13/06/2018
05/06/2018
alegoria
pintura - graça morais
as palavras aziumadas
................usam samarra
de cordeiro
......................................propagam-se
como vento
..............................................................esmordaçam
como lobos
29/05/2018
24/05/2018
facebook - até mete nojo de tão lindo que é
imagem - google
apetece-me
desabafar
– hoje vou falar sobre a puta da internet
– bem sei que não vai ser fácil. não se fala da internet sem perder uns quantos
amigos cibernautas e mesmo que não os perca na sua totalidade. sei que alguns vão
aziumar e dizer baixinho: se fosse escrever ao caralho – mas tem que ser.
apetece-me. e quando me apetece alguma coisa sou como as grávidas. ou faço ou
posso perder para sempre esta raiva de escrever – não vai ser fácil… mas em boa
verdade. nos dias que correm. não há nada fácil. anda tudo no ar e tudo que
anda no ar ou é avião ou likes do facebook
[dito
isto]
na minha juventude. sabia perfeitamente
distinguir quando um amigo estava num daqueles dias em que o pai lhe tinha dado
calor às orelhas. o rosto trazia instalado um sistema de alerta facial que nos
colocava de sobreaviso:
--
estou com pouca paciência. toca a abanar as orelhas para longe
mas se pelo contrário conseguisse
um suplemento na féria semanal o semblante abria-se num sorriso rasgado de
orelha a orelha e a partilha do aprazimento contagiava a amizade do grupo mais
rápido do que a gripe espanhola:
--
bora pessoal. hoje fuma tudo à borla
sabíamos tudo uns dos outros. eramos amigos desde que o sol nascia
até ao seu sumiço – o nosso rosto era uma impressão digital. única. intransferível e
só interpretável pelos valores da amizade – eram tempos do arco da velha
[trinta
anos mais tarde]
desde que apareceu a
internet os amigos passaram a comunicar pelas redes sociais numa linguagem de
símbolos e sons universais – passamos a estar diariamente presentes na vida
daqueles que estimamos e também daqueles que pouco ou nada nos dizem – basta
ter um computador e um registo no facebook e os amigos começam a nascer de
todos os cantos. mais de mil no primeiro dia e ao fim do mês dez mil e ainda
não completamos seis meses e já temos amigos até do japão e por cada amigo cem
likes. enganchados nos likes milhares de dedos virados para um céu que nem
sabíamos existir – não é fácil envelhecer com as novas tecnologias. todos os
dias uma nova ferramenta e eu sem escola profissional para me ensinar como se
faz um ctrl-alt-delete – o mundo de pernas para o ar e eu também – não tenho
tempo para tanto amigo. não tenho tempo nem que viva mil anos. e o botão enter
do meu teclado gasto. sem tinta. prestes a furar de tanto bater que sim –
parece que estou triste mas não estou. estou ansioso. as teclas chamam pelos
dedos. os likes sorriem. e os corações cada vez mais vermelhos. e os lábios
carnudos. e ursinhos e gatinhos e o jardim zoológico nas teclas e cada animal
quer dizer todo o tipo de merdas que não consegui aprender – estou velho. só
sei mesmo deixar um polegar virado para o céu – espero que todo mundo saiba que
estou confiante e bem de saúde
[hoje
é um dia especial]
sinto-me global. sinto que
me entreguei por inteiro ao mundo das redes sociais – só não quero é que me
convidem para jogar á bola. não é por nada. mas já não sou dado a correrias e
também não quero que ninguém saiba da minha mazelas nos joelhos – estou todo
fodido – estou ansioso que o facebook me comunique o numero de likes recebidos
no último mês – tenho fé que vou bater um novo máximo. estou no encalço do CR7 – eu e o melhor do mundo a viver debaixo
do mesmo teto global – os humanos nunca
param de surpreender. como muita boa gente não sabia exprimir os seus
sentimentos logo encontraram ferramentas virtuais para interpretar as emoções
num espaço sem fronteiras e tudo à distância de um clique – carrega num smile
amarelinho com a boca para cima já todo o mundo sabe que se trata de uma dose
controlada de felicidade. dez smiles
seguidos é uma overdose de júbilo. podendo. se não for vigiada. trazer sérios problema de saúde – mas
para além destas preocupações e benefícios há uma outra vertente que valorizo
imenso. um smile não envergonha a
língua portuguesa. não é necessário
escrever. basta o tal clique
inofensivo e camões agradece – o único problema destas carinhas redondas a
sorrir é perceber a sua veracidade. nunca saberemos se é uma imposturice ou se
saiu mesmo do coração e como recebemos resmas delas por dia rapidamente apreendemos
que o melhor é aceitar tudo tal e qual como vem empacotado. sem questionar. sem
argumentar e no mesmo instante. para não acumular e perder o sentido da coisa. devolver
a cortesia em modo de correio azul. um dedo virado para o céu acompanhado com
uma dessas carinhas amarelas rechonchudinhas e a amizade ficará presa a cimento
para sempre – quem inventou esta comunicação é um génio. se tivesse nascido na
minha terra garanto-vos que enquanto não tivesse uma rua com o seu nome não
descansaria – não importa o grau de amizade que liga o emissor com o recetor que
a carinha encaixa perfeitamente no perfil. não importa se é gordo ou magro.
letrado ou analfabeto. cavalheiro ou marginal. viva em braga ou no chile e fale
castelhano ou checheno tudo funciona sobre rodas – estou até convencido que um
dia será com estas figurinhas que entraremos em contacto com os extraterrestres
– comunicar é agora espontaneidade e dá centenas de amigos ao dia – como é
fácil iludir o nosso universo habitável – para perceber-mos se realmente alguém
está bem na vida das redes sociais faz-se uma contagem rápida dos amigos e dos
likes conquistados:
--
foda-se. parece impossível aquele nabo do antunes já tem mais oito amigos do
que eu
ganhar ou perder amigos é
agora um drama com consequências muito mais gravosas do que no meu tempo –
nesse meu tempo. um gajo embrulhava-se nuns socos e pontapés e no dia seguinte.
como todos eram sempre poucos para jogar
futebol o remédio era mesmo fazer as pazes – um aperto de mão e a amizade
continuava no mesmo ponto em que tinha sido interrompida – a oferta de amigos no
mercado das redes sociais neste momento é maior do que a procura – os amigos
estão ao preço dada uva mijona – és muito amigo se colocares muitos likes. e um
amigo de trampa se te esqueceres de carregar os likes – o nosso mundo de amigos
é agora assim: esgadanham-se uns aos
outros por meia dúzia de likes:
--
ó filho se me deixares ser teu amigo prometo que te faço uns likes tão loucos
que até vês a estrela polar
socialmente um gajo com
poucos amigos nas redes sociais é um gajo marginalizado pela irmandade da
Internet – se não me dás um like também não levas nenhum meu – se tem poucos
amigos é porque o gajo não deve ser grande pistola. deve ter a mania que é
chico esperto. menino da mamã – vai longe. vai – a solução é nem passar cartão
e passar ao lado das postagens e das fotos – comentar um gajo com poucos amigos
nem pensar é mau para a sua reputação
--
a estes merdas elitistas que não dão likes nem lhes dou confiança. bloquei-os
logo – quero que se fodam todos
o problema é que todos
querem ser amigos de todos para serem aceites no mundo global da internet –
estes amigos não pesam às costas. não tens que os compreender. não tens que os
ouvir. não tens que os chamar a atenção num momento menos feliz. simplesmente
existem – é fácil a sua manutenção e mesmo quando se zangam por algum motivo
não andam ao soco. nem que apertar a mão como cavalheiros – agora bloqueia-se o
tratante e logo de seguida posta-se um frase pesarosa no perfil a dar conta da
morte prematura de um amigo que verdadeiramente nunca o tinha sido:
--
tão bem lhe fiz e o agradecimento é este. não merecia. não tenho sorte nenhuma
com os amigos
e o milagre da multiplicação
já não é pão nem vinho. são amigos aos milhares. a emergir como ratos. de
cantos que nem imaginava existir. e likes. abraços. migo e migas aos beijinhos
e jinhos a perder de vista:
--
força migo;
--
deus é grande;
--
não mereces. mas vais ultrapassar;
--
aconteceu-me na semana passada. é uma tristeza mas já passou;
--
não ligues migo. esse gajo deve ser um paneleiro de merda;
--
se fosse comigo fodia-lhe as trombas;
--
vais [ver] que tudo se vai resolver. tem fé;
--
se precisares de uma amiga sabes que para ti estou sempre aqui. jinhos;
--
cabrão. eu sei o que merecia esse filho da puta – há gajos que não se enxergam
- abraço
e um homem depois destas
manifestações de carinho incha mais que o peixe balão – bem sei que a maior
parte destes amigos nem os conheço pessoalmente. e outra grande parte apenas os
conheço de um único aperto de mão. ou de uma palavra reles de circunstância. ou
então porque são amigos de amigos que também não conheço – o amigo de verdade.
aquele que é mesmo amigo amigo nem me fala pelas redes sociais quando pressente
um problema. liga-me por um telefone que quando toca ilumina o seu nome no
mostrador – atendo. e logo chega em letra grande um like que não tem o dedo
para cima. tem alegria suficiente para alimentar uma conversa por tempo
impossível de contar – e assim é. retoma-se a amizade exatamente no ponto em que
a interrompemos – não importa o tempo que passou. conhecemos todas as inflexões
de voz e recuamos ao passado na única máquina que nos faz viajar no tempo: a amizade – os amigos de verdade são
sempre únicos. cada um deles é um mundo único
--
que saudades tenho desses catraios
neste novo movimento
tecnológico o importante mesmo já não é só o número de amigos que se possa
somar. para esta malta o que começa a contar é a rapidez com que se coloca o
like – um verdadeiro amigo tem que estar sempre atento. sempre de sentinela e
mal surja a oportunidade o seu like tem de ser o primeiro – acabamos de postar
um texto de quatro páginas e nos primeiros dez segundos já temos cinquenta
likes. aos trinta segundos chegaram já mais de mil e antes do minuto atinjo os nove
mil novecentos e noventa e cinco – incrível – passada a primeira hora lá chegam
os últimos cinco amigos. envergonhados de cabeça baixa. cheios de desculpas
esfarrapadas. quatro lamentam não terem tempo para ler a correr. o outro alegou:
--
a culpa é da EDP cortou-me a eletricidade. fiquei sem net apenas por ter em
atraso o pagamento de uma fatura
entender este novo movimento
das redes sociais é trabalhão que arrasa completamente com a intuição de um
cristão. melhor. creio até que nos dias que correm já não há pessoas infelizes no
mundo – esta nossa sociedade é um bando de gente socialmente feliz
--
tudo mundo aparece nas redes sociais a rir com dentes mais brancos que o branco
branco. o pepsodent faz milagres inacreditáveis – os dentistas estão fodidos –
o pessoal escova os dentes cem vezes ao dia para aparecer no facebook
todas as manhãs mandam
beijos de bom dia em múltiplos de dez o que me leva a pensar que talvez
despertem sem falar um para o outro. creio que tem a ver com o respeito do
espaço de cada um. no meu tempo os quartos eram muito mais pequenos e não havia
forma de não invadir o espaço da nossa companheira:
--
vê se te despachas a sair da casa de banho que quero ir aí
ou então quando o amor
andava no ar ela dizia:
--
deixa tudo arrumado que eu não sou tua criada
os casais começavam logo
pela manhã a comunicar e a partilhar tarefas e em juras de amor que perduravam
para toda a vida. ela prometia que se despacharia mais depressa das pinturas e
ele jurava pela sua saúde que nunca mais deixaria as cuecas no chão do quarto –
mas isto está tudo mudado para melhor. todo o mundo se ama numa loucura que
chega até a ser constrangedora para os casais mais antigos – agora sei que no
passado o amor era muito fatela. senão vejamos – de tempos a tempos. curtos. vão
para a internet. e como se fosse promessa. botam palavras de amor aos conjugues que derretem
qualquer coração de pedra. ninguém resiste a tanto love
--
estou convencido que se o shakespeare fosse vivo tinha que dar o triplo do
veneno para o romeu bater a soleta. com este amor não é fácil falecer
o que mais me encanta é que
nos dias de hoje não há casais incultos. todo o mundo tem uma bagagem cultural
que constantemente me faz chegar as lágrimas aos olhos. oferecem frases de
autores tão desconhecidos que até os próprios autores citados ficam na dúvida
se realmente escreveram aquilo – o amor embrulhado em fitas de arte dura muito
mais tempo – fico sempre muito orgulhoso deste seres humanos tão especiais.
ainda bem que os amigos ficam realmente a saber que adoram literatura e que aproveitam
todos os bocadinhos livres do dia para lerem e promoverem autores desconhecidos
– são os novos mecenas do mundo tecnológico – depois vem a parte pior deste
amor que arde e até se consegue ver. um amigo daqueles do coração. comunicativo
e muito sensível às coisas do amor e que é capaz de ir a tribunal jurar a pés
juntos que aquele amor é a oitava maravilha do mundo das redes sociais deixa um
comentário em lágrimas:
--
parabéns. continuem a regar esse jardim de amor. vocês são perfeitos. nunca vi um
casal que se amasse tanto
responde logo a dona daquele
amor que não cabe numa resma de papel A4
--
és lindo. tens um coração lindo. jinhos lindo
de seguida o face torna-se
numa slot machine e caem em catadupa gostos e corações que dava para encher o
cesto da capuchino vermelho – a sua avó ficaria com um ego do super homem e a
história do lobo mau lá teria que ser reformulada. a avozinha comia o lobo de
faca e garfo com tanta manifestação carinhosa – mas o que mais me surpreende
nestes movimentos sentimentais são aqueles que substituem o gosto por aqueles
bonequinhos de boca aberta. espantados. creio eu – ora aqui o caso torna-se
grave porque fico sem saber se a intenção de oferecer este dito boneco é de uma
amizade de espanto ou gozo para espantar a amizade – no meu entender a mensagem
que deixam pode ser entendida de várias formas
1º
- não imaginava que gostavas tanto do teu marido. estou espantada;
2º
- nunca me passou pela cabeça que se amassem tanto depois do que já o vi
fazer-te. estou espantada;
3º
- olha que tu tens um lata do caraças. és mesmo uma vendida. andas sempre a
dizer mal dele e agora vens para aqui meter nojo – se fosses lavar a loiça… sua
cabra. estou espantado;
4º
- nunca vos vi comunicar um com o outro mas aqui na net são o casal mais
maravilhoso do facebook. – ó bonitona. deixa que te diga. és um exemplo para
todos. só se pode ter inveja de um amor tão genuíno - são TOP. estou espantado;
5º
- tenho tantas saudades vossas. a última vez que vos vi estavam a almoçar no zé
das bifanas – estavam os dois lindos. são um casal fantástico – só não fui à vossa
mesa porque deveriam estar preocupados com alguma coisa pois estiveram sempre
ao telemóvel e saíram a correr – beijinhos e continuem assim. estou espantada;
6º
- vocês estão juntos ainda? são uns heróis – confesso que nunca me passou pela
cabeça que o vosso casamento aguentasse tanto – chegaram a casar pela igreja ou
foi só pelo civil? – parabéns. estou
espantada;
7º
- tens o sorriso mais lindo da net. nunca tinha reparado. estou espantada;
8º
- és uma guerreira para aguentar esse gajo. ele não te merece. estou espantada;
9º
- puta que pariu esse amor. até mete nojo de tão lindo que é. estou espantada;
10º
- adoro-vos. gostava que a minha maria me escrevesse coisas assim. infelizmente
é uma puta e só sabe foder-me a cabeça – maldita hora em que levei aquela cabra
ao altar. se não fosse os filhos já a tinha atirado da janela – beijinho para
vocês. são um exemplo – felicidades e dá um abraço ao sortudo. estou espantado;
e assim continuariamos com mais uns quantos exemplos mas infelizmente também eu não tenho tempo para
escrever mais nada – a minha maria está aos berros e já sei que ou me apresento
rapidamente em passo ligeirinho ou acontece-me como da última vez. deu-me no
focinho e de seguida ligou para o número verde de violência doméstica a
queixar-se de défice de atenção – bem sei que acaba tudo bem. logo que apanha um
computador esquece tudo e enche-me de beijos e likes e não se farta de dizer
aos amigos que sou o homem da sua vida – com a idade aprendi a ser tolerante e
nunca me esqueço do que dizia os meus avós: uma bofetada pode salvar o
casamento – o meu já vai a caminho das bodas de ouro e nunca me queixei de uma
bofetada mal dada – sou um homem com sorte
23/05/2018
15/05/2018
o poeta
ignat-bednarik
o
poeta sobrevive nas vísceras de um cérebro sempre imensamente insatisfeito –
sofre dor na procura das palavras que nunca saberá escrever – por mais palavras
escritas. por mais palavras pensadas. por mais que deixe o corpo arder no
inferno. por mais que rasgue a carne. não será capaz nunca de passar às
mãos o sofrimento de não as saber escrever – não há caminho feliz para quem
gosta de escrever – escrever é mutilação
13/05/2018
carrossel
maldito poeta
que gira no carrossel
e se não gira
como gira carrossel
então…
não é coisa fiel.
mas se gira
como gira carrossel
então…
é poeta com nobel.
mas se for poeta e não for nobel
então…
é poeta a granel
porque gira
como gira um papel.
mas se for poeta poeta
e girar
ao contrário do carrossel
então…
é poeta cruel
porque gira
como mais ninguém gira
no carrossel.
maldito poeta
que gira com o carrossel
não importa se gira
depressa
ou
devagar
não importa se gira
para a direita
ou
para esquerda
ou
gira por girar
ou
gira por precisar
o que importa
para o poeta
é girar sem embaraçar
a palavra
que gira no carrossel.
mas poeta que é poeta
não gira triste no
carrossel
muito menos
gira contente
porque o importante
é girar como se estivesse
a não girar
e mesmo que escarre para o carrossel
ele vai girar sem parar
porque escarro
não para carrossel.
carrossel
gira porque gira
e todo o poeta gira porque o carrossel gira
e se tudo gira
com o carrossel
então...
o mundo gira
porque é no carrossel
que tudo gira sem parar.
mas que se lixe o carrossel.
e que se lixe quem gira no carrossel
porque em boa verdade
todo mundo gira porque tem que girar
girar sem parar
girar sem pensar
e até girar com pesar.
e é neste girar do carrossel
que mirrarei
com a palavra a girar
falar não sei
e mesmo que soubesse
quem me ouviria nesta roda viva
em que gira o meu carrossel.
poema declamado por: maria joão.
12/05/2018
sábado
foto - sampaio rego
às
vezes perdes um sapato só porque não tiveste o bom senso de apertar os cordões
- era tão fácil - ainda tinhas o par de sapatos e mantinhas a dignidade no
andar - assim. não é que andes mal. mas ficas coxo - mas que se lixe. ninguém
dará conta a não ser que perguntes pelo sapato - mas... sapato perdido não
volta a entrar no pé. nem com bom senso
07/05/2018
não tenho azia
acordei.
como sempre. sem qualquer tipo de azia – nada tenho contra o futebol clube do
porto. nada tenho contra o norte e nada tenho contra o desporto futebol – o que
não gosto mesmo é de gente má. sem educação. sem preocupação pelo próximo. arruaceiros.
imbecis e principalmente gente que me divida o país em regiões por causa de uma
bola – sou nascido e criado no norte mas adoro cada pedacinho de terra do meu
país – adoro lisboa. adoro a capital do meu país. adoro a luz que irradia
lisboa e adoro o sport lisboa e benfica – há coisas que passam de geração em
geração. o meu pai era benfiquista e os meus filhos também o são – mas atenção.
que fique bem claro. nunca o meu clube. em qualquer circunstância. estará acima da lei. da ética desportiva e da honra – também não
gosto de doentes do futebol que se aproveitam das redes sociais para se tornarem
visíveis. tontos. provocadores e arruaceiros. levantam-se e deitam-se a pensar
futebol e nos intervalos. em modo de descanso. enviam likes clubísticos ou
postam frases e vídeos motivacionais sobre clubes de futebol – diria que o
perfil do pessoal da bola é facilmente arquitetado: segunda feira falam do jogo
de domingo. terça. falam do jogo de domingo. quarta. falam do jogo de domingo.
quinta. falam do jogo de domingo. sexta. falam do jogo de domingo. sábado.
falam do jogo de domingo e finalmente o domingo falam do jogo de domingo – e
pronto. estamos conversados sobre a malta do desporto rei – claro que há exceções.
felizmente – confesso que não gosto muito desta malta do futebol. toda ela.
dirigentes. treinadores. jogadores e outros parasitas que gravitam neste mundo
de milhões . o que gosto mesmo é de ver a bola a rolar e tudo o resto é
desespero – bem sei que nada posso
fazer. doentes há em todos os clubes e em todos os desportos. mas isso não me
impede de sonhar que. um dia. essa malta perceberá que está descontextualizada com
a nova geração emergente das escolas e universidades – há cada vez menos gente
analfabeta e as lavagens ao cérebro estão cada vez mais difíceis. a malta nova já
não tolera comportamentos rascos e odientos. prefere. tal como o meu amigo hercule
poirot. massa cinzenta. cérebro –
felizmente o ADN luso é mais virado para a treta do que para o confronto físico
que. aliado a alguma sorte. vai adiando a tragédia. um dia esta sorte acaba e acontecerá
como a tragédia dos fogos do ano passado e aqui-d’el-rei que a culpa é do
sistema – mas que se lixe a malta doentia da bola. o importante mesmo é que o campeonato
acabou. já há campeão – mesmo sem festejar qualquer título confesso-vos que
estou muito feliz. sempre que um campeonato termina fico histérico. acaba a
jagunçada. os “paineleiros” vão para férias. os jornais dedicam-se às mentiras
das contratações e os doentes da bola tiram "vacances" e dedicam-se ao charme nas redes
sociais. likes e beijos são aos milhões – afinal esta gente até tem bom coração
– mas voltemos à bola. o porto foi
melhor do que o meu benfica e quando assim é só me resta endereçar felicitações
aos meus amigos portistas. sei que estão contentes e tem toda a razão para
estarem. foram quatro longos anos de jejum – eu estou também feliz por eles e
quando assim é também posso dizer que sou um bocadinho de nada campeão – não se
pode ganhar sempre – mas atenção. sei que sou boa pessoa mas não sou nem santo
nem estúpido e muito menos hipócrita. e não dou o que tenho de melhor em mim a
quem não merece – como disse atrás. as felicitações são para os meus amigos
portistas. aqueles que não querem ganhar o campeonato a qualquer preço. aqueles
que estão do lado bom e abominam a batota. aqueles que jamais trocariam uma
derrota por uma vitória com desonra e por último aqueles que não gostam de
magoar o próximo e celebram as vitórias com um abraço de conforto com os
adversários – não posso festejar o título do porto com quem aproveitou o seu
facebook para continuar a transmitir ódio. raiva. mentira. para quem não se
lembrou de mim e me ofendeu com postagens insultuosas. caluniosas. pessoais
[enquanto benfiquista]. divisionistas e revanchistas e principalmente para
aqueles que teimam em dividir o meu país em norte e sul – esses terão o meu
desprezo absoluto. o meu silêncio e principalmente a minha falta de respeito –
não tenho respeito por essa gente mas continuarei a não lhes faltar ao respeito
– para esses lunáticos que sustentam a sua vida com postagens diárias de grupos
fanáticos. em empregados de comunicação sem escrúpulos. em gangues desportivos que
perseguem e amedrontam agentes do futebol e adversários. em programas “desportivos”
apinhados com gente sem dignidade. gente vendida. medíocre. rascos e sustentados
por estações televisivas sem qualquer tipo de pungimento para com a sociedade fica
bem expresso nas minhas palavras o risco que separa este mundo entre o lado bom
e o lado mau – para estes covardes faço questão de lhe dizer que os consagro com
o meu maior troféu: o desprezo – sei que nada mais entenderiam para além do
desprezo – mas bem lá no fundo sou um homem com sorte. esta malta estranha não
faz parte do meu rol de amigos de verdade – tenho a certeza de que não se
sentiriam bem no nosso meio [portistas. sportinguistas. benfiquistas. entre
outros] – brevemente tudo voltará ao
princípio e uma certeza tenho: os fanáticos de todos os clubes continuarão
fanáticos – infelizmente são doentes e ainda não há vacina para os curar – passem
bem
06/05/2018
02/05/2018
clarice lispector
É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o
bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em
que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma
lentamente no que eu digo.
27/04/2018
23/04/2018
um dia serei livro
pintura - willian michael harmett
um
dia serei livro mesmo que não seja o dia mundial do livro – mas enquanto não
sou livro. enquanto a lombada não se enche de mim. enquanto não engendro o
título e o prefácio se faz e desfaz. numero os dias que escrevo como se em cada
momento me escorresse pelo braço a espada de salomão – e tudo feito numa
palavra-silêncio reles. tão reles como o artista. tão podre como poeta. tão
chula como o sujeito [poético] que escreve o que mata e mata com o que escreve
– o livro cheio de coisas que pode ser nada ou pode ser tudo o que um homem tem
para sobreviver à morte – um dia serei capa. com letras enormes. redondas.
pintadas a ouro e alinhadas numa estética pró venda. mágica. a ilustrar o que
não é – do outro lado a contra capa. envergonhada por encerrar
tudo que é livro. diz apenas o que o autor manda dizer – e o que está para lá
da capa a falar baixinho. tão baixinho que só os pássaros de ruy belo sabem
pousar nas entrelinhas de um livro fechado: um dia todo o livro terá a hora da
morte assinalada como efeméride apoteótica [quase sempre morre o livro antes do
autor] – para o escritor um livro é punhal encostado ao batimento da mão que
escreve. é sofrimento e paixão. raiva e sossego. é vida feita palavra tantas
vezes incompreendida. rejeitada. ostracizada e deportada para uma ilha sem
olhos – bonita ou feia toda a palavra sozinha é inútil. mas cem palavras. cem
palavras a falarem de si. fazem alimento para uma multidão – um livro é mais do
que uma vida. é a vida de quem lê – hoje é o dia do livro e eu sem parir porra
de livro nenhum – juro que um dia terei um livro só meu e os sinos baterão ao
nome do seu criador: aleluia. aleluia. salvação e ressurreição às metáforas
porque as portas do céu abriram-se ao inferno da vida – não importa quantos
páginas se prendem à lombada. não. o que importa é que será para sempre um
livro do mundo. mesmo sem ser mundial – todo o livro encerra dentro de si um
mundo. o do seu criador – mas o meu livro. que será o livro da minha vida por não
ter outra para escrever. será também vil. ordinário. será fodido. mas também
será verdadeiro. guardará tudo o que presta como o que não presta – o meu livro
será injusto. muito injusto e justo também. será fel e mel e terá letras
direitas com tudo que nasceu torto dentro de mim – será raiva. será de gente
que ainda vive e de outra gente que por não estar viva já partiu sem saber ler
nem escrever – no meu livro. aqueles que o lerem encontrarão o que não procuram
e descobrirão que o certo será quase sempre incerto – um dia serei livro mesmo
que não seja o dia mundial do livro. ou do poeta egocêntrico ou mesmo de um
escritor que nunca soube escrever e escreve. como aquele que não sabendo ler
folheia página a página a história que vive na ponta dos seus dedos – um dia.
mesmo que não seja o dia do livro. pode ser até a merda de um dia qualquer.
serei livro contra a vontade do sonho e por cada página escrita entregarei um
grito de clemência e tolerância – nesse dia serei o que o livro quiser. vontade
e ilusão. vontade e nada ou nada de nada e serei também o que cada um souber
ler – um dia. no meu livro. serei mesmo só o que quiserem que seja e se não
quiserem... também nada serei para além do livro que sou
22/04/2018
depois de abril, antes de maio
um dia,
depois de abril
serei apenas
o que sou
e nem mais um dedo
do que sou.
e em boa verdade me interrogo
que mais poderia ser
não sei…
talvez encantador…
talvez altaneiro…
ou talvez…
louco
se me arrogasse
num pedestal
e vos cantasse
que sou mais
do que vos fala
esta
boca intranquila.
mas aqueles
que antes de maio
dizem que nada sou
um dia,
que não sei
quando
mas será sempre depois abril
dirão
que sou este mundo
e ainda outro
que não sei onde fica.
lá terão
as suas razões
que
não serão nunca as minhas
sejam de mil
ou
apenas de um de abril
dirão que fui bobo
e tolo
também
mesmo que não saibam
verdadeiramente o que dizem
porque tudo o que sou
não está na razão
está no que
não sou
e não sou tanta coisa
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