.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

11/06/2017

tratado simplificado de uma amizade magoada





caravaggio


1.

quando a desilusão se chama amigo – num tempo de interrogações amargurei. depois. em dificuldade. dei uma oportunidade à lucidez acabando esta por despontar num exercício prático de libertação do homem – nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro – não sendo guerreiro. mas em liberdade absoluta. resolvi então escrever um tratado simplificado de uma amizade magoada – bem sei que quem espera desespera. eu desesperei – mas as palavras acabaram por chegar no seu vagar. tal e qual como me foi chegando a vida cinzenta – tudo foi acontecendo numa demora estranha. tomada por uma nostalgia envelhecida ao tempo – dei então início à minha busca: encontrei-me nas origens. nas causas. nas motivações. na ambição. na imbecilidade e regressei ao ponto de encontro para poder chegar novamente ao desencontro – sei agora o que quero dizer numa escrita que desejo direita mesmo que a causa não me dignifique – perder um amigo é sempre uma culpa dividida – descobri a serenidade e despedi-me da alma para me encontrar mais de perto com a verdade. assumi a mortalidade e pedi a têmis que me ajudasse a derrotar o erro escrevendo a justeza numa consciência iluminada – encontrar a minha verdade decantada da imperfeição é fundamental – sei que será sempre uma verdade minha e que muito bem pode não ser a de mais ninguém – com o corpo em braços avaliar-me-ei pelo conhecimento num processo autocritico: colocar-me no centro da humanidade. avaliar escolhas. questionar processos. aceitar e compreender o erro. reconhecer a individualidade e por fim. com a verdade purificada. combater e derrotar a desilusão como uma das mais violentas formas de enfraquecimento e eliminação da estabilidade emocional – afinal tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada para um quarto vazio



2.

decompôs-me em segmentos finíssimos de lucidez. e à velocidade de uma bala alcanço o desencanto – corpo e mente aceitam a deceção num estado de alma de acolhimento cristão: perdoa-lhe que não sabe o que faz – estamos os dois perdoados. eu por te fazer existir num pedaço de terra que acabou desabitado. e tu por me trazeres enganado num abraço que acabou por nada abraçar – juro que não sabia que os abraços se perdiam como o vento – mas não há forma de nos esvairmos da condição humana que tragicamente carrega em si o erro. numa contagem de tempo sempre provisória – a imperfeição do homem é uma das razões da sua diversidade – sei agora que o corpo se me partiu em milésimos de segundos. onde estávamos juntos ficamos separados. marginalizamo-nos nas razões. as mãos desuniram-se violentamente. tu limpaste-as como pilatos. enquanto eu. em vergonha. as guardei para sempre na fundura dos bolsos – de seguida dividimos as palavras. tu recuperaste as tuas e eu quebrei as minhas para nunca mais as usar – há palavras que nunca deveriam ter nascido – ficamos os dois dentro de um quarto vazio. numa porta que se fechou quase sem fazer barulho – quando te virei as costas trouxe toda a raiva do mundo no corpo. explodi numa dor que me atravessou todos os anos da vida. num arrependimento alucinogénio. culpei o mundo. de seguida culpei as pessoas do meu mundo. depois a rua onde crescemos. o passeio onde jogamos à bola. o jogo da estátua. as caricas. e aquele candeeiro que se apagava sempre que lhe dávamos um pontapé –  eu é que deveria ter levado esse pontapé. afinal a minha casa ficava numa rua a descer mas eu sempre a quis subir. teimoso – a dor cortou-me os pulsos dias sem conta. e eu sem saber como estancar a raiva. e um murro na parede. e outro na mesa. e um ralhete a um deus que sempre me pareceu surdo – houve um tempo em que tu e eu acreditávamos nesse nosso deus. morava na mesma religião. na mesma pregação. na mesma prática do bem: “a lei de deus é justa e boa – “quem obedece à lei de deus faz o bem e ama as pessoas” – nós prometemos-lhe praticar o bem. amar as pessoas. não mentir e honrar os amigos – a humilhação serrava-me o corpo num barulho que me enlouquecia – tu não me honraste. mentiste-me com palavras que prometemos nunca usar – esqueceste-te do apalavrado com deus. esqueceste-te de mim e esqueceste-te de tudo que era meu – fiquei só. perdi-me do corpo. do que o meu pai me ensinou. da compaixão. do perdão. fiquei sem uma única palavra que me trouxesse de volta a casa – no corpo só cabia agora raiva e interrogações – o que fazer aos aniversários em que me desejaste muitos anos numa vida feliz? o que fazer aos natais sem aquele abraço-tradição? o que fazer ao teu número de telefone? o que dizer aos amigos? como viver apartados por um muro de cólera? – a amizade verdadeira é uma forma de amor incondicional – durante muito tempo andei desaparecido de mim. não me reconhecia. estranhava o corpo. os seus desejos. os medos e o que a memória desejava pela noite perdia-se na manhã – expulsar-te da minha humanidade não era tarefa fácil – magoei-me com tudo que tinha à mão. atirei-me para dentro de palavras que me torturassem até que a dor se tornasse numa raiva tão escura que nunca mais fosse possível encontrar-te pelo nome – mutilei-me com a confiança. sangrei honra. chorei humilhação. despedi-me da esperança e o que era amizade foi substituído por luto – quando um amigo nos morre nas mãos é para sempre – sempre amei os meus amigos – mas a tua morte resistia aos meus dias. nunca foi bom a mentir nem a matar a saudade: um café partilhado. uma conversa urbana. uma miúda cobiçada. um automóvel da mesma marca a caminho da tua casa. um nome geminado. e estas duplicações a dizerem-me que a tua partida foi um equivoco do tempo. uma noite mal dormida. um pesadelo horrendo depois de uma farra de copos – uma armadilha à amizade – quis acreditar que um guronzan e uma dietinha de arroz branco me devolveria novamente os dias como sempre foram – ao nascimento do sol recuperaria a luz da confiança. eu voltaria a aceitar-me tal e qual como sou. e tu tornavas a aparecer dentro daquele sorriso que nunca te deixou crescer – mas não. afinal o luto é muito mais que roupa negra. é o corpo negro. pisado. enraivecido numa acidez que me faz arder num inferno que não foi desejado por mim – não aguentei. atirei-te de um penhasco para o mar e nunca mais procurei o teu corpo – este meu luto durou um tempo que nunca quis aprender a contar – quanto mais tempo tivesses desaparecido mais prazo tinha para escapar do abismo – com os dias a passar tudo foi sendo substituído por silêncio. um silêncio que não é dor. não é raiva. não é azia. é uma saudade que nos enfeitiça e liberta serenamente. sem que nada possamos fazer. as memórias que obstinadamente escondemos – esta saudade dói. dói pela distância. dói porque os dois fomos um e agora somos ausência – não há forma de controlar esta saudade. simplesmente aparece. devagar devagarinho e o corpo tomado por um marasmo sereno. tranquilo. silencioso. sem arrependimento – à boca são roubadas todas as palavras que magoam. enquanto as mãos se espreguiçam delicadamente – é importante não amedrontar o dia seguinte – o tempo em silêncio assustou-as. envergonhadas esconderam-se no escuro dos bolsos que. em boa verdade. não as escondiam de nada – e o dia seguinte a exigir uma renovada aliança com a fé. as nuvens a correr para sul. sem pressa. enquanto um novo arco-íris adorna o céu num colorido de cores quentes – o sol rompe pelo corpo. as sombras estatelam-se no passado. e o coração retoma os batimentos numa alegria que é hino – beethoven – os olhos renovam-se. resplendecem em inesperados campos de flores: bem-me-quer. mal-me-quer. bem-me-quer e o vento a soprar de fininho. manso.  quente. de norte para sul. a envolver o erro numa carícia de indulto – o corpo recupera a inocência numa calmaria que já não anuncia mau tempo. finalmente – invadido por uma trégua delicada recuo ao passado. à pureza dos ideais. todos por um. um por todos. deito a cabeça a uma árvore. tapo os olhos. e conto até mais de cinquenta. depois. desenfreadamente. volto a correr pela vida. voltamos a jogar à bola. ao deita fora. e celebramos vitórias sem ganhar coisa nenhuma – sorrimos. somos puros. e o mundo também – para haver um mundo impuro é necessário haver gente impura – não havia. nesse tempo tudo era perfeito – juntamos a família às celebrações. os amigos também. festejamos o meu aniversário e de seguida o teu que acontecia sempre um dia depois do de meu pai – estamos em agosto. nunca senti frio em agosto. era um mês especial. não havia tristeza. nem solidão. nem saudade. nem medo. nem injustiça. nada. só havia sol. luz. muita luz e uma vontade enorme de a trazer para dentro do corpo – um dia o meu pai deixou de festejar a vida. e o agosto quase desapareceu. passaste a existir só tu num mês moribundo. mas também quiseste partir. deixaste de festejar a amizade e o agosto esfriou para sempre – eu gelei – juntei então tudo que era teu num dia depois de agosto. acrescentei-lhe os abraços. os sorrisos. as promessas. as juras. as palavras que nos tornaram amigos. os natais. principalmente aqueles em que me levavas a casa um abraço quente de verão. a tua bondade e aquela tua vontade única de partilhares a vida com afeição – nós amávamos o natal – prometo que este ano escreverei a verdadeira história do meu pai natal – quero guardar o melhor de ti – devo-te isso – há dividas que só se pagam com afetos – um homem grato faz o mundo muito mais bonito – nunca te deixei de ser agradecido nem mesmo no dia em que te atirei para o fim do mundo – o corpo ainda dói. sempre que o sol se esconde o corpo dói. e eu sem entender como lidar com uma dor que não quero que continue dor – e ali fico eu preso às horas da noite num emudecimento que me enlouquece – não é fácil perder o que se pensa ser eternal – o tempo passa e o teu corpo teima em reaparecer – aceitei o desafio – passaste a viver numa dimensão que não sabia existir: estás longe estando ao meu pé – és memória – reinventei para ti outro corpo. outros olhos. outros gestos. outro modo de andar e um outro sorriso. desocupei-te as mãos dos bolsos. tornei-os mais largos e mais fundos para te caber toda a cobiça do mundo. e dei-te um lugar na terra rodeado de gente por todos os lados – ficaste mais parecido com todos aqueles que não conheço. mais banal. menos divinizado. passaste a ser apenas mais um homem que envelhece no meu tempo – só os amigos não envelhecem –  tu envelheceste de um dia para o outro – afinal também já tens cabelos brancos. tens o corpo mais tombado para a frente. as unhas cada vez mais ruídas e o sorriso que te fazia criança está agora muito mais cansado. adulto. indiferente ao mundo. ao teu e ao meu – sem esse sorriso deixei de reconhecer aquele rapazinho franzino. magricela. sempre a correr desenfreadamente à frente da sua própria bicicleta. numa velocidade estonteante. louca. de um lado para o outro – só estavas bem onde não estavas – e assim ficaste para o resto da vida. sempre gostastes de estar em todo lado sem nunca estar em nenhum – escondi-te do erro. fingi que os amigos nunca falham e fui-te perdendo devagarinho para não me magoar – ultimamente já quase não falávamos. perdeste a fala. aprendeste a pisar. humilhar e fazias gosto em o mostrar – refugiei-me no tempo – quando gostamos de alguém somos capazes de jurar que o mundo não é redondo – perdeste a juventude. depois a inocência. as leis do teu deus. não faças aos outros o que não queres para ti. perdeste a coragem. as origens. escolhestes os mais fracos para te tornares mais forte. ficaste injusto. prepotente. cego. egocêntrico. interesseiro e vaidoso. mais vaidoso que a sé de braga – passaste a sentir-te bem com o mal dos outros – tu não eras assim – por mais de mais de mil vezes tentei dizer-te que estavas errado. que o sucesso não tem um só caminho – essa personagem magoava-me. avisei-te que mais tarde ou mais cedo a vida te iria cobrar. o teu deus não dorme – a justiça tarda. mas não falha não foi assim que te conheci – não me deste ouvidos. perdeste-os com a ambição e não foste capaz de tirar os olhos do papel e da montblanc – tiveste medo de me olhar nos olhos – desisti esperando. não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe – enganei-me. o tempo não te melhorou. pelo contrário. aprendeste a mentir sobre ti e sobretudo. sobre os outros – um homem mentiroso não vale nada – abandonei o diminutivo no teu nome e passei-te a chamar o que todos te chamam – eu também perdi o meu diminutivo – descobri que a vida é muitas vezes ingrata. aprendi a resignar-me. nem sempre as lutas nos levam à glória – mas também descobri que não te quero como inimigo. um amigo só necessita de um cantinho no coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo – não te darei o meu corpo. nasci sem inimigos e também morrerei sem eles – abri então uma porta que não dava para uma quarto vazio. deixei entrar o que sobreviveu de melhor dos dois. abracei-te com tudo o que me magoou. e chorei. chorei até que as lágrimas me enchessem as mãos de ti. expulsei-te da raiva e voltei à vida. fechei a porta. dois passos em frente. parei. e não voltei a olhar para trás – fui – jurei nunca mais te voltar a ver



3.

momentos de onde nunca te conseguirei apagar. momentos em que faria por ti tudo o que me pedisses – um homem honrado não pode esquecer o bem que lhe fizeram – não há dia nenhum que o esqueça – sempre te fui leal – e o que foi um caminho de afetos é agora um corpo encalhado numa pilha de palavras que não servem para te dizer quase nada – quando estou só já não sou capaz de falar contigo – aquele pedaço de terra desabitado perdeu a cor do céu. as gaivotas abrigaram-se do sal e as flores definharam com o pouco que restava da primavera. não resistiram à desilusão – gostava de lhes ter perguntado se a minha vida seria diferente se tivesse nascido noutra rua – não há uma única flor para me responder – morrerei sem saber – um homem quando perde os sonhos fica só. entranha-se no corpo à procura do que já não existe e acaba por se magoar com a ilusão de que ainda pode modificar o passado – não pode. por mais que volte a sonhar a história vai terminar sempre em dor  – o que está feito. feito está – há dois momentos que marcam a nossa vida. o primeiro ocorre com o nascimento. aparece sem que nada possamos fazer para o evitar. nascemos e pronto. toca a respirar para sobreviver – o segundo momento é aquele que se torna certo para quem tem a ousadia de nascer: a morte – não pode ser evitada mas pode ser dignificada. para isso basta que no dia da partida leves um sorriso na face – ainda há gente que o leva – procuro agora o meu sorriso. um que me recompense de todos os sonhos que não foi capaz de realizar – ainda não o encontrei mas sei que anda algures por este mundo – desencontrado? sim. culpa minha. creio eu – estou cansado. as noites esgotam-me. os olhos não fecham. deito-me em cima do corpo e ali fico de olhos abertos até que o cansaço me atire para a antecâmara da morte: o desespero – quero muito acreditar que há sempre uma razão maior para o que nos acontece de menos bom na vida – neste momento sobreviver é um desafio tremendo – sinto o corpo a pedir dignidade. estou sem fé e sem um único sorriso para me poder despedir – bato á porta do meu deus de criança e pergunto-lhe se ainda há lugar na sua cruz para crucificar uma amizade – não me responde. nunca me respondeu a coisa nenhuma – tento agora aceitar-me nesta infindável dor da perda – recebo em mim a inevitabilidade da desilusão e preparo o corpo para conhecer o seu último sorriso – o meu lugar está guardado no pedaço de terra desabitado



4.

ainda não te consegui perdoar. mas tento todos os dias – não sei se irei conseguir – creio que não. já não há tempo – envelheci




07/06/2017

deambulações noturnas XIX





pintura - r.g. nascimento





um amigo só necessita de um cantinho do coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo




02/06/2017

deambulações noturnas XVIII





kit king e corey oda popp



e lá continuo eu com o meu tratado simplificado de uma amizade magoada – deixei de contar as noites. perdi a soma das horas. do desespero. da raiva e do medo de não encontrar a palavra mais acertada para que a verdade não aconteça distorcida – a minha “arte” vive unicamente do esforço – confesso-vos que na maior parte das noites acabei por me perder no interior do corpo – reencontrar-me é uma provação à minha justeza – não é fácil escrever afetos perdidos – cada linha deste tratado sobrevive á custa de cem linhas expulsas e todas levaram um pouco de mim – também eu me expulsei para sobreviver – sofrerei até á linha final – tem de ser. mereço eu. e merecem os que continuam a gostar [acreditar] de mim



deambulações noturnas XVII




ran ortner






tratado simplificado de uma amizade magoada - e assim chego às 6 da manhã escondendo o sono atrás de cada palavra sentida - ousadamente vou  escrevendo noite após noite este tratado que vale mais do que um abraço perdido para sempre - afinal tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada para um quarto vazio - nenhum corpo merece uma dor que é perda por mais defeitos feitos ou desfeitos


24/05/2017

pássaros da noite





pintura - diego fazio



não há forma de me reencontrar na noite - estou completamente perdido. de um lado eu. do outro eu também - e os dois eus cada vez mais de acordo - se um diz mata o outro já não diz não mates. se um diz basta o outro diz que o basta só peca por tardio. se um diz coragem o outro diz muita. se um não diz nada o outro encolhe-se no nada - afinal o silêncio é a antecâmara da morte - nos meus eus apenas uns quantos pássaros a chilrear numa alegria que desconheço nos intervalos do que me sobra da janela - talvez o sol nasça apenas para quem lhe canta esperança - eu continuo preso às minhas lâmpadas de baixo consumo. numa fé moribunda e incapaz de produzir qualquer tipo de som para que a manhã me nasça - faz-me falta um abracinho e um segredo ao ouvido para que a noite não seja eterna



18/05/2017

deambulações noturnas XVI






van gogh


quando sentires o vento por baixo das palavras. aferrolha tudo e repousa até o tempo amainar – as palavras soltas ao vento de nada valem




15/05/2017

vânia – afinal. deus mora nos nossos quintais





vânia lopez




com coragem aqui estou em palavras para enobrecer a tua amizade – chegou o momento de te dizer o quanto foram [são] importantes as tuas palavras-estimulo ao longo desta minha aventura prosista – tentar ser prosista não é fácil –– retribuo então esse teu carinho com o talento que me sobra nestas mãos que te querem bem. sei que não será grande coisa. serão apenas umas quantas palavras. algumas velhas. gastas. puídas. outras sem nexo que de tão desajustadas do corpo me caiem dos bolsos –  dobrei uma em forma de triângulo. um triângulo perfeito. com os ângulos todos iguais. e coloquei no bolso da frente do casaco a imitar um lenço de seda – um homem quer-se arranjado quando está prestes a oferecer o seu bem mais precioso: a palavra – gosto de palavras. sempre gostei. servem para coisas inacreditáveis. e quando bem usadas. podem fazer de nós pessoas fantásticas. às vezes até imortais – quando escrevemos ficamos guardados no tempo para sempre – com as palavras posso fazer quase tudo. escrever o nome de quem gosto. matar as saudades. escrever cartas de amizade. escrever poemas de amor ou de raiva. e outras que por serem tão complexas só os poetas as entendem. posso também dizer que o mundo é mais bonito contigo. e dizer com toda a impiedade que uma palavra pode comportar: gosto de ti – gosto de ti assim. gosto de ti como te descubro nos meus olhos. como quando me chegas em silêncio. ou como te escuto no interior da tua poesia. e também gosto de ti na forma como me olhas naquela foto em que te colocas de lado para o mundo – ainda bem que existes – sabes que gosto de escrever. e quando começo a escrever não paro. fico com a sensação de que nunca digo o suficiente. insegurança creio eu. ou então falta de jeito. sei que não tenho muito. às vezes nem percebo porque escrevo. fico sempre com tanto medo de não saber verdadeiramente o valor de cada palavra. quando erramos a escrever é para sempre. as palavras não se trocam. nem as podemos pedir de volta. depois de escritas são para a vida toda – como também é para a vida toda aquelas mensagens que trocamos na calada da noite. tu mandas um olá. eu respondo com um bonequinho a sorrir. tu mandas uma palavra. eu devolvo a tua com mais duas minhas e começa o encantamento poético. e as palavras a escreverem-se como se tivessem uma força desconhecida. como se os deuses do olimpo nos tomassem conta das mãos e nos dissessem: escrevam. sejam feliz – e assim ficamos a dar brilho às estrelas enquanto a noite. calmamente.  se prepara para dar lugar à realidade – gosto de saber que estás por aí nesse teu quintal – escrevo-te porque não sei falar. porque não confio nas palavras que me saem da boca. saem-me sempre muito depressa. impercebíveis. e tão confusas que se acabam por perder no mundo-solidão – pouco sei desse mundo solidão. gosto mais do nosso. o das palavras escritas que partilhamos em gosto. numa arte que nos abraça e poucos entendem – quem escreve cresce todos os dias dentro se si – nós fizemos crescer uma amizade – mas para que serve isto tudo que estou a dizer se não for capaz de escrever uma palavra nova para te oferecer – não serve para nada – escreverei então alguma coisa que te traga em braços por esse distal mundo oceânico. onde tu. desse lado. ficaste presa. e eu. deste lado. em castigo – arrumo as montanhas para um lado e sento-te ao pé de um campo de magnólias. estamos na primavera. corre por nós um perfume dourado-sol. suave. suave-inocência –.paro as águas dos rios. paro ao nuvens. paro todos os pássaros no ar. e arrumo o vento morno dentro de um poema que compus para pessoas especiais – há agora um silêncio celestial disponível para escutar a tua poesia – arranjas o cabelo. as poetisas querem-se bonitas. dás o jeito ao corpo que eu conheço. sacodes as mãos do tempo pérfido. e por último. uma olhadinha no espelho da vida. é lá que nasce toda a poesia do mundo. a tua também – e ali fico a ouvir-te até que o tempo se acabe e os poemas se tornem ficção – voltas então para o teu quintal. e eu fico a colher magnólias em campos de palavras – afinal. “deus mora nos nossos quintais”


para a vânia lopez – um comentário faz muitas vezes a diferença - obrigado por cada dia em que me ajudas-te a escrever e a enfrentar os meus medos


10/05/2017

Águas de papel




vânia lopez





encontraria a palavra perdida
pelas ruas que me afastam e me levam de volta
nessa oração pequena
a pressa de nosso abraço antigo
que tem muito a despir
a correr por um campo de flores selvagens.
e lá fora sentir a sombra desse abraço
como se não fosse um traço de caneta
que lhe deu vida
mas de um Deus que dorme no quintal.

poema de vânia lopez de dicado a mim - muito obrigado cara amiga


09/05/2017

o corpo não morre todo à mesma hora





pintura - emanuele descanio




1.    o homem


um dia percebemos que o corpo já não é portador de uma consciência una.  integra e lúcida – divina ou não. esta consciência. ao longo do tempo foi obrigada a reordenar-se em fações temporais. numa existência quase sempre mutilada. imperfeita e feia – consciência é sinónimo de homem. da sua intimidade. de honra. de bondade. de vergonha. da sua inteligência. da perceção do que fez. do que ainda pode fazer. e da capacidade de criar novos estímulos para se refazer do erro – por último. e em base do que escreverei mais adiante. a consciência permite-nos pensar na morte e decidir se a vemos como a última fatalidade ou então. se a encaramos como “libertação total”. como diz mario quintana – esta verdade sobre a consciência altera todos os nossos relógios biológicos. o que era importante já não é. o que era para amar fica para esquecer. o que era coragem transfigurou-se em covardia. e o que era para o infinito é agora para um dia destes – chegou o momento de aplicar as rotinas de sobrevivência. tentar equilibrar o que se desequilibrou – o corpo só subsiste no mais perfeito equilíbrio entre a consciência do conhecimento e a consciência moral – na sua intimidade. inviolável por tão profunda. faz-se o homem que trazemos ao mundo das sensações. em doses prescritas e controladas por um ego que se alimenta do seu próprio conhecimento. numa realidade partilhada. que se decompõe entre o que se sente e o que permitimos saber do que se está a sentir. o que nos dói. e o que permitimos saber onde nos está a doer. o que nos corrompeu a fé. e o que permitimos saber de como fomos corrompidos – assim. chegamos a um corpo mergulhado num infinito de soluções. tantas quantos pensamentos. e o cérebro sempre a trabalhar para lhe dar uma razão para a sua existência – a vida numa partida de poker onde quem tem a melhor mão nem sempre ganha o jogo – neste baralho da vida ninguém fica de fora. e aqui estou eu com as cartas que escolhi. num jogo partilhado com o meu pequeno mundo. a jogar sem bluff. numa única mão. sem rei. sem duque. sem nada que me faça acreditar que ainda devo continuar em busca da sorte – azar. digo eu. tiveste até muita sorte. dizem outros. indiferença. para outros tantos – todos certos. todos errados. e todos julgam guardar em si todo o conhecimento do universo. e juram que sabem exaltamento o que cada corpo sente. e outros juram que não sentem apenas porque não querem sentir. e depois ainda há aqueles que dizem que só se sente porque se quer sentir – tudo certo. tudo errado. e tudo articulado em consciências interpessoais incompletas – o que é para um homem não é para mais nenhum. cada homem é único no seu nome. como escreve mia couto: cada homem é uma raça – dentro do corpo. num emaranhado de contradições. existimos nós. em balanços intermináveis. em juízos castigadores. em punições exemplares. em remorsos eternos. em arrependimentos agoniantes. em aflição desesperante. e a inteligência emocional a reparar os excessos com ética para que a consciência moral sobreviva a mais um dia



2.    a morte

o corpo morre aos bocados. em agonia. num falecimento silencioso. num desmembramento selvagem. é a morte em doses que nos mata por estágios da alma: hoje perdemos um sorriso. amanhã um abraço. depois um amigo. e mais outro. e ainda outro. e depois perdemos o céu. as nuvens. o destino. as gaivotas param de voar. e tudo lentamente a caminhar para um estado terminal consentido. num silêncio tão profundo. que tranquilamente. mata de ruído a consciência afetiva – aceita-se a resignação. aceita-se o fim – abrimos a janela mas o vento já não é brisa. há uma acalmia necrófaga. os abutres fabricados transmitem uma dimensão reduzida ao tempo. a morte anda no ar – aprendemos a escapar ao medo e aos poucos. sem que o corpo tenha compreendido. resignamo-nos à inevitabilidade do desfecho: a morte como libertação do pensamento – afinal nem tudo foi assim tão mau – a escuridão engole o sol. a determinação. a coragem. a audácia e o tino deixa de resistir à nostalgia – o sol também falece quando o corpo desiste – chega um cansaço estátua. e ali ficamos parados. hirtos. gelados. como se a morte nos quisesse mostrar que estar morto é imobilidade. é silêncio. é uma espiral de uma abdicação assombrada pelo fim de um ciclo – e segundo a segundo lá vai mais um trago da vida em aflição – no meio de quatro paredes. o corpo aceita finalmente o seu fim numa humanidade serena – deixo de falar e o silêncio toma o lugar de companhia. e tudo é feito sem voz. tudo é feito em pensamento. às vezes num maquiavelismo revoltoso. em grito desesperante. raivoso. assassino. sem piedade. e tudo o que resta de mim pelo chão. a rastejar. a contar os cantos às paredes. enquanto os pulmões ardem em dióxido de carbono – respiro fundo – as súplicas são agora deslumbramentos que se atrapalham no cérebro em busca de uma porta de emergência – não há portas de emergência. foram-se fechando sem que o racional desse conta – nada pode sair de dentro para fora. ninguém pode saber que se esta a desistir – e morre uma perna. e fica cada vez mais sentado e a cadeira já não é um acessório. é urgência. uma necessidade para iludir gente sã – contraio-me. encutinho-me. acolho-me numa posição fetal. a cabeça nos joelhos e as mãos num emaranhado de coisas. coisas que o corpo estendeu ao mundo e eu sem saber como explicar a este pequeno mundo estas coisas – aperto-me. cerro os olhos. apunhalo-me e nem uma gota de sangue. estou seco. mumificado e sem forças para chamar por um nome que me acuda – matem-me por favor – e os que apareciam aparecem menos. e aos poucos acabam por falecer primeiro do que eu – finalmente só – sentar-me é tudo o que me resta. sentado sou enorme. sentado ninguém percebe que se está a cair. sentado não estou rente ao chão. sentado tenho as mãos ao nível do coração. será este o último a render-se à consciência – só as cobras rastejam pela imundice do chão – e o corpo vai-se perdendo  numa aceitação cristã – perde a vista porque não há nada para recordar. perde os braços porque não quer ter saudade dos abraços. perde a fala porque não quer que ninguém o ouça. perde os gestos para que ninguém saiba que ainda não morreu por inteiro. e o que era simpatia reconhecida é agora uma trabalheira para enganar a quem nos quer ver no passado – o coração ora arranca. ora começa a trazer o que não quero que seja verdade – sente-se medo. e pergunto-me se será deste modo que o corpo desaparece todo à mesma hora – o coração continua a bater. e o sangue bombeado a soletrar em agonia: tens que aguentar. a consciência ainda luta – e uma lágrima pendurada no canto do olho a brilhar com saudade de um dia de natal. ou de um dia de anos. ou de um abraço. ou de um amigo. ou da família. meu deus. a família – deus se realmente existires perdoa-me – e abafo as recordações. as molduras. incendeio todas as fotos coloridas. mato a cor. e o rasto também – resiste o preto e branco – morre mais um pouco de resistência. e depois de coragem. e a esperança já foi toda. e já só resta a vergonha. e a maior parte do mundo sem entender nada de falecimentos – ninguém morre de uma única vez – e o punhal em cima da mesa a rasgar em facadas limpas as cartas de recomendação. uma a uma. e a vida em sobra resumida a uma única miséria: já acreditei. já existi – enquanto o corpo não morre todo á mesma hora o passado não se cansa de teimar o presente – o que resta do futuro sobrevive num punhado de abutres