.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

16/12/2019

até o ferro apodrece





imagem google




não sou do CHEGA – não sou de partido nenhum pois cansei-me de grupos organizados de políticos não sérios e mentirosos [com pequeníssimas excepções] – mas sou do tempo em que a UDP. de mário tomé. chegou ao parlamento e. nesse tempo novo para a recentíssima democracia portuguesa. lembro-me de me regozijar e celebrar a sua chegada à casa da democracia – mesmo não partilhando os valores daquela esquerda ou da terrífica extrema esquerda. quem não se lembra dos comunistas que matavam os velhinhos. acredito que foi o primeiro grande teste à pluralidade no parlamento depois do 25 de novembro – eu gosto de vozes discordantes – gosto de quem agita os consensos podres dos partidos da área do poder – gosto de gente que não tem medo de apontar o dedo. e talvez por isso. fique satisfeito com a eleição do grupo parlamentar numeroso do bloco de esquerda. do PAN e mais recentemente do CHEGA. LIVRE e INICIATIVA LIBERAL.  e para que não fiquem dúvidas. por cauda das más línguas. nunca votei no BE – nasci em ditadura. mas cresci em liberdade – amo a liberdade. sou e serei sempre um homem grato aos capitães de abril – foi essa liberdade dos cravos que me permitiu crescer como cidadão do mundo. um país livre não tem fronteiras. não tem muros. nem dogmas – um homem livre tem dentro de si um pensamento livre – por isso é que não posso admitir. ou tolerar. que um órgão de soberania. eleito em eleições totalmente livres. recupere tiques estalinistas ou fascistas – o sr. presidente da assembleia da républica. dr. eduardo ferro rodrigues. não tem o direito de se dirigir a um deputado eleito democraticamente pelo povo português. e digo novamente. em eleições livres e democráticas. naquele tom esdrúxulo. pantomineiro e desrespeitoso – a liberdade individual do deputado andré ventura. mas também a liberdade coletiva de todos os cidadãos portugueses representados naquela assembleia por força do seu voto livre. fui violentamente atacada nos valores conquistados de abril – a casa da liberdade não pode aceitar que deputados batam palmas a quem se esquece e não respeita o artigo 11 da constituição portuguesa:

Artigo 11.o - Liberdade de expressão e de informação
1. Qualquer pessoa tem direito à liberdade de expressão. Este direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber e de transmitir informações ou ideias, sem que possa haver ingerência de quaisquer poderes públicos e sem consideração de fronteiras.

foi uma vergonha sr. eduardo ferro rodrigues. foram vergonhosas as palmas dos senhores deputados – estou farto desta gente que vive da política. daqueles que se servem dela para melhorarem substancialmente a sua forma de viver. e. principalmente. daqueles que fazem da política um tacho coletivo onde tudo é permitido aos da sua cor e nada é consentido aos que estão na oposição – nunca vi o sr. presidente da assembleia da républica. dr. eduardo ferro rodrigues. indignar-se contra os abusos de poder do seu colega de partido eng.º josé sócrates. entre muitos outros que por falta de tempo e espaço me abstenho de enumerar – o voto é sagrado e a assembleia da républica o local certo para que os seus deputados. de todos os partidos. honrarem a constituição portuguesa. lei suprema do país. aceitando-a defender. respeitar e fazê-la cumprir. mesmo quando essa violação parte da segunda figura do estado português. com assento no conselho de estado. e que tresloucadamente. no decorrer do debate parlamentar. se permitiu a tão papel ridículo. só com paralelo quando se insurgiu contra o antigo presidente do sporting. dr. bruno de carvalho – o segundo cargo na républica requer elevação e recato – senhores deputados e deputadas do partido socialista. as vossas palmas foram uma vergonha. foram vergonhosas. confesso-vos que também senti vergonha por vós – os senhores deputados. têm o dever e obrigação de garantir e proteger a liberdade de expressão dentro e fora da assembleia da républica. a PIDE e a censura extinguiram-se na madrugada do 25 de abril. a liberdade nunca poderá ser partidária – é completamente indesculpável e intolerável que o sr. presidente eduardo ferro rodrigues se dirija ao deputado andré ventura com aqueles termos inapropriados e desrespeitosos de “então diga lá o que tem a dizer” – a palavra “vergonha” ou “é vergonhoso” não só não é ofensiva. ou mesmo vergonhosa. como na maior parte das vezes fica aquém na forma e no conteúdo do que os sucessivos governos do PS e PSD merecem ouvir – a governação destes partidos tem sido. ao longo da nossa democracia. uma vergonha ou vergonhosa – o sr. presidente da assembleia da républica recuperou os tiques de poder de antigos dirigentes do partido socialista. quem não se lembra dos tiques soaristas ou mais recentemente dos tiques socráticos – o sr. deputado eduardo ferro rodrigues representa a velha guarda de um partido que sempre teve dificuldade em aceitar todos aqueles que corajosamente foram capazes de denunciar os compadrios / corrupção existentes dentro do PS – basta recuar ao governo do eng. josé sócrates e lembrar todas as tentativas para manipular e silenciar a comunicação social – não me lembro de ver o dr. ferro rodrigues ou o PS indignados com as palavras com que o seu colega de partido atacava a dra. moura guedes ou o correio da manhã – mas nem precisámos de recuar tanto na história do partido que sentou o sr. deputado ferro rodrigues na cadeira da presidência da assembleia da républica. bastava que este ilustríssimo político se insurgisse contra o seu último presidente parlamentar. sua excelência dr. carlos césar conseguiu empregar toda a sua família em instituições do estado. e pasmem-se. até esteve quase a colocar um seu familiar numa comissão de socialistas para dinamizar os cemitérios de lisboa. ele e mais uns quantos seus correligionários – é obra dr. césar. isto sim é uma vergonha que nunca ouvi o militante socialista ferro rodrigues insurgir-se. indignar-se com mais esta vergonhosa matilha de delapidadores do erário público – diz-se por aí. pelos corredores da assembleia da républica também. que a figura de sua excelência dr. eduardo ferro rodrigues substitui aqueles famosos três sábios macaquinhos japoneses que tapa os olhos. a boca e os ouvidos sempre que se trata de recriminar o seu partido empregador – mas desta gente dos partidos já pouco ou nada espero. da direita à esquerda – o que me incomoda é o quase silêncio dos srs. jornalistas. dos opinadores da política. dos comentaristas. dos analistas e dos colunistas. sim. esta ilustríssima gente também vive da política. também são conhecidos por causa da política. também aparecem nas televisões pela mão da política e também são estimados pelos políticos sempre que necessitam deles para difundirem as suas doutrinas – assim sendo. deveriam ser estes senhores os primeiros a barricarem-se contra a tentativa de manipulação da liberdade de expressão. deveriam ser os primeiros a cerrar fileiras contra qualquer tentativa de desvirtuar ou condicionar um deputado na sua oratória política. mesmo que esse deputado seja da extrema direita ou extrema esquerda. mas eleito em democracia – afinal também vivem da palavra livre ou será que a vossa liberdade é igual à do sr. presidente da assembleia da républica… tem cor




13/12/2019

eu. os pés e a cabeça






pintura - rené magritte





ninguém sabe exatamente o que sou – às vezes sou uma coisa sem pés nem cabeça. outras vezes. tenho uma cabeça que não me leva a lado nenhum. e nos dias em que a cabeça sabe para onde ir. faltam-me os pés. por isso fico onde estou – quando me aborreço de ser uma coisa sem pés. nem cabeça. sou o que encontro à mão: sorrio. canto. danço. leio os astros. deito cartas do tarot. faço serenatas à lua e. nas noites de lua cheia. uivo e suplico aos morcegos para me purgarem o sangue do sofrimento – gostava de ser um transmorfo e. quem sabe. transformar-me numa dessas criaturas que não tem alma e se alimentam dos espíritos desassossegados. mas não sou coisa nenhuma para além de não saber o que sou – talvez por isso. por não me transformar em coisa nenhuma. os “outros” entendem que sabem tudo do que sou – que palermice – esquecessem-se eles do que são e. sem se aperceberem. transformam-se no que não é bom – desses “outros” nada sei.  às vezes acredito que são como são porque. infelizmente. nada podem fazer para não serem assim como são. mas confesso. não são como eu gostaria que fossem – reconheço que não sei nada de ninguém. houve tempos em que também acredita que sabia quase tudo do mundo e dos “outros”. agora. com o tempo a esgotar-se. percebo que quanto mais envelheço menos sei do mundo. dos “outros” e também de mim – não sei nada de nada e mesmo que pudesse saber não queria. perceber o pouco que sei de mim já é coisa séria e complicada – sou um ignorante ingénuo. um analfabeto que sabe ler e escrever e que. com o tempo a gastar os minutos. atrás de minutos. reconheço. agora. que apenas o que faço com o meu destino me preocupa – todos temos uma missão a cumprir nesta passagem efémera pela vida. tristemente e quase em agonia. eu ainda procuro a minha – quando os “outros” creem que sou o que não sou. olho para o céu. abano a cabeça. rezo um anjo da guarda. invoco os meus santos protetores. são três: o velho s. judas tadeu que controla tudo que são causas difíceis; stª bárbara porque sempre tive medo das trovoadas; e stº estevão que em miúdo fez o milagre de me tirar uma dor de dentes e. porque quero muito acreditar nesta fé invisível. a troco de umas quantas orações. suplico-lhes que me aligeirem a carga dessa gente que me pesa – mas quando essa malta me aborrece mesmo muito. e não quero maçar os meus benfeitores. saco da flauta mágica e disfarço-me de hamelin. e tudo que rasteja levo para desaparecer e o que é exasperação deixa de ser – estou demasiadamente ocupado com esta nova certeza de que estou mesmo a envelhecer.  não posso. não quero e nem necessito de me aborrecer com o que não me pertence – de seguida invoco o destino e renovo-lhe a minha lealdade ao caminho traçado: sou o que sou e assim será até ao seu final – por mais volta que deem à balança ela tombará sempre para o meu lado. tranquilamente e em serenidade – no entanto. nem sempre estou no mesmo lado do equilíbrio. às vezes estou do lado da razão. outras da emoção. mas na maior parte das vezes. estou no outro lado de mim. no escuro. no silêncio. onde o medo acontece e os pecados se espiam – só eu sei onde centro a coerência. sendo eu um homem com valores renascentista recordo leonardo da vinci num dos seus muitos pensamentos: “é preciso deixar a sua marca na história. fosse em que campo da existência fosse” – é neste caminho. que é só meu. que tudo faço para me tornar mais indulgente. tolerante e condescendente com o que os “outros” pensam que sabem de mim – continuo a ser como sou. continuo à procura do melhor em mim e para mim. contínuo à procura de fazer o que ainda não consegui fazer. encontrar a minha marca para a minha história. para o meu bem-estar. que bem pode não ser o vosso – termino com duas anotações de leonardo da vinci


“Posso sorrir, e matar enquanto sorrio,
E proclamar-me feliz com o que me aflige o coração,
Molhar as minhas faces com lágrimas fingidas
E acomodar a minha cara a todas as ocasiões...
Posso acrescentar cores ao camaleão,
Mudar de forma mais depressa que Proteu
E mandar para a escola o sanguinário Maquiavel!”

                              //

“Vede aqueles que podem ser chamados
Simples condutores de comida,
Produtores de estrume, enchedores de latrinas,
Pois deles nada mais se vê no mundo
Nem qualquer virtude se observa no seu trabalho,
Nada deles restando além de latrinas cheias”





27/11/2019

chegará o dia









chegará o dia em que direi:
que se foda a respiração
e todo este corpo
que mais não é
do que carne alimentada por dois pulmões
que respira mortalidade
ou vida estúpida
ou fuga à morte
ou outra coisa qualquer
que nos mantém ligados às ruas
aos sinais de trânsito
aos mercados com as suas vendedoras
às gaivotas tontas que agora aparecem na minha cidade
como se um mar se guardasse num charco
e ao pequeno almoço que é quando começa o dia
e o corpo curvasse ao café expresso com fé
que a sua cafeína seja a força motriz
para levantar voo até saturno
mas se não houver espaço
estrelas ou cometas
que as borras do café se transformem em raiva
para levantar o mundo
que tenho dentro de mim





20/11/2019

eu. os peixes e o cloro











em dezembro de 2010 resolvi trazer para casa um aquário e cinco peixes miscigenados na raça e na cor – instalei a caixa de vidro num local aconchegado e protegido das correntes de ar. forrei o fundo com joguinhas brancas. encalhei uma nau naufragada do tempo do vasco da gama. plantei umas algas verdes fofinhas para que os guelras pudessem jogar ao esconde esconde. encrostei uma ânfora que borbulha bolhinhas de oxigénio e. mais uns quantos bisegres para que o fundo da caixa reproduzisse. dentro das inúmeras limitações. o fundo do oceano – depois de tudo devidamente preparado e ornamentado inundei a caixa de vidro com água da companhia – delicadamente. abri a saca de plástico transparente. que me permitiu transportar os guelras da loja até casa e. um a um. com delicadeza. operei o transbordo para o meu oceano pacífico privado – e ali fiquei a apreciar os meus novos animais de estimação. quer dizer. os meus novos guelras de estimação e. rapidamente percebi. de que os peixes e as crianças têm uma característica em comum. só precisam de liberdade para serem felizes – ali estava eu parado. também imerso em prazer. a degustar o meu novo e excêntrico “affair” hídrico. suplementado com uma convicção firme de que tinha acertado no escolhimento dos novos inquilinos para o meu exótico aquário – os guelras estavam felizes e confiantes no seu novo habitat. estavam enérgicos. corriam como loucos. davam piruetas com curvas e contracurvas. faziam bolhinhas pela boca e as barbatanas não paravam de bater. mais parecia o voo das andorinhas a anunciar a primavera. tal era a velocidade e alegria com que se moviam de um lado para o outro – estávamos todos felizes. eu. os peixes e o max. que ao meu lado. intrigado com a singularidade dos feitios e cores dos novos amigos. não parava de abanar a cauda – estava tudo a correr dentro da normalidade perspetivada pela vendedora. especialista em animais de todas as espécies. quando me apercebi que algo estranho estava a acontecer. os guelras estavam tremulosos e. os olhos esbugalhados não paravam de piscar – esta altercação não estava prevista no manual de boas práticas de manuseamento e bem-estar de peixes ornamentais – entrei em pânico. não sabia nada da anatomia de peixes. em toda a minha vida só com cães tinha partilhado afetos. não fazia a menor ideia de como se tratava um peixe e muito menos avaliar a gravidade dos seus sintomas – será que estavam todos a ter um AVC por intoxicação da água? ou seriam apenas pequenos espasmos nervosos de adaptação ao seu novo lar? o que me desassossega. é que para o bem e para o mal. sou eu o único responsável pelo seu bem-estar – estamos numa época em que não se pode facilitar com os cuidados aos animais. ainda me culpam de maus tratos e quem sabe. acabo em tribunal acusado de negligência – e pior. estou sujeito a que a qualquer momento me toque a campainha e me apareça à porta a CMTV acompanhada pelo PAN [partida das pessoas. dos animais e da natureza]– comecei à procura do que poderia estar a causar aquele pisca pisca e pensei: será que os peixes estão nauseados com o cloro da água da companhia? é bem possível. a água ultimamente não tem andado grande coisa – se fossem humanos. percebíamos com facilidade se o problema recaía sobre a má qualidade da água. reviravam os olhos. esfregavam-nos e logo concluíamos que a maleita passaria com umas gotas oftalmológicas – mas a verdade é que os guelras não tem mãos e as barbatanas são curtas. creio que nem esticadas chegam aos olhos. que chatice. nem uma comichãozinha podem ter – deus lá teve as suas razões para que na sua infinitude sabedoria não lhes desse mãos – mas a verdade. é que se lhes tivesse implantado umas mãozinhas. tinha-me aligeirado a resolução do problema. misturava na água umas gotinhas para a conjuntivite e logo via se o pisca pisca diminuía – vá-se lá entender deus e os peixes – mas o melhor é meter a viola ao saco e calar-me. não vá o todo o poderoso aborrecer-se com este meu palavreado e ainda lhes desarranja os intestinos – já deveria saber há muito que os desígnios de deus são insondáveis e nunca questionáveis – começo a ficar preocupado. sinto que o pisca pisca está mais intenso e também os sinto mais paraditos – pudessem ao menos chorar para eu perceber a gravidade do piscar do olhos – mas como se veria uma lágrima no meio de um oceano? os peixes são uma dor de cabeça – pensando bem. talvez nesta coisa das lágrimas a minha preocupação seja uma tolice. os peixes não choram não por não terem lágrimas. mas porque não tem sentimentos – a verdade é que também conheço muitos humanos assim. sem lágrimas e sem sentimentos e não vivem no meio do oceano – quem sabe se deus quando criou o mundo animal tenha concebido os peixes propositadamente assim. diferentes de todos os outros animais – talvez quisesse um animal que não fosse bem animal. distinto de tudo o que tinha criado até ao momento. distante dos homens. escamado. com guelras para sobreviver escondido na água. frio. sem sorrisos. com mau feitio e indiferente a tudo que existe fora do mundo aquático – e por mais tentativas do homem para influenciar o seu modo de viver. domesticar. ou até mantê-los em cativeiro. a resposta seria sempre um desapego silencioso por tudo o que o rodeia. sem emoções. sem latidos ou abanares da cauda. sem rosnar. sem miar. sem asas e sem sonhos – tudo o que este animal marítimo traz ao mundo dos humanos é um alheamento sincronizado do movimento das barbatanas com o abrir e fechar das guelras. abana o rabo e pisca os olhos para assinalar a marcha pela profundeza dos oceanos – deus substituiu-lhes então as mãos por guelras para que não pudessem abraçar. de seguida. tirou-lhe a voz para que não pudessem dizer: gosto de ti e ainda insatisfeito. trocou os pulmões por guelras para que não pudessem arfar quando se apaixonassem – por fim. meteu-os nos oceanos e mandou-os multiplicarem-se. dizendo-lhes: vocês serão o maior desafio para a humanidade – os homens nunca compreenderão a vossa indiferença. nem tão pouco aceitarão a forma como vos amais – e assim se fez a vida dos peixes desde a criação do mundo até à compra do meu aquário – a vida dos animais com guelras é realmente muito complicada e insípida – foi quando pensei como a criação do homem foi especial. como é bom dizer a alguém gosto de ti. abraçar e sentir o calor da retribuição. o carinho de um abraço. um sorriso. uma palavra ou uma lágrima – deus fez um grande trabalho – enquanto me inebriava com as correrias dos guelras. sentado a meu lado o meu cão seguia atentamente as acrobacias dos seus novos camaradas com espanto. percebi no seu olhar que estava feliz. não sei se por achar que teria ganho mais cinco companheiros. ou apenas porque estava solidário com a minha alegria – a vida só tem sentido quando não desistimos dos afetos. mesmo quando esses afetos são difíceis de alcançar. como com os peixes – encostei a minha cara ao aquário e com um sorriso de quem gosta de fazer novos amigos apresentei-me: sou o sampaio. muito gosto. sou o vosso encarregado de bem-estar. espero que se sintam confortáveis na vossa casa. que também é a minha – fiquei à espera de uma resposta emocional. um olá. uma cambalhota com um mortal à retaguarda. um borrifo de água. mas nada – foi quando fui levemente surpreendido. depois da apresentação fiquei com a ideia de que já não piscavam os olhos e. estava para jurar. que até sorriam – fiquei em paz e resolvi não mais questionar ou mudar o que deus fez – olhei novamente e decidi batizá-los. escrevi o texto: aquário

sampaio rego 20 de novembro de 2019

aquário
os meus olhos encheram-se de peixes – eugénio. amarelo. explícito na sensibilidade – camões. nos olhos a sua marca – excêntrico. chama-se dali. são cores – torga. veste-se de negro. talvez saiba da morte – pessoa. sempre ele. um vira casacas. à noite caeiro – eu sou aquário de ascendente [hoje]. mas só depois de carneiro

sampaio rego 20 de dezembro de 2010



11/11/2019

serei o quê?










um dia serei o quê?
um abraço
uma voz
um amigo
um inimigo
um viajante
um bobo
um escritor
um poema
um caminho
uma forma de andar

um dia serei o quê nesses vossos olhos?
um sopro
um lenço de mão
uma palavra
um beijo
uma forma de rir
uma lágrima.
uma fotografia
um momento
um sol
um dia que se cruzou numa rua

um dia serei o quê nessa vossa boca?
uma oração
um pecador
um sedutor
uma flor
um gesto
uma fé
um sorriso
um teimoso
um sonhador
um carro de velocidade


um dia serei o quê nessa vossa recordação?
um arrependimento
um azar
um desastre
um amor
uma paixão
um pai encantado
um filho extremado
um marido apaixonado
um avô história
uma saudade que não passa

um dia serei o quê?
serei o quê nessa vossa vida?
serei para vós o mesmo quando o inferno me pungir a alma?
serei para vós o mesmo quando o céu me postular não o que vós pensais. mas o que as mãos carregam?
serei adeus ou serei goodbye
serei lágrima ou serei silêncio
serei saudade ou serei vai com deus
serei cerimónia fúnebre ou serei cerimónia de conciliação
tudo o que sou será pertença de um único dia: o dia do juízo final
e então… nesse dia estúpido
serei o quê nesses vossos olhos?
serei o quê nessa vossa boca?
serei o quê nessa vossa memória?
alguma coisa sei que serei
porque ser nada
seria castigo que não mereço



07/11/2019

teatro









[dedicado a júlio saraiva poeta e jornalista já falecido]



sou teatro…
parei agora para pensar um pouco
sossegar-me destas aflições
vocês compreendem…
não é fácil representar toda a vida.

nesta pausa
posso ser quem sou
inclino-me,
seguro a cabeça com as mãos
fecho os olhos
e vestido a preceito desde a última cena
viajo até à nascente,
lá… onde vivem as fadas.

neste encontro,
não preciso do ponto
nem do contraponto
e nas luzes da ribalta
surgem sonhos infrangíveis
neste pensar, encontro-me
em palcos dourados,
tribunas,
plateias,
camarotes,
frisas e palmas

é o teatro gigante
e eu tão pequeno
tudo esgotado,
tudo de pé
chamam-me os aplausos
em coro,
acenam cachoeiras de flores
que eclodem aos meus pés.
é a primavera
pensava eu.
                                                                                                                                  
mas os olhos ainda raíam
deste descer à verdade.
rompem as pancadas de molière
o contrarregra vai subir o pano
também eu subo à vida

acabou o teatro.


no dia em que postei o teatro no luso poemas. agosto de 2009. recebi uma mensagem privada do poeta e jornalista júlio saraiva que. amavelmente. fez questão de me dizer que tinha apreciado imensamente o poema e. na sua simplicidade. pediu-me autorização para o levar para o seu blogue – nem queria acreditar que o júlio saraiva se tinha dado ao trabalho de me escrever. que me elogiasse e quisesse divulgar o poema na sua página – é a primeira vez que torno público este episódio. confesso que fiquei um pouco envergonhado e pensei: e agora o que vai ser de mim. como vou manter o nível. que dirá o júlio quando ler o meu próximo poema – admito que nunca me senti nem confortável. nem feliz com a poesia. só a prosa me enredava o tempo com alegria – entrei em pânico e achei que o melhor para a minha poesia seria silenciar-me. quanto menos pessoas soubessem deste episódio melhor – não sei se alguma vez o postou. confesso que não sou muito bom a tomar conta da vida dos outros. mas também não é importante. valorizo mais o impulso. valorizo mais a verdade do momento. e esta é sempre mais apreciada quando emerge na espontaneidade – uns tempos depois faleceu e nunca tive oportunidade de lhe agradecer aquele gesto. principalmente. nunca tive oportunidade de lhe dizer como aquela mensagem. naquele momento. me ajudou a renovar a vontade de escrever – o luso era um espaço pequeno para tanto ego gigante. sobrava a vaidade. a arrogância. a falta de humildade e. principalmente. o bom senso e a tolerância – reconheço que havia colegas intragáveis. com mau carácter. monstrinhos egocêntricos que projetavam uma grandeza que em boa verdade não tinham – ser grande entre os pequenos não os tornavam especiais – não era fácil lidar com esse lado negro dos poetas –   mas bem lá no fundo confesso que aprendi muito com os meus camaradas do luso e a todos estou agradecido – depois. tal como os mágicos fazem magia. o júlio também fez acontecer um momento excecional para mim – durante um tempo esqueci tudo o que era mau – a modéstia chega sempre mais depressa por quem não precisa de se por em bicos de pés para ganhar altura. já são grandes e ponto – que nunca lhe falte nada esteja ele onde estiver. mas se faltar. que não seja papel. lápis e… amigos. para que. em companhia. beba o seu “choupinho”



31/10/2019

manuel de barros









Retrato do artista quando coisa


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.



22/10/2019

eu. a dama e a celulite





foto google





em contramão. uma dama rebuliça e enérgica dirige-se para mim – acerto-lhe com os olhos e interrogo-me: será que vou ter problemas. a esta velocidade vai-se-me enfaixar no pescoço – cabelo loiro oxigenado. levantado à frente. face redonda e rosada. não sei se é cor natural ou está apenas afogueada da velocidade que imprime ao andamento. uma pochete louis vitton contrafacionada num bairro chinês de pequim. acompanha o movimento das pernas numa desordem perigosa. ainda vai dar com o adereço na cabeça de algum transeunte – botas douradas. furadas com estilização. sobem-lhe pela perna com ganas de chegar o mais longe possível – dois dedos acima de uma rótula rombuda e três abaixo da cintura uma pequena mini saia branca vestida com desprezo. a fazer sobressair uma cicatriz mal-arrumada no umbigo. mascarada de importância com piercings-diamante falso de quinze quilates – confesso que fiquei com a ideia de que a saia era apenas um adorno para desviar as atenções do umbigo – olhos redondos. claros. a contrastar com uma pintura excêntrica. um negro que não era luto. balançava o corpo numa agitação perigosa para os dois enormes seios amarrotados pela licra preta de uma camisola de alças – confesso que por momentos entrei em pânico. a aproximação apresentava-se desatenta. descuidada e desnorteada e decididamente em excesso de velocidade – tinha que evitar a todo custo o embate – já não tenho condições para choques com viaturas de transporte de matérias perigosas – cerrei os dentes e preparei-me para a fusão dos corpos – quando pensei que o embate era inevitável a dama num movimento de toureio atira com as ancas para um lado e sai com o tronco pelo outro – foi tudo tão rápido que comecei à procura da bandarilha espetada no corpo – felizmente tudo não passou de excitação – olhei para trás e ainda não recuperado percebi que a minha alucinação se deveu a uma mini saia comprada nas galerias lafayette de paris. encandeou-me. cegou-me. roubou-me o norte e mesmo numa excitante desordem mental. percebi rapidamente que me tinha perdido nos adereços. a testosterona invadiu-me os neurónios. começou a descer-me pelas vértebras. comecei a suar em bica e quando dei conta estava com a dama em pecado. em pensamento. mesmo à minha frente – era muita mulher para mim. era muita curva e contracurva. era um pecado quase mortal. deus e a minha companheira nunca me perdoariam um pecado com esta dimensão – desorientado. fiquei sem saber se seria melhor atirar-me para uma valeta ou aceitar o embate como inevitável e preparar-me para as consequências – era impossível ficar indiferente às propriedades naturais [penso eu] desta excêntrica dama – deitei os olhos ao chão. arrependi-me. voltei a olhar. deitei novamente os olhos ao chão. voltei a arrepender-me. voltei com os olhos para o chão. e é quando surpreendentemente a dama dirige-me a palavra: estás a olhar para onde – surpreendido. envergonhado e embaraçado respondi: estava a olhar para a celulite. isso não está nada bem e não condiz com a mini saia – e assim. numa manhã de quarta-feira nos cruzamos numa eternidade de tempo: eu tão cedo não vou esquecer esta dama e a dama vai comprar todas os cremes anti celulite que existirem no planeta e arredores – ninguém se transforma naquilo que não é





chico buarque










11/10/2019

fósforo









escrevo. escrevo e existo para logo de seguida desaparecer como desaparece o fósforo em combustão – a palavra é um amor repentino com uma única chama intensa – depois. como se tudo não passasse de um caso. tudo morre com a leitura – no chão. como que a dizer que afinal a palavra é efémera. o pauzinho carbonizado aduba a terra. onde um dia. quem sabe. nasce uma flor qualquer – paz ao escritor 





07/10/2019

talvez












talvez esteja louco. mas às vezes acredito que estou onde nunca consigo chegar – se não estou louco. então. sou a vontade de um deus. ou de um génio. ou uma peça de um xadrez estranho. ou até quem sabe. um caminho tortuoso para chegar a um lugar que ainda não existe. ou sou outra qualquer coisa insignificante que por não ter valor se encontra postado no chão da feira da ladra – se eu soubesse que isto terminaria assim. talvez tivesse amado uma boneca de porcelana para não ter que me envergonhar. para não ter que encontrar nenhuma palavra que me isentasse de ter nascido assim. louco – mas se nasci louco como penso. porque raio continuo a gostar de mim quando procuro chegar ao que nunca alcanço – não sei. se soubesse possivelmente era dono de uma torre de babel. um cavalo de corrida. dezassete gaivotas e uma cama que me aceitasse quando sonho





03/10/2019

eu. o che e a revolução









com o sol de volta renasce a manhã – ergo-me das trevas. espreguiço-me. chego-me à janela. olho o céu como quem quer medir a distância entre a terra e os milagres. sorrioe por ali fico a existir sem querer saber nada do que dizem os astros para o dia de hoje – apetece-me unicamente viver. aceitar o destino e inspirar o mundo – adoro estas manhãs em que olho para o futuro sem me preocupar com o destino e. tal como disse nelson mandela. “Seja qual for o Deus, eu sou mestre do meu destino e capitão da minha alma.” – hoje. também eu me sinto mestre e capitão da minha alma – a imensidão do céu azul liberdade de tomie ohtake disputa a luz com o castanho infantil dos meus olhos. atrás de mim a juventude e a cama por fazer. para a frente. o que me sobrou dos sonhos revolucionários e o fim das camas por fazer – a linha do horizonte é sempre ténue e dolorosa para quem acaba de acordar para o erro. para o sacrifício. para a resiliência e para o combate diário corpo a corpo. não fosse eu um sobrevivente da revolução de abril – olho o fim do mundo que os meus olhos alcançam e digo para mim que estou a acordar: se o mundo é assim tão enorme como dizem. porque será que me sinto sempre tão apertado. tão acanhado. a sufocar. como se o céu a todo o momento me pudesse cair em cima da cabeça – agora percebo bem o medo do obelix. também ele andava sempre apavorado quele ciel lui tombe sur la tête – não nasci nem vivo em gália e também sinto que o céu me pode cair a todo o momento sobre a cabeça – sorrio num jeito de deixa para lá. hoje não me quero aborrecer. afinal o dia até está bonito – sei e sinto que mereço este dia – para me despedir deste céu que me guarda o infinito. espreguiço-me até tocar com as pontas dos dedos nas paredes do mundo e parto em direção ao polibã a cantarolar grândola vila morena. do nosso amado zeca afonso – atiro-me para debaixo da água muy caliente”. digo uma dúzia de palavrões e reafirmo: fascismo nunca mais.  o povo é quem mais ordena – eu faço parte do povo – lavo-me dos pesadelos da noite e prometo a mim mesmo enfrentar o meu destino com briga. é melhor morrer pelo fogo. em combate. a morrer em casa. pela fome[fidel castro] – enrolo-me num toalhão estampado com um cravo vermelho de abril. dou duas lufadas de bafo quente para o espelho e desapareço – às vezes não me suporto. mas não é o caso de hoje – limpo-o com a ponta da toalha e dou comigo a brilhar. a sorrir e com a barba aos saltos de um lado para o outro – é a minha barba revolucionária da manhã. um pelo virado para a esquerda e outro para a anarquia – um homem lavado é sempre bonito – sinto-me enorme. poderoso e pergunto-me: será que é hoje o dia certo para vestir a t-shirt do che guevara – penso duas vezes. olho para mim novamente e. tudo como dantes: sorridente. barbudo. enorme e poderoso – com convicção digo para o gajo do espelho: é hoje que vais vestir o raio da t-shirt – sei muito bem o que vale uma revolução. já vivi as suas falsidades. contradições e ilusões – a democracia chegou à minha adolescência exatamente como chegavam os propagandistas às romarias: carregados de quinquilharias para vender ao preço da uva mijona eram os famosíssimos vendedores da banha da cobra e na verdade. tudo o que impingiam. era muito mais do que produtos de baixa qualidade. era magia.  era o ressurgimento do milagre da multiplicação no mundo contemporâneo. era a troca de uma nota por um saco a abarrotar de coisa nenhuma - tal como os políticos - a ladainha era sempre a mesma. com uma voz firme e uma oratória previamente treinada. enérgica e objectiva. tomava conta da vontade do cliente que ficava como a serpente do encantador: estacado e encantado. a sua única motivação era deitar a mão às pechinchas – estes homens subiam para cima das suas caminhetas. levantavam o tolde de lona e logo apareciam umas quantas “rumas” de cobertores. bem empilhados. com as cores organizadas num degradê harmonioso e mais outros mil e tantos produtos que ninguém sabia para o que serviam – ajustavam à boca um micro preso ao peito. protegiam-no com um lenço de mão para absorver os perdigotos. davam três pancadinhas e começavam os testes: um dois três. um dois três. um dois três quatro cinco seis mil cobertores vendidos. e logo de seguida. para não perder nenhum romeiro. numa voz poderosa a imitar os primeiros locutores da rádio. começava a propagandear os seus produtos com a arte dos grandes mestres da oratória – eram homens cansativos. não se calavam um único segundo e o romeiro nem tempo tinha para se questionar porque estava ali estacado. e quando despertasse do encantamento. estava sem a nota de mouzinho da silveira – o propagandista era um homem astuto e matreiro. e para que os romeiros se sentissem mais tranquilos e confiantes. apontava-lhes o dedo em riste. percorria-os um a um. agora numa locução meiga e doce e. benzia-se com um olho na fé e outro nas notas de quinhentos – comunicar com doçura era a sua arma secreta para apanhar na sua teia comunicacional os clientes mais difíceis e desconfiados – era chegado o momento para juntar à doçura uma laracha inofensiva e quebrar pelo humor o gelo dos mais resistentes:

-- estamos nesta romaria também a pedido do seu santo padroeironão fiquem espantados! sim!é verdadesanto também tem as suas necessidades – o nosso querido s. judas tadeu. mais uma vez. aproveitará a nossa presença nesta gloriosíssima celebração em ação de graças para suprimir muitas das suas necessidades podem não acreditar. mas os santos também têm frio – por isso é que aqui estamos todos mais uma vez. para agradecer. para louvar e proclamar a obra salvífica de deus. que protegidos pela sua imensa bondade nos permite. mais um ano. estarmos neste convívio religiosos. alegrados pelos seus feitos e sempre fiéis ao seu chamamento misericordiosomais uma vez obrigado meu deus por poder tirar o frio aos teus fiéis. amém

o suor caía-lhe em bica ensopando a camisa de satisfação. de paixão. de arte e sacrifício – tanto palavreado. tanta gesticulação. tanta imaginação e tudo para vender um cobertor – este sujeito não parava um minuto. talvez use pilhas duracel

mas como vos dizia. este é também o momento para que o nosso querido s. judas tadeu. possa adquirir os nossos fantásticos produtos. que. como sabem. são os mais baixos do universo – já não há milagre que faça baixar o preço destes maravilhosos produtos – só deus e eu sabemos que este é o preço justo para a excelência do que trazemos nesta carrinha de quatro rodas que é o nosso ganha pão – vejam só -apontando para os cobertores- podem dar a volta ao mundo duas vezes que. nunca encontrarão cobertores com esta qualidade – saibam que com um cobertor fabricado com esta magnifica lã nunca mais terão que ter medo às frentes frias que nos chegam da sibéria – o senhor sabe que falo verdade e porque sou um homem grato aos seus desígnios a “minha boca anunciará todos os dias vossa justiça e vossas graças incontáveis” (Sl 70,14-15) amém – este cobertor será a minha ruína – senhores e senhoras. o que vos peço por este fantástico cobertor será muito menos do que um automóvel. um barco. um avião. uma viagem ao brasil. um jantar no pedro dos leitõeseste cobertor este cobertor vai custar a módica quantia de…
e a multidão em desordem emocional comprime-se para ficar o mais perto possível do mestre das vendas – é importante ver bem esse incrível cobertor que desafia os frios gélidos siberianos – e lá continuava com a ladainha sem anunciar o preço do cobertor – era assim que prendia a atenção dos romeiros

-- senhoras e senhores. meninas e meninos casadoiros. vejam só a qualidade deste cobertor de pura lã virgem – com este cobertor vindo diretamente das conceituadíssimas fábricas da serra da estrela. nunca mais terão que passar os vossos invernos enregelados – o frio acabou para sempre. e atenção senhoras e senhores!... para levarem este fantástico e único cobertor para vossa casa sim. vocês vão querer levar o cobertor para vossa casas. não vai pagar mil escudos. não vai pagar novecentos. não vai pagar oitocentos e seiscentos também não. vai pagar uma miserável nota de quinhentos escudos – por apenas quinhentos escudos terá no seu inverno o insuportável calor deste mês de agosto. será como se vivessem na ilha selvagem das caraíbas. como se cobrissem com um casaco de vison – uma pechincha e mesmo que viva mais duzentos anos. nunca mais terá a oportunidade de comprar um cobertor com esta qualidade a este miserável preço de uma nota de quinhentos paus
e sem deixar esmorecer o desassossego numa multidão que não parava de aumentar. de se empurrar. o mestre das vendas entusiasmado com a exaltação dos romeiros não parava de pinchar de um lado para o outro. de gesticular. como se os braços a todo o momento se desprendessem do corpo – já pouco espaço restava à sua volta. tinha captado. definitivamente. a atenção dos romeiros – este homem andava e pulava quilómetros em cima da sua caminheta. ninguém ficava indiferente à sua resistência física: as pernas. os braços. os olhos e a língua não paravam um minuto – vender era o seu sustento. dava tudo o que tinha e mesmo o que já não tinha. nada nem ninguém o desalentava e. se sentisse desânimo num ou outro possível comprador. a solução era falar-lhe olhos nos olhos – e ele fazia-o. arregalava os olhos de tal forma que era como se dissesse: está proibido de sair daqui sem levar o cobertor – o suor caia-lhe testa abaixo. a luta era corpo a corpo. romeiro a romeiro. cada cobertor vendido era um dia de sustento

-- e atenção caros senhoras e senhores. saibam que com o cobertor ainda levam uma faca de cozinha em aço inox mil e noventa e cinco. usada pelos famosos ninjas na china antiga. e aindae aindamais uma dúzia de copos em cristal da mongólia. e maishoje estou um mãos-abertase só porque estou aqui nesta lindíssima terra. e porque me sinto sentimentalquero que saibam que com este maravilhoso cobertorlevam esta fantástica faca. estes deslumbrantes copos. e ainda. e aindae aindamais um saca rolhas com um design singular do excêntrico magasin printemps parisiense – hoje é o vosso dia de sorte
e não sei quantas coisas mais pela módica quantia de quinhentos escudos – e o povinho romeiro ali de volta a babar. inquieto. a aconchegar-se o mais à frente possível. não fosse acabar a mercadoria – todos querem ser os primeiros a receber o cobertor da serra da estrela e todas as fantásticas quinquilharias pela insignificância de uma nota de quinhentos escudos – é um grande negócio. o propagandista ganha a vida e o romeiro leva para casa a ilusão de que fez o negócio da sua vida. e mesmo não necessitando de nada do que mercou. sente que foi uma pechincha de ocasião que nunca mais se voltará a repetir – todos felizes: o propagandista. o povinho e também o santo padroeiro. afinal de contas é mais um milagre debitado na sua contabilidade. acabando por subir uns pontos no ranking dos santos e. obviamente.  agradar a deus – ele sabe que ninguém gosta mais de milagres que o seu chefe – e quando anunciava o começo da distribuição dos produtos não se cansava de avisar. em voz ainda mais encorpada. de que o stock era limitado – a agitação era total. empurrões e mais empurrões e as notas de quinhentos no ar em acenos de agonia – era o black friday dos nossos dias

-- e mais um conjunto para aquele cavalheiro. e outro para esta menina casadoira e ainda mais outra para esta bonita família. e esta senhora quer dois cobertores e quem levar dois cobertores não leva uma faca. leva duas. não leva um saca-rolhas. mas sim dois
e o homem a desfazer-se em simpatia e as notas de quinhentos em pilha. pousadas num cobertor com um paralelepípedo em cima não fosse o vento se fanfarronar em democrata e dividir a fortuna pelos menos abastados – foi mais ou menos assim que chegou a democracia ao meu país. uns quantos políticos subiram para cima do palanque e começaram a vender-nos a banha da cobra gesticulando não só os braços mas também as idiotices – e o zé povo a viver um momento único e histórico. eufórico. inculto. impreparado e sem maldade para perceber que estava a lidar não com propagandistas. mas com charlatões – esta raça escabrosa de políticos camaleónicos não troca cobertores por notas de quinhentos. trocam votos por lugares numa casa que dizem ser da democracia e da vontade do povo – mas não. não é a casa do povo nem de coisa nenhuma.  é o esconderijo legalizado de um grupo de malfeitores que a coberto do voto democrático duvidoso sonegam o erário público com a maior hipocrisia e desfaçatez. tornando os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos e poderosos – é a toca onde duzentos e trinta bandidos. sem escrúpulos. ano após ano. nos atulha de mentiras e nos rouba a esperança – infelizmente ainda não inventaram uma nova ordem política mais competente e justa – temos que nos aguentar com estes malfazentes. temos que votar nos menos maus. nos que nos roubam com mais cuidado e vergonha – e o povo iludido na revolução gritava palavras de ordem como se também eles tivessem derrubado a ditadura – a nossa democracia acabou com mais de mil privilégios. mas depressa criou outros que por serem tantos ninguém consegue contar – o mundo das revoluções está repleto de contradições – uma sociedade livre é uma sociedade desigual. injusta e discriminatória – mais liberdade é igual a mais horror nas desigualdades – e é assim que aparecem os desarreigados. os inconformados. os que precisam de revoluções diárias para aceitar as suas contradições – a revolução de hoje retificará os erros da revolução de ontem – eu vivo numa revolução contínua. também eu retifico hoje os erros de ontem e. amanhã. noutra revolução. já sei que retificarei os de hoje – liberdade. fraternidade e igualdade são conceitos sustentados pela retórica política porque em boa verdade nenhuma destas palavras sobreviveria ao produto final das revoluções – mas como diz nelson mandela: não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos – é por isso que eu vivo num mundo de revoluções. o meu vale da morte é diário. e a luta para o ultrapassar é palavra de ordem – mas o importante é que mesmo nesta democracia imperfeita o meu país ficou mais justo depois da revolução de abril – o meu lamento vai apenas para o tipo de gentalha que tem comandado o destino desta fantástica nação de gente boa e bonita – na verdade. os políticos que nos venderam a democracia não foram nada diferentes dos propagandistas da minha adolescência. prometeram-nos um cobertor e não sei mais quantas coisas que depressa percebemos que não correspondia à verdade – mas quem for sério não pode nunca dizer que a sua vida não melhorou depois da revolução de abril. melhorou e muito – estou imensamente grato a todos aqueles que de uma maneira ou de outra contribuíram para que aquele movimento das forças armadas rompesse naquela madrugada de abril – confesso que ao fim destes anos todos sou ainda um resistente de abril. faço parte do povo unido jamais será vencido; da força. força. companheiro vasco. nós seremos a muralha de aço; do trabalho dá pão. repressão não; da terra a quem a trabalha; medo nunca mais; da paz. pão. habitação; e viva a liberdade e o MFA [movimento das forças armadas]– e eu a crescer com a velocidade dos cometas. feliz. como se as revoluções existissem para sempre. como se a adolescência se eternizasse em manifestações e reivindicações e o corpo nunca parasse de gritar: fascismo nunca mais – mas adelante adelante”. que a saudade também mata – amarro nas jeans e enfio-as até que nada sobre das pernas de abril. aperto o fecho e o botão numa correria. enfio a t-shirt do che. calço uns calcantes tipo charlie chaplin. viro-me para a porta no mundo que sustenta os astros e questiono-me: vais a correr ou levas o que te pesa pela mão? saio a correr. corro como se a revolução me perseguisse. olho o céu novamente. o azul já não é de liberdade e as nuvens ficaram mais nuvens – será que o mau tempo está por aí a chegar? talvez não seja má ideia resgatar o guarda-chuva do bengaleiro – volto atrás. contrariado. nas revoluções a chuva não molha. reabro a porta da minha única casa. olho para dentro à minha procura e não me vejo: o mais certo é ter ido para a concentração da CGTP [confederação geral dos trabalhadores portugueses] na avenida central – pego no guarda-chuva do 007 não vá a chuva trazer com ela um fascista tresloucado. na gabardina do detetive colombo. nunca se sabe se a PIDE [polícia internacional e de defesa do estado] ainda está operacional.  no chapéu e bengala do poirrot. a vida sorri sempre para quem usa a massa cinzenta. e por último. a lupa do holmes. envelhecer obriga-nos a ver tudo ao pormenor – e fui pelo mundo fora como se tivesse acabado de me tornar num revolucionário da LUAR [liga de unidade de acção popular] – passa por mim. em sentido contrário o zé povinho com um dinossauro político preso a um cordel. um pato bravo a fazer quá quá e um elefante branco num show de trapézio. equilibra-se numa só pata em cima de uma cigarra que não para de gemer. o peso um dia destes parte-lhe a coluna – atrás. em passo lento e de vara na mão. o destino a tocar tudo para o dia seguinte vai gritando: sem cultura não há liberdade – ninguém se mete com o destino. mas eu sou um revolucionário de abril e trago o che ao peito. sem medo disse-lhe: estás a caminhar para o lado errado. a cultura com liberdade é para o lado oposto – olhou-me com ar de poucos amigos. aproximou-se. sacou de uma faca de ponta e mola e encostou-ma ao pescoço. e numa voz rouca-intranquila. disse-me: cresce. vai-te foder – sorri e disse-lhe: outra vez!!!... – virei as costas. olhei para a t-shirt e pensei: sou mesmo um revolucionário não só de abril. mas de todos os meses – e segui rua abaixo cantarolando "hasta siempre comandante che. hasta sempre comandante che" – e lá foi o destino à sua vida e eu à minha – agostinho da silva dizia que a liberdade só existe quando todos os nossos actos concordam com todo o nosso pensamento – não minha vida os meus actos não concordaram com todo o meu pensamento. mas uma coisa sei. sempre escolhi o caminho que pisei e sempre em total liberdade – “hasta siempre”