.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

13/04/2018

beijo do coração






pintura - pablo picasso




[dia internacional do beijo]




meu coração tem um cérebro pequenino dentro de si. como a pilha nos relógios. não faz tic tac. mas faz-me sorrir sempre que te dou um beijo






11/04/2018

pão com marmelada






ron mueck




encosto o corpo à cadeira. recolho-me num escritório esgotado de reboliço. retiro as concordâncias para o lado. fecho o word e olho a janela com a sensação de dever cumprido – dou o que tenho e o que não tenho por cada palavra e quem assim o faz a mais não é obrigado – a noite anuncia para breve a chegada do dia. as estrelas estão em debandada. o escuro já não é um escuro de meter medo e os demónios fogem a sete pés para as catacumbas – reconforto-me numa poltrona que é só minha. o tempo cavou-lhe o esboço do corpo. acerto-me. encaixo na perfeição e procuro arredar-me do que resta da noite. engulo duas golfadas de ar. desimpeço-me na desarrumação mental e livro-me do corpo – por fim. livre de todas as malapatas emito um último pedido em banda divina: encomendo aos meus guias espirituais dois ou três sonhos felizes – quando encontrar esse sono afortunado terei então oportunidade de descansar da vida retratando a morte: sossego absoluto – viver é uma barulheira infernal – sentado e sem corpo. coloco os olhos no parapeito da janela e ordeno-lhes num semblante autoritário: façam o favor de me trazer ao corpo os primeiros raios de luz da manhã – ninguém consegue dormir em silêncio sem pelo menos um raio de luz dentro do corpo – esta não é uma manhã qualquer. é a manhã que traz a primavera. a estação das flores. dos pássaros. das frutas. dos sorrisos em dias grandes. dos namorados encantados com os ninhos das andorinhas. das amizades leais. dos abraços entre pais e filhos. da esperança. da fartura e do conseguimento do corpo para apreender que a vida depende de um raio de sol – com a primavera esqueço que o março é madrasto. esqueço a saudade do meu pai e também esqueço a saudade que tenho de mim – tenho tantas saudades de mim – cresci em demasia. nunca deveria ter crescido. nunca me devia ter desfeito daqueles calções com suspensórios. da bola de couro e aquele chapeuzinho redondo com que um dia atravessei o rio minho no colo de minha mãe. do cheiro a terra na minha aldeia ou do reboliço na minha cidade com a feira semanal – cresci. cresci mas não esqueço a minha rua. o mercado. os camiões da fruta a chegar e os carrejões sujos como áfrica a carregar as primeiras uvas do algarve – não esqueço as tendas a vender coisas e coisinhas e aquela gente de preto. mal vestida. suja por fora. limpíssima por dentro e o bom dia numa vénia humilde. límpida. de gente boa. gente do meu chão que carregava à cabeça sorrisos de encantar. simples. bonitos. agradecidos a cada raio de sol mesmo quando a boca se fechava de fome – nunca deveria ter crescido. era um miúdo feliz. bonito por dentro e por fora. gostava da minha escola com os seus catraios esfarrapados. pobres como jó e eu a comer pão com marmelada e eles especados. com os olhos a afoguear necessidade e eu de bata azul às riscas a imaginar o mundo do tamanho do recreio da escola. raparigas de um lado. nós do outro e a professora a meio. alta num corpo de mulher perfeita. bata branca. como se tivesse vinda do céu. linda. com as mãos a cheirar a alecrim e a boca cheia de letras e números – e assim aprendi a ler. os olhos grandes de alegria e o a. e. i. o. u desenhado na perfeição num caderno de duas linhas que nunca se cruzavam – o mundo cabia-me tudinho nos olhos. os sinos batiam as horas certas e o carteiro nunca tocava duas vezes. gostava de viver e gostava de falar com deus – mas cresci. e agora estou enorme. numa cadeira maior do que eu. com umas mãos que não sabem escrever em cadernos sem linhas – agora já não há magia. nem hora para o recreio e deus deixou de falar comigo. roubou-me a professora – estou cansado de mim. o sol nasce todos os dias da mesma forma. sem anunciar o imprevisível. a inocência. a esperança incondicional ou a teimosia. é um sol amorfo. batoteiro. sem aquele calor que queimava mas não trilhava e sem aquela vontade ingénua de arrastar o corpo para um imenso que afinal nunca descobri – aqui estou nesta primavera que já não aprovo como minha. a apontar para dentro do corpo perdido de quase tudo. a olhar o passado como se tudo em mim cheirasse a defunto. imóvel. sem uma única palavra da minha escola. com a linha do sorriso a cair do queixo e os olhos emudecidos seguram as pernas para não saírem a correr pela desgraça – que saudades tenho do pão com marmelada. que saudades tenho de mim – olho-me de cima a baixo. junto ao corpo uma pistola imaginária pronta a disparar contra o que resta do meu nome. e o dedo a tremer. disparo? não disparo? – onde anda a minha professora? onde anda a minha tabuada? tanta reguada para nada – agora as máquinas fazem as contas de uma vida num segundo – um segundo que nunca terá a magia da minha professora. uma máquina nunca será alta. bonita. nem nunca virá do céu. nunca. talvez do inferno. porque tudo à minha volta é máquina e tudo é um inferno – mas não é a mesma coisa. as máquinas não cantam a tabuada. fazem as contas. mas não cantam. nem sabem o valor de um pão com marmelada e muito menos do que é ter uma professora dentro de um caderno de duas linhas – estou triste. amargurado. abril trouxe-me ao mundo e o mundo é demasiadamente belo para tanta tristeza dentro de mim – nunca sabemos quando vai ser a nossa última manhã. mas também não importa. hoje tenho este dia para viver e vou amarrá-lo ao corpo como se ainda usasse calções e a bola rolasse de pé em pé.  os amigos a deitar passos para escolher a equipa do maior para o mais pequeno e o jogo a mudar aos oito e acabar com oitenta primaveras. para todos – brevemente será abril. o mês que me trouxe à vida enrodilhou-me num trapo e ali fiquei para crescer. escondido de mim e de todas as palavras do mundo – é nas noites de abril que resisto aos intervalos do coração a bater. resisto em silêncio para que a magia volte a romper num amanhecer e me traga pelo menos um raio de sol inocente. porque em cada raio de sol vive uma gaivota e em cada gaivota um vento sul aberto a abril – sei que um dia levarei comigo todos os amanheceres de abril – mas resisto. resisto amarrado a um raio de sol. de primavera. de abril




08/04/2018

este poema é teu - audio





este poema é teu







jeffrey smat


[sempre que perdemos alguém que nos quer bem - com a sua leitura]




procuro-te
procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar
fugiste-me. fizeste-te silêncio.
ocupaste as mãos que me tocavam com o primeiro sol da manhã
e o que era pressentimento passou a separação -
agora. tudo me rasga nestas veias de sino
emersas em sangue e gás sarin - 
e sufoco
sufoco quando calo esta boca cada vez mais imunda 
e por mais que os astros se alinhem em perdão
o corpo bate em retirada -
águas perdidas não moem sentimento -
agora. 
o som da tua voz emancipado pela distância
é fúria de cem fantasmas
paridos em almofia de solidão -

procuro-te
procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te para renasceres
no que sobra deste corpo esquecido -
magoaste-me como magoa o som da trovoada
cravaste-me a ausência ao peito
enfureceste-me 
roubaste-me o perdão 
e agora as palavras são o que são:
sujas e aflitas -
maldito seja este eu que vive na ponta da flecha -

procuro-te
procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar
não te procuro para escutar o teu nome ofendido 
procuro-te para que me voltes a encontrar em frente a ti -
olha-me. corta-me com o silêncio que inventaste
e a pedra que não atiraste 
nunca mais te voltará à mão -
fugiste-me. fizeste-te memória
nessa corda silenciosa
presa a pássaro que não voa -
nem sou deus. nem diabo
nem proveito preso a sino que bate ausência 
sou talvez… sentença magoada -

procuro-te
procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te mesmo que o corpo já não saiba o que procurar
e por cada pancada do sino 
paira uma gaivota no ar -
e pergunto à boca:
será este o meu destino? 
não sei -
ouvir-te é um desígnio
nesta imensidão de mim 
que te procura sem cansar -
serei doente em terra apodrecida?
não sei -
as veias dilatadas de tanto escorrer fim
amargam raiva num desvario despercebido -
raio de dor essa de ter sinos a gemer
se não sei a cor do que geme
nem o que geme é alerta
dentro de mim -
e agora estou assim:
coisa inútil nesta espera
que te espera -

procuro-te
procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar
procuro-te para que me declares de vez
o silêncio da tua boca -
mas se as palavras te fugirem para a indiferença
que seja por carta ou por abraço 
que o destino me desprenda ao que sobra das manhãs -
e se um dia morreres dentro de mim
então.
os sinos que batam sem parar
batam sem ser devagar
batam castigo que não seja dor 
porque o tempo roubado a vénus
é punição que não sustento -

procuro-te
procuro-te todos os dias mesmo que não saiba onde te encontrar
e o que parecia um sonho
é afinal um avião a voar para o fim do mundo -
fugiste para onde eu nunca parti.
e o corpo é agora um grito que ecoa em palavra triste:
mata-me. mata-me ou salva-me da tourada
em que ficou a minha rua -
acende-me o corpo com os teu olhos
incendeia-me as mãos de virtude
mesmo que o sol se esconda no teu regaço
e se algum dia escutares touros a correr com saudade.
se algum dia ouvires sinos a evocar tristeza
e mesmo que nada entendas de cores
não me voltes a fugir
são apenas palavras minhas
a falar para ti -

procuro-te
e pela última vez te imploro
este poema é teu -



[abril trouxe-me ao mundo – brevemente completarei mais um aniversário natalício e mais uma vez a soma deste aniversário é diferente da soma de tudo que aprendi no último ano – mas a vida já me ensinou a não procurar o santo graal – escrever é a minha expiação. absolvição e pacificação do corpo – sou feliz a escrever e se houvesse uma porta para o passado. tipo exterminador. sentar-me-ia na primeira carteira da minha escola primária para aprender todas as palavras que deixei ficar para trás – escrever faz-me viver em compromisso de bem. com dignidade. com verdade. num abraço silencioso. amigo e infindável – por isso aqui estou. em palavra humilde. com afecto e com um imenso obrigado a todos aqueles que se me entregam com a sua leitura – confesso-vos que nada mais me poderia fazer tão feliz – grato para sempre]




03/04/2018

antenupcial





pintura - paulo fonte



a escrita é um encontro
antenupcial

saibam as ameixoeiras florir
e as metáforas parir
belas e monstros






30/03/2018

silêncio





pintura - gpttfried helnwein 



quando o silêncio me segreda
as memórias do passado vozeiam.
bradam. esperneiam
e eu. sem forças. e até porque preciso.
espero pelos demónios -
sem lagrimas
ouço o passado sem certeza no futuro
silêncio…
justifico as minhas razões
e amo...
[me]. [te]. [vos]
volta a confusão...
a paz espreita…
volta o silêncio
volta a dor
volta a loucura

o silêncio tem dias que mata







27/03/2018

deambulações noturnas XXVI






inês dourado





por mais escura que encontre a noite. por mais sofrimento que me traga.  por mais que me invente para não ser o que fui.  há uma coisa que a maldita noite [sei] não me traz: asas – ou se nasce com elas ou não se nasce – escrevo






24/03/2018

beijos brancos





gilberto de abreu





...de nuvem em nuvem
caminham mil beijos vestidos de branco

- para ti -

quando chegarem não te assustes
disse-lhes para te vestirem dos pés à cabeça
um deles. especial. dir-te-á ao ouvido:

   - gosto muito de ti -







23/03/2018

clarice lispector









"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."



22/03/2018

palavra do poeta






o poeta - roger-de-la-fresnaye





tenho dias que sem saber escrever
encontro um sonho para contar
dias em que nada sou sem a utopia
daqueles que me impelem a escrever -
são os mestres. os poetas
donos na proficiência de domar letras
e interrogo-me
como seria se apenas eu escrevesse?
seriam letras sozinhas. chorosas
moribundas do desgosto
despidas de emoção
da pureza das ideias
letras privadas do contraste das cores -
e o amarelo. seria verde?
não sei. sei que
o florir dos campos
seriam searas
ceifadas em campos vazios de saber
onde os pássaros voariam
apenas baixinho
e o poeta?
poderá ele morrer
sozinho entre palavras que nunca atracaram?
palavras azedas. onde o pólen
nunca voará -
palavra que é palavra 
veste-se para ser ouvida
acarinhada. açoitada
maltratada. amada
riscada. desenhada
ou apenas um aceno
no coração de quem precisa
palavra honrada será sempre de todos
desde que traga com ela
o orgulho de camões -
a nós. contadores de histórias
compete-nos somente
mantê-las virtuosas e belas -





19/03/2018

o dia dos meus filhos










hoje é o dia dos meus filhos e também é o dia do pai deles. vejam só. é o meu dia – sempre desejei este dia. sempre quis ter um dia que fosse partilhado com os meus filhos – não se pode ser pai sem ter filhos – sei que crescer é sempre muito doloroso e às vezes pergunto-me: que mais poderia fazer para ajudar os meus filhos a crescer [mais] felizes – não sei. não sei mesmo – sei que um pai sempre achará que nunca fez tudo o que estava ao seu alcance. nunca nada é suficiente quando se trata dos nossos filhos e da sua felicidade – mas que me perdoem os meus filhos se errei onde não deveria ter errado – quero que saibam que tudo o que fiz foi por amor. o mesmo amor que me juntou à sua mãe – com a nossa história de amor vieram vocês – e foi tudo tão planeado. tão sonhado. tão infinitamente bom saber que vinham perpetuar a nossa existência – vocês serão sempre a única razão para existirmos – mas é todo este amor impossível de escrever que me leva sempre a mais uma questão: será que um pai tem perdão quando erra por amor? não sei? também não quero perdão. pelo vosso bem-estar eu posso com o mundo todo às costas – acreditem. vocês nunca nos pesaram – por isso. neste dia que é nosso. o que vos peço. humildemente. não é o vosso perdão. peço-vos apenas a vossa compreensão. tudo que fiz foi escolher o que me pareceu ser o melhor para vocês – sei que errei em milhentas coisas. errei por excesso. errei por defeito. errei porque não queria que vocês errassem onde eu errei. errei porque vocês são demasiadamente preciosos para vos ter a meu lado tristes e infelizes. errei porque sempre quis ser pai e pai. acreditem. é complicado para carago mas um pai para envelhecer em paz só precisa mesmo da vossa compreensão – tudo fiz para que vocês fossem homens felizes e independentes – hoje já pouco ou nada depende de mim. vocês cresceram para lá das minhas mãos. estão enormes. são homens bons. como o avô. são dignos. são justos. são educados e mais do que preparadas para serem cidadãos honrados estão preparados para serem pais – nunca se esqueçam de serem pais com os vosso filhos – vocês são todos fantásticos. são todos diferentes mas todos meus. quer dizer. nossos. serão sempre nossos – para este nosso dia existir em pleno era o vosso avô descer do céu para nos abraçar – tenho a certeza de que não vai ser possível. mas é possível recordá-lo e dizer que o melhor capítulo da nossa história começou com ele – ele era especial – mas se de alguma forma nos estiver a ler. já que os desígnios de deus são insondáveis. quero que saiba que todos temos muitas saudades. muitas mesmo. e também quero que saiba que nos faz muita falta e hoje o dia também é seu – um dia voltar-nos-emos a abraçar. tenho a certeza – obrigado aos meus filhos por me imortalizarem com este dia – não desperdicem um segunda da vossa vida. sejam verdadeiros e confiem no triunfo do que está certo sobre o que está errado. tenho a certeza que a vida vos há de recompensar –  não deixem nada por fazer – procurem os sonhos e acreditem. sempre – um homem sem sonhos não vale grande coisa – feliz dia para nós






18/03/2018

alma-que-sente






frida-khalo



mantenho-me acordado e enrodilhado em mim. recuso-me a dormir. olho o relógio e hipnotizo-me com o bater do coração – não tarda nada nasce o dia – mergulho na imaginação e revolvo-me mais uma vez à procura do que nunca encontrei. atiro o corpo de um lado para o outro e mantenho-me esperto. só o cansaço me dobrará – sussurro-me para saber que estou acordado. não quero ser sonho. tenho medo dos sonhos. tenho medo dos sonhos felizes e tenho medo de acordar dos sonhos que me fazem feliz – o vento corre veloz pelas frinchas e as portas replicam-no em barulho. estremecem imitando gente a sair. só a sair porque não ouço ninguém a caminhar em minha direção. faço silêncio dentro do meu silêncio. escuto o pavor de mim e do vento. arrepio-me. e a pele que me cobre lamenta-se de tudo. e é este tudo que não sei o que é que me ocupa o quarto todo – fico inquieto e como não sei rezar protesto com o divino. se soubesse talvez o fizesse. mas não sei. estou por minha conta. sempre estive por minha conta. nasci e cresci por conta do que sou e sou dono e senhor de todas as noites – cansado resisto segurando-me ao luar intermitente que passa nos intervalos da persiana. resgato-me ao escuro. a luz do luar é tudo o que tenho para sobreviver. e logo hoje que é lua minguante – estou esgotado e desapareço de mim a cada noite que passa. não gosto do que guardo no corpo. pesa chumbo. pesa morte e pesa dor – volto-me. mais uma volta. volto-me sem conta e invento soluções para o que não tem solução – distendendo-me num espasmo espontâneo. os tendões estalam e o corpo altera-se entre o medo e a resignação. se o coração encravar que se lixe – a noite é cada vez mais desumana – o corpo amarga. remorde-se vezes sem conta e a alma-que-sente cada vez mais acordada faz justiça pelas próprias mãos: mata uma mágoa – mas logo encontra outra ainda maior. tal como a matrioska russa. as mágoas nascem umas dentro de outras e quando uma desaparece há sempre uma maior que aparece a chamar-nos pelo nome – respondemos presente. um homem não se acobarda. morre de pé como as árvores e também que diferença faz mais dor ou menos dor – nem sempre se grita com a estropiação – e mais uma volta na cama e as voltas do corpo são as voltas da vida. de dia e de noite tudo igual. tudo incerto. tudo a magoar e a balança tombada para o lado que não entendo – o passado não é piedoso. o que guarda nunca se alterará – quero dormir. fecho os olhos mas não consigo fechar a memória. rebolo-me de um lado para o outro e não me encontro em nenhuma dos lados. estou só. completamente só e sem uma única palavra para me confortar – a memória consumida à medida do meu desespero. respiro a antecâmara da morte. sufoco. o coração aperta e os pulmões recuam. barricam-se na escuridão. e o ouvido já não quer socorro. quer silêncio. só silêncio e uma mão para não morrer sozinho – estendo a passadeira negra ao mal que me tocou. abro a porta do inferno e passa o impossível. de seguida o inacreditável seguido de perto pela dúvida que vem acompanhada pela incerteza e pelo desprezo. para logo depois. em gargalhada. aparecer a descrença abraçada à injustiça e. finalmente. vestida de preto. a renúncia ao que resta do mundo – e o travesseiro vazio pede cabeça que não pense porque não há dor maior do que uma cama sem sono



13/03/2018

representar o pensamento por meio de caracteres





pintura - jean-michel folon




a escrita:
são encontros de palavras
ordenam-se por interesses
comunicacionais

melieiro. o escrevente
exorna com:
traço
aprumo e labor

uma panóplia de
enxertos requintados
esteticismo em apelo
ao regresso às artes

acaba a coluna em:
galanteios ao leitor
um apelo à paixão
eterna




11/03/2018

a noite e os pássaros de ruy belo






gustavo rosa





é noite. vagueio. vagueio em ruas que aos poucos se fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite escura nasce a luz e com a luz renasce a esperança e sempre que há esperança os “pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é março. e é inverno em todo o mundo e em mim também. as noites estão cada vez mais escuras e eu sem saber o que fazer a tanta imensidão de negro – é noite. vagueio. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. a suplicar luz e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a escuridão não se veem as árvores e sem árvores não há pássaros e sem pássaros “as árvores não cantam” e a primavera não nasce – o que faz um homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão pássaros” – pergunto. que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros? calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor que sois dono de todas as coisas do mundo. dizei-me porque me roubaram as árvores. dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – e agora senhor em que mundo cantam os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros. sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater termo e a vida escorrer-se devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o doce sabor da primavera mesmo que os campos se cobram de medo e geada – não quero morrer longe de mim. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá os pendura nos ramos? e de quem é a mão. a inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono a anunciar inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que não servem para nada – imobilizo-me para ouvir o que não digo. o coração bate. ouço-o. ouço-o para saber que existo. e ele bate para se fazer sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado do coração e o silêncio do corpo. estamos sozinhos e o mundo abandonado de tudo que é meu – “gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente. trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia anterior e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro de mim porque fora já nada existe – até os pássaros de ruy belo partiram. foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros e só “os pássaros fazem cantar as árvores” eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não tenho nada além do que sobra de mim que não é nada – “eu [apenas] amo as árvores. principalmente as que dão pássaros”


este texto faz referência a algumas proposições com pássaros e árvores do poeta ruy belo e estão devidamente identificadas no texto