um dia serei apenas
este que escreve. porque em boa verdade. neste mundo a que não
pertenço. nada mais sou do que uma metáfora hiperbolizada – e aqueles.
que por serem daqui. dizem que não sou o que as palavras dizem que
sou. um dia. depois do sol cair. dirão que afinal fui o que as palavras
diziam – tudo o que realmente sou vive neste corpo estranho quem não sabe quem
é. nem de onde é – morrerei feito palavra escrita. porque falar
não sei e mesmo que soubesse quem me quereria ouvir? – talvez os peixes. talvez
30/09/2019
27/09/2019
25/09/2019
vou ter saudades tuas
minha querida cunhada. não sei se me ouves aí no céu.
mas se me ouvires. como quero acreditar. quero que saibas que vou
ter muitas saudades tuas – nunca haveriam de existir estes dias de saudade no
calendário. não sei quem os inventou. mas quem quer que tenha
sido nunca teve uma cunhada como eu tive – tu sabes que nunca fui muito de
lamechices. nem sei porque raio sou assim. gostava de não ser.
mas fico sempre com a sensação de que quando gosto de alguém de verdade não preciso
de muito espalhafato para lhe dizer: gosto de ti – eu sei que tu sabias
que eu gostava de ti – mas hoje é diferente. hoje o calendário marca dor.
viagem. saudade e preciso de todas as lamechices do mundo. preciso
abraçar-te. beijar-te. olhar-te e dizer-te: gosto de ti.
gosto de ti de como gosto do céu. do sol. do mar. das
gaivotas. do silêncio das montanhas. sei lá que mais cunhadinha.
gosto de ti daqui deste lugar que te perdeu até aí onde te escondeste – gosto
de ti zeza. apetece-me dizer mil vezes gosto de ti. e mais mil
que te adoro e que tenho muitas saudades tuas e que estou destroçado por me
teres abandonado sem que me tenhas ouvido dizer: fica mais um bocadinho.
só mais um dia. só mais um abraço – minha querida cunhadinha.
o que faz um homem com esta saudade que nos magoa? se tivesse um carro com um
motor potente. ou um foguetão. ou a varinha mágica do harry
potter. quem sabe. metia-me no tempo em marcha atrás e debruçava-me
outra vez nos teus braços. amarrava-te novamente essas mãos bonitas e
obrigava-te a sorrir mais uma vez e depois. abraçávamo-nos numa
despedida sem fim para que o tempo nunca mais andasse para a frente – vou
trazer sempre comigo esse teu último abraço. vou segurá-lo dentro de mim.
vou guardar esse bater magoado do coração… vou amarrar-te a mim para
sempre – desculpa zeza. não tive forças para te amarrar à vida – não me
conformo que tudo tenha sido tão rápido – minha querida cunhada. foste
tão corajosa. sempre que uma parte do corpo cedia lá inventavas tu uma
desculpa para nos animares para logo de seguida te esconderes dentro de ti num silêncio
fértil da consciência. alimentando de inocência essa alma ressentida e magoada
de tantas interrogações e nenhuma resposta a não ser. adocicar essa dor
que crescia sem parar com esses olhos de esperança – não vou deixar que partas
assim. não te vou esquecer. quero lá saber dessa tua mania antiga
de te ausentares do nosso mundo e depois. como se nada fosse.
regressavas com um sorriso que ninguém levava a mal – desta vez não vai
acontecer. vou-me encher de força e raiva e vou desviar o mundo para o
lado melhor e falar-te. dizer-te que preciso de ti. de te ouvir.
preciso dessa tua teimosia. preciso dessa forma como viravas as costas ao
relógio. preciso desse teu jeito de me entrares pela porta a correr.
preciso de ti tal como eras porque era isso que te fazia especial – agora só quero
que a memória não ceda ao tempo e sempre que acordar vou querer acreditar que tu
estás aí por perto. talvez a passear. talvez a comprar sapatos ou
aquele creme para te tirar as rugas dos olhos e. quando perceber que
afinal não estás onde os mortais estão. que a raiva me faça fechar os olhos
e te traga ao meu mundo nem que seja por um minuto. ou um instante tão
breve como um flash. mas que no clarão os teus olhos encontrem os meus e
o que era escuridão é afinal o milagre da vida para além da morte – não quero
saber nada dessa tua viagem. enquanto dormir tu existes porque a saudade
só acontece quando estamos acordados – acordado ou a dormir vou dar-te a mão e vamos
por essas ruas sem destino e. como o tempo deixou de ser tempo. talvez
possamos apanhar o avião novamente para milão. visitamos a catedral.
as galerias vittorio emanuele e depois. pela noite. voltamos ao mesmo
cinema e assistimos ao mesmo filme e saímos a rir e vamos comer uma pizza
quatro estações e falar do que só nós sabíamos falar. falar e rir.
rir e falar. e dizer palermices. e rir. e dizer mais
palermices. as crianças riem sempre da vida – tu cresceste criança – sempre
que a saudade apertar vou-te telefonar e livra-te de não atenderes esse mamarracho.
não venhas com aquelas tretas do costume de que deixaste o telemóvel não sei onde
e que a cabeça está na lua e que não tens tempo para nada – sempre que a
saudade apertar. doer e precisar de uma amiga vou buscar-te e sair
contigo por esse nosso mundo fora. vamos ver o mar e prometo mostrar-te
a liberdade das minhas gaivotas e depois. abrimos os braços e voamos até
ao céu e quando o vento amainar e o sol cansar. sentamo-nos no areal.
e ficamos em silêncio até a noite a chegar – o sol nunca morre. esconde-se
para que possamos ver o brilho das estrelas – tu minha querida cunhada brilhavas
como as estrelas – tenho a certeza de que quando estiveres devidamente
instalada no céu e deres conta destas palermices que estou a escrever vais
sorrir e achar que sou louco. e se calhar tens razão. e não é que
não me tenhas dito isso tantas vezes. mas dizias sempre com tanta doçura
e carinho que sempre achei que não era verdade – sempre achei que um dia destes
íamos comer o gelado que te prometi e falar dessas nossas coisas excêntricas
que só nós os dois sabíamos falar – éramos os dois loucos. loucos
varridos. éramos amigos loucos – minha querida cunhada porque nos
deixaste? porque raio não deste conta desse monstro que crescia dentro de ti –
distraíste-te e agora quem paga somos nós que ficamos aqui a escolher a melhor
foto. o melhor momento. a melhor conversa. a escolher a tua
vida que queremos guardar para sempre – não foste justa comigo. não
foste justa com as tuas irmãs que estão destroçadas. com a tua mãe que
continua a dizer. e com toda a razão. que nenhuma mãe do mundo
deveria perder um filho. para não falar na tua filha que agora vai ter
que inventar mil desculpas por não te ter a seu lado naqueles momentos
especiais – o que foste fazer minha querida cunhada – sinto tanto a tua falta.
foram tantos anos de carinho. cumplicidade e amizade – a amizade de
verdade é indescritível. não se explica. sabemos que aquela
pessoa gosta de nós independentemente daquilo que realmente somos. faz-nos
sentir bem. seguros e em paz – tu eras a minha amiga do coração – eramos
amigos não porque um dia escolhi a tua irmã para viver comigo. éramos
amigos porque olhamos um para o outro e percebemos que seria assim para sempre.
ficamos amigos como se tivéssemos nascido na mesma rua. andado na mesma
escola. jogado à corda. à macaca. sei lá o que mais minha
querida amiga – sabes. sempre fui um otimista e também sempre achei que
sabia ler o futuro. e não é que te imaginava com cem anos. encarquilhada.
com mau feitio. a resmungar por tudo e por nada. em cima dos
teus saltos altos. lábios bem pintados. cabelo esticado como só
tu sabias fazer e a roupa com um aprumo que era capaz de jurar que a tinhas
acabado de comprar – nunca te vi sem esses sapatos enormes que te punham na lua
e tu nesse equilíbrio bem-parecido a caminhar como só as rainhas sabem caminhar
– sempre caminhaste como se vivesses nas nuvens. como se fosses um anjo –
primeiro foste uma boa menina. depois. envelheceste. mas
nunca deixaste de ser uma boa menina. todas as pessoas boas são ingénuas.
às vezes acho que essa ingenuidade era o teu jeito de nos dizeres que não querias
ser como as outras pessoas. não tinhas os mesmos interesses. tinhas
o teu mundo com as tuas cores – tu querias tudo simples. palavras
simples. sorrisos simples e até o futuro que julgavas ser eterno o
quiseste sempre simples – talvez já adivinhasses o teu destino – mas se o pressentiste
nunca nos dissestes nada – vou ter saudades tuas minha querida cunhada. vou
ter saudade de não ligares patavina aos telefones. vou ter saudades dessa
teimosia que nasceu contigo como nos nascem os sinais na pele. vou ter
saudades de todas as palavras que ao longo da vida me foste dizendo e que
fizeram de mim aos teus olhos um ser tão bonito e especial – não era eu que era
especial. eras tu. eras tu que vias o que mais ninguém via – vou
ter saudade daquele abraço com que me recebeste naquele dia que entrei de
rompante pela porta. tinham sido muitos meses sem nos vermos. correste
e abraçaste-me de tal forma que nunca mais o esqueci – vou ter saudades minha
querida cunhada de tanta coisa – como é possível a vida ser tão injusta. agora
que tinhas encontrado o companheiro da tua vida. tinhas encontrado o homem que
sabia fazer-te feliz. sabia que eras uma rainha – uma mulher não se faz rainha.
nasce rainha – eu não sou crente. mas às vezes gostava de saber que
estou errado. que quando partimos vamos para um lugar onde encontramos
todos aqueles que gostamos e amamos – quem me dera zeza que esteja errado.
se estiver. então. talvez encontres aí os meus pais e o nosso tio
joão. talvez não estejas assim tão sozinha e se assim for. um dia
destes. marcávamos aí um encontro para voltarmos a falar um pouco das
nossas palermices – minha querida cunhada. quem é que agora me vai dizer
essas coisas bonitas que só tu eras capaz de dizer – levo para sempre esse
último abraço. choramos. apertamos as mãos e sorriste como se não
estivesses a sofrer e enquanto eu me sentia perdido e arrasado tu viraste-te
para a enfermeira e disseste-lhe: o meu cunhado é o sol da minha vida –
meu deus zeza. e agora quem me dirá novamente uma coisa dessas – vou ter
muitas saudades tuas. vou ter saudades desse teu brilho com que vivias a
vida. vou ter saudades dessa luz que iluminava o caminho de quem vivia a
teu lado – vou te guardar para sempre – por favor. toma conta de mim e
dos nossos
pequenas grandes
notas:
não seria justo
não dizer que sou um homem orgulhoso da família a que pertença. a minha cunhada
partiu sem que as suas irmãs a deixassem um único momento sozinha – do primeiro
dia até ao seu último suspiro – nos últimos dias a zeza esteve sempre
acompanhada pela família que a amava. despediu-se de todos com serenidade – um beijinho
especial para a tia alcina e para a minha sobrinha renata que passaram as duas
últimas noites em vigília ao lado da zeza – teresa e maria joão vocês deram
sentido à minha frase: a família é um compromisso de afetos – é mesmo – continuo
com uma cunhada fantástica e tenho a meu lado uma companheira maravilhosa que
não me canso de amar
por último.
um agradecimento especial ao seu companheiro que esteve sempre presente a seu
lado – ele sabia que a zeza era a minha menina e terá a minha gratidão até ao
fim dos meus dias – só tenho pena que não o tivesse conhecido trinta anos antes
– mas a vida é o que é. e o importante é sabermos que o tempo na maior parte
das vezes é uma ilusão – nessa contagem de tempo que os homens inventaram a minha zeza foi muito feliz a seu lado – às vezes
o tempo não é tudo – a minha cunhada levou o seu respeito. o seu afeto e
o seu amor na sua viagem final – partiu em paz sabendo que foi a mulher de uma
vida – desejo-lhe tudo que há de melhor para a sua vida – em mim terá sempre um
amigo e mais do que isso. terá o meu respeito pela sua humanidade e honorabilidade
– que mais pode um homem ter?
21/09/2019
05/08/2019
eu. o max e o avião
toca
hauser. toca sem parar e sem me
questionar – desperto-me. abandono o instrumental da música clássica e
recupero o mundo – estremunhado. aceito contrariado o meu regresso às
coisas com espírito: há vida no céu. há um avião a voar nos meus
ouvidos – o barulho dos aviões. às vezes. confunde-se
com a trovoada e fico sem saber se é jesus que está a ralhar comigo ou é apenas
um avião perdido no céu – paro. escuto. acerto o ouvido
com a janela. aparto o mundo que vejo para os lados e capturo definitivamente
o som do avião. mas não a sua atenção – estou decididamente acordado
para o mundo real. os seus decibéis resgataram-me ao mundo das
possibilidades – gosto de sonhar. quando sonho acredito em coisas que
acordado seriam impossíveis de acreditar – sempre que sonho sei que me torno
numa possibilidade – tenho até uma leve intuição de que a todo o momento pode
aterrar no meu escritório um avião – o avião voa mesmo. e não se riam:
o avião voa no ar – gosto de aviões porque estão mais perto do céu do que
eu – eu só vejo o céu à noite quando as estrelas o iluminam – será que
há um aeroporto para lá das nuvens? será que os aviões andam no ar para levar os
crentes para mais perto de deus? – quem sabe. um dia. um desses médiuns
famosos que agora passam na tv. para aumentar o seu share. faz um
acordo com deus para aparecer a acenar em cima de uma nuvem – não sei para onde
vai este avião. ou mesmo se vai para algum lado. ou se anda às
voltas para me irritar. a fazer círculos de barulho. a enrolar o
som na minha vida sonhadora. a tentar questionar-me porque não olho para
o céu. para as coisas que voam – o avião faz barulho. voa. voa
como uma coisa que sabe voar. talvez pássaro. ou alma acabada de
falecer. ou papelinho largado ao vento. ou disco voador.
ou palavra vociferada por boca magoada – há coisas que foram feitas para
voar – eu não sei voar. nem ouso pensar em voar. quer dizer.
às vezes penso. mas o espaço no meu escritório é tão reduzido que na
maior parte das vezes metade do que penso fica fora da janela e é quando dou
conta que está tudo estatelado no meio da rua – por isso é que gosto de ser
comedido nos pensamentos. não porque não queira pensar em altos voos.
não. só não quero vê-los ignorados e espezinhados – já não tenho
estômago para mais desgostos – confesso que estou alterado com o avião. aborreceu-me.
roubou-me um daqueles sonhos raros e que só aparecem de tempos em tempos – e agora.
que acordei para o mundo das impossibilidades. já não sou capaz de o
recuperar – quando perdemos um sonho é para sempre. mistura-se com a
realidade e desaparece no meio da multidão – por isso é que me irrito quando um
avião me desperta com barulho que não vejo. ainda se fosse um
automóvel de escape livre. ou uma bulha de vizinhos. era fácil.
ia à janela e sempre lhes podia disparar uns quantos impropérios. agora
um avião. lá nos confins do céu. por muito que berre ninguém me
vai dar atenção – quando me altero fico confuso. perco-me de mim.
irrito-me e vou às nuvens sem tirar os pés do chão – não gosto de pensar
em voar. fico com medo do que o mundo pensa do que penso – prefiro a
minha solidão em terra. quer dizer. eu nunca estou só. tenho
o meu cão. o max – o max é um cão especial. sempre que trocamos
olhares fico com a sensação de que posso voar naqueles olhos – mas não posso.
nem eu. nem o max – não fomos feitos para voar senão tínhamos
nascido com asas e não nascemos – aceitamos a nossa vocação terrestre com
resignação e dignidade – creio que o max até aceitou primeiro do que eu.
rapidamente o senti conformado com a vida que lhe tocou – para lá dos anjos nos
livros da catequese nunca vi ninguém com asas. mas conheço muita gente
que voa sem asas – não me peçam para explicar como voam que não sei – eu sempre
que tentei voar estatelei-me ao cumprido – não tenho jeito para as alturas –
ainda bem que a minha mortalidade não tem lugar marcado no céu. mas sei
que um dia voarei em pó – e aqui estou eu com o barulho do avião. que
tal como os comboios no seu trabalhar nos diz: pouca terra. pouca
terra. o avião. porque anda no ar. diz-nos: porque
não voas. porque não voas – e a resposta é fácil: não voo porque
não tenho asas e mesmo que tivesse estou convencido que não voaria. seria
como a avestruz que apesar de ter asas não tira os pés do chão – para vos falar
verdade até creio que tenho um pouco do DNA de avestruz. não por não
voar. mas por meter a cabeça num buraco e achar que estou escondido do
mundo – o buraco é a minha casa que me guarda de todas as dores. e é
aqui que me encontro comigo. estendo as mãos e olho para o meu céu: um
candeeiro com quatro lâmpadas de casquilho fino e um teclado iluminado com
letras aos saltos. como passarinhos no ninho a ensaiar o seu primeiro
voo. e todos os sonhos de uma vida na ponta dos dedos – sinto que
o max já está irritado com o barulho do avião. rosna. mostra os
dentes e olha para mim como se estivesse a perguntar: não fazemos nada? para
o acalmar rosno e mostro também os dentes – somos unha com carne e temos o
mesmo lema dos mosqueteiros: um por todos. todos por um – resolvi
dizer-lhe que um dia também iremos voar. compro dois bilhetes na
TAP e voamos para faro. ida e volta. vamos de manhã e vimos à
noite. sempre tive curiosidade de ver as estrelas de perto – as estrelas
existem só para nos obrigarem a olhar para o céu – hoje não me apetece olhar
para o céu. estou sentado na minha cadeira e ainda não comprei os
bilhetes – tudo o que sou espelhado num aro de madeira sucupira clara.
contorna a janela numa esquadria triste e ausente de liberdade – sem liberdade
ninguém é capaz de sonhar ou voar – e o meu mundo a fugir por uma janela preenchida
de impossibilidades. protege-se com uma persiana feita de buracos
organizados. xis em xis centímetros uma entrada de luz estilizada – gosto
de persianas furados com arte. com design. com criatividade e ao
mesmo tempo. como se soubessem que o excesso de luz pode cegar.
são também protetoras. controlam o caudal de luminosidade. deixam
entrar apenas o necessário para alimentar a vida sem que se corra o risco de
cegar – por isso é que gosto de persianas. se estamos deprimidos
fechamo-la e temporariamente podemos morrer para o mundo numa solidão escura.
e sem hora marcada para o regresso. e quando entendemos ressuscitar
da morte silenciosa. abrimos a persiana aos poucos. num vagar sem
presa. e a luz a tomar-nos a conta gotas. numa renovada claridade.
purificada de todos os males do mundo. prometendo proteger-nos para
sempre do inferno da vida – entrego-me à luz. primeiro um braço.
depois outro. de seguida o tronco. as pernas e por último os
olhos. quero ver tudo. que ver o que a luz ilumina. quero
ver-me na renovada luz e deixo-me subir ao céu como se fosse um avião. e
rio como se estivesse a ser carregado por anjos. e rezo como se fosse
crente. e voo como se fosse pássaro. e abraço-me como se os
braços estivessem carentes de um corpo. e vivo como se quisesse viver.
e quando a noite chegar. sento-me numa estrela que desenhei num papel
triste e fico a olhar para o que sobrou de mim. para o que me trouxe a
esta paz. a cada pessoa que conheci. a cada flor que colhi e a cada
gota de chuva que me molhou e adormeço como se estivesse a sonhar com gaivotas que
voam no céu – tenho que deixar de ouvir o avião. se tivesse um
canhão atirava-o abaixo e depois. aguentava com o que o mundo pensasse
de mim – estou farto de o ouvir – revolvo-me na cadeira. irrito-me – para
que estou eu aqui sentado se a minha vocação é voar – e a janela a pedir-me que
voe como um avião – mas não. não voo e também não vivo num quadro
de renoir a celebrar a beleza do mundo das flores. das mulheres bonitas.
dos tons melódicos e das crianças de mãos dadas aos seus pais e eu no pincel do
mestre a pedir-lhe para me pintar. para me misturar com as flores.
com as crianças que correm como se voassem e o pincel do mestre a voar na tela como
se fosse um avião no céu e a mistura das cores quentes. as crianças
quentes. as flores quentes e as cores mescladas com arte a darem agosto
quente. saudade quente e o poeta das cores a fazer voar o seu próprio
tempo como se fosse um avião que voa sem barulho num céu que se pode apanhar
com as mãos – meu deus. como gosto de agosto e de aviões – porque não
pinto eu? por agosto e pelo renoir era capaz de voar mesmo sem asas – mas
não. estou preso a uma janela em sicupira e tudo o que vejo são pedras no
chão a revolver o céu. a guardar as sombras dos aviões que não vejo – mesmo
assim gosto da minha janela. gosto da pouca esperança que guarda nos
seus caixilhos. um dia vou ver os aviões – um dia a minha janela de
sicupira vai voar como os aviões – sei – há noites em que o meu desejo é apanhar uma estrela e trazê-la para o pé de
mim. mas já percebi que não é possível. o problema nem é a
distância porque às vezes do longe se faz perto. o problema é que as
estrelas só brilham no céu – para que quero eu uma estrela que não brilhe? tal
como escreveu nietzsche quanto mais nos elevamos. menores parecemos
aos olhos daqueles que não sabem voar – a noite chegou. o
pôr-do-sol morreu de vez. e tudo em que tocou morreu também. só o
barulho do avião resiste à morte. sei que não morreu porque se continua
a ouvir – os aviões confundem-se com as estrelas e estas confundem-se com olhos
iluminados de tristeza – quando um homem está mal até as estrelas cintilam dor
– só os aviões continuam no ar – as minhas coisas não voam como os pássaros.
ou os aviões. ou mesmo as desilusões. ou palermices. ou
anormalidades que a ciência ainda não arrolou – estou farto. é hora de
voar como se pode – com coragem atiro o corpo aos pés e voo. voo de mim até
ao chão e na ligeireza da queda a lembrança do alfaiate voador que se atirou da
torre eiffel com a infinitude cega de que não importa o tempo de voo. importa
mesmo é voar – eu voo da cadeira para o chão e do chão para a janela arrasto-me
como se estivesse a voar – se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos pendurados numa janela... sou eu a voar
hoje celebro o aniversário natalício de meu
pai. antónio sampaio lopes. faria hoje noventa e seis anos e
confesso-vos que tenho imensas saudades de lhe falar. de o beijar e de o
abraçar – se fosse crente diria que um dia destes nos veríamos no paraíso.
mas não sou. perdi a minha fé no dia em que o vi partir – mas não o
perdi da memória
31/07/2019
bem sei
bem
sei
bem
sei que sou o que sou
e
outra coisa não poderia ser
porque
se fosse
deixaria
de ser o que sou
de
esquecer o que não posso esquecer
amar o
que sempre amei
bem
sei
bem
sei que se fosse outra pessoa
não
gostava de mim como sou
mas eu
gosto
gosto
pouco ou quase nada
e a
diferença não sei explicar
o que
sei
é que
não me posso nausear
por
não gostar de mim
como
os outros gostam de si
bem
sei
bem
sei que quando gosto de mim
não é
um gostar egocêntrico
gosto
porque gosto das pessoas que gostam de mim
e são
essas pessoas
que
gostam de mim assim como sou
que me
fazem sonhar
e
talvez quem sabe…
um dia
gostar
de mim como sou
bem
sei
bem
sei que sou o que sou
e
outra coisa não poderia ser
mesmo
sabendo que não gosto muito do que sou
não me
importo
não é
coisa danada
nem
avaria complicada
não me
aprecio
neste
brio que não luze
mas
gosto de estar comigo
de me
falar
e
depois
quando
me enfado do que digo
e as
palavras abrutecem
aborreço-me
e
parto com o que sou
porque
em boa verdade
já não
quero saber para onde vou
e se
no passado
me
importava com o destino
agora
digo
para aquilo que não gosto em mim:
que se
lixe
e dou
comigo a pensar
como é
possível gostar de alguém assim
bem
sei
bem
sei que se eu pudesse gostar de mim
como
os outros gostam de si
talvez
não fosse como sou
seria
outra coisa qualquer
que
não esta
e se
amanhã
por
ser dia especial
eu
pudesse gostar
do que
sou
gostava
sem favor
mesmo
que tivesse que vender
os
valores de ser quem sou
[que
são poucos]
por
não poder ser outra coisa
bem
sei
bem
sei que ninguém merece partir
sem
gostar um pouco de si
sei lá
das
mãos, dos abraços
ou da
forma como anda ou fala
e se
do corpo mais nada houver para louvar
que
seja a alma a exaltar
e
mesmo que a fala se cale
leia-se
o que escreveu
e
interroguem-se
se
cada palavra significar um segundo
na
vida deste mundo
então,
viveu para lá de marte
bem
sei
bem
sei que tenho que gostar de mim
mesmo
que me apeteça não gostar
não me
posso renegar
porque
quando me olho ao espelho
vejo o
meu pai a dizer: gosto de ti
e é
quando eu olho para mim
como
se não pudesse olhar para mais ninguém
como
se o mundo fosse…
só meu
e do
espelho com o meu pai
que se
fingiu de morto
para
me ver crescer assim como sou
bem
sei
bem
sei que o mundo não é o que penso
é o
que sinto
e o
que sinto é tão estranho
que
prefiro não pensar
naquilo
que sou quando sinto
não
fosse eu um dia gostar do que sinto
naquilo
que sou
e sou
tão pouco
para
gostar de mim de outra forma
que
não esta que sou
bem
sei
bem
sei que todo o caminho
se
confunde entre o certo e o errado
e se
todas as incertezas
passassem
a certezas
o que
seria então do que sou…
não
seria
e
quando me olhasse ao espelho
o meu
pai teria partido
seria
então outro
que
não este que me fez
ser o
que sou
bem
sei
bem
sei que para ser o que sou
sempre
a cabeça sonhou
e se
marte fica ao pé de uma vírgula
a lua
era o meu ponto final
e a
culpa
era
afinal de quem
do que
sou
ou do
que gostava de ser
nunca
saberei
creio
que a culpa é apenas
a
culpa de ser quem sou
e se
assim é
nada
posso fazer
se me
desfizesse desta culpa
deixaria
de ser o que sou
bem
sei
bem
sei que sou o que sou
e mais
nada serei
porque
se não fosse este que sabeis
seria
outro muito diferente
e quem
sabe…
não
gostaria eu de vocês
e
diriam então:
coitado
antes
o quero como o sampaio
não é
grande coisa
mas é
o que é
e quem
assim é
a mais
não é obrigado
bem
sei
bem
sei que nunca deixarei de ser quem sou
mesmo
não gostando do que sou
24/07/2019
ouço
há
noites onde o escuro é feito unicamente de sons – ouço. encutinho-me contra a almofada. agonio. suporto-me num
não silêncio que me rompe os tímpanos e mutilo-me num negrume que me esconde o
corpo de todos os fantasmas.
ouço;
ouço orquestra. ouço hauser e a consciência a enlouquecer;
ouço datação. ouço paixão e coisas que já não
lembro como são;
ouço assombro. ouço asserção e palavras de papelão;
ouço
lamentos. ouço frustração e o pulmão
a pedir perdão;
ouço amigos.
ouço tiaguinho e o mundo todo em
pequenino;
ouço zé. ouço herói e a separação é o que dói;
ouço bola. ouço piões que nada sabem de ladrões;
ouço carrejões. ouço camiões com frutas de outras regiões;
ouço
encarnado. ouço golão e a luz é
lampião;
ouço crenças.
ouço capelões e a religião aos trambolhões;
ouço sombras. ouço lázaro e a luz voa como pássaro;
ouço
amo-te. ouço sim e o caminho é valentim;
ouço prenha.
ouço destino e a cabeça ficou sem tino;
ouço pai.
ouço amor e o corpo todo num tremor;
ouço
moda. ouço glória e a roda é vitória;
ouço
coração. ouço vida e a alegria revivida;
ouço papá.
ouço medo e a morte será cedo;
ouço saudade.
ouço luanda e a luta não abranda;
ouço
caçula. ouço festança e tudo agora é mudança;
ouço horror. ouço despedidas e gritos que são
partidas;
ouço
terra. ouço dor […];
ouço
ua. ouço ações em cinco gerações;
ouço
mutação. ouço destempo e a certeza num contratempo;
ouço
livro. ouço glosas e leituras
graciosas;
ouço braços. ouço labuta e a fábrica chalupa;
ouço
aflição. ouço injustiça e o sino enfermiça;
ouço prantos. ouço sentenças e abraços de
malquerenças;
ouço
mandarins. ouço pasquins e o fim dos jardins;
ouço
anjos. ouço querubins e tudo a valer xelins;
ouço liberdade.
ouço gaivotas e o sustento às cambalhotas;
ouço
mãos. ouço prosa e a pena pesarosa;
ouço
amigo. ouço coração e abraço de gratidão;
ouço
aterro. ouço odor e os dias com calor;
ouço boda.
ouço prata e a vida sempre grata;
ouço
diversão. ouço exaltação e fé na religião;
ouço
formatura. ouço orgulho;
ouço
nora. ouço casamento;
ouço
netos;
ouço escrita;
ouço
luta;
ouço traição;
ouço batalha;
ouço
fim;
ouço
mãe;
ouço para sempre;
ouço
terra. ouço dor […];
ouço a
alma e a paz;
ouço as
gaivotas e o mar;
ouço
os filhos com as noras;
ouço um louvor para o meu amor;
ouço um abraço a apertar e a saudade chorar;
ouço o
sombrio a chegar e o perdão a estoirar;
ouço o
corpo a perecer;
ouço;
ouço;
ouço o que não quero ouvir.
ouço porque ouvidos que me nasceram no peito se
abrem como as magnólias em [meu] abril – ouço o tempo que faz na rua e também
ouço o tempo que faz dentro de mim – ouço o que me dizem e o que me nasce na
cabeça – sou prisioneiro do que ouço – ouço [vos] mesmo que o silêncio se eternize
23/07/2019
22/07/2019
se eu pudesse imitar brecht
marc chagall
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema migrante
para levar à humanidade
a ordem para acabar com as fronteiras
e rime com bandeiras
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema de amor
para levar às nações
a ordem para acabar com tudo o que é armar
e rime com matar
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema emparelhado
e no controlo da métrica
a ordem para acabar com tudo o que não é cravo
e rime com escravo
se pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema recado
para levar a bruxelas
a ordem para acabar com tudo que é desigual
e rime com conflitual
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema sem parar
que fizesse das palavras
a ordem para acabar com tudo o que não é paz. pão e habitação
e rime com degradação
se pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema voto
que levasse para as ruas
a ordem para acabar com tudo o que é desflorestação
e rime com devastação
se pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema ira
que levasse ao parlamento
a ordem para acabar com tudo o que é ozono
e rime com abandono
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema trovador
que passasse de boca em boca
a ordem para acabar com tudo o que não é fraterno
e rime com inferno
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema caneta
que levasse no aparo
a ordem para acabar com a iliteracia
e rime com literacia
se eu pudesse imitar brecht
escrevia um poema
um poema gaivota
que levasse no peito
a ordem para que se faça política com verdade
e rime com liberdade
se eu pudesse imitar brecht…
“HÁ HOMENS QUE LUTAM UM DIA, E SÃO BONS
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis”
poema – bertolt recht
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