.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

11/03/2018

a noite e os pássaros de ruy belo






gustavo rosa





é noite. vagueio. vagueio em ruas que aos poucos se fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite escura nasce a luz e com a luz renasce a esperança e sempre que há esperança os “pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é março. e é inverno em todo o mundo e em mim também. as noites estão cada vez mais escuras e eu sem saber o que fazer a tanta imensidão de negro – é noite. vagueio. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. a suplicar luz e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a escuridão não se veem as árvores e sem árvores não há pássaros e sem pássaros “as árvores não cantam” e a primavera não nasce – o que faz um homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão pássaros” – pergunto. que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros? calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor que sois dono de todas as coisas do mundo. dizei-me porque me roubaram as árvores. dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – e agora senhor em que mundo cantam os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros. sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater termo e a vida escorrer-se devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o doce sabor da primavera mesmo que os campos se cobram de medo e geada – não quero morrer longe de mim. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá os pendura nos ramos? e de quem é a mão. a inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono a anunciar inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que não servem para nada – imobilizo-me para ouvir o que não digo. o coração bate. ouço-o. ouço-o para saber que existo. e ele bate para se fazer sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado do coração e o silêncio do corpo. estamos sozinhos e o mundo abandonado de tudo que é meu – “gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente. trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia anterior e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro de mim porque fora já nada existe – até os pássaros de ruy belo partiram. foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros e só “os pássaros fazem cantar as árvores” eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não tenho nada além do que sobra de mim que não é nada – “eu [apenas] amo as árvores. principalmente as que dão pássaros”


este texto faz referência a algumas proposições com pássaros e árvores do poeta ruy belo e estão devidamente identificadas no texto



02/03/2018

e se...






imagem - google




leio a biografia de ernest hemingway e resisto à sua dor numa contemplação silenciosa e serena – interrogo-me. como seria eu se tivesse nascido em mil novecentos e sessenta e um? e se tivesse nascido na américa? e se trocasse a minha coca cola zero e me afundasse em álcool? e se a guerra infindável da minha escrita começasse a perguntar por quem os sinos dobram? não sei o que seria. em boa verdade nada sei. acreditem. nem sei muito o que é que me leva a escrever este texto meio maluco. afinidades. creio – hoje. com o hemingway por perto. estou convencido de que se fosse possível cavar um buraco a partir da minha terra este iria dar à américa. chegado lá. só teria que comprar uma arma para matar as palavras. não as que escrevo. porque essas já nascem mortas. as que me vivem na cabeça e que me enganam com esperança – estamos em dois mil e dezoito. março. às portas da primavera e do inferno e eu num ato de contrição: por minha culpa. máxima culpa vos escrevo não o que tenho na cabeça mas o que me falta nas mãos – sossego. afinal nunca saí de onde estou. sou desta terra de portas abertas e que tudo vê por um canudo. finjo-me morto e entrego-me ao pensamento até que uma voz me resgate para o barulho do mundo – morrer não é uma chatice é um desígnio que compramos e nos permite nascer. só não nos dizem o dia em que partimos. iludem-nos com tempo. como se o tempo fosse uma equação simples de calcular. não é. nem sempre viver cem anos é melhor do que cinquenta – viver é conduzir numa autoestrada em hora de ponta a duzentos quilómetros por hora. fazer dois piões. entrar por uma galgueira. andar em duas rodas. evitar trinta e três acidentes enquanto falamos ao telemóvel e sorrimos para o retrovisor com desdém porque o que fica para trás já não nos serve para nada – ninguém quer saber o que fizeste. só o presente faz futuro – quando damos conta chegamos ao destino meia hora mais cedo com a sensação de que o mundo está todo atrasado – estamos no nosso velório. louvado seja o senhor





28/02/2018

deambulações noturnas XXIV





pintura - fábio magalhães 




neste quarto onde deixei de me admirar já pouco ou nada resta meu. talvez alguns livros por ler e muita vida por aprender – mas sei que será este quarto que não me viu nascer que um dia me verá morrer



14/02/2018

vai





pintura - salvado dali



não desistas corpo notívago. vai atrás do que é teu. vai. corre muito. corre como correm os clarões em noites de tempestade – vai. vai por esse mundo imaginário e inventa-te em marte. por lá. tenho a certeza de que há lugar para ti mesmo que te cuidem extraterrestre – não te zangues. verás que um dia serás mais do que a tua imaginação. mais que a tua intuição. mais do que escreves nas entrelinhas. serás das ruas com gente a correr de um lado para o outro. dos carros a apitar movimento. dos maus a fugir dos bons. das sirenes a zumbir cuidados e dos tolos. dos tolos meu deus. cada vez mais tolos fogem dos que ainda não são tolos – o mundo esticado ao centímetro quadrado. o corpo esticado ao centímetro quadrado. a alma esticada ao centímetro quadrado. a fé esticada ao centímetro quadrado e a incerteza parada em cada centímetro e o quadrado enfeitado de malmequeres brancos capricha uma janela que não para de dizer: há mais mundo para além do teu medo – sou tanto. tanto para dar e tanto por fazer – mas vai. vai por esse mundo fora. corre. corre muito porque marte é longe e o teu coração já não é novo. vai. vai que a fé já foi à tua frente e a vida está pela hora da morte. dobra-te na tua cruz e ora ao teu deus que por ser teu é o deus de todos os deuses. vai. vai em sinal da cruz porque só na janela há esperança. a morte é negrura. às vezes solução mas sempre solidão – um dia. os néons deixarão de piscar possibilidades que não te cabem nos olhos. os bons nunca mais fugirão dos maus. as ruas correrão atrás das pessoas e os tolos distribuirão malmequeres pelos não tolos – ó meu deus. porque será que quando vou nunca saio de onde estou? talvez o mundo seja maior do que uma viagem a marte. talvez não saiba voar no espaço como voam as gaivotas no mar. talvez seja quase do tamanho do nada e tudo que é nada nunca será mais nada. talvez os pés sejam minúsculos e demorem a caminhar. as mãos atrofiadas. o corpo mirrado. corcunda. feio. tão feio que ninguém me quer olhar. nem deus – talvez seja tudo ou apenas só eu – mas vai. parte com coragem. faz-te ao tempo interstelar. inventa ventos meteóricos. manda foder a rosa dos ventos e todos os azimutes convergentes com a desgraça. abre a janela ao espaço sideral e grita o teu nome. grita como um selvagem. grita como se o grito fosse a tua história de vida. grita como grita a cigarra em noite de cio. grita como grita a corda saudosa na guitarra do fadista – vai. vai e despe a raiva para trás das costas e atirara-te ao espaço em silêncio e luta. luta por ti e por aqueles que te deram vida e se morreres. morre de sorriso na boca porque o que não tem remédio remediado está – afinal és apenas um mortal numa galáxia empanturrada de desejos – vai. vai vertical pela noite. vai. vai rastejante pelo dia. mas vai. vai para onde te possas encontrar






21/01/2018

eu e:







pintor - miguel ângelo







10.    eu e a vida

viver é esgotar o tempo da vida. mais nada




eu e:






pintura - gaetano cresseri






9.    eu e a minha circunferência


quase tudo por dizer e eu perdido entre um quarto quase quadrado e o instante nove – perdido ou não. será deste quarto quase quadrado que continuarei a procurar a essência das coisas em mim – busco o autoconhecimento e procuro em todas as coisas o que elas realmente são – reflito em cuidado. aceito-me com incertezas e afirmo-me como um ser que é como é porque a verdade não me deixa ser outra coisa para além do que sou – penso. sou único e indivisível mesmo quando a minha consciência se divide entre a verdade das coisas em mim e a verdades das coisas fora de mim – sou uma existência metafísica e procuro explicações em toda a humanidade e. com lucidez. brio e bondade. talvez aprenda a compreender a minha verdade mesmo que não absoluta – é com esta carência estrutural que me busco incansavelmente porque tudo o que sou está dentro de mim; procuro-me para além do que sinto. procuro-me porque tudo o que sinto não sei se é verdade – e assim digo. como ser racional: sempre acreditei que para que a verdade fosse realmente verdade bastasse sentir já que tudo que sinto parte de dentro de mim e eu não posso ser mentira – mas não. não chega. o que sinto nunca chega para que a [minha] verdade se torne suprema. logo. inalterável no tempo e em mim porque todo o tempo é absoluto e uniforme – juro que não quero ser mais nada do que sinto. tudo que procuro em mim é a verdade em todas as coisas assente no padrão da minha universalidade – procuro. procuro a verdade em tudo que sinto porque a quero como a única verdade dentro de mim e fora de mim mas confesso. temo não a encontrar. a vida nem sempre tem método e coerência. se tivesse. não sentiria o que sinto – sei que é na partilha do que sinto que a minha verdade colide com a verdade do que os outros sentem. mas não posso calar. não posso acovardar. não posso ignorar o apelo da minha verdade para ser universal. só com esta verdade serei eu dentro ou fora de mim – às vezes excluo-me. recuso-me a fazer parte das iniquidades. cego-me. escondo-me em mim com tudo que sinto e desapreço sem tempo para voltar. mas em momentos mais nobres. atiro-me para o coração do mundo e faço justiça com as palavras. magoo-me e sangro a raiva de tudo que não quero sentir – nunca sei se o que sinto é a verdade eterna ou apenas a verdade no momento – talvez não exista a verdade absoluta como também não existe meia verdade. talvez tudo não passe de um embuste do criador para me convencer de que só como ser divino atingirei a plenitude da vida e é obra dele tudo o que sinto e também o que não quero sentir – seria imaculadamente uma criatura de deus. um ser vivente criado a partir do pó da terra e do barro. missionário da fé e da sua glória. destino apalavrado no dia em que os meus pais. por via do batismo. me fizeram seu servo e vassalo de todos os seus humores – terei então em todas as coisas deus. tudo o que sinto. dentro e fora de mim. é unicamente o que ele quer que eu sinta e mais nada poderei sentir ou deixar de sentir sem a sua permissão – estou encrustado com a fé de deus. nascido para a virtude. adverso ao erro. em busca do aperfeiçoamento. do meu e dos outros. amante de todas as criações do mundo. da água. da terra. do ar. do fogo e o inferno é o que sinto sem saber o porquê de deus me entregar em vida às labaredas de satanás – e sem dar conta. em busca da minha verdade absoluta. reapareci como homem de deus. eu que estava zangado com o criador desde a morte de meu pai – onde estavas nesse dia? nunca me deste uma palavra. pregaste-me uma cruz na memória – nunca fiz nada na vida para te desiludir. procurei-te na verdade porque me ensinaste que só na verdade um homem encontra o caminho da luz – qual luz? qual caminho? a única coisa que me trouxeste fui a dúvida e a minha desumanização. renunciei-te para sobreviver – envelheci. tornei-me mais do meu mundo e menos do teu. abandonei a imortalidade e estou-me nas tintas para o paraíso. habituei-me ao inferno. iluminei-me na dor. na misericórdia e todo o mal será perdoado com sete pés de terra – todo o homem é ingénuo e pateta porque todo o homem com ou sem deus é pateta em algum momento da vida – não sei se sou muito ou pouco pateta sei apenas que neste momento me sinto enganado. purificaram-me com água benta estragada. não tinha a bênção de deus nem o seu caminho. continuo à procura de uma verdade que não encontro em lado nenhum. nem em deus – raio de caturrice. bem sei que errar é humano mas só os idiotas é que perseveram no erro. não se pode alterar o que nasce no corpo por ordem do sagrado – só com a morte saberei realmente com que verdade vivi a vida. talvez a tenha vivido em erro. mas ainda não morri. ainda me procuro. ainda procuro a verdade suprema porque já não tenho mais nada para procurar para além de saber o que realmente sou e porque sou – sei que um dia a minha verdade será feita apenas do que fui porque o futuro já nada alterará – nesse momento nenhuma idiotice fará mais sentido. a verdade será aquela que cada um quiser lembrar. eu estarei morto. serei apenas um ser humano frio e parado no destino – enquanto for lembrado serei sempre uma verdade em vós e em cada um de vós. estarei vivo – com a minha morte morrerá para sempre a minha verdade. a que vive dentro de mim – e assim me procuro em desespero. procuro o que está certo. mais nada do que certo. porque tudo que está certo nunca poderá ser mentira e um homem certo é um homem de verdade e essa verdade em si será também verdade nos outros – não há duas verdades quando há apenas um homem em si e fora de si – só a verdade será capaz de responder com conhecimento. mas não interessa. sou o que sou quando o que sinto deveria ser outra coisa qualquer – afinal aonde fica a verdade? sou o que sou pelo o que sinto. pelo que não sinto ou quando enfrento o que sou. por sentir que sou outra coisa – sou afinal o quê? não sei. palavra de honra que não sei e talvez por isso me procuro em tudo que sinto fora e dentro de mim e tudo que sinto me faz sentir o que não quero sentir – às vezes acredito que a verdade suprema só existe no que escrevo pois escrevo apenas o que sinto. mas também aqui tenho dúvidas. quando leio de frente para trás já não sinto nada do que senti e fico sem saber se a verdade está no que escrevo ou no que leio – a verdade absoluta é uma ilusão e a sua procura o primeiro sintoma de uma maldição divina ou interestelar. sou apenas mais um instante infinitamente pequeno de dúvidas do universo – a vida acontece porque ocorre uma explosão. uma dúzia de átomos colidem uns com os outros e o tempo fez o resto. o homem aparece – sou o desacerto dessa explosão. os químicos baralharam-se no rebentamento e aqui estou à procura da verdade na essência das coisas. as que estão dentro de mim e também as que estão fora de mim – sou uma verdade dentro de uma outra verdade do mundo. um tropeção na sua perfeição – estou arrasado e com medo. sei que o meu tempo não é infinito porque a morte acontece no corpo e quando um corpo morre leva consigo toda a verdade – não sei se sou único dentro de mim. talvez sejamos dois ou três ou quem sabe mais. mas se o corpo os aceita e se todos procuram o mesmo. então tudo que sai de mim só pode ser verdade – sou então o quê? e em que percentagem? e que juiz encontrarei para decidir o que há de bom e de mau. o que fiz bem e o que fiz errado. o que amei e o que não amei. o que sinto de verdade e o que sinto que não é verdade. porque seja lá o que for. uma coisa sei. eu sinto – não sei se o que sinto me faz totalmente verdadeiro porque não sei se é totalmente verdade. o que posso garantir é que sinto o meu corpo no mundo e a cabeça prisioneira do que sinto – e se não encontrar salomão serão os que não compreendem o que sinto que me julgarão? por mais sábio que seja o mundo nunca me saberá julgar pois sou uma milésima parte desse universo que corresponde a um homem e um homem não vale por todo o mundo mas tem um mundo dentro de si – também não quero ser julgado pelos que me aceitam pois apenas conhecem de mim o que compreendem e eu sou muito mais – procuro-me cada vez com menos argumentos para dizer que não encontro a verdade do que sinto. o mundo afinal é mais do que uma verdade. é muito mais do que sinto – talvez o problema seja meu. talvez eu não saiba compreender o mundo para além do que sinto. não importa. já não importa o que o mundo faz comigo. o que importa mesmo é o que faço com o que o mundo me faz – faço muito pouco. só faço o que sinto e neste momento já não sinto quase nada – sei que penso e volto a pensar mas quando saio para fora do meu quarto o mundo que pensei não existe e quando me encontro descubro que também não existo porque nada do que pensei existe e no quarto quase quadrado todas as dúvidas sobre a existência acabam mortas na incerteza do que sinto – sou a minha verdade e a verdade do mundo e nunca poderei ser outra coisa. e a ela terei que me habituar porque o meu quarto é uma ilha cercada do mundo onde vivo – sinto que quando escrevo esqueço o mundo. encho-me de silêncio. entrego-me ao mistério e parto desferrado para dentro de mim numa interminável agonia. rasgo-me e aguilhoou-me por não saber escrever o que sinto – quando escrevo procuro-me unicamente no que sinto porque a verdade não existe em mais lado nenhum a não ser no que se sente – mato-me de tempo e persistência – mas quando paro de escrever reapareço e tudo o que sinto não serve para nada porque o mundo não sente um homem. o homem é que sente o mundo – é janeiro. e sempre que o janeiro existe sou lembrança e todas as coisas deixam de ser coisas e todas as gaivotas se apagam no castanho triste dos olhos – mas quando paro de escrever sou outra vez dezembro porque é no dezembro que sinto o que não sinto em mais mês nenhum – em dezembro aqueles que amo estão-me pregados às mãos e não sinto mais nada que não seja o sentir do que sentem por mim – mas aqui. neste quarto feito de mim. rodeado de paredes que por serem feitas de silêncio aprenderam a ouvir-me em tudo que sinto e não sei escrever – neste quarto quase quadrado vivo uma quadratura em circunferência apertada com tudo o que sinto e me faz ser o que sou: sou a minha família. sou os meus amigos. sou os meus leitores e sou todas as páginas que escrevi – tudo o resto para vos falar o que sinto não sei se é verdade ou permanece vivo – aquilo que não amei e não escrevi não sei se existe  





04/01/2018

eu e:





foto de autor





       8.    eu e as mulheres do meu cunhado 

atrás de mim. em guarda. dois A4 emoldurados numa geometria escangalhada –  o lápis do meu cunhado amantizou-me com dois protótipos de mulheres surreais. estranhas nas formas. indefinidas na beleza – consigo apreender que uma está nua e outra vestida. uma está de costas numa janela escancarada enquanto a outra existe rodeada de livros – em simetria apenas um olho negro e o cabelo ondulado – pouca coisa para duas mulheres que ocupam totalmente a minha parede norte – só ainda não compreendi porque raio é que o meu cunhado lhes pintou um olho de negro. provavelmente para me alertar que o destino dos meus olhos pode ficar igual se não tiver cuidado com a escrita – pensando melhor. talvez seja uma mensagem codificada: desde do dia que levaste a minha irmã que tenho dois murros para te dar – ao certo mesmo confesso que não sei. sei que são coisas do meu cunhado que nem sempre bate bem do miolinho – os artistas são assim.  tem devaneios que ninguém percebe. excentricidades – o meu cunhado é um grande artista com um bonito coração. sei que as suas mãos nunca seriam capazes de magoar o que quer que fosse – mas atenção. não deixa de ser um cunhado desviante nos equilíbrios artísticos. principalmente na comunicação das formas e na sua estética – não é fácil tocar bem vários instrumentos: arquitetura. belas-artes. desenho. escultura. tudo isto num longo caminho de confrontos diários com a estética-beleza-realidade – ultimamente resolveu acrescentar às mãos a palavra escrita e confesso que já me surpreendeu – só tenho pena de que sinta a acentuação como uma extravagância das letras – mas esqueçamos os acentos. coisa menor em comparação com a sua maior imperfeição. maior do que uma volta ao mundo em cento e oitenta dias. a teimosia e a surdez – não escuta nada e teima como ninguém – às vezes a herança de família é coisa ruim – sei do que falo. não é fácil mas com o tempo habituámo-nos – mas uma mão não lava a outra e em boa verdade vos digo que se fosse um artista ajuizado nunca me entregaria à guarda as duas gajas caóticas – confesso que não me entendi com a mensagem estética destes desenhos – a estética é o estudo que determina o caráter da beleza. a harmonia das formas e o seu colorido. nestas gajas estranhas não há. só o negro sobressai no branco do papel – as mulheres do meu cunhado estão enclausuradas numa esquadria isóscele. desequilibrada nas formas por dentro e por fora – são protegidas a vidro anti reflexo. duro. quase inquebrável. como se fossem importantes. e eu. simples mortal. sem nenhuma arte que me engrandeça. sempre que as olho desconchavo-me. percorro-lhes as feições e não encontro ponta de harmonia. confusão é tudo que enfrento – confesso que fico sem saber se esta nasce nos quadros ou se está instalada no escritório – neste escritório quase tudo é confusão e transtorno. quase tudo é incómodo. quase tudo é sinónimo de desgraça. quase tudo já foi resgatado ao mundo do além – tudo que por aqui sobrevive está na estante com livros à minha esquerda. pela frente continua a janela para o desconhecido e pela direita as fotos que em desespero me amarram a uma esperança que. mais não é. um fio de luz quase imaginário – se o meu cunhado tivesse tido o bom senso de desenhar a sua irmã tudo seria diferente. o escritório instalado num quadrado-sombrio tornar-se-ia num retângulo-luz colossal. o desarrumado passaria a arte contemporânea e a desorganização seria sistematização. a janela absorveria toda a arte do mundo para o seu interior e o negro cairia nos braços do branco – para desenhar a sua irmã o meu cunhado não necessitaria de arte. bastava-lhe papel vegetal. um lápis de crayon fino. um par de olhos delicados. uma mão ágil e um pulso firme para decalcar o belo para um papel virgem de tudo – não tinha que inventar a cor dos olhos. bastava-lhe pintar o céu no seu interior. ou a cor do amor. mesmo daquele que é feito com o corpo. com gemidos e no fim aquele abraço que magoa porque sabemos que não é possível dormir nele para sempre – a sua irmã é bela. é harmonia. é chama para sempre. como para sempre são os pássaros que voam nos nossos olhos quando descobrimos o amor de uma vida – tudo que vive no céu é eterno como eterno fico eu quando adormeço no seu olhar – mas o meu escritório sempre esteve aberto ao mundo e o mundo do meu cunhado ocupou-me uma parede com duas mulheres sem nome. sem passado e sem futuro para além de continuarem a encher uma das paredes da minha vida – que posso eu fazer com duas mulheres que não me largam as costas? se estivessem de frente era bem pior. com aquele cabelo ondulado. parado. com curvas e contracurvas. em conflito com as sombras. as sombras da luz que me alumia e as sombras do passado que não me largam – estas mulheres. desenhadas pelo meu cunhado numa noite fodida. nunca tiveram uma única palavra que se ouvisse. são mudas para mim e para o mundo. não tem paixão. nem calor. nem ardor. nem tesão. nem nunca se enrodilharam para um único orgasmo colossal – se o meu cunhado estivesse bem. não tivesse tido um congestionamento de arte nessa noite fodida. teria substituído aqueles cabelos tresloucados pelo cabelo da sua irmã: dourado-ouro. comprido. estendido de luz. de bondade. de tolerância. de paz. de companheirismo. de um beijo que arrasta os lábios para mel e ali ficamos a ver-nos olhos nos olhos. e as horas passam a anos que não sabemos nem queremos contar – ao lado da irmã do meu cunhado eu sou um príncipe encantado e tudo porque me entreguei a um beijo sem tempo – um beijo talhado para meu destino final – gosto de a amar. gosto de a ter dentro de mim – se não tivesse tanto dela dentro de mim não saberia que as estrelas só brilham por amor e que as mãos só abraçam o que lhes cabe dentro da sua palma – se eu não te tivesse tanto dela dentro de mim nunca saberia que se pode morrer de uma saudade que ainda não o é mas que vai ser por um destes dias – eu amo uma mulher que não me cabe dentro da palma da mão – também um dia o meu cunhado vai saber que o amor quando é grande não cabe dentro da palma de uma mão – nunca nenhum artista se sentiu realizado quando experimentou recriar o amor  como obra de arte. fosse ele música. pintura. escultura ou palavra – o amor é maior de que qualquer obra seja de arte ou não – a tua irmã é assim. maior do que a palavra. maior do que a minha palma da mão. maior do que a minha vida – só temos uma vida. mas uma vida absoluta só permite ter um único grande amor – eu tive o meu – mas o meu cunhado numa noite fodida inventou a tristeza. coisa só possível pelos grandes artistas – já não basta a que carrego de nascença e ainda me trouxe para casa duas mulheres ilegítimas. feias e tristes – que raio de ideia cunhado. estavas com medo que eu  atravancasse o mundo com uma escrita maluca e as senhoras seriam a distração – enganaste-te. não sou do mundo. sou da tua irmã – um dia. quando apanhar o meu cunhado de bem com o mundo. vou pedir-lhe para dar cor aos quadros. colorir as senhoras com um lápis verde-primaveril com laivos de azul criança – há cores que não nos largam a perna – mas o meu cunhado é um artista ainda em segredo como em segredo está a arte que lhe vem dos antepassados – um artista em que o dom provém dos seus antecessores pode juntar as cores como bem entender. até pode juntar ao azul e verde um pouco de lilás compaixão que tudo terminará sempre num branco branco. inocente e puro como as flores que colhe quando amassa o barro com virtude – um artista só existe enquanto for capaz de sonhar – quero para ele muito sonhos. sorrisos. quero muitos lápis. um palete de cores deles. barro e papel de todos as gramagens e aparos mergulhados em tinta aqui e na china. e também na américa e também em angola que foi onde o teu pai e o meu sogro deu tropa – quero que essa arte nascida no teu criador cresça agora nas mãos do teu filho para que um dia ele te possa escrever melhor do que eu – quero que as bocas falem por todo o mundo do que fazes e do que ainda vais fazer. quero que acredites nos sonhos com os olhos abertos e que cresçam em bem-aventurança como os pássaros crescem nos olhos quando estão pintados com a cor do céu – quero que lhes digas por ti e por mim que as famílias só existem porque nenhuma obra de arte é mais bonita de que o amor com que a amamos – eu amo a minha e a tua família. a nossa família. amo também os meus amigos porque sem amigos não somos nada. amo os animais. as flores e as palavras e só não me amo a mim porque o que me resta de amor já só chega para preencher os olhos da tua irmã – nada me separará dela. nem a fome. nem a doença. nem o erro. nem a desilusão. nem o pecado. nem a vontade de uma maldição que me ata a uma corda que é  descanso – e aqui estou eu preso a uma secretária que me levará com as palavras ao fim  – só o que escrevo é eterno – digo apenas o que posso em cada instante de mim

desenhos assinados em 2000 - 18 anos de companhia

[desejo-te um bom ano]










31/12/2017

faleceu 2017. salve 2018





imagem - google



faz hoje um ano que publiquei a minha crónica de despedida do ano 2017 – habituei-me a fazê-lo anualmente num gênero de balanço emocional – o ano passado a escrita foi marcada pela raiva. estava desiludido. zangado com o destino e sentia o mundo às costas – sempre gostei de metáforas hiperbolizadas – hoje. percebo que não era a mãe de todas as raivas mas era unicamente a sensação-confirmação de que deus. seja a identidade que for. não vê tudo ou está desatento – este ano. o dito deus. continua ausente. não me liga nenhum. não me ama como seria pressuposto amar e também não está em todos os lugares como também seria pressuposto estar – na crónica de 2017 lembro-me de me conter nas palavras ordinárias. dissimulei-as. enfarpelei-as com etiqueta. embebedei-as com vasilhames alcoólicos que me ofereceram pela festa do santo natal e de seguida. matei-as como se matam os perus. depois. depois foi só temperá-las com uma manada de sal em pedra. levá-las ao calor da vida e finalmente empratá-las como se fosse um chefe agraciado com estrelas michelin – foi a forma que encontrei de proteger os meus familiares. amigos e amigos leitores do meu “año horrible” – foi um ano muito mau e como dizem os nossos nuestros hermanos: no creo en brujas. pero que las hay. las hay – passou um ano e as bruxas não me desocuparam o corpo. são sempre leais com quem amarga e geme. instalaram-se de malas e bagagens e não vejo forma de as despejar – por tudo isto a raiva não desapareceu. não diminuiu e creio até que dilatou – confesso-vos que me encontro perdido com as palavras. não sei o que fazer para que esta crónica-balanço. em oposição à do ano passado. ofereça uma diferença positiva no seu conteúdo – a minha vida está sistematizada pela adversidade. um género de existência em série. padronizada numa luta constante. com picos emocionais sofridos. incontroláveis e exponenciados por uma dúvida existencial – salva-me o pé-de-meia emocional. amealhado nos anos dourados. permite-me agora ter um fluxo do cash-flow positivo. garantindo desta forma o autofinanciamento anímico-cerebral sem ter que recorrer a químicos – tudo que tomo para me aguentar são palavras. analgésicas potentes que. depois de escritas. aliviam as mágoas aumentando os intervalos das recaídas – mas voltando ao novo ano. o que vos posso garantir [mesmo] que vai mudar é a hora de inverno com a chegada da primavera – [não se riam por favor. nem sempre sabemos ou vemos o óbvio] – também vos posso afiançar que em abril. se lá chegar. irei ficar mais velho um ano. certificando de vez a qualidade das minhas dores das costas – tudo o resto que possa dizer em relação às minhas expectativas aviso-vos que pode muito bem ser parte de uma maquiavélica maquinação do professor cuecas com um novo conto do vigário. desta vez numa história de banda desenhada – infelizmente também não mudarei o rating da fé. está no lixo e não creio que suba qualquer nível em 2018. tal e qual como o meu país o meu problema é estrutural. gasto mais tempo a pensar do que a produzir – olho para o 2018 apenas como o calendário olha para mim: tens os dias contados. comunico-te que acabas de consumir mais um dia da tua existência. estás cada vez mais perto de tombar para a eternidade – que sorte – do 2017 quero apenas recordar o casamento do meu filho. fui muito feliz nesse dia. oficializei a nora. sei que não era necessário porque já me estava no coração. nunca lho disse porque não sei falar. todo o mundo sabe que não me dou bem com a oralidade. mas a minha intuição diz-me que ela já sabia e que o meu filho também sabia porque os filhos quando se fazem adultos sabem tudo dos pais – antigamente era eu que sabia tudo deles. tudo mudou. envelheci por dentro e por fora. mas amo-os incondicionalmente – com a idade aprendemos a amar só com o coração. não necessitamos de os ver. tocar ou ouvir. amamos porque sabemos que existem em nós para além de todos os dogmas. eles são a única razão para o mundo existir e brilhar – o ano 2017 é o ano das noras. o meu filho mais novo apresentou-me a mais que provável nova nora. bonita. simpática. independente. comunicativa e determinada. como eu gosto. espero que se saibam guardar no coração com lealdade. a vida sem lealdade não presta – por fim o meu filho do meio anunciou um novo relacionamento e [finalmente] reconquistou a vontade e determinação para terminar o seu curso superior – como sempre estarei inteiramente a seu lado. aguardo por esse dia desde a sua chegada à escola. já dobramos tantos cabos das tormentas. não há dia nenhum que não torça por ele e já agora. que deixe de fumar. não por mim mas pela sua saúde – só quando os filhos atingem os seus objetivos nós atingimos os nossos – e é desta forma que aguardo o falecimento de 2017 agradecendo-lhe unicamente não ter levado ninguém que morasse no meu peito – tenho como certo que os amigos continuarão a usufruir do meu batimento afetivo em 2018 – no que diz respeito à família tudo continua firme e rijo. a minha mãe de noventa e três anos dá o exemplo prometendo estar por cá para 2019. a lurdes. minha segunda mãe. quase nos oitenta anos continua a teimar. o que vai ser de nós sem ela. devo tanto a esta mulher – da família da minha mulher faço figas para que o meu sogro continue a lutar por todas as recordações. orgulho-me de fazer parte dessa vida guardada e quero continuar vivo no seu olhar até 2019 – por fim. o que não muda à trinta e quatro anos é a companhia da minha mulher. sempre avançamos juntos e destemidos sobre os novos anos – assim será hoje. não há forma de os anos nos cansarem. brindaremos mais uma vez como crianças. trocaremos um beijo que nunca é igual e renovaremos os nossos votos de que estaremos unidos até que a eternidade nos separe – amo-a mais por cada ano que passa – é ela que inventa o sol que me ajuda a sorrir – obrigado também a todos aqueles que gastam o seu tempo a ler as minhas palermices. vocês são fantásticos. sem o vosso companheirismo nada disto faria sentido – espero-vos em 2018 – grato como sempre – feliz ano novo






23/12/2017

eu e:





pintura - álvaro cunhal 






7.    a oferenda aos meus dois amigos


estes dois pequenos excertos literários do escritor húngaro sándor mári - as velas ardem até ao fim. é uma oferenda aos meus amigos tiago e josé antunes. um género de final replicado para as duas crónicas anteriores – o livro. um romance intenso. dedicado a uma amizade entre dois homens. amigos de infância inseparáveis. que se encontram novamente quarenta anos mais tarde – uma reflexão penetrante e pessoal sobre a amizade que sándor mári disseca com amor. afabilidade. nostalgia. tristeza e perdão – o autor. na derradeira fase do envelhecimento. compreendeu que só relativizando os sentimentos é que conseguiria encontrar o indulto em si – sándor mári ensina-nos a encarar a verdade mesmo quando ela se apresenta difícil. complicada e desagradável. sabendo que ainda assim ela será sempre menos arrasadora do que a mentira – recuperar o passado para o questionar é uma missão penosa sobretudo quando se trata de recuperar um amigo de infância – neste romance o autor trouxe a verdade às palavras. a tolerância aos diálogos. o amor à compreensão e o perdão ao coração

“O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos...”


nunca é tarde para trazer os amigos para emergência dos dias que ainda restam viver – nunca é tarde para resgatar uma amizade da mágoa ou do esquecimento – a solidão. o silêncio e o envelhecimento dissipa de vez as multidões. o barulho e a escassez de tempo – com a aproximação do fim para o corpo aprendemos o valor das coisas simples. da ausência. da saudade. do perdão e da aceitação do desacerto – somos todos pecado e erro – 

 “ … Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quando já se sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com a exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice. Porém, há ainda algo vivo no teu coração, uma recordação, algum objectivo da vida indefinido, gostarias de tornar a ver alguém, gostarias de dizer ou saber alguma coisa, e sabes que um dia chegará esse momento e então, de repente, já não será tão fatalmente importante saber e responder à verdade, como pensaste durante as décadas de espera. Uma pessoa compreende o mundo, pouco a pouco, e depois morre. Compreende os fenómenos e a razão das acções humanas. A linguagem simbólica do inconsciente… porque as pessoas comunicam os seus pensamentos por símbolos, já reparaste?...” 

o carácter de um homem é inalterável. não envelhece. não se perde  tenho a certeza de que os meus amigos continuam jovens no seu carácter – um dia chegará o meu momento para resgatar todos os meus amigos silenciosos – escreveremos então [todos] um novo tratado de amizade




19/12/2017

eu e:



pintura - osvaldo lima



6.    eu e o zé do gerês 

o zé antunes com mais quatro anos do que eu era um dos primogénitos da praça do comércio – entre amigos. rapazes. quatro anos de diferença é uma enormidade de tempo. um é homem-feito. adulto. namoradeiro. com a personalidade formada e interesses perfeitamente definidos.  enquanto o outro ainda teima em sair da adolescência. inseguro. à procura do seu caminho. intranquilo com o futuro. com a pessoalidade a baloiçar entre o regresso ao protecionismo familiar ou a emancipação irrevogável – a adolescência é uma aurora dolorosa – batizámo-lo de zé do gerês porque as suas origens remontavam à vila do gerês-rio caldo. uma aldeia turística. integrada no parque nacional da peneda gerês. a norte de portugal – o zé veio com a sua mãe e irmã viver para a nossa rua – compraram um apartamento numa das laterais da praça do comércio e instalaram-se com a discrição de quem chega duma aldeia do interior – uma família da classe média. discreta. reservada. simpática. educada e muito religiosa – a mãe do meu amigo. para além das visitas regulares á igreja. raramente aventurava-se para a rua – este recolhimento obrigava o zé a alguns cuidados. ele não gostava de deixar a mãe sozinha e sempre que a irmã saía recolhia-se em casa – o pai emigrara para o brasil ainda o nosso país vivia debaixo da ditadura salazarista – éramos uma nação pobre. com uma repressão interna violentíssima.  triste. sem futuro. a viver uma guerra colonial onde os jovens eram obrigados a combater e a morrer – um país fechado ao mundo exterior. sem nenhuma perspetiva de melhoras políticas e económicas a curto prazo – a  geração dos nossos pais foi obrigada a deixar tudo para trás e a partir pelo mundo em busca de uma vida melhor para os seus – as famílias ficavam suspensas pela saudade e pela dor da distância – estas separações não eram fáceis nem para os que partiam nem para os que ficavam – o governo brasileiro na época de sessenta prometia melhores condições de vida para quem tivesse coragem de atravessar o atlântico – naquele tempo a distância era do tamanho de um oceano inteirinho. não havia voos comerciais a toda a hora. a internet não passava de ficção e as ligações telefónicas para além de serem caríssimas eram dificílimas – era o tempo da carta. do telex. do telegrama e da saudade silenciosa – o zé tornou-se adulto muito cedo. era o homem da casa e talvez por isso evitasse falar do seu pai. nós sabíamos que sofria. sabíamos que carregava em si uma ausência dolorosa. uma saudade escondida num emudecimento sofrido – todos os seus amigos respeitavam este seu silêncio magoado – nunca saberemos até que ponto este condicionamento familiar alterou a personalidade do meu amigo – mas nem tudo era mau para o zé antunes. fruto do sacrifício do seu pai a sua família era marcada por uma qualidade de vida elevada. em especial o zé. usufruía de uma poder financeiro invejável e raro para a época – ao zé antunes nada lhe faltava. vestia bem e caro. fumava cigarros com filtro e encantava com charme num estilo muito pessoal  apoiado numa masculinidade discreta mas de bom gosto – acredito que o meu amigo foi o primeiro metrossexual da nossa cidade – era um homem moderno. gostava de cuidar da sua higiene e principalmente do seu visual – com um pouco mais de um metro e setenta. magro. bonito. cabelo curto. espesso. orelhas tão pequeninas que nunca percebi como conseguia ouvir – uma pele branca produzida com cremes perfumados deixava emergir dois olhos vaidosos. negros. abertos à claridade. doces. encaixados numa boca pequena. educada. carregada de palavras difíceis e histórias de maravilhar – o zé era um excecional contador de histórias. como era bom ouvi-lo – sem barba. apenas alguns pelos rijos explodiam do queixo numa fúria selvagem – no entanto. numa postura séria e orgulhosa. fazia questão de dizer que os cortava com a última novidade do mercado para barbas difíceis: a gillette cup – o zé não andava. desfilava pelas ruas como se estivesse numa passarela de moda. olhos no ar. meio sorriso. quase importante. aprumado pela roupa. impecável. com gosto. num ar desportivo: blazer pela mão. pulôver com decote em bico com os colarinhos da camisa presos no seu interior. calça de ganga justa. sapato de pala. meia à cor da calça. cheiroso numa leveza subtil mas suficientemente eficaz para se sentir a fragrância num raio de dez metros – era assim que o meu amigo existia no nosso mundo – eu tinha vaidade no zé. gostava de o ver bonito. quanto mais bonito ele estivesse mais bonito ficava eu ao seu pé – sempre tive orgulho no meu amigo – a acumular com todas estas deferências positivas o meu amigo era um comunicador de excelência. aliado duma retórica eloquente. com variadíssimos recursos de argumentação apoiado em procedimentos enfáticos e aparatosos capazes de convencer qualquer pessoa sobre qualquer coisa – na sua retórica. e se necessário. o zé colocava o estilo acima do conteúdo e a convicção acima da verdade – era um mestre da oratória – esta lábia era também aplicada aos encantamentos do mundo feminino. o que levava a que o nosso amigo andasse sempre muito bem acompanhado – quase me arriscaria a jurar que o zé era constantemente vitima de assédio sexual – no seu caso. este assédio não era indesejado. o zé gostava de passear as amigas pelo casco velho da cidade. gostava de ostentar a sua virilidade – o zé do gerês era um rapaz muito vaidoso. sabia tudo sobre moda e fazia questão de a seguir com afinco trajando-a com brio e satisfação – vestia-se na pic pic. a loja de roupa da cidade mais procurada pela nata da sociedade bracarense – frequentava esta loja apenas os poderosos e ricos dos negócios. ilustres jogadores da bola e outros que não tendo nenhum título ou profissão aparente faziam também questão de se misturarem com o jet set bracarense – o zé antunes nunca saia de casa com as cores descombinadas. na época não havia nada que não combinasse com a sua figura. as cores da roupa misturavam-se umas com outras mas no final tudo batia com elegância. com graça. com etiqueta. por onde passava tudo se arrastava para dentro de si com graciosidade. como se houvesse um feitiço. o zé era um príncipe – gosto de o recordar no café [casa de pasto luso brasileiro]. sentado. de perna alçada. a esticar a meia pela silhueta da perna. com delicadeza. num ritual de afirmação pessoal. como se quisesse dizer: eu estou aqui – tudo à sua volta era um círculo mágico e todas as palavras eram dele. e ouvíamos. e tudo que dizia era para aprender. e mais uma palavra e mais magia e da cartola mais uma surpresa. o zé era encantador. e mais um vocábulo difícil e outro e o círculo aceso de admiração. pasmo. e bate com o cigarro no maço do tabaco. três ou quatro pancadas e o cigarro na boca com uma delicadeza proporcional aos seus encantos de oratória – é este o zé que guardo dentro de mim numa amizade pura. boa. que nunca parou de sorrir. em abraço. forte. calcificada pelo tempo. para sempre. até que a morte nos leve – eu gosto muito do meu amigo – o zé de gerês gostava de saber coisas que mais ninguém sabia. quer dizer. eu não sabia – o zé era um rapaz culto e gostava de mostrar tudo o que sabia aos amigos. também era vaidoso no conhecimento – uma espécie de google daquele tempo. o que não soubéssemos perguntávamos ao zé que logo ele dava um palpite – era um rapaz fantástico. calmo. sempre á procura de uma graça corrosiva. um humor de fino recorte sempre acompanhado de um sarcasmo delicado. com tiradas rápidas. seguidas de pausas que nos deixavam em suspensão. à espera da próxima piada. e aquele ar malicioso a cair-lhe do olhar. a roçar o gozo. o escárnio. mas tudo dito com elevação. com conta. peso e medida. nada e ninguém se ofendia. era um mestre no humor – o zé ao sábado comprava sempre o expresso. trazia-o debaixo do braço com o titulo virado para fora. tinha vaidade em ler o semanário. gostava de política – naquele tempo só os intelectuais é que comparavam o semanário – também passei a comprar o expresso mas nunca cheguei a intelectual e nunca aprendi tanto como ele – depois do jantar reuníamo-nos no café da nossa rua e quando este encerrava passava-mos para debaixo do alpendre da praça e ali ficávamos em conversa resistente. até que o sono ou os compromissos nos obrigassem a regressar a casa – com o aproximar da meia noite. o zé tornava-se inquieto e o controle dos ponteiros do relógio era feito ao minuto – antes da primeira badalada da meia-noite já ele tinha que ter a chave metida na porta de sua casa – e era assim todos os dias. foi assim todos os anos até ao dia em que partiu para coimbra para tirar o curso de direito – senti muito a falta do meu amigo – as noites nunca mais foram iguais. faltavam-me as suas histórias – o zé para mim também emigrara e a distância era muito mais do que um oceano – compensou com a sua licenciatura. nesse dia senti um enorme orgulho e vaidade. o meu amigo era finalmente advogado – aos domingos encontrávamo-nos sempre na sacristia da igreja do carmo. éramos nós que recolhíamos as dádivas dos fieis durante a eucaristia dominical – o zé recebia as esmolas no corredor direito. eu no esquerdo e o sacristão no corredor central – a missa dominical das onze e trinta agregava praticamente toda a comunidade crente da nossa área residencial – naquela época pertencer à família cristã era a chave mestra para que caíssemos nas boas graças de amigos. vizinhos e até família – a minha mãe enchia-se de orgulho sempre que alguém me elogiava na vocação de servir a deus – tenho que agradecer ao zé esse estado de graça granjeado em minha casa. foi da sua responsabilidade a minha participação na missa dominical – a única família que escolhemos livremente são os amigos. o zé era o meu irmão mais velho. adorava-o. tudo o que desejava era ser como ele – gosto de recordar aquela história que ele contava do judas – o judas era um rapaz mais ou menos da sua idade que depois dos pais emigrarem ficou a morar com a sua avó na sé. zona de braga com alguns problemas de integração social – por detrás das nossas casas havia uma área enorme de campos. onde uma vez por semana se realizava a feira de braga – era ali o nosso ponto de encontro nas férias para os confrontos amistosos [nem sempre] futebolísticos – de acordo com o que meu amigo contava. logo nos primeiros dias da sua chegada a braga. praticamente sem conhecer ninguém.  foi para o campo da feira quando avistou um rapaz muito mal vestido. esfarrapado e sujo a um bom par de dezenas de metros – mais tarde veio a saber que este indivíduo tinha a alcunha de judas – o judas conforme o nome diz não era um rapaz dócil. pelo contrário. não frequentava a escola. era arruaceiro. dedicava-se a pequenos furtos e o passatempo preferido dele era a briga – o judas andava sempre munido de uma fisga de elásticos de câmara-de-ar. era com esta arma que executava pequenos assaltos aos miúdos – é aqui que começa verdadeiramente a história.  o judas apontou a fisga a um rapazito que jogava a bola num dos campos pelados. e sem perder tempo com a mira. largou os elásticos e catrapus. em cheio na cabeça – enquanto o rapaz agoniava o judas calmante. já com a fisga recarregada. aproximou-se do puto e esvaziou-lhe os bolsos e partiu tão calmamente como tinha chegado – o meu amigo zé. acabado de chegar de uma vila-aldeia do interior nunca tinha visto uma coisa daquelas e pensou: estou perdido. este gajo é um terror. é um franco-atirador. um sniper de elite. estou lixado. vai infernizar a minha vida –  se depressa pensou mais depressa fugiu para casa – mais tarde veio a descobrir que afinal o judas não conseguia acertar nem num poste a dois metros. tinha um problema de visão e naquele tempo não havia dinheiro para óculos – riamos sempre com aquela história. principalmente com as expressões de terror que o zé imprimia na narração do evento – o zé adorava contar histórias e eu de as ouvir – o meu amigo era um homem bom. com ética. com carácter. com valores morais. justo com os amigos e com a amizade – o zé foi a pessoa que mais influência teve no meu crescimento. diria mesmo na minha vida – devo-lhe muito do que sou hoje – adorava-o. queria ser como ele. tinha vaidade na sua amizade – foi com o zé que descobri o valor da virtuosidade. da verdade e da justiça – não tenho nenhuma dúvida de que a sua proximidade permitiu-me crescer com mais confiança. mais segurança nas relações sociais. com sentimentos mais positivos e mais estabilidade emocional – a nossa amizade fez de mim um homem mais íntegro. mais justo e mais tolerante – ensinou-me a questionar  as minhas ações. entende-las. perceber se são boas ou más. corretas ou incorretas. justas ou injustas – só um homem justo sobrevive ao tempo. o zé vive em mim porque me educou com amizade – o zé antunes era o meu ídolo – sempre torci para que a vida fosse justa com ele – a amizade é um contrato para a vida – ainda hoje sou tanto dele