.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

08/05/2019

para ti









no fim da noite
quando já nada existe para além de nós
e o teu corpo
repousa em sonhos que não vejo
sorrateiramente
pergunto aos olhos que dormem:
ainda estás apaixonada?

e ali fico
alimentando o silêncio
como se a doçura do teu respirar me fosse oferecido
e pergunto-me:
o que sei de ti que o coração não saiba
nada meu amor
guardei-te para sempre
no homem que geraste

e aqui fico
[preso à infinitude de ti em mim]
num consolo calmo  e desapoquentado
a sentir o mistério do amor
percorrendo-te
como se fosses o último pecado
numa inocência
esmagada de paixão

e quando o meu tempo na terra terminar
que sejam os teus olhos
os últimos a ver
e as tuas mãos as últimas a ameigar
porque tu
serás sempre o único mundo
onde existi





02/05/2019

a grandeza de um poeta reflexivo





imagem google




último pensamento da noite:



mais vale ser rico. ter saúde e escrever boa prosa. do que pobre. doente e dar erros ortográficos numa prosa de merda  





24/04/2019

abri... meu abril. meu abril










aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda existem dentro de mim. e também nas coisas que não estando dentro de mim me iluminam como iluminam as auroras boreais – faz anos hoje que nasci e sempre que este dia se repete penso nas coisas boas que me aconteceram. na chuva que me molhou e nos lábios que me beijaram como se fossem primavera e me levaram até marte – e agora que o tempo é menos do que sou o que faço comigo? vivo com quê? recordo os afectos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e me corrói a alma como se fosse um alien? vivo – vivo sem vagar – o mundo criou-me da forma que escolhi – a verdade é que são as coisas que existem em mim que me fazem do tamanho que sou – aqui estou. a contar os anos. mais um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. corro desalmadamente pois sei que se faz tarde para o que há de vir – corro e escondo-me – só recatado estou sereno. só recatado sou eu numa verdade boa – e aqui estou com o tempo às voltas – há dias em que sorrio por gratidão e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo. fortifico-me com a fé de um deus que inventei só para mim e conto as rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não tem fuga. desespero. insulto-me com palavras ordinárias e juro que estou ainda mais vivo do que ontem – corro ao redor de cadeiras que não se ocupam por ordem minha. enquanto a chuva não para de cair num buraco que me entra pelos olhos e me encharca o coração – esbracejo e grito com o que me resta para a vida: aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti mas pelo que trago em mim. esta é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr pelas paredes como se tudo em mim fosse uma pilhagem fácil – estou desgostoso. melancólico. dorido e em agonia. tudo o que tenho rima com nada e com campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e eu aqui a ler o tempo como se dentro dos olhos me explodissem bombas. as mãos a rasgar o dia de ontem e as lembranças agoniadas. esbaforidas. doentes. a sangrar. a magoar os vivos. e o sino tlim tlamtlimtlame [agora] o silêncio nas coisas que existem é muito mais do que saudade – fujamfujamo coração não vê o que não ama – de frente o vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou neste corpo envelhecido tudo o que trouxe com o tempo – e aqui estou eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra – se deus me desse uma vela e um sopro apagava toda a tristeza que guardei para sobreviver – procuro ainda esperança. procuro ainda tempo. procuro ainda o que sempre procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo de poeta – toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso. outras. amargos de boca. fel. horror. revolta. crucificação que não quero merecer – não importa. tudo tem perdão quando o outono chega – a cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas valiosas cada vez mais afastadase berro nos ouvidos do mundo: só tenho uma vida – cheiro a desespero desde o dia em que quis crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu pela escada da escuridão e as coisas enlouqueceram dentro de mim. as minhas coisas revoltaram-se. e o sótão mais uma vez desarrumado. e caixas abertas. estraçalhadas a baba e ranho – e as coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários fizessem os dias voltar para trás – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro inferno. e o que imagino é um negro que magoa por avanço – nenhuma palavra será girafa. gaivota. ou garrafa perdida num oceano repleto de beijos e abraços – e as orcas gordas penduradas nos himalaias a rir à gargalhada – nada acontece às orcas e às velas que não ardem. e eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo e que sofro sempre que as abraço em silêncio – é tudo o que sei fazer – perdoo-me e os que gostam de mim também me perdoarão – o mundo só me tem servido para envelhecer


sampaio rego – 17 de abril de 2019





06/04/2019

traço um desejo







                                                               pintura - robin eley





[dueto: Dolores Marques e sampaio rego]



Há sempre um sopro nas madrugadas...
Sente-se o suave deslizar…

é onde os sonhos interrompidos tomam forma
em pequenos bocejos
no aconchego das estrelas. aos nossos desejos.

O belo! Adornos cristalinos nas mãos que me afagam a alma.
É um mundo que irrompe madrugadas
Nas noites em que a solidão toma conta de mim

mas não da esperança… embebida nas lembranças. forço as recordações a romper…
a chuva que ouço cair.
não são mais do que pétalas de estrelas a florir dentro de mim

Há um mundo a transbordar dentro de outro ainda maior.
Do meu peito soltam-se primaveras que se abrem a ti

e dum sorriso voltará a nascer o desejo
de poder partilhar todos os instantes que soltaste dentro de mim
neste caminho. que o destino traçou
escreveremos a duas mãos. o mundo

Nas mãos traço o destino que me rouba um sonho trancado
Em nuvens de algodão,
E elas sentem o meu corpo já tão cansado…





01/04/2019

esdruxulamente insignificante





imagem google



respiro e resisto neste respira[-]mento[e] que me cansa – às vezes gostava de estrangular esta minha respiração. matá-la. estropiá-la. obrigá-la a falecer no mundo das pessoas – para falar verdade. o que gostava mesmo. era de esconder-me desta civilização bárbara – nesta vida já não valho nada. só a morte me porá de novo no mundo das coisas com interesse – mas quero que saibam. aqueles que ousadamente tiverem a coragem de ler estas palavras até ao fim.  que estou lúcido. esperto e desperto para as antíteses que alimento em mim – por isso é que resisto neste respirar de socorro – vivo de antíteses. são estas que me despertam da escuridão silenciosa. são estas que me equilibram o desequilíbrio imposto por um mundo sem generosidade. sem tolerância. sem respeito e onde eu me recuso a acreditar de que há sempre uma razão superior para as coisas acontecer como acontecem – convictamente digo: não há nenhuma razão superior a não ser a razão que os homens inventam – também eu inventei uma razão para me fazer existir nesta forma esdruxulamente insignificante: plantei uma linha imaginária no centro do meu cérebro: de um lado a insignificância. do outro. o saber para compreender e aceitar tudo que é insignificante – [suportação encontrada] – pendurado nesta linha de loucura intermitente eu numa composição orgânica dolorosa: ora numa assimilação tremelicante. ora numa desassimilação pindérica – aguento-me. suporto-me. tolero-me. amarro-me aos ossos emersos na última reserva de líquido amniótico – pelas manhãs acendo-me numa energia raivosa e baloiço-me de um lado para o outro. ora no que não sei. ora no saber do que não sei – quando baloiço o destino constrói-se. mistura-se e ajusta-se – a vida foi-me oferecida por dois seres maravilhosos – quando fazes parte de algo tão maravilhoso ficas para sempre com a obrigação de respirar – sempre que respiro aceito viver – respiro gratidão – coloco o pescoço a noventa graus. olho o topo. o corpo encaracola-se. sobe por si acima porque é a única forma de descer à terra – procura – o que não vejo. sinto ou toco. não existe – se nada existe. então. quem sabe. os meus sonhos também não existem – eu não sonho. sou apenas parvo. a minha biologia evolutiva degenerou – a evolução do homem é a acumulação de mudanças através de sucessivas gerações – eu não mudei nada. sonhei. ”elastifiquei-me” no que não sou e o resultado é esta caverna inundada de sombras que nem sei se existem – e eu a baloiçar cada vez com mais força. a suster a respiração. as lágrimas. a raiva e o corpo perdido em incertezas que só existem porque teimo em fazer dos sonhos a realidade – e o mundo todo aos berros. com as línguas a tocar-me os pés. a dizer: lambe e verás como deixas de baloiçar – soubesse eu dar um mortal à retaguarda e cair de pé no mundo de quem não sonha e não lhe sente a falta – soubesse eu tanta coisa – agora. nos intervalos do soubesse. toco no que há para tocar. vejo o que me é oferecido ver e sinto o que o corpo entende que é mais do que desejo e menos do que sonho – tudo o resto. é o saber de quem sabe que nada sabe – quem sabe que nada sabe não pode ser tolo ou insignificante – mas é então o quê? 




06/03/2019

luxúria das palavras





leonid pasternak




serei impuro apenas porque desejo sentir o abraço das palavras? serei impuro por querer experienciar o feminismo das palavras? serei impuro por abandonar de vez o miserável receio de ser sentimental com as palavras? não sei – nos dias que escrevo há dentro de mim uma histeria desenfreada. atabalhoada e histérica – corre-me pelas mãos o desejo de afagar em pecado todo o vocabulário – a sirene invade o silêncio. ligo os holofotes e ilumino-as - as palavras – matreiramente sorrio. procuro dizer-lhes que estou com uma ereção factual e substancial – estou louco. perdidamente louco e miseravelmente desvairado: preciso urgentemente de as usar. de as trazer para o meu mundo de afectos. preciso de as trazer ao mundo dos leitores – william shakespeare dizia que “enquanto houver um louco. um poeta e um amante haverá sonho. amor e fantasia – e enquanto houver sonho. amor e fantasia. haverá esperança” – a esperança também é feita de palavras –quando escrevo sinto-me o melhor amante do mundo. sinto-me eu e ninguém é melhor do que um eu perdidamente enamorado – as mãos procuram o papel enquanto que os vocábulos continuam a emergir em fantasias selvagens: gemem. contorcem-se. esfregam-se em sussurros alucinados e húmidos – todo eu estremeço. acalento. as veias endurecem e ao ouvido o prazer supremo: és único. não há outro como tu – e entre elas corre agora um mel pegajoso que anuncia. a todo o momento. o orgasmo – o papel está pronto – enfeitiçado pela luz refletiva das palavras e pela generosidade de um corpo ávido de sucesso. derreto-me em sequiosas perversões reprodutivas: multiplicai-vos e enchei a terra de palavras – finalmente uma relação de simbiose: elas excitam-me e eu levo-as à loucura da leitura – não quero mais o passado. as palavras rascas e indiferentes nunca mais serão pronunciadas – quem nunca me compreendeu não merece o extasiamento verdadeiro de uma leitura – o melhor do mundo são as palavras – o que seria de nós sem as palavras. sem amo-te. sem paixão. sem abraço. sem beijo. sem quero-te. sem desejo-te. preciso de ti. tu és tudo o que necessito para ser feliz. para existir. para me fazer eterno. ejacular e fecundar – as palavras são tudo – resta-me aproveitar cada dia desta paixão certa e sedutora – estou completamente apaixonado e assim espero que continue. porque se me perguntarem se podia viver sem elas - “poder podia. mas não era a mesma coisa”


 [versão alterada de 23/11/2009]





27/02/2019

num lago batido a vento norte






pintura - inês dourado





onde param os meus amigos de infância? se alguém souber do seu paradeiro. por favor. não entre em contacto comigo. não me mande SMS. cartas. telegramas ou recadinhos em pedacinhos de papel. não os quero encontrar e também não os quero de volta ao meu mundo – não é por mal. acreditem que não. creio apenas que não resistiriam ao desencontro do meu crescimento – o tempo passou. envelheci. o catraio também envelheceu. as feições mudaram. as ideias solidificaram-se. os ossos enfraqueceram. a alma enrijou e descobri que só o silêncio e o isolamento me protegem dos desencantos – agora. agora que o corpo estagnou. vivo numa toxidade só minha: solitária e silenciosa – tornei-me egoísta. foquei-me na mirração. no agora. retirei das paredes todas as fotos da juventude. abafei as recordações num saco plástico e atirei ao mar – o sal corrói tudo. destrói todas as provas – solidifiquei a indiferença e rendi-me aos espaços vazios – dentro destas paredes só existe o que sou capaz de pensar. e quando não penso. e as paredes se tornam gigantescas. fico sem saber o que fazer ao corpo. e é quando escrevo. escrevo tudo o que sinto e fico com a sensação de que nada sei do que sinto – é esta insatisfação persistente. cruel e impiedosa que me revolve o corpo. e o que estava longe está agora aqui: o primeiro dia de escola. o carrinho de rolamentos. o autocarro para monte d`arcos. a hora de comungar. de amar. de guiar a 4L ou das mãos a cheirar às anilinas. às máquinas e às pessoas vestidas com batas autênticas. o tempo não mudou esta sensação de sentir. está tudo igual – há coisas que nos ficam para sempre. é como se dentro de nós houvesse uma gaveta mágica onde guardamos o que sentimos e sabemos o que sentimos: este sentir não tem tempo. nem vento. nem chuva. nem andorinhas. nem folhas caducas. nuvens para lá e para cá. sinos. azevinho ou gaivotas a planar sobre um lago batido a vento norte. o que era continua a ser. e o que sentia continuo a sentir – sempre estive convencido que sabia tanta coisa e agora dei conta que não sei nada – sou afinal o que? se fosse sábio. se fosso um homem igual aos outros. se não tivesse medo do que não sei. se não tivesse medo da minha ignorância. não perdia mais tempo a escrever o que sinto. não. saía do corpo e vivia. vivia sem medo de não saber o que não sei – saia das mãos. encerrava-as no correr da morte. transformava-me numa gaivota e voava por essas ruas desconhecidas. voava e vivia. porque para viver basta abandonar o que pensas e quando deixas de pensar deixas de ter corpo e um homem sem corpo é um homem livre – escrevo a liberdade que sempre desejei – é nesta solidão-silenciosa. tranquila. plácida que recuperei o caminho para me reencontrar na minha desarrumação. numa afetividade serena. meiga. sentida. desprendida. despreocupada e de uma compaixão imensa. sem reacusações. sem dedo acusador. rancor. revolta ou rebeldia – vivo num reencontro permanente. é a minha dança com lobos. o meu passado à volta de uma fogueira onde todos os que já foram meninos reaparecem a recontar a minha história – é neste reencontro de histórias que adormeço como criança e acordo com a esperança de que ainda vou a tempo de me aceitar no destino – agora. agora preciso de todo os dias que me restam para fazer de mim o que realmente sou – cumprir os desígnios do pensamento. aceitar a comoção. o desassossego dos reencontros. inventar perdões. assumir culpas e relembrar insistentemente que o que se sente é a única verdade que o corpo aceita… o que se sente é a única verdade que o corpo aceita – já não sou capaz de vender a alma ao diabo. o que ficou para trás ficou e não quero que volte – entreguei-me em definitivo ao isolamento cerebral. estar só evita estar mal-acompanhado – a vida é um desafio constante onde a desilusão está garantida. depois. ainda lhe juntamos a ingratidão. a injustiça. o azar e os desígnios de deus. é como se fosse um circo. e nós ali sentados. sem saber a quem dirigir as palmas. se ao domador pelo estalar do chicote se à fera que o tenta morder – não quero ninguém do passado perto de mim. não quero ninguém que me volte a ocupar o corpo. não quero mais aborrecimentos – envelheci. degradei-me. perdi a inocência. a fé e a vontade de mudar o mundo – envelhecemos todos. todos os meninos envelheceram. não há remédio contra o envelhecimento – estou cansado. quando se perde a fé o corpo todo deixa de acreditar. os ouvidos deixam de ouvir. a boca cala-se e mantemos os olhos fechados mesmo quando estamos acordados – estou mais morto do que vivo – tenho a certeza que um dia. depois da minha morte. cada palavra escrita encontrará a razão para a sua existência – o que escrevo será para sempre o meu reflexo num lago batido a vento norte: ondulo… ondulo… ondulo






15/02/2019

péu péu. péu péu e péu péu






pintura - kurt 2018





1.

deixemo-nos de eufemismos. a morte é o fim da consciência em definitivo – por isso. quando invoco a ressurreição. o retorno ao mundo num novo corpo. para uma nova oportunidade. estou a troçar. a gargalhar. porque só “gargalha de uma cicatriz quem nunca foi ferido” – realmente eu nunca morri por inteiro. às vezes morre uma mão. o cérebro. os olhos. a vontade de correr. de viver. e até morre as reservas de estupidez que me mantêm lúcido no intervalo dos carateres – dentro dos carateres existe apenas vida. a minha vida. o que amei. o que aprendi. o que construí. o que perdi e me magoa com saudade e todas as desilusões que nos mata mais do que a própria morte – e é por isso que escrevo. só a escrita me ressuscita desta morte faseada – estar morto é não se ser coisa nenhuma e também não existir em lado nenhum – eu existo. primeiro aqui enquanto respiro. e depois. em vocês que me leem – sei que estou vivo. mesmo que às vezes cheire a defunto 


2.
gosto de desvalorizar a morte. acicatá-la. gosto de espetar-lhe uma metáfora hiperbolizada. robusta. enérgica e incisiva. de forma a abrir roturas na semântica: o corpo que sustento dentro desta minha cabeça respira e resiste mesmo sabendo que cheira a defunto persiste – nenhum corpo deveria ter direito a uma cabeça que desiste do mundo – e pergunto: se tivesse nascido em montmatre. sacré couer. e fosse um pintor de rua será que os meus olhos faleciam antes da cabeça? e se fosse malabarista no cirque du soleil... será que os meus braços faleciam antes da cabeça? e se fosse uma folha perdida na floresta negra alemã… será que o vento me levaria até ao mar? nunca saberei ao certo – nada em mim sei como certo. nada em mim é de tal forma meu que jamais colocaria em causa que não pudesse ser de outra pessoa. nada em mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz querer ser outra coisa qualquer que não sei o que. outra coisa que não sendo minha eu acreditasse que com sorte poderia ter sido. nem que fosse apenas por uma hora. ou um segundo que demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e essa vida não pudesse ser de outra pessoa se não eu – é esta antítese que me faz baloiçar entre um corpo falecido e uma respiração moribunda que teima em prolongar as dúvidas num pensamento agonizado e teimoso – é assim que me mantenho vivo – no entanto. não me custa admitir que devo ser insuportável. nenhum corpo quer alguém como eu. ingrato. aborrecido e mal-agradecido


3.
a simbiose continua. e eu dentro desta troca de favores: o corpo respira para que a cabeça continue a pensar e a cabeça pensa para que o corpo não pare de respirar – isto deveria ser suficiente para viverem a vida tal e qual como lhes é oferecida – afinal é assim para todos – eu não posso ser exceção por mais que me sinta a cheirar a defunto – tudo na vida acontece num rápido. tudo é celeridade. esta ideia errada de que a nossa passagem terrena é demorada é a maior trapaça que nos enfiaram pelo corpo. acabei de nascer ontem e o amanhã já não sei se vai acontecer – para acelerar ainda mais esta viagem começamos a morrer aos poucos. às vezes o corpo respira e a cabeça já é defunta há uma dezena de anos – houve uma época em que acreditava que morreria todo de uma vez. de velhice. de mão dada com a minha companheira. amarrado à saudade. às memórias e a pedir a um deus qualquer que me desse outra vida. que me deixasse voltar à juventude. às correrias. ao amor fácil. aos carros velozes e aos amigos loucos e bonitos – fazia tudo diferente. bem. não digo tudo. mas muita coisa seria diferente – o que fazia igualzinho era conquistar a mesma mulher. no mesmo sítio. à mesma hora e com o mesmo beijo – amo-a daqui até ao infinito – mas enganei-me. poucos são aqueles que morrem de uma vez só – a fé já passou por mim. envelheci nuns dias e apodreci em outros. e agora. nada do que resta em mim. enquanto humano que respira. tem força para mudar esta vida que me manipulou. aldrabou e iludiu – todos os dias morro um bocadinho – o tempo não flui num só sentido. o tempo flui de fora para dentro do corpo e atulha-nos de anseios que não podemos alcançar e depois. há um dia. de raiva. deitamos todo o acreditar para fora e perdemo-nos. e já não há viagem de volta – partimos. fragmentamo-nos em pedaços de nada e sumimos para sempre na escuridão do mundo – só inteiros somos visíveis. só inteiros valemos alguma coisa – estou perdido. não me encontro em lado nenhum e o que me faz saber vivo é o barulho que faço a respirar – estou entre as mãos que escrevem e o falecimento de tudo o que me trouxe até aos dias de hoje. perdi-me das memórias. perdi-me da chave das portas que fechei. das orações que não rezei. e pior. das palavras que escrevi e me construíram como se fosse uma fábrica de coisas inúteis: de facas que nada cortaram. agulhas que nada coseram. água que nada lavou e pernas que não andaram e o baú cheio de relíquias de vidro. frágeis. estúpidas e sem valor – nada do que deixo como tesouro. as palavras que escrevi. mudará o que quer que seja do mundo que era meu.  digo era porque já me considero falecido para a criação – o que criei está criado – ingratidão sempre houve e também sempre houveram homens bons que morrem muito tempo antes de morrer a respiração – morto sou muito mais feliz – quando um homem falece o mundo deixa de punir e começa a perdoar – era bom homem. não teve muita sorte na vida mas tinha bom coração… e péu péu. péu péu e péu péu – fossem todos como ele e este mundo seria bem melhor… e péu péu. péu péu e péu péu – coitado. tanto sacrifício para isto. morreu sem glória… e péu péu. péu péu e péu péu – esta vida são dois dias. tanta maldade no mundo para todos acabarem assim… e péu péu. péu péu e péu péu – que se lixe a lamechice.  tudo o que fui. bom ou mau. está dentro de mim e inevitavelmente arderá comigo no dia da cremação – e quando o corpo arder por minha ordem. e a pó voltar. e a vento marchar. e a mar cheirar. tudo ficará divino e novamente às ordens de um deus que me queira recriar – se este deus existir. e se a minha imagem se fizer novamente à sua imagem. então peço-lhe: que não me roube a memória. nem me alteres a morada de minha casa. pois esse é o único caminho que guardo no pó – “do pó viestes. ao pó voltarás (Gn 3,19)”. do coração te fizeste. e ao coração voltarás 


4.
e assim se cumprirá a profecia de um livro que me pesou tanto como a vida: finalmente serei corpo sem respirar e sem fé – as palavras não ardem – é nas palavras que continuarei a respirar. continuarei ofegante. mas agora sem mágoa. sem correrias. sem o silêncio nostálgico. cheio de barulhos. a magoar. nascido no lado escuro da lua – bem. confesso que não tenho a certeza onde nasceu. talvez tenha sido parido nos anéis de júpiter. ou quem sabe. enviado numa cegonha por um deus extraterrestre. ou então. dentro de uma pia de água benta para me proteger dos demónios do escuro – mas já que estamos em tempo de confissões. aqui vai mais uma. tenho medo do escuro da morte. sempre tive medo do escuro. no escuro perco-me de mim com mais facilidade e o silêncio amedronta-se. aterroriza-se. fica ainda mais negro do que o próprio negro do escuro. e os fantasmas. só para me irritar. vestem-se de branco. trepam as paredes e empecilham-me as recordações – estúpidos. abutres. quando lhes cheira a morte não nos largam – há anos que os sinto a poisar sobre mim – só nas palavras sou eu. e mesmo que a respiração vos pareça terminal. sou eu a resistir – a minha realidade viverá na dignidade do pó e para sempre




13/02/2019

eu





fábio magalhães




nada em mim sei como certo. nada em mim é de tal forma meu que jamais colocaria em causa que não pudesse ser de outra pessoa – nada em mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz querer ser outra coisa qualquer que não sei o que. outra coisa que não sendo minha eu acreditasse que com sorte poderia ter sido. nem que fosse apenas por uma hora. ou um segundo que demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e essa vida não pudesse ser de outra pessoa se não eu





25/01/2019

a tenda II





ricardo paula




e a tenda cheia de gente emocionada. olhos no ar. e os corpos rebolam num desafio constante à gravidade – elas voam de baloiço em baloiço. sem rede. e um sorriso. e outro. e entre as pernas afogueadas entra o calor de um humano escuro com breu – o amor ao circo permite tudo – e o chicote estala enquanto os leões rosnam em cio importado numa loja de bugigangas orientais – as leoas retocam os lábios prometendo-lhes afagos e segredos que os tornam reis em selva de manjericão – e o mágico a fazer desaparecer tudo que é amor. e da cartola mais uma ereção para o público gritar em delírio: sexo. sexo. sexo – as palmas já não chegam – é o vício – é o jogo das cadeiras a circular e corre o leão. e depois o elefante. e o jacaré e o hipopótamo e a formiga sem lugar para se sentar – é o circo da vida – e o que é fogo que não arde é agora uma labareda – a estrada da noite é longa e o desatino é alegria numa caixa de viagra – o circo sempre em movimento e de cidade em cidade. de alma em alma e de controle em controle ninguém quer parar a ilusão – brevemente numa casa de ejaculações perto de si 





22/01/2019

deambulações noturnas XXXVI





pintura - picasso




se fosse um escritor com chancela as passadeiras do chão nunca se teriam enrodilhado  –  uma metáfora para não dizer nada  – e também a quem importa o que digo?




20/01/2019

um domingo de 2019






pintura - jean-michel folon





engrenagens

a escrita é como uma oficina de reparações de relógios – deste modo. quando no interior do espaço intracraniano os devaneios entram em estado de delírio. amarro neles. todos. e atiro-os para o papel – o alívio é instantâneo. o transtorno neurológico volta para valores de sossego e o artista retoma a forma humanizada – uma casa mágica. onde o papel é a relojoaria e o escriba o relojoeiro [o contrário também] – o relojoeiro. é o homem dos restauros quase sempre complicados. pressupostamente sábio. amigo de atena. solitário. olhos curtos e precisos. amarrado a tudo que é silencioso e a ferramentas minúsculas – tudo ao seu redor é pequenino: parafusinhos. alicatezinhos. rodinhas. cordinhas. pincinhas. um folinho para soprar poeirinhas e umas não sei quantas lupinhas para aumentar mil vezes a imperfeição – sou então relógio e relojoeiro ao mesmo tempo. quer isto dizer. dou corda e gasto-a – muitas vezes não é nada de grave. troca-se a pilha. duas abanadelas e tudo volta à hora certa – e digo para mim mesmo: está como novo sr. sampaio. tens aqui uma máquina para a vida – hoje já não se fazem coisas destas – um sorriso que dobra a esquina da rua e lá saio para o mundo com a convicção de que as palavras são pontuais. rigorosas. extremosas e bonitas. tudo a bater certo com greenwich – gosto de pontualidade. um homem nunca deve chegar atrasado a nada. muito menos nas palavras que falam sobre ele – não tolero aqueles sujeitinhos que se esquecem de ver as horas. e depois. com cara de pau. tem a lata de dizer que não é por mal. é feitio. são assim – não acredito em homens sem relógio – outras vezes. olho para o relojoeiro e percebo que a coisa é grave – a máquina encostada ao ouvido. ar sombrio. carregado de preocupação. mexendo para lá e para cá. como se estivesse a tentar reanimá-la de uma paragem cardíaca – mais uma abanadela. revira e volta a revirar e o semblante em agonia acelerada. os batimentos estão por um fio – o terror estampado na face do relojoeiro – nem necessita falar. percebo que a situação é grave. irreversível. com os olhos na lupinha diz-me: vamos ver o que se pode fazer sr. sampaio. mas pelos sintomas não lhe descortino grande futuro – isto está mesmo muito mau – deixe ficar para ver o que posso fazer. passe daqui a três ou quatro dias e já lhe poderei adiantar alguma coisa – vamos pedir a deus que tudo corra bem – saio da relojoaria com a certeza de que o perdi para sempre – não haverá mais tic tac – esta crónica está morta


[e assim foi preenchido cada dia da minha semana. crónicas sem rede. escrever e postar no mesmo dia – foi um teste duro e complicado – confesso que gosto muito mais de deixar as palavras a alourar em lume brando. ficam mais condimentadas e as papilas gustativas excitam-se com mais facilidade – bem sei que cada leitor sentirá um sabor diferente. mas creiam. tudo foi ao lume com muito amor e sempre a pensar em vocês – boa semana]





19/01/2019

um sábado de 2019






pintura - victor brauner




terra. florestas. desertos. cidades e casas rodeadas de penúria – há igrejas. sanatórios. casebres e albergues que não passam de casas de putas – há sangue. vespas. sambesugas e ceifeiras vestidas de preto a rebolar em campos que já foram de trigo – há raiva. vómito. dor e comboios que só param no inferno onde tudo não passa de uma agonia miserável – e há dentro de mim uma vontade enorme de meter a terra num foguetão e mandar tudo para um caralho que foda todas as estrela do céu – e tudo na vida não passa de uma prosa presa a uma cabeça de fósforo que arde como ardem as desordens no subconsciente – se tivesse um pouco de sorte neste azar de quem já nada poder alterar nas palavras que escreveu. e se o meu corpo em vez de se decompor em estrume se decompusesse em abraços. quem sabe. a primavera acontecia mesmo em tempo de inverno – e eu a olhar para mim. numa ambição que vai da terra até ao céu. e lá do alto. o que vejo é saudade a cair dos bolsos. como se fossem gaivotas e soubessem que a vida corre em janelas abertas





18/01/2019

uma sexta-feira de 2019





escultura - ron muek


doutrina kantiana
com a idade aproximei-me da teoria moral de kant. as regras morais são agora. mais do que nunca. imperativos categóricos – incluí nestas regras morais a mentira – confesso que. ultimamente. não suporto gente mentirosa – na maior parte das vezes tudo começa com um sorriso impostor. não satisfeitos iniciam o carregamento da burra com elogios despropositados. mentirosos. burlões – na parte final. como o discurso não é sustentado pela verdade. tudo termina com meia dúzia de desculpas esfarrapadas – se respeitassem a doutrina de kant saberiam que agir com moralidade significa agir de acordo com o dever. mesmo que as consequências não sejam positivas – e nem era preciso muito para fazer cumprir esta doutrina: 1º. não rir sem propósito quando nos encontramos com alguém que não apreciamos. não é obrigatório receber ninguém com um sorriso de orelha a orelha – 2º. não elogiar sem uma qualidade ou virtude objetiva. o elogio é sempre uma resposta excecional para um comportamento extraordinário – 3º. por último. não se despeçam com festas e mordomias excessivas emolduradas em promessas que todos sabem não se cumprirem. basta um até sempre e ficavam livres do constrangimento de uma desculpa pindérica – a mentira só existe para enganar. para magoar. atraiçoar. iludir ou mesmo burlar – quem mente não tem ética e age sempre em base de algum interesse – a mentira foi inventada para ferir infindavelmente por não ter reparação – quando perdes um[a] amigo[a] por uma ilusão mentirosa é fácil reparar o estrago. basta procurar uma outra razão para te iludires e o que está para trás logo esquece – quando és burlado chamas uns quantos impropérios ao burlão e interrogas-te como foste capaz de cair naquela palermice. aprendes com o erro. deitas tudo para trás das costas e juras que não voltarás a cair noutra esparrela – quando és atraiçoado a dor ao princípio pode ser cruel. mas aos poucos. percebes que a cura depende apenas de ti e partes ao encontro de um novo sentido para a vida – a mentira é diferente. quando te mentem é para sempre. não consegues perdoar porque nunca a conseguiste compreender e interrogas-te o que fizeste para a merecer – na maior parte das vezes nada fizeste para além de falares com frontalidade. com verdade. e às vezes. sim. também com crueldade – detesto a mentira. detesto sorrisos mentirosos e detesto ainda mais as mentiras trajadas com pele de cordeiro – vivemos tempos novos. as mentiras e as aldrabices são feitas com um simples batimento de uma tecla do teclado – os perigos ainda estão em fase de enumeração e catalogação. mas. já é certo que há gente doente. mais ou menos perigosa. alimentando dentro de si novas estirpes de psicose. onde a mentira deixou de pertencer exclusivamente ao roto. trajou-se de um chique delirante e passou a uma verdade absoluta lunática nem o mentiroso sabe que está a mentir. contaminado pelo vírus da excentricidade passou a ver o mundo todo de pernas para o ar e o único que está de pé é ele. perdeu o completo contacto com a realidade – são tempos difíceis. onde cada um quer exibir nele o melhor dos outros: o melhor marido. o melhor ego. o melhor sorriso. o melhor passado. o melhor pensamento. o melhor amigo. o melhor par de sapatos. o melhor filho.  e tudo que pode ser feito com um simples bater de uma tecla e o que não consegue ter a teclar é porque entendeu ser o melhor para tia. para o cão. o gato. o padre e o sacristão – estou farto de gente mentirosa. estou farto de gente gananciosa. estou farto de burlões – é altura de “agir apenas segundo uma regra pela qual possas ao mesmo tempo querer que se torne uma lei universal” – não contem com a minha boca fechada. continuarei a falar como sempre. com a minha verdade. doía ela o que doer



17/01/2019

uma quinta-feira de 2019






pintura - dyanne



[o autocarro só passa uma vez à nossa porta]

depois de uma determinada idade perder o que quer que seja é um aborrecimento e. em meu entender. deve sempre merecer a nossa melhor atenção e reflexão. se essa perda se tratar de pessoas que prezamos – podemos perder a carteira por descuido. o cartão de crédito por tontice. o carro gamado por um meliante sem escrúpulos ou a pantufa para a boca do nosso fiel amigo – todas estas coisas se podem recuperar ou em último recurso redimensionar para baixo os danos da perda – é hábito dizer que só a morte não tem solução. e é verdade – mas há uma coisa que já não dá mais para perder. falo de amigos ou mesmo apenas de pessoas que estimávamos e que. com as suas diferenças. nos ajudavam a manter a nossa saúde mental e principalmente. lustram emocionalmente a nossa passagem terrena – o que seria de nós sem amigos – mas já todos perdemos um amigo. creio que são poucos aqueles que nunca tiveram uma desilusão com alguém que estimavam – eu não sou diferente. já perdi amigos e confesso-vos que não foi nada fácil – mas são estas perdas que nos fazem valorizar aquelas que resistem ao tempo. com diferenças. com brigas e com a nossa constante adaptação ao tempo que gastamos. o envelhecimento – como diz o ditado popular os amigos veem-se no hospital e na cadeia – por mais teorias. juras. abraços. boas palavras e sorrisos de orelha a orelha só saberemos o valor de uma amizade depois de testada – é nos momentos menos bons que ficamos a saber quem realmente está connosco e dá o corpo às balas – e não raramente temos surpresas. os que pensávamos estarem connosco são os primeiros a abandonar o barco. e quando olhamos para o lado somos surpreendidos com a presença de alguém que não imaginávamos ser possível estar ao nosso pé a segurar as pontas – o que acontece é que as amizades mais antigas. fruto dos anos. acabam por cair numa rotina impostora – isto é. fruto de um conhecimento adquirido ao longo do tempo acabamos por nos desviar de nós para agradar exclusivamente aos nossos amigos – os amigos fazem o mesmo e tudo parece perfeito até que um dia a faísca acontece. a combustão lenta mina a tolerância e a lealdade. os laços desfazem-se e quando ninguém espera dá-se a explosão – lá se foram dezenas de anos por água abaixo – no passado raramente demonstrava interesse por conquistar novas amizades. achava sempre que já tinha amigos suficientes – com o tempo passei a dar mais oportunidades às amizades recentes. surgem numa fase da vida em que estamos mais sábios e mais competentes para ver além do papel embrulho – geralmente. estas novas amizades. acontecem já fruto de uma comunhão de interesses. se gostamos de futebol fazemos esse novo amigo num jogo de casados e solteiros. se gostamos de pesca fazemos o amigo a vender o seu espólio na lota e por aí adiante – são momentos fantásticos. o mundo parece-nos perfeito e estamos-lhe grato pela sua imprevisibilidade – com milhões de hipóteses para o desencontro e contra todas as estatísticas a equação deu erro e o encontro aconteceu quando menos esperávamos – e dizemos os dois: olha a sorte que tivemos. quem havia de dizer que nos haveríamos de conhecer neste lugar – e é assim mesmo. quem haveria de dizer. ninguém. mas aconteceu e estamos todos muito felizes por habitar o planeta terra – olhamos em frente e passamos a acreditar no destino: estava escrito nas estrelas. ainda bem que assim foi. estamos agradecidos por fazerem parte da nossa vida – finalmente podemos arrasar com a teoria de que é necessário andarmos todos na escola para construir um relacionamento de amigo verdadeiro baseada no respeito mútuo. na verdade. na cumplicidade e na lealdade – mas com a idade. e apesar de toda a sapiência adquirida ao longo da vida. perder uma amizade levanta outros problemas: a vida começa a escassear e pode cair por terra aquela velha máxima de que o tempo coloca tudo no seu lugar – pode muito bem não colocar já coisa nenhuma e não coloca só por falta de tempo. não coloca também por falta de paciência. já não há força e muito menos a ingenuidade e perseverança da juventude – o corpo está cansado e a mente já não tem flexibilidade ou disposição para grandes reflexões sobre o que está certo ou errado. o que pode ser desculpado e o que não tem desculpa – as atenuantes para o erro. ou para o perdão cristão. já não são levados em conta. não porque não haja atenuantes ou por não querermos perdoar e desejarmos até um mal maior em forma de pena compensatória. não. o problema não é esse. é bem mais simples do que se possa imaginar – em boa verdade. há apenas o desejo de uma nova vida. um recomeço. os limites para a tolerância alteram-se e já não há pachorra para aceitar mais do mesmo. oferecer a outra face está definitivamente fora de hipótese e que se lixe o caminho para o céu – que se dane o paraíso. o preço da entrada é demasiado alto – dobramos a curva da tolerância. deixamos de a ver. e não fazemos conta de voltar para trás para a recuperar – já não dá. estamos esgotados e sem forças para compreender os outros chegou a hora de nos compreenderem. e principalmente. de nos aceitarmos exatamente como somos – já não dá para fazer fretes – recordo aqui uma frase de clarice lispector que no meu entender resume bem a perigosidade de conceder… “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” – já entrei naquele estágio da vida em que pago para não ter aborrecimentos e. sobretudo. não ter que aturar cromos – nem tudo na idade é mau. nestas coisas de gerenciar relações a idade é um posto e quando deixamos para trás qualquer coisa já não há volta a dar – se no passado era um problema que nos tirava o sono. ficávamos tristes. os dias confundiam-se com a noite. a comida não passava. os cigarros acumulavam-se na boca e a vontade de dar dois murros no culpado eram substituídos por um murro numa porta e os dedos é que pagavam com um inchaço durante oito dias – ficávamos para morrer. e não havia forma de acabar com a depressão. aziumávamos. sentíamos-mos injustiçados. protestávamos com o mundo e connosco e só o tempo nos lavava a alma – agora. maduro. mas ainda sem estar a cair de podre. percebo que a vida é assim mesmo. todos diferentes por dentro e todos iguais por fora. é feita de perdas e ganhos. de alegrias e dissabores. de gratidão e ingratidão e de opções que não podemos nem devemos questionar porque não nos dizem respeito – cada um sabe o que é melhor para si e para os seus – as amizades podem ser negociadas. mas nunca compradas – estes são apenas contratempos que nos obrigam a reajustar a nossa entrega aos que queremos e gostamos de ter por perto – fecha-se uma porta. abre-se outra. redireciona-se o tempo para mais de mil coisas que ainda nos falta fazer. a vida pode ser inventada todos os dias. há tanta coisa ainda por fazer – por mais que nos custe. estou certo. que o melhor para todos é a arquivação das comoções. boas e más na pasta dos diversos – já não compensa a trabalheira de refazer uma relação de amizade ou apenas de cordialidade – assim faço. sempre que uma pretensa amizade me aborrece. não há papas na língua. bato a porta e siga o andor que o santo tem pressa – confesso. nem quero saber se tenho muita ou pouca razão. sei que tenho a suficiente para não me aborrecer ou maltratar-me – o importante mesmo sou eu e quem comigo caminha – o autocarro só passa uma única vez na vida. se o perdes já não há volta a dar – podes mudar de local e apanhar outro. mas já não leva o mesmo destino nem os mesmos passageiros – uma coisa eu sei. tudo que fazemos tem um preço na vida – eu pago o meu preço. a diferença em relação ao que fui em tempos idos é quero sorrir para o futuro em vez de chorar para o passado