.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

18/06/2019

paradoxo de teseu










pôr-do-sol – um gesto. uma cabeça cheia de incertezas e os olhos pousados em coisas sem mobilidade: um candeeiro. um lápis. uma agenda de um ano que já não me lembro. uns quantos papeis sem o menor interesse. uma miniatura da nau de cabral e uma parede paspatur – nesta parede existo como nunca vivi [as máquinas fotográficas escondem coisas do tamanho do king kong] – voltemos ao pôr-do-sol. voltemos a um não defunto avelhentado. escurecido de medo. desacertado do relógio. do tempo que passa. da régua que mede e de um mar-gaivota a planar no peito – tenho a certeza que numa outra vida fui marinheiro – olho as mãos e mudo-lhes a cor. atiro-as para os raios de luz e amarro-me ao que escapa da escureza – entre os dedos um rosário de coisas a passar como se fossem feridas – será que ainda sou eu? ou será que se me aplica o paradoxo do navio de teseu? acho que já nada resta do que me trouxe a este pôr-do-sol. não tenho a mesma forma. nem os mesmos sonhos. as mãos fizeram-se em letras e os pensamentos romperam-se pela inutilidade – estou amarrado num corpo que se metamorfoseou para chegar a adulto – estou agora numa espécie de estágio de crisálida. estou parado. enrolado na vida a tentar compreender o meu insofrimento à incerteza – estou a pensar e a sentir o corpo. a respirar em forma de perdão – quem não pede perdão nunca será perdoado – não posso chegar ao futuro sem ter a certeza de que a minha intolerância à incerteza não tem uma explicação – respiro. concentro-me na parede paspatur e caminho de foto em foto – vou – “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe pra onde ir”* não sei se a incerteza nasceu comigo ou se me entrou no corpo com a primeira golfada de ar – há coisas que nunca saberei. talvez seja melhor assim. às vezes é melhor não saber a verdade – sei que a incerteza mora com os fantasmas. percorre as mesmas paredes. os mesmo cortinados. as mesmas luzes escorridas. os mesmos sons escondidos e solta as mesmas lágrimas – o que sei mesmo é que tanto a incerteza como o fantasma precisam do humano para existir – e aqui estou. parado. quase sem respirar. a controlar o medo. a justificar-me com o paradoxo de teseu. a dizer que sou o mesmo apesar de quase nada restar das incertezas que me fizeram crescer – se vos pudesse mostrar como foi difícil chegar a este pôr-de-sol – estou desfigurado. alterado. o medo ganhou garras e o que era para voar cravou-se à parede paspatur – resta-me uma obsessão doentia de uma felicidade que em boa verdade não sei se existe – viver não deveria ser tão complicado – ”você nunca vai saber o que vem depois de sábado, quem sabe um século muito mais lindo e mais sábio, quem sabe apenas mais um domingo”** – toda a minha vida viajei pelo meu corpo à procura de explicações para as incertezas. atraquei em lugares que nem sei se existem. mas uma coisa sei. nunca atraquei em amesterdão e nunca encontrei a ana dos olhos enxutos*** – uma brisa me soprou que vem aí mau tempo**** – acredito que sim. estou quase certo de que a ira de poseidon chegará logo depois do pôr-do-sol – viver com as incertezas não é uma escolha voluntária – e aqui estou a ver coisas. a ouvir coisas. a misturar coisas. a centrifugar coisas. e o centro do pensamento cada vez mais estúpido. projetando obscenidades para a parede paspatur numa discordância trapézica que baloiça entre merece e não merece – a parede paspatur continua indiferente. mouca. desligada da minha incerteza doentia e melancólica – e eu preso à vida de uma forma que não a compreendo – o pôr-do-sol está [também] prestes a falecer. amarra-se ao que resta da cidade. esvai-se entre as casas numa tristeza depressiva. angustiante e uma brisa fria toca a janela como se já fosse morte – será que se pode colocar o paradoxo de teseu ao pôr-do-sol? não sei – gostava de imaginar um corpo inteiro de certezas. gostava que abril fosse o mês certo para quem quer nascer. gostava que todos os úteros se emprenhassem de flores e pássaros e mesmo que os rios não cheguem ao mar com o sol em vénus que o pôr-do-sol me conforte quando o corpo se fizer inverno – foi tudo tão rápido e incerto – estou cansado. apetece-me encostar o corpo ao vento e ficar para o dia seguinte – não há nenhum pôr-do-sol igual a outro – neste corpo ocupado de incertezas o que resta de luz dá apenas para aclarar a opacidade das coisas que me rodeiam – aos poucos. todas as coisas se tornarão turvas. densas. estranhas e com formas monstruosas – tenho que aproveitar o que resta do pôr-do-sol. esconder as sombras dos fantasmas e correr como se ainda não fosse tarde para que a boca não sinta a minha ausência – mas se o corpo cumprir um destino e as pedras do caminho uma ironia sem tino. entãoquero desaparecer. quero chorar prostrado o fim desta minha eternidade e que esta enorme realidade termine como se de uma história de amor se tratasse. e porque a morte não pode ser um equívoco. nem punhal sem desígnio. enveneno o que resta de mim numa última golfada de ar e vomito em sangue o meu nome para as pedras que um dia pisei – só as pedras guardam em silêncio o que resta de um homem – soubesse eu caminhar como um pássaro e sorrir como uma amendoeira em flor e a distância para o céu nunca seria medida de abril – como será o pôr-do-sol no dia seguinte? tenho medo do escuro. tenho medo do que vejo no escuro. tenho medo do que não vejo no escuro. tenho medo mesmo sabendo que algumas coisas só existem quando penso – como se houvesse um trono para quem vive a pensar. não há. tudo o que somos está no que gerámos com as mãos e depois. se formos sábios. levamo-nos para dentro das coisas universais – abril é um mês cruel – e aqui estou neste pedaço de terra minúsculo onde existo. a olhar o pôr-do-sol a morrer para mim. e pergunto-me se o mundo não seria mais pequeno se não tivesse nascido em abril – vivo mesmo sabendo que não sou nada. mesmo sabendo que poderia ter sido outra coisa que não nada. se de arte o corpo se tomasse – procuro-me até que o destino me encontre. pois sei que no fim tudo passará se um pouco de mim não ficar nem que seja apenas pesar – nunca digas nada que o mundo não compreenda e nunca faças nada que o mundo não aceite sem pensar – o mundo é assim. é um todo distraído e impiedoso e só fazendo parte desse todo distraído e piedoso é que serás capaz de compreender as tuas incertezas nas certezas do mundo – e as coisas sem parar de passar pelos dedos a magoar – quero esquecer tudo o que guardo nesta parede paspatur. quero apanhar o vento e navegar no que resta dos mares. procurar-me em cada ilha. em cada gaivota. em cada dia de sol ou chuva. buscar-me em todas as incertezas até me encontrar com a última certeza – depoisem paz. procuro um pôr-do-sol e relembro todos aqueles que me fizeram existir. sento-os comigo. abraço-os e segredo-lhes vida. peço-lhes a absolvição e por fim. aceito-me numa incerteza boa e parto na saudade de ter existido até ao meu último pôr-do-sol como diz gustave flaubert. salvo se formos cretinos. morremos sempre na incerteza do nosso próprio valor e do da nossa obra – sei que um dia abril descansará em mim


*lúcio sêneca
**paulo leminski:
*** música de chico buarque: bom tempo – adaptação da letra
**** música de chico buarque – ana de amesterdão –
chico buarque venceu o prémio camões 2019 – trazê-lo para o meu texto é a minha pequeníssima homenagem à sua carreira como músico e escritor



04/06/2019

gosto











gosto de quem passa do meu lado e também gosto de quem passa do outro lado – gosto de quem passa para cá e também gosto de quem passa para lá – gosto de quem desce do céu e também gosto de quem sobe do hades – gosto dos desconhecidos e também gosto dos conhecidos – gosto dos amigos porque gosto e também gosto dos amigos porque gostam de mim – gosto da minha família e não posso parar de gostar porque são sangue do meu sangue – gosto da minha companheira porque sem ela nunca saberia pronunciar o verbo gostar no incondicional – gosto de a ter a meu lado. gosto de a respeitar. gosto de lhe dizer que é a mãe dos meus filhos o que concede valor divino a este gostar – gosto de a segredar. gosto de a ver sorrir. de a sentir feliz. respeitada por mim e por quem lhe passa na vida. e gosto de lhe dizer: amo-te – gosto de a olhar nos olhos. gosto de a abraçar e mesmo nos dias em que não a abraço sei que não parei de gostar – gosto do silêncio do abraço. de a trazer para dentro de mim e escondê-la do mundo da estupidez e da raiva de quem não cabe dentro de um abraço – gosto de abraços. de abraçar e ser abraçado – um homem sem abraços é um homem pequenino. raquítico e enfezado – gosto de fazer alegria mesmo que dentro de mim a tristeza não me queira ver sorrir – gosto da vida cheia de gente. de gente que fala. que fala porque gosta de falar e que abraça porque gosta de abraçar – e agora. depois dos “cinquentas”. mais sábio. mais tolerante. também gosto daqueles que encontram desculpas para nada aprenderem com a doçura de um abraço. para a sua falta de gentileza por fadiga. de cortesia por sexismo de género. de educação por iletrismo e de nobreza por défice de excelência – só não gosto de gente que procria a vulgaridade conspurcando as relações sociais com um neandertalismo que julgava extinto – mas não importa. o importante mesmo é que gosto deste mundo redondo. azul. com mares. sol e sal. mesmo que às vezes me apareçam bestas quadradas. negras. sem mares. sem sol e sem sal – mas a vida é o que é. e hoje sabe-se que a evolução do homem não está completa. e também se sabe que alguns ficaram para trás. perderam-se na centrifugação do mundo e foram jogados para os polos – mesmo assim. gosto de andar por cá e continuo a gostar desta terra que herdei fruto de um abraço especial há mais de cinquenta anos – pudesse eu explicar-lhes o valor desse abraço que me gerou. quer dizer. eu poder. podia. mas valeria a pena?! haveria QI?! haveria vontade de sair dos polos?! não importa. existirei sempre para além da escuridão. do erro. da tristeza. da desilusão – sempre – e na minha mão. umas quantas flores colhidas em mim para vocês





28/05/2019

deambulações noturnas XXXVIII





pintura - cristina strapação




sabem: gostava imenso de construir uma casa nas nuvens sem que ninguém me apontasse o dedo por viver nas alturas





26/05/2019

resisti ao desânimo – eu voto






imagem google




estou triste. descrente e irritado – o homem ocidental emergiu acorrentado a um pensamento religioso dominante. escravizou-se num denominador comum a toda a europa antes das descobertas marítimas. e depois. alargou a sua influência às colonizações – a esta religião. o cristianismo [outras há mas com menor implantação]. está implícito um determinado comportamento dos costumes. da moral e da ética. estereótipos manipuladores que moldaram “negativamente” padrões de uma sociedade que se quer livre e genuína – o fundamentalismo religioso. através da palavra. manipulava. condicionava e controlava o evolucionismo do homem – para esta comunidade religiosa a verdade absoluta é que os homens [todos]. foram criados à semelhança de adão – teorias como as de darwin não eram toleradas nesta[s] organização[ões] de fé em deus – a religião acabou por estender os seus tentáculos ao mundo científico. condicionando a sua evolução. mas também. recuando ao seu passado para manipular factos históricos – a bíblia era a resposta para todos os males do mundo: o que corria bem era obra do santíssimo. se corria mal. os desígnios de deus são insondáveis – castrado. o homem foi apodrecendo lentamente – criou-se uma fragrância dos dejetos humanos. horrorizou-se os aromas naturais e deixamos de procurar a primavera com medo de perder o inverno – só os poderosos: clérigo. nobreza e ordens militares gozavam de privilégios especiais em relação às demais camadas da sociedade – esta europa vivia em festa. as suas casas reais através de impostos elevadíssimos aos mais desfavorecidos. ostentava a sua glória em banquetes. roupas. jóias. etc. enquanto o seu povo sobrevive numa desumanização brutal. viviam em guetos de pobreza. sem acesso à educação. à saúde e cargas de trabalho elevadíssimas para salários miseráveis – era este o sacrífico para a sobrevivência –  com o passar dos séculos e a imergente insatisfação do povo. as nobrezas. aos poucos.  foram substituídas por monarquias constitucionais ou repúblicas corruptas: democracias tirânicas onde os roubos são permitidos em nome de um estado pervertido pelos grandes grupos económicos – estas democracias criminosas.  permitem escandalosamente que os ricos fiquem mais ricos de uma forma legal – mas claro está que para branquear os lucros sujos a transparência e equidade das leis tiveram que ser adulteradas e ajustadas à ganância dos novos democratas e. para isso. nada melhor do que criar uma nova classe nobre: os “ricos” políticos das novas democracias – poder e dinheiro em troca de mais dinheiro e poder – este é o verdadeiro trabalho dos políticos da nova ordem de classes na europa – que se lixe o povo. que se lixe a poluição. os oceanos. as florestas. os animais em vias de extinção. as populações do interior. a saúde. a educação. a natalidade. e que se lixe o futuro e o planeta terra – o importante para este grupo de malfeitores [é claro que há exceções. raras. mas há] é o dia de hoje e o seu modo de vida corrupto – trabalhou-se a ideia de que a democracia pensada pelos gregos tinha emergido. depois de uns quantos séculos. numa nova versão melhorada e mais justa – agora sim. o povo é quem mais ordena e as eleições a sua arma – depressa percebemos que a grande arma das democracias já não é o voto mas sim os media e também rapidamente percebemos que estes não são controlados pelo povo. mas fazem parte das ferramentas do mal de grandes grupos económicos – os perversos. da direita ou da esquerda. subtilmente e graciosamente ajudam a colorir o voto de acordo com os seus interesses – ainda recentemente tivemos a eleição do trump e bolsonaro – o mundo ocidental trabalhou e projetou a padronização da opinião e organizou-se em camadas totémicas circulares [formato cone. os mais poderosos na parte superior. o refugo na sua base]. planificou a liberdade minando-a e influenciando negativamente o pensamento. condicionando a evolução natural do homem – quem não se adaptar a esta pirâmide do horror está excluído do mundo dos afetos socias. das oportunidades de trabalho decentes. dos cuidados de saúde. da alimentação. da habitação e da educação – criamos uma sociedade de homens envergonhados. o mundo das margens. da ostracização. da incompreensão. das comunidades dos porquês silenciosos – e por mais perguntas que se faça não há resposta para que mais de oitenta porcento da riqueza do mundo permaneça nas mãos de apenas um porcento da população – as sociedades ocidentais contemporâneas. capitalistas na sua estrutura neoliberal. globalizada. roubou o sonho do homem. escravizou-o. encarcerou-o no consumismo – o homem contemporâneo nasce dentro da prisão que os seus pais ajudaram a construir – resignado. subserviente. amedrontado e conformado. respira para sobreviver e sobrevive pela fé – o homem revolucionário que anceia viver a verdadeira liberdade numa comunidade justa. igualitária e fraterna. percorre a sua presença no mundo à procura do que deveria ser seu por direito: a felicidade nas relações socias e principalmente no seu emprego como factor de integração e crescimento para vir a ser o que realmente é – este homem resiliente é constantemente contrariado por grupos económicos imorais. obscenos. desonestos. cruéis. cínicos. que vivem sem regras ou então. vivem com as regras que criam – esta gente transformou o mundo numa selva nojenta [nem sempre foi assim. nem todos os homens são nojentos e nem todo o progresso existiu para se tornar nojento] – o sucesso do homem é calculado pelo lucro que gera e a prepotência física e moral a única ferramenta usada para atingir esse resultado – esta sociedade vai ao limite da imoralidade para conseguir o que pretende e a ética e os princípios a ela associados: a justiça. a dignidade. a honestidade. a integridade. a honra. a igualdade. o respeito pelos outros. a liberdade. a fraternidade. são constantemente espezinhados e sempre que estes valores são espezinhados o homem perde a sua dignidade e não há homens felizes sem dignidade – kant. na fundamentação da metafísica dos costumes defendia que as pessoas deveriam ser tratadas como um fim em si mesmas. e não como um meio – só um homem iluminado será capaz de se emancipar das normas ultrajantes impostas por nações também ultrajantes. de se reinventar. de revolucionar os povos oprimidos e recuperar de vez a sua liberdade. tendo por pilar a ética da responsabilidade – está na hora de recuperar a carta universal dos deveres e obrigações dos seres humanos de saramago e obrigar as nações a implementá-la e respeitá-la definitivamente – a vida humana só vale a pena ser vivida se for alicerçada na declaração dos direitos do homem – é hora de voltar a falar de valores coletivos e perceber que o mundo dos homens e a sua coesão social está abalada. está triste. desgastado. sem ferramentas para se revoltar – sem reinventarmos os valores colectivos nunca haverá uma nova ordem universal – precisamos urgente desta nova ordem. precisamos mais do que nunca do inconformismo e do evolucionismo do homem. acabar com a tirania de alguns e recomeçar com o que sobra do homem bom. justo e fraterno – é o momento certo para nos inspirarmo-nos no passado. nas grandes revoluções: na revolução francesa; na revolução americana; na revolução liderada por martin luther king que levou à revogação das leis racistas; no maio 68. um movimento estudantil que levou ao fim de posturas conservadora e a melhores condições de trabalho; na revolução das mulheres que em 1945. através da carta das nações unidas. declara a igualdade de direitos entre homens e mulheres; no fim do apartheid em 1994. liderado por nelson mandela. impuseram o fim de um regime racista na áfrica do sul; e mais recentemente a primavera árabe. um movimento de protesto e revoltas populares contra regimes ditatoriais do mundo árabe e que levou à queda de vários governos e regimes – bem sei que nem todos os países tem um zeca afonso e também sei que sem zeca não há grândola vila morena e sem grândola vila morena não é fácil fazer marchar o povo. a fraternidade. a igualdade. a dignidade e a liberdade – para mudar o mundo é preciso um pensamento. uma estrada e um amigo – tudo o resto acontece como sempre acontece quando os homens se juntam por bem – lembrar para sempre o nosso 25 de abril – só temos uma arma: o voto – sou um cravo de abril e nunca falhei uma ida às urnas. nunca fiquei em casa. nunca ninguém ma dirá que por minha culpa. o partido A ou B. chegou ao poder apenas porque me deu a preguiça ou desisti de lutar e acreditar – hoje voto mais uma vez – tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia nasce um zeca. um zeca do mundo inteiro. e a sua música. desta vez. fará marchar todas os homens para um novo mundo: mais paz. mais fraternidade. mais igualdade e mais justiça





sonho











um estudo científico que concluiu que caminhar ajuda a controlar a corrente sanguínea no cérebro – é capaz de ser verdade. acredito mesmo que assim seja. por isso é que não paro de caminhar dentro de mim. não posso correr o risco de o meu cérebro entrar em colapso e deixar de sonhar – todos os meus sonhos são fabricados no coração. depois. são bombeados em circuito fechado até ao cérebro – com a ajuda dos neurónios descodifico-os e passo-os para a linguagem afetiva. a linguagem dos abraços – ainda dizem que o coração é apenas um músculo. que palermice – o que seria de mim sem a generosidade do coração para fabricar sonhos – sinceramente não sei – todos os sonhos começam por me desequilibrar. para logo de seguida me equilibrarem numa irracionalidade que não sei escrever – sou acometido por uma esperança imortal. uma fé estranha de que tudo irá dar certo. deixo de ter medo. as estrelas reorganizam-se no céu e escrevem o meu nome com milhões e milhões de poeiras incandescentes – e ali fico. envenenado de doçura. a olhar o céu como se todo o espaço sideral fosse meu – deslumbro-me – penduro-me nas letras e baloiço entre o que sonho ser. e o que na verdade sou – queria ter coragem para esquecer o corpo e viver para sempre neste vai e vem afetivo – fecho os olhos ainda com mais força e não falo. não quero acordar. não quero voltar ao mundo das cicatrizes – aqui aqui sei que sou feliz – tal como disse mário quintana. sonhar é acordar-se para dentro – quando acordo para dentro fico abrasivo. inquieto. movediço e apetece-me nunca mais regressar à verdade. apetece-me escorraçar-me do tempo que não anda para trás. e chorar. chorar sem parar – não posso ter vergonha de chorar. e se as lágrimas me caírem nas mãos talvez possa refrescar as fontes. acalmar o corpo ou dar de beber aos sonhos. ou atirá-las ao ar e fazer chuva. ensopar os lençóis. ou a roupa do corpo se estiver no colo da minha mãe – molhámo-nos os dois e depois abraçámo-nos como mãe e filho. eu digo-lhe que a amo e ela diz-me que serei para sempre o seu menino – não quero deixar de sonhar. não quero que o abraço termine. não quero que o mundo acabe dentro de mim – preciso de sonhar para viver – sento-me. encosto-me a um pulmão. puxo os joelhos para o tronco. aperto-os até que a vontade de chorar desapareça e entrego-me ao silêncio – é no silêncio que reparo os danos de viver com os olhos abertos – abro os braços e voo até à montanha mais alta do mundo. e atiro-me ao vento como se atiram as gaivotas. e voo. voo como voam as pessoas felizes. sem medo e numa liberdade de arrepiar. por lugares que só existem quando os sonhos nascem no coração – quem tem coragem de não gostar deste mundo redondo. azul. com mares. com alma. sol e sal?! – eu adoro sonhar neste mundo – com o pôr-do-sol sento-me na lua e vejo as luzes da minha cidade acender uma a uma. e percebo que dentro de cada casa há corações que fabricam sonhos como o meu – nesta cidade que me deu o nome. a minha casa é apenas um pontinho do tamanho de um alfinete – eu também sou do tamanho dos alfinetes. sempre fui do tamanho dos alfinetes – nasci assim – só os sonhos é que são enormes. às vezes são tão gigantes que até acabam por me magoar – não importa. não sonhar é o prelúdio para a morte – quando não estou a sonhar nunca esqueço o meu mundo. o mundo redondo. azul. com mares. sol e sal. e mesmo em exaustão emocional sei que será sempre o mundo onde nasci. e também sei que só neste mundo é possível fechar os olhos e sonhar – é o meu passado que me faz acreditar nos sonhos – sempre que a noite chega abraço-me para que o coração se lembre que vivo de sonhos – gosto de sonhar e gosto do meu coração – sonho para que o futuro me encontre – “é o sonho que comanda a minha vida”






12/05/2019

deambulações noturnas XXXVII




pintura - thomas arvid 





quando o carácter de um homem fica privado de educação e graciosidade o mais certo é falecer de uma overdose de estupidez - e mesmo que sobreviva as lesões podem ser irreversíveis e permanentes






08/05/2019

para ti









no fim da noite
quando já nada existe para além de nós
e o teu corpo
repousa em sonhos que não vejo
sorrateiramente
pergunto aos olhos que dormem:
ainda estás apaixonada?

e ali fico
alimentando o silêncio
como se a doçura do teu respirar me fosse oferecido
e pergunto-me:
o que sei de ti que o coração não saiba
nada meu amor
guardei-te para sempre
no homem que geraste

e aqui fico
[preso à infinitude de ti em mim]
num consolo calmo  e desapoquentado
a sentir o mistério do amor
percorrendo-te
como se fosses o último pecado
numa inocência
esmagada de paixão

e quando o meu tempo na terra terminar
que sejam os teus olhos
os últimos a ver
e as tuas mãos as últimas a ameigar
porque tu
serás sempre o único mundo
onde existi





02/05/2019

a grandeza de um poeta reflexivo





imagem google




último pensamento da noite:



mais vale ser rico. ter saúde e escrever boa prosa. do que pobre. doente e dar erros ortográficos numa prosa de merda  





24/04/2019

abri... meu abril. meu abril










aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda existem dentro de mim. e também nas coisas que não estando dentro de mim me iluminam como iluminam as auroras boreais – faz anos hoje que nasci e sempre que este dia se repete penso nas coisas boas que me aconteceram. na chuva que me molhou e nos lábios que me beijaram como se fossem primavera e me levaram até marte – e agora que o tempo é menos do que sou o que faço comigo? vivo com quê? recordo os afectos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e me corrói a alma como se fosse um alien? vivo – vivo sem vagar – o mundo criou-me da forma que escolhi – a verdade é que são as coisas que existem em mim que me fazem do tamanho que sou – aqui estou. a contar os anos. mais um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. corro desalmadamente pois sei que se faz tarde para o que há de vir – corro e escondo-me – só recatado estou sereno. só recatado sou eu numa verdade boa – e aqui estou com o tempo às voltas – há dias em que sorrio por gratidão e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo. fortifico-me com a fé de um deus que inventei só para mim e conto as rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não tem fuga. desespero. insulto-me com palavras ordinárias e juro que estou ainda mais vivo do que ontem – corro ao redor de cadeiras que não se ocupam por ordem minha. enquanto a chuva não para de cair num buraco que me entra pelos olhos e me encharca o coração – esbracejo e grito com o que me resta para a vida: aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti mas pelo que trago em mim. esta é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr pelas paredes como se tudo em mim fosse uma pilhagem fácil – estou desgostoso. melancólico. dorido e em agonia. tudo o que tenho rima com nada e com campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e eu aqui a ler o tempo como se dentro dos olhos me explodissem bombas. as mãos a rasgar o dia de ontem e as lembranças agoniadas. esbaforidas. doentes. a sangrar. a magoar os vivos. e o sino tlim tlamtlimtlame [agora] o silêncio nas coisas que existem é muito mais do que saudade – fujamfujamo coração não vê o que não ama – de frente o vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou neste corpo envelhecido tudo o que trouxe com o tempo – e aqui estou eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra – se deus me desse uma vela e um sopro apagava toda a tristeza que guardei para sobreviver – procuro ainda esperança. procuro ainda tempo. procuro ainda o que sempre procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo de poeta – toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso. outras. amargos de boca. fel. horror. revolta. crucificação que não quero merecer – não importa. tudo tem perdão quando o outono chega – a cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas valiosas cada vez mais afastadase berro nos ouvidos do mundo: só tenho uma vida – cheiro a desespero desde o dia em que quis crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu pela escada da escuridão e as coisas enlouqueceram dentro de mim. as minhas coisas revoltaram-se. e o sótão mais uma vez desarrumado. e caixas abertas. estraçalhadas a baba e ranho – e as coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários fizessem os dias voltar para trás – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro inferno. e o que imagino é um negro que magoa por avanço – nenhuma palavra será girafa. gaivota. ou garrafa perdida num oceano repleto de beijos e abraços – e as orcas gordas penduradas nos himalaias a rir à gargalhada – nada acontece às orcas e às velas que não ardem. e eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo e que sofro sempre que as abraço em silêncio – é tudo o que sei fazer – perdoo-me e os que gostam de mim também me perdoarão – o mundo só me tem servido para envelhecer


sampaio rego – 17 de abril de 2019





06/04/2019

traço um desejo







                                                               pintura - robin eley





[dueto: Dolores Marques e sampaio rego]



Há sempre um sopro nas madrugadas...
Sente-se o suave deslizar…

é onde os sonhos interrompidos tomam forma
em pequenos bocejos
no aconchego das estrelas. aos nossos desejos.

O belo! Adornos cristalinos nas mãos que me afagam a alma.
É um mundo que irrompe madrugadas
Nas noites em que a solidão toma conta de mim

mas não da esperança… embebida nas lembranças. forço as recordações a romper…
a chuva que ouço cair.
não são mais do que pétalas de estrelas a florir dentro de mim

Há um mundo a transbordar dentro de outro ainda maior.
Do meu peito soltam-se primaveras que se abrem a ti

e dum sorriso voltará a nascer o desejo
de poder partilhar todos os instantes que soltaste dentro de mim
neste caminho. que o destino traçou
escreveremos a duas mãos. o mundo

Nas mãos traço o destino que me rouba um sonho trancado
Em nuvens de algodão,
E elas sentem o meu corpo já tão cansado…





01/04/2019

esdruxulamente insignificante





imagem google



respiro e resisto neste respira[-]mento[e] que me cansa – às vezes gostava de estrangular esta minha respiração. matá-la. estropiá-la. obrigá-la a falecer no mundo das pessoas – para falar verdade. o que gostava mesmo. era de esconder-me desta civilização bárbara – nesta vida já não valho nada. só a morte me porá de novo no mundo das coisas com interesse – mas quero que saibam. aqueles que ousadamente tiverem a coragem de ler estas palavras até ao fim.  que estou lúcido. esperto e desperto para as antíteses que alimento em mim – por isso é que resisto neste respirar de socorro – vivo de antíteses. são estas que me despertam da escuridão silenciosa. são estas que me equilibram o desequilíbrio imposto por um mundo sem generosidade. sem tolerância. sem respeito e onde eu me recuso a acreditar de que há sempre uma razão superior para as coisas acontecer como acontecem – convictamente digo: não há nenhuma razão superior a não ser a razão que os homens inventam – também eu inventei uma razão para me fazer existir nesta forma esdruxulamente insignificante: plantei uma linha imaginária no centro do meu cérebro: de um lado a insignificância. do outro. o saber para compreender e aceitar tudo que é insignificante – [suportação encontrada] – pendurado nesta linha de loucura intermitente eu numa composição orgânica dolorosa: ora numa assimilação tremelicante. ora numa desassimilação pindérica – aguento-me. suporto-me. tolero-me. amarro-me aos ossos emersos na última reserva de líquido amniótico – pelas manhãs acendo-me numa energia raivosa e baloiço-me de um lado para o outro. ora no que não sei. ora no saber do que não sei – quando baloiço o destino constrói-se. mistura-se e ajusta-se – a vida foi-me oferecida por dois seres maravilhosos – quando fazes parte de algo tão maravilhoso ficas para sempre com a obrigação de respirar – sempre que respiro aceito viver – respiro gratidão – coloco o pescoço a noventa graus. olho o topo. o corpo encaracola-se. sobe por si acima porque é a única forma de descer à terra – procura – o que não vejo. sinto ou toco. não existe – se nada existe. então. quem sabe. os meus sonhos também não existem – eu não sonho. sou apenas parvo. a minha biologia evolutiva degenerou – a evolução do homem é a acumulação de mudanças através de sucessivas gerações – eu não mudei nada. sonhei. ”elastifiquei-me” no que não sou e o resultado é esta caverna inundada de sombras que nem sei se existem – e eu a baloiçar cada vez com mais força. a suster a respiração. as lágrimas. a raiva e o corpo perdido em incertezas que só existem porque teimo em fazer dos sonhos a realidade – e o mundo todo aos berros. com as línguas a tocar-me os pés. a dizer: lambe e verás como deixas de baloiçar – soubesse eu dar um mortal à retaguarda e cair de pé no mundo de quem não sonha e não lhe sente a falta – soubesse eu tanta coisa – agora. nos intervalos do soubesse. toco no que há para tocar. vejo o que me é oferecido ver e sinto o que o corpo entende que é mais do que desejo e menos do que sonho – tudo o resto. é o saber de quem sabe que nada sabe – quem sabe que nada sabe não pode ser tolo ou insignificante – mas é então o quê? 




06/03/2019

luxúria das palavras





leonid pasternak




serei impuro apenas porque desejo sentir o abraço das palavras? serei impuro por querer experienciar o feminismo das palavras? serei impuro por abandonar de vez o miserável receio de ser sentimental com as palavras? não sei – nos dias que escrevo há dentro de mim uma histeria desenfreada. atabalhoada e histérica – corre-me pelas mãos o desejo de afagar em pecado todo o vocabulário – a sirene invade o silêncio. ligo os holofotes e ilumino-as - as palavras – matreiramente sorrio. procuro dizer-lhes que estou com uma ereção factual e substancial – estou louco. perdidamente louco e miseravelmente desvairado: preciso urgentemente de as usar. de as trazer para o meu mundo de afectos. preciso de as trazer ao mundo dos leitores – william shakespeare dizia que “enquanto houver um louco. um poeta e um amante haverá sonho. amor e fantasia – e enquanto houver sonho. amor e fantasia. haverá esperança” – a esperança também é feita de palavras –quando escrevo sinto-me o melhor amante do mundo. sinto-me eu e ninguém é melhor do que um eu perdidamente enamorado – as mãos procuram o papel enquanto que os vocábulos continuam a emergir em fantasias selvagens: gemem. contorcem-se. esfregam-se em sussurros alucinados e húmidos – todo eu estremeço. acalento. as veias endurecem e ao ouvido o prazer supremo: és único. não há outro como tu – e entre elas corre agora um mel pegajoso que anuncia. a todo o momento. o orgasmo – o papel está pronto – enfeitiçado pela luz refletiva das palavras e pela generosidade de um corpo ávido de sucesso. derreto-me em sequiosas perversões reprodutivas: multiplicai-vos e enchei a terra de palavras – finalmente uma relação de simbiose: elas excitam-me e eu levo-as à loucura da leitura – não quero mais o passado. as palavras rascas e indiferentes nunca mais serão pronunciadas – quem nunca me compreendeu não merece o extasiamento verdadeiro de uma leitura – o melhor do mundo são as palavras – o que seria de nós sem as palavras. sem amo-te. sem paixão. sem abraço. sem beijo. sem quero-te. sem desejo-te. preciso de ti. tu és tudo o que necessito para ser feliz. para existir. para me fazer eterno. ejacular e fecundar – as palavras são tudo – resta-me aproveitar cada dia desta paixão certa e sedutora – estou completamente apaixonado e assim espero que continue. porque se me perguntarem se podia viver sem elas - “poder podia. mas não era a mesma coisa”


 [versão alterada de 23/11/2009]





27/02/2019

num lago batido a vento norte






pintura - inês dourado





onde param os meus amigos de infância? se alguém souber do seu paradeiro. por favor. não entre em contacto comigo. não me mande SMS. cartas. telegramas ou recadinhos em pedacinhos de papel. não os quero encontrar e também não os quero de volta ao meu mundo – não é por mal. acreditem que não. creio apenas que não resistiriam ao desencontro do meu crescimento – o tempo passou. envelheci. o catraio também envelheceu. as feições mudaram. as ideias solidificaram-se. os ossos enfraqueceram. a alma enrijou e descobri que só o silêncio e o isolamento me protegem dos desencantos – agora. agora que o corpo estagnou. vivo numa toxidade só minha: solitária e silenciosa – tornei-me egoísta. foquei-me na mirração. no agora. retirei das paredes todas as fotos da juventude. abafei as recordações num saco plástico e atirei ao mar – o sal corrói tudo. destrói todas as provas – solidifiquei a indiferença e rendi-me aos espaços vazios – dentro destas paredes só existe o que sou capaz de pensar. e quando não penso. e as paredes se tornam gigantescas. fico sem saber o que fazer ao corpo. e é quando escrevo. escrevo tudo o que sinto e fico com a sensação de que nada sei do que sinto – é esta insatisfação persistente. cruel e impiedosa que me revolve o corpo. e o que estava longe está agora aqui: o primeiro dia de escola. o carrinho de rolamentos. o autocarro para monte d`arcos. a hora de comungar. de amar. de guiar a 4L ou das mãos a cheirar às anilinas. às máquinas e às pessoas vestidas com batas autênticas. o tempo não mudou esta sensação de sentir. está tudo igual – há coisas que nos ficam para sempre. é como se dentro de nós houvesse uma gaveta mágica onde guardamos o que sentimos e sabemos o que sentimos: este sentir não tem tempo. nem vento. nem chuva. nem andorinhas. nem folhas caducas. nuvens para lá e para cá. sinos. azevinho ou gaivotas a planar sobre um lago batido a vento norte. o que era continua a ser. e o que sentia continuo a sentir – sempre estive convencido que sabia tanta coisa e agora dei conta que não sei nada – sou afinal o que? se fosse sábio. se fosso um homem igual aos outros. se não tivesse medo do que não sei. se não tivesse medo da minha ignorância. não perdia mais tempo a escrever o que sinto. não. saía do corpo e vivia. vivia sem medo de não saber o que não sei – saia das mãos. encerrava-as no correr da morte. transformava-me numa gaivota e voava por essas ruas desconhecidas. voava e vivia. porque para viver basta abandonar o que pensas e quando deixas de pensar deixas de ter corpo e um homem sem corpo é um homem livre – escrevo a liberdade que sempre desejei – é nesta solidão-silenciosa. tranquila. plácida que recuperei o caminho para me reencontrar na minha desarrumação. numa afetividade serena. meiga. sentida. desprendida. despreocupada e de uma compaixão imensa. sem reacusações. sem dedo acusador. rancor. revolta ou rebeldia – vivo num reencontro permanente. é a minha dança com lobos. o meu passado à volta de uma fogueira onde todos os que já foram meninos reaparecem a recontar a minha história – é neste reencontro de histórias que adormeço como criança e acordo com a esperança de que ainda vou a tempo de me aceitar no destino – agora. agora preciso de todo os dias que me restam para fazer de mim o que realmente sou – cumprir os desígnios do pensamento. aceitar a comoção. o desassossego dos reencontros. inventar perdões. assumir culpas e relembrar insistentemente que o que se sente é a única verdade que o corpo aceita… o que se sente é a única verdade que o corpo aceita – já não sou capaz de vender a alma ao diabo. o que ficou para trás ficou e não quero que volte – entreguei-me em definitivo ao isolamento cerebral. estar só evita estar mal-acompanhado – a vida é um desafio constante onde a desilusão está garantida. depois. ainda lhe juntamos a ingratidão. a injustiça. o azar e os desígnios de deus. é como se fosse um circo. e nós ali sentados. sem saber a quem dirigir as palmas. se ao domador pelo estalar do chicote se à fera que o tenta morder – não quero ninguém do passado perto de mim. não quero ninguém que me volte a ocupar o corpo. não quero mais aborrecimentos – envelheci. degradei-me. perdi a inocência. a fé e a vontade de mudar o mundo – envelhecemos todos. todos os meninos envelheceram. não há remédio contra o envelhecimento – estou cansado. quando se perde a fé o corpo todo deixa de acreditar. os ouvidos deixam de ouvir. a boca cala-se e mantemos os olhos fechados mesmo quando estamos acordados – estou mais morto do que vivo – tenho a certeza que um dia. depois da minha morte. cada palavra escrita encontrará a razão para a sua existência – o que escrevo será para sempre o meu reflexo num lago batido a vento norte: ondulo… ondulo… ondulo






15/02/2019

péu péu. péu péu e péu péu






pintura - kurt 2018





1.

deixemo-nos de eufemismos. a morte é o fim da consciência em definitivo – por isso. quando invoco a ressurreição. o retorno ao mundo num novo corpo. para uma nova oportunidade. estou a troçar. a gargalhar. porque só “gargalha de uma cicatriz quem nunca foi ferido” – realmente eu nunca morri por inteiro. às vezes morre uma mão. o cérebro. os olhos. a vontade de correr. de viver. e até morre as reservas de estupidez que me mantêm lúcido no intervalo dos carateres – dentro dos carateres existe apenas vida. a minha vida. o que amei. o que aprendi. o que construí. o que perdi e me magoa com saudade e todas as desilusões que nos mata mais do que a própria morte – e é por isso que escrevo. só a escrita me ressuscita desta morte faseada – estar morto é não se ser coisa nenhuma e também não existir em lado nenhum – eu existo. primeiro aqui enquanto respiro. e depois. em vocês que me leem – sei que estou vivo. mesmo que às vezes cheire a defunto 


2.
gosto de desvalorizar a morte. acicatá-la. gosto de espetar-lhe uma metáfora hiperbolizada. robusta. enérgica e incisiva. de forma a abrir roturas na semântica: o corpo que sustento dentro desta minha cabeça respira e resiste mesmo sabendo que cheira a defunto persiste – nenhum corpo deveria ter direito a uma cabeça que desiste do mundo – e pergunto: se tivesse nascido em montmatre. sacré couer. e fosse um pintor de rua será que os meus olhos faleciam antes da cabeça? e se fosse malabarista no cirque du soleil... será que os meus braços faleciam antes da cabeça? e se fosse uma folha perdida na floresta negra alemã… será que o vento me levaria até ao mar? nunca saberei ao certo – nada em mim sei como certo. nada em mim é de tal forma meu que jamais colocaria em causa que não pudesse ser de outra pessoa. nada em mim sou eu em definitivo e tudo em mim me faz querer ser outra coisa qualquer que não sei o que. outra coisa que não sendo minha eu acreditasse que com sorte poderia ter sido. nem que fosse apenas por uma hora. ou um segundo que demorasse a passar. um segundo que fosse uma vida e essa vida não pudesse ser de outra pessoa se não eu – é esta antítese que me faz baloiçar entre um corpo falecido e uma respiração moribunda que teima em prolongar as dúvidas num pensamento agonizado e teimoso – é assim que me mantenho vivo – no entanto. não me custa admitir que devo ser insuportável. nenhum corpo quer alguém como eu. ingrato. aborrecido e mal-agradecido


3.
a simbiose continua. e eu dentro desta troca de favores: o corpo respira para que a cabeça continue a pensar e a cabeça pensa para que o corpo não pare de respirar – isto deveria ser suficiente para viverem a vida tal e qual como lhes é oferecida – afinal é assim para todos – eu não posso ser exceção por mais que me sinta a cheirar a defunto – tudo na vida acontece num rápido. tudo é celeridade. esta ideia errada de que a nossa passagem terrena é demorada é a maior trapaça que nos enfiaram pelo corpo. acabei de nascer ontem e o amanhã já não sei se vai acontecer – para acelerar ainda mais esta viagem começamos a morrer aos poucos. às vezes o corpo respira e a cabeça já é defunta há uma dezena de anos – houve uma época em que acreditava que morreria todo de uma vez. de velhice. de mão dada com a minha companheira. amarrado à saudade. às memórias e a pedir a um deus qualquer que me desse outra vida. que me deixasse voltar à juventude. às correrias. ao amor fácil. aos carros velozes e aos amigos loucos e bonitos – fazia tudo diferente. bem. não digo tudo. mas muita coisa seria diferente – o que fazia igualzinho era conquistar a mesma mulher. no mesmo sítio. à mesma hora e com o mesmo beijo – amo-a daqui até ao infinito – mas enganei-me. poucos são aqueles que morrem de uma vez só – a fé já passou por mim. envelheci nuns dias e apodreci em outros. e agora. nada do que resta em mim. enquanto humano que respira. tem força para mudar esta vida que me manipulou. aldrabou e iludiu – todos os dias morro um bocadinho – o tempo não flui num só sentido. o tempo flui de fora para dentro do corpo e atulha-nos de anseios que não podemos alcançar e depois. há um dia. de raiva. deitamos todo o acreditar para fora e perdemo-nos. e já não há viagem de volta – partimos. fragmentamo-nos em pedaços de nada e sumimos para sempre na escuridão do mundo – só inteiros somos visíveis. só inteiros valemos alguma coisa – estou perdido. não me encontro em lado nenhum e o que me faz saber vivo é o barulho que faço a respirar – estou entre as mãos que escrevem e o falecimento de tudo o que me trouxe até aos dias de hoje. perdi-me das memórias. perdi-me da chave das portas que fechei. das orações que não rezei. e pior. das palavras que escrevi e me construíram como se fosse uma fábrica de coisas inúteis: de facas que nada cortaram. agulhas que nada coseram. água que nada lavou e pernas que não andaram e o baú cheio de relíquias de vidro. frágeis. estúpidas e sem valor – nada do que deixo como tesouro. as palavras que escrevi. mudará o que quer que seja do mundo que era meu.  digo era porque já me considero falecido para a criação – o que criei está criado – ingratidão sempre houve e também sempre houveram homens bons que morrem muito tempo antes de morrer a respiração – morto sou muito mais feliz – quando um homem falece o mundo deixa de punir e começa a perdoar – era bom homem. não teve muita sorte na vida mas tinha bom coração… e péu péu. péu péu e péu péu – fossem todos como ele e este mundo seria bem melhor… e péu péu. péu péu e péu péu – coitado. tanto sacrifício para isto. morreu sem glória… e péu péu. péu péu e péu péu – esta vida são dois dias. tanta maldade no mundo para todos acabarem assim… e péu péu. péu péu e péu péu – que se lixe a lamechice.  tudo o que fui. bom ou mau. está dentro de mim e inevitavelmente arderá comigo no dia da cremação – e quando o corpo arder por minha ordem. e a pó voltar. e a vento marchar. e a mar cheirar. tudo ficará divino e novamente às ordens de um deus que me queira recriar – se este deus existir. e se a minha imagem se fizer novamente à sua imagem. então peço-lhe: que não me roube a memória. nem me alteres a morada de minha casa. pois esse é o único caminho que guardo no pó – “do pó viestes. ao pó voltarás (Gn 3,19)”. do coração te fizeste. e ao coração voltarás 


4.
e assim se cumprirá a profecia de um livro que me pesou tanto como a vida: finalmente serei corpo sem respirar e sem fé – as palavras não ardem – é nas palavras que continuarei a respirar. continuarei ofegante. mas agora sem mágoa. sem correrias. sem o silêncio nostálgico. cheio de barulhos. a magoar. nascido no lado escuro da lua – bem. confesso que não tenho a certeza onde nasceu. talvez tenha sido parido nos anéis de júpiter. ou quem sabe. enviado numa cegonha por um deus extraterrestre. ou então. dentro de uma pia de água benta para me proteger dos demónios do escuro – mas já que estamos em tempo de confissões. aqui vai mais uma. tenho medo do escuro da morte. sempre tive medo do escuro. no escuro perco-me de mim com mais facilidade e o silêncio amedronta-se. aterroriza-se. fica ainda mais negro do que o próprio negro do escuro. e os fantasmas. só para me irritar. vestem-se de branco. trepam as paredes e empecilham-me as recordações – estúpidos. abutres. quando lhes cheira a morte não nos largam – há anos que os sinto a poisar sobre mim – só nas palavras sou eu. e mesmo que a respiração vos pareça terminal. sou eu a resistir – a minha realidade viverá na dignidade do pó e para sempre