém no rumo certo



13/07/2016

convite a uma amiga





foto do autor

 

eu sei amiga!
mas vamos fazer de conta que é pertinho
tu apanhas o BUS
colocas um pouco de batom
sapatos altos
saia pelo joelho
e pronto…
estás na entrada
com um sorriso do tamanho do mundo
eu. escritor de amigos
faço o meu sol descer aos teus olhos
esqueço os sonhos
desenho um trono no meio do salão
onde sento a verdade
que sinto por te ter perto de mim
e sem arte deixo cair aos teus pés
toda a gratidão que me deste em palavras
no fim nasce o nosso Best-seller
afinal somos nós a escrever os livros
ah!
para voltares para casa…
não te preocupes
levo-te de braço dado
e pelo caminho
conversamos
afinal de contas também é preciso falar

 

 



28/06/2016

oficina do mestre astrolábio




foto - sampaio rego
 
 
 

lá longe
onde o mar acaba
há uma linha…

 
numa ponta a imaginação
na outra a realidade
geram um movimento
como o rodar da corda

 
aos saltos
os astros rejubilam
uma vez vénus
outra marte
e as estrelas. poderosas
aplaudem em confraria
o sol a morrer


por dentro
a engrenagem
fabrica o sonho
com a sua força
agiliza em promessas
a dor de um parto

 
na montanha
volto a sentir
o sol a sorrir…

 
assim me deito e levanto



27/06/2016

4 da manhã





foto - sampaio rego
 
o apocalipse na ponta de um lápis e eu sem saber escrever uma puta de palavra



21/06/2016

ocupação selvagem




foto - sampaio rego



não escrevo para outros e nada dos outros vos trago para ler – sou assim sem saber porquê – escrevo com a mão de um outro que me ocupa selvaticamente um corpo extorquido com usufruto – uma caução de morada até à morte – e é este miserável que me entrega com rudez tal e qual como sou. sem nenhum padrão de gratidão. ignorando o meu apelo sofrido ao silêncio – para a frente da fala não há mais recuo – a palavra é uma escritura onde o meu corpo exterior é avalista no mundo dos sons – não é fácil. acreditem – mas um dia serei pó e poderei definitivamente ocupar o lugar à direita do meu pai numa eternidade piedosa – o ocupador. selvagem. elementar hospedeiro de um corpo amaldiçoado por um deus de pedra. vai perdurando a ocupação numa simbiose forçada – ficará para sempre acorrentado ao peso das palavras. umas vezes em pecado capital. outras em clemência sofrida – quanto a mim. quando ando por aí. perdido numa modéstia de nojo. nunca nada vos direi. o silêncio não me é imposto. é uma forma de vida – a felicidade chegará com a mutilação



11/06/2016

coluna dos deuses




foto - sampaio rego
 
 
 
 
 

na poesia mora a ilusão.
tantas vezes erguida em colunas jônicas.
personificam sabedoria
e a força da beleza trabalhada a quatro voltas -
em cada volta gira um sonho
talhado para cada mente.
mais ou menos traído
em sonhos rendilhados
dum passado desenhado
a esquadro e a compasso -
giram as colunas.
gira a esperança.
as quimeras? esperam ainda
por deuses férteis -
mas a alma do poeta
continua deitada e chorosa
aos pés elegantes da coluna.
e dos sonhos nunca esquecidos
num chão
nem sempre geométrico -
lá no topo. a coluna toca o olimpo
espalhando sapiência para semideuses
sentados aos lados dos deuses -
partilhavam dizeres e banquetes
sacrificando a mitologia
ao mundo dos mortais -
o poeta que cá em baixo agonia
vestido da mesma dignidade.
lamenta amarrado às colunas graníticas
por não ser “aquilo” que os deuses esperam -
violado na alma
pela culpa das letras
declama em forma de remissão:
por aqui escreve-se assim.
sem ilusão de algum dia escrever diferente -
serei sempre um pequeno trovador
ao cuidado dos humores dos deuses
mas nunca dos semideuses. morrerei por este lugar
onde moram almas “impuras”