hoje é o dia dos meus
filhos e também é o dia do pai deles.
vejam só. é o meu dia – sempre
desejei este dia. sempre quis ter um
dia que fosse partilhado com os meus filhos – não se pode ser pai sem ter filhos
– sei que crescer é sempre muito doloroso e às vezes pergunto-me: que mais poderia fazer para ajudar os
meus filhos a crescer [mais] felizes – não sei. não sei mesmo – sei que um pai sempre achará que nunca fez tudo o
que estava ao seu alcance. nunca
nada é suficiente quando se trata dos nossos filhos e da sua felicidade – mas
que me perdoem os meus filhos se errei onde não deveria ter errado – quero que
saibam que tudo o que fiz foi por amor.
o mesmo amor que me juntou à sua mãe – com a nossa história de amor vieram vocês
– e foi tudo tão planeado. tão sonhado. tão infinitamente bom saber que
vinham perpetuar a nossa existência – vocês serão sempre a única razão para existirmos
– mas é todo este amor impossível de escrever que me leva sempre a mais uma
questão: será que um pai tem perdão
quando erra por amor? não sei? também não quero perdão. pelo vosso bem-estar eu posso com o mundo todo às costas –
acreditem. vocês nunca nos pesaram –
por isso. neste dia que é nosso. o que vos peço. humildemente. não é o
vosso perdão. peço-vos apenas a
vossa compreensão. tudo que fiz foi escolher o que me pareceu ser o melhor para vocês – sei que errei em
milhentas coisas. errei por excesso. errei por defeito. errei porque não queria que vocês errassem onde eu errei. errei porque vocês são demasiadamente
preciosos para vos ter a meu lado tristes e infelizes. errei porque sempre quis ser pai e pai. acreditem. é complicado
para carago – mas um pai para envelhecer
em paz só precisa mesmo da vossa compreensão – tudo fiz para que vocês fossem homens
felizes e independentes – hoje já pouco ou nada depende de mim. vocês cresceram para lá das minhas
mãos. estão enormes. são homens bons. como o avô. são dignos. são justos. são educados e mais do que preparadas para serem cidadãos
honrados estão preparados para serem pais – nunca se esqueçam de serem pais com
os vosso filhos – vocês são todos fantásticos. são todos diferentes mas todos meus. quer dizer. nossos. serão sempre nossos – para este nosso
dia existir em pleno era o vosso avô descer do céu para nos abraçar – tenho a
certeza de que não vai ser possível.
mas é possível recordá-lo e dizer que o melhor capítulo da nossa história
começou com ele – ele era especial – mas se de alguma forma nos estiver a ler. já que os desígnios de deus são
insondáveis. quero que saiba que
todos temos muitas saudades. muitas mesmo. e também quero que saiba que nos faz
muita falta e hoje o dia também é seu – um dia voltar-nos-emos a abraçar. tenho a certeza – obrigado aos meus
filhos por me imortalizarem com este dia – não desperdicem um segunda da vossa
vida. sejam verdadeiros e confiem no
triunfo do que está certo sobre o que está errado. tenho a certeza que a vida vos há de recompensar – não deixem nada por fazer – procurem os sonhos
e acreditem. sempre – um homem sem
sonhos não vale grande coisa – feliz dia para nós
19/03/2018
18/03/2018
alma-que-sente
frida-khalo
mantenho-me acordado e
enrodilhado em mim. recuso-me a dormir. olho o relógio e hipnotizo-me com o
bater do coração – não tarda nada nasce o dia – mergulho na imaginação e
revolvo-me mais uma vez à procura do que nunca encontrei. atiro o corpo de um
lado para o outro e mantenho-me esperto. só o cansaço me dobrará – sussurro-me
para saber que estou acordado. não quero ser sonho. tenho medo dos sonhos.
tenho medo dos sonhos felizes e tenho medo de acordar dos sonhos que me fazem
feliz – o vento corre veloz pelas frinchas e as portas replicam-no em barulho.
estremecem imitando gente a sair. só a sair porque não ouço ninguém a caminhar
em minha direção. faço silêncio dentro do meu silêncio. escuto o pavor de mim e
do vento. arrepio-me. e a pele que me cobre lamenta-se de tudo. e é este tudo
que não sei o que é que me ocupa o quarto todo – fico inquieto e como não sei
rezar protesto com o divino. se soubesse talvez o fizesse. mas não sei. estou
por minha conta. sempre estive por minha conta. nasci e cresci por conta do que
sou e sou dono e senhor de todas as noites – cansado resisto segurando-me ao
luar intermitente que passa nos intervalos da persiana. resgato-me ao escuro. a
luz do luar é tudo o que tenho para sobreviver. e logo hoje que é lua minguante
– estou esgotado e desapareço de mim a cada noite que passa. não gosto do que
guardo no corpo. pesa chumbo. pesa morte e pesa dor – volto-me. mais uma volta.
volto-me sem conta e invento soluções para o que não tem solução –
distendendo-me num espasmo espontâneo. os tendões estalam e o corpo altera-se
entre o medo e a resignação. se o coração encravar que se lixe – a noite é cada
vez mais desumana – o corpo amarga. remorde-se vezes sem conta e a
alma-que-sente cada vez mais acordada faz justiça pelas próprias mãos: mata uma
mágoa – mas logo encontra outra ainda maior. tal como a matrioska russa. as
mágoas nascem umas dentro de outras e quando uma desaparece há sempre uma maior
que aparece a chamar-nos pelo nome – respondemos presente. um homem não se
acobarda. morre de pé como as árvores e também que diferença faz mais dor ou
menos dor – nem sempre se grita com a estropiação – e mais uma volta na cama e
as voltas do corpo são as voltas da vida. de dia e de noite tudo igual. tudo
incerto. tudo a magoar e a balança tombada para o lado que não entendo – o
passado não é piedoso. o que guarda nunca se alterará – quero dormir. fecho os
olhos mas não consigo fechar a memória. rebolo-me de um lado para o outro e não
me encontro em nenhuma dos lados. estou só. completamente só e sem uma única
palavra para me confortar – a memória consumida à medida do meu desespero.
respiro a antecâmara da morte. sufoco. o coração aperta e os pulmões recuam.
barricam-se na escuridão. e o ouvido já não quer socorro. quer silêncio. só
silêncio e uma mão para não morrer sozinho – estendo a passadeira negra ao mal
que me tocou. abro a porta do inferno e passa o impossível. de seguida o
inacreditável seguido de perto pela dúvida que vem acompanhada pela incerteza e
pelo desprezo. para logo depois. em gargalhada. aparecer a descrença abraçada à
injustiça e. finalmente. vestida de preto. a renúncia ao que resta do mundo – e
o travesseiro vazio pede cabeça que não pense porque não há dor maior do que
uma cama sem sono
14/03/2018
13/03/2018
representar o pensamento por meio de caracteres
pintura - jean-michel folon
a escrita:
são encontros de palavras
ordenam-se por interesses
comunicacionais
melieiro. o escrevente
exorna com:
traço
aprumo e labor
uma panóplia de
enxertos requintados
esteticismo em apelo
ao regresso às artes
acaba a coluna em:
galanteios ao leitor
um apelo à paixão
eterna
11/03/2018
a noite e os pássaros de ruy belo
gustavo rosa
é
noite. vagueio. vagueio em ruas que aos poucos se fizeram minhas – vagueio
porque é noite escura e sei que depois de uma noite escura nasce a luz e com a
luz renasce a esperança e sempre que há esperança os “pássaros de ruy belo
voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é março. e é inverno em todo
o mundo e em mim também. as noites estão cada vez mais escuras e eu sem saber o
que fazer a tanta imensidão de negro – é noite. vagueio. vagueio porque o corpo
continua a mendigar fé. a suplicar luz e esta só chega quando as manhãs brilham
com o canto dos pássaros – com a escuridão não se veem as árvores e sem árvores
não há pássaros e sem pássaros “as árvores não cantam” e a primavera não nasce
– o que faz um homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores
principalmente as que dão pássaros” – pergunto. que é feito das minhas árvores e
dos meus pássaros? calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor
que sois dono de todas as coisas do mundo. dizei-me porque me roubaram as
árvores. dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – e agora senhor em que
mundo cantam os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me
cura. a luz que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno:
frios. escuros. sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como
se fosse um pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços.
pois tu sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono
desce veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado.
vagueio comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater termo e a vida
escorrer-se devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me
encontro. já não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros.
acordar com o doce sabor da primavera mesmo que os campos se cobram de medo e
geada – não quero morrer longe de mim. não me posso esquecer das minhas
gaivotas e de todas as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de
saber “quem é que lá os pendura nos ramos? e de quem é a mão. a inúmera mão?” –
e o corpo parado em março como se fosse outono a anunciar inverno. e nem um
único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores sem pássaros
é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que não servem
para nada – imobilizo-me para ouvir o que não digo. o coração bate. ouço-o.
ouço-o para saber que existo. e ele bate para se fazer sentir no mundo – não
existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado do coração e o
silêncio do corpo. estamos sozinhos e o mundo abandonado de tudo que é meu –
“gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do
nome com que me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio
secretamente. trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que
começou no dia anterior e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal.
escondo-me dentro de mim porque fora já nada existe – até os pássaros de ruy
belo partiram. foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não
encontrei no corpo os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem
pássaros nas minhas árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são
capazes de domar as árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros e só “os
pássaros fazem cantar as árvores” eu não sou nada. não tenho árvores que dão
pássaros. não tenho nada além do que sobra de mim que não é nada – “eu [apenas]
amo as árvores. principalmente as que dão pássaros”
este
texto faz referência a algumas proposições com pássaros e árvores do poeta ruy
belo e estão devidamente identificadas no texto
09/03/2018
07/03/2018
02/03/2018
e se...
imagem - google
leio a biografia
de ernest hemingway e resisto à sua dor numa contemplação silenciosa e serena –
interrogo-me. como seria eu se tivesse nascido em mil novecentos e sessenta e
um? e se tivesse nascido na américa? e se trocasse a minha coca cola zero e me
afundasse em álcool? e se a guerra infindável da minha escrita começasse a
perguntar por quem os sinos dobram? não sei o que seria. em boa verdade nada
sei. acreditem. nem sei muito o que é que me leva a escrever este texto meio
maluco. afinidades. creio – hoje. com o hemingway por perto. estou convencido
de que se fosse possível cavar um buraco a partir da minha terra este iria dar
à américa. chegado lá. só teria que comprar uma arma para matar as palavras.
não as que escrevo. porque essas já nascem mortas. as que me vivem na cabeça e
que me enganam com esperança – estamos em dois mil e dezoito. março. às portas
da primavera e do inferno e eu num ato de contrição: por minha culpa. máxima
culpa vos escrevo não o que tenho na cabeça mas o que me falta nas mãos – sossego.
afinal nunca saí de onde estou. sou desta terra de portas abertas e que tudo vê
por um canudo. finjo-me morto e entrego-me ao pensamento até que uma voz me
resgate para o barulho do mundo – morrer não é uma chatice é um desígnio que compramos
e nos permite nascer. só não nos dizem o dia em que partimos. iludem-nos com
tempo. como se o tempo fosse uma equação simples de calcular. não é. nem sempre
viver cem anos é melhor do que cinquenta – viver é conduzir numa autoestrada em
hora de ponta a duzentos quilómetros por hora. fazer dois piões. entrar por uma
galgueira. andar em duas rodas. evitar trinta e três acidentes enquanto falamos
ao telemóvel e sorrimos para o retrovisor com desdém porque o que fica para
trás já não nos serve para nada – ninguém quer saber o que fizeste. só o
presente faz futuro – quando damos conta chegamos ao destino meia hora mais
cedo com a sensação de que o mundo está todo atrasado – estamos no nosso velório.
louvado seja o senhor
28/02/2018
deambulações noturnas XXIV
pintura - fábio magalhães
neste
quarto onde deixei de me admirar já pouco ou nada resta meu. talvez alguns livros por ler e muita vida por aprender – mas sei que
será este quarto que não me viu nascer que um dia me verá morrer
14/02/2018
vai
pintura - salvado dali
não desistas corpo notívago. vai
atrás do que é teu. vai. corre muito. corre como correm os clarões em noites de tempestade – vai. vai por esse mundo imaginário e
inventa-te em marte. por lá. tenho a certeza de que há lugar para
ti mesmo que te cuidem extraterrestre – não te zangues. verás que um dia serás mais do que a tua imaginação. mais que a tua intuição. mais do que escreves nas entrelinhas. serás das ruas com gente a correr de
um lado para o outro. dos carros a apitar movimento. dos maus a fugir dos bons. das sirenes a zumbir cuidados e dos
tolos. dos tolos meu deus. cada vez mais tolos fogem dos que
ainda não são tolos – o mundo esticado ao centímetro quadrado. o corpo esticado ao centímetro
quadrado. a alma esticada ao
centímetro quadrado. a fé esticada
ao centímetro quadrado e a incerteza parada em cada centímetro e o quadrado
enfeitado de malmequeres brancos capricha uma janela que não para de dizer: há mais mundo para além do teu medo –
sou tanto. tanto para dar e tanto
por fazer – mas vai. vai por esse mundo
fora. corre. corre muito porque marte é longe e o teu coração já não é novo. vai. vai que a fé já foi à tua frente e a vida está pela hora da morte. dobra-te na tua cruz e ora ao teu
deus que por ser teu é o deus de todos os deuses. vai. vai em sinal da
cruz porque só na janela há esperança.
a morte é negrura. às vezes solução mas
sempre solidão – um dia. os néons deixarão de piscar possibilidades
que não te cabem nos olhos. os bons
nunca mais fugirão dos maus. as ruas
correrão atrás das pessoas e os tolos distribuirão malmequeres pelos não tolos –
ó meu deus. porque será que quando
vou nunca saio de onde estou? talvez o mundo seja maior do que uma viagem a
marte. talvez não saiba voar no
espaço como voam as gaivotas no mar.
talvez seja quase do tamanho do nada e tudo que é nada nunca será mais nada. talvez os pés sejam minúsculos e
demorem a caminhar. as mãos
atrofiadas. o corpo mirrado. corcunda. feio. tão feio que
ninguém me quer olhar. nem deus –
talvez seja tudo ou apenas só eu – mas vai.
parte com coragem. faz-te ao tempo
interstelar. inventa ventos
meteóricos. manda foder a rosa dos
ventos e todos os azimutes convergentes com a desgraça. abre a janela ao espaço sideral e grita o teu nome. grita como um selvagem. grita como se o grito fosse a tua
história de vida. grita como grita a
cigarra em noite de cio. grita como
grita a corda saudosa na guitarra do fadista – vai. vai e despe a raiva para trás das costas e atirara-te ao espaço
em silêncio e luta. luta por ti e
por aqueles que te deram vida e se morreres.
morre de sorriso na boca porque o que não tem remédio remediado está – afinal
és apenas um mortal numa galáxia empanturrada de desejos – vai. vai vertical pela noite. vai. vai rastejante pelo dia.
mas vai. vai para onde te possas
encontrar
21/01/2018
eu e:
pintura - gaetano cresseri
9.
eu e a minha circunferência
quase
tudo por dizer e eu perdido entre um quarto quase quadrado e o instante nove – perdido
ou não. será deste quarto quase quadrado
que continuarei a procurar a essência das coisas em mim – busco o
autoconhecimento e procuro em todas as coisas o que elas realmente são – reflito em cuidado. aceito-me com incertezas e afirmo-me como um ser que é como é
porque a verdade não me deixa ser outra coisa para além do que sou – penso. sou único e indivisível mesmo quando
a minha consciência se divide entre a verdade das coisas em mim e a verdades
das coisas fora de mim – sou uma existência metafísica e procuro explicações em
toda a humanidade e. com lucidez. brio e bondade. talvez aprenda a compreender a minha verdade mesmo que não absoluta
– é com esta carência estrutural que me busco incansavelmente porque tudo o que
sou está dentro de mim; procuro-me para
além do que sinto. procuro-me porque
tudo o que sinto não sei se é verdade – e assim digo. como ser racional: sempre
acreditei que para que a verdade fosse realmente verdade bastasse sentir já que
tudo que sinto parte de dentro de mim e eu não posso ser mentira – mas não. não chega. o que sinto nunca chega para que a [minha] verdade se torne suprema. logo. inalterável no tempo e em mim porque todo o tempo é absoluto e
uniforme – juro que não quero ser mais nada do que sinto. tudo que procuro em mim é a verdade em todas as coisas assente no
padrão da minha universalidade – procuro.
procuro a verdade em tudo que sinto porque a quero como a única verdade dentro
de mim e fora de mim mas confesso. temo
não a encontrar. a vida nem sempre
tem método e coerência. se tivesse. não sentiria o que sinto – sei que é na
partilha do que sinto que a minha verdade colide com a verdade do que os outros
sentem. mas não posso calar. não posso acovardar. não posso ignorar o apelo da minha
verdade para ser universal. só com
esta verdade serei eu dentro ou fora de mim – às vezes excluo-me. recuso-me a fazer parte das iniquidades. cego-me. escondo-me em mim com tudo que sinto e desapreço sem tempo para
voltar. mas em momentos mais nobres. atiro-me para o coração do mundo e
faço justiça com as palavras.
magoo-me e sangro a raiva de tudo que não quero sentir – nunca sei se o que
sinto é a verdade eterna ou apenas a verdade no momento – talvez não exista a
verdade absoluta como também não existe meia verdade. talvez tudo não passe de um embuste do criador para me convencer
de que só como ser divino atingirei a plenitude da vida e é obra dele tudo o
que sinto e também o que não quero sentir – seria imaculadamente uma criatura
de deus. um ser vivente criado a partir do pó da terra e do
barro. missionário da fé e
da sua glória. destino
apalavrado no dia em que os meus pais.
por via do batismo. me fizeram seu
servo e vassalo de todos os seus humores – terei então em todas as coisas deus. tudo o que sinto. dentro e fora de mim.
é unicamente o que ele quer que eu sinta e mais nada poderei sentir ou deixar
de sentir sem a sua permissão – estou encrustado com a fé de deus. nascido para a virtude. adverso ao erro. em busca do aperfeiçoamento.
do meu e dos outros. amante de todas
as criações do mundo. da água. da terra. do ar. do fogo e o
inferno é o que sinto sem saber o porquê de deus me entregar em vida às
labaredas de satanás – e sem dar conta.
em busca da minha verdade absoluta. reapareci
como homem de deus. eu que estava
zangado com o criador desde a morte de meu pai – onde estavas nesse dia? nunca
me deste uma palavra. pregaste-me uma
cruz na memória – nunca fiz nada na vida para te desiludir. procurei-te na verdade porque me ensinaste que só na verdade um
homem encontra o caminho da luz – qual luz? qual caminho? a única coisa que me trouxeste
fui a dúvida e a minha desumanização. renunciei-te
para sobreviver – envelheci.
tornei-me mais do meu mundo e menos do teu.
abandonei a imortalidade e estou-me nas tintas para o paraíso. habituei-me ao inferno. iluminei-me na dor. na misericórdia e todo o mal será perdoado
com sete pés de terra – todo o homem é ingénuo e pateta porque todo o homem com
ou sem deus é pateta em algum momento da vida – não sei se sou muito ou pouco pateta sei apenas que neste momento me
sinto enganado. purificaram-me com água
benta estragada. não tinha a bênção de
deus nem o seu caminho. continuo à
procura de uma verdade que não encontro em lado nenhum. nem em deus – raio de caturrice. bem sei que errar é humano mas só os idiotas é que perseveram no
erro. não se pode alterar o que
nasce no corpo por ordem do sagrado – só com a morte saberei realmente com que
verdade vivi a vida. talvez a tenha vivido
em erro. mas ainda não morri. ainda me procuro. ainda procuro a verdade suprema porque já não tenho mais nada
para procurar para além de saber o que realmente sou e porque sou – sei que um
dia a minha verdade será feita apenas do que fui porque o futuro já nada
alterará – nesse momento nenhuma idiotice fará mais sentido. a verdade será aquela que cada um quiser lembrar. eu estarei morto. serei apenas um ser humano frio e parado no destino – enquanto
for lembrado serei sempre uma verdade em vós e em cada um de vós. estarei vivo – com a minha morte morrerá
para sempre a minha verdade. a que
vive dentro de mim – e assim me procuro em desespero. procuro o que está certo.
mais nada do que certo. porque tudo
que está certo nunca poderá ser mentira e um homem certo é um homem de verdade
e essa verdade em si será também verdade nos outros – não há duas verdades
quando há apenas um homem em si e fora de si – só a verdade será capaz de responder
com conhecimento. mas não interessa. sou o que sou quando o que sinto deveria
ser outra coisa qualquer – afinal aonde fica a verdade? sou o que sou pelo o
que sinto. pelo que não sinto ou quando
enfrento o que sou. por sentir que
sou outra coisa – sou afinal o quê? não sei.
palavra de honra que não sei e talvez por isso me procuro em tudo que sinto
fora e dentro de mim e tudo que sinto me faz sentir o que não quero sentir – às
vezes acredito que a verdade suprema só existe no que escrevo pois escrevo
apenas o que sinto. mas também aqui
tenho dúvidas. quando leio de frente
para trás já não sinto nada do que senti e fico sem saber se a verdade está no
que escrevo ou no que leio – a verdade absoluta é uma ilusão e a sua procura o
primeiro sintoma de uma maldição divina ou interestelar. sou apenas mais um instante infinitamente pequeno de dúvidas do
universo – a vida acontece porque ocorre uma explosão. uma dúzia de átomos colidem uns com os outros e o tempo fez o
resto. o homem aparece – sou o desacerto
dessa explosão. os químicos
baralharam-se no rebentamento e aqui estou à procura da verdade na essência das
coisas. as que estão dentro de mim e
também as que estão fora de mim – sou uma verdade dentro de uma outra verdade
do mundo. um tropeção na sua perfeição
– estou arrasado e com medo. sei que
o meu tempo não é infinito porque a morte acontece no corpo e quando um corpo
morre leva consigo toda a verdade – não sei se sou único dentro de mim. talvez sejamos dois ou três ou quem
sabe mais. mas se o corpo os aceita
e se todos procuram o mesmo. então
tudo que sai de mim só pode ser verdade – sou então o quê? e em que percentagem?
e que juiz encontrarei para decidir o que há de bom e de mau. o que fiz bem e o que fiz errado. o que amei e o que não amei. o que sinto de verdade e o que sinto
que não é verdade. porque seja lá o
que for. uma coisa sei. eu sinto – não sei se o que sinto me
faz totalmente verdadeiro porque não sei se é totalmente verdade. o que posso garantir é que sinto o meu corpo no mundo e a cabeça
prisioneira do que sinto – e se não encontrar salomão serão os que não
compreendem o que sinto que me julgarão? por mais sábio que seja o mundo nunca me
saberá julgar pois sou uma milésima parte desse universo que corresponde a um homem
e um homem não vale por todo o mundo mas tem um mundo dentro de si – também não
quero ser julgado pelos que me aceitam pois apenas conhecem de mim o que compreendem
e eu sou muito mais – procuro-me cada vez com menos argumentos para dizer que
não encontro a verdade do que sinto. o
mundo afinal é mais do que uma verdade.
é muito mais do que sinto – talvez o problema seja meu. talvez eu não saiba compreender o mundo para além do que sinto. não importa. já não importa o que o mundo faz comigo. o que importa mesmo é o que faço com o que o mundo me faz – faço muito
pouco. só faço o que sinto e neste
momento já não sinto quase nada – sei que penso e volto a pensar mas quando
saio para fora do meu quarto o mundo que pensei não existe e quando me encontro
descubro que também não existo porque nada do que pensei existe e no quarto quase
quadrado todas as dúvidas sobre a existência acabam mortas na incerteza do que
sinto – sou a minha verdade e a verdade do mundo e nunca poderei ser outra
coisa. e a ela terei que me habituar
porque o meu quarto é uma ilha cercada do mundo onde vivo – sinto que quando
escrevo esqueço o mundo. encho-me de
silêncio. entrego-me ao mistério e
parto desferrado para dentro de mim numa interminável agonia. rasgo-me e aguilhoou-me por não
saber escrever o que sinto – quando escrevo procuro-me unicamente no que sinto
porque a verdade não existe em mais lado nenhum a não ser no que se sente – mato-me
de tempo e persistência – mas quando paro de escrever reapareço e tudo o que
sinto não serve para nada porque o mundo não sente um homem. o homem é que sente o mundo – é janeiro. e sempre que o janeiro existe sou lembrança e todas as coisas deixam
de ser coisas e todas as gaivotas se apagam no castanho triste dos olhos – mas
quando paro de escrever sou outra vez dezembro porque é no dezembro que sinto o
que não sinto em mais mês nenhum – em dezembro aqueles que amo estão-me
pregados às mãos e não sinto mais nada que não seja o sentir do que sentem por
mim – mas aqui. neste quarto feito
de mim. rodeado de paredes que por
serem feitas de silêncio aprenderam a ouvir-me em tudo que sinto e não sei
escrever – neste quarto quase quadrado vivo uma quadratura em circunferência apertada
com tudo o que sinto e me faz ser o que sou:
sou a minha família. sou os meus
amigos. sou os meus leitores e sou todas
as páginas que escrevi – tudo o resto para vos falar o que sinto não sei se é
verdade ou permanece vivo – aquilo que não amei e não escrevi não sei se existe
09/01/2018
04/01/2018
eu e:
foto de autor
8. eu e as
mulheres do meu cunhado
atrás de mim. em guarda.
dois A4 emoldurados numa geometria escangalhada – o lápis do meu cunhado
amantizou-me com dois protótipos de mulheres surreais. estranhas nas formas.
indefinidas na beleza – consigo apreender que uma está nua e outra vestida. uma
está de costas numa janela escancarada enquanto a outra existe rodeada de
livros – em simetria apenas um olho negro e o cabelo ondulado – pouca coisa
para duas mulheres que ocupam totalmente a minha parede norte – só ainda não
compreendi porque raio é que o meu cunhado lhes pintou um olho de negro.
provavelmente para me alertar que o destino dos meus olhos pode ficar igual se
não tiver cuidado com a escrita – pensando melhor. talvez seja uma mensagem
codificada: desde do dia que levaste a minha irmã que tenho dois murros para te
dar – ao certo mesmo confesso que não sei. sei que são coisas do meu cunhado
que nem sempre bate bem do miolinho – os artistas são assim. tem
devaneios que ninguém percebe. excentricidades – o meu cunhado é um grande
artista com um bonito coração. sei que as suas mãos nunca seriam capazes de
magoar o que quer que fosse – mas atenção. não deixa de ser um cunhado
desviante nos equilíbrios artísticos. principalmente na comunicação das formas
e na sua estética – não é fácil tocar bem vários instrumentos: arquitetura.
belas-artes. desenho. escultura. tudo isto num longo caminho de confrontos
diários com a estética-beleza-realidade – ultimamente resolveu acrescentar às
mãos a palavra escrita e confesso que já me surpreendeu – só tenho pena de que
sinta a acentuação como uma extravagância das letras – mas esqueçamos os
acentos. coisa menor em comparação com a sua maior imperfeição. maior do que
uma volta ao mundo em cento e oitenta dias. a teimosia e a surdez – não escuta
nada e teima como ninguém – às vezes a herança de família é coisa ruim – sei do
que falo. não é fácil mas com o tempo habituámo-nos – mas uma mão não lava a
outra e em boa verdade vos digo que se fosse um artista ajuizado nunca me
entregaria à guarda as duas gajas caóticas – confesso que não me entendi com a
mensagem estética destes desenhos – a estética é o estudo que determina o
caráter da beleza. a harmonia das formas e o seu colorido. nestas gajas
estranhas não há. só o negro sobressai no branco do papel – as mulheres do meu
cunhado estão enclausuradas numa esquadria isóscele. desequilibrada nas formas
por dentro e por fora – são protegidas a vidro anti reflexo. duro. quase
inquebrável. como se fossem importantes. e eu. simples mortal. sem nenhuma arte
que me engrandeça. sempre que as olho desconchavo-me. percorro-lhes as feições
e não encontro ponta de harmonia. confusão é tudo que enfrento – confesso que
fico sem saber se esta nasce nos quadros ou se está instalada no escritório –
neste escritório quase tudo é confusão e transtorno. quase tudo é incómodo.
quase tudo é sinónimo de desgraça. quase tudo já foi resgatado ao mundo do além
– tudo que por aqui sobrevive está na estante com livros à minha esquerda. pela
frente continua a janela para o desconhecido e pela direita as fotos que em
desespero me amarram a uma esperança que. mais não é. um fio de luz quase
imaginário – se o meu cunhado tivesse tido o bom senso de desenhar a sua irmã
tudo seria diferente. o escritório instalado num quadrado-sombrio tornar-se-ia
num retângulo-luz colossal. o desarrumado passaria a arte contemporânea e a
desorganização seria sistematização. a janela absorveria toda a arte do mundo
para o seu interior e o negro cairia nos braços do branco – para desenhar a sua
irmã o meu cunhado não necessitaria de arte. bastava-lhe papel vegetal. um
lápis de crayon fino. um par de olhos delicados. uma mão ágil e um pulso firme
para decalcar o belo para um papel virgem de tudo – não tinha que inventar a
cor dos olhos. bastava-lhe pintar o céu no seu interior. ou a cor do amor.
mesmo daquele que é feito com o corpo. com gemidos e no fim aquele abraço que
magoa porque sabemos que não é possível dormir nele para sempre – a sua irmã é
bela. é harmonia. é chama para sempre. como para sempre são os pássaros que
voam nos nossos olhos quando descobrimos o amor de uma vida – tudo que vive no
céu é eterno como eterno fico eu quando adormeço no seu olhar – mas o meu
escritório sempre esteve aberto ao mundo e o mundo do meu cunhado ocupou-me uma
parede com duas mulheres sem nome. sem passado e sem futuro para além de
continuarem a encher uma das paredes da minha vida – que posso eu fazer com
duas mulheres que não me largam as costas? se estivessem de frente era bem
pior. com aquele cabelo ondulado. parado. com curvas e contracurvas. em
conflito com as sombras. as sombras da luz que me alumia e as sombras do
passado que não me largam – estas mulheres. desenhadas pelo meu cunhado numa
noite fodida. nunca tiveram uma única palavra que se ouvisse. são mudas para
mim e para o mundo. não tem paixão. nem calor. nem ardor. nem tesão. nem nunca
se enrodilharam para um único orgasmo colossal – se o meu cunhado estivesse
bem. não tivesse tido um congestionamento de arte nessa noite fodida. teria
substituído aqueles cabelos tresloucados pelo cabelo da sua irmã: dourado-ouro.
comprido. estendido de luz. de bondade. de tolerância. de paz. de
companheirismo. de um beijo que arrasta os lábios para mel e ali ficamos a
ver-nos olhos nos olhos. e as horas passam a anos que não sabemos nem queremos
contar – ao lado da irmã do meu cunhado eu sou um príncipe encantado e tudo
porque me entreguei a um beijo sem tempo – um beijo talhado para meu
destino final – gosto de a amar. gosto de a ter dentro de mim – se não tivesse
tanto dela dentro de mim não saberia que as estrelas só brilham por amor e que
as mãos só abraçam o que lhes cabe dentro da sua palma – se eu não te tivesse
tanto dela dentro de mim nunca saberia que se pode morrer de uma saudade que
ainda não o é mas que vai ser por um destes dias – eu amo uma mulher que não me
cabe dentro da palma da mão – também um dia o meu cunhado vai saber que o amor
quando é grande não cabe dentro da palma de uma mão – nunca nenhum artista se
sentiu realizado quando experimentou recriar o amor como obra de arte.
fosse ele música. pintura. escultura ou palavra – o amor é maior de que
qualquer obra seja de arte ou não – a tua irmã é assim. maior do que a palavra.
maior do que a minha palma da mão. maior do que a minha vida – só temos uma
vida. mas uma vida absoluta só permite ter um único grande amor – eu tive o meu
– mas o meu cunhado numa noite fodida inventou a tristeza. coisa só possível
pelos grandes artistas – já não basta a que carrego de nascença e ainda me
trouxe para casa duas mulheres ilegítimas. feias e tristes – que raio de ideia
cunhado. estavas com medo que eu atravancasse o mundo com uma escrita
maluca e as senhoras seriam a distração – enganaste-te. não sou do mundo. sou
da tua irmã – um dia. quando apanhar o meu cunhado de bem com o mundo. vou pedir-lhe
para dar cor aos quadros. colorir as senhoras com um lápis verde-primaveril com
laivos de azul criança – há cores que não nos largam a perna – mas o meu
cunhado é um artista ainda em segredo como em segredo está a arte que lhe vem
dos antepassados – um artista em que o dom provém dos seus antecessores pode
juntar as cores como bem entender. até pode juntar ao azul e verde um pouco de
lilás compaixão que tudo terminará sempre num branco branco. inocente e puro
como as flores que colhe quando amassa o barro com virtude – um artista só
existe enquanto for capaz de sonhar – quero para ele muito sonhos. sorrisos.
quero muitos lápis. um palete de cores deles. barro e papel de todos as
gramagens e aparos mergulhados em tinta aqui e na china. e também na américa e
também em angola que foi onde o teu pai e o meu sogro deu tropa – quero que
essa arte nascida no teu criador cresça agora nas mãos do teu filho para que um
dia ele te possa escrever melhor do que eu – quero que as bocas falem por todo
o mundo do que fazes e do que ainda vais fazer. quero que acredites nos sonhos
com os olhos abertos e que cresçam em bem-aventurança como os pássaros crescem
nos olhos quando estão pintados com a cor do céu – quero que lhes digas por ti
e por mim que as famílias só existem porque nenhuma obra de arte é mais bonita
de que o amor com que a amamos – eu amo a minha e a tua família. a nossa
família. amo também os meus amigos porque sem amigos não somos nada. amo os
animais. as flores e as palavras e só não me amo a mim porque o que me resta de
amor já só chega para preencher os olhos da tua irmã – nada me separará dela.
nem a fome. nem a doença. nem o erro. nem a desilusão. nem o pecado. nem a
vontade de uma maldição que me ata a uma corda que é descanso – e aqui
estou eu preso a uma secretária que me levará com as palavras ao fim – só
o que escrevo é eterno – digo apenas o que posso em cada instante de mim
desenhos assinados em 2000 - 18 anos de companhia
[desejo-te um bom ano]
[desejo-te um bom ano]
31/12/2017
faleceu 2017. salve 2018
imagem - google
faz
hoje
um ano que publiquei a minha crónica de despedida do ano 2017 – habituei-me a
fazê-lo anualmente num gênero de balanço emocional – o ano passado a escrita
foi marcada pela raiva. estava
desiludido. zangado com o destino e sentia o mundo às costas – sempre gostei
de metáforas hiperbolizadas – hoje.
percebo que não era a mãe de todas as raivas mas era unicamente a
sensação-confirmação de que deus. seja
a identidade que for. não vê tudo ou
está desatento – este ano. o dito
deus. continua ausente. não me liga nenhum. não me ama como seria pressuposto
amar e também não está em todos os lugares como também seria pressuposto estar
– na crónica de 2017 lembro-me de me conter nas palavras ordinárias. dissimulei-as. enfarpelei-as com etiqueta.
embebedei-as com vasilhames alcoólicos que me ofereceram pela festa do santo
natal e de seguida. matei-as como se
matam os perus. depois. depois foi só temperá-las com uma
manada de sal em pedra. levá-las ao
calor da vida e finalmente empratá-las como se fosse um chefe agraciado com
estrelas michelin – foi a forma que encontrei de proteger os meus familiares. amigos e amigos leitores do meu “año
horrible” – foi um ano muito mau e como dizem os nossos nuestros hermanos: no creo en brujas. pero que las hay. las
hay – passou um ano e as bruxas não me desocuparam o corpo. são sempre leais com quem amarga e geme. instalaram-se de malas e bagagens e não vejo forma de as despejar
– por tudo isto a raiva não desapareceu.
não diminuiu e creio até que dilatou – confesso-vos que me encontro perdido com
as palavras. não sei o que fazer
para que esta crónica-balanço. em oposição
à do ano passado. ofereça uma diferença positiva no seu conteúdo
– a minha vida está sistematizada pela adversidade. um género de existência em série. padronizada numa luta constante. com picos emocionais sofridos.
incontroláveis e exponenciados por uma dúvida existencial – salva-me o
pé-de-meia emocional. amealhado nos
anos dourados. permite-me agora ter
um fluxo do cash-flow positivo.
garantindo desta forma o autofinanciamento anímico-cerebral sem ter que
recorrer a químicos – tudo que tomo para me aguentar são palavras. analgésicas potentes que. depois de escritas. aliviam as mágoas aumentando os
intervalos das recaídas – mas voltando ao novo ano. o que vos posso garantir [mesmo] que vai mudar é a hora de
inverno com a chegada da primavera – [não se riam por favor. nem sempre sabemos ou vemos o óbvio] – também vos posso afiançar
que em abril. se lá chegar. irei ficar mais velho um ano. certificando de vez a qualidade das
minhas dores das costas – tudo o resto que possa dizer em relação às minhas
expectativas aviso-vos que pode muito bem ser parte de uma maquiavélica
maquinação do professor cuecas com um novo conto do vigário. desta vez numa história de banda desenhada – infelizmente também
não mudarei o rating da fé. está no
lixo e não creio que suba qualquer nível em 2018. tal e qual como o meu país o meu problema é estrutural. gasto mais tempo a pensar do que a
produzir – olho para o 2018 apenas como o calendário olha para mim: tens os dias contados. comunico-te que acabas de consumir
mais um dia da tua existência. estás
cada vez mais perto de tombar para a eternidade – que sorte – do 2017 quero
apenas recordar o casamento do meu filho.
fui muito feliz nesse dia.
oficializei a nora. sei que não era
necessário porque já me estava no coração.
nunca lho disse porque não sei falar.
todo o mundo sabe que não me dou bem com a oralidade. mas a minha intuição diz-me que ela já sabia e que o meu filho
também sabia porque os filhos quando se fazem adultos sabem tudo dos pais –
antigamente era eu que sabia tudo deles.
tudo mudou. envelheci por dentro e
por fora. mas amo-os
incondicionalmente – com a idade aprendemos a amar só com o coração. não necessitamos de os ver. tocar ou ouvir. amamos porque sabemos que existem em nós para além de todos os
dogmas. eles são a única razão para
o mundo existir e brilhar – o ano 2017 é o ano das noras. o meu filho mais novo apresentou-me a mais que provável nova nora. bonita. simpática.
independente. comunicativa e
determinada. como eu gosto. espero que se saibam guardar no
coração com lealdade. a vida sem
lealdade não presta – por fim o meu filho do meio anunciou um novo
relacionamento e [finalmente] reconquistou a vontade e determinação para
terminar o seu curso superior – como sempre estarei inteiramente a seu lado. aguardo por esse dia desde a sua
chegada à escola. já dobramos tantos
cabos das tormentas. não há dia
nenhum que não torça por ele e já agora.
que deixe de fumar. não por mim
mas pela sua saúde – só quando os filhos atingem os seus objetivos nós
atingimos os nossos – e é desta forma que aguardo o falecimento de 2017
agradecendo-lhe unicamente não ter levado ninguém que morasse no meu peito –
tenho como certo que os amigos continuarão a usufruir do meu batimento afetivo
em 2018 – no que diz respeito à família tudo continua firme e rijo. a minha mãe de noventa e três anos dá
o exemplo prometendo estar por cá para 2019.
a lurdes. minha segunda mãe. quase nos oitenta anos continua a
teimar. o que vai ser de nós sem ela. devo tanto a esta mulher – da família da minha mulher faço figas
para que o meu sogro continue a lutar por todas as recordações. orgulho-me de fazer parte dessa vida
guardada e quero continuar vivo no seu olhar até 2019 – por fim. o que não muda à trinta e quatro anos
é a companhia da minha mulher. sempre
avançamos juntos e destemidos sobre os novos anos – assim será hoje. não há forma de os anos nos cansarem. brindaremos mais uma vez como
crianças. trocaremos um beijo que
nunca é igual e renovaremos os nossos votos de que estaremos unidos até que a
eternidade nos separe – amo-a mais por cada ano que passa – é ela que inventa o
sol que me ajuda a sorrir – obrigado também a todos aqueles que gastam o seu tempo
a ler as minhas palermices. vocês
são fantásticos. sem o vosso
companheirismo nada disto faria sentido – espero-vos em 2018 – grato como
sempre – feliz ano novo
23/12/2017
eu e:
pintura - álvaro cunhal
7.
a oferenda aos meus dois amigos
estes dois
pequenos excertos literários do escritor húngaro sándor mári - as velas ardem
até ao fim. é uma oferenda aos meus amigos tiago e josé antunes. um género de final replicado para as
duas crónicas anteriores – o livro. um
romance intenso. dedicado a uma
amizade entre dois homens. amigos de
infância inseparáveis. que se
encontram novamente quarenta anos mais tarde – uma reflexão penetrante e
pessoal sobre a amizade que sándor mári disseca com amor. afabilidade. nostalgia. tristeza e perdão – o autor. na derradeira fase do envelhecimento. compreendeu que só relativizando os
sentimentos é que conseguiria encontrar o indulto em si – sándor mári
ensina-nos a encarar a verdade mesmo quando ela se apresenta difícil. complicada e desagradável. sabendo que ainda assim ela será
sempre menos arrasadora do que a mentira – recuperar o passado para o questionar
é uma missão penosa sobretudo quando se trata de recuperar um amigo de infância
– neste romance o autor trouxe a verdade às palavras. a tolerância aos diálogos. o amor à compreensão e o perdão ao
coração
“O que é que se pode
perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com
palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as
pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas.
Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia.
Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a
verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o
seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à
realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o
carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não
seríamos mais sábios, nem mais protegidos...”
nunca é tarde para trazer os
amigos para emergência dos dias que ainda restam viver – nunca é tarde para resgatar
uma amizade da mágoa ou do esquecimento – a solidão. o silêncio e o envelhecimento dissipa de vez as multidões. o barulho e a escassez de tempo – com
a aproximação do fim para o corpo aprendemos o valor das coisas simples. da ausência. da saudade. do perdão
e da aceitação do desacerto – somos todos pecado e erro –
“ … Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro
envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se
tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e
fastidiosamente. Isso é também velhice. Quando já se sabe que um corpo não é
mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal,
faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não,
primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma
pessoa envelhece assim por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a
alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda
está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer.
E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a
vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia
acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te
traz, conheces tu com a exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários
habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não
te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces
todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem,
nem o mal… e isso é precisamente a velhice. Porém, há ainda algo vivo no teu
coração, uma recordação, algum objectivo da vida indefinido, gostarias de
tornar a ver alguém, gostarias de dizer ou saber alguma coisa, e sabes que um
dia chegará esse momento e então, de repente, já não será tão fatalmente
importante saber e responder à verdade, como pensaste durante as décadas de
espera. Uma pessoa compreende o mundo, pouco a pouco, e depois morre.
Compreende os fenómenos e a razão das acções humanas. A linguagem simbólica do
inconsciente… porque as pessoas comunicam os seus pensamentos por símbolos, já
reparaste?...”
o carácter de um homem é inalterável. não envelhece. não se perde – tenho a certeza de que os meus amigos continuam jovens no seu carácter – um dia chegará o
meu momento para resgatar todos os meus amigos silenciosos – escreveremos então
[todos] um novo tratado de amizade
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