02/07/2019
25/06/2019
epístola de um não crente - I
peter rubens
deus:
hoje. voltei a entrar em tua
casa e lembrei-me da parábola do filho perdido – empurrei a porta e caminhei.
benzi-me. ajoelhei e falei-te como se nunca te tivesse abandonado – mas a
verdade é que não estavas lá para me ouvir. não me vieste receber de
braços abertos e não mandaste “matar um cordeiro para fazer um banquete porque
este teu filho estava morto e reviveu. andava perdido e foi encontrado”*– a
tua casa estava cheia de silêncio e os teus santos. sisudos. não
tiraram os olhos do céu – era como se nada vivo existisse entre o teu altar e a
porta que deixa entrar gente magoada – percebi então que não pequei contra o
céu – não se pode pecar contra o que não existe – levantei-me. passei
por s. judas tadeu e meti na caixa das esmolas um papelinho com um
recado para ti: estou em minha casa
* Lucas 15:11-32 - A parábola do
filho pródigo
24/06/2019
josé - carlos drummond andrade
imagem - google
JOSÉ
E
agora, José?
A
festa acabou,
a
luz apagou,
o
povo sumiu,
a
noite esfriou,
e
agora, José?
e
agora, você?
Você
que é sem nome,
que
zomba dos outros,
Você
que faz versos,
que
ama, protesta?
e
agora, José?
Está
sem mulher,
está
sem discurso,
está
sem carinho,
já
não pode beber,
já
não pode fumar,
cuspir
já não pode,
a
noite esfriou,
o
dia não veio,
o
bonde não veio,
o
riso não veio,
não
veio a utopia
e
tudo acabou
e
tudo fugiu
e
tudo mofou,
e
agora, José?
E
agora, José?
Sua
doce palavra,
seu
instante de febre,
sua
gula e jejum,
sua
biblioteca,
sua
lavra de ouro,
seu
terno de vidro,
sua
incoerência,
seu
ódio, - e agora?
Com
a chave na mão
quer
abrir a porta,
não
existe porta;
quer
morrer no mar,
mas
o mar secou;
quer
ir para Minas,
Minas
não há mais!
José,
e agora?
Se
você gritasse,
se
você gemesse,
se
você tocasse,
a
valsa vienense,
se
você dormisse,
se
você cansasse,
se
você morresse...
Mas
você não morre,
você
é duro, José!
Sozinho
no escuro
qual
bicho-do-mato,
sem
teogonia,
sem
parede nua
para
se encostar,
sem
cavalo preto
que
fuja do galope,
você
marcha, José!
José,
para onde?
carlos drummond andrade
18/06/2019
paradoxo de teseu
pôr-do-sol – um gesto. uma cabeça cheia de
incertezas e os olhos pousados em coisas sem mobilidade: um candeeiro.
um lápis. uma agenda de um ano que já não me lembro. uns
quantos papeis sem o menor interesse. uma miniatura da nau de cabral e
uma parede paspatur – nesta parede existo como nunca vivi [as máquinas
fotográficas escondem coisas do tamanho do king kong] – voltemos ao pôr-do-sol.
voltemos a um não defunto avelhentado. escurecido de medo.
desacertado do relógio. do tempo que passa. da régua que mede e
de um mar-gaivota a planar no peito – tenho a certeza que numa outra vida fui
marinheiro – olho as mãos e mudo-lhes a cor. atiro-as para os raios de
luz e amarro-me ao que escapa da escureza – entre os dedos um rosário de coisas
a passar como se fossem feridas – será que ainda sou eu? ou será que se me
aplica o paradoxo do navio de teseu? acho que já nada resta do que me trouxe a
este pôr-do-sol. não tenho a mesma forma. nem os mesmos sonhos.
as mãos fizeram-se em letras e os pensamentos romperam-se pela inutilidade –
estou amarrado num corpo que se metamorfoseou para chegar a adulto – estou
agora numa espécie de estágio de crisálida. estou parado.
enrolado na vida a tentar compreender o meu insofrimento à incerteza – estou a
pensar e a sentir o corpo. a respirar em forma de perdão – quem não pede
perdão nunca será perdoado – não posso chegar ao futuro sem ter a certeza de
que a minha intolerância à incerteza não tem uma explicação – respiro.
concentro-me na parede paspatur e caminho de foto em foto – vou –
“nenhum vento sopra a favor de quem não sabe pra onde ir”* –
não
sei se a incerteza nasceu comigo ou
se me entrou no corpo com a primeira golfada de ar – há coisas que nunca
saberei. talvez seja melhor assim. às vezes é melhor não saber a
verdade – sei que a incerteza mora com os fantasmas. percorre as mesmas
paredes. os mesmo cortinados. as mesmas luzes escorridas.
os mesmos sons escondidos e solta as mesmas lágrimas – o que sei mesmo é que
tanto a incerteza como o fantasma precisam do humano para existir – e aqui
estou. parado. quase sem respirar. a controlar o medo.
a justificar-me com o paradoxo de teseu. a dizer que sou o mesmo apesar
de quase nada restar das incertezas que me fizeram crescer – se vos pudesse
mostrar como foi difícil chegar a este pôr-de-sol – estou desfigurado.
alterado. o medo ganhou garras e o que era para voar cravou-se à parede
paspatur – resta-me uma obsessão doentia de uma felicidade que em boa verdade
não sei se existe – viver não deveria ser tão complicado – ”você nunca vai
saber o que vem depois de sábado, quem sabe um século muito mais lindo e mais
sábio, quem sabe apenas mais um domingo”** – toda a minha vida
viajei pelo meu corpo à procura de explicações para as incertezas.
atraquei em lugares que nem sei se existem. mas uma coisa sei.
nunca atraquei em amesterdão e nunca encontrei a ana dos olhos enxutos*** –
uma brisa me soprou que vem aí mau tempo**** – acredito que sim.
estou quase certo de que a ira de poseidon chegará logo depois do pôr-do-sol –
viver com as incertezas não é uma escolha voluntária – e aqui estou a ver
coisas. a ouvir coisas. a misturar coisas. a centrifugar
coisas. e o centro do pensamento cada vez mais estúpido.
projetando obscenidades para a parede paspatur numa discordância trapézica que
baloiça entre merece e não merece – a parede paspatur continua indiferente. mouca.
desligada da minha incerteza doentia e melancólica – e eu preso à vida de uma
forma que não a compreendo – o pôr-do-sol está [também] prestes a falecer.
amarra-se ao que resta da cidade. esvai-se entre as casas numa tristeza
depressiva. angustiante e uma brisa fria toca a janela como se já fosse
morte – será que se pode colocar o paradoxo de teseu ao pôr-do-sol? não sei –
gostava de imaginar um corpo inteiro de certezas. gostava que abril
fosse o mês certo para quem quer nascer. gostava que todos os úteros se
emprenhassem de flores e pássaros e mesmo que os rios não cheguem ao mar com o
sol em vénus que o pôr-do-sol me conforte quando o corpo se fizer inverno – foi
tudo tão rápido e incerto – estou cansado. apetece-me encostar o corpo
ao vento e ficar para o dia seguinte – não há nenhum pôr-do-sol igual a outro –
neste corpo ocupado de incertezas o que resta de luz dá apenas para aclarar a
opacidade das coisas que me rodeiam – aos poucos. todas as coisas se
tornarão turvas. densas. estranhas e com formas monstruosas –
tenho que aproveitar o que resta do pôr-do-sol. esconder as sombras dos
fantasmas e correr como se ainda não fosse tarde para que a boca não sinta a
minha ausência – mas se o corpo cumprir um destino e as pedras do caminho uma ironia
sem tino. então… quero desaparecer. quero chorar
prostrado o fim desta minha eternidade e que esta enorme realidade termine como
se de uma história de amor se tratasse. e porque a morte não pode ser um
equívoco. nem punhal sem desígnio. enveneno o que resta de mim
numa última golfada de ar e vomito em sangue o meu nome para as pedras que um
dia pisei – só as pedras guardam em silêncio o que resta de um homem – soubesse
eu caminhar como um pássaro e sorrir como uma amendoeira em flor e a distância
para o céu nunca seria medida de abril – como será o pôr-do-sol no dia
seguinte? tenho medo do escuro. tenho medo do que vejo no escuro.
tenho medo do que não vejo no escuro. tenho medo mesmo sabendo que
algumas coisas só existem quando penso – como se houvesse um trono para quem
vive a pensar. não há. tudo o que somos está no que gerámos com
as mãos e depois. se formos sábios. levamo-nos para dentro das
coisas universais – abril é um mês cruel – e aqui estou neste pedaço de terra
minúsculo onde existo. a olhar o pôr-do-sol a morrer para mim. e
pergunto-me se o mundo não seria mais pequeno se não tivesse nascido em abril –
vivo mesmo sabendo que não sou nada. mesmo sabendo que poderia ter sido
outra coisa que não nada. se de arte o corpo se tomasse – procuro-me até
que o destino me encontre. pois sei que no fim… tudo passará se
um pouco de mim não ficar… nem que seja apenas pesar – nunca digas nada
que o mundo não compreenda e nunca faças nada que o mundo não aceite sem pensar
– o mundo é assim. é um todo distraído e impiedoso e só fazendo parte
desse todo distraído e piedoso é que serás capaz de compreender as tuas
incertezas nas certezas do mundo – e as coisas sem parar de passar pelos dedos…
a magoar – quero esquecer tudo o que guardo nesta parede paspatur. quero
apanhar o vento e navegar no que resta dos mares. procurar-me em cada
ilha. em cada gaivota. em cada dia de sol ou chuva.
buscar-me em todas as incertezas até me encontrar com a última certeza – depois…
em paz. procuro um pôr-do-sol e relembro todos aqueles que me
fizeram existir. sento-os comigo. abraço-os e segredo-lhes vida.
peço-lhes a absolvição e por fim. aceito-me numa incerteza boa e parto
na saudade de ter existido até ao meu último pôr-do-sol… como diz
gustave flaubert. salvo se formos cretinos. morremos sempre na
incerteza do nosso próprio valor e do da nossa obra – sei que um dia abril
descansará em mim
*lúcio
sêneca
**paulo leminski:
***
música de chico buarque: bom tempo – adaptação da letra
**** música de chico buarque – ana de
amesterdão –
chico buarque venceu o prémio camões 2019 –
trazê-lo para o meu texto é a minha pequeníssima homenagem à sua carreira como
músico e escritor
13/06/2019
04/06/2019
gosto
gosto
de
quem passa do meu lado e também gosto de quem passa do outro lado – gosto de
quem passa para cá e também gosto de quem passa para lá – gosto de quem desce
do céu e também gosto de quem sobe do hades – gosto dos desconhecidos e também
gosto dos conhecidos – gosto dos amigos porque gosto e também gosto dos amigos
porque gostam de mim – gosto da minha família e não posso parar de gostar
porque são sangue do meu sangue – gosto da minha companheira porque sem ela
nunca saberia pronunciar o verbo gostar no incondicional – gosto de a ter a meu
lado. gosto de a respeitar. gosto de lhe dizer que é a mãe dos
meus filhos o que concede valor divino a este gostar – gosto de a segredar. gosto de a ver sorrir. de a sentir feliz. respeitada por mim e por quem lhe passa na vida. e gosto de lhe dizer: amo-te – gosto de a olhar nos olhos. gosto de a abraçar e mesmo nos dias
em que não a abraço sei que não parei de gostar – gosto do silêncio do abraço. de a trazer para dentro de mim e
escondê-la do mundo da estupidez e da raiva de quem não cabe dentro de um
abraço – gosto de abraços. de
abraçar e ser abraçado – um homem sem abraços é um homem pequenino. raquítico e enfezado – gosto de fazer
alegria mesmo que dentro de mim a tristeza não me queira ver sorrir – gosto da
vida cheia de gente. de gente que
fala. que fala porque gosta de falar
e que abraça porque gosta de abraçar – e agora. depois dos “cinquentas”.
mais sábio. mais tolerante. também gosto daqueles que encontram
desculpas para nada aprenderem com a doçura de um abraço. para a sua falta de gentileza por fadiga. de cortesia por sexismo de género. de educação por iletrismo e de nobreza por défice de excelência –
só não gosto de gente que procria a vulgaridade conspurcando as relações sociais
com um neandertalismo que julgava extinto – mas não importa. o importante mesmo é que gosto deste mundo redondo. azul. com mares. sol e sal. mesmo que às vezes me apareçam bestas
quadradas. negras. sem mares. sem sol e sem sal – mas a vida é o que é. e hoje sabe-se que a evolução do homem não está completa. e também se sabe que alguns ficaram
para trás. perderam-se na
centrifugação do mundo e foram jogados para os polos – mesmo assim. gosto de andar por cá e continuo a
gostar desta terra que herdei fruto de um abraço especial há mais de cinquenta
anos – pudesse eu explicar-lhes o valor desse abraço que me gerou. quer dizer. eu poder. podia. mas valeria a pena?! haveria QI?!
haveria vontade de sair dos polos?! não importa. existirei sempre para além da escuridão. do erro. da tristeza. da desilusão – sempre – e na minha
mão. umas quantas flores colhidas em
mim… para vocês
28/05/2019
deambulações noturnas XXXVIII
pintura - cristina strapação
sabem: gostava imenso de construir uma casa nas nuvens sem
que ninguém me apontasse o dedo por viver nas alturas
26/05/2019
resisti ao desânimo – eu voto
imagem google
estou triste. descrente e
irritado – o homem ocidental emergiu acorrentado a um pensamento religioso
dominante. escravizou-se num denominador comum a toda a europa antes das
descobertas marítimas. e depois. alargou a sua influência às colonizações – a
esta religião. o cristianismo [outras há mas com menor implantação]. está
implícito um determinado comportamento dos costumes. da moral e da ética.
estereótipos manipuladores que moldaram “negativamente” padrões de uma
sociedade que se quer livre e genuína – o fundamentalismo religioso. através da
palavra. manipulava. condicionava e controlava o evolucionismo do homem – para
esta comunidade religiosa a verdade absoluta é que os homens [todos]. foram
criados à semelhança de adão – teorias como as de darwin não eram toleradas
nesta[s] organização[ões] de fé em deus – a religião acabou por estender os
seus tentáculos ao mundo científico. condicionando a sua evolução. mas também.
recuando ao seu passado para manipular factos históricos – a bíblia era a
resposta para todos os males do mundo: o que corria bem era obra do santíssimo.
se corria mal. os desígnios de deus são insondáveis – castrado. o homem foi
apodrecendo lentamente – criou-se uma fragrância dos dejetos humanos.
horrorizou-se os aromas naturais e deixamos de procurar a primavera com medo de
perder o inverno – só os poderosos: clérigo. nobreza e ordens militares gozavam
de privilégios especiais em relação às demais camadas da sociedade – esta
europa vivia em festa. as suas casas reais através de impostos elevadíssimos
aos mais desfavorecidos. ostentava a sua glória em banquetes. roupas. jóias.
etc. enquanto o seu povo sobrevive numa desumanização brutal. viviam em guetos
de pobreza. sem acesso à educação. à saúde e cargas de trabalho elevadíssimas
para salários miseráveis – era este o sacrífico para a sobrevivência – com o passar dos séculos e a imergente
insatisfação do povo. as nobrezas. aos poucos.
foram substituídas por monarquias constitucionais ou repúblicas
corruptas: democracias tirânicas onde os roubos são permitidos em nome de um
estado pervertido pelos grandes grupos económicos – estas democracias
criminosas. permitem escandalosamente
que os ricos fiquem mais ricos de uma forma legal – mas claro está que para
branquear os lucros sujos a transparência e equidade das leis tiveram que ser
adulteradas e ajustadas à ganância dos novos democratas e. para isso. nada
melhor do que criar uma nova classe nobre: os “ricos” políticos das novas
democracias – poder e dinheiro em troca de mais dinheiro e poder – este é o
verdadeiro trabalho dos políticos da nova ordem de classes na europa – que se
lixe o povo. que se lixe a poluição. os oceanos. as florestas. os animais em
vias de extinção. as populações do interior. a saúde. a educação. a natalidade.
e que se lixe o futuro e o planeta terra – o importante para este grupo de
malfeitores [é claro que há exceções. raras. mas há] é o dia de hoje e o seu
modo de vida corrupto – trabalhou-se a ideia de que a democracia pensada pelos
gregos tinha emergido. depois de uns quantos séculos. numa nova versão
melhorada e mais justa – agora sim. o povo é quem mais ordena e as eleições a
sua arma – depressa percebemos que a grande arma das democracias já não é o
voto mas sim os media e também rapidamente percebemos que estes não são
controlados pelo povo. mas fazem parte das ferramentas do mal de grandes grupos
económicos – os perversos. da direita ou da esquerda. subtilmente e
graciosamente ajudam a colorir o voto de acordo com os seus interesses – ainda
recentemente tivemos a eleição do trump e bolsonaro – o mundo ocidental trabalhou
e projetou a padronização da opinião e organizou-se em camadas totémicas
circulares [formato cone. os mais poderosos na parte superior. o refugo na sua
base]. planificou a liberdade minando-a e influenciando negativamente o
pensamento. condicionando a evolução natural do homem – quem não se adaptar a
esta pirâmide do horror está excluído do mundo dos afetos socias. das
oportunidades de trabalho decentes. dos cuidados de saúde. da alimentação. da
habitação e da educação – criamos uma sociedade de homens envergonhados. o
mundo das margens. da ostracização. da incompreensão. das comunidades dos
porquês silenciosos – e por mais perguntas que se faça não há resposta para que
mais de oitenta porcento da riqueza do mundo permaneça nas mãos de apenas um
porcento da população – as sociedades ocidentais contemporâneas. capitalistas
na sua estrutura neoliberal. globalizada. roubou o sonho do homem.
escravizou-o. encarcerou-o no consumismo – o homem contemporâneo nasce dentro
da prisão que os seus pais ajudaram a construir – resignado. subserviente.
amedrontado e conformado. respira para sobreviver e sobrevive pela fé – o homem
revolucionário que anceia viver a verdadeira liberdade numa comunidade justa.
igualitária e fraterna. percorre a sua presença no mundo à procura do que
deveria ser seu por direito: a felicidade nas relações socias e principalmente
no seu emprego como factor de integração e crescimento para vir a ser o que
realmente é – este homem resiliente é constantemente contrariado por grupos
económicos imorais. obscenos. desonestos. cruéis. cínicos. que vivem sem regras
ou então. vivem com as regras que criam – esta gente transformou o mundo numa
selva nojenta [nem sempre foi assim. nem todos os homens são nojentos e nem
todo o progresso existiu para se tornar nojento] – o sucesso do homem é
calculado pelo lucro que gera e a prepotência física e moral a única ferramenta
usada para atingir esse resultado – esta sociedade vai ao limite da imoralidade
para conseguir o que pretende e a ética e os princípios a ela associados: a
justiça. a dignidade. a honestidade. a integridade. a honra. a igualdade. o
respeito pelos outros. a liberdade. a fraternidade. são constantemente
espezinhados e sempre que estes valores são espezinhados o homem perde a sua
dignidade e não há homens felizes sem dignidade – kant. na fundamentação da
metafísica dos costumes defendia que as pessoas deveriam ser tratadas como um
fim em si mesmas. e não como um meio – só um homem iluminado será capaz de se
emancipar das normas ultrajantes impostas por nações também ultrajantes. de se
reinventar. de revolucionar os povos oprimidos e recuperar de vez a sua
liberdade. tendo por pilar a ética da responsabilidade – está na hora de
recuperar a carta universal dos deveres e obrigações dos seres humanos de
saramago e obrigar as nações a implementá-la e respeitá-la definitivamente – a
vida humana só vale a pena ser vivida se for alicerçada na declaração dos
direitos do homem – é hora de voltar a falar de valores coletivos e perceber
que o mundo dos homens e a sua coesão social está abalada. está triste.
desgastado. sem ferramentas para se revoltar – sem reinventarmos os valores
colectivos nunca haverá uma nova ordem universal – precisamos urgente desta
nova ordem. precisamos mais do que nunca do inconformismo e do evolucionismo do
homem. acabar com a tirania de alguns e recomeçar com o que sobra do homem bom.
justo e fraterno – é o momento certo para nos inspirarmo-nos no passado. nas
grandes revoluções: na revolução francesa; na revolução americana; na revolução
liderada por martin luther king que levou à revogação das leis racistas; no
maio 68. um movimento estudantil que levou ao fim de posturas conservadora e a
melhores condições de trabalho; na revolução das mulheres que em 1945. através
da carta das nações unidas. declara a igualdade de direitos entre homens e
mulheres; no fim do apartheid em 1994. liderado por nelson mandela. impuseram o
fim de um regime racista na áfrica do sul; e mais recentemente a primavera
árabe. um movimento de protesto e revoltas populares contra regimes ditatoriais
do mundo árabe e que levou à queda de vários governos e regimes – bem sei que
nem todos os países tem um zeca afonso e também sei que sem zeca não há
grândola vila morena e sem grândola vila morena não é fácil fazer marchar o
povo. a fraternidade. a igualdade. a dignidade e a liberdade – para mudar o
mundo é preciso um pensamento. uma estrada e um amigo – tudo o resto acontece
como sempre acontece quando os homens se juntam por bem – lembrar para sempre o
nosso 25 de abril – só temos uma arma: o voto – sou um cravo de abril e nunca
falhei uma ida às urnas. nunca fiquei em casa. nunca ninguém ma dirá que por
minha culpa. o partido A ou B. chegou ao poder apenas porque me deu a preguiça
ou desisti de lutar e acreditar – hoje voto mais uma vez – tantas vezes o
cântaro vai à fonte que um dia nasce um zeca. um zeca do mundo inteiro. e a sua
música. desta vez. fará marchar todas os homens para um novo mundo: mais paz.
mais fraternidade. mais igualdade e mais justiça
sonho
há um estudo científico que concluiu que caminhar
ajuda a controlar a corrente sanguínea no cérebro – é capaz de ser verdade. acredito mesmo que assim seja. por isso é que não paro de caminhar
dentro de mim. não posso correr o
risco de o meu cérebro entrar em colapso e deixar de sonhar – todos os meus
sonhos são fabricados no coração.
depois. são bombeados em circuito
fechado até ao cérebro – com a ajuda dos neurónios descodifico-os e passo-os
para a linguagem afetiva. a
linguagem dos abraços – ainda dizem que o coração é apenas um músculo. que palermice – o que seria de mim
sem a generosidade do coração para fabricar sonhos – sinceramente não sei – todos
os sonhos começam por me desequilibrar.
para logo de seguida me equilibrarem numa irracionalidade que não sei escrever
– sou acometido por uma esperança imortal.
uma fé estranha de que tudo irá dar certo.
deixo de ter medo. as estrelas reorganizam-se
no céu e escrevem o meu nome com milhões e milhões de poeiras incandescentes – e
ali fico. envenenado de doçura. a olhar o céu como se todo o espaço
sideral fosse meu – deslumbro-me – penduro-me nas letras e baloiço entre o que sonho
ser. e o que na verdade sou – queria
ter coragem para esquecer o corpo e viver para sempre neste vai e vem afetivo –
fecho os olhos ainda com mais força e não falo. não quero acordar. não
quero voltar ao mundo das cicatrizes – aqui…
aqui sei que sou feliz – tal como disse mário quintana. sonhar é acordar-se para dentro – quando acordo para dentro fico abrasivo. inquieto. movediço e apetece-me nunca mais regressar à verdade. apetece-me escorraçar-me do tempo que não anda para trás. e chorar. chorar sem
parar – não posso ter vergonha de chorar.
e se as lágrimas me caírem nas mãos…
talvez possa refrescar as fontes. acalmar
o corpo ou dar de beber aos sonhos. ou atirá-las ao ar e fazer chuva. ensopar os lençóis. ou a roupa do corpo se estiver no colo da minha mãe –
molhámo-nos os dois e depois abraçámo-nos como mãe e filho. eu digo-lhe que a amo e ela diz-me que serei para sempre o seu
menino – não quero deixar de sonhar.
não quero que o abraço termine. não
quero que o mundo acabe dentro de mim – preciso de sonhar para viver – sento-me. encosto-me a um pulmão. puxo os joelhos para o tronco. aperto-os até que a vontade de chorar
desapareça e entrego-me ao silêncio – é no silêncio que reparo os danos de viver
com os olhos abertos – abro os braços e voo até à montanha mais alta do mundo. e atiro-me ao vento como se atiram as
gaivotas. e voo. voo como voam as pessoas felizes. sem medo e numa
liberdade de arrepiar. por lugares
que só existem quando os sonhos nascem no coração – quem tem coragem de não
gostar deste mundo redondo. azul. com mares. com alma. sol e sal?! –
eu adoro sonhar neste mundo – com o pôr-do-sol sento-me na lua e vejo as luzes
da minha cidade acender uma a uma. e
percebo que dentro de cada casa há corações que fabricam sonhos como o meu – nesta
cidade que me deu o nome. a minha
casa é apenas um pontinho do tamanho de um alfinete – eu também sou do tamanho
dos alfinetes. sempre fui do tamanho
dos alfinetes – nasci assim – só os sonhos é que são enormes. às vezes… são tão gigantes que até acabam por me magoar – não importa. não sonhar é o prelúdio para a morte
– quando não estou a sonhar nunca esqueço o meu mundo. o mundo redondo. azul. com mares. sol e sal. e mesmo em
exaustão emocional sei que será sempre o mundo onde nasci. e também sei que só neste mundo é possível fechar os olhos e
sonhar – é o meu passado que me faz acreditar nos sonhos – sempre que a noite
chega abraço-me para que o coração se lembre que vivo de sonhos – gosto de
sonhar e gosto do meu coração – sonho para que o futuro me encontre – “é o
sonho que comanda a minha vida”
12/05/2019
deambulações noturnas XXXVII
pintura - thomas arvid
quando o carácter de um homem fica privado de educação e graciosidade o mais certo é falecer de uma overdose de estupidez - e mesmo que sobreviva as lesões podem ser irreversíveis e permanentes
08/05/2019
para ti
no fim da noite
quando já nada existe para além de nós
e o teu corpo
repousa em sonhos que não vejo
sorrateiramente
pergunto aos olhos que dormem:
ainda estás apaixonada?
e ali fico
alimentando o silêncio
como se a doçura do teu respirar me fosse
oferecido
e pergunto-me:
o que sei de ti que o coração não saiba
nada meu amor
guardei-te para sempre
no homem que geraste
e aqui fico
[preso à infinitude de ti em mim]
num consolo calmo e desapoquentado
a sentir o mistério do amor
percorrendo-te
como se fosses o último pecado
numa inocência
esmagada de paixão
e quando o meu tempo na terra terminar
que sejam os teus olhos
os últimos a ver
e as tuas mãos as últimas a ameigar
porque tu
serás sempre o único mundo
onde existi
02/05/2019
a grandeza de um poeta reflexivo
imagem google
último pensamento da noite:
mais vale ser rico. ter saúde e escrever boa prosa. do que pobre. doente e dar erros ortográficos numa prosa de merda
24/04/2019
abri... meu abril. meu abril
aqui estou. a olhar. a pensar nas
coisas que ainda existem dentro de mim.
e também nas coisas que não estando dentro de mim me iluminam como iluminam as
auroras boreais – faz anos hoje que
nasci e sempre que este dia se repete penso nas coisas boas que me aconteceram. na chuva que me molhou e nos lábios
que me beijaram como se fossem primavera e me levaram até marte – e agora que o
tempo é menos do que sou o que faço comigo? vivo com quê? recordo os afectos
que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e me corrói a alma como
se fosse um alien? vivo – vivo sem vagar – o mundo criou-me da forma que
escolhi – a verdade é que são as coisas que existem em mim que me fazem do
tamanho que sou – aqui estou. a
contar os anos. mais um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. corro desalmadamente pois sei que se faz tarde para o que há de vir
– corro e escondo-me – só recatado estou sereno. só recatado sou eu numa verdade boa – e aqui estou com o tempo às
voltas – há dias em que sorrio por gratidão e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo. fortifico-me com a fé de um deus que inventei
só para mim e conto as rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do
que não tem fuga. desespero. insulto-me com palavras ordinárias e
juro que estou ainda mais vivo do que ontem – corro ao redor de cadeiras que não se ocupam por ordem minha. enquanto a chuva não para de cair num
buraco que me entra pelos olhos e me encharca o coração – esbracejo e grito com
o que me resta para a vida: aqui
estou deus cruel. crucifico-me não
por ti mas pelo que trago em mim. esta é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr
pelas paredes como se tudo em mim fosse uma pilhagem fácil – estou desgostoso. melancólico. dorido e em agonia.
tudo o que tenho rima com nada e com campos plantados de sonhos – apetece-me descansar
estas pernas sem descanso – e eu aqui a ler o tempo como se dentro dos olhos me
explodissem bombas. as mãos a rasgar
o dia de ontem e as lembranças agoniadas.
esbaforidas. doentes. a sangrar. a magoar os vivos. e o
sino tlim… tlam… tlim… tlam… e [agora] o silêncio nas coisas que
existem é muito mais do que saudade – fujam… fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o vento rasga-me a voz
e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou neste corpo envelhecido
tudo o que trouxe com o tempo – e aqui estou eu a escrever como se as palavras
me trouxessem uma vida extra – se deus me desse uma vela e um sopro apagava
toda a tristeza que guardei para sobreviver – procuro ainda esperança. procuro ainda tempo. procuro ainda o que sempre procurei para
que as coisas se acalmem – vivo num fogo
de poeta – toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às
vezes sorriso. outras. amargos de boca. fel. horror. revolta. crucificação que não quero merecer – não importa. tudo tem perdão quando o outono chega
– a cabeça não para de pensar.
mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas valiosas cada vez mais
afastadas… e berro nos ouvidos do
mundo: só tenho uma vida – cheiro a desespero
desde o dia em que quis crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o
que sou partiu pela escada da escuridão e as coisas enlouqueceram dentro de mim. as minhas coisas revoltaram-se. e o sótão mais uma vez desarrumado. e caixas abertas. estraçalhadas a baba e ranho – e as coisas que amo a morrer vezes
sem fim. como se os aniversários fizessem
os dias voltar para trás – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro inferno. e o que imagino é um negro que magoa por avanço – nenhuma palavra será girafa. gaivota. ou garrafa perdida num oceano repleto de beijos e abraços – e as orcas
gordas penduradas nos himalaias a rir à gargalhada – nada acontece às orcas e
às velas que não ardem. e eu
pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo e
que sofro sempre que as abraço em silêncio – é tudo o que sei fazer – perdoo-me
e os que gostam de mim também me perdoarão – o mundo só me tem servido para
envelhecer
sampaio rego – 17 de abril de
2019
06/04/2019
traço um desejo
pintura - robin eley
[dueto:
Dolores Marques e sampaio rego]
Há
sempre um sopro nas madrugadas...
Sente-se
o suave deslizar…
é onde os sonhos interrompidos tomam forma
em pequenos bocejos
no aconchego das estrelas. aos nossos
desejos.
O
belo! Adornos cristalinos nas mãos que me afagam a alma.
É um
mundo que irrompe madrugadas
Nas
noites em que a solidão toma conta de mim
mas não da esperança… embebida nas
lembranças. forço as recordações a romper…
a chuva que ouço cair.
não são mais do que pétalas de estrelas a
florir dentro de mim
Há um
mundo a transbordar dentro de outro ainda maior.
Do meu
peito soltam-se primaveras que se abrem a ti
e dum sorriso voltará a nascer o desejo
de poder partilhar todos os instantes que
soltaste dentro de mim
neste caminho. que o destino traçou
escreveremos a duas mãos. o mundo
Nas mãos
traço o destino que me rouba um sonho trancado
Em
nuvens de algodão,
E elas
sentem o meu corpo já tão cansado…
01/04/2019
esdruxulamente insignificante
imagem google
respiro e
resisto neste respira[-]mento[e] que me cansa – às vezes gostava de estrangular
esta minha respiração. matá-la. estropiá-la. obrigá-la a falecer no
mundo das pessoas – para falar
verdade. o que gostava mesmo. era de esconder-me desta civilização bárbara
– nesta vida já não valho nada. só a
morte me porá de novo no mundo das coisas com interesse – mas quero que saibam. aqueles que ousadamente tiverem a coragem
de ler estas palavras até ao fim. que estou lúcido. esperto e desperto para as antíteses que alimento em mim – por
isso é que resisto neste respirar de socorro – vivo de antíteses. são estas que me despertam da
escuridão silenciosa. são estas que
me equilibram o desequilíbrio imposto por um mundo sem generosidade. sem tolerância. sem respeito e onde eu me recuso a acreditar de que há sempre uma
razão superior para as coisas acontecer como acontecem – convictamente digo: não há nenhuma razão superior a não ser a razão que os homens
inventam – também eu inventei uma razão para me fazer existir nesta
forma esdruxulamente insignificante:
plantei uma linha imaginária no centro do meu cérebro: de um lado a insignificância.
do outro. o saber para compreender e
aceitar tudo que é insignificante – [suportação encontrada] – pendurado nesta
linha de loucura intermitente eu numa composição orgânica dolorosa: ora numa assimilação tremelicante. ora numa desassimilação pindérica – aguento-me. suporto-me. tolero-me. amarro-me
aos ossos emersos na última reserva de líquido amniótico – pelas manhãs acendo-me
numa energia raivosa e baloiço-me de um lado para o outro. ora no que não sei.
ora no saber do que não sei – quando baloiço o destino constrói-se. mistura-se e ajusta-se – a vida
foi-me oferecida por dois seres maravilhosos – quando fazes parte de algo tão maravilhoso
ficas para sempre com a obrigação de respirar – sempre que respiro aceito viver
– respiro gratidão – coloco o pescoço a noventa graus. olho o topo. o corpo
encaracola-se. sobe por si acima porque
é a única forma de descer à terra – procura – o que não vejo. sinto ou toco. não existe – se nada existe.
então. quem sabe. os meus sonhos também não existem – eu não sonho. sou apenas parvo. a minha biologia evolutiva degenerou – a evolução do homem é a
acumulação de mudanças através de sucessivas gerações – eu não mudei nada. sonhei. ”elastifiquei-me” no que não sou e o resultado é esta caverna
inundada de sombras que nem sei se existem – e eu a baloiçar cada vez com mais
força. a suster a respiração. as lágrimas. a raiva e o corpo perdido em incertezas que só existem porque
teimo em fazer dos sonhos a realidade – e o mundo todo aos berros. com as línguas a tocar-me os pés. a dizer: lambe e verás como deixas de baloiçar – soubesse eu dar um mortal
à retaguarda e cair de pé no mundo de quem não sonha e não lhe sente a falta – soubesse eu tanta coisa – agora. nos intervalos do soubesse. toco no que há para tocar. vejo o que me é oferecido ver e sinto
o que o corpo entende que é mais do que desejo e menos do que sonho – tudo o
resto. é o saber de quem sabe que
nada sabe – quem sabe que nada sabe não pode ser tolo ou insignificante – mas é
então o quê?
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