foto - sampaio rego
18/10/2016
16/10/2016
smile
já não
posso renegar a verdade – aqui estou. solitário. sozinho. retirado do mundo. entregue
a uma luxúria de imagens repletas de sorrisos raros – as fotos chegam numa cadência
de urgência enquanto os likes.
atarefados e eufóricos. se perfilham
pela ordem de chegada nas notificações.
anunciando efusivamente a sua presença a
vermelho – estamos todos por cá – são
fotos incríveis. com mensagens ainda
mais incríveis. numa alegria
estonteante. quase a fazer mal. a doer. como droga alucinogénica. paranoica. cega – e todos os presentes confusos. assustados. apavorados por não saberem até onde poderá chegar esta felicidade
– nunca nenhum artista tinha pintado os sorrisos assim. nunca. nem o de mona
lisa – e tudo isto em redes de vai e vem.
em partilhas feitas ao segundo.
em velocidade estonteante. louca – e
os sorrisos sempre em crescimento.
satisfeitos. animados. a trazer
prosperidade ao futuro – quanto maior o
sorriso maior a felicidade – as fotos não mentem. acredito eu que estou só.
retirado do mundo e dos afetos de proximidade – e todos reagimos. sem pensar. num impulso idiota. numa
sinceridade inquestionável. assinalamos
a receção dos sorrisos com uma nova linguagem global. invariável. imutável e incorruptível: os smiles –
símbolos a representar vida. amizade. amor. proximidade. satisfação. dor. paixão. harmonia. acolhimento. revolta. ira. a rir pouco. a sorrir
muito. a visionar campos de
infinitos beijos. de abraços. de carinhos. e as mãos estendidas à procura de um toque não virtual. e o corpo a sentir um arrepio extra
sensorial – somos amigos – o telemóvel vibra. chama por mim. e o som
passou a uma tocata sem condições de fuga – atendo: quem fala? a máquina multifunções não tem o número memorizado – afinal
é um amigo do tempo em que os
chamamentos eram na campainha da porta. dois toques sorrateiros.
não fosse a mãe entrar em histeria e o proibisse de vir à rua. e logo respondia pelo vão das escadas: -- já desço – e eu sentado na soleira
da porta. a queimar a demora. e o tempo a passar num vagar de meter
medo – hoje como se diferencia um amigo do peito de um amigo tecnológico? digo
então para facilitar esta nova comunicação:
é um amigo mesmo amigo – que coisa mais louca. um amigo deveria ser sempre amigo e nunca necessitar de um
pronome demonstrativo para confirmar uma amizade – agora temos os amigos do
facebook. do instagram. do twitter do youtube e tudo isto numa
trama intelectual. ligados a uma
rede que não nos deixa ficar [mesmo] sozinhos. entretidos com a nossa companhia. conhecendo-nos um pouco melhor. apreciando-nos e retificando em
silêncio os nosso barulhos interiores –
o tempo já não mete medo –
ligo-me a mil amigos. e a outros que
me perguntam se conheço e ainda a outros que talvez queira conhecer e isto tudo
numa irracionalidade que por ser constante aos pouco se torna racional – e os
amigos que não são mesmo amigos gostam da mesmas cores. da mesma moda. dos
mesmos livros. dos mesmos hobbies e
pensam igual. e a religião não
interessa. e o sexo indefinido. ou só mulher. ou só homem. ou as
duas coisas. e este é casado ou está
numa relação em euforia ou agonia – gente igual. gémea mesmo. comprovada
por uma máquina que só sabe falar verdade:
estatística facebookiana – diferente mesmo só sou do amigo mesmo amigo – tudo
que é cérebro é agora alimentado por fios que não vemos e que nos levam e
trazem para sítios que nunca imaginávamos chegar – agora estou em Ibiza. de copo na mão e uma palhinha sai de
um copo às cores e atravessa o planeta em fibra ótica. cheguei ao japão. e o
peixe a ser cortado fininho por uma faca de samurai enquanto os pauzinhos levam
à boca imaginação – atrás de mim uma gueixa segreda-me luxúria para o começo da
noite – e a feed notícias do mundo a girar num ecrã plano. e um canguru perseguido por um aborígene. não. afinal é o aborígene
que persegue o canguru –
todos nós perseguimos alguma
coisa. e muita mais coisas nos
persegue sem que saibamos – tudo isto a correr numa notícia de última hora. triste. muito triste. faz hoje
anos que pavarotti nos deixou. e o
avião do cristiano ronaldo teve um acidente.
e o marido atirou ácido à ex-mulher enquanto a sogra era atropelada por um
camião desgovernado na via de cintura interna – estou amargurado. tonto. também quase sou atropelado por uma última notícia não fosse um
convite promiscuo para saltar para uma cama surreal – e aí estou. embrulhado em lençóis. feliz como nunca. ao lado de um par de pernas que nunca tinha sonhado. parecem-me as da sara tavares. e pela primeira vez sou infiel. e o corpo a suspirar por mais que
apenas pernas. quero mais. afinal para que serve a tecnologia –
estou esgotado. esta mulher não é
para mim – e a minha vida recordada há um ano. vê as tuas memórias. e
uma lágrima misturada com gratidão por estar vivo – e tudo nas mãos é
velocidade estonteante. e quase nada
tenho para fazer. a imaginação já
não é minha é de um grupo de confecionadores de emoções. produção industrial.
em série. e em constante atualização. e tudo me assenta na perfeição. como se soubessem tudo de mim. como alfaiates. e o giz a riscar as sobras.
e a tesoura a ajustar tudo ao corpo enquanto o alinhavo marca numa certeza
absoluta os contornos do corpo – bebo então para esquecer. preciso de um copo para matar esta angústia que verdadeiramente
não sei de onde apareceu –
mando vir uma sangria. e mais uns quantos amigos virtuais. e os copos ao centro numa amizade que
não é de amigo amigo: à tua saúde. enquanto a francesinha num molho cor
de pêssego fumega da mesma forma que fumega a síria. e os mortos espalhados pelas ruínas feitas à bomba de um mundo
cada vez mais terrorista – no facebook também – a alegria do estômago termina
em agonia. enjoa e afoga-se de vez
no mediterrâneo com gritos que são súplicas de refugiados que. de polegar no ar. não acenam. não. imploram ao mundo tecnológico que
substitua os likes por botes salva-vidas – estou arrasado – também quero um like
para mim. um enorme. com um dedo gigante a apontar para um
salva-vidas que me salve do egocentrismo dos meus likes – que ingratidão – e
mais um toque. e o telemóvel a
vibrar e eu assustado. em pânico. descontrolado. não posso fazer esperar um amigo e o braço a correr com a voz
para o ouvido: desculpa estava trinchar
uma francesinha com uns amigos virtuais – e paro a vida para atender a urgência
daquele apelo – todos os toques são importantes – de seguida mais um toque e adio
o amor para a noite seguinte. e mais
um toque e fecho o livro. e outro
toque e digo que já não vale a pena sonhar.
tudo acontece ao segundo e o futuro já não interessa o que interessa é o feed
de notícias –
fecho tudo. eu também. o mundo todo. deixo
ficar ao meu lado a desilusão em que a vida se tornou. não a minha vida que por ser minha não tem interesse para ser
notícia mas a de um smile que chora.
chora como uma criança – todos os smiles tem face de crianças. e eu desfeito em sofrimento saio
disparado por wireless à procura do pokémon que magoou o smile das lágrimas – isto
tudo sem abdicarmos de nenhum tempo porque deixamos de sentir este tempo
eletrónico. gastámo-lo como se fosse
inesgotável. como se aos dias pudéssemos
somar mais tempo. e por cada ano
gasto um mês extra. como se isto fosse
um jogo de flippers e por cada centena de like`s um dia de bónus – estamos parados
e andamos sem dar conta num tempo que deixamos de contar como tempo – mas conta
– interrompemos o tempo verdadeiro.
apanhamos o like e seguimos vidas que nunca serão a nossa vida – e aí vamos por
uma estrada que nos leva a todo o lado para nunca chegar a lado nenhum –
olhamos o universo num retângulo que dá luz.
com sinais sonoros. e com música. e conta histórias feias e bonitas. verdadeiras ou falsas. de amor ou de sangue e tudo isto
apenas com um tremor do braço. um
click do dedo – mais um toque a pedir voz.
atendemos e depressa nos dizem:
manda mensagem. é mais fácil –
o mundo cada vez mais mudo. os dedos já não querem olhos porque
conhecem as letras no escuro. tudo cego no mundo real – que sofrimento – e
os homens cerebrais do outro lado dos fios que não se vêem a dizerem que estás
inibido de viver por vinte e quatro horas – eles fazem lei. julgam e ditam a pena – culpado – tudo isto porque mostraste as pernas
da marylin monroe. o mamilo com piercing
da janet jackson. duas lésbicas num
amor proibido. um profeta parecido
com allah. um poema de escárnio. e um nu do século quinze com um
carimbo a censurar o belo – e a noite chega.
tão noite como outra noite qualquer.
o corpo preso a vibrações que agora já são choques elétricos. e o feed de notícias sem dormir
caminha por ti com sinais sonoros de conveniência desumana – os olhos
encostados a um sono em estado de alerta geral fazem o possível por descansar –
são os novos guerreiros da tecnologia.
enquanto um olho dorme o outro vigia o feed notícias – já nada te pesa no corpo. o passado está morto. e às tuas costas já não carregas amigos
mesmo amigos. carregas um mundo que
não é teu num padecimento transgénico –
estou só. devastado de tudo. de gente que não conheço e de mim
também –
sou agora este corpo tecnológico num mundo que
só me aceita a rir. a falar com
frases curtas. ou com pensamentos
empacotados em caixilhos dourados de gente ilustre que não merecia este destino
– e os sonhos cortados como se a vida fosse apenas estes clicks com o dedo para
cima – força amigo tu vais conseguir.
não desistas amigo. a vida um dia
compensa-te. adoro-te. és lindo. beijinhos. gosto muito
de ti – isto tudo rematado com um smille.
um polegar na direção do paraíso e o inferno é descobrir uma verdade em tanta
mentira – tudo o que digo é um like e o que não digo também e o que faço leva um
like com um sorriso cada vez maior – um dia.
irritado. recuso-me a por mais likes
e digo: estou morto. morri. desapareci. cansei. suicidei-me com um cordão de likes –
é então que milhões de likes emocionais aparecem para um último adeus.
o feed notícias chora. os
dedos apontam para a terra. e os
smiles das lágrimas esbarrotam-se em manifestações de dor e pranto –
carpideiras em histeria dolorosa – os amigos que não são amigos colocam faixas
pretas nos avatares. e milhares de
emoções soltam lágrimas que nada molham – estamos interligados a números de computação cruéis –
somos então um IP entre janelas que nunca se fecham e promovem uma contabilidade que sobrevive a uma bateria
sempre em carga –
como tudo isto pode ser
efémero – com a falta de power na bateria a morte pode acontecer a um qualquer momento –
é então que o pânico acontece. falta
o carregador. o isqueiro do
automóvel está avariado. parece
impossível mas não há nenhuma tomada elétrica num raio de cem metros. e o corpo a tremer. convulsões. vómitos. e uma ira que
pode magoar de verdade enquanto a realidade está em fuga duma ressaca que pode
levar à morte – são os novos toxicodependentes – estamos todos loucos – aqui estou a jogar com a vida. às vezes em ironia. outras. a tentar ser esperto.
e lá chega mais um like sabichão – e passam carros e bicicletas com gente que
já não pedala. e tudo sem margem de
erro ou esquecimento. comandado por
apitos que nos dizem: hoje o teu
amigo mesmo amigo faz anos – tudo é feito à hora certa – tal como os comboios
passam à hora certa. e os autocarros. e o metro. e as bicicletas. e os
táxis. e a uber. e os transportes que não são urbanos. e os velhos com a solidão às costas. e os doentes em ambulâncias que já não gritam dor. e o povo sem se reconhecer. nem pela voz. nem pelos olhos. nem
pelo seu jeito de ser. nem abraço. nem saudação. nem por nada. espera
sentado pela sua vez a chegada de um destino que não controla –
ninguém tira os olhos do
ecrã – por mais noite que seja há sempre um ex-humano parado num apeadeiro à
espera de uma foto. de uma notícia. da morte de um amigo íntimo do mundo
das fotos. de um smile. de um sorriso empacotado – e o like a
cair como cai a urina. na sargeta. e logo de seguida um escarro e um cão
de perna alçada espera também pela sua vez e o like coberto de um ácido que corrói
o cérebro – as fotos sem flexibilidade.
tiradas por um braço metálico. estendido
para o fim do universo. sacam um último
sorriso. e de repente. em total demência. o suicídio coletivo numa gargalhada fotográfica – o mundo afinal
é todo feliz – infeliz só existo eu – só eu sei que estou triste. triste de morte com uma faca
encostada à jugular e o coração a dizer:
és o único que não tem vida – não me rio.
não sorrio. e não digo que hoje o
dia está lindo – não tenho trompete a tocar silêncio porque verdadeiramente não
estou morto. estou apenas uma merda
num mundo de merda – e assim termino esta crónica num sorriso de verdade e que
por ter mais de duas linhas jamais terá direito a um like feliz
13/10/2016
fotografia
foto - sampaio rego
fotografia amadora é a minha última paixão – cada pessoa é um
infinito de movimentos. de
expressões. de representações. de comunicações que gosto de agarrar
e lhe dar a eternidade de uma máquina fotográfica – iluminar o universo
sensível – só a fotografia pode guardar um mundo ou apenas um olhar – amo a
fotografia de proximidade. de afetos. de entrega. de cuidados onde a cumplicidade do clique inesperado se
transforme num momento eterno – a simbiose perfeita: a entrega do fotógrafo com
aquele que se deixa fotografar – fazer fotografia é também um ato de amor que
nos obriga a compreender de uma forma especial cada momento de partilha. cada raio de luz. cada sombra. cada
sorriso. cada movimento repartido e de confiança – é isso que faço aos amigos
que me deixam fotografar. guardo-lhes os sorrisos. os gestos. os olhos e aquele
jeito do corpo que não é de mais ninguém – só os fotógrafos acompanham os
momentos inesquecíveis para a eternidade –
um fotógrafo é para sempre.
depois do clique seremos inapagáveis – sei que para estes nossos amigos das
fotos eu. fotógrafo entusiasta e amador. ficarei eternamente ao vosso lado em
cada fotografia – foi um dia fantástico
texto dedicado à minha “colega” e amiga fotógrafa – andreia
aluai
05/10/2016
domingo. dia de chuva
tela - karen woods
domingo –
aprendi que tudo o que sou se resume à palavra escrita. à forma como entalho o que escrevo na perpetuidade de uma folha
em branco –
– penso:
hoje. domingo. dia de chuva para
o corpo. aguaceiros fracos. o vento a puxar norte e o apito do
comboio a chegar pelas traseiras da casa –
– sempre
sofri com a chuva anunciada pelo apitar dos comboios
em casa dos meus pais. nos dias em que se ouvia o apito do
comboio. logo intuíamos que a chuva
já deambulava pelo canteiro do vizinho – aplicava então o ditado popular: quando vires as barbas do teu vizinho
a arder. põe as tuas de molho – a
chuva estava ao dobrar da esquina – da minha casa à casa dos comboios eram cerca
de três quilómetros em linha reta.
coisa feita pela criançada em menos de dez minutos em passo ligeiro – mas a
distância não conta para nada quando o que chega é tocado a vento – e tudo o
vento carrega de um revoltado comboio quando apita em forma de grito: chuva. chuva. pouca terra. tristeza. pouca terra. chuva. chuva. tristeza. chuva e uma
nostalgia de morte a moldar o som agudo do apito – o vento a deslizar pelas
frinchas das janelas zune nos ouvidos tortura. e eu a correr para o terraço e os olhos a esbarrar nos montes
cobertos de um negro feio – o silêncio era maior
que as montanhas – só se ouvia o vento a pregar com as árvores enquanto que a
passarada fugia em debandada para sul – nas janelas da vizinhança as roupas
coradas não se cansavam de acenar ao que restava do sol enquanto as donas de
casa as recolhiam em aflição – a chuva quando chegava á minha cidade é para
durar –
– não é por acaso que se diz que braga é o penico do céu
deitava os meus olhos incomodados
para norte e lá estavam as nuvens com cara de poucos amigos. escuras de ruindade a marcharem num galope de combate. em formação guerreira. rasgando vales e serras. profetizam angústia. agonia. amargura – havia um silêncio nostálgico puxado a um vento esguio que
não agoirava nada de bom – também havia uma tormenta anunciada dentro de mim –
– a chuva açoita ferozmente a verdade de
cada corpo: lava-lhe a carne. humedece-lhe a alma
os domingos sempre foram assim. incertos. tristes. silenciosos. feitos de nuvens magoadas a murmurar
nostalgia numa calmaria amarga – mas com chuva. os domingos tornavam-se desumanos. malvados. perversos. parecidos com o apocalipse anunciado
por cristo – finalmente os anjos de joão vão dar razão ao livro sagrado do
cristianismo –
– nestes dias dominicais nunca sou capaz de grande imaginação. tudo está
parado – eu também
no corredor da minha casa a passadeira
corre asseada para a porta da rua.
mas também por lá o barulho habitual dos dias da semana está ausente – não
quero sair. o corpo não quer sair. só quero expurgar da carne esta pré
anunciação da morte – este silêncio é poderoso. uma aflição. um sufoco mudo – tomara que nenhum romeiro errante
apareça para desarrumar as cadeiras e me roube o silêncio dos cortinados – dizem
que o domingo é o dia da família – para mim todos os dias são da família menos
o domingo –
– tudo dentro dos domingos é silêncio. é nostalgia. é aborrecimento é
antecâmara de um velório – é um contar de tempo que magoa ao segundo
domingo é dor que dói sem saber
onde e porquê – a tristeza invade-me numa sensação de morte antecipada dos
sentimentos e tudo que era para ser escrito é vago. vazio. e as mãos
desabitadas daquela força interior deixam-se cair até ao fundo do corpo na procura
da salvação – aos domingos preciso de sentir o sangue correr nas veias para saber
que existo – olho-me então pela janela.
imagino uma chuva diferente. a subir
ao céu. numa correria feita água-moço. inocente. talvez adolescente.
suave como todas as faces acabadas de nascer. sem segredo. sem desvirtude. sem engano. numa dança limpa. branca. venial que não é mais do que o retorno
ao começo do meu universo – um universo físico pois já não acredito no universo
que me pede rezas – o meu céu é a minha terra e o inferno acontece sempre que
viro as costas à janela que agora sei não ser minha. é de um domingo de chuva.
de chuva que magoa. que não lava. que me humedece a alma e me faz virar
as costas ao mundo – é um domingo de um homem-chuva –
– os dedos a querer escrever escamam a pele nas palavras que não saem –
talvez queira aquilo que não tenho
o cansaço quebra o corpo e o
cinzento preenche cada esquina do quarto onde os ângulos são cada vez mais aguçados
e a geometria das palavras teima em não aparecer – o candeeiro não ilumina
coisa nenhuma. nem dentro nem fora
do corpo. a única luz que me chega é
a que escapa às cortinas de uma janela virada a sul – mas tudo está a norte. a igreja que com os seus sinos chama
gente de fé [cada vez há menos crentes].
o jardim onde as crianças brincam a um futuro que não vejo [cada vez há menos
crianças]. as romarias que atiram
fogo contra o céu numa tentativa de acordar o santo padroeiro [cada vez há
menos romeiros]. os namorados que de
beijo em beijo adiam para amanhã o que devia ser hoje [cada vez há menos amor]. aos domingos tudo que vejo é a norte
do corpo. a sul existe o que nunca
vi –
– e aqui estou hoje a escrever como se fosse criança – mas não sou. e os
domingos também já não são desse tempo
sobra-me em boa memória o acordar
aos domingos em casa dos meus pais. o cheiro a assado no forno a invadir o meu
estremunhar. e a certeza de uma
comida melhorada por ser dia do senhor. enquanto
a minha mãe corria a casa em afazeres que nunca compreendi – talvez sentisse
também a nostalgia dos domingos e a lida da casa a forma de a superar – acordava. bocejava. virava o corpo para o lado da janela. a luz bocejava [também] pelos intervalos da persiana enquanto a vida acontecia noutras partes da casa – no ouvido ainda sonolento. uma cadeira arrastada. uma janela a abrir. um tapete sacudido. um lamento em voz rezingona. uma corrente de ar que não magoava o
corpo enrodilhado em cobertores e os braços a espreguiçar felicidade – olhos
abertos. e a roupa do domingo
sentada na cadeira em frente à cama.
em espera. em alegria. aprumada. com os sapatos alinhados pelas biqueiras e as meias de lã a dar pelo joelho. sem remendos. emparelhadas
pelos calcanhares – tanto a roupa
como eu sabíamos que este era o único dia em que saiamos de casa orgulhosos: a roupa comigo e eu com o brio do
corpo e da mente – e ali estava eu.
a vestir-me de tudo que era novo. lavado. passado. engomado. e os sapatos
engraxados de um negro-brilho a reluzir uma calmaria que não tardei a perder – e a minha mãe em aflição gritava-me:
-- olha as horas. a missa não espera por ti – não vais voltar a chegar
atrasado. é uma vergonha – a igreja do carmo estava a cento e cinquenta metros
corria para a missa das onze e
trinta e regressava para o almoço amparado pelo poder de uma proteção divina
que mesmo invisível eu acreditava – eram horas de sentar à mesa. a aparadeira de barro trazia o aroma
da melhor carne assada do universo – eramos cinco numa sala só nossa – e a mesa
vestida de um branco encantador dizia que a minha casa não era pequena – eramos cinco. numa “casa absoluta” – e ali estávamos todos numa graça que
também era do senhor. rodeados de
palavras por todos os lados. numas
paredes que se erguiam num interminável instante que durou a minha vida toda –
ainda vivo dentro dessas paredes.
numa mesa que não mudou. numa cadeira à direita do meu pai. depois da minha mãe
e de costas para uma natureza morta comprada a um artista-adornado[r] de almas –
naquela mesa só eu era pequeno. os
pratos enormes. brancos. de uma porcelana grossa. com uma risca azul que era céu. os copos gigantescos equilibravam-se
num único pé. delicados. esguios. bonitos. a honrar o
dia – nunca compreendi aquele equilíbrio-harmonia como cada copo ocupava o seu
lugar. e a forma delicada como o meu
pai o levava à boca pousando-o de seguida com uma amabilidade cristal. enquanto os lábios se tocavam numa
caricia gustativa logo escondida por um guardanapo igual à toalha. branco branco – à semana eram copos
rasos. grossos. feios. feitos para partir. para durar um instante rápido – naquele
tempo não havia coca cola. nem sumos. nem outras mixórdias feitas de
corantes. só água num jarro da barro
com o bico fanado. com a mesma risca
azul do céu – os talheres. acertados em tamanho à direita do
corpo prometiam levar à boca a certeza de que nunca mais deixaríamos de ser
cinco. cinco numa casa “absoluta” –
o guardanapo pendurado no pescoço cobria-me o corpo. embrulhava-me num branco igual ao da toalha enquanto as nódoas se
atiravam para o chão com medo de zangar a minha mãe que não se cansava de
repetir:
--tem cuidado com a roupa. não te sujes. olha que não tens outra para
sair – não me envergonhes
e ali estava eu à mesa sem ainda
perceber a importância de número cinco.
de um cinco inteiro e não um quatro mais
um – não sabia nada de contas. e só
muito tempo depois é que percebi que quatro mais um não é igual a cinco – foi
naquela sala só nossa. “absoluta”. que eu aprendi a contar – os pés para
trás e para a frente entretinham-me das conversas dos meus irmãos enquanto o
meu pai sorria – o meu pai sempre sorria mesmo quando o assunto era sério – ali
estava ele. absoluto. do tamanho da nossa sala. à cabeceira da mesa. vestido também numa roupa de domingo. de família. num corpo bonito. orgulhoso. por dentro e por fora. que sorria também. as mãos brilhavam. e a
comida chegava à boca numa elegância merecida. embelezada por um bigode finíssimo. feito a lâmina de barbeiro.
que atravessava a nossa sala de uma ponta à outra. e os olhos. os olhos
meus deus. bonitos. bons. nasciam-lhe na alma e iluminavam um caminho que nunca fui capaz
de descobrir –
– é domingo. todos os dias são agora para mim domingo – mas já não há
assado no forno
mas cá estou agora. a pensar. como os domingos continuam chuvosos. agora sem comboios. sem
o apito a avisar chuva. a avisar mau
tempo – mas a chuva cai todos os dias e o vento já não atravessa as frinchas. atravessa o corpo numa saudade que me
rompe a memória. e os cinco já não são
cinco. somos quatro e o domingo é
agora ainda mais escuro. sem generosidade. sem carne assada e os cães noutra sala
a dizerem-me que ainda sou mais do que um qualquer domingo e que tenho que
cuidar de mim. entender-me com a hora da morte – e o que era uma soma é agora
qualquer coisa que não sei explicar.
impossível de somar – e a saudade amarrada aos anos que passaram por mim e eu
sem saber se o que vem para lá é mais do que um balançar de pés numa cadeira
que me amarrava a uma sala só nossa.
e as nódoas já não caem no chão.
caem no corpo. como lapas de um mar
que não conhece nenhuma sala como a nossa.
“absoluta” – e o domingo a rasgar-me em imagens que já tinha esquecido. copo cada vez mais pequeno. e os lábios à procura de um pedaço de
tempo que me mate esta sede do domingo que me viu nascer – o domingo entrou-me
no corpo por um braço que me esgana – sufoco. sufoco. sufoco – é
domingo. chove. fora da minha janela – dentro também
03/10/2016
loucos desejos
tela - fernando botero
mãos malditas com loucos desejos
não me fustigueis com o vosso olharque. em horas despidas e de sonhos cruéis
sois monstros multiplicados por mil.
silêncios parados de encontro ao nada.
em cada dedo mora uma esperança.
em cada linha cavada uma sina apocalíptica.dormem ruas ladeadas de luzes insólitas.
calçadas de sonhos perdidos e idiotas
onde o peregrino teima em andar
sonhos que escutam desespero em mudez.
escutam? sim.... o ruído de letras a nascer.onde percorrem braços inertes de sofrimento.
partilham um coração que bate poesia
desaguam dor em dedos revoltosos
queria ter algibeiras que fossem prisões
deixar-vos agoniar com a falta do olhar. pois sois mágoa parada num trilho de escrita
onde morrem as mãos vazias de saber
deste inferno diz-me a voz da rua que dorme
em
miradouro onde a beleza é o precipício; se olhares.... se sentires…. se escutares….
talvez um dia…. quem sabe hoje até…
descobrirás. que se morre de ambição.
30/09/2016
as lágrimas também podem sorrir - IV [fim]
foto - sampaio rego
sou
então
este. este que se apresenta agora
como sem memória. morto – com o
corpo também – mesmo morto – olhai-me.
olhai-me com esses olhos enormes e precisos – amigos – gente que [me] gosta. olhai-me – os amigos sempre tiveram
olhos enormes. precisos. bonitos e sempre viram certezas que
eu nunca vi – sempre gostei de me ver nos vossos olhos – amigo é um nome que é
mais do que uma coisa. é mais do que
eu sou. amigo ilumina. encandeia num finíssimo fio de luz. vidro que parte com a profundeza de
cada palavra trocada em noites de silêncio
– amigos são sorrisos que duram uma vida. são flores que me fizeram encher campos de sentimentos que nunca
aprendi a amanhar. nasciam porque
existíamos e quando existe um amigo há sempre uma razão para morrer
envergonhado – nunca quis que um amigo se embaraçasse – amigo é um rosto que
nos cobre o corpo num absolutismo consentido. desejado. infantil –
somos então mais altos de que as torres das igrejas e os pássaros abaixo da
cinta segredam felicidade como se as nuvens fossem uma alvorada de abraços – sou
lágrima. talvez um dia lágrima a
sorrir numa face amiga. sou revolta. sou um raio de uma coisa que pode ser
tempestade. ou sol. ou agonia. ou luz. ou um depósito de ferro-velho vendido a peso – nada mais
tenho para vos entregar para alem destas palavras que nunca abundam e me matam
de raiva por serem tão pouco – todos mereciam mais. todos – amigos que [me] gostam – a vida tirou-me uns quantos. o envelhecimento os restantes – estou
morto num corpo inteiro. num nome
inteiro. numa vida que morreu um
pouco por cada primavera – nasci em abril.
lágrimas mil – não adianta. morro
sem nome. morro dentro de um sonho
que não para de gritar erro – agora sou este que aqui resiste neste cheiro a
incenso. a flores. a água benta. a rezas. e ao último
pai nosso que já não está no céu – não estou em lado nenhum para além deste
corpo inquieto – rodeia-me satanás num silêncio que arde terror e me leva de
arrasto com tudo que me sobra da memória – a vida não passa de um caixão –
rezem. rezem e acendam uma vela do
meu tamanho que não é mais do que um palmo – rezem. rezem e falem da minha vida que não é mais do que uma palavra –.rezem. rezem e falem dos meus feitos que é apenas
defeito – rezem. rezem e agridam a
minha escrita que nunca foi de artista – rezem. rezem pelas minhas lágrimas porque foi nestas que afoguei – rezem
nestes ouvidos mortos pois jamais vos ouvirei –estou morto. finalmente – preciso agora de trazer a bala para dentro do
silêncio e abafar o barulho do disparo – careço de um descanso de arrependido. há dentro de mim um corpo que jaz
morto de tudo – o fim da vida é o fim da memória – a morte sou eu. numa sala vazia de mim. estou só. insignificante neste corpo vestido também de mim. sobram-me as mãos dobradas num peito
sem sentimento. por cima de um
coração que não é poema e uma borboleta coberta de terror anuncia que a vida é
apenas um dia mal contado – e o som das palavras é agora cada vez mais baixo. inaudível. com vergonha do defunto.
enquanto os gritos de arrependimento se escondem por baixo dos sapatos que me pisaram
– mesmo morto estremeço – rezem enquanto o fogo queimar o que me resta da pele –
a pele é tudo o que sou. por dentro
nada – a morte é um vento brando que nos leva sorrateiramente para um sono
interminável – finalmente a noite desaparece para sempre nos meus olhos – deixarei
então de ser peso. de ser matéria. de ser apontamento. de ser o fim da minha rua – que me perdoem
os que gostam de mim mas não quero mais memória – um corpo sem memória é um
corpo quente. sem dor. um corpo sul – o meu destino é uma coisa do mundo que vai
morrer sem passar de boca em boca – escutem.
escutem com atenção e apregoem a cada criança que queira nascer: quem não sabe ao que vem nunca saberá
verdadeiramente porque parte – assim estou.
estendido nesta urna feita de tempo.
morto. silenciosamente morto e a
língua sem saber dizer nada sobre esta partida que se alimentou de sonhos – finalmente
engolido pela ambição de uma idealidade que me negou a imortalidade – as lágrimas também podem sorrir
29/09/2016
28/09/2016
quando perdemos um amigo
foto - sampaio rego
quando perdemos um amigo que
nunca foi amigo a dor transforma-se num poema sem delicadeza. é faca. é borracha que nada apaga – quando perdemos um amigo que jamais
será inimigo o sofrimento é um poema necrófago. é putrefação. é uma
morte que não é morte porque eu e ele continuamos vivos – quando perdemos um
amigo de uma rua que ainda é a nossa rua.
a raiva é a boca de um lobo. é o desatino
de uma seta que nos atravessa a vida por inteiro. é o fim da ilusão – quando
perdemos um amigo o caminho para a frente é sempre solidão
.
perdoa-me corpo porque estas
palavras são de uma alma que nunca quis ser punhal
.
para um amigo que já não é
amigo não há mais vocábulos garrote.
a dor combate-se com dor. o sangue é
para verter até à última gota – nem
mais uma palavra fácil. justificativa. pacifista. indulta ou palavras que só dizem meias verdades – sou agora a
favor da pena de morte para as palavras que não dizem a verdade por inteiro –
se não há meias vidas também não pode haver meias palavras – tudo o que vos
escrevo é sufoco. raiva. contrição e o corpo a resistir ao
exorcismo enquanto o diabo pede sepultura definitiva. fogo. cremação – só o
cheiro a carne queimada dá a certeza de que a morte existe – só perdemos um
amigo para sempre quando perdemos o nosso corpo também para sempre – a dor já
não é poema: é túmulo
24/09/2016
autista
foto - sampaio rego
conheci um escriba que comprou uma metáfora para a transformar numa hipérbole. tão pequenina. tão pequenina. que um
dia. enquanto escrevia. reparou que todas as folhas estavam em branco – sentado. olhou para si e pensou: sou um exagero fantástico – levantou-se. dirigiu-se à casa de banho. lavou a boca com dentine. olhou para o espelho. afagou o cabelo denso. e sorriu para a imagem bonita que o
reflexo da sua imaginação tinha criado.
abanou as ideias com um movimento brusco da caixa do seu orgulho laminado. e largou um sorriso maior que o arco
da porta nova de braga – por fim.
arrotou uma hipálage que fazia tempo se atravessara no escroto. soltou uma gargalhada e. ironicamente. partiu feliz em busca de outra metáfora
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