.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

29/11/2017

eu e:






pintura google





3.    eu e as fotos à direita

sento-me em mim. a hora é do corvo profunda.  desmantelo os olhos do presente e começo a autenticar os quadros numa parede à minha direita – as fotos confirmam que existo – afinal não sou um produto de uma qualquer máquina do tempo – sei que existo aqui e neste momento porque estamos todos nas fotos – os que amo não se cansam de me olhar – mas para que não haja dúvidas com as fotos o melhor será citar decartes: “penso, logo existo” – e ali estou eu em mais uma velharia fotográfica: cara sisuda. cabelo escuro-jovem. calça bege. blusão de bombazine castanho. mãos nos bolsos e uns óculos enormes contra o sol do mundo – os olhos são a minha vulnerabilidade – os índios americanos não gostavam de tirar fotos porque acreditavam que estas lhes roubam a alma – não sou índio mas acredito nessa crença – não sei se foram as fotos mas alguém me roubou a alma. alguém me deixou vazio por dentro – apostava o pescoço de que perdi a alma pelos olhos. não há dia nenhum que não me doíam – enquanto tive alma nunca deixei que o futuro me assustasse – não tinha medo de nada. o corpo estava sempre aprumado. perpendicular à ambição. num ar sério. assim como se fosse um mistério. os olhos encovados. escuros. as mãos escondidas para ninguém saber o que pensavam e as pernas em posição de correr – sempre com um grande aprumo à avidez. não era vaidade. era segurança nas mãos – olho. olho com o que me resta da vontade de olhar. olho com saudade. olho com nostalgia. olho com raiva. olho com uma vontade de matar o futuro estatelado numa parede pastel – as primeiras fotos são de um cinzento ingénuo. aberto à coloração. imaginativo. num confiante forte-opaco. a contrastar com a moldura faia-clara – ao lado. numa moldura mais escura. sobressai o cinzento dúvida. com a tonalidade a puxar para a solidão. para o retiro. mergulhado em pessimismo e numa vontade única de fazer apenas o que estava certo – há cinzentos que nos enganam para a vida toda – ainda não tinha percebido que para sobreviver é necessário viver com o erro. ultrapassá-lo. moldá-lo para a invisibilidade. ajustá-lo às necessidades das maiorias. programá-lo para o sorriso enganoso e fazer de conta de que aceitamos aquela velha máxima: errar é humano – nunca foi bom a fazer de conta – o erro para mim nunca foi humano. com o erro uma parte da minha confiança morria de amargura – nunca fui capaz de recuperar destes erros – nunca aceitei o erro e isso trouxe-me um erro ainda maior: a busca de uma perfeição imaginária – nas últimas fotos encontrei-me num cinza triste. corroído. pouco afetivo. zangado e onde o prumo dá indícios de que está preso por um fio – ninguém aguenta tanto cinza-triste numa parede bege-pastel – *“a felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação” 


*imannuel kant


21/11/2017

eu e:




pintura - maluda





      1.    a escrevaninha;
2.    a janela da frente;
3.    as fotos à direita;
4.    a estante dos livros à esquerda;
5.    o tiaguinho;
6.    o zé do gerês;
7.     a oferenda aos meus amigos;
8.    as mulheres do meu cunhado;
9.    a minha circunferência;
10.  a vida.




1.    eu e a escrevaninha
sei que estou a desaparecer – um dia destes serei invisível. ausente. sem voz e sem uma única palavra que identifique o meu corpo. estarei retirado dos afetos. dos sorrisos. dos sonhos e das desilusões. serei sombra. memória e silêncio misericordioso – mas neste momento de assentimento. enquanto continuo a completar a existência da vida. observo em conciliação o que me resta da morada criada: desarrumo o que sempre esteve desarrumado. procuro o que nunca encontrei e perco-me a ler papelinhos quadrados sem nenhum tipo de relevância temporal – em tempo real subsiste o espectro dos papelinhos quadrados gizados a pó no tampo granítico da escrevaninha – o testemunho de que pelo menos num dia tudo tem a sua importância por mais insignificante que seja o seu conteúdo – abandono e esquecimento é o que me sobra desta desorganização validada pelo meu DNA – é daqui que vos escrevo num computador inimigo do cheiro a papel – é daqui que com as palavras esqueço o mundo das luzes – é daqui que me entrego em vocábulos de alforria – é daqui que me absolvo de pecados que ninguém compreende – é daqui que como anão me faço gigante quando opto por nunca usar maiúsculas – é daqui que emancipo as palavras preparando-as para o mundo da crítica – é daqui que me estarreço de medo pela vossa leitura – é daqui que me entrego num abraço metafórico maior do que “as dez mil coisas*” – eu não sei se sou mais do que dez mil coisas. sei que sou uma coisa que se magoa e chora e tem cada vez mais medo de um dia não saber o que fazer com o que escreve

*metáfora chinesa que chamam ao mundo “as dez mil coisas” – in: este ofício de poeta - jorge luís borges


2.    eu e a janela em frente

em frente. uma janela com um punhado de quase nada permite-me agarrar uma nesga de um mundo onde não existo por opção – não nos podemos impingir ao mundo. a multidiversidade negativa também contribui para a evolução da espécie – entre a persiana e a meditação um pedaço de céu deserto de tudo que me tentaram ensinar à força – o céu já não é destino final para quem sempre tentou fazer o mais certo – o céu é agora apenas o teto do que penso – mas está tudo bem. não há ressentimento. estão todos indultados. o culpado sou eu. nunca deveria ter tido a ousadia de querer questionar o que o mundo certifica de uma forma instintiva – a janela é agora a minha única oferta para os que ainda se sentem tentados em me reencontrar – quando não estou na janela estou a escrever para vocês – vocês são a minha única esperança para o que me resta do mundo faça sentido – todos os meus sonhos são maiores do que eu. carrego-os da mesma forma como os carregou fernando pessoa – também *“tenho em mim todos os sonhos do mundo” – saibam eles. todos os dias. que me faço existir mesmo que em frente à minha janela não exista nenhuma tabacaria – em boa verdade vos digo: a minha janela dá para nada. e não sei como vos descrever esse nada pois para isso teria que saber o que vale a palavra de um homem a uma janela que não dá para nada – não me tenho em boa conta. estou desiludido. triste e sem vontade de sonhar mesmo sabendo que todos os sonhos são feitos da vida que sonhei – nenhum homem sonha o que desconhece – escrevo. escrevo como se a janela estivesse prenha de uma tabacaria – não está. tudo que tenho entre mim e a janela é o que os olhos veem e o que veem é nada – sem tabacaria morre também o sonho – a morte será para sempre um sonho inacabado – perdoem-me. sei que perdi todos os sonhos – nenhum homem pode viver sem sonhos – estou morto dentro de um sonho que não vejo morrer – não quero saber o que há para lá dos sonhos porque tudo que sonho está a morrer de tristeza. está doente de um mal que não é mal nenhum é a vida a acontecer no seu melhor e pior – da minha janela não vejo nenhuma tabacaria. nem gaivotas. nem gente como eu. nem sonhos a chegar ou a partir. da minha janela vejo-me a olhar o que não há porque dentro de mim não há nada para além do sonho de um dia escrever qualquer coisa que não seja nada – a todos os outros sonhos peço que me esqueçam. tornaram-se em nada e não há nada que possa engrandecer um corpo que desistiu de sonhar

*fernando pessoa



07/11/2017

aflição com o verbo perder






bem howe





não olheis vós para o que faço mas sim para o que sarrabisco – o que enxergais em mim é uma ilusão para me despegar do que escrevo – com a chegada da noite amarro-me aos sonhos e vagueio pelas madrugadas tal-qualmente um cigarro se incinera: brasa instável. cor impulsiva. rolante. metodicamente vagaroso a contrair para o fim da combustão – e assim. em contagem decrescente. me vou diluindo em cada pedaço de fumo que sobe ao céu – perco-me. perco-me na noite pelo que penso e também me perco quando me recuso a pensar – perco-me. perco-me na noite em sonhos e também me perco quando me recuso a divagar – perco-me. perco-me na noite dentro de mim e também me perco quando não estou em mim – um homem perdido só está bem aonde não pode estar – a insustentável leveza do meu ser claudicou. quebrou. faleceu com o corpo ainda a reclamar mais vida – e o fumo proibido a chegar à casa dos deuses como chegam os balões das romarias. perdidos. sem rumo. num vento incerto. sem tino e em desatino – e a enormidade do que sou a deixar de o ser numa terra em apartheid – segreguei-me – devagar devagarinho subo às bem-aventuranças. como se fosse o último fumo. como se fosse vento. como se fosse catraio e me quisesse perder num paraíso iluminado por uma luz arrependida do fundo da gaveta – por isso te digo: perde-te com um laço. aperta-o à volta do inferno e faz-te passado – perde-te de raiva e cospe para o chão que nunca te deu de comer – perde-te de coragem e amarra a ponta da corda à barbatana de um tubarão e deixa-te cair no fundo das palavras – absolve-te num parêntesis e não deixes que um ponto interrogação te faça [re]acreditar –  morre mesmo pois já não tens mais tempo para te [re]perder –  perde-te antes que percas a vontade de escrever




03/11/2017

deambulações noturnas XXII





pintura - robin eley





flagício: com a noite mato-me de mil maneiras e a todas sobrevivo para acordar em sobressalto





31/10/2017

tempo





cao hui





sacudi a noite
na primeira janela da manhã
restos de sonhos suspensos
no pretérito


as orvalhadas já se
fazem sentir
e as noites 
outrora lúdicas e quentes
são agora
fadigosas e frias




30/10/2017

exilibris baco






imagem - Google




…com o frio o corpo procura agasalho – abrimos a lareira. abrimos exilibris baco. abrimos a alma e por fim convidamos o corpo ao aconchego – tomamos o primeiro aroma. a medo – embrenhamo-nos com o rótulo. perdemo-nos nas subtilezas – vertemos o primeiro trago e somos resgatados da insensibilidade – procuramos uma adjetivação. não encontramos – o momento é de degustação silenciosa – a felicidade procura-se – e ali ficamos a pedir que a lenha não acabe. sim. a lenha – o exilibris baco é para sempre


17/10/2017

depois do outono




pintura - jackson pollack




a chuva apronta a faina da terra
escala o sol
em cada raio solar
uma gotícula. uma refrega

às nuvens:
o inverno amanha o rigor



11/10/2017

correspondência violada - 03










e tudo tão longe. tão distante destas folhas de papel - não há tristeza nas palavras que gastamos a falar um ao outro - e depois tudo é dentro do corpo. tudo é feito de abraços e cada palavra veste a alma com uma cruz feita de primavera - e somos assim. falamos ao ouvido para enganar a distância - somos feitos de vento. gaivotas de caneta na mão


resposta a um comentaria da vânia ao meu texto – sinto.abril


04/10/2017

ouço




pintura - ron muek




noites onde o escuro é feito unicamente de sons – ouço o coração. ouço o corpo a mingar. ouço vozes com saudade e outras que não consigo esquecer – ouço o medo. ouço os pés no caduco e gargalhadas de pânico também – ouço ouço o terror. ouço as pernas presas ao destino e os pulmões a suplicarem um último cigarro – ouço as mãos a pedir papel. ouço o negrume do tinteiro e ouço os dedos a bater palavras sem sentido – ouço – ouço a brisa. ouço o tempo que faz na rua e também ouço o tempo que faz dentro de mim – ouço aflição. ouço as montanhas a parir um rato e ouço o sino a bater quartos como se fossem horas de partir – ouço – ouço os cantos à casa. ouço o corpo a virar de lado para lado e ouço o que não mereço ouvir – ouço o outono. ouço os sorrisos das corujas e ouço pássaros que não sabem que existo – ouço – ouço as marés. ouço as gaivotas no mar e também ouço gaivotas que não sabem voar – ouço saudade. ouço fantasmas que não conheço e ouço  fantasmas que ajudei a nascer – ouço – ouço a viagem. ouço um futuro que não pisarei e ouço sapatos que não são meus – ouço o mundo com estes ouvidos que me nasceram no peito e que se abrem como cravos pregados a uma cruz que não profetiza remissão – foi condenado a ouvir os meus próprios ouvidos – aqui estou. com o que me resta da audição implorando aos deuses que me façam humano e me tapem os ouvidos com a cera de ícaro – prometo que não voltarei a voar para o sol 


03/10/2017

in I - carne. lembra-te que és mortal





calvin




- a escrita não muda o homem. ensina-o a ver-se tal e qual como é -



in: “carne. lembra-te que és mortal” – 18 de setembro de 2012




18/09/2017

o homem só cresce em silêncio




francisco sousa



tenho a certeza de que é sábado apesar dos raios de sol me parecerem diferentes daqueles que me abordaram há oito dias – há nestes raios de sol um calor desigual. menos envolvente. menos sedutor. mais divergente. egoísta. em total contramão com o ideal de todos diferentes. todos iguais – este sol acordou num formato de apatia discriminatória. mais seletivo. só aquece o que quer. elitista. sem equidade. sem passar cartão. diria. xenófobo – sinto o corpo a tremer. a pele pálida. enquanto os ossos engastalhados seguram. em dificuldade. as mãos a pedir um novo desafio – a vontade de escrever está cada vez mais intrincada. o sol. hoje. não aquece – os pés rasos fogem do corpo a sete pés. enquanto este. em esforço. não para de os importunar – já compreendi que não adianta fugir do que o destino emparelhou – como disse. sinto o corpo diferente. assim como se me fosse desconhecido. estranho. sem nome próprio. marginal se fosse uns sapatos diria que eram novos. novos em folha. a estrear no mundo dos caminhantes. nas primeiras passadas. vaidosos por ostentar uns calcantes a inaugurar caminho. acontecem os primeiros obstáculos: duas belíssimas bolhas nos calcanhares. vermelhas como um pôr-do-sol escaldante. zangadas. obrigam o corpo a caminhar tombado para o lado do desespero – o primeiro sinal de que não há caminhos sem compromisso – tudo que é novo tem que ser aprovado pelo corpo. primeiro desconfia. rejeita. com o tempo tolera. suporta. admite com condições e finalmente. com o tempo. adapta-se ao molde ou obriga o molde a adaptar-se a ele – sei apenas que esta sensação de calor. de quentura. agora mais abrasamento. talvez aconteça para me fazer perceber que não há dois dias iguais – vivo este sábado como se fosse o primeiro da minha vida. com medo – com a idade vamos querendo ver morrer algumas partes do corpo de que não gostamos. já não achamos piada ao molde. queremos parti-lo. esborracha-lo. esmagá-lo e esconder os cacos do mundo – é sábado. o sol apanha-me de frente. forte. a expulsar as sombras para norte enquanto o passado. incrédulo. não sabe como se abrigar da luz fujo sem sair de dentro de mim o silêncio perde-se nos raios de sol. coloco-me de lado. de perfil não existo. estou meio escondido e o outro meio é apenas mistério – só meio corpo apanha uns quantos raios de sol – excesso de luz faz mal à saúde. envaidecemo-nos e deixamo-nos encandear. cegamos com os olhos abertos – tudo que é em demasia acaba por fazer mal – não sei muito bem decifrar este calor. um calor-fogo que não é explicável. talvez transpiração. aflição. talvez premonição. talvez uma maloqueira que ultimamente não consigo tirar dos meus delírios – estou no meu velório e não sei como dizer ao cangalheiro que me leve com urgência para o crematório – as obséquias deixam qualquer morto à beira de um ataque de nervos – já não há paciência para tanta merdice sentimental – em boa verdade. o que se aproveita de estar morto é o silêncio – apesar deste descanso eterno me confortar preocupa-me não ver ninguém a chorar devo ter tido uma vida de merda – não deixo saudades a ninguém – mas também estou a ser ridículo. enquanto estive vivo nunca me preocupei com estas coisas do choro e agora porque estou morto sinto falta – razão tinha a minha mãe quando dizia que a velhice é ingrata. o que não fazes de novo dificilmente farás em velho – se tivesse feito um pé-de-meia de amigos de peito teria hoje ao meu pé uns quantos em lágrimas – não fiz. agora nada feito. o que não tem remédio. remediado está – sou muito pateta. afinal sempre soube que seria assim nunca fui capaz de fazer amigos de conveniência – não quis viver em mentira para morrer em verdade – deveria ter deixado ordens para que me contratassem uma dúzia de carpideiras. não umas quaisquer.  umas com provas dadas em velórios complicados – evitar vergonhas à família é fundamental – talvez seja melhor assim. sempre gostei do silêncio. o homem só cresce verdadeiramente em silêncio mas a realidade agora é outra. depois de morto já nada cresce. que se dane. afinal estou morto – o melhor mesmo é continuar neste meu choro interior. este choro que é só meu. mereço-o. mesmo que ninguém o ouça – sou digno deste silêncio – as pessoas entram todas esbatidas pelo velório adentro. com ar de quem sofre. mas mal se começam a aproximar do defunto deitam os olhos ao chão. fazem o sinal da cruz e pernas para que te quero – para algumas criaturas acredito que esta fuga não é por mal. não lidam bem com a morte e não gostam de gente que já não respira – mas para outras alminhas a questão é diferente.  têm medo que o defunto lhes pergunte: que raio está tu aqui a fazer? e elas a fingir que são surdas. a assobiar para o lado enquanto percorrem os bolsos à procura de um lenço que nunca assoou nada – mas também não consigo encontrar explicação para terem estes medos. afinal de contas o morto nunca as tratou mal em vida não seria no velório que lhes pediria satisfações – mesmo que me apeteça não posso chorar. não posso mesmo. pode entrar alguém que não me conheça bem. só os amigos me viram chorar. não é depois de morto que vou dar esse prazer a quem não me conhece – um homem não deve chorar em frente a desconhecidos nem que esteja com as tripas na mão – é sábado. está sol. talvez este calor que desconheço me tenha assolado a moleirinha. talvez não esteja a bater bem dos carretos.  talvez… talvez tanta coisa – aos sábados costumo estar sempre mais morto do que vivo – para todos os efeitos ainda não estou morto. estou a escrever e nenhum morto é capaz de escrever – escrever só mesmo os moribundos  


12/09/2017

reencontro




salvador dali



não era sem tempo – faz tempo que me perdi no vosso tempo. um que vocês inventaram para me fazerem perder um tempo que jamais recuperarei – hoje. estou no meu tempo. estou só. melhor. estou comigo – é bom estar comigo novamente



14/08/2017

viagem





r.b. kitaj




o tempo sorveu um corpo
a concupiscência
que albergou a sensualidade
é agora uma figura geométrica

o varão
outrora prazer
recumbiu-se
ao futuro



06/08/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*






adelino ângelo 






3. a morte terapêutica


nesta terceira parte a minha dissertação incide objetivamente nos benefícios da aplicação da morte terapêutica em mentes em avançado estado de instabilidade emocional – recorremos então a algumas boas praticas já experimentadas na morte assistida e transpomo-las para fórmula terapêutica – o que realmente torna interessante a aplicação desta morte é a possibilidade de fazer falecer apenas o que nos magoa – começamos por sedar a nossa existência. aliviamos a dor. manietamos o passado. silenciamo-lo. sitiamos a memória de longo prazo e introduzimos na memória recente doses de elevada esperança – obviamente que como em qualquer tratamento é necessário ter sempre em atenção as dosagens. foram muitos anos de sofrimento e o corpo pode reagir negativamente ao excesso de esperança – a solução é a prescrição de doses de baixo teor de felicidade. administradas sobre uma apertada vigilância – evitar recaídas é fundamental – ao passado é-lhe finalmente oferecido uma morte controlada. boa. honrada e sem dor – claro que é necessário escolher muito bem o que queremos realmente que faleça. não se pode fazer falecer o coração. nem os pulmões. nem o cérebro. nem  o que resta da vontade de viver – esta não é uma morte onde para falecer baste um pouco de coragem e uma bala no tambor. não. não é – esta morte. consiste em eliminar. silenciar ou simplesmente enclausurar. por um período de tempo estabelecido. uma determinada área do corpo. membro ou apenas um insignificante sentimento – tomar a decisão de eliminar o que quer que seja num corpo diminuído não é tarefa simples para o seu executor – não é fácil castigar um corpo quando o que resta de motivação é praticamente nada – o momento é de aflição para o carrasco – quando o corpo está doente a dor torna-se numa força incontrolável. os sentimentos desaparecem e automutilação toma posse do centro de comando cerebral – o pensamento está refém do desespero – selecionamos então um alvo no corpo que acreditamos estar possuído de um mal sem solução. desligamo-lo do suporte de vida libertando-o da teimosia de viver em agonia – aos poucos a memória de longo prazo começa a desprender-se das rotinas abandonando o corpo numa marcha de silêncio e paz – o silêncio. agora fúnebre. acompanha a saída das reminiscências numa viagem de aceitação. de perdão. sem castigo. sem remorso. sem medo que no dia seguinte o passado ressuscite num dedo apontado à covardia – entramos então em modo segurança extrema. sobreviver é a palavra de ordem – personalizamos o nosso próprio plano de recuperação e com a ajuda da esperança aplicamos o tratamento final da morte terapêutica – cortamos a mão que escreve. substituímos uma perna de carne e osso por uma de pau. sacrificamos a ambição. matamos um pouco da ternura. escondemos a paixão e doseamos para o máximo o caudal da amargura. ameaçamos o sorriso com uma faca de dois gumes e garantimos uma atenção especial ao corpo se este voltar a acreditar que ainda é possível refazer a vida – aproxima-se o momento das decisões. é fundamental eliminar o acessório e assim. permitir que a vontade de viver se projete num novo espaço temporal – eisntein dizia que “o tempo não é aquilo que parece. Não corre em uma única direção, e o futuro existe simultaneamente com o passado” – se o tempo não corre numa única direção então não há razão para ficarmos presos ao passado – para grandes males. grandes remédios. a solução passa por aplicar a estratégia de terra queimada. exterminar tudo que possa ser útil ao inimigo – um género de contrafogos que mais não é do que uma “contra-morte” – se o que arde não volta a arder também o que morre não volta a morrer – ficamos mais doentes quando olhamos mais para o passado do que para o caminho que ainda temos a percorrer – a angústia apenas consegue sobreviver se mantiver acorrentado a si o desanimo. a ansiedade e o medo – sobreviver é uma luta diária. um inferno. uma descarga elétrica contínua que nos amarra em cada dia do ano. não há férias. não há aniversários. não há natal. não há desculpa para nada. o que existe é apenas os dias marcados a negro no calendário  – um corpo depressivo não vive. sobrevive – o oposto da depressão não é a felicidade. é a vontade de querer viver. a força. a determinação. a procura da liberdade – nenhum homem é livre quando a dor lhe confisca todos os pensamentos – ninguém pode desvalorizar o silêncio de um homem tomado pela dor. o seu sofrimento é a sua impressão digital – este penar não se torna infernal apenas porque desacertadamente. ou não. optamos pelo caminho errado. recusamos ajuda médica ou dizemos não aos ansiolíticos – a dor nasce escondida no corpo. depois. depois começa a gatinhar. de seguida aprende a caminhar. em bicos de pés. com a graciosidade de uma bailarina. e o corpo gargalha com a subtileza com que vai amargando. o que era em bicos de pés são agora passos delicados. a fazer estrada desconhecida. lentamente. tão lentamente que o corpo se vai alterando. adaptando. moldando. até que chega um dia. sem que tenha dado conta. cada passo é um compasso entre caminhar ou apear – a dor já não engana.  multiplicou-se em amargura. em angústia. em revolta. em intolerância. arrestando o corpo num desequilíbrio irracional. doentio. falso. e por fim. como todos os impostores. promete-lhe um precipício libertador – o que cresceu como uma anormalidade dolorosa é agora uma normalidade consentida. aceite e autorizada a viver numa vergonha silenciosa – a dor já não é estranha. é intima. próxima. carne da sua carne. como se o tivesse acompanhado desde o útero de sua mãe – a manifestação externa do sofrimento só se torna audível ao fim de muitos e muitos anos de conflitualidade interpessoal – se por um lado todo o corpo dói. por outro. estas dores são a razão da sua teimosia em continuar com a vida – tudo que ocorre no nosso mundo solitário é feito de sofrimento. de interrogações. de dúvidas e de uma cabeça que não sabe descansar para tornar mais fácil o que quase sempre parece impossível – tudo acontece ao mesmo tempo e à mesma hora. o cérebro ora implode. ora explode e uma e outra parte sem entendimento. sem tréguas – o descanso não existe para quem faz do seu dia a dia um combate com as interrogações – acreditar que tudo tem uma razão para acontecer é a resistir. encontrar essa razão a causa de todos os problemas – infelizmente nem tudo tem uma razão. nem tudo pode ser explicado – claro que ainda haveria sempre o recurso a um charro terapêutico. umas quantas passas distribuídas pelos períodos mais críticos do dia como forma de aliviar as dores ou estimular o funcionamento dos órgãos sensoriais para novas formas de luta – mas não. esta maleita dolorosa está muito para além do charro. da pastilha ou de um sono mal aparelhado por uns quantos fantasmas erráticos – não. não é assim.  esta dor cresce com o pensamento e distrai-se com o sofrimento – todo o homem nasce com o entendimento natural de valores negativos e positivos e uns e outros lutam entre si em busca de uma pacificação natural entre o bem e o mal. o certo e o errado – infelizmente nem sempre esta biossíntese é adaptável às exigentes e naturais formas de vida que nos rodeiam – um dia. o corpo diz: basta. já não há razão que me faça ver outras razões. chegou a hora – usamos então todo o mal armazenado para um último momento e assim devolver definitivamente a liberdade ao corpo – o que dói na pele ou na carne é diferente do que dói no coração – há estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – volto a repetir a frase do mia couto acrescentando-lhe um novo ponto final: “cada homem é uma raça” que respira para caminhar e sempre que caminha aumenta a estrada para mais perto do seu fim – a estrada não se escolhe. nasce connosco – cada homem tem a sua estrada para a morte



- a quarta parte do texto será dedicada à morte dolosa ou fraudulenta 
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros








24/07/2017

amo-te porque existes dentro de mim











apenas uma pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o casamento é um compromisso de amor entre duas pessoa que juram cuidarem-se até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo e da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noite que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinou a crescer numa cumplicidade graciosa – nunca mais parei de crescer. tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia. depois de o sol se esconder. os lençóis abriam-se em seda. os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos sempre compartidos – nunca tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia onde tudo começou e recapitulo o meu sim: sim. aceito esta mulher na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca mais aquela igreja teve uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nosso filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias passaram a correr – o amor ensinou-nos a viver numa cumplicidade que também é aceitação – não me canso de te pedir perdão mesmo que na maior parte dos dias não ouças as minhas palavras – são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim




12/07/2017

deambulações noturnas XX




foto - sampaio rego




frequentemente o pensamento veste-se de mendigo – arrogante. o ego. só olha para os botões de ouro em camisa de seda – engano tremendo – muitas vezes. por baixo dos farrapos. existe a alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo literário



03/07/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*




adelino ângelo



1.    a morte física ou da personalidade
a morte física de um corpo – declara-se o óbito quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e ausência completa de atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida apontando as possíveis causas da sua morte permitindo deste modo o desaparecimento do corpo para sempre do mundo sensível





2.    a morte emocional
aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa. menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre a passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio terrorista. consente o descarnamento da sua rede de neurónios. permitindo deste modo. que a sua intimidade seja exposta a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta – dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador perante o desconhecido – o corpo humano revela na plenitude total a sua fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença. esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no mais fundo dos silêncios que guarda em si – e ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe caiem dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com doses maciças de um químico afectivo. fertilizado no útero de uma mulher mais pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa desordem impossível de acalmar. enquanto por fora. a ressaca é feita de imagens que já não quer compreender – tudo o que compreende acaba a magoar – não se quer compreender os livros. a religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão porque se nasce ou porque se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço. um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo à dor enquanto e cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o mundo já não é mensagem –  já nada traz movimento. as mãos recusam brigar enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é um provocação ao destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora. correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo. sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia – não interessa. não interessa e não interessa – o corpo que morre emocionalmente ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próxima mas acima de tudo o amor por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração que não é mais do que uma viagem ao centro da dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa. acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. oferece a todos o que só pode dar a alguns – termino com uma frase do mia couto: “quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”

- a terceira parte do texto será dedicada à morte terapêutica
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros