.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

30/09/2019

um dia










um dia serei apenas este que escreve. porque em boa verdade. neste mundo a que não pertenço. nada mais sou do que uma metáfora hiperbolizada – e aqueles. que por serem daqui. dizem que não sou o que as palavras dizem que sou. um dia. depois do sol cairdirão que afinal fui o que as palavras diziam – tudo o que realmente sou vive neste corpo estranho quem não sabe quem é. nem de onde é – morrerei feito palavra escrita. porque falar não sei e mesmo que soubesse quem me quereria ouvir? – talvez os peixes. talvez 




25/09/2019

vou ter saudades tuas










minha querida cunhada. não sei se me ouves aí no céu. mas se me ouvires. como quero acreditar. quero que saibas que vou ter muitas saudades tuas – nunca haveriam de existir estes dias de saudade no calendário. não sei quem os inventou. mas quem quer que tenha sido nunca teve uma cunhada como eu tive – tu sabes que nunca fui muito de lamechices. nem sei porque raio sou assim. gostava de não ser. mas fico sempre com a sensação de que quando gosto de alguém de verdade não preciso de muito espalhafato para lhe dizer: gosto de ti – eu sei que tu sabias que eu gostava de ti – mas hoje é diferente. hoje o calendário marca dor. viagem. saudade e preciso de todas as lamechices do mundo. preciso abraçar-te. beijar-te. olhar-te e dizer-te: gosto de ti. gosto de ti de como gosto do céu. do sol. do mar. das gaivotas. do silêncio das montanhas. sei lá que mais cunhadinha. gosto de ti daqui deste lugar que te perdeu até aí onde te escondeste – gosto de ti zeza. apetece-me dizer mil vezes gosto de ti. e mais mil que te adoro e que tenho muitas saudades tuas e que estou destroçado por me teres abandonado sem que me tenhas ouvido dizer: fica mais um bocadinho. só mais um dia. só mais um abraço – minha querida cunhadinha. o que faz um homem com esta saudade que nos magoa? se tivesse um carro com um motor potente. ou um foguetão. ou a varinha mágica do harry potter. quem sabe. metia-me no tempo em marcha atrás e debruçava-me outra vez nos teus braços. amarrava-te novamente essas mãos bonitas e obrigava-te a sorrir mais uma vez e depois. abraçávamo-nos numa despedida sem fim para que o tempo nunca mais andasse para a frente – vou trazer sempre comigo esse teu último abraço. vou segurá-lo dentro de mim. vou guardar esse bater magoado do coraçãovou amarrar-te a mim para sempre – desculpa zeza. não tive forças para te amarrar à vida – não me conformo que tudo tenha sido tão rápido – minha querida cunhada. foste tão corajosa. sempre que uma parte do corpo cedia lá inventavas tu uma desculpa para nos animares para logo de seguida te esconderes dentro de ti num silêncio fértil da consciência. alimentando de inocência essa alma ressentida e magoada de tantas interrogações e nenhuma resposta a não ser. adocicar essa dor que crescia sem parar com esses olhos de esperança – não vou deixar que partas assim. não te vou esquecer. quero lá saber dessa tua mania antiga de te ausentares do nosso mundo e depois. como se nada fosse. regressavas com um sorriso que ninguém levava a mal – desta vez não vai acontecer. vou-me encher de força e raiva e vou desviar o mundo para o lado melhor e falar-te. dizer-te que preciso de ti. de te ouvir. preciso dessa tua teimosia. preciso dessa forma como viravas as costas ao relógio. preciso desse teu jeito de me entrares pela porta a correr. preciso de ti tal como eras porque era isso que te fazia especial – agora só quero que a memória não ceda ao tempo e sempre que acordar vou querer acreditar que tu estás aí por perto. talvez a passear. talvez a comprar sapatos ou aquele creme para te tirar as rugas dos olhos e. quando perceber que afinal não estás onde os mortais estão. que a raiva me faça fechar os olhos e te traga ao meu mundo nem que seja por um minuto. ou um instante tão breve como um flash. mas que no clarão os teus olhos encontrem os meus e o que era escuridão é afinal o milagre da vida para além da morte – não quero saber nada dessa tua viagem. enquanto dormir tu existes porque a saudade só acontece quando estamos acordados – acordado ou a dormir vou dar-te a mão e vamos por essas ruas sem destino e. como o tempo deixou de ser tempo. talvez possamos apanhar o avião novamente para milão. visitamos a catedral. as galerias vittorio emanuele e depois. pela noite. voltamos ao mesmo cinema e assistimos ao mesmo filme e saímos a rir e vamos comer uma pizza quatro estações e falar do que só nós sabíamos falar. falar e rir. rir e falar. e dizer palermices. e rir. e dizer mais palermices. as crianças riem sempre da vida – tu cresceste criança – sempre que a saudade apertar vou-te telefonar e livra-te de não atenderes esse mamarracho. não venhas com aquelas tretas do costume de que deixaste o telemóvel não sei onde e que a cabeça está na lua e que não tens tempo para nada – sempre que a saudade apertar. doer e precisar de uma amiga vou buscar-te e sair contigo por esse nosso mundo fora. vamos ver o mar e prometo mostrar-te a liberdade das minhas gaivotas e depois. abrimos os braços e voamos até ao céu e quando o vento amainar e o sol cansar. sentamo-nos no areal. e ficamos em silêncio até a noite a chegar – o sol nunca morre. esconde-se para que possamos ver o brilho das estrelas – tu minha querida cunhada brilhavas como as estrelas – tenho a certeza de que quando estiveres devidamente instalada no céu e deres conta destas palermices que estou a escrever vais sorrir e achar que sou louco. e se calhar tens razão. e não é que não me tenhas dito isso tantas vezes. mas dizias sempre com tanta doçura e carinho que sempre achei que não era verdade – sempre achei que um dia destes íamos comer o gelado que te prometi e falar dessas nossas coisas excêntricas que só nós os dois sabíamos falar – éramos os dois loucos. loucos varridos. éramos amigos loucos – minha querida cunhada porque nos deixaste? porque raio não deste conta desse monstro que crescia dentro de ti – distraíste-te e agora quem paga somos nós que ficamos aqui a escolher a melhor foto. o melhor momento. a melhor conversa. a escolher a tua vida que queremos guardar para sempre – não foste justa comigo. não foste justa com as tuas irmãs que estão destroçadas. com a tua mãe que continua a dizer. e com toda a razão. que nenhuma mãe do mundo deveria perder um filho. para não falar na tua filha que agora vai ter que inventar mil desculpas por não te ter a seu lado naqueles momentos especiais – o que foste fazer minha querida cunhada – sinto tanto a tua falta. foram tantos anos de carinho. cumplicidade e amizade – a amizade de verdade é indescritível. não se explica. sabemos que aquela pessoa gosta de nós independentemente daquilo que realmente somos. faz-nos sentir bem. seguros e em paz – tu eras a minha amiga do coração – eramos amigos não porque um dia escolhi a tua irmã para viver comigo. éramos amigos porque olhamos um para o outro e percebemos que seria assim para sempre. ficamos amigos como se tivéssemos nascido na mesma rua. andado na mesma escola. jogado à corda. à macaca. sei lá o que mais minha querida amiga – sabes. sempre fui um otimista e também sempre achei que sabia ler o futuro. e não é que te imaginava com cem anos. encarquilhada. com mau feitio. a resmungar por tudo e por nada. em cima dos teus saltos altos. lábios bem pintados. cabelo esticado como só tu sabias fazer e a roupa com um aprumo que era capaz de jurar que a tinhas acabado de comprar – nunca te vi sem esses sapatos enormes que te punham na lua e tu nesse equilíbrio bem-parecido a caminhar como só as rainhas sabem caminhar – sempre caminhaste como se vivesses nas nuvens. como se fosses um anjo – primeiro foste uma boa menina. depois. envelheceste. mas nunca deixaste de ser uma boa menina. todas as pessoas boas são ingénuas. às vezes acho que essa ingenuidade era o teu jeito de nos dizeres que não querias ser como as outras pessoas. não tinhas os mesmos interesses. tinhas o teu mundo com as tuas cores – tu querias tudo simples. palavras simples. sorrisos simples e até o futuro que julgavas ser eterno o quiseste sempre simples – talvez já adivinhasses o teu destino – mas se o pressentiste nunca nos dissestes nada – vou ter saudades tuas minha querida cunhada. vou ter saudade de não ligares patavina aos telefones. vou ter saudades dessa teimosia que nasceu contigo como nos nascem os sinais na pele. vou ter saudades de todas as palavras que ao longo da vida me foste dizendo e que fizeram de mim aos teus olhos um ser tão bonito e especial – não era eu que era especial. eras tu. eras tu que vias o que mais ninguém via – vou ter saudade daquele abraço com que me recebeste naquele dia que entrei de rompante pela porta. tinham sido muitos meses sem nos vermos. correste e abraçaste-me de tal forma que nunca mais o esqueci – vou ter saudades minha querida cunhada de tanta coisa – como é possível a vida ser tão injusta. agora que tinhas encontrado o companheiro da tua vida. tinhas encontrado o homem que sabia fazer-te feliz. sabia que eras uma rainha – uma mulher não se faz rainha. nasce rainha – eu não sou crente. mas às vezes gostava de saber que estou errado. que quando partimos vamos para um lugar onde encontramos todos aqueles que gostamos e amamos – quem me dera zeza que esteja errado. se estiver. então. talvez encontres aí os meus pais e o nosso tio joão. talvez não estejas assim tão sozinha e se assim for. um dia destes. marcávamos aí um encontro para voltarmos a falar um pouco das nossas palermices – minha querida cunhada. quem é que agora me vai dizer essas coisas bonitas que só tu eras capaz de dizer – levo para sempre esse último abraço. choramos. apertamos as mãos e sorriste como se não estivesses a sofrer e enquanto eu me sentia perdido e arrasado tu viraste-te para a enfermeira e disseste-lhe: o meu cunhado é o sol da minha vida – meu deus zeza. e agora quem me dirá novamente uma coisa dessas – vou ter muitas saudades tuas. vou ter saudades desse teu brilho com que vivias a vida. vou ter saudades dessa luz que iluminava o caminho de quem vivia a teu lado – vou te guardar para sempre – por favor. toma conta de mim e dos nossos

pequenas grandes notas:

não seria justo não dizer que sou um homem orgulhoso da família a que pertença. a minha cunhada partiu sem que as suas irmãs a deixassem um único momento sozinha – do primeiro dia até ao seu último suspiro – nos últimos dias a zeza esteve sempre acompanhada pela família que a amava. despediu-se de todos com serenidade – um beijinho especial para a tia alcina e para a minha sobrinha renata que passaram as duas últimas noites em vigília ao lado da zeza – teresa e maria joão vocês deram sentido à minha frase: a família é um compromisso de afetos – é mesmo – continuo com uma cunhada fantástica e tenho a meu lado uma companheira maravilhosa que não me canso de amar

por último. um agradecimento especial ao seu companheiro que esteve sempre presente a seu lado – ele sabia que a zeza era a minha menina e terá a minha gratidão até ao fim dos meus dias – só tenho pena que não o tivesse conhecido trinta anos antes – mas a vida é o que é. e o importante é sabermos que o tempo na maior parte das vezes é uma ilusão – nessa contagem de tempo que os homens inventaram a  minha zeza foi muito feliz a seu lado – às vezes o tempo não é tudo – a minha cunhada levou o seu respeito. o seu afeto e o seu amor na sua viagem final – partiu em paz sabendo que foi a mulher de uma vida – desejo-lhe tudo que há de melhor para a sua vida – em mim terá sempre um amigo e mais do que isso. terá o meu respeito pela sua humanidade e honorabilidade – que mais pode um homem ter?





05/08/2019

eu. o max e o avião








toca hauser. toca sem parar e sem me questionar – desperto-me. abandono o instrumental da música clássica e recupero o mundo – estremunhado. aceito contrariado o meu regresso às coisas com espírito: há vida no céu. há um avião a voar nos meus ouvidos o barulho dos aviões. às vezes. confunde-se com a trovoada e fico sem saber se é jesus que está a ralhar comigo ou é apenas um avião perdido no céu – paro. escuto. acerto o ouvido com a janela. aparto o mundo que vejo para os lados e capturo definitivamente o som do avião. mas não a sua atenção – estou decididamente acordado para o mundo real. os seus decibéis resgataram-me ao mundo das possibilidades – gosto de sonhar. quando sonho acredito em coisas que acordado seriam impossíveis de acreditar – sempre que sonho sei que me torno numa possibilidade – tenho até uma leve intuição de que a todo o momento pode aterrar no meu escritório um avião – o avião voa mesmo. e não se riam: o avião voa no ar – gosto de aviões porque estão mais perto do céu do que eu – eu só vejo o céu à noite quando as estrelas o iluminam – será que há um aeroporto para lá das nuvens? será que os aviões andam no ar para levar os crentes para mais perto de deus? – quem sabe. um dia. um desses médiuns famosos que agora passam na tv. para aumentar o seu share. faz um acordo com deus para aparecer a acenar em cima de uma nuvem – não sei para onde vai este avião. ou mesmo se vai para algum lado. ou se anda às voltas para me irritar. a fazer círculos de barulho. a enrolar o som na minha vida sonhadora. a tentar questionar-me porque não olho para o céu. para as coisas que voam – o avião faz barulho. voa. voa como uma coisa que sabe voar. talvez pássaro. ou alma acabada de falecer. ou papelinho largado ao vento. ou disco voador. ou palavra vociferada por boca magoada – há coisas que foram feitas para voar – eu não sei voar. nem ouso pensar em voar. quer dizer. às vezes penso. mas o espaço no meu escritório é tão reduzido que na maior parte das vezes metade do que penso fica fora da janela e é quando dou conta que está tudo estatelado no meio da rua – por isso é que gosto de ser comedido nos pensamentos. não porque não queira pensar em altos voos. não. só não quero vê-los ignorados e espezinhados – já não tenho estômago para mais desgostos – confesso que estou alterado com o avião. aborreceu-me. roubou-me um daqueles sonhos raros e que só aparecem de tempos em tempos – e agora. que acordei para o mundo das impossibilidades. já não sou capaz de o recuperar – quando perdemos um sonho é para sempre. mistura-se com a realidade e desaparece no meio da multidão – por isso é que me irrito quando um avião me desperta com barulho que não vejo. ainda se fosse um automóvel de escape livre. ou uma bulha de vizinhos. era fácil. ia à janela e sempre lhes podia disparar uns quantos impropérios. agora um avião. lá nos confins do céu. por muito que berre ninguém me vai dar atenção – quando me altero fico confuso. perco-me de mim. irrito-me e vou às nuvens sem tirar os pés do chão – não gosto de pensar em voar. fico com medo do que o mundo pensa do que penso – prefiro a minha solidão em terra. quer dizer. eu nunca estou só. tenho o meu cão. o max – o max é um cão especial. sempre que trocamos olhares fico com a sensação de que posso voar naqueles olhos – mas não posso. nem eu. nem o max – não fomos feitos para voar senão tínhamos nascido com asas e não nascemos – aceitamos a nossa vocação terrestre com resignação e dignidade – creio que o max até aceitou primeiro do que eu. rapidamente o senti conformado com a vida que lhe tocou – para lá dos anjos nos livros da catequese nunca vi ninguém com asas. mas conheço muita gente que voa sem asas – não me peçam para explicar como voam que não sei – eu sempre que tentei voar estatelei-me ao cumprido – não tenho jeito para as alturas – ainda bem que a minha mortalidade não tem lugar marcado no céu. mas sei que um dia voarei em pó – e aqui estou eu com o barulho do avião. que tal como os comboios no seu trabalhar nos diz: pouca terra. pouca terra. o avião. porque anda no ar. diz-nos: porque não voas. porque não voas – e a resposta é fácil: não voo porque não tenho asas e mesmo que tivesse estou convencido que não voaria. seria como a avestruz que apesar de ter asas não tira os pés do chão – para vos falar verdade até creio que tenho um pouco do DNA de avestruz. não por não voar. mas por meter a cabeça num buraco e achar que estou escondido do mundo – o buraco é a minha casa que me guarda de todas as dores. e é aqui que me encontro comigo. estendo as mãos e olho para o meu céu: um candeeiro com quatro lâmpadas de casquilho fino e um teclado iluminado com letras aos saltos. como passarinhos no ninho a ensaiar o seu primeiro voo. e todos os sonhos de uma vida na ponta dos dedos – sinto que o max já está irritado com o barulho do avião. rosna. mostra os dentes e olha para mim como se estivesse a perguntar: não fazemos nada? para o acalmar rosno e mostro também os dentes – somos unha com carne e temos o mesmo lema dos mosqueteiros: um por todos. todos por um – resolvi dizer-lhe que um dia também iremos voar. compro dois bilhetes na TAP e voamos para faro. ida e volta. vamos de manhã e vimos à noite. sempre tive curiosidade de ver as estrelas de perto – as estrelas existem só para nos obrigarem a olhar para o céu – hoje não me apetece olhar para o céu. estou sentado na minha cadeira e ainda não comprei os bilhetes – tudo o que sou espelhado num aro de madeira sucupira clara. contorna a janela numa esquadria triste e ausente de liberdade – sem liberdade ninguém é capaz de sonhar ou voar – e o meu mundo a fugir por uma janela preenchida de impossibilidades. protege-se com uma persiana feita de buracos organizados. xis em xis centímetros uma entrada de luz estilizada – gosto de persianas furados com arte. com design. com criatividade e ao mesmo tempo. como se soubessem que o excesso de luz pode cegar. são também protetoras. controlam o caudal de luminosidade. deixam entrar apenas o necessário para alimentar a vida sem que se corra o risco de cegar – por isso é que gosto de persianas. se estamos deprimidos fechamo-la e temporariamente podemos morrer para o mundo numa solidão escura. e sem hora marcada para o regresso. e quando entendemos ressuscitar da morte silenciosa. abrimos a persiana aos poucos. num vagar sem presa. e a luz a tomar-nos a conta gotas. numa renovada claridade. purificada de todos os males do mundo. prometendo proteger-nos para sempre do inferno da vida – entrego-me à luz. primeiro um braço. depois outro. de seguida o tronco. as pernas e por último os olhos. quero ver tudo. que ver o que a luz ilumina. quero ver-me na renovada luz e deixo-me subir ao céu como se fosse um avião. e rio como se estivesse a ser carregado por anjos. e rezo como se fosse crente. e voo como se fosse pássaro. e abraço-me como se os braços estivessem carentes de um corpo. e vivo como se quisesse viver. e quando a noite chegar. sento-me numa estrela que desenhei num papel triste e fico a olhar para o que sobrou de mim. para o que me trouxe a esta paz. a cada pessoa que conheci. a cada flor que colhi e a cada gota de chuva que me molhou e adormeço como se estivesse a sonhar com gaivotas que voam no céu – tenho que deixar de ouvir o avião. se tivesse um canhão atirava-o abaixo e depois. aguentava com o que o mundo pensasse de mim – estou farto de o ouvir – revolvo-me na cadeira. irrito-me – para que estou eu aqui sentado se a minha vocação é voar – e a janela a pedir-me que voe como um avião – mas não. não voo e também não vivo num quadro de renoir a celebrar a beleza do mundo das flores. das mulheres bonitas. dos tons melódicos e das crianças de mãos dadas aos seus pais e eu no pincel do mestre a pedir-lhe para me pintar. para me misturar com as flores. com as crianças que correm como se voassem e o pincel do mestre a voar na tela como se fosse um avião no céu e a mistura das cores quentes. as crianças quentes. as flores quentes e as cores mescladas com arte a darem agosto quente. saudade quente e o poeta das cores a fazer voar o seu próprio tempo como se fosse um avião que voa sem barulho num céu que se pode apanhar com as mãos – meu deus. como gosto de agosto e de aviões – porque não pinto eu? por agosto e pelo renoir era capaz de voar mesmo sem asas – mas não. estou preso a uma janela em sicupira e tudo o que vejo são pedras no chão a revolver o céu. a guardar as sombras dos aviões que não vejo – mesmo assim gosto da minha janela. gosto da pouca esperança que guarda nos seus caixilhos. um dia vou ver os aviões – um dia a minha janela de sicupira vai voar como os aviões – sei – há noites em que o meu desejo é  apanhar uma estrela e trazê-la para o pé de mim. mas já percebi que não é possível. o problema nem é a distância porque às vezes do longe se faz perto. o problema é que as estrelas só brilham no céu – para que quero eu uma estrela que não brilhe? tal como escreveu nietzsche quanto mais nos elevamos. menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar a noite chegou. o pôr-do-sol morreu de vez. e tudo em que tocou morreu também. só o barulho do avião resiste à morte. sei que não morreu porque se continua a ouvir – os aviões confundem-se com as estrelas e estas confundem-se com olhos iluminados de tristeza – quando um homem está mal até as estrelas cintilam dor – só os aviões continuam no ar – as minhas coisas não voam como os pássaros. ou os aviões. ou mesmo as desilusões. ou palermices. ou anormalidades que a ciência ainda não arrolou – estou farto. é hora de voar como se pode – com coragem atiro o corpo aos pés e voo. voo de mim até ao chão e na ligeireza da queda a lembrança do alfaiate voador que se atirou da torre eiffel com a infinitude cega de que não importa o tempo de voo. importa mesmo é voar – eu voo da cadeira para o chão e do chão para a janela arrasto-me como se estivesse a voar – se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos pendurados numa janela... sou eu a voar 
hoje celebro o aniversário natalício de meu pai. antónio sampaio lopes. faria hoje noventa e seis anos e confesso-vos que tenho imensas saudades de lhe falar. de o beijar e de o abraçar – se fosse crente diria que um dia destes nos veríamos no paraíso. mas não sou. perdi a minha fé no dia em que o vi partir – mas não o perdi da memória




31/07/2019

bem sei










bem sei
bem sei que sou o que sou
e outra coisa não poderia ser
porque se fosse
deixaria de ser o que sou
de esquecer o que não posso esquecer
amar o que sempre amei

bem sei
bem sei que se fosse outra pessoa
não gostava de mim como sou
mas eu gosto
gosto pouco ou quase nada
e a diferença não sei explicar
o que sei
é que não me posso nausear
por não gostar de mim
como os outros gostam de si

bem sei
bem sei que quando gosto de mim
não é um gostar egocêntrico
gosto porque gosto das pessoas que gostam de mim
e são essas pessoas
que gostam de mim assim como sou
que me fazem sonhar
e talvez quem sabe…
um dia
gostar de mim como sou

bem sei
bem sei que sou o que sou
e outra coisa não poderia ser
mesmo sabendo que não gosto muito do que sou
não me importo
não é coisa danada
nem avaria complicada
não me aprecio
neste brio que não luze
mas gosto de estar comigo
de me falar
e depois
quando me enfado do que digo
e as palavras abrutecem
aborreço-me
e parto com o que sou
porque em boa verdade
já não quero saber para onde vou
e se no passado
me importava com o destino
agora
digo para aquilo que não gosto em mim:
que se lixe
e dou comigo a pensar
como é possível gostar de alguém assim

bem sei
bem sei que se eu pudesse gostar de mim
como os outros gostam de si
talvez não fosse como sou
seria outra coisa qualquer
que não esta
e se amanhã
por ser dia especial
eu pudesse gostar
do que sou
gostava sem favor
mesmo que tivesse que vender
os valores de ser quem sou
[que são poucos]
por não poder ser outra coisa

bem sei
bem sei que ninguém merece partir
sem gostar um pouco de si
sei lá
das mãos, dos abraços
ou da forma como anda ou fala
e se do corpo mais nada houver para louvar
que seja a alma a exaltar
e mesmo que a fala se cale
leia-se o que escreveu
e interroguem-se
se cada palavra significar um segundo
na vida deste mundo
então, viveu para lá de marte

bem sei
bem sei que tenho que gostar de mim
mesmo que me apeteça não gostar
não me posso renegar
porque quando me olho ao espelho
vejo o meu pai a dizer: gosto de ti
e é quando eu olho para mim
como se não pudesse olhar para mais ninguém
como se o mundo fosse…
só meu
e do espelho com o meu pai
que se fingiu de morto 
para me ver crescer assim como sou

bem sei
bem sei que o mundo não é o que penso
é o que sinto
e o que sinto é tão estranho
que prefiro não pensar
naquilo que sou quando sinto
não fosse eu um dia gostar do que sinto
naquilo que sou
e sou tão pouco
para gostar de mim de outra forma
que não esta que sou

bem sei
bem sei que todo o caminho
se confunde entre o certo e o errado
e se todas as incertezas
passassem a certezas
o que seria então do que sou…
não seria
e quando me olhasse ao espelho
o meu pai teria partido
seria então outro
que não este que me fez
ser o que sou

bem sei
bem sei que para ser o que sou
sempre a cabeça sonhou
e se marte fica ao pé de uma vírgula
a lua era o meu ponto final
e a culpa
era afinal de quem
do que sou
ou do que gostava de ser
nunca saberei
creio que a culpa é apenas
a culpa de ser quem sou
e se assim é
nada posso fazer
se me desfizesse desta culpa
deixaria de ser o que sou

bem sei
bem sei que sou o que sou
e mais nada serei
porque se não fosse este que sabeis
seria outro muito diferente
e quem sabe…
não gostaria eu de vocês
e diriam então:
coitado
antes o quero como o sampaio
não é grande coisa
mas é o que é
e quem assim é
a mais não é obrigado

bem sei
bem sei que nunca deixarei de ser quem sou
mesmo não gostando do que sou






retalhos - número de série 225092015s(r)ego26












24/07/2019

ouço












noites onde o escuro é feito unicamente de sons – ouço. encutinho-me contra a almofada. agonio. suporto-me num não silêncio que me rompe os tímpanos e mutilo-me num negrume que me esconde o corpo de todos os fantasmas.

ouço;
ouço orquestra. ouço hauser e a consciência a enlouquecer;
ouço datação. ouço paixão e coisas que já não lembro como são;
ouço assombro. ouço asserção e palavras de papelão;
ouço lamentos. ouço frustração e o pulmão a pedir perdão;
ouço amigos. ouço tiaguinho e o mundo todo em pequenino;
ouço zé. ouço herói e a separação é o que dói;
ouço bola. ouço piões que nada sabem de ladrões;
ouço carrejões. ouço camiões com frutas de outras regiões;
ouço encarnado. ouço golão e a luz é lampião;
ouço crenças. ouço capelões e a religião aos trambolhões;  
ouço sombras. ouço lázaro e a luz voa como pássaro;

ouço amo-te. ouço sim e o caminho é valentim;
ouço prenha. ouço destino e a cabeça ficou sem tino;
ouço pai. ouço amor e o corpo todo num tremor;  
ouço moda. ouço glória e a roda é vitória;  
ouço coração. ouço vida e a alegria revivida;
ouço papá. ouço medo e a morte será cedo;
ouço saudade. ouço luanda e a luta não abranda; 
ouço caçula. ouço festança e tudo agora é mudança;
ouço horror. ouço despedidas e gritos que são partidas;
ouço terra. ouço dor [];

ouço ua. ouço ações em cinco gerações; 
ouço mutação. ouço destempo e a certeza num contratempo;
ouço livro. ouço glosas e leituras graciosas;
ouço braços. ouço labuta e a fábrica chalupa;
ouço aflição. ouço injustiça e o sino enfermiça;
ouço prantos. ouço sentenças e abraços de malquerenças;
ouço mandarins. ouço pasquins e o fim dos jardins;
ouço anjos. ouço querubins e tudo a valer xelins;
ouço liberdade. ouço gaivotas e o sustento às cambalhotas;
ouço mãos. ouço prosa e a pena pesarosa;

ouço amigo. ouço coração e abraço de gratidão;  
ouço aterro. ouço odor e os dias com calor;
ouço boda. ouço prata e a vida sempre grata;
ouço diversão. ouço exaltação e fé na religião;  
ouço formatura. ouço orgulho;  
ouço nora. ouço casamento;  
ouço netos;
ouço escrita;  
ouço luta;
ouço traição;
ouço batalha;
ouço fim;
ouço mãe;
ouço para sempre;
ouço terra. ouço dor [];

ouço a alma e a paz;
ouço as gaivotas e o mar;
ouço os filhos com as noras;
ouço um louvor para o meu amor;
ouço um abraço a apertar e a saudade chorar;
ouço o sombrio a chegar e o perdão a estoirar;
ouço o corpo a perecer;
ouço;
ouço;
ouço o que não quero ouvir.



ouço porque ouvidos que me nasceram no peito se abrem como as magnólias em [meu] abril – ouço o tempo que faz na rua e também ouço o tempo que faz dentro de mim – ouço o que me dizem e o que me nasce na cabeça – sou prisioneiro do que ouço – ouço [vos] mesmo que o silêncio se eternize





22/07/2019

se eu pudesse imitar brecht






marc chagall





se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema migrante
para levar à humanidade
a ordem para acabar com as fronteiras
e rime com bandeiras

se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema de amor
para levar às nações
a ordem para acabar com tudo o que é armar
e rime com matar

se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema emparelhado
e no controlo da métrica
a ordem para acabar com tudo o que não é cravo
e rime com escravo

se pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema recado
para levar a bruxelas
a ordem para acabar com tudo que é desigual
e rime com conflitual

se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema sem parar
que fizesse das palavras
a ordem para acabar com tudo o que não é paz. pão e habitação
e rime com degradação

se pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema voto
que levasse para as ruas
a ordem para acabar com tudo o que é desflorestação
e rime com devastação

se pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema ira
que levasse ao parlamento
a ordem para acabar com tudo o que é ozono
e rime com abandono

se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema trovador
que passasse de boca em boca
a ordem para acabar com tudo o que não é fraterno
e rime com inferno

se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema caneta
que levasse no aparo
a ordem para acabar com a iliteracia
e rime com literacia

se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema gaivota
que levasse no peito
a ordem para que se faça política com verdade
e rime com liberdade

se eu pudesse imitar brecht



“HÁ HOMENS QUE LUTAM UM DIA, E SÃO BONS

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis”

poema – bertolt recht