.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

23/10/2016

entrego-me a um café. fazem-me companhia?




imagem - google




entrego-me a um café. cremoso. gostoso. aromático e espesso. aprecio-o. tomo-lhe o paladar numa degustação inocente e silenciosa – deixo-o acontecer dentro de mim sem nenhum obstáculo entre o seu aroma e o meu silêncio – o corpo experimenta a cafeína como se fosse a primeira toma da manhã. não é – escurece o dia e o corpo – o coração acelera desorganizado. trémulo. sem perceber o motivo de tanto apego à vida. revolve-se. inquieta-se. cospe fantasmas teimosos. resgata memórias perdidas. ajusta-se a conflitos vergonhosos e resiste com voracidade a batimentos confusos – mais um pequeno gole. pequeníssimo. o tempo e o café tem que durar – a cafeína endurece a voz com uma energia forçada. esta fica rouca. fula. desconexa. a comer sílabas e ideias também. atabalhoa-se e profetiza ora raiva. ora resignação – quando a alma adoece o corpo desaparece – tal como os bêbados um corpo drogado diz sempre a verdade – e o café numa espera perfeita liberta um vapor de quem arde no seu interior – o silêncio [interior também] resiste num absolutismo implacável  – olho-me de cima a baixo e não me encontro –

estou perdido. não me descubro em lado nenhum a não ser na cor do café – olho-o com atenção. é negro. um negro absoluto – percebo que para lá deste negro não existe nada – o silêncio é agora. também. de um negro-café-absoluto. com aroma – recupero o ritmo cardíaco normal num sossego aromático – tudo me parece tão distante. tão do começo do mundo. dos dinossauros – extinguiram-se atropelados por um cometa idiota. dizem que vinha do lado do oriente. perdido e desorientado  caiu aqui como podia ter sido noutro lado qualquer – a partir desse dia nada foi igual. nasceu um novo mundo – eram bichos enormes. fortes. poderosos. temíveis. maiores que todas as plantações de cafeeiros – sucumbiram por inabilidade ao novo mundo – continuo distante de tudo que me rodeia – o corpo reclama mais droga. mais cafeína. mais descuido para matar a lucidez – só perdido me posso encontrar – talvez esteja na hora de me procurar. de dar duração à vida. existir – um homem só existe vivo – encosto-me a mim. entrelaço as mãos. o coração com as veias e prometo ao corpo um último gole de café quente. enquanto o armageddon. na minha janela.  se faz anunciar em forma de vento delicado –

que saudades de um cigarro. daquele fumo a deslizar para o inferno de um português suave – eu e o tabaco suaves – sempre me senti um homem suave quando me entregava ao silêncio – confisco-te as beatas. e assim ficava obrigado a entregar o fim de cada cigarro ao amigo confiscador – era o preço que pagava aquele que era portador de um maço de tabaco – não era o puto mais rico. tinha era mais sorte no acesso ao dinheiro – os amigos confiscaram-me a vida em pontas de cigarros – ainda os guardo dentro de mim – muitas vezes ouço sussurrar: há outro mundo para além da tua janela – são eles. tenho a certeza – uma vez amigo. amigo eterno – mas da minha janela já não se chega a lado nenhum – há um montão de coisas que acumulei enquanto fui vivendo: um livro da primária. uma espiga amarela pintada num fundo preto. uma coleção de cromos da bola. um colégio de padres onde o diabo encarnou. uma revolução de abril que nunca terminou. muitas conversas a entrarem pelas noites dentro. sexo bom e mau. correrias quase sempre para lá da realidade. tropeços sem explicação e mais umas quantas ninharias que prefiro não falar – velharias que perderam valor no tempo. gastaram-se na inutilidade e acabaram por tapar a janela de futilidades –  

resta-me o café. o seu aroma. e esta forma de estar sentado – estou de lado e já nada me embarra. tudo me passa ou pela frente ou pela parte de trás – no fundo da chávena aquecida a borra. enlameada de um negro pestilento. parece acabadinha de chegar de um navio negreiro – mas a borra nunca deixará de fazer parte do café por mais pestilenta que nos pareça aos olhos – sem borra não há café – perdido em conflitos interiores mexo e remexo o que me sobra na chávena com a força de um mandingo – mexer não me serve para nada. o que é borra borra fica – resta-me a janela e a borra do café tal e qual como é – do lado de fora da janela o tempo remexe-se [também] num vagar que não é o da mão que revolve a borra – mesmo tomado pela cafeina. pedrado. sei que o que me resta é a apenas esta borra. é ela que me faz viver – talvez esteja a exagerar e a questão possa ser analisada em base de uma doença mental. quem sabe o problema reside no sistema nervoso. ou em mim. intrinsecamente meu. nascido. criado e desenvolvido para me fazer crescer assim como sou. prenho de infinitos. preso a um cordão umbilical do tempo dos dinossauros –

mas para que serve esta conversa. para que serve falar destas coisas todas se o que interessa mesmo são as borras do café e o seu aroma – e eu a mexer. e o melhor do café tombado no fundo da minha garganta. morto por já não ser grão. e o aroma perdido para sempre numa viagem escura ao centro do corpo e o paladar esgotado pelo esforço de o manter perto da boca que é como quem diz. perto de quem me pode ouvir – já pouco resta do café agora misturado em ácidos estomacais. agita a chicote a minha única doença comprovada pela ciência: úlcera gástrica – a loucura nenhum médico foi capaz de a comprovar apesar de a médica de família já me ter dito que o meu maior problema não era o café mas sim o cérebro – talvez tenha razão – e lá estou eu com a colher para trás e para a frente como se tudo dependesse do sentido com que guio a mão. revirando tudo que é passado como se fosse uma borra gigante – estou aqui pedrado como se a vida fosse esta colher minúscula e tudo o que lhe vai dentro – mal-agradecido. enquanto mexo estou vivo e tenho amigos que já partiram. já não mexem colheres – que é feito do luís vieira? deve estar no céu. todos os meus amigos tem direito ao céu –

era um bom rapaz. gostava de ser guarda-redes. gostava de voar para as bolas. era calado mas maroto que chegasse – o tabaco e o pulmão levaram-no quando estava mais bonito do que nunca. era pai – todos os pais são bonitos – tenho saudades dele. tenho saudades daquela puberdade em que espreitava-mos pela janela do seu terraço a sua empregada a despir-se num vagar que nos levava à lua – ela sabia que as crianças são feitas de pressas – que sofrimento – e a descoberta de que afinal eramos mesmo machos – era ele malandro. a empregada ainda mais e eu valia pelos dois – que alegria. creio que foi a primeira mulher que vi nua. logo dum terraço de onde se via tanto da minha cidade – em frente a igreja do carmo badalava os sinos enquanto as pombas esvoaçavam pânico com o tocar das horas – só mais tarde percebi o pânico das horas – sou doido por relógios – ainda hoje gosto de janelas e continuo a ter uma casa com terraço onde as gaivotas que guardo em mim podem agarrar o vento noto. quente. criador de nuvens e sonhos cristalinos – já não creio voltar a ver nenhuma mulher nua por uma janela. mas também para que me interessa hoje ver uma mulher nua numa janela se elas andam nuas por todo lado –

eramos felizes com coisas do arco do diabo – os seus filhos devem estar grandes. tomara que sejam felizes e saibam que o pai era um miúdo fantástico – o pior da morte é partirmos sem deixar nada para que os outros possam entender o que por aqui andamos a fazer – é do que tenho medo. desde miúdo que tenho medo desta morte que nos rouba não a vida mas a nossa existência. a nossa missão enquanto homens com ambição. com consciência. com paixão. com uma vontade de abraçar o mundo e de o trazer para dentro do corpo – já não tenho peito para o mundo por mais pequeno que seja. estou completo – na minha janela o tempo corre com todos os vagares do mundo – quando o mundo é feliz o tempo corre sempre mais devagar. ninguém tem pressa de tomar um outro café quando o que acabamos de tomar ainda está amarrado ao céu da boca conservando todas as particularidades do local onde nasceu – eu nasci numa rua onde já não moro. nem eu nem nenhum dos meus amigos. nem o campo da feira. nem o campo dos padres. nem a casa de pasto luso brasileira. nem a celestinha da lusitana. nem o sr. capa batateiro que usava uma calça fazenda larga em que se notava os testículos a baterem-lhe no joelho –

não vivem ali mas vivem noutro sítio. uns no céu. outros noutras ruas com direito a céu – eu não vivo ali nem em nenhuma rua que me permita olhar o céu como o fazia com os meus amigos – já não tenho coragem de pedir o céu –  vivo no inferno à tanto tempo que já não seria capaz de me habituar às alturas – do café já só há restos da sua existência. quase não dá para um gole. ficaram ao menos as marcas na chávena para testemunhar que um dia existiu – uma nesga de sol atiça-me a vontade de viver – agarro – mas logo a deixo fugir – tudo se me escapa das mãos – o café está morto. como a maior parte de mim – remastiga o estomago que grita por já não aguentar mais a cafeina – não quero mais suplementos de vida – e a borra cada vez mais densa. pastosa. escura. melosa e o cheiro pestilento ao café retardado impulsiona a mão a mexer cada vez com mais força – toda esta força feita sem sentido. sem tino. demente. louca. ás vezes para a direita. às vezes para o fim do mundo –tudo se resume ao fundo de uma chávena e uma mão perdida em voltas que já não me levam a lado nenhum e a borra cada vez mais minha por tanto lhe mexer e todo eu sou disparate com tanta volta da colher e o corpo a pedir uma sombra para descansar – dói-me tudo e não sei o que é este tudo –

não sei nada. nunca soube nada e sempre procurei saber tudo – e a borra em agitação agarra-se à colher minúscula como se o paladar genuíno só existisse verdadeiramente nas borras do café – porque sou assim? não sei – e a janela grávida de mil e uma coisa que nunca fui capaz de aprender e a ilusão débil desaparecida num excremento de café – está na hora de me absolver e parar de mexer no que sobra de mim – e a borra cada vez mais escura. negra-morte. enquanto o pensamento me leva para a frente de um punhal que não para de me chamar para dentro de si – como te resisto se a borra um dia acabar? tudo o que escrevo é agora com uma mão. a outra amarra o último sopro de esperança – mais nada pode fugir do interior da chávena. não aguentava – e a colher de um lado para o outro ao encontro das paredes que já não separam o antes do desespero – tudo está misturado. perdido num infinito de reflexões que não encaixam com nada racional – só a chávena continua bonita. talvez seja da porcelana ou da luz que lhe entra pela janela – e o corpo a pedir contas de tudo que ficou para trás. de tudo que ficou por fazer. de tudo que não fui capaz de trazer para dentro de um futuro que fede como borra de café – estou cansado. muito cansado. quase a tombar com todas estas palavras que esperneiam como se o café pudesse acabar a qualquer momento – escrevo –

escrevo para permitir ao futuro arquivar com veracidade estas minhas divagações loucas. irracionais quase suicidas mas também gentis. delicadas. frágeis que me ajudam a conservar a coerência nesta degustação silenciosa – mas não adianta. já não vou a tempo de as escolher com cuidado. já não são minhas. são da cafeina. são desta loucura que mata cada segundo do que ainda mexo dentro de mim – a borra do café cada vez mais borra e o açúcar desaparecido de tanto mexer – um dia todas as palavras serão borra de café – não há terra que suporte nenhuma plantação de palavras. nem de propósitos. nem promessas. nem de coisa nenhuma. porque só pode nascer o que é semeado – no meu corpo  todas as palavras morrerão com o último gole de café – escrevo – escrevo porque são as palavras que me seguram na viagem para dentro do punhal – resisto. o aroma de café cada vez mais distante e a chávena a pedir à razão para não pingar para dentro da lâmina – e a borra cada vez mais seca. mais compacta enquanto o interior da chávena ainda mais preta e a porcelana a esgotar-se enquanto os dedos que a seguram agoniam num esforço final para a aguentar junto ao corpo – e a janela com o mundo todo do outro lado e eu cada vez com menos força para o visitar –


sou a cada momento mais desta chávena. desta borra. deste negro com cheiro a café que por ser borra não deixou de nascer num cafeeiro ao lado de milhões de grãos de café – resta-me a mão que amarra o último sonho. mantenho-a presa a um corpo que tem ainda dois olhos maiores que a janela – estou absolutamente parado. os livros acumulam-se para um novo mundo que não sei se verdadeiramente existe e a leitura adiada para uma próxima vida onde as chávenas do café sejam apenas chávenas e o café só café e os sonhos mais que sonhos e a força da mão que mexe as borras morra de cansaço e o negro parta como vidro e voe como gaivotas –

vou tomar mais um café. fazem-me companhia?  





16/10/2016

smile







não posso renegar a verdade – aqui estou. solitário. sozinho. retirado do mundo. entregue a uma luxúria de imagens repletas de sorrisos raros – as fotos chegam numa cadência de urgência enquanto os likes. atarefados e eufóricos. se perfilham pela ordem de chegada nas notificações. anunciando efusivamente a sua  presença a vermelho – estamos todos por cá  – são fotos incríveis. com mensagens ainda mais incríveis. numa alegria estonteante. quase a fazer mal. a doer. como droga alucinogénica. paranoica. cega – e todos os presentes confusos. assustados. apavorados por não saberem até onde poderá chegar esta felicidade – nunca nenhum artista tinha pintado os sorrisos assim. nunca. nem o de mona lisa – e tudo isto em redes de vai e vem. em partilhas feitas ao segundo. em velocidade estonteante. louca – e os sorrisos sempre em crescimento. satisfeitos. animados. a trazer prosperidade ao futuro –  quanto maior o sorriso maior a felicidade – as fotos não mentem. acredito eu que estou só. retirado do mundo e dos afetos de proximidade – e todos reagimos. sem pensar. num impulso idiota. numa sinceridade inquestionável. assinalamos a receção dos sorrisos com uma nova linguagem global. invariável. imutável e incorruptível: os smiles –

símbolos a representar vida. amizade. amor. proximidade. satisfação. dor. paixão. harmonia. acolhimento. revolta. ira. a rir pouco. a sorrir muito. a visionar campos de infinitos beijos. de abraços. de carinhos. e as mãos estendidas à procura de um toque não virtual. e o corpo a sentir um arrepio extra sensorial – somos amigos – o telemóvel vibra. chama por mim. e o som passou a uma tocata sem condições de fuga – atendo: quem fala? a máquina multifunções não tem o número memorizado – afinal é um amigo do tempo em que os  chamamentos eram na campainha da porta. dois toques sorrateiros. não fosse a mãe entrar em histeria e o proibisse de vir à rua. e logo respondia pelo vão das escadas: -- já desço – e eu sentado na soleira da porta. a queimar a demora. e o tempo a passar num vagar de meter medo – hoje como se diferencia um amigo do peito de um amigo tecnológico? digo então para facilitar esta nova comunicação: é um amigo mesmo amigo – que coisa mais louca. um amigo deveria ser sempre amigo e nunca necessitar de um pronome demonstrativo para confirmar uma amizade – agora temos os amigos do facebook. do instagram. do twitter do youtube e tudo isto numa trama intelectual. ligados a uma rede que não nos deixa ficar [mesmo] sozinhos. entretidos com a nossa companhia. conhecendo-nos um pouco melhor. apreciando-nos e retificando em silêncio os nosso barulhos interiores –

o tempo já não mete medo – ligo-me a mil amigos. e a outros que me perguntam se conheço e ainda a outros que talvez queira conhecer e isto tudo numa irracionalidade que por ser constante aos pouco se torna racional – e os amigos que não são mesmo amigos gostam da mesmas cores. da mesma moda. dos mesmos livros. dos mesmos hobbies e pensam igual. e a religião não interessa. e o sexo indefinido. ou só mulher. ou só homem. ou as duas coisas. e este é casado ou está numa relação em euforia ou agonia – gente igual. gémea mesmo. comprovada por uma máquina que só sabe falar verdade: estatística facebookiana – diferente mesmo só sou do amigo mesmo amigo – tudo que é cérebro é agora alimentado por fios que não vemos e que nos levam e trazem para sítios que nunca imaginávamos chegar – agora estou em Ibiza. de copo na mão e uma palhinha sai de um copo às cores e atravessa o planeta em fibra ótica. cheguei ao japão. e o peixe a ser cortado fininho por uma faca de samurai enquanto os pauzinhos levam à boca imaginação – atrás de mim uma gueixa segreda-me luxúria para o começo da noite – e a feed notícias do mundo a girar num ecrã plano. e um canguru perseguido por um aborígene. não. afinal é o aborígene que persegue o canguru –

todos nós perseguimos alguma coisa. e muita mais coisas nos persegue sem que saibamos – tudo isto a correr numa notícia de última hora. triste. muito triste. faz hoje anos que pavarotti nos deixou. e o avião do cristiano ronaldo teve um acidente. e o marido atirou ácido à ex-mulher enquanto a sogra era atropelada por um camião desgovernado na via de cintura interna – estou amargurado. tonto. também quase sou atropelado por uma última notícia não fosse um convite promiscuo para saltar para uma cama surreal – e aí estou. embrulhado em lençóis. feliz como nunca. ao lado de um par de pernas que nunca tinha sonhado. parecem-me as da sara tavares. e pela primeira vez sou infiel. e o corpo a suspirar por mais que apenas pernas. quero mais. afinal para que serve a tecnologia – estou esgotado. esta mulher não é para mim – e a minha vida recordada há um ano. vê as tuas memórias. e uma lágrima misturada com gratidão por estar vivo – e tudo nas mãos é velocidade estonteante. e quase nada tenho para fazer. a imaginação já não é minha é de um grupo de confecionadores de emoções. produção industrial. em série. e em constante atualização. e tudo me assenta na perfeição. como se soubessem tudo de mim. como alfaiates. e o giz a riscar as sobras. e a tesoura a ajustar tudo ao corpo enquanto o alinhavo marca numa certeza absoluta os contornos do corpo – bebo então para esquecer. preciso de um copo para matar esta angústia que verdadeiramente não sei de onde apareceu –

mando vir uma sangria. e mais uns quantos amigos virtuais. e os copos ao centro numa amizade que não é de amigo amigo: à tua saúde. enquanto a francesinha num molho cor de pêssego fumega da mesma forma que fumega a síria. e os mortos espalhados pelas ruínas feitas à bomba de um mundo cada vez mais terrorista – no facebook também – a alegria do estômago termina em agonia. enjoa e afoga-se de vez no mediterrâneo com gritos que são súplicas de refugiados que. de polegar no ar. não acenam. não. imploram ao mundo tecnológico que substitua os likes por botes salva-vidas – estou arrasado – também quero um like para mim. um enorme. com um dedo gigante a apontar para um salva-vidas que me salve do egocentrismo dos meus likes – que ingratidão – e mais um toque. e o telemóvel a vibrar e eu assustado. em pânico. descontrolado. não posso fazer esperar um amigo e o braço a correr com a voz para o ouvido: desculpa estava trinchar uma francesinha com uns amigos virtuais – e paro a vida para atender a urgência daquele apelo – todos os toques são importantes – de seguida mais um toque e adio o amor para a noite seguinte. e mais um toque e fecho o livro. e outro toque e digo que já não vale a pena sonhar. tudo acontece ao segundo e o futuro já não interessa o que interessa é o feed de notícias –

fecho tudo. eu também. o mundo todo. deixo ficar ao meu lado a desilusão em que a vida se tornou. não a minha vida que por ser minha não tem interesse para ser notícia mas a de um smile que chora. chora como uma criança – todos os smiles tem face de crianças. e eu desfeito em sofrimento saio disparado por wireless à procura do pokémon que magoou o smile das lágrimas – isto tudo sem abdicarmos de nenhum tempo porque deixamos de sentir este tempo eletrónico. gastámo-lo como se fosse inesgotável. como se aos dias pudéssemos somar mais tempo. e por cada ano gasto um mês extra. como se isto fosse um jogo de flippers e por cada centena de like`s um dia de bónus – estamos parados e andamos sem dar conta num tempo que deixamos de contar como tempo – mas conta – interrompemos o tempo verdadeiro. apanhamos o like e seguimos vidas que nunca serão a nossa vida – e aí vamos por uma estrada que nos leva a todo o lado para nunca chegar a lado nenhum – olhamos o universo num retângulo que dá luz. com sinais sonoros. e com música. e conta histórias feias e bonitas. verdadeiras ou falsas. de amor ou de sangue e tudo isto apenas com um tremor do braço. um click do dedo – mais um toque a pedir voz. atendemos e depressa nos dizem: manda mensagem. é mais fácil –

o mundo cada vez mais mudo. os dedos já não querem olhos porque conhecem as letras no escuro.  tudo cego no mundo real – que sofrimento – e os homens cerebrais do outro lado dos fios que não se vêem a dizerem que estás inibido de viver por vinte e quatro horas – eles fazem lei. julgam e ditam a pena – culpado – tudo isto porque mostraste as pernas da marylin monroe. o mamilo com piercing da janet jackson. duas lésbicas num amor proibido. um profeta parecido com allah. um poema de escárnio. e um nu do século quinze com um carimbo a censurar o belo – e a noite chega. tão noite como outra noite qualquer. o corpo preso a vibrações que agora já são choques elétricos. e o feed de notícias sem dormir caminha por ti com sinais sonoros de conveniência desumana – os olhos encostados a um sono em estado de alerta geral fazem o possível por descansar – são os novos guerreiros da tecnologia. enquanto um olho dorme o outro vigia o feed notícias – já nada te pesa no corpo. o passado está morto. e às tuas costas já não carregas amigos mesmo amigos. carregas um mundo que não é teu num padecimento transgénico  – estou só. devastado de tudo. de gente que não conheço e de mim também –

 sou agora este corpo tecnológico num mundo que só me aceita a rir. a falar com frases curtas. ou com pensamentos empacotados em caixilhos dourados de gente ilustre que não merecia este destino – e os sonhos cortados como se a vida fosse apenas estes clicks com o dedo para cima – força amigo tu vais conseguir. não desistas amigo. a vida um dia compensa-te. adoro-te. és lindo. beijinhos. gosto muito de ti – isto tudo rematado com um smille. um polegar na direção do paraíso e o inferno é descobrir uma verdade em tanta mentira – tudo o que digo é um like e o que não digo também e o que faço leva um like com um sorriso cada vez maior – um dia. irritado. recuso-me a por mais likes e digo: estou morto. morri. desapareci. cansei. suicidei-me com um cordão de likes – é então que milhões de likes emocionais aparecem para um último adeus.  o feed notícias chora. os dedos apontam para a terra. e os smiles das lágrimas esbarrotam-se em manifestações de dor e pranto – carpideiras em histeria dolorosa – os amigos que não são amigos colocam faixas pretas nos avatares. e milhares de emoções soltam lágrimas que nada molham – estamos  interligados a números de computação cruéis – somos então um IP entre janelas que nunca se fecham e promovem  uma contabilidade que sobrevive a uma bateria sempre em carga –

como tudo isto pode ser efémero – com a falta de power na bateria a morte pode acontecer a um qualquer momento – é então que o pânico acontece. falta o carregador. o isqueiro do automóvel está avariado. parece impossível mas não há nenhuma tomada elétrica num raio de cem metros. e o corpo a tremer. convulsões. vómitos. e uma ira que pode magoar de verdade enquanto a realidade está em fuga duma ressaca que pode levar à morte – são os novos toxicodependentes – estamos todos loucos – aqui estou a jogar com a vida. às vezes em ironia. outras. a tentar ser esperto. e lá chega mais um like sabichão – e passam carros e bicicletas com gente que já não pedala. e tudo sem margem de erro ou esquecimento. comandado por apitos que nos dizem: hoje o teu amigo mesmo amigo faz anos – tudo é feito à hora certa – tal como os comboios passam à hora certa. e os autocarros. e o metro. e as bicicletas. e os táxis. e a uber. e os transportes que não são urbanos. e os velhos com a solidão às costas. e os doentes em ambulâncias que já não gritam dor. e o povo sem se reconhecer. nem pela voz. nem pelos olhos. nem pelo seu jeito de ser. nem abraço. nem saudação. nem por nada. espera sentado pela sua vez a chegada de um destino que não controla –

ninguém tira os olhos do ecrã – por mais noite que seja há sempre um ex-humano parado num apeadeiro à espera de uma foto. de uma notícia. da morte de um amigo íntimo do mundo das fotos. de um smile. de um sorriso empacotado – e o like a cair como cai a urina. na sargeta. e logo de seguida um escarro e um cão de perna alçada espera também pela sua vez e o like coberto de um ácido que corrói o cérebro – as fotos sem flexibilidade. tiradas por um braço metálico. estendido para o fim do universo. sacam um último sorriso. e de repente. em total demência. o suicídio coletivo numa gargalhada fotográfica – o mundo afinal é todo feliz – infeliz só existo eu – só eu sei que estou triste. triste de morte com uma faca encostada à jugular e o coração a dizer: és o único que não tem vida – não me rio. não sorrio. e não digo que hoje o dia está lindo – não tenho trompete a tocar silêncio porque verdadeiramente não estou morto. estou apenas uma merda num mundo de merda – e assim termino esta crónica num sorriso de verdade e que por ter mais de duas linhas jamais terá direito a um like feliz



13/10/2016

fotografia




foto - sampaio rego




fotografia amadora é a minha última paixão – cada pessoa é um infinito de movimentos. de expressões. de representações. de comunicações que gosto de agarrar e lhe dar a eternidade de uma máquina fotográfica – iluminar o universo sensível – só a fotografia pode guardar um mundo ou apenas um olhar – amo a fotografia de proximidade. de afetos. de entrega. de cuidados onde a cumplicidade do clique inesperado se transforme num momento eterno – a simbiose perfeita: a entrega do fotógrafo com aquele que se deixa fotografar – fazer fotografia é também um ato de amor que nos obriga a compreender de uma forma especial cada momento de partilha. cada raio de luz. cada sombra. cada sorriso. cada movimento repartido e de confiança – é isso que faço aos amigos que me deixam fotografar. guardo-lhes os sorrisos. os gestos. os olhos e aquele jeito do corpo que não é de mais ninguém – só os fotógrafos acompanham os momentos inesquecíveis para a eternidade –  um fotógrafo é para sempre. depois do clique seremos inapagáveis – sei que para estes nossos amigos das fotos eu. fotógrafo entusiasta e amador. ficarei eternamente ao vosso lado em cada fotografia – foi um dia fantástico



texto dedicado à minha “colega” e amiga fotógrafa – andreia aluai


05/10/2016

domingo. dia de chuva




                                                                        tela - karen woods


domingo – aprendi que tudo o que sou se resume à palavra escrita. à forma como entalho o que escrevo na perpetuidade de uma folha em branco –

         – penso:

hoje. domingo. dia de chuva para o corpo. aguaceiros fracos. o vento a puxar norte e o apito do comboio a chegar pelas traseiras da casa –

         – sempre sofri com a chuva anunciada pelo apitar dos comboios   

em casa dos meus pais. nos dias em que se ouvia o apito do comboio. logo intuíamos que a chuva já deambulava pelo canteiro do vizinho – aplicava então o ditado popular: quando vires as barbas do teu vizinho a arder. põe as tuas de molho – a chuva estava ao dobrar da esquina – da minha casa à casa dos comboios eram cerca de três quilómetros em linha reta. coisa feita pela criançada em menos de dez minutos em passo ligeiro – mas a distância não conta para nada quando o que chega é tocado a vento – e tudo o vento carrega de um revoltado comboio quando apita em forma de grito: chuva. chuva. pouca terra. tristeza. pouca terra. chuva. chuva. tristeza. chuva e uma nostalgia de morte a moldar o som agudo do apito – o vento a deslizar pelas frinchas das janelas zune nos ouvidos tortura. e eu a correr para o terraço e os olhos a esbarrar nos montes cobertos de um negro feio – o silêncio era maior que as montanhas – só se ouvia o vento a pregar com as árvores enquanto que a passarada fugia em debandada para sul – nas janelas da vizinhança as roupas coradas não se cansavam de acenar ao que restava do sol enquanto as donas de casa as recolhiam em aflição – a chuva quando chegava á minha cidade é para durar –

        – não é por acaso que se diz que braga é o penico do céu

deitava os meus olhos incomodados para norte e lá estavam as nuvens com cara de poucos amigos. escuras de ruindade a marcharem num galope de combate. em formação guerreira. rasgando vales e serras. profetizam angústia. agonia. amargura – havia um silêncio nostálgico puxado a um vento esguio que não agoirava nada de bom – também havia uma tormenta anunciada dentro de mim –

         – a chuva açoita ferozmente a verdade de cada corpo: lava-lhe a carne. humedece-lhe a alma

os domingos sempre foram assim. incertos. tristes. silenciosos. feitos de nuvens magoadas a murmurar nostalgia numa calmaria amarga – mas com chuva. os domingos tornavam-se desumanos. malvados. perversos. parecidos com o apocalipse anunciado por cristo – finalmente os anjos de joão vão dar razão ao livro sagrado do cristianismo –

         – nestes dias dominicais nunca sou capaz de grande imaginação. tudo está parado – eu também

no corredor da minha casa a passadeira corre asseada para a porta da rua. mas também por lá o barulho habitual dos dias da semana está ausente – não quero sair. o corpo não quer sair. só quero expurgar da carne esta pré anunciação da morte – este silêncio é poderoso. uma aflição. um sufoco mudo – tomara que nenhum romeiro errante apareça para desarrumar as cadeiras e me roube o silêncio dos cortinados – dizem que o domingo é o dia da família – para mim todos os dias são da família menos o domingo –

         – tudo dentro dos domingos é silêncio. é nostalgia. é aborrecimento é antecâmara de um velório – é um contar de tempo que magoa ao segundo

domingo é dor que dói sem saber onde e porquê – a tristeza invade-me numa sensação de morte antecipada dos sentimentos e tudo que era para ser escrito é vago. vazio. e as mãos desabitadas daquela força interior deixam-se cair até ao fundo do corpo na procura da salvação – aos domingos preciso de sentir o sangue correr nas veias para saber que existo – olho-me então pela janela. imagino uma chuva diferente. a subir ao céu. numa correria feita água-moço. inocente. talvez adolescente. suave como todas as faces acabadas de nascer. sem segredo. sem desvirtude. sem engano. numa dança limpa. branca. venial que não é mais do que o retorno ao começo do meu universo – um universo físico pois já não acredito no universo que me pede rezas – o meu céu é a minha terra e o inferno acontece sempre que viro as costas à janela que agora sei não ser minha. é de um domingo de chuva. de chuva que magoa. que não lava. que me humedece a alma e me faz virar as costas ao mundo – é um domingo de um homem-chuva –

         – os dedos a querer escrever escamam a pele nas palavras que não saem – talvez queira aquilo que não tenho

o cansaço quebra o corpo e o cinzento preenche cada esquina do quarto onde os ângulos são cada vez mais aguçados e a geometria das palavras teima em não aparecer – o candeeiro não ilumina coisa nenhuma. nem dentro nem fora do corpo. a única luz que me chega é a que escapa às cortinas de uma janela virada a sul – mas tudo está a norte. a igreja que com os seus sinos chama gente de fé [cada vez há menos crentes]. o jardim onde as crianças brincam a um futuro que não vejo [cada vez há menos crianças]. as romarias que atiram fogo contra o céu numa tentativa de acordar o santo padroeiro [cada vez há menos romeiros]. os namorados que de beijo em beijo adiam para amanhã o que devia ser hoje [cada vez há menos amor]. aos domingos tudo que vejo é a norte do corpo. a sul existe o que nunca vi –

         – e aqui estou hoje a escrever como se fosse criança – mas não sou. e os domingos também já não são desse tempo

sobra-me em boa memória o acordar aos domingos em casa dos meus pais. o cheiro a assado no forno a invadir o meu estremunhar. e a certeza de uma comida melhorada por ser dia do senhor. enquanto a minha mãe corria a casa em afazeres que nunca compreendi – talvez sentisse também a nostalgia dos domingos e a lida da casa a forma de a superar – acordava. bocejava. virava o corpo para o lado da janela. a luz bocejava [também] pelos intervalos da persiana enquanto a vida  acontecia noutras partes da casa – no ouvido ainda sonolento. uma cadeira arrastada. uma janela a abrir. um tapete sacudido. um lamento em voz rezingona. uma corrente de ar que não magoava o corpo enrodilhado em cobertores e os braços a espreguiçar felicidade – olhos abertos. e a roupa do domingo sentada na cadeira em frente à cama. em espera. em alegria. aprumada. com os sapatos alinhados pelas biqueiras e as meias de lã a dar pelo joelho. sem remendos. emparelhadas pelos calcanhares – tanto a roupa como eu sabíamos que este era o único dia em que saiamos de casa orgulhosos: a roupa comigo e eu com o brio do corpo e da mente – e ali estava eu. a vestir-me de tudo que era novo. lavado. passado. engomado. e os sapatos engraxados de um negro-brilho a reluzir uma calmaria que não tardei a perder – e a minha mãe em aflição gritava-me:

         -- olha as horas. a missa não espera por ti – não vais voltar a chegar atrasado. é uma vergonha – a igreja do carmo estava a cento e cinquenta metros

corria para a missa das onze e trinta e regressava para o almoço amparado pelo poder de uma proteção divina que mesmo invisível eu acreditava – eram horas de sentar à mesa. a aparadeira de barro trazia o aroma da melhor carne assada do universo – eramos cinco numa sala só nossa – e a mesa vestida de um branco encantador dizia que a minha casa não era pequena – eramos cinco. numa “casa absoluta” – e ali estávamos todos numa graça que também era do senhor. rodeados de palavras por todos os lados. numas paredes que se erguiam num interminável instante que durou a minha vida toda – ainda vivo dentro dessas paredes. numa mesa que não mudou. numa cadeira à direita do meu pai. depois da minha mãe e de costas para uma natureza morta comprada a um artista-adornado[r] de almas – naquela mesa só eu era pequeno. os pratos enormes. brancos. de uma porcelana grossa. com uma risca azul que era céu. os copos gigantescos equilibravam-se num único pé. delicados. esguios. bonitos. a honrar o dia – nunca compreendi aquele equilíbrio-harmonia como cada copo ocupava o seu lugar. e a forma delicada como o meu pai o levava à boca pousando-o de seguida com uma amabilidade cristal. enquanto os lábios se tocavam numa caricia gustativa logo escondida por um guardanapo igual à toalha. branco branco – à semana eram copos rasos. grossos. feios. feitos para partir. para durar um instante rápido – naquele tempo não havia coca cola. nem sumos. nem outras mixórdias feitas de corantes. só água num jarro da barro com o bico fanado. com a mesma risca azul do céu – os talheres. acertados em tamanho à direita do corpo prometiam levar à boca a certeza de que nunca mais deixaríamos de ser cinco. cinco numa casa “absoluta” – o guardanapo pendurado no pescoço cobria-me o corpo. embrulhava-me num branco igual ao da toalha enquanto as nódoas se atiravam para o chão com medo de zangar a minha mãe que não se cansava de repetir:

         --tem cuidado com a roupa. não te sujes. olha que não tens outra para sair – não me envergonhes  

e ali estava eu à mesa sem ainda perceber a importância de número cinco. de um cinco inteiro e não um  quatro mais um – não sabia nada de contas. e só muito tempo depois é que percebi que quatro mais um não é igual a cinco – foi naquela sala só nossa. “absoluta”. que eu aprendi a contar – os pés para trás e para a frente entretinham-me das conversas dos meus irmãos enquanto o meu pai sorria – o meu pai sempre sorria mesmo quando o assunto era sério – ali estava ele. absoluto. do tamanho da nossa sala. à cabeceira da mesa. vestido também numa roupa de domingo. de família. num corpo bonito. orgulhoso. por dentro e por fora. que sorria também. as mãos brilhavam. e a comida chegava à boca numa elegância merecida. embelezada por um bigode finíssimo. feito a lâmina de barbeiro. que atravessava a nossa sala de uma ponta à outra. e os olhos. os olhos meus deus. bonitos. bons. nasciam-lhe na alma e iluminavam um caminho que nunca fui capaz de descobrir –

         – é domingo. todos os dias são agora para mim domingo – mas já não há assado no forno

mas cá estou agora. a pensar. como os domingos continuam chuvosos. agora sem comboios. sem o apito a avisar chuva. a avisar mau tempo – mas a chuva cai todos os dias e o vento já não atravessa as frinchas. atravessa o corpo numa saudade que me rompe a memória. e os cinco já não são cinco. somos quatro e o domingo é agora ainda mais escuro. sem generosidade. sem carne assada e os cães noutra sala a dizerem-me que ainda sou mais do que um qualquer domingo e que tenho que cuidar de mim. entender-me com a hora da morte – e o que era uma soma é agora qualquer coisa que não sei explicar. impossível de somar – e a saudade amarrada aos anos que passaram por mim e eu sem saber se o que vem para lá é mais do que um balançar de pés numa cadeira que me amarrava a uma sala só nossa. e as nódoas já não caem no chão. caem no corpo. como lapas de um mar que não conhece nenhuma sala como a nossa. “absoluta” – e o domingo a rasgar-me em imagens que já tinha esquecido. copo cada vez mais pequeno. e os lábios à procura de um pedaço de tempo que me mate esta sede do domingo que me viu nascer – o domingo entrou-me no corpo por um braço que me esgana – sufoco. sufoco. sufoco – é domingo. chove. fora da minha janela – dentro também


03/10/2016

loucos desejos





tela - fernando botero




mãos malditas com loucos desejos
não me fustigueis com o vosso olhar
que. em horas despidas e de sonhos cruéis
sois monstros multiplicados por mil.
silêncios parados de encontro ao nada.


em cada dedo mora uma esperança.
em cada linha cavada uma sina apocalíptica.
dormem ruas ladeadas de luzes insólitas.
calçadas de sonhos perdidos e idiotas
onde o peregrino teima em andar


sonhos que escutam desespero em mudez. 
escutam? sim.... o ruído de letras a nascer.
onde percorrem braços inertes de sofrimento.
partilham um coração que bate poesia    
desaguam dor em dedos revoltosos


queria ter algibeiras que fossem prisões
deixar-vos agoniar com a falta do olhar.
pois sois mágoa parada num trilho de escrita
onde morrem  as mãos vazias de saber


deste inferno diz-me a voz da rua que dorme
em miradouro onde a beleza é o precipício; 
se olhares.... se sentires…. se escutares….
talvez um dia…. quem sabe hoje até…


descobrirás. que se morre de ambição.