.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

09/05/2017

o corpo não morre todo à mesma hora





pintura - emanuele descanio




1.    o homem


um dia percebemos que o corpo já não é portador de uma consciência una.  integra e lúcida – divina ou não. esta consciência. ao longo do tempo foi obrigada a reordenar-se em fações temporais. numa existência quase sempre mutilada. imperfeita e feia – consciência é sinónimo de homem. da sua intimidade. de honra. de bondade. de vergonha. da sua inteligência. da perceção do que fez. do que ainda pode fazer. e da capacidade de criar novos estímulos para se refazer do erro – por último. e em base do que escreverei mais adiante. a consciência permite-nos pensar na morte e decidir se a vemos como a última fatalidade ou então. se a encaramos como “libertação total”. como diz mario quintana – esta verdade sobre a consciência altera todos os nossos relógios biológicos. o que era importante já não é. o que era para amar fica para esquecer. o que era coragem transfigurou-se em covardia. e o que era para o infinito é agora para um dia destes – chegou o momento de aplicar as rotinas de sobrevivência. tentar equilibrar o que se desequilibrou – o corpo só subsiste no mais perfeito equilíbrio entre a consciência do conhecimento e a consciência moral – na sua intimidade. inviolável por tão profunda. faz-se o homem que trazemos ao mundo das sensações. em doses prescritas e controladas por um ego que se alimenta do seu próprio conhecimento. numa realidade partilhada. que se decompõe entre o que se sente e o que permitimos saber do que se está a sentir. o que nos dói. e o que permitimos saber onde nos está a doer. o que nos corrompeu a fé. e o que permitimos saber de como fomos corrompidos – assim. chegamos a um corpo mergulhado num infinito de soluções. tantas quantos pensamentos. e o cérebro sempre a trabalhar para lhe dar uma razão para a sua existência – a vida numa partida de poker onde quem tem a melhor mão nem sempre ganha o jogo – neste baralho da vida ninguém fica de fora. e aqui estou eu com as cartas que escolhi. num jogo partilhado com o meu pequeno mundo. a jogar sem bluff. numa única mão. sem rei. sem duque. sem nada que me faça acreditar que ainda devo continuar em busca da sorte – azar. digo eu. tiveste até muita sorte. dizem outros. indiferença. para outros tantos – todos certos. todos errados. e todos julgam guardar em si todo o conhecimento do universo. e juram que sabem exaltamento o que cada corpo sente. e outros juram que não sentem apenas porque não querem sentir. e depois ainda há aqueles que dizem que só se sente porque se quer sentir – tudo certo. tudo errado. e tudo articulado em consciências interpessoais incompletas – o que é para um homem não é para mais nenhum. cada homem é único no seu nome. como escreve mia couto: cada homem é uma raça – dentro do corpo. num emaranhado de contradições. existimos nós. em balanços intermináveis. em juízos castigadores. em punições exemplares. em remorsos eternos. em arrependimentos agoniantes. em aflição desesperante. e a inteligência emocional a reparar os excessos com ética para que a consciência moral sobreviva a mais um dia



2.    a morte

o corpo morre aos bocados. em agonia. num falecimento silencioso. num desmembramento selvagem. é a morte em doses que nos mata por estágios da alma: hoje perdemos um sorriso. amanhã um abraço. depois um amigo. e mais outro. e ainda outro. e depois perdemos o céu. as nuvens. o destino. as gaivotas param de voar. e tudo lentamente a caminhar para um estado terminal consentido. num silêncio tão profundo. que tranquilamente. mata de ruído a consciência afetiva – aceita-se a resignação. aceita-se o fim – abrimos a janela mas o vento já não é brisa. há uma acalmia necrófaga. os abutres fabricados transmitem uma dimensão reduzida ao tempo. a morte anda no ar – aprendemos a escapar ao medo e aos poucos. sem que o corpo tenha compreendido. resignamo-nos à inevitabilidade do desfecho: a morte como libertação do pensamento – afinal nem tudo foi assim tão mau – a escuridão engole o sol. a determinação. a coragem. a audácia e o tino deixa de resistir à nostalgia – o sol também falece quando o corpo desiste – chega um cansaço estátua. e ali ficamos parados. hirtos. gelados. como se a morte nos quisesse mostrar que estar morto é imobilidade. é silêncio. é uma espiral de uma abdicação assombrada pelo fim de um ciclo – e segundo a segundo lá vai mais um trago da vida em aflição – no meio de quatro paredes. o corpo aceita finalmente o seu fim numa humanidade serena – deixo de falar e o silêncio toma o lugar de companhia. e tudo é feito sem voz. tudo é feito em pensamento. às vezes num maquiavelismo revoltoso. em grito desesperante. raivoso. assassino. sem piedade. e tudo o que resta de mim pelo chão. a rastejar. a contar os cantos às paredes. enquanto os pulmões ardem em dióxido de carbono – respiro fundo – as súplicas são agora deslumbramentos que se atrapalham no cérebro em busca de uma porta de emergência – não há portas de emergência. foram-se fechando sem que o racional desse conta – nada pode sair de dentro para fora. ninguém pode saber que se esta a desistir – e morre uma perna. e fica cada vez mais sentado e a cadeira já não é um acessório. é urgência. uma necessidade para iludir gente sã – contraio-me. encutinho-me. acolho-me numa posição fetal. a cabeça nos joelhos e as mãos num emaranhado de coisas. coisas que o corpo estendeu ao mundo e eu sem saber como explicar a este pequeno mundo estas coisas – aperto-me. cerro os olhos. apunhalo-me e nem uma gota de sangue. estou seco. mumificado e sem forças para chamar por um nome que me acuda – matem-me por favor – e os que apareciam aparecem menos. e aos poucos acabam por falecer primeiro do que eu – finalmente só – sentar-me é tudo o que me resta. sentado sou enorme. sentado ninguém percebe que se está a cair. sentado não estou rente ao chão. sentado tenho as mãos ao nível do coração. será este o último a render-se à consciência – só as cobras rastejam pela imundice do chão – e o corpo vai-se perdendo  numa aceitação cristã – perde a vista porque não há nada para recordar. perde os braços porque não quer ter saudade dos abraços. perde a fala porque não quer que ninguém o ouça. perde os gestos para que ninguém saiba que ainda não morreu por inteiro. e o que era simpatia reconhecida é agora uma trabalheira para enganar a quem nos quer ver no passado – o coração ora arranca. ora começa a trazer o que não quero que seja verdade – sente-se medo. e pergunto-me se será deste modo que o corpo desaparece todo à mesma hora – o coração continua a bater. e o sangue bombeado a soletrar em agonia: tens que aguentar. a consciência ainda luta – e uma lágrima pendurada no canto do olho a brilhar com saudade de um dia de natal. ou de um dia de anos. ou de um abraço. ou de um amigo. ou da família. meu deus. a família – deus se realmente existires perdoa-me – e abafo as recordações. as molduras. incendeio todas as fotos coloridas. mato a cor. e o rasto também – resiste o preto e branco – morre mais um pouco de resistência. e depois de coragem. e a esperança já foi toda. e já só resta a vergonha. e a maior parte do mundo sem entender nada de falecimentos – ninguém morre de uma única vez – e o punhal em cima da mesa a rasgar em facadas limpas as cartas de recomendação. uma a uma. e a vida em sobra resumida a uma única miséria: já acreditei. já existi – enquanto o corpo não morre todo á mesma hora o passado não se cansa de teimar o presente – o que resta do futuro sobrevive num punhado de abutres






26/04/2017

revolução da magnólia




foto - Google






guardei a vontade de escrever junto ao cravo e procurei em mim uma outra revolução que me fizesse diferente - como não tenho regaço. nem sou santo. nem me dou com santos. das mãos não me brotou nada que me fizesse sair para a rua de magnólia ao peito - uma revolução de magnólia dá homens para um futuro brilhante - vesti o pijama - na cadeira as calças vincadas. camisa branca engomada. casaco preto. meia preta e umas cuecas dobradas em quatro - em frente um cruxifixo lembra-me que não há revoluções sem fé - rezo - peço perdão - espirro por conta de um resfriado que ainda não apanhei - sento-me de costas para os símbolos da imortalidade e peço uma nova vida noutra vida - desta estou esgotado - não quero levar nada daqui a não ser o meu computador. só as memórias más para não voltar a cair nos mesmos erros - tudo o resto pode ser diferente... tudo não. quero a mesma companheira




24/04/2017

noite de lua cheia






         foto - google



a luz apaga-se

na metamorfose
uivam os lobisomens
nas rimas a baba
nas garras o poema

parido e sem pele: o poeta







19/04/2017

pela noite dentro







pintura - r. g. nascimento





o que vos posso dizer de mim esta madrugada – a folha cansada de estar em branco – arranquei com as teclas – interrogo-me se haverá algum momento certo para desistir de um sonho – passei a noite toda a batalhar nesta equação e não lhe encontro resultado – então comecei a escrever e por cada palavra escrita um livro trazido à memória – morgadinha dos canaviais. uma família inglesa. as pupilas do senhor reitor. foram os meus primeiros clássicos a regressar ao cimo da memória – tinha doze anos – apaixonei-me por júlio dinis e li os seus livros todos – eram histórias fantásticas. incrivelmente bem escritas – cresci amarrado a estas histórias. não há um dia da minha vida que não tenha um pedacinho deste autor – ensinaram-me tanta coisa. nos seus livros. mais do que a nobreza das palavras havia a nobreza das ações – não havia leitura que não me trouxesse lágrimas aos olhos. e os lenços encharcados de um sentimento que já não tenho. esperança – o triunfo do bem sobre o mal. do certo sobre o errado. do dia sobre as sombras da noite. da lealdade sobre falsidade. da nobreza da família sobre a vergonha. da honra dos homens sobre a procura das trevas – meu deus. como foi possível ser tão feliz com aquela leitura – era criança. uma criança crescida. nunca tive tempo para descansar. os sonhos ocupavam-me o corpo todo. olhava para o futuro com a certeza de que não iria deixar um único sonho para trás – o tempo passou e cá estou eu perdido em mais uma noite empacotando sonhos que fui deixando apodrecer – escrevo. escrevo nestas noites que são mais dos meus leitores do que minhas. eu já não tenho nada a não ser memórias – muito do que sou devo ao júlio dinis. só me mentiu numa coisinha. nem sempre o que está certo triunfa sobre o errado – que se lixe. gosta na mesma dele 


17/04/2017

dezassete de abril. primeiro minuto de uma segunda feira de páscoa









meia noite. primeiro minuto de uma segunda feira de páscoa e primeiro dia da ressurreição de cristo – dezassete de abril. dia de aniversário –– o domingo abriu com foguetes. meia-noite. e os clarões no céu alumiam a entrada para o reino de deus – na terra o povo trata do cabrito para festejar condignamente o encontro de cristo com seu pai –  atascado em especiarias. e sem nenhuma hipótese de ressurreição o carneiro entrega-se ao sacrifício. afinal há festa rija entre os humanos – agora só falta mesmo a visita do senhor e as casas ficam limpas de pecado para mais um ano – em cima da banca da cozinha o jornal abre-se à leitura. silvio berlusconi não está com papas na língua: por favor não matem os carneirinhos. pede o cavalheiro acariciando um exemplar nos seus braços – por baixo uma outra notícia contra ataca: produtores de carneirada insurgem-se contra o ex-primeiro ministro italiano: -- ganha juízo rapaz. quando andavas com miúdas menores não tinhas olhos para carneiros – mas o berlusconi não quer saber e ataca: os carneiros tem sentimentos – não sei se também se referia a mim. eu também sou carneiro. tenho sentimentos. nasci em abril. 17 de abril. o ano não interessa. mas acredito que esse ano não deu boa casta. digo que não presta porque eu sou do tipo de indivíduo que encaixa perfeitamente na carneirada meia louca. aquela que não desiste de acreditar em histórias de merda: contínuo à espera de um sinal de que cristo realmente chegou ao céu – sou aquele género de carneirada com poucos miolos e com excesso de fé – embrulhado numa saca de plástico reciclável a rosca do pão ló feita com ovos caseiros. não pode ficar duro. o pão de ló é como a vida. se não for fofinho não presta –  eu estou duro. por isso sei que um pão de ló duro não presta – estou tão duro que já não me consigo ajoelhar para nada –  mas este ano é diferente. cristo ressuscitou mesmo. nem falo pelo que me resta de fé. falo pela quantidade de foguetes que estalaram no céu – fico contente quando há festa no céu. o meu pai está por lá. onde há festa ele está presente – deve andar às voltas de deus a dizer-lhe das boas – ele gostava muito de mim. era um bom pai. não creio que se cale com algumas injustiças – um dia vamo-nos sentar sem tempo a falar de como a vida pode ser bonita se tivermos um coração bom – eu tento ter. mas a vida ás vezes complica-me as artérias e fico com a ideia de que vai rebentar. sistema nervoso – este ano vai ser mesmo verdade. cristo levantou-se do marasmo da morte e caminhou para o céu – o que me faz impressão é caminhar descalço. a minha mãe está sempre a dizer-me para não andar descalço que fico doente – mas esta malta importante não lhe acontece nada – quem tem amigos não morre na cadeia – não deve ter sido fácil levantar-se depois de ter sido dado morto para o mundo – falo por mim. às vezes estou morto e não sei como me levantar. depois lá me chega um amigo e diz: vamos tomar um café – quando é para tomar café ninguém me consegue segurar. falo e falo sem parar. falo com as mãos. com o corpo.  e as expressões faciais aliviam o coração do mau olhado – sempre gostei dos meus amigos. creio que é por ser carneiro de signo – às vezes gostava de ser de outro signo qualquer. um que me deixasse ser como realmente sou de verdade – o carneiro não mente porque teme a mentira – ser carneiro é ser sempre mais. é estar onde nunca queremos estar. é viver o futuro duas vezes. é ser escravo da palavra até morrer. é ser fiel a quem amamos. é chorar sem que ninguém consiga entender uma única lágrima – a dor dos carneiros é feita por nós e para nós – mas que se lixe a carneirada – uma multidão de fãs aguarda em ansiedade que se cumpra realmente a profecia – eu também – estou fora de mim à mais de cinquenta páscoas esperando que cristo chegue ao reino de deus – olho para o céu. oriento-me pelas estrelas. da maior para a mais pequena e tento descortinar uma ligação cientifica: juntando a estrela A com a C e acrescentado a que está ao lado da cassiopeia. a 358zkx. retira-se a lua que é muito romântica. acrescento-lhe vénus. uma pitada de amor dá sempre jeito. e para terminar boto-lhe marte em guerra e o resultado é…zero – todos os anos é zero o resultado da páscoa com cristo redentor – segunda-feira. dezassete de abril. segunda-feira de páscoa e a multidão regressa á normalidade – arruma-se os temperos. as cadeiras voltam recuperar o centro da mesa e o silêncio volta à tristeza habitual – sento-me em frente aos restos do pão de ló e percebo que o açúcar um dia vai dar cabo de mim – tenho medo da balança. tenho medo da idade. tenho medo de me perder do que me faz ainda inteiro – meia noite. um beijo da minha companheira de sempre. de seguida um abraço e umas quantas lágrimas a pedir perdão. encostamo-nos um ao outro e ali ficamos presos a um olhar que nos faz amar e compreender. envergonhados. afinal sabemos tudo um do outro. é ali que eu ressuscito diariamente para a vida – depois um filho mostra-me que valeu a pena ter nascido: -- parabéns meu pai. e mais outro ao telefone. e eu a sofrer uma dor de gratidão que magoa mais que uma má notícia. um amigo do porto a chegar primeiro que muitos outros. uma amiga que não se cansa de continuar a fazer-me bem. sempre a escrever o que não sou. e mais outro e por fim aqui fiquei neste silêncio das teclas a contar os anos da forma que me lembro – há tantos anos que nem sei que existiram. que maldade. e os amigos. tantos já sem nome. crueldade da memória. e os que partiram e que nunca ressuscitaram. e outros que por não terem ainda morrido gostava de os ver ressuscitados em mim – não podemos envelhecer encostados a nenhuma faca – cristo não ressuscitou mas eu vou continuar a ressuscitar todos os dias – estou triste. faço anos – ninguém merece fazer anos quando não está bem


13/04/2017

se um dia todas as noites




nick keller





se um dia todas as noites se fizessem dia talvez eu me cansasse de escrever assim como escrevo. com esta letra escura. negra. feita de desassossego. pendurada numa luz escorrida entre palavras moribundas - aqui estou eu numa noite que não é dia. num dia que nunca vai deixar de ser noite e tudo a balançar entre o divino e o pecado - já não sei rezar à noite. talvez tenha perdido a oração. a vida. todos os momentos são agora precipício - esta noite sou o que sempre fui. sou saudade que carrego de uma rua que me grita para voltar - um dia voltarei ao mundo carregado de dias sem noites. com luz que nunca apaga. com lua que nunca dorme. com cama que nunca aperta – um dia serei louco. farei de cada letra um farol para náufragos do papel perdidos em noites de negrume - um dia serei eu mesmo luz e as noites nunca mais serão longe. o amor será perto e o corpo um pequeno mundo - noite escura. negra de carvão. negra de almas pecadoras. negra como se o negro não fosse uma cor de deus e eu um infiel maldito – este negro da noite mata-me de solidão. sei que um dia perderei o que me resta desta pequena luz – se um dia todas as noites se fizessem dia eu não aguentaria


deixo-te um beijo






pintura - emilia castellan





olho para ti amor
e sinto o nunca:
nunca poderia viver sem ti

talvez o era uma vez:
era uma vez uma princesa
com uns cabelos dourados

e na menina dos teus olhos
leio um desejo:
a loucura de me amar

se fosse poeta
talvez te escrevesse:
uma canção

mas não sou
sou apenas o teu amor:
louco ainda por te tocar

crescemos tanto os dois
eu envelheci
mas tu…
tu…ficaste mais bonita
eu talvez mais homem
tu…mais brilhante
eu mais cego com o teu brilho

crescemos tanto amor
e tu continuas tão bonita
sobravas-me sempre nos abraços
um dia vou conseguir
trazer-te toda para dentro de mim
e dizer-te baixinho
que te amo mais hoje do que ontem

deixo-te um beijo


08/04/2017

coisa





pintura - antónio parreiras



e aqui me deixou deus existir. nestas sombras que nunca sei se são minhas - e por aqui passou ele antes de mim para me servir este pedaço de terra que é apenas uma coisa - sou uma coisa numa coisa inventada por ele - sou coisa morta num chão de outono - sou uma coisa. demente porque já me dou pelo nome: sou coisa. uma coisa feita de sombras num amor profundo. tão profundo que do funda desta coisa não há uma única estrela - fizeram-me assim - este deus que me deixou aqui partiu sem uma palavra - e eu perdido nesta linguagem indecifrável escrevo esta loucura de ser coisa - as coisas não sonham



31/03/2017

tortura





imagem: google



e aqui vai um sorriso. não pensem de que é de felicidade. não. não é. e também não é por nenhuma aproximação luxuriosa ao meu espaço facebookiano de um daqueles amigos íntimos que não conheço - muito menos de alguém que me acabou de ler uma daquelas prosas aborrecidas. então perguntem em voz alta: estás feliz porque? a resposta é simples, vou almoçar e estou cheio de determinação para dar continuidade aos dois quilos perdidos em duas semanas - vou então. e sempre num ato de contrição. emborcar comedidamente um prato de sopa sem batata. um iogurte de aroma da agros – acabei de enganar a fome com a arte de um grande aldravão - de seguida remato com duas bolachas de água e sal, um queijinho fresco e muita água para fazer brilhar os rins - nos confins da casa, escondida a trás da porta da casa de banho a terrível balança decimal. sem escrúpulos. afia a faca com vontade de me cortar ás postas: como come e depois anda dizer que estás inchado da retenção de líquidos - não quero desculpas. se não emagreces... então estás a comer mais do que desgastas diariamente - bota atenção às calorias rapaz senão lá se vai a seletividade - é que eu não alinho na naquela máxima de que gordura é formosura


24/03/2017

o filho da puta do meu facebook mata-me de tristeza ao fim de semana







pintura - susana soto poblette





lamento. acreditem que lamento mesmo. bem que gostava de usar este face para outro fim que não fosse este de vos entregar este nada em que me converti – tal como os extremistas religiosos também eu adotei outro nome para o facebook – bem sei que hoje é véspera de fim de semana. e também sei que amanhã será outro dia diferente de hoje. estarei então a olhar para coisas humanas em estado eminente de ejaculação multiplica de amigos – direi: estou morto. morto com a alegria dos outros. e eu enterrado em tristeza corro o facebook em desespero e sinto a vida a partir. e a loucura envolta em água turva. tão turva que os peixes não nadam. caminham de pé por dentro de mim. e as guelras feitas de naturezas mortas. maças podres. podres de sentimento. com sorrisos que cantam o cântico da praxe: hino à alegria de beethoven – e eu viajo para a morte arrastado por esta corrente de gente que não morre de solidão – só eu vivo esta ironia. numa mão uma rosa. na outra. um movimento louco de me atirar para o fim do mundo à procura de gente como eu – não encontro paz. vazio. tudo vazio. como se o espaço facebookiano fosse apenas eu e meu cão que não tem perfil – e olhos a correr para uma morte que não escolhi.  queria tanto ter amigos como eu – estou cada vez mais só. só nesta forma de estar. e a prosa que escrevo é carne da minha carne contaminada de lepra – não sei rir neste meu face. não sei colocar frases de incentivo. não sei mandar beijinhos. não sei destapar a boca do amor para tantos amigos que não conheço. o meu rigor é uma muralha que resiste – arrasto-me para esta borda do corpo e juro que se um dia me suicidar será para dentro do meu corpo. morrerei eu e os meus peixes e enterrarei os meus resto mortais no vale das utopias –  estou morto por um punhado de likes mas ainda resisto ao lado escuro do facebook – resisto eu e o meu cão. neste mundo de sombras mortas tentamo-nos entender: dou-lhe um biscoito e recebo em troca um like de sorrisos de verdade – e então canto. canto poesia que não é minha e a morte premeditada ligada a um fio terra enrolado ao pescoço –  o enforcado da carta sou eu – não sou nada neste meu facebook. não sei dar likes com o dedo para cima porque estou de cabeça para baixo – não sou feliz. não – sou verdadeiro na minha solidão




22/03/2017

lobo antunes em braga – livraria centésima página II






foto google



dezembro de 2012 – chove copiosamente na minha cidade. braga. mais propriamente na sua sala de visitas. avenida central – estou agora na livraria centésima página e tenho a honra de vos anunciar de que o antónio lobo antunes é muito mais bonito ao vivo do que nas contracapas dos seus livros –

entrou na livraria assim como um cowboy entra no saloon. passo certo. acelerado. ritmado. sem desviar os olhos do infindável destino: uma cadeira e uma mesa rasca decorada com uma garrafa de água – visita a minha cidade para uma sessão de autógrafos a propósito do seu novo romance: “não é meia-noite quem quer” – o silêncio foi-se arrumando pela sala conforme as cadeiras se ocupavam – os seus admiradores miravam-no de soslaio. como se tivessem pavor de olhar de frente o seu ídolo. talvez com receio de que a todo o momento ele perguntasse: -- está a olhar para onde amigo? toca a andar. desocupe-me o espaço – sempre foi de conhecimento público o seu mau feitio. coisa de nascença. sorrisos só mesmo para o que lhe interessava. já nessa altura a sua mãe reclamava: -- só tens interesse pelas raparigas e pela escrita. ao qual lhe respondia: -- há mais alguma coisa? por isso não é de estranhar o seu afastamento seletivo do resto do mundo. nunca foi muito dado a intimidades com o seus leitores. para não falar da fama de aterrorizar os entrevistadores. como o próprio diz: “não [me] é fácil viver comigo” – sentado. inquieto. ajeitou o corpo. fletiu as pernas. atirou os olhos para o nada e ausentou-se do mundo que o rodeava. assim como quem diz: usem o meu corpo mas não abusem da minha paciência – estou convencido de que para lobo antunes a sala naquele momento encontrava-se vazia. presente só mesmo ele e os livros interrompidos nas prateleiras – e ali ficou sentado. a remoer o ossos. de um lado para outro. como se tivesse bichos carpinteiros. enquanto as mãos trabalhadas descansavam em cima da mesa. sabiam que a todo o momento eram obrigadas a dar início a mais uma palestra – o sr. antónio fala muito com as mãos – o momento era particular para mim. pela primeira vez tinha o autor em carne e osso ao pé de mim. nos livros já o tinha tido por perto muitas vezes. agora é diferente. agora posso senti-lo num único aroma – o momento não era fácil para mim. sentia-me nervoso. agitado. impaciente por ver o tempo passar sem que se desse início à cerimónia – não havia alternativa. tinha que aguentar firme. afinal este é um dia único. um dia  especial para os seus admiradores. até os livros interrompidos nas prateleiras me pareciam engalanados de atenções. bonitos. com as capas a reluzir. tudo edições raras e de autores consagrados. em destaque a nossa maior obra poética. os lusíadas. ao seu lado a sophia andresen. como era bonita esta mulher. só a sua escrita lhe ultrapassa os encantos. e logo de seguida o meu adorado júlio dinis. quantas vezes chorei nos seus livros. marcou-me a vida para sempre. ao seu lado o eça. sempre empoleirado no crime do padre amaro. que loucura de história. o júlio não podia ter melhor companhia. seguem-se os poemas do eugénio. na sua sensibilidade. como se pode dizer tanto com tão poucas palavras. e mais o camilo com aquele bigode inconfundível. e o saramago empoleirado no nobel. meu deus que loucura. que honra. olha! mais um que um dia vai dar que falar. o josé luís peixoto. gosto deste homem. já brilha. e tantos. tantos outros. aos magotes – dos estrangeiros não falo. afinal estamos na pátria de camões e não é todos os dias que uma pequena livraria recebe em sua casa um galardoado com o nobel latino – o cenário era nobre. gracioso. não podia ser melhor. o maior escritor português vivo rodeado de livros por todos os lados – escondi-me na segunda fila tentando passar a ideia de que estava por ali apenas pelo mau tempo. chovia. passava à porta e pensei: ai está um local agradável para me abrigar da intempérie. “voilá” – nunca gostei de estar na primeira fila – certo dia contaram-me uma história curiosa sobre a entrada em cena dos actores: dizem que quando sobem ao palco tentam perceber que tipo de público está na sua presença. dão dois passos em frente. dobram-se em vénia. e colocam os olhos na primeira fila. conforme levantam o corpo. em movimento lento. olham para as últimas três ou quatro filas. o que sobra é povo – aí está o dia perfeito para confirmar a teoria. espero bem que não me tenham aldrabado e que o sr. antónio me considere parte desse povo. sentei-me na segunda fila – abriu-se a sessão com a intervenção do responsável pela editora com amabilidades perfeitamente dispensáveis – mas o protocolo é para cumprir. felizmente logo perceberam que o melhor era entregar a palavra ao convidado – começou a roçar o corpo na cadeira de um lado para o outro enquanto as palavras começavam a sair a custo. um gaguejo tranquilo para ali e logo outro para acolá. depois. um silêncio que parecia uma eternidade. e tudo num vagar de assustar. e lá chegava outra palavra. outra ideia. e os fãs a baloiçar na entrega. e mais uma palavra. e mais um silêncio e as dúvidas a crescer na plateia: será que o homem quer mesmo falar para estes pacóvios? e o emudecimento a ganhar distancia. as palavras cada vez mais espaçadas – o silêncio crescia atabalhoadamente sendo apenas abafado pelo barulho da chuva no exterior. chove a cântaros na minha cidade – só não chovem palavras – por momentos fiquei convencido de que o autor iria sair como entrou: a galope e aos tiros para o ar. os cowboys são assim – não quis saber. e disse para mim mesmo. se não falar com a boca fico-lhe com os gestos. com os olhos. com os tiques. com a cor das mãos. da pele. afinal não é todos os dias que tenho o antónio lobo antunes na minha cidade – mas aos poucos as palavras começaram a cair-lhe da boca. como se descobrissem que estava na hora de tomar a plateia – e eu ali. estarrecido de medo. babado. doido para não perder uma única silaba. com a cabeça dobrada para a frente. todos queriam ser os primeiros a agarrar as palavras. e os olhos esbugalhados de tanta excitação e por dentro uma sensação de orgasmo. quente. com o coração a bater um tic tac explosivo. um contentamento estranho. louco. maravilhado. e a pergunta. porque não fiquei na primeira fila – e ali estava eu com o meu corpo estátua. completamente paralisado. perdido entre a imortalidade dos deuses e a gratidão eterna por existir aquele momento – só os olhos lhe acompanham as mãos. tudo o resto é paralisia. não se pode irritar os deuses – enquanto a chuva amainava as palavras caíam-lhe da boca em enxurrada. afinal havia uma razão para o mau tempo na minha cidade – finalmente tínhamos lobo antunes. o corpo atirou-se definitivamente para cima da mesa. estava agora ainda mais perto de mim e eu sem medo de o olhar naqueles olhos translúcidos. livres. bonitos. amenos. feitos de um silêncio-solidão-doce – só quem fala conhece o verdadeiro valor da palavra – os lábios sem descanso. falavam agora desconcertadamente. contorciam-se de prazer. numa cadência harmoniosa. com paixão. com gosto. com ternura. com entrega. agradecidos ao momento – a vida é feita de momentos. alguns ficam guardados para sempre. outros. nunca se fazem palavra – e não se cala. e a voz em inflexões subtis alerta: deitem atenção que esta parte é importante. e os afetos finalmente ali. ali à minha frente. a tocarem-me por dentro. e pela primeira vez senti um sofrimento que dói mas não é dor. é um desconforto feliz. uma vontade de chorar por não lhe poder dizer: eu já senti isso. eu já passei por isso. eu já fui assim. eu já quis escrever isso. afinal também é um de nós – e eu pensei que era extraterrestre – finalmente senti um silêncio bom. pacato. sereno. a plateia em ar de graça entregou-se ao autor sem medo – havia uma espécie de bonança. a tempestade perdeu toda a sua força e os sorrisos do autor estavam sem dono. eu guardei um só para mim – é enorme a porra deste homem e eu ali de braços cruzados. a olhar para tudo que é dele. com um ar sério-doce. sério-aceitação. sério-bondade. sério-fraternal. amigo. camarada. sério-triste também.  até o casaco estava triste. pingado. amarrotado. talvez da vida. não sei. que mais poderia fazer pingar um casaco de um homem tão especial. não creio que não tivesse outro casaco. acredito é que todos os casacos quando lhe caem nos ombros ficam pingados. possivelmente pelo peso das palavras que transporta com ele  

[tenho o sentimento de que neste texto ainda falta mais um prego. enorme. capaz de segurar o prosista]



brevemente a parte III


deambulações noturnas XV






foto - sampaio rego



e pronto. passei a noite toda a remexer nas memórias - mas o mais cruel é que nada do que encontrei foi possível alterar - não percebo para que guardo tanta tralha - vou ter que me limpar. custe o que custar - mas confesso que não sei por onde