.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

13/10/2016

fotografia




foto - sampaio rego




fotografia amadora é a minha última paixão – cada pessoa é um infinito de movimentos. de expressões. de representações. de comunicações que gosto de agarrar e lhe dar a eternidade de uma máquina fotográfica – iluminar o universo sensível – só a fotografia pode guardar um mundo ou apenas um olhar – amo a fotografia de proximidade. de afetos. de entrega. de cuidados onde a cumplicidade do clique inesperado se transforme num momento eterno – a simbiose perfeita: a entrega do fotógrafo com aquele que se deixa fotografar – fazer fotografia é também um ato de amor que nos obriga a compreender de uma forma especial cada momento de partilha. cada raio de luz. cada sombra. cada sorriso. cada movimento repartido e de confiança – é isso que faço aos amigos que me deixam fotografar. guardo-lhes os sorrisos. os gestos. os olhos e aquele jeito do corpo que não é de mais ninguém – só os fotógrafos acompanham os momentos inesquecíveis para a eternidade –  um fotógrafo é para sempre. depois do clique seremos inapagáveis – sei que para estes nossos amigos das fotos eu. fotógrafo entusiasta e amador. ficarei eternamente ao vosso lado em cada fotografia – foi um dia fantástico



texto dedicado à minha “colega” e amiga fotógrafa – andreia aluai


05/10/2016

domingo. dia de chuva




                                                                        tela - karen woods


domingo – aprendi que tudo o que sou se resume à palavra escrita. à forma como entalho o que escrevo na perpetuidade de uma folha em branco –

         – penso:

hoje. domingo. dia de chuva para o corpo. aguaceiros fracos. o vento a puxar norte e o apito do comboio a chegar pelas traseiras da casa –

         – sempre sofri com a chuva anunciada pelo apitar dos comboios   

em casa dos meus pais. nos dias em que se ouvia o apito do comboio. logo intuíamos que a chuva já deambulava pelo canteiro do vizinho – aplicava então o ditado popular: quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de molho – a chuva estava ao dobrar da esquina – da minha casa à casa dos comboios eram cerca de três quilómetros em linha reta. coisa feita pela criançada em menos de dez minutos em passo ligeiro – mas a distância não conta para nada quando o que chega é tocado a vento – e tudo o vento carrega de um revoltado comboio quando apita em forma de grito: chuva. chuva. pouca terra. tristeza. pouca terra. chuva. chuva. tristeza. chuva e uma nostalgia de morte a moldar o som agudo do apito – o vento a deslizar pelas frinchas das janelas zune nos ouvidos tortura. e eu a correr para o terraço e os olhos a esbarrar nos montes cobertos de um negro feio – o silêncio era maior que as montanhas – só se ouvia o vento a pregar com as árvores enquanto que a passarada fugia em debandada para sul – nas janelas da vizinhança as roupas coradas não se cansavam de acenar ao que restava do sol enquanto as donas de casa as recolhiam em aflição – a chuva quando chegava á minha cidade é para durar –

        – não é por acaso que se diz que braga é o penico do céu

deitava os meus olhos incomodados para norte e lá estavam as nuvens com cara de poucos amigos. escuras de ruindade a marcharem num galope de combate. em formação guerreira. rasgando vales e serras. profetizam angústia. agonia. amargura – havia um silêncio nostálgico puxado a um vento esguio que não agoirava nada de bom – também havia uma tormenta anunciada dentro de mim –

         – a chuva açoita ferozmente a verdade de cada corpo: lava-lhe a carne. humedece-lhe a alma

os domingos sempre foram assim. incertos. tristes. silenciosos. feitos de nuvens magoadas a murmurar nostalgia numa calmaria amarga – mas com chuva. os domingos tornavam-se desumanos. malvados. perversos. parecidos com o apocalipse anunciado por cristo – finalmente os anjos de joão vão dar razão ao livro sagrado do cristianismo –

         – nestes dias dominicais nunca sou capaz de grande imaginação. tudo está parado – eu também

no corredor da minha casa a passadeira corre asseada para a porta da rua. mas também por lá o barulho habitual dos dias da semana está ausente – não quero sair. o corpo não quer sair. só quero expurgar da carne esta pré anunciação da morte – este silêncio é poderoso. uma aflição. um sufoco mudo – tomara que nenhum romeiro errante apareça para desarrumar as cadeiras e me roube o silêncio dos cortinados – dizem que o domingo é o dia da família – para mim todos os dias são da família menos o domingo –

         – tudo dentro dos domingos é silêncio. é nostalgia. é aborrecimento é antecâmara de um velório – é um contar de tempo que magoa ao segundo

domingo é dor que dói sem saber onde e porquê – a tristeza invade-me numa sensação de morte antecipada dos sentimentos e tudo que era para ser escrito é vago. vazio. e as mãos desabitadas daquela força interior deixam-se cair até ao fundo do corpo na procura da salvação – aos domingos preciso de sentir o sangue correr nas veias para saber que existo – olho-me então pela janela. imagino uma chuva diferente. a subir ao céu. numa correria feita água-moço. inocente. talvez adolescente. suave como todas as faces acabadas de nascer. sem segredo. sem desvirtude. sem engano. numa dança limpa. branca. venial que não é mais do que o retorno ao começo do meu universo – um universo físico pois já não acredito no universo que me pede rezas – o meu céu é a minha terra e o inferno acontece sempre que viro as costas à janela que agora sei não ser minha. é de um domingo de chuva. de chuva que magoa. que não lava. que me humedece a alma e me faz virar as costas ao mundo – é um domingo de um homem-chuva –

         – os dedos a querer escrever escamam a pele nas palavras que não saem – talvez queira aquilo que não tenho

o cansaço quebra o corpo e o cinzento preenche cada esquina do quarto onde os ângulos são cada vez mais aguçados e a geometria das palavras teima em não aparecer – o candeeiro não ilumina coisa nenhuma. nem dentro nem fora do corpo. a única luz que me chega é a que escapa às cortinas de uma janela virada a sul – mas tudo está a norte. a igreja que com os seus sinos chama gente de fé [cada vez há menos crentes]. o jardim onde as crianças brincam a um futuro que não vejo [cada vez há menos crianças]. as romarias que atiram fogo contra o céu numa tentativa de acordar o santo padroeiro [cada vez há menos romeiros]. os namorados que de beijo em beijo adiam para amanhã o que devia ser hoje [cada vez há menos amor]. aos domingos tudo que vejo é a norte do corpo. a sul existe o que nunca vi –

         – e aqui estou hoje a escrever como se fosse criança – mas não sou. e os domingos também já não são desse tempo

sobra-me em boa memória o acordar aos domingos em casa dos meus pais. o cheiro a assado no forno a invadir o meu estremunhar. e a certeza de uma comida melhorada por ser dia do senhor. enquanto a minha mãe corria a casa em afazeres que nunca compreendi – talvez sentisse também a nostalgia dos domingos e a lida da casa a forma de a superar – acordava. bocejava. virava o corpo para o lado da janela. a luz bocejava [também] pelos intervalos da persiana enquanto a vida  acontecia noutras partes da casa – no ouvido ainda sonolento. uma cadeira arrastada. uma janela a abrir. um tapete sacudido. um lamento em voz rezingona. uma corrente de ar que não magoava o corpo enrodilhado em cobertores e os braços a espreguiçar felicidade – olhos abertos. e a roupa do domingo sentada na cadeira em frente à cama. em espera. em alegria. aprumada. com os sapatos alinhados pelas biqueiras e as meias de lã a dar pelo joelho. sem remendos. emparelhadas pelos calcanhares – tanto a roupa como eu sabíamos que este era o único dia em que saiamos de casa orgulhosos: a roupa comigo e eu com o brio do corpo e da mente – e ali estava eu. a vestir-me de tudo que era novo. lavado. passado. engomado. e os sapatos engraxados de um negro-brilho a reluzir uma calmaria que não tardei a perder – e a minha mãe em aflição gritava-me:

         -- olha as horas. a missa não espera por ti – não vais voltar a chegar atrasado. é uma vergonha – a igreja do carmo estava a cento e cinquenta metros

corria para a missa das onze e trinta e regressava para o almoço amparado pelo poder de uma proteção divina que mesmo invisível eu acreditava – eram horas de sentar à mesa. a aparadeira de barro trazia o aroma da melhor carne assada do universo – eramos cinco numa sala só nossa – e a mesa vestida de um branco encantador dizia que a minha casa não era pequena – eramos cinco. numa “casa absoluta” – e ali estávamos todos numa graça que também era do senhor. rodeados de palavras por todos os lados. numas paredes que se erguiam num interminável instante que durou a minha vida toda – ainda vivo dentro dessas paredes. numa mesa que não mudou. numa cadeira à direita do meu pai. depois da minha mãe e de costas para uma natureza morta comprada a um artista-adornado[r] de almas – naquela mesa só eu era pequeno. os pratos enormes. brancos. de uma porcelana grossa. com uma risca azul que era céu. os copos gigantescos equilibravam-se num único pé. delicados. esguios. bonitos. a honrar o dia – nunca compreendi aquele equilíbrio-harmonia como cada copo ocupava o seu lugar. e a forma delicada como o meu pai o levava à boca pousando-o de seguida com uma amabilidade cristal. enquanto os lábios se tocavam numa caricia gustativa logo escondida por um guardanapo igual à toalha. branco branco – à semana eram copos rasos. grossos. feios. feitos para partir. para durar um instante rápido – naquele tempo não havia coca cola. nem sumos. nem outras mixórdias feitas de corantes. só água num jarro da barro com o bico fanado. com a mesma risca azul do céu – os talheres. acertados em tamanho à direita do corpo prometiam levar à boca a certeza de que nunca mais deixaríamos de ser cinco. cinco numa casa “absoluta” – o guardanapo pendurado no pescoço cobria-me o corpo. embrulhava-me num branco igual ao da toalha enquanto as nódoas se atiravam para o chão com medo de zangar a minha mãe que não se cansava de repetir:

         --tem cuidado com a roupa. não te sujes. olha que não tens outra para sair – não me envergonhes  

e ali estava eu à mesa sem ainda perceber a importância de número cinco. de um cinco inteiro e não um  quatro mais um – não sabia nada de contas. e só muito tempo depois é que percebi que quatro mais um não é igual a cinco – foi naquela sala só nossa. “absoluta”. que eu aprendi a contar – os pés para trás e para a frente entretinham-me das conversas dos meus irmãos enquanto o meu pai sorria – o meu pai sempre sorria mesmo quando o assunto era sério – ali estava ele. absoluto. do tamanho da nossa sala. à cabeceira da mesa. vestido também numa roupa de domingo. de família. num corpo bonito. orgulhoso. por dentro e por fora. que sorria também. as mãos brilhavam. e a comida chegava à boca numa elegância merecida. embelezada por um bigode finíssimo. feito a lâmina de barbeiro. que atravessava a nossa sala de uma ponta à outra. e os olhos. os olhos meus deus. bonitos. bons. nasciam-lhe na alma e iluminavam um caminho que nunca fui capaz de descobrir –

         – é domingo. todos os dias são agora para mim domingo – mas já não há assado no forno

mas cá estou agora. a pensar. como os domingos continuam chuvosos. agora sem comboios. sem o apito a avisar chuva. a avisar mau tempo – mas a chuva cai todos os dias e o vento já não atravessa as frinchas. atravessa o corpo numa saudade que me rompe a memória. e os cinco já não são cinco. somos quatro e o domingo é agora ainda mais escuro. sem generosidade. sem carne assada e os cães noutra sala a dizerem-me que ainda sou mais do que um qualquer domingo e que tenho que cuidar de mim. entender-me com a hora da morte – e o que era uma soma é agora qualquer coisa que não sei explicar. impossível de somar – e a saudade amarrada aos anos que passaram por mim e eu sem saber se o que vem para lá é mais do que um balançar de pés numa cadeira que me amarrava a uma sala só nossa. e as nódoas já não caem no chão. caem no corpo. como lapas de um mar que não conhece nenhuma sala como a nossa. “absoluta” – e o domingo a rasgar-me em imagens que já tinha esquecido. copo cada vez mais pequeno. e os lábios à procura de um pedaço de tempo que me mate esta sede do domingo que me viu nascer – o domingo entrou-me no corpo por um braço que me esgana – sufoco. sufoco. sufoco – é domingo. chove. fora da minha janela – dentro também


03/10/2016

loucos desejos





tela - fernando botero




mãos malditas com loucos desejos
não me fustigueis com o vosso olhar
que. em horas despidas e de sonhos cruéis
sois monstros multiplicados por mil.
silêncios parados de encontro ao nada.


em cada dedo mora uma esperança.
em cada linha cavada uma sina apocalíptica.
dormem ruas ladeadas de luzes insólitas.
calçadas de sonhos perdidos e idiotas
onde o peregrino teima em andar


sonhos que escutam desespero em mudez. 
escutam? sim.... o ruído de letras a nascer.
onde percorrem braços inertes de sofrimento.
partilham um coração que bate poesia    
desaguam dor em dedos revoltosos


queria ter algibeiras que fossem prisões
deixar-vos agoniar com a falta do olhar.
pois sois mágoa parada num trilho de escrita
onde morrem  as mãos vazias de saber


deste inferno diz-me a voz da rua que dorme
em miradouro onde a beleza é o precipício; 
se olhares.... se sentires…. se escutares….
talvez um dia…. quem sabe hoje até…


descobrirás. que se morre de ambição.




30/09/2016

as lágrimas também podem sorrir - IV [fim]




foto - sampaio rego




sou então este. este que se apresenta agora como sem memória. morto – com o corpo também – mesmo morto – olhai-me. olhai-me com esses olhos enormes e precisos – amigos – gente que [me] gosta. olhai-me – os amigos sempre tiveram olhos enormes. precisos. bonitos e sempre viram certezas que eu nunca vi – sempre gostei de me ver nos vossos olhos – amigo é um nome que é mais do que uma coisa. é mais do que eu sou. amigo ilumina. encandeia num finíssimo fio de luz. vidro que parte com a profundeza de cada palavra trocada em noites de silêncio – amigos são sorrisos que duram uma vida. são flores que me fizeram encher campos de sentimentos que nunca aprendi a amanhar. nasciam porque existíamos e quando existe um amigo há sempre uma razão para morrer envergonhado – nunca quis que um amigo se embaraçasse – amigo é um rosto que nos cobre o corpo num absolutismo consentido. desejado. infantil – somos então mais altos de que as torres das igrejas e os pássaros abaixo da cinta segredam felicidade como se as nuvens fossem uma alvorada de abraços – sou lágrima. talvez um dia lágrima a sorrir numa face amiga. sou revolta. sou um raio de uma coisa que pode ser tempestade. ou sol. ou agonia. ou luz. ou um depósito de ferro-velho vendido a peso – nada mais tenho para vos entregar para alem destas palavras que nunca abundam e me matam de raiva por serem tão pouco – todos mereciam mais. todos – amigos que [me] gostam – a vida tirou-me uns quantos. o envelhecimento os restantes – estou morto num corpo inteiro. num nome inteiro. numa vida que morreu um pouco por cada primavera – nasci em abril. lágrimas mil – não adianta. morro sem nome. morro dentro de um sonho que não para de gritar erro – agora sou este que aqui resiste neste cheiro a incenso. a flores. a água benta. a rezas. e ao último pai nosso que já não está no céu – não estou em lado nenhum para além deste corpo inquieto – rodeia-me satanás num silêncio que arde terror e me leva de arrasto com tudo que me sobra da memória – a vida não passa de um caixão – rezem. rezem e acendam uma vela do meu tamanho que não é mais do que um palmo – rezem. rezem e falem da minha vida que não é mais do que uma palavra –.rezem. rezem e falem dos meus feitos que é apenas defeito – rezem. rezem e agridam a minha escrita que nunca foi de artista – rezem. rezem pelas minhas lágrimas porque foi nestas que afoguei – rezem nestes ouvidos mortos pois jamais vos ouvirei –estou morto. finalmente – preciso agora de trazer a bala para dentro do silêncio e abafar o barulho do disparo – careço de um descanso de arrependido. há dentro de mim um corpo que jaz morto de tudo – o fim da vida é o fim da memória – a morte sou eu. numa sala vazia de mim. estou só. insignificante neste corpo vestido também de mim. sobram-me as mãos dobradas num peito sem sentimento. por cima de um coração que não é poema e uma borboleta coberta de terror anuncia que a vida é apenas um dia mal contado – e o som das palavras é agora cada vez mais baixo. inaudível. com vergonha do defunto. enquanto os gritos de arrependimento se escondem por baixo dos sapatos que me pisaram – mesmo morto estremeço – rezem enquanto o fogo queimar o que me resta da pele – a pele é tudo o que sou. por dentro nada – a morte é um vento brando que nos leva sorrateiramente para um sono interminável – finalmente a noite desaparece para sempre nos meus olhos – deixarei então de ser peso. de ser matéria. de ser apontamento. de ser o fim da minha rua – que me perdoem os que gostam de mim mas não quero mais memória – um corpo sem memória é um corpo quente. sem dor. um corpo sul  – o meu destino é uma coisa do mundo que vai morrer sem passar de boca em boca – escutem. escutem com atenção e apregoem a cada criança que queira nascer: quem não sabe ao que vem nunca saberá verdadeiramente porque parte – assim estou. estendido nesta urna feita de tempo. morto. silenciosamente morto e a língua sem saber dizer nada sobre esta partida que se alimentou de sonhos – finalmente engolido pela ambição de uma idealidade que me negou a imortalidade –  as lágrimas também podem sorrir









28/09/2016

quando perdemos um amigo




foto - sampaio rego




quando perdemos um amigo que nunca foi amigo a dor transforma-se num poema sem delicadeza. é faca. é borracha que nada apaga – quando perdemos um amigo que jamais será inimigo o sofrimento é um poema necrófago. é putrefação. é uma morte que não é morte porque eu e ele continuamos vivos – quando perdemos um amigo de uma rua que ainda é a nossa rua. a raiva é a boca de um lobo. é o desatino de uma seta que nos atravessa a vida por inteiro. é o fim da ilusão – quando perdemos um amigo o caminho para a frente é sempre solidão

.
perdoa-me corpo porque estas palavras são de uma alma que nunca quis ser punhal
.

para um amigo que já não é amigo não há mais vocábulos garrote. a dor combate-se com dor. o sangue é para verter até à última gota – nem mais uma palavra fácil. justificativa. pacifista. indulta ou palavras que só dizem meias verdades – sou agora a favor da pena de morte para as palavras que não dizem a verdade por inteiro – se não há meias vidas também não pode haver meias palavras – tudo o que vos escrevo é sufoco. raiva. contrição e o corpo a resistir ao exorcismo enquanto o diabo pede sepultura definitiva. fogo. cremação – só o cheiro a carne queimada dá a certeza de que a morte existe – só perdemos um amigo para sempre quando perdemos o nosso corpo também para sempre – a dor já não é poema: é túmulo



24/09/2016

autista




foto - sampaio rego



conheci um escriba que comprou uma metáfora para a transformar numa hipérbole. tão pequenina. tão pequenina. que um dia. enquanto escrevia. reparou que todas as folhas estavam em branco – sentado. olhou para si e pensou: sou um exagero fantástico – levantou-se. dirigiu-se à casa de banho. lavou a boca com dentine. olhou para o espelho. afagou o cabelo denso. e sorriu para a imagem bonita que o reflexo da sua imaginação tinha criado. abanou as ideias com um movimento brusco da caixa do seu orgulho laminado. e largou um sorriso maior que o arco da porta nova de braga – por fim. arrotou uma hipálage que fazia tempo se atravessara no escroto. soltou uma gargalhada e. ironicamente. partiu feliz em busca de outra metáfora






22/09/2016

é então que o silêncio se faz de outono





foto - sampaio rego



cai o sol. cai a folha. cai a árvore. cai o frio. cai o homem e o descanso fica eterno – é então que o silêncio se faz outono numa simbiose perfeita entre a hora da morte e o interminável sofrimento da  lembrança – emerge a saudade – afinal. um dia. eu existi nos teus olhos



19/09/2016

moisés ainda anda descalço. no deserto




foto - sampaio rego


pior do que apenas ter um rim. um pulmão. uma perna ou um braço é não ter cabeça – sem cabeça não há passado. perde-se a vergonha. esquece-se a razão. iludimo-nos com o acessório aconteceu a moisés enquanto guiava os cristãos pelo deserto da galileia. alguns bons cristãos perderam a cabeça – estas pobres criaturas. desesperados pela viagem parecer não ter fim. deixaram de acreditar no seu deus. e nos valores que os levaram à caminhada – revoltados fizeram num ápice um novo deus. mais bonito. mais valioso por ser de ouro. e principalmente mais presente – este falava. dizia tudo que o povo gostava de ouvir – agora sim. o povo podia finalmente ser feliz. com este deus não há meios que não justifiquem os fins – a festa estalou: música. dançarinas. ilusionistas e malabaristas. animais selvagens e seus domadores iluminaram a noite – valeu moisés. fiel aos princípios. bateu com o punho na terra que era de todos. e num gesto sensato. sacou das pedras da boa índole. atirou-as aos foliões e em voz grave disse: “vem teu inimigo humilhado? guarda-te dele como do diabo” – deus não dorme. continuou moisés. estas são leis para qualquer deus de uma qualquer religião. leis para um qualquer homem respeitar. seja preto. vermelho. verde ou azul


milhares de anos depois


lamentavelmente havia uma lacuna. deus também não pode saber tudo. digo eu que gosto de ver o meu deus parecido com os homens – um conselho de sábios bem formados. de todas as regiões da terra reuniram e unanimemente concluíram ser necessário um aditamento à tábua das leis de deus – assim nasceu o 11º mandamento – não SUBORNARÁS

termino com mais um provérbio:

"o destino não é uma questão de sorte. é uma questão de escolha:

não é algo a se esperar. e sim a conquistar"




16/09/2016

deambulações noturnas - X




foto - sampaio rego



neste lugar da noite sou muito mais que um lego - desmonto-me e monto-me - e as peças sem acerto gritam-me em acenos diabólicos: -- eu sou daqui. aquela é dali e tu... não és de lado nenhum




11/09/2016

as lágrimas também podem sorrir III




                                                                        foto - sampaio rego





na maior parte dos dias não sou nada. noutros. sou eu. que nada sou também – mas há dias em que me sinto herói. assim como aqueles super-heróis americanos que voam. que andam pelas paredes. que se transformam em rochas e deitam fogo pelas mãos sempre com uma única motivação: a de proteger os mais débeis – nesses dias. sou então fenomenal. sou herói por inteiro. mesmo que os pés sejam de barro – sou feliz – a razão é simples para essa felicidade. os meus super poderes anularam [temporariamente] umas quantas forças do mal que me infernizam a memória – são vitórias curtas. inofensivas e tantas vezes inconsequentes. não servindo rigorosamente para nada a não ser ganhar uns míseros instantes de bem estar para o corpo – mas são estas janelas no tempo que me permitem debruçar no seu parapeito e olhar o mundo de uma forma mais tranquila. com mais tolerância. mais sossego. mais ternura. sem amargura. sem desumanidade. sem culpabilidade. sem desassossego  aceitando a sua forma de girar. de centrifugar. de arrumar as pessoas. de criar amigos. de os estimar e de me levar ao cimo da minha montanha. olhar o futuro com misericórdia. perdoar o passado. reajustar o corpo com o que me resta da alma sã. meter as mãos aos bolsos. escutar o coração e devolver aos olhos a vontade de caminhar. de não desistir. de acreditar. de contornar o destino mais uma vez – e ali fico. estático. à procura de um lugar no céu  que nunca conheci e que por via de um crescimento apressado nunca percebi se o seu azul anuncia tempestade ou bom tempo – isto tudo numa resignação tranquila. de aceitação do mundo que me foi oferecido e de uma absolvição sincera. merecida e desejada mesmo que condicionada pelo tamanho do horizonte da minha janela – sempre acreditei que o [meu] mundo é tendencionalmente bom – mas às vezes a minha memória atraiçoa-me e não me autoriza ver o seu lado melhor – é o seu lado mais sombrio. mais adulterado. mais egoísta. portando-se como os antigos corsários: terrífica. de tapa olho. perna de pau e espada em riste pilha-me a alegria de viver deixando-me ficar os revés como sinal de aviso: não estás a sonhar – cruel – mas a realidade é que a memória não é mais do que o armazenamento da nossa vida através de experiências ouvidas ou vividas – em boa verdade é tudo aquilo que eu quis que fosse – libertar-me do passado indesejado é apagar a memória mas também é apagar uma parte da minha essência como homem que cresceu numa soma da totalidade de todas as experiências – sou assim tanto do bom como do erro – mas mesmo assim gostava de apagar tanta coisa – nem sei se são assim tão más. mas cresci e quando crescemos mudamos em tanta coisa que. inexplicavelmente. nos leva a querer apagar ainda mais – cresci – cresci tanto que há faces que já só reconheço nos sonhos. surgindo-me então os corpos afeiçoados com os sorrisos do dia em que os esqueci – quando crescemos a saudade cresce connosco e aquele até amanhã sumido na despedida do amigo é agora necessário que aconteça – é urgente rever os amigos de calções. da bola. da carica. do polícia ladrão – é absolutamente essencial. para o meu sossego. saber que estão vivos e que afinal o tempo não os mudou por dentro – é  o lado bom da memória sem a corrosão do tempo –  recordo então os que já partiram e peço-lhes perdão por erros que só a juventude é capaz de perdoar e lamentar – a morte é a saudade vestida de negro – cresci para partes do corpo que não gosto. mas também cresci para outras que aceito com humildade – cresci. cresci para um futuro que já não é só meu. cresci tanto que já sento ao colo os netos. um avô é pai duas vezes – cresci para os meus filhos. estão enormes. homens bons. dignos. a saberem coisas do mundo que eu na idade deles não sabia. a prometerem o resgate da felicidade em definitivo para a nossa família. com honra. com nobreza – cresci para a minha mãe que do cimo dos seus noventa e dois anos não se cansa de me dizer para ter cuidado com os invernos: -- toma a vacina para a gripe meu filho. tem cuidado contigo. já não és nenhuma criança – mas cuidado para quê minha mãe se o único mal que temo é este que me permite sobreviver no vosso meio sem acerto com a minha consciência – fernando pessoa diz que “a memória é a consciência inserida no tempo” – que verdade tão cruel. há verdades que dói como o fogo de camões – não gosto de algumas memórias e tudo faço para as apagar – infelizmente. quase sempre. temporariamente – não é fácil – há momentos gravados a cinzel. para sempre. inapagáveis – como dizia cervantes: “ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!” – são estes momentos que nos fazem sofrer – ainda estou a ouvir a minha mãe a dizer: -- um dia vais puxar pelas orelhas – quando um homem quer safar o passado o final está sempre para breve – nunca me passou pela cabeça. bemtalvez não seja bem verdade. que um dia iria querer dar um apagão à memória. desativá-la. eliminá-la. destruí-la – há recordações que se comportam como a peste negra – a única diferença para pior é a forma lenta como nos leva à morte – nunca imaginei que ao longo do tempo esta adquirisse um tal poder de persuasão capaz de ordenar a destruição do seu próprio corpo – rouba-lhe o sorriso. a vontade de viver. a auto estima. a fala. a vontade de amar e de ser amado – dá-nos a solidão e com esta chega a coragem para esquecer o amor de quem nos quer bem – quando damos conta já não temos nada de nós. gelamos e daí a fragmentar a alma é apenas a ocasião –  não é possível lutar contra a vontade de algo que não sei como dominar. alterar. reformular ou até ajoelhar. pedir perdão e prometer-lhe um novo par de olhos. de ouvidos. de gestos. de sorrisos. tudo para construir uma numa nova dimensão humana – confesso que não sei o que fazer. tudo que tinha para fazer já fiz – não podemos entregar a nossa memória a ninguém para retificar o que quer que seja – não foi feita de um dia para o outro. é feita de tempo. do que ouvi. do que vi. do que senti em cada momento e que por ser apenas minha só eu serei capaz de a compreender as suas opções – sou um par de olhos e ouvidos – agora. hoje que vos escrevo. sei apenas que os olhos cegaram e os ouvidos são zumbidos que não me deixam descansar – só a memória. em momentos raros de lucidez. ainda é capaz de distinguir o bem do mal. o certo do errado. a luz da escuridão – talvez esteja louco e a memória me esteja a trair fazendo-me esquecer a razão principal  da minha chegada a este mundo. levando-me a ver outra forma do meu corpo. outras vozes. outros gestos. outros sorrisos – agora todo eu sou estranho. e tudo que imaginava ser meu em definitivo afinal não é. e estou cada vez mais só porque não me reconheço e também já não tenho a certeza de que esta memória seja realmente minha – compreender-me  neste todo é cada vez mais difícil – há um bruído bem lá no fundo. um cansaço que apela à autodestruição – já não sei se vivi muito ou pouco. tenho dias que quero ir para casa e outros que continuo a magoar-me nesta luta que não me leva para lado nenhum – estou com uma vontade enorme de voltar ao sul – sei que nasci a sul e depois caminhei para norte – é no sul que as andorinhas fazem os ninhos e os rios encontram o mar em definitivo – é no sul que os meninos jogam à bola numa rua igual à que me viu nascer – é no sul que descobrimos o saber de toda a humanidade. que encontramos tudo o que perdemos violentamente: o meu pai. a sua paz. a sua serenidade e finalmente a seu lado a verdadeira aceitação do que realmente sou – com a idade percebi que sou tanto do meu pai – é no sul que podemos definitivamente dizer à memória que já não nos faz mais falta – eliminamos de vez o que nos magoa porque a sul não habita nem a desonra. nem o erro. nem o pecado – a sul existimos tal e qual como nascemos – a memória é pertença de um corpo com uma vontade intrínseca para conquistar a paz – neste mundo. este que me consome diariamente. o corpo existe só para a carregar. é um alforge que a suporta em sorrisos angelicais. em gesticulações graciosas. em fonemas musicais descarregados em boca gentil: --sim. está tudo bem obrigado – mas a memória diz que não – dentro da memória cabe o corpo. e dentro do corpo a dor que. não sendo visível. é sempre possível descrevê-la: uma lâmina abstrata. de contornos pouco definidos. sem linhas retas. com arestas vivas. curvas e contra curvas envoltas em ângulos que não levam aos cortes nenhuma cicatriz que se transforme numa impressão digital – com esta lâmina abstrata nenhum corte é repetido. nem sequer parecido. imitado. nem rebuscado. nem desenhado. é apenas um corte que corta de acordo com uma dor que é só nossa. uma dor exclusiva da memória – é uma dor silenciosa que nos mata em duodécimos para ganhar ao tempo mais humilhação – dor e mais dor – a angústia desta dor não pode ser explicada – sente-se e magoa. só – não há dores iguais. não há cortes iguais – pode parecer. mas não há – por isso peço aos meus amigos que não imaginem esta dor. não a criem à sua semelhança. não a desenhem. não a preencham com as dores da vossa vida – não seria justo e eu não gosto de  amigos injustos. perco-os na memória e confesso que depois já não sou capaz de os procurar – varrem-se-me para sempre – os verdadeiros amigos. os afetuosos. não se zangam pelas dores que não são suas. respeitam-nas – um dia recordarão a minha existência num silêncio-entendimento. de aceitação-paz. de amizade-incondicional. de verdade. de saudade. de compreensão – cada metamorfose da memória projeta no corpo uma dor diferente – bem sei que as dores se tornam públicas quando oferecidas em palavras. também sei que todas estão sujeitas a um julgamento. a um exame. um estudo até. crítica também. mas não se esqueçam nunca da compreensão. da amizade. da tolerância. mesmo da sua aprovação por compaixão e mais importante. da legitimidade das minhas escolhas – bem sei que nem sempre as escolhi. muitas tocaram-me em sorte – a dor é pertença apenas de um corpo com a sua memória e apenas essa memória será capaz de a julgar e compreender as suas motivações – a memória é uma armadilha dolorosa que depois de escolher a sua vítima prolonga-lhe as dores numa continuidade suicida – são dores que ficam para sempre. nos dias melhores adormecem atordoadas. anestesiadas. mas na maior parte das vezes. disfarçámo-la com sorrisos. com festas surpresas. com brindes e com amigos que estimamos o suficiente para não lhes transmitir uma dor que não lhes pertence – para sofrer já basta um corpo – acumulamos dor. acumulamos sofrimento. acumulamos falta de compreensão. acumulamos indiferença e todo mundo acha que seriamos melhores de uma outra forma qualquer – como se eu não quisesse ser outra coisa – às vezes queria mesmo ser o resto do mundo menos ser o que sou – a dor é um vulcão que de tempos a tempos se sente obrigada a expurgar a sua larva para permitir ao corpo mais um dia de vida. para se reinventar. reformular. reajustar e aceitar uma nova verdade  por tempo limitado – mas nem sempre é possível. já não há força. a honra foi perdida definitivamente – o tempo é um embuste: na juventude somos feitos de idiotices. no entanto. juramos a pés juntos que tudo é perfeito – envelhecemos e tudo que era certeza é agora dúvida. erro. remorso. arrependimento e o perdão perdido entre o castigo violento e um julgamento com direito a pena de morte – e o nosso dedo apontado a tudo. e o dedo dos outros apontado ao nosso coração e a justiça feita com a cabeça na guilhotina – dor. arrependimento. dor. arrependimento. dor arrependimento – e esta repetição a ecoar sofrimento. sem cessar. sem piedade – nietzsche dizia que “é possível viver quase sem lembranças e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer” – eu não consigo esquecer – com o tempo a memória rouba-nos a boca. as lágrimas. os olhos incham. esbugalham. deformam-se. rouba a cor. rouba a realidade e a morte surge por um afogamento que dura tantos anos como quantos levo a pensar – o filme da vida passa-nos diariamente numa agonia de quem sabe que tudo pode acabar de um momento para o outro – o erro e a dor arrogados a um passado de fé: é a vontade de um deus – perdi a morada deste deus. não sei onde é a sua casa  – um caminho errado mais cedo ou mais tarde rouba as pernas ao peregrino – morrer sufocado pelas memórias é desumano – os amigos mereciam muito mais de mim do que este final – que me perdoem os que comigo caminharam porque são poucos – estimá-los deveria ser a minha última honra





[continua] – para a IV e última parte