.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

07/11/2019

teatro









[dedicado a júlio saraiva poeta e jornalista já falecido]



sou teatro…
parei agora para pensar um pouco
sossegar-me destas aflições
vocês compreendem…
não é fácil representar toda a vida.

nesta pausa
posso ser quem sou
inclino-me,
seguro a cabeça com as mãos
fecho os olhos
e vestido a preceito desde a última cena
viajo até à nascente,
lá… onde vivem as fadas.

neste encontro,
não preciso do ponto
nem do contraponto
e nas luzes da ribalta
surgem sonhos infrangíveis
neste pensar, encontro-me
em palcos dourados,
tribunas,
plateias,
camarotes,
frisas e palmas

é o teatro gigante
e eu tão pequeno
tudo esgotado,
tudo de pé
chamam-me os aplausos
em coro,
acenam cachoeiras de flores
que eclodem aos meus pés.
é a primavera
pensava eu.
                                                                                                                                  
mas os olhos ainda raíam
deste descer à verdade.
rompem as pancadas de molière
o contrarregra vai subir o pano
também eu subo à vida

acabou o teatro.


no dia em que postei o teatro no luso poemas. agosto de 2009. recebi uma mensagem privada do poeta e jornalista júlio saraiva que. amavelmente. fez questão de me dizer que tinha apreciado imensamente o poema e. na sua simplicidade. pediu-me autorização para o levar para o seu blogue – nem queria acreditar que o júlio saraiva se tinha dado ao trabalho de me escrever. que me elogiasse e quisesse divulgar o poema na sua página – é a primeira vez que torno público este episódio. confesso que fiquei um pouco envergonhado e pensei: e agora o que vai ser de mim. como vou manter o nível. que dirá o júlio quando ler o meu próximo poema – admito que nunca me senti nem confortável. nem feliz com a poesia. só a prosa me enredava o tempo com alegria – entrei em pânico e achei que o melhor para a minha poesia seria silenciar-me. quanto menos pessoas soubessem deste episódio melhor – não sei se alguma vez o postou. confesso que não sou muito bom a tomar conta da vida dos outros. mas também não é importante. valorizo mais o impulso. valorizo mais a verdade do momento. e esta é sempre mais apreciada quando emerge na espontaneidade – uns tempos depois faleceu e nunca tive oportunidade de lhe agradecer aquele gesto. principalmente. nunca tive oportunidade de lhe dizer como aquela mensagem. naquele momento. me ajudou a renovar a vontade de escrever – o luso era um espaço pequeno para tanto ego gigante. sobrava a vaidade. a arrogância. a falta de humildade e. principalmente. o bom senso e a tolerância – reconheço que havia colegas intragáveis. com mau carácter. monstrinhos egocêntricos que projetavam uma grandeza que em boa verdade não tinham – ser grande entre os pequenos não os tornavam especiais – não era fácil lidar com esse lado negro dos poetas –   mas bem lá no fundo confesso que aprendi muito com os meus camaradas do luso e a todos estou agradecido – depois. tal como os mágicos fazem magia. o júlio também fez acontecer um momento excecional para mim – durante um tempo esqueci tudo o que era mau – a modéstia chega sempre mais depressa por quem não precisa de se por em bicos de pés para ganhar altura. já são grandes e ponto – que nunca lhe falte nada esteja ele onde estiver. mas se faltar. que não seja papel. lápis e… amigos. para que. em companhia. beba o seu “choupinho”



31/10/2019

manuel de barros









Retrato do artista quando coisa


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.



22/10/2019

eu. a dama e a celulite





foto google





em contramão. uma dama rebuliça e enérgica dirige-se para mim – acerto-lhe com os olhos e interrogo-me: será que vou ter problemas. a esta velocidade vai-se-me enfaixar no pescoço – cabelo loiro oxigenado. levantado à frente. face redonda e rosada. não sei se é cor natural ou está apenas afogueada da velocidade que imprime ao andamento. uma pochete louis vitton contrafacionada num bairro chinês de pequim. acompanha o movimento das pernas numa desordem perigosa. ainda vai dar com o adereço na cabeça de algum transeunte – botas douradas. furadas com estilização. sobem-lhe pela perna com ganas de chegar o mais longe possível – dois dedos acima de uma rótula rombuda e três abaixo da cintura uma pequena mini saia branca vestida com desprezo. a fazer sobressair uma cicatriz mal-arrumada no umbigo. mascarada de importância com piercings-diamante falso de quinze quilates – confesso que fiquei com a ideia de que a saia era apenas um adorno para desviar as atenções do umbigo – olhos redondos. claros. a contrastar com uma pintura excêntrica. um negro que não era luto. balançava o corpo numa agitação perigosa para os dois enormes seios amarrotados pela licra preta de uma camisola de alças – confesso que por momentos entrei em pânico. a aproximação apresentava-se desatenta. descuidada e desnorteada e decididamente em excesso de velocidade – tinha que evitar a todo custo o embate – já não tenho condições para choques com viaturas de transporte de matérias perigosas – cerrei os dentes e preparei-me para a fusão dos corpos – quando pensei que o embate era inevitável a dama num movimento de toureio atira com as ancas para um lado e sai com o tronco pelo outro – foi tudo tão rápido que comecei à procura da bandarilha espetada no corpo – felizmente tudo não passou de excitação – olhei para trás e ainda não recuperado percebi que a minha alucinação se deveu a uma mini saia comprada nas galerias lafayette de paris. encandeou-me. cegou-me. roubou-me o norte e mesmo numa excitante desordem mental. percebi rapidamente que me tinha perdido nos adereços. a testosterona invadiu-me os neurónios. começou a descer-me pelas vértebras. comecei a suar em bica e quando dei conta estava com a dama em pecado. em pensamento. mesmo à minha frente – era muita mulher para mim. era muita curva e contracurva. era um pecado quase mortal. deus e a minha companheira nunca me perdoariam um pecado com esta dimensão – desorientado. fiquei sem saber se seria melhor atirar-me para uma valeta ou aceitar o embate como inevitável e preparar-me para as consequências – era impossível ficar indiferente às propriedades naturais [penso eu] desta excêntrica dama – deitei os olhos ao chão. arrependi-me. voltei a olhar. deitei novamente os olhos ao chão. voltei a arrepender-me. voltei com os olhos para o chão. e é quando surpreendentemente a dama dirige-me a palavra: estás a olhar para onde – surpreendido. envergonhado e embaraçado respondi: estava a olhar para a celulite. isso não está nada bem e não condiz com a mini saia – e assim. numa manhã de quarta-feira nos cruzamos numa eternidade de tempo: eu tão cedo não vou esquecer esta dama e a dama vai comprar todas os cremes anti celulite que existirem no planeta e arredores – ninguém se transforma naquilo que não é





chico buarque










11/10/2019

fósforo









escrevo. escrevo e existo para logo de seguida desaparecer como desaparece o fósforo em combustão – a palavra é um amor repentino com uma única chama intensa – depois. como se tudo não passasse de um caso. tudo morre com a leitura – no chão. como que a dizer que afinal a palavra é efémera. o pauzinho carbonizado aduba a terra. onde um dia. quem sabe. nasce uma flor qualquer – paz ao escritor 





07/10/2019

talvez












talvez esteja louco. mas às vezes acredito que estou onde nunca consigo chegar – se não estou louco. então. sou a vontade de um deus. ou de um génio. ou uma peça de um xadrez estranho. ou até quem sabe. um caminho tortuoso para chegar a um lugar que ainda não existe. ou sou outra qualquer coisa insignificante que por não ter valor se encontra postado no chão da feira da ladra – se eu soubesse que isto terminaria assim. talvez tivesse amado uma boneca de porcelana para não ter que me envergonhar. para não ter que encontrar nenhuma palavra que me isentasse de ter nascido assim. louco – mas se nasci louco como penso. porque raio continuo a gostar de mim quando procuro chegar ao que nunca alcanço – não sei. se soubesse possivelmente era dono de uma torre de babel. um cavalo de corrida. dezassete gaivotas e uma cama que me aceitasse quando sonho





03/10/2019

eu. o che e a revolução









com o sol de volta renasce a manhã – ergo-me das trevas. espreguiço-me. chego-me à janela. olho o céu como quem quer medir a distância entre a terra e os milagres. sorrioe por ali fico a existir sem querer saber nada do que dizem os astros para o dia de hoje – apetece-me unicamente viver. aceitar o destino e inspirar o mundo – adoro estas manhãs em que olho para o futuro sem me preocupar com o destino e. tal como disse nelson mandela. “Seja qual for o Deus, eu sou mestre do meu destino e capitão da minha alma.” – hoje. também eu me sinto mestre e capitão da minha alma – a imensidão do céu azul liberdade de tomie ohtake disputa a luz com o castanho infantil dos meus olhos. atrás de mim a juventude e a cama por fazer. para a frente. o que me sobrou dos sonhos revolucionários e o fim das camas por fazer – a linha do horizonte é sempre ténue e dolorosa para quem acaba de acordar para o erro. para o sacrifício. para a resiliência e para o combate diário corpo a corpo. não fosse eu um sobrevivente da revolução de abril – olho o fim do mundo que os meus olhos alcançam e digo para mim que estou a acordar: se o mundo é assim tão enorme como dizem. porque será que me sinto sempre tão apertado. tão acanhado. a sufocar. como se o céu a todo o momento me pudesse cair em cima da cabeça – agora percebo bem o medo do obelix. também ele andava sempre apavorado quele ciel lui tombe sur la tête – não nasci nem vivo em gália e também sinto que o céu me pode cair a todo o momento sobre a cabeça – sorrio num jeito de deixa para lá. hoje não me quero aborrecer. afinal o dia até está bonito – sei e sinto que mereço este dia – para me despedir deste céu que me guarda o infinito. espreguiço-me até tocar com as pontas dos dedos nas paredes do mundo e parto em direção ao polibã a cantarolar grândola vila morena. do nosso amado zeca afonso – atiro-me para debaixo da água muy caliente”. digo uma dúzia de palavrões e reafirmo: fascismo nunca mais.  o povo é quem mais ordena – eu faço parte do povo – lavo-me dos pesadelos da noite e prometo a mim mesmo enfrentar o meu destino com briga. é melhor morrer pelo fogo. em combate. a morrer em casa. pela fome[fidel castro] – enrolo-me num toalhão estampado com um cravo vermelho de abril. dou duas lufadas de bafo quente para o espelho e desapareço – às vezes não me suporto. mas não é o caso de hoje – limpo-o com a ponta da toalha e dou comigo a brilhar. a sorrir e com a barba aos saltos de um lado para o outro – é a minha barba revolucionária da manhã. um pelo virado para a esquerda e outro para a anarquia – um homem lavado é sempre bonito – sinto-me enorme. poderoso e pergunto-me: será que é hoje o dia certo para vestir a t-shirt do che guevara – penso duas vezes. olho para mim novamente e. tudo como dantes: sorridente. barbudo. enorme e poderoso – com convicção digo para o gajo do espelho: é hoje que vais vestir o raio da t-shirt – sei muito bem o que vale uma revolução. já vivi as suas falsidades. contradições e ilusões – a democracia chegou à minha adolescência exatamente como chegavam os propagandistas às romarias: carregados de quinquilharias para vender ao preço da uva mijona eram os famosíssimos vendedores da banha da cobra e na verdade. tudo o que impingiam. era muito mais do que produtos de baixa qualidade. era magia.  era o ressurgimento do milagre da multiplicação no mundo contemporâneo. era a troca de uma nota por um saco a abarrotar de coisa nenhuma - tal como os políticos - a ladainha era sempre a mesma. com uma voz firme e uma oratória previamente treinada. enérgica e objectiva. tomava conta da vontade do cliente que ficava como a serpente do encantador: estacado e encantado. a sua única motivação era deitar a mão às pechinchas – estes homens subiam para cima das suas caminhetas. levantavam o tolde de lona e logo apareciam umas quantas “rumas” de cobertores. bem empilhados. com as cores organizadas num degradê harmonioso e mais outros mil e tantos produtos que ninguém sabia para o que serviam – ajustavam à boca um micro preso ao peito. protegiam-no com um lenço de mão para absorver os perdigotos. davam três pancadinhas e começavam os testes: um dois três. um dois três. um dois três quatro cinco seis mil cobertores vendidos. e logo de seguida. para não perder nenhum romeiro. numa voz poderosa a imitar os primeiros locutores da rádio. começava a propagandear os seus produtos com a arte dos grandes mestres da oratória – eram homens cansativos. não se calavam um único segundo e o romeiro nem tempo tinha para se questionar porque estava ali estacado. e quando despertasse do encantamento. estava sem a nota de mouzinho da silveira – o propagandista era um homem astuto e matreiro. e para que os romeiros se sentissem mais tranquilos e confiantes. apontava-lhes o dedo em riste. percorria-os um a um. agora numa locução meiga e doce e. benzia-se com um olho na fé e outro nas notas de quinhentos – comunicar com doçura era a sua arma secreta para apanhar na sua teia comunicacional os clientes mais difíceis e desconfiados – era chegado o momento para juntar à doçura uma laracha inofensiva e quebrar pelo humor o gelo dos mais resistentes:

-- estamos nesta romaria também a pedido do seu santo padroeironão fiquem espantados! sim!é verdadesanto também tem as suas necessidades – o nosso querido s. judas tadeu. mais uma vez. aproveitará a nossa presença nesta gloriosíssima celebração em ação de graças para suprimir muitas das suas necessidades podem não acreditar. mas os santos também têm frio – por isso é que aqui estamos todos mais uma vez. para agradecer. para louvar e proclamar a obra salvífica de deus. que protegidos pela sua imensa bondade nos permite. mais um ano. estarmos neste convívio religiosos. alegrados pelos seus feitos e sempre fiéis ao seu chamamento misericordiosomais uma vez obrigado meu deus por poder tirar o frio aos teus fiéis. amém

o suor caía-lhe em bica ensopando a camisa de satisfação. de paixão. de arte e sacrifício – tanto palavreado. tanta gesticulação. tanta imaginação e tudo para vender um cobertor – este sujeito não parava um minuto. talvez use pilhas duracel

mas como vos dizia. este é também o momento para que o nosso querido s. judas tadeu. possa adquirir os nossos fantásticos produtos. que. como sabem. são os mais baixos do universo – já não há milagre que faça baixar o preço destes maravilhosos produtos – só deus e eu sabemos que este é o preço justo para a excelência do que trazemos nesta carrinha de quatro rodas que é o nosso ganha pão – vejam só -apontando para os cobertores- podem dar a volta ao mundo duas vezes que. nunca encontrarão cobertores com esta qualidade – saibam que com um cobertor fabricado com esta magnifica lã nunca mais terão que ter medo às frentes frias que nos chegam da sibéria – o senhor sabe que falo verdade e porque sou um homem grato aos seus desígnios a “minha boca anunciará todos os dias vossa justiça e vossas graças incontáveis” (Sl 70,14-15) amém – este cobertor será a minha ruína – senhores e senhoras. o que vos peço por este fantástico cobertor será muito menos do que um automóvel. um barco. um avião. uma viagem ao brasil. um jantar no pedro dos leitõeseste cobertor este cobertor vai custar a módica quantia de…
e a multidão em desordem emocional comprime-se para ficar o mais perto possível do mestre das vendas – é importante ver bem esse incrível cobertor que desafia os frios gélidos siberianos – e lá continuava com a ladainha sem anunciar o preço do cobertor – era assim que prendia a atenção dos romeiros

-- senhoras e senhores. meninas e meninos casadoiros. vejam só a qualidade deste cobertor de pura lã virgem – com este cobertor vindo diretamente das conceituadíssimas fábricas da serra da estrela. nunca mais terão que passar os vossos invernos enregelados – o frio acabou para sempre. e atenção senhoras e senhores!... para levarem este fantástico e único cobertor para vossa casa sim. vocês vão querer levar o cobertor para vossa casas. não vai pagar mil escudos. não vai pagar novecentos. não vai pagar oitocentos e seiscentos também não. vai pagar uma miserável nota de quinhentos escudos – por apenas quinhentos escudos terá no seu inverno o insuportável calor deste mês de agosto. será como se vivessem na ilha selvagem das caraíbas. como se cobrissem com um casaco de vison – uma pechincha e mesmo que viva mais duzentos anos. nunca mais terá a oportunidade de comprar um cobertor com esta qualidade a este miserável preço de uma nota de quinhentos paus
e sem deixar esmorecer o desassossego numa multidão que não parava de aumentar. de se empurrar. o mestre das vendas entusiasmado com a exaltação dos romeiros não parava de pinchar de um lado para o outro. de gesticular. como se os braços a todo o momento se desprendessem do corpo – já pouco espaço restava à sua volta. tinha captado. definitivamente. a atenção dos romeiros – este homem andava e pulava quilómetros em cima da sua caminheta. ninguém ficava indiferente à sua resistência física: as pernas. os braços. os olhos e a língua não paravam um minuto – vender era o seu sustento. dava tudo o que tinha e mesmo o que já não tinha. nada nem ninguém o desalentava e. se sentisse desânimo num ou outro possível comprador. a solução era falar-lhe olhos nos olhos – e ele fazia-o. arregalava os olhos de tal forma que era como se dissesse: está proibido de sair daqui sem levar o cobertor – o suor caia-lhe testa abaixo. a luta era corpo a corpo. romeiro a romeiro. cada cobertor vendido era um dia de sustento

-- e atenção caros senhoras e senhores. saibam que com o cobertor ainda levam uma faca de cozinha em aço inox mil e noventa e cinco. usada pelos famosos ninjas na china antiga. e aindae aindamais uma dúzia de copos em cristal da mongólia. e maishoje estou um mãos-abertase só porque estou aqui nesta lindíssima terra. e porque me sinto sentimentalquero que saibam que com este maravilhoso cobertorlevam esta fantástica faca. estes deslumbrantes copos. e ainda. e aindae aindamais um saca rolhas com um design singular do excêntrico magasin printemps parisiense – hoje é o vosso dia de sorte
e não sei quantas coisas mais pela módica quantia de quinhentos escudos – e o povinho romeiro ali de volta a babar. inquieto. a aconchegar-se o mais à frente possível. não fosse acabar a mercadoria – todos querem ser os primeiros a receber o cobertor da serra da estrela e todas as fantásticas quinquilharias pela insignificância de uma nota de quinhentos escudos – é um grande negócio. o propagandista ganha a vida e o romeiro leva para casa a ilusão de que fez o negócio da sua vida. e mesmo não necessitando de nada do que mercou. sente que foi uma pechincha de ocasião que nunca mais se voltará a repetir – todos felizes: o propagandista. o povinho e também o santo padroeiro. afinal de contas é mais um milagre debitado na sua contabilidade. acabando por subir uns pontos no ranking dos santos e. obviamente.  agradar a deus – ele sabe que ninguém gosta mais de milagres que o seu chefe – e quando anunciava o começo da distribuição dos produtos não se cansava de avisar. em voz ainda mais encorpada. de que o stock era limitado – a agitação era total. empurrões e mais empurrões e as notas de quinhentos no ar em acenos de agonia – era o black friday dos nossos dias

-- e mais um conjunto para aquele cavalheiro. e outro para esta menina casadoira e ainda mais outra para esta bonita família. e esta senhora quer dois cobertores e quem levar dois cobertores não leva uma faca. leva duas. não leva um saca-rolhas. mas sim dois
e o homem a desfazer-se em simpatia e as notas de quinhentos em pilha. pousadas num cobertor com um paralelepípedo em cima não fosse o vento se fanfarronar em democrata e dividir a fortuna pelos menos abastados – foi mais ou menos assim que chegou a democracia ao meu país. uns quantos políticos subiram para cima do palanque e começaram a vender-nos a banha da cobra gesticulando não só os braços mas também as idiotices – e o zé povo a viver um momento único e histórico. eufórico. inculto. impreparado e sem maldade para perceber que estava a lidar não com propagandistas. mas com charlatões – esta raça escabrosa de políticos camaleónicos não troca cobertores por notas de quinhentos. trocam votos por lugares numa casa que dizem ser da democracia e da vontade do povo – mas não. não é a casa do povo nem de coisa nenhuma.  é o esconderijo legalizado de um grupo de malfeitores que a coberto do voto democrático duvidoso sonegam o erário público com a maior hipocrisia e desfaçatez. tornando os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos e poderosos – é a toca onde duzentos e trinta bandidos. sem escrúpulos. ano após ano. nos atulha de mentiras e nos rouba a esperança – infelizmente ainda não inventaram uma nova ordem política mais competente e justa – temos que nos aguentar com estes malfazentes. temos que votar nos menos maus. nos que nos roubam com mais cuidado e vergonha – e o povo iludido na revolução gritava palavras de ordem como se também eles tivessem derrubado a ditadura – a nossa democracia acabou com mais de mil privilégios. mas depressa criou outros que por serem tantos ninguém consegue contar – o mundo das revoluções está repleto de contradições – uma sociedade livre é uma sociedade desigual. injusta e discriminatória – mais liberdade é igual a mais horror nas desigualdades – e é assim que aparecem os desarreigados. os inconformados. os que precisam de revoluções diárias para aceitar as suas contradições – a revolução de hoje retificará os erros da revolução de ontem – eu vivo numa revolução contínua. também eu retifico hoje os erros de ontem e. amanhã. noutra revolução. já sei que retificarei os de hoje – liberdade. fraternidade e igualdade são conceitos sustentados pela retórica política porque em boa verdade nenhuma destas palavras sobreviveria ao produto final das revoluções – mas como diz nelson mandela: não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos – é por isso que eu vivo num mundo de revoluções. o meu vale da morte é diário. e a luta para o ultrapassar é palavra de ordem – mas o importante é que mesmo nesta democracia imperfeita o meu país ficou mais justo depois da revolução de abril – o meu lamento vai apenas para o tipo de gentalha que tem comandado o destino desta fantástica nação de gente boa e bonita – na verdade. os políticos que nos venderam a democracia não foram nada diferentes dos propagandistas da minha adolescência. prometeram-nos um cobertor e não sei mais quantas coisas que depressa percebemos que não correspondia à verdade – mas quem for sério não pode nunca dizer que a sua vida não melhorou depois da revolução de abril. melhorou e muito – estou imensamente grato a todos aqueles que de uma maneira ou de outra contribuíram para que aquele movimento das forças armadas rompesse naquela madrugada de abril – confesso que ao fim destes anos todos sou ainda um resistente de abril. faço parte do povo unido jamais será vencido; da força. força. companheiro vasco. nós seremos a muralha de aço; do trabalho dá pão. repressão não; da terra a quem a trabalha; medo nunca mais; da paz. pão. habitação; e viva a liberdade e o MFA [movimento das forças armadas]– e eu a crescer com a velocidade dos cometas. feliz. como se as revoluções existissem para sempre. como se a adolescência se eternizasse em manifestações e reivindicações e o corpo nunca parasse de gritar: fascismo nunca mais – mas adelante adelante”. que a saudade também mata – amarro nas jeans e enfio-as até que nada sobre das pernas de abril. aperto o fecho e o botão numa correria. enfio a t-shirt do che. calço uns calcantes tipo charlie chaplin. viro-me para a porta no mundo que sustenta os astros e questiono-me: vais a correr ou levas o que te pesa pela mão? saio a correr. corro como se a revolução me perseguisse. olho o céu novamente. o azul já não é de liberdade e as nuvens ficaram mais nuvens – será que o mau tempo está por aí a chegar? talvez não seja má ideia resgatar o guarda-chuva do bengaleiro – volto atrás. contrariado. nas revoluções a chuva não molha. reabro a porta da minha única casa. olho para dentro à minha procura e não me vejo: o mais certo é ter ido para a concentração da CGTP [confederação geral dos trabalhadores portugueses] na avenida central – pego no guarda-chuva do 007 não vá a chuva trazer com ela um fascista tresloucado. na gabardina do detetive colombo. nunca se sabe se a PIDE [polícia internacional e de defesa do estado] ainda está operacional.  no chapéu e bengala do poirrot. a vida sorri sempre para quem usa a massa cinzenta. e por último. a lupa do holmes. envelhecer obriga-nos a ver tudo ao pormenor – e fui pelo mundo fora como se tivesse acabado de me tornar num revolucionário da LUAR [liga de unidade de acção popular] – passa por mim. em sentido contrário o zé povinho com um dinossauro político preso a um cordel. um pato bravo a fazer quá quá e um elefante branco num show de trapézio. equilibra-se numa só pata em cima de uma cigarra que não para de gemer. o peso um dia destes parte-lhe a coluna – atrás. em passo lento e de vara na mão. o destino a tocar tudo para o dia seguinte vai gritando: sem cultura não há liberdade – ninguém se mete com o destino. mas eu sou um revolucionário de abril e trago o che ao peito. sem medo disse-lhe: estás a caminhar para o lado errado. a cultura com liberdade é para o lado oposto – olhou-me com ar de poucos amigos. aproximou-se. sacou de uma faca de ponta e mola e encostou-ma ao pescoço. e numa voz rouca-intranquila. disse-me: cresce. vai-te foder – sorri e disse-lhe: outra vez!!!... – virei as costas. olhei para a t-shirt e pensei: sou mesmo um revolucionário não só de abril. mas de todos os meses – e segui rua abaixo cantarolando "hasta siempre comandante che. hasta sempre comandante che" – e lá foi o destino à sua vida e eu à minha – agostinho da silva dizia que a liberdade só existe quando todos os nossos actos concordam com todo o nosso pensamento – não minha vida os meus actos não concordaram com todo o meu pensamento. mas uma coisa sei. sempre escolhi o caminho que pisei e sempre em total liberdade – “hasta siempre”




30/09/2019

um dia










um dia serei apenas este que escreve. porque em boa verdade. neste mundo a que não pertenço. nada mais sou do que uma metáfora hiperbolizada – e aqueles. que por serem daqui. dizem que não sou o que as palavras dizem que sou. um dia. depois do sol cairdirão que afinal fui o que as palavras diziam – tudo o que realmente sou vive neste corpo estranho quem não sabe quem é. nem de onde é – morrerei feito palavra escrita. porque falar não sei e mesmo que soubesse quem me quereria ouvir? – talvez os peixes. talvez 




25/09/2019

vou ter saudades tuas










minha querida cunhada. não sei se me ouves aí no céu. mas se me ouvires. como quero acreditar. quero que saibas que vou ter muitas saudades tuas – nunca haveriam de existir estes dias de saudade no calendário. não sei quem os inventou. mas quem quer que tenha sido nunca teve uma cunhada como eu tive – tu sabes que nunca fui muito de lamechices. nem sei porque raio sou assim. gostava de não ser. mas fico sempre com a sensação de que quando gosto de alguém de verdade não preciso de muito espalhafato para lhe dizer: gosto de ti – eu sei que tu sabias que eu gostava de ti – mas hoje é diferente. hoje o calendário marca dor. viagem. saudade e preciso de todas as lamechices do mundo. preciso abraçar-te. beijar-te. olhar-te e dizer-te: gosto de ti. gosto de ti de como gosto do céu. do sol. do mar. das gaivotas. do silêncio das montanhas. sei lá que mais cunhadinha. gosto de ti daqui deste lugar que te perdeu até aí onde te escondeste – gosto de ti zeza. apetece-me dizer mil vezes gosto de ti. e mais mil que te adoro e que tenho muitas saudades tuas e que estou destroçado por me teres abandonado sem que me tenhas ouvido dizer: fica mais um bocadinho. só mais um dia. só mais um abraço – minha querida cunhadinha. o que faz um homem com esta saudade que nos magoa? se tivesse um carro com um motor potente. ou um foguetão. ou a varinha mágica do harry potter. quem sabe. metia-me no tempo em marcha atrás e debruçava-me outra vez nos teus braços. amarrava-te novamente essas mãos bonitas e obrigava-te a sorrir mais uma vez e depois. abraçávamo-nos numa despedida sem fim para que o tempo nunca mais andasse para a frente – vou trazer sempre comigo esse teu último abraço. vou segurá-lo dentro de mim. vou guardar esse bater magoado do coraçãovou amarrar-te a mim para sempre – desculpa zeza. não tive forças para te amarrar à vida – não me conformo que tudo tenha sido tão rápido – minha querida cunhada. foste tão corajosa. sempre que uma parte do corpo cedia lá inventavas tu uma desculpa para nos animares para logo de seguida te esconderes dentro de ti num silêncio fértil da consciência. alimentando de inocência essa alma ressentida e magoada de tantas interrogações e nenhuma resposta a não ser. adocicar essa dor que crescia sem parar com esses olhos de esperança – não vou deixar que partas assim. não te vou esquecer. quero lá saber dessa tua mania antiga de te ausentares do nosso mundo e depois. como se nada fosse. regressavas com um sorriso que ninguém levava a mal – desta vez não vai acontecer. vou-me encher de força e raiva e vou desviar o mundo para o lado melhor e falar-te. dizer-te que preciso de ti. de te ouvir. preciso dessa tua teimosia. preciso dessa forma como viravas as costas ao relógio. preciso desse teu jeito de me entrares pela porta a correr. preciso de ti tal como eras porque era isso que te fazia especial – agora só quero que a memória não ceda ao tempo e sempre que acordar vou querer acreditar que tu estás aí por perto. talvez a passear. talvez a comprar sapatos ou aquele creme para te tirar as rugas dos olhos e. quando perceber que afinal não estás onde os mortais estão. que a raiva me faça fechar os olhos e te traga ao meu mundo nem que seja por um minuto. ou um instante tão breve como um flash. mas que no clarão os teus olhos encontrem os meus e o que era escuridão é afinal o milagre da vida para além da morte – não quero saber nada dessa tua viagem. enquanto dormir tu existes porque a saudade só acontece quando estamos acordados – acordado ou a dormir vou dar-te a mão e vamos por essas ruas sem destino e. como o tempo deixou de ser tempo. talvez possamos apanhar o avião novamente para milão. visitamos a catedral. as galerias vittorio emanuele e depois. pela noite. voltamos ao mesmo cinema e assistimos ao mesmo filme e saímos a rir e vamos comer uma pizza quatro estações e falar do que só nós sabíamos falar. falar e rir. rir e falar. e dizer palermices. e rir. e dizer mais palermices. as crianças riem sempre da vida – tu cresceste criança – sempre que a saudade apertar vou-te telefonar e livra-te de não atenderes esse mamarracho. não venhas com aquelas tretas do costume de que deixaste o telemóvel não sei onde e que a cabeça está na lua e que não tens tempo para nada – sempre que a saudade apertar. doer e precisar de uma amiga vou buscar-te e sair contigo por esse nosso mundo fora. vamos ver o mar e prometo mostrar-te a liberdade das minhas gaivotas e depois. abrimos os braços e voamos até ao céu e quando o vento amainar e o sol cansar. sentamo-nos no areal. e ficamos em silêncio até a noite a chegar – o sol nunca morre. esconde-se para que possamos ver o brilho das estrelas – tu minha querida cunhada brilhavas como as estrelas – tenho a certeza de que quando estiveres devidamente instalada no céu e deres conta destas palermices que estou a escrever vais sorrir e achar que sou louco. e se calhar tens razão. e não é que não me tenhas dito isso tantas vezes. mas dizias sempre com tanta doçura e carinho que sempre achei que não era verdade – sempre achei que um dia destes íamos comer o gelado que te prometi e falar dessas nossas coisas excêntricas que só nós os dois sabíamos falar – éramos os dois loucos. loucos varridos. éramos amigos loucos – minha querida cunhada porque nos deixaste? porque raio não deste conta desse monstro que crescia dentro de ti – distraíste-te e agora quem paga somos nós que ficamos aqui a escolher a melhor foto. o melhor momento. a melhor conversa. a escolher a tua vida que queremos guardar para sempre – não foste justa comigo. não foste justa com as tuas irmãs que estão destroçadas. com a tua mãe que continua a dizer. e com toda a razão. que nenhuma mãe do mundo deveria perder um filho. para não falar na tua filha que agora vai ter que inventar mil desculpas por não te ter a seu lado naqueles momentos especiais – o que foste fazer minha querida cunhada – sinto tanto a tua falta. foram tantos anos de carinho. cumplicidade e amizade – a amizade de verdade é indescritível. não se explica. sabemos que aquela pessoa gosta de nós independentemente daquilo que realmente somos. faz-nos sentir bem. seguros e em paz – tu eras a minha amiga do coração – eramos amigos não porque um dia escolhi a tua irmã para viver comigo. éramos amigos porque olhamos um para o outro e percebemos que seria assim para sempre. ficamos amigos como se tivéssemos nascido na mesma rua. andado na mesma escola. jogado à corda. à macaca. sei lá o que mais minha querida amiga – sabes. sempre fui um otimista e também sempre achei que sabia ler o futuro. e não é que te imaginava com cem anos. encarquilhada. com mau feitio. a resmungar por tudo e por nada. em cima dos teus saltos altos. lábios bem pintados. cabelo esticado como só tu sabias fazer e a roupa com um aprumo que era capaz de jurar que a tinhas acabado de comprar – nunca te vi sem esses sapatos enormes que te punham na lua e tu nesse equilíbrio bem-parecido a caminhar como só as rainhas sabem caminhar – sempre caminhaste como se vivesses nas nuvens. como se fosses um anjo – primeiro foste uma boa menina. depois. envelheceste. mas nunca deixaste de ser uma boa menina. todas as pessoas boas são ingénuas. às vezes acho que essa ingenuidade era o teu jeito de nos dizeres que não querias ser como as outras pessoas. não tinhas os mesmos interesses. tinhas o teu mundo com as tuas cores – tu querias tudo simples. palavras simples. sorrisos simples e até o futuro que julgavas ser eterno o quiseste sempre simples – talvez já adivinhasses o teu destino – mas se o pressentiste nunca nos dissestes nada – vou ter saudades tuas minha querida cunhada. vou ter saudade de não ligares patavina aos telefones. vou ter saudades dessa teimosia que nasceu contigo como nos nascem os sinais na pele. vou ter saudades de todas as palavras que ao longo da vida me foste dizendo e que fizeram de mim aos teus olhos um ser tão bonito e especial – não era eu que era especial. eras tu. eras tu que vias o que mais ninguém via – vou ter saudade daquele abraço com que me recebeste naquele dia que entrei de rompante pela porta. tinham sido muitos meses sem nos vermos. correste e abraçaste-me de tal forma que nunca mais o esqueci – vou ter saudades minha querida cunhada de tanta coisa – como é possível a vida ser tão injusta. agora que tinhas encontrado o companheiro da tua vida. tinhas encontrado o homem que sabia fazer-te feliz. sabia que eras uma rainha – uma mulher não se faz rainha. nasce rainha – eu não sou crente. mas às vezes gostava de saber que estou errado. que quando partimos vamos para um lugar onde encontramos todos aqueles que gostamos e amamos – quem me dera zeza que esteja errado. se estiver. então. talvez encontres aí os meus pais e o nosso tio joão. talvez não estejas assim tão sozinha e se assim for. um dia destes. marcávamos aí um encontro para voltarmos a falar um pouco das nossas palermices – minha querida cunhada. quem é que agora me vai dizer essas coisas bonitas que só tu eras capaz de dizer – levo para sempre esse último abraço. choramos. apertamos as mãos e sorriste como se não estivesses a sofrer e enquanto eu me sentia perdido e arrasado tu viraste-te para a enfermeira e disseste-lhe: o meu cunhado é o sol da minha vida – meu deus zeza. e agora quem me dirá novamente uma coisa dessas – vou ter muitas saudades tuas. vou ter saudades desse teu brilho com que vivias a vida. vou ter saudades dessa luz que iluminava o caminho de quem vivia a teu lado – vou te guardar para sempre – por favor. toma conta de mim e dos nossos

pequenas grandes notas:

não seria justo não dizer que sou um homem orgulhoso da família a que pertença. a minha cunhada partiu sem que as suas irmãs a deixassem um único momento sozinha – do primeiro dia até ao seu último suspiro – nos últimos dias a zeza esteve sempre acompanhada pela família que a amava. despediu-se de todos com serenidade – um beijinho especial para a tia alcina e para a minha sobrinha renata que passaram as duas últimas noites em vigília ao lado da zeza – teresa e maria joão vocês deram sentido à minha frase: a família é um compromisso de afetos – é mesmo – continuo com uma cunhada fantástica e tenho a meu lado uma companheira maravilhosa que não me canso de amar

por último. um agradecimento especial ao seu companheiro que esteve sempre presente a seu lado – ele sabia que a zeza era a minha menina e terá a minha gratidão até ao fim dos meus dias – só tenho pena que não o tivesse conhecido trinta anos antes – mas a vida é o que é. e o importante é sabermos que o tempo na maior parte das vezes é uma ilusão – nessa contagem de tempo que os homens inventaram a  minha zeza foi muito feliz a seu lado – às vezes o tempo não é tudo – a minha cunhada levou o seu respeito. o seu afeto e o seu amor na sua viagem final – partiu em paz sabendo que foi a mulher de uma vida – desejo-lhe tudo que há de melhor para a sua vida – em mim terá sempre um amigo e mais do que isso. terá o meu respeito pela sua humanidade e honorabilidade – que mais pode um homem ter?





05/08/2019

eu. o max e o avião








toca hauser. toca sem parar e sem me questionar – desperto-me. abandono o instrumental da música clássica e recupero o mundo – estremunhado. aceito contrariado o meu regresso às coisas com espírito: há vida no céu. há um avião a voar nos meus ouvidos o barulho dos aviões. às vezes. confunde-se com a trovoada e fico sem saber se é jesus que está a ralhar comigo ou é apenas um avião perdido no céu – paro. escuto. acerto o ouvido com a janela. aparto o mundo que vejo para os lados e capturo definitivamente o som do avião. mas não a sua atenção – estou decididamente acordado para o mundo real. os seus decibéis resgataram-me ao mundo das possibilidades – gosto de sonhar. quando sonho acredito em coisas que acordado seriam impossíveis de acreditar – sempre que sonho sei que me torno numa possibilidade – tenho até uma leve intuição de que a todo o momento pode aterrar no meu escritório um avião – o avião voa mesmo. e não se riam: o avião voa no ar – gosto de aviões porque estão mais perto do céu do que eu – eu só vejo o céu à noite quando as estrelas o iluminam – será que há um aeroporto para lá das nuvens? será que os aviões andam no ar para levar os crentes para mais perto de deus? – quem sabe. um dia. um desses médiuns famosos que agora passam na tv. para aumentar o seu share. faz um acordo com deus para aparecer a acenar em cima de uma nuvem – não sei para onde vai este avião. ou mesmo se vai para algum lado. ou se anda às voltas para me irritar. a fazer círculos de barulho. a enrolar o som na minha vida sonhadora. a tentar questionar-me porque não olho para o céu. para as coisas que voam – o avião faz barulho. voa. voa como uma coisa que sabe voar. talvez pássaro. ou alma acabada de falecer. ou papelinho largado ao vento. ou disco voador. ou palavra vociferada por boca magoada – há coisas que foram feitas para voar – eu não sei voar. nem ouso pensar em voar. quer dizer. às vezes penso. mas o espaço no meu escritório é tão reduzido que na maior parte das vezes metade do que penso fica fora da janela e é quando dou conta que está tudo estatelado no meio da rua – por isso é que gosto de ser comedido nos pensamentos. não porque não queira pensar em altos voos. não. só não quero vê-los ignorados e espezinhados – já não tenho estômago para mais desgostos – confesso que estou alterado com o avião. aborreceu-me. roubou-me um daqueles sonhos raros e que só aparecem de tempos em tempos – e agora. que acordei para o mundo das impossibilidades. já não sou capaz de o recuperar – quando perdemos um sonho é para sempre. mistura-se com a realidade e desaparece no meio da multidão – por isso é que me irrito quando um avião me desperta com barulho que não vejo. ainda se fosse um automóvel de escape livre. ou uma bulha de vizinhos. era fácil. ia à janela e sempre lhes podia disparar uns quantos impropérios. agora um avião. lá nos confins do céu. por muito que berre ninguém me vai dar atenção – quando me altero fico confuso. perco-me de mim. irrito-me e vou às nuvens sem tirar os pés do chão – não gosto de pensar em voar. fico com medo do que o mundo pensa do que penso – prefiro a minha solidão em terra. quer dizer. eu nunca estou só. tenho o meu cão. o max – o max é um cão especial. sempre que trocamos olhares fico com a sensação de que posso voar naqueles olhos – mas não posso. nem eu. nem o max – não fomos feitos para voar senão tínhamos nascido com asas e não nascemos – aceitamos a nossa vocação terrestre com resignação e dignidade – creio que o max até aceitou primeiro do que eu. rapidamente o senti conformado com a vida que lhe tocou – para lá dos anjos nos livros da catequese nunca vi ninguém com asas. mas conheço muita gente que voa sem asas – não me peçam para explicar como voam que não sei – eu sempre que tentei voar estatelei-me ao cumprido – não tenho jeito para as alturas – ainda bem que a minha mortalidade não tem lugar marcado no céu. mas sei que um dia voarei em pó – e aqui estou eu com o barulho do avião. que tal como os comboios no seu trabalhar nos diz: pouca terra. pouca terra. o avião. porque anda no ar. diz-nos: porque não voas. porque não voas – e a resposta é fácil: não voo porque não tenho asas e mesmo que tivesse estou convencido que não voaria. seria como a avestruz que apesar de ter asas não tira os pés do chão – para vos falar verdade até creio que tenho um pouco do DNA de avestruz. não por não voar. mas por meter a cabeça num buraco e achar que estou escondido do mundo – o buraco é a minha casa que me guarda de todas as dores. e é aqui que me encontro comigo. estendo as mãos e olho para o meu céu: um candeeiro com quatro lâmpadas de casquilho fino e um teclado iluminado com letras aos saltos. como passarinhos no ninho a ensaiar o seu primeiro voo. e todos os sonhos de uma vida na ponta dos dedos – sinto que o max já está irritado com o barulho do avião. rosna. mostra os dentes e olha para mim como se estivesse a perguntar: não fazemos nada? para o acalmar rosno e mostro também os dentes – somos unha com carne e temos o mesmo lema dos mosqueteiros: um por todos. todos por um – resolvi dizer-lhe que um dia também iremos voar. compro dois bilhetes na TAP e voamos para faro. ida e volta. vamos de manhã e vimos à noite. sempre tive curiosidade de ver as estrelas de perto – as estrelas existem só para nos obrigarem a olhar para o céu – hoje não me apetece olhar para o céu. estou sentado na minha cadeira e ainda não comprei os bilhetes – tudo o que sou espelhado num aro de madeira sucupira clara. contorna a janela numa esquadria triste e ausente de liberdade – sem liberdade ninguém é capaz de sonhar ou voar – e o meu mundo a fugir por uma janela preenchida de impossibilidades. protege-se com uma persiana feita de buracos organizados. xis em xis centímetros uma entrada de luz estilizada – gosto de persianas furados com arte. com design. com criatividade e ao mesmo tempo. como se soubessem que o excesso de luz pode cegar. são também protetoras. controlam o caudal de luminosidade. deixam entrar apenas o necessário para alimentar a vida sem que se corra o risco de cegar – por isso é que gosto de persianas. se estamos deprimidos fechamo-la e temporariamente podemos morrer para o mundo numa solidão escura. e sem hora marcada para o regresso. e quando entendemos ressuscitar da morte silenciosa. abrimos a persiana aos poucos. num vagar sem presa. e a luz a tomar-nos a conta gotas. numa renovada claridade. purificada de todos os males do mundo. prometendo proteger-nos para sempre do inferno da vida – entrego-me à luz. primeiro um braço. depois outro. de seguida o tronco. as pernas e por último os olhos. quero ver tudo. que ver o que a luz ilumina. quero ver-me na renovada luz e deixo-me subir ao céu como se fosse um avião. e rio como se estivesse a ser carregado por anjos. e rezo como se fosse crente. e voo como se fosse pássaro. e abraço-me como se os braços estivessem carentes de um corpo. e vivo como se quisesse viver. e quando a noite chegar. sento-me numa estrela que desenhei num papel triste e fico a olhar para o que sobrou de mim. para o que me trouxe a esta paz. a cada pessoa que conheci. a cada flor que colhi e a cada gota de chuva que me molhou e adormeço como se estivesse a sonhar com gaivotas que voam no céu – tenho que deixar de ouvir o avião. se tivesse um canhão atirava-o abaixo e depois. aguentava com o que o mundo pensasse de mim – estou farto de o ouvir – revolvo-me na cadeira. irrito-me – para que estou eu aqui sentado se a minha vocação é voar – e a janela a pedir-me que voe como um avião – mas não. não voo e também não vivo num quadro de renoir a celebrar a beleza do mundo das flores. das mulheres bonitas. dos tons melódicos e das crianças de mãos dadas aos seus pais e eu no pincel do mestre a pedir-lhe para me pintar. para me misturar com as flores. com as crianças que correm como se voassem e o pincel do mestre a voar na tela como se fosse um avião no céu e a mistura das cores quentes. as crianças quentes. as flores quentes e as cores mescladas com arte a darem agosto quente. saudade quente e o poeta das cores a fazer voar o seu próprio tempo como se fosse um avião que voa sem barulho num céu que se pode apanhar com as mãos – meu deus. como gosto de agosto e de aviões – porque não pinto eu? por agosto e pelo renoir era capaz de voar mesmo sem asas – mas não. estou preso a uma janela em sicupira e tudo o que vejo são pedras no chão a revolver o céu. a guardar as sombras dos aviões que não vejo – mesmo assim gosto da minha janela. gosto da pouca esperança que guarda nos seus caixilhos. um dia vou ver os aviões – um dia a minha janela de sicupira vai voar como os aviões – sei – há noites em que o meu desejo é  apanhar uma estrela e trazê-la para o pé de mim. mas já percebi que não é possível. o problema nem é a distância porque às vezes do longe se faz perto. o problema é que as estrelas só brilham no céu – para que quero eu uma estrela que não brilhe? tal como escreveu nietzsche quanto mais nos elevamos. menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar a noite chegou. o pôr-do-sol morreu de vez. e tudo em que tocou morreu também. só o barulho do avião resiste à morte. sei que não morreu porque se continua a ouvir – os aviões confundem-se com as estrelas e estas confundem-se com olhos iluminados de tristeza – quando um homem está mal até as estrelas cintilam dor – só os aviões continuam no ar – as minhas coisas não voam como os pássaros. ou os aviões. ou mesmo as desilusões. ou palermices. ou anormalidades que a ciência ainda não arrolou – estou farto. é hora de voar como se pode – com coragem atiro o corpo aos pés e voo. voo de mim até ao chão e na ligeireza da queda a lembrança do alfaiate voador que se atirou da torre eiffel com a infinitude cega de que não importa o tempo de voo. importa mesmo é voar – eu voo da cadeira para o chão e do chão para a janela arrasto-me como se estivesse a voar – se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos pendurados numa janela... sou eu a voar 
hoje celebro o aniversário natalício de meu pai. antónio sampaio lopes. faria hoje noventa e seis anos e confesso-vos que tenho imensas saudades de lhe falar. de o beijar e de o abraçar – se fosse crente diria que um dia destes nos veríamos no paraíso. mas não sou. perdi a minha fé no dia em que o vi partir – mas não o perdi da memória




31/07/2019

bem sei










bem sei
bem sei que sou o que sou
e outra coisa não poderia ser
porque se fosse
deixaria de ser o que sou
de esquecer o que não posso esquecer
amar o que sempre amei

bem sei
bem sei que se fosse outra pessoa
não gostava de mim como sou
mas eu gosto
gosto pouco ou quase nada
e a diferença não sei explicar
o que sei
é que não me posso nausear
por não gostar de mim
como os outros gostam de si

bem sei
bem sei que quando gosto de mim
não é um gostar egocêntrico
gosto porque gosto das pessoas que gostam de mim
e são essas pessoas
que gostam de mim assim como sou
que me fazem sonhar
e talvez quem sabe…
um dia
gostar de mim como sou

bem sei
bem sei que sou o que sou
e outra coisa não poderia ser
mesmo sabendo que não gosto muito do que sou
não me importo
não é coisa danada
nem avaria complicada
não me aprecio
neste brio que não luze
mas gosto de estar comigo
de me falar
e depois
quando me enfado do que digo
e as palavras abrutecem
aborreço-me
e parto com o que sou
porque em boa verdade
já não quero saber para onde vou
e se no passado
me importava com o destino
agora
digo para aquilo que não gosto em mim:
que se lixe
e dou comigo a pensar
como é possível gostar de alguém assim

bem sei
bem sei que se eu pudesse gostar de mim
como os outros gostam de si
talvez não fosse como sou
seria outra coisa qualquer
que não esta
e se amanhã
por ser dia especial
eu pudesse gostar
do que sou
gostava sem favor
mesmo que tivesse que vender
os valores de ser quem sou
[que são poucos]
por não poder ser outra coisa

bem sei
bem sei que ninguém merece partir
sem gostar um pouco de si
sei lá
das mãos, dos abraços
ou da forma como anda ou fala
e se do corpo mais nada houver para louvar
que seja a alma a exaltar
e mesmo que a fala se cale
leia-se o que escreveu
e interroguem-se
se cada palavra significar um segundo
na vida deste mundo
então, viveu para lá de marte

bem sei
bem sei que tenho que gostar de mim
mesmo que me apeteça não gostar
não me posso renegar
porque quando me olho ao espelho
vejo o meu pai a dizer: gosto de ti
e é quando eu olho para mim
como se não pudesse olhar para mais ninguém
como se o mundo fosse…
só meu
e do espelho com o meu pai
que se fingiu de morto 
para me ver crescer assim como sou

bem sei
bem sei que o mundo não é o que penso
é o que sinto
e o que sinto é tão estranho
que prefiro não pensar
naquilo que sou quando sinto
não fosse eu um dia gostar do que sinto
naquilo que sou
e sou tão pouco
para gostar de mim de outra forma
que não esta que sou

bem sei
bem sei que todo o caminho
se confunde entre o certo e o errado
e se todas as incertezas
passassem a certezas
o que seria então do que sou…
não seria
e quando me olhasse ao espelho
o meu pai teria partido
seria então outro
que não este que me fez
ser o que sou

bem sei
bem sei que para ser o que sou
sempre a cabeça sonhou
e se marte fica ao pé de uma vírgula
a lua era o meu ponto final
e a culpa
era afinal de quem
do que sou
ou do que gostava de ser
nunca saberei
creio que a culpa é apenas
a culpa de ser quem sou
e se assim é
nada posso fazer
se me desfizesse desta culpa
deixaria de ser o que sou

bem sei
bem sei que sou o que sou
e mais nada serei
porque se não fosse este que sabeis
seria outro muito diferente
e quem sabe…
não gostaria eu de vocês
e diriam então:
coitado
antes o quero como o sampaio
não é grande coisa
mas é o que é
e quem assim é
a mais não é obrigado

bem sei
bem sei que nunca deixarei de ser quem sou
mesmo não gostando do que sou