nãosou do CHEGA – não sou de partido nenhum pois cansei-me de grupos organizados
de políticos não sérios e mentirosos [com pequeníssimas excepções] – mas sou do
tempo em que a UDP. de mário tomé. chegou ao parlamento e.
nesse tempo novo para a recentíssima democracia portuguesa. lembro-me de
me regozijar e celebrar a sua chegada à casa da democracia– mesmo não partilhando
os valores daquela esquerda ou da terrífica extrema esquerda. quem não
se lembra dos comunistas que matavam os velhinhos. acredito que foi o
primeiro grande teste à pluralidade no parlamento depois do 25 de novembro – eu
gosto de vozes discordantes – gosto de quem agita os consensos podres dos
partidos da área do poder – gosto de gente que não tem medo de apontar o dedo.
e talvez por isso. fique satisfeito com a eleição do grupo parlamentar numeroso
do bloco de esquerda. do PAN e mais recentemente do CHEGA. LIVRE
e INICIATIVA LIBERAL. e para que
não fiquem dúvidas. por cauda das más línguas. nunca votei no BE –
nasci em ditadura. mas cresci em liberdade – amo a liberdade. sou e
serei sempre um homem grato aos capitães de abril – foi essa liberdade dos cravos
que me permitiu crescer como cidadão do mundo. um país livre não tem
fronteiras. não tem muros. nem dogmas – um homem livre tem dentro
de si um pensamento livre – por isso é que não posso admitir. ou tolerar.
que um órgão de soberania. eleito em eleições totalmente livres. recupere
tiques estalinistas ou fascistas – o sr. presidente da assembleia da républica.
dr. eduardo ferro rodrigues. não tem o direito de se dirigir a um
deputado eleito democraticamente pelo povo português. e digo novamente.
em eleições livres e democráticas. naquele tom esdrúxulo. pantomineiro
e desrespeitoso – a liberdade individual do deputado andré ventura. mas também
a liberdade coletiva de todos os cidadãos portugueses representados naquela assembleia
por força do seu voto livre. fui violentamente atacada nos valores
conquistados de abril – a casa da liberdade não pode aceitar que deputados
batam palmas a quem se esquece e não respeita o artigo 11 da constituição
portuguesa:
Artigo 11.o - Liberdade de expressão e de informação
1. Qualquer pessoa tem direito à liberdade de expressão. Este
direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber e de
transmitir informações ou ideias, sem que possa haver ingerência de quaisquer
poderes públicos e sem consideração de fronteiras.
foi uma vergonha sr. eduardo ferro rodrigues. foram
vergonhosas as palmas dos senhores deputados – estou farto desta gente que vive
da política. daqueles que se servem dela para melhorarem
substancialmente a sua forma de viver. e. principalmente. daqueles
que fazem da política um tacho coletivo onde tudo é permitido aos da sua cor e
nada é consentido aos que estão na oposição – nunca vi o sr. presidente
da assembleia da républica. dr. eduardo ferro rodrigues.
indignar-se contra os abusos de poder do seu colega de partido eng.º josé sócrates.
entre muitos outros que por falta de tempo e espaço me abstenho de enumerar – o
voto é sagrado e a assembleia da républica o local certo para que os seus deputados.
de todos os partidos. honrarem a constituição portuguesa. lei
suprema do país. aceitando-a defender. respeitar e fazê-la cumprir.
mesmo quando essa violação parte da segunda figura do estado português. com
assento no conselho de estado. e que tresloucadamente. no
decorrer do debate parlamentar. se permitiu a tão papel ridículo.
só com paralelo quando se insurgiu contra o antigo presidente do sporting.
dr. bruno de carvalho – o segundo cargo na républica requer elevação e
recato – senhores deputados e deputadas do partido socialista. as vossas
palmas foram uma vergonha. foram vergonhosas. confesso-vos que
também senti vergonha por vós – os senhores deputados. têm o dever e
obrigação de garantir e proteger a liberdade de expressão dentro e fora da
assembleia da républica. a PIDE e a censura extinguiram-se na madrugada
do 25 de abril. a liberdade nunca poderá ser partidária – é
completamente indesculpável e intolerável que o sr. presidente eduardo ferro
rodrigues se dirija ao deputado andré ventura com aqueles termos inapropriados
e desrespeitosos de “então diga lá o que tem a dizer” – a palavra “vergonha” ou
“é vergonhoso” não só não é ofensiva. ou mesmo vergonhosa. como
na maior parte das vezes fica aquém na forma e no conteúdo do que os sucessivos
governos do PS e PSD merecem ouvir – a governação destes partidos tem sido.
ao longo da nossa democracia. uma vergonha ou vergonhosa – o sr.
presidente da assembleia da républica recuperou os tiques de poder de antigos
dirigentes do partido socialista. quem não se lembra dos tiques soaristas
ou mais recentemente dos tiques socráticos – o sr. deputado eduardo ferro
rodrigues representa a velha guarda de um partido que sempre teve dificuldade
em aceitar todos aqueles que corajosamente foram capazes de denunciar os
compadrios / corrupção existentes dentro do PS – basta recuar ao governo do eng.
josé sócrates e lembrar todas as tentativas para manipular e silenciar a comunicação
social – não me lembro de ver o dr. ferro rodrigues ou o PS indignados
com as palavras com que o seu colega de partido atacava a dra. moura guedes
ou o correio da manhã – mas nem precisámos de recuar tanto na história do partido
que sentou o sr. deputado ferro rodrigues na cadeira da presidência da assembleia
da républica. bastava que este ilustríssimo político se insurgisse
contra o seu último presidente parlamentar. sua excelência dr. carlos césar
conseguiu empregar toda a sua família em instituições do estado. e
pasmem-se. até esteve quase a colocar um seu familiar numa comissão de
socialistas para dinamizar os cemitérios de lisboa. ele e mais uns
quantos seus correligionários – é obra dr. césar. isto sim é uma
vergonha que nunca ouvi o militante socialista ferro rodrigues insurgir-se.
indignar-se com mais esta vergonhosa matilha de delapidadores do erário público
– diz-se por aí. pelos corredores da assembleia da républica também. que
a figura de sua excelência dr. eduardo ferro rodrigues substitui aqueles
famosos três sábios macaquinhos japoneses que tapa os olhos. a boca e os
ouvidos sempre que se trata de recriminar o seu partido empregador – mas desta
gente dos partidos já pouco ou nada espero. da direita à esquerda – o
que me incomoda é o quase silêncio dos srs. jornalistas. dos
opinadores da política. dos comentaristas. dos analistas e dos
colunistas. sim. esta ilustríssima gente também vive da política.
também são conhecidos por causa da política. também aparecem nas
televisões pela mão da política e também são estimados pelos políticos sempre
que necessitam deles para difundirem as suas doutrinas– assim sendo.
deveriam ser estes senhores os primeiros a barricarem-se contra a tentativa de
manipulação da liberdade de expressão. deveriam ser os primeiros a
cerrar fileiras contra qualquer tentativa de desvirtuar ou condicionar um deputado
na sua oratória política. mesmo que esse deputado seja da extrema
direita ou extrema esquerda. mas eleito em democracia – afinal também
vivem da palavra livre ou será que a vossa liberdade é igual à do sr. presidente
da assembleia da républica… tem cor
ninguémsabe exatamente o que sou – às vezes sou uma
coisa sem pés nem cabeça. outras vezes. tenho uma cabeça que não
me leva a lado nenhum. e nos dias em que a cabeça sabe para onde ir.
faltam-me os pés. por isso fico onde estou – quando me aborreço de ser
uma coisa sem pés. nem cabeça. sou o que encontro à mão: sorrio.
canto. danço. leio os astros. deito cartas do tarot.
faço serenatas à lua e. nas noites de lua cheia. uivo e suplico
aos morcegos para me purgarem o sangue do sofrimento – gostava de ser um
transmorfo e. quem sabe. transformar-me numa dessas criaturas que
não tem alma e se alimentam dos espíritos desassossegados. mas não sou
coisa nenhuma para além de não saber o que sou – talvez por isso. por
não me transformar em coisa nenhuma. os “outros” entendem que sabem tudo
do que sou – que palermice – esquecessem-se eles do que são e. sem se
aperceberem. transformam-se no que não é bom– desses “outros”
nada sei. às vezes acredito que
são como são porque. infelizmente. nada podem fazer para não
serem assim como são. mas confesso. não são como eu gostaria que
fossem – reconheço que não sei nada de ninguém. houve tempos em que
também acredita que sabia quase tudo do mundo e dos “outros”. agora.
com o tempo a esgotar-se. percebo que quanto mais envelheço menos sei do
mundo. dos “outros”e também de mim – não sei nada de nada e
mesmo que pudesse saber não queria. perceber o pouco que sei de mim já é
coisa séria e complicada – sou um ignorante ingénuo. um analfabetoque
sabe ler e escrever e que. com o tempo a gastar os minutos. atrás
de minutos. reconheço. agora. queapenas o que faço
com o meu destino me preocupa – todos temos uma missão a cumprir nesta passagem
efémera pela vida. tristemente e quase em agonia. eu ainda
procuro a minha – quando os “outros” creem que sou o que não sou. olho
para o céu. abano a cabeça. rezo um anjo da guarda. invoco
os meus santos protetores. são três: o velho s. judas tadeu que
controla tudo que são causas difíceis; stª bárbara porque sempre tive
medo das trovoadas; e stº estevão que em miúdo fez o milagre de me tirar
uma dor de dentes e. porque quero muito acreditar nesta fé invisível.
a troco de umas quantas orações. suplico-lhes que me aligeirem a
carga dessa gente que me pesa – mas quando essa malta me aborrece mesmo muito.
e não quero maçar os meus benfeitores. saco da flauta mágica e
disfarço-me de hamelin. e tudo que rasteja levo para desaparecer e o que
é exasperação… deixa de ser – estou demasiadamente ocupado com esta nova
certeza de que estou mesmo a envelhecer.
não posso. não quero e nem necessito de me aborrecer com o que
não me pertence – de seguida invoco o destino e renovo-lhe a minha lealdade ao
caminho traçado: sou o que sou e assim será até ao seu final – por mais
volta que deem à balança ela tombará sempre para o meu lado. tranquilamente
e em serenidade –no entanto. nem sempre estou no mesmo lado do
equilíbrio. às vezes estou do lado da razão. outras da emoção.
mas na maior parte das vezes. estou no outro lado de mim. no
escuro. no silêncio. onde o medo acontece e os pecados se espiam
– só eu sei onde centro a coerência. sendo eu um homem com valores
renascentista recordo leonardo da vinci num dos seus muitos pensamentos:“é preciso deixar a sua marca na história. fosse em que campo da
existência fosse” – é neste caminho. que é só meu. que tudo
faço para me tornar mais indulgente. tolerante e condescendente com o
que os “outros” pensam que sabem de mim – continuo a ser como sou.
continuo à procura do melhor em mim e para mim. contínuo à procura de
fazer o que ainda não consegui fazer. encontrar a minha marca para a
minha história. para o meu bem-estar. que bem pode não ser o
vosso – termino com duas anotaçõesde leonardo da vinci
“Posso
sorrir, e matar enquanto sorrio,
E
proclamar-me feliz com o que me aflige o coração,
emdezembro de 2010
resolvi trazer para casa um aquário e cinco peixes miscigenados na raça e na
cor – instalei a caixa de vidro num local aconchegado e protegido das correntes
de ar. forrei o fundo com joguinhas brancas. encalhei uma nau
naufragada do tempo do vasco da gama. plantei umas algas verdes fofinhas
para que os guelras pudessem jogar ao esconde esconde. encrostei uma
ânfora que borbulha bolhinhas de oxigénio e. mais uns quantos bisegres
para que o fundo da caixa reproduzisse. dentro das inúmeras limitações.
o fundo do oceano – depois de tudo devidamente preparado e ornamentado inundei
a caixa de vidro com água da companhia – delicadamente. abri a saca de
plástico transparente. que me permitiu transportar os guelras da loja
até casa e. um a um. com delicadeza. operei o transbordo
para o meu oceano pacífico privado – e ali fiquei a apreciar os meus novos
animais de estimação. quer dizer. os meus novos guelras de
estimação e. rapidamente percebi. de que os peixes e as crianças têm
uma característica em comum. só precisam de liberdade para serem felizes
– ali estava eu parado. também imerso em prazer. a degustar o meu
novo e excêntrico “affair” hídrico. suplementado com uma convicção firme
de que tinha acertado no escolhimento dos novos inquilinos para o meu exótico
aquário – os guelras estavam felizes e confiantes no seu novo habitat. estavam
enérgicos. corriam como loucos. davam piruetas com curvas e
contracurvas. faziam bolhinhas pela boca e as barbatanas não paravam de
bater. mais parecia o voo das andorinhas a anunciar a primavera.
tal era a velocidade e alegria com que se moviam de um lado para o outro –
estávamos todos felizes. eu. os peixes e o max. que ao meu
lado. intrigado com a singularidade dos feitios e cores dos novos amigos.
não parava de abanar a cauda – estava tudo a correr dentro da normalidade
perspetivada pela vendedora. especialista em animais de todas as
espécies. quando me apercebi que algo estranho estava a acontecer. os guelras estavam tremulosos e. os
olhosesbugalhadosnão paravam de piscar – esta altercação não
estava prevista no manual de boas práticas de manuseamento e bem-estar de
peixes ornamentais – entrei em pânico. não sabia nada da anatomia de
peixes. em toda a minha vida só com cães tinha partilhado afetos.
não fazia a menor ideia de como se tratava um peixe e muito menos avaliar a
gravidade dos seus sintomas – será que estavam todos a ter um AVC por
intoxicação da água? ou seriam apenas pequenos espasmos nervosos de adaptação
ao seu novo lar? o que me desassossega. é que para o bem e para o mal.
sou eu o único responsável pelo seu bem-estar – estamos numa época em que não
se pode facilitar com os cuidados aos animais. ainda me culpam de maus
tratos e quem sabe. acabo em tribunal acusado de negligência – e pior.
estou sujeito a que a qualquer momento me toque a campainha e me apareça à
porta a CMTV acompanhada pelo PAN [partida das pessoas. dos animais e da natureza]–
comecei à procura do que poderia estar a causar aquele pisca pisca e pensei:
será que os peixes estão nauseados com o cloro da água da companhia? é bem
possível. a água ultimamente não tem andado grande coisa – se fossem
humanos. percebíamos com facilidade se o problema recaía sobre a má
qualidade da água. reviravam os olhos. esfregavam-nos e logo concluíamos
que a maleita passaria com umas gotas oftalmológicas – mas a verdade é que os
guelras não tem mãos e as barbatanas são curtas. creio que nem esticadas
chegam aos olhos. que chatice. nem uma comichãozinha podem ter –
deus lá teve as suas razões para que na sua infinitude sabedoria não lhes desse
mãos – mas a verdade. é que se lhes tivesse implantado umas mãozinhas.
tinha-me aligeirado a resolução do problema. misturava na água umas gotinhas
para a conjuntivite e logo via se o pisca pisca diminuía – vá-se lá entender
deus e os peixes – mas o melhor é meter a viola ao saco e calar-me. não
vá o todo o poderoso aborrecer-se com este meu palavreado e ainda lhes
desarranja os intestinos –já deveria saber há muito
que os desígnios de deus são insondáveis e nunca questionáveis – começo a ficar
preocupado. sinto que o pisca pisca está mais intenso e também os sinto
mais paraditos – pudessem ao menos chorar para eu perceber a gravidade do piscar
do olhos – mas como se veria uma lágrima no meio de um oceano? os peixes são
uma dor de cabeça – pensando bem. talvez nesta coisa das lágrimas a
minha preocupação seja uma tolice. os peixes não choram não por não
terem lágrimas. mas porque não tem sentimentos – a verdade é que também
conheço muitos humanos assim. sem lágrimas e sem sentimentos e não vivem
no meio do oceano – quem sabe se deus quando criou o mundo animal tenha
concebido os peixes propositadamente assim. diferentes de todos os
outros animais – talvez quisesse um animal que não fosse bem animal. distinto
de tudo o que tinha criado até ao momento. distante dos homens.
escamado. com guelras para sobreviver escondido na água. frio.
sem sorrisos. com mau feitio e indiferente a tudo que existe fora do
mundo aquático – e por mais tentativas do homem para influenciar o seu modo de
viver. domesticar. ou até mantê-los em cativeiro. a
resposta seria sempre um desapego silencioso por tudo o que o rodeia.
sem emoções. sem latidos ou abanares da cauda. sem rosnar.
sem miar. sem asas e sem sonhos– tudo o que este animal marítimo
traz ao mundo dos humanos é um alheamento sincronizado do movimento das
barbatanas com o abrir e fechar das guelras. abana o rabo e pisca os
olhos para assinalar a marcha pela profundeza dos oceanos – deus
substituiu-lhes então as mãos por guelras para que não pudessem abraçar. de
seguida. tirou-lhe a voz para que não pudessem dizer: gosto de ti
e ainda insatisfeito. trocou os pulmões por guelras para que não
pudessem arfar quando se apaixonassem – por fim. meteu-os nos oceanos e
mandou-os multiplicarem-se. dizendo-lhes: vocês serão o maior
desafio para a humanidade– os homens nunca compreenderão a vossa
indiferença. nem tão pouco aceitarão a forma como vos amais – e assim se
fez a vida dos peixes desde a criação do mundo até à compra do meu aquário – a
vida dos animais com guelras é realmente muito complicada e insípida – foi
quando pensei como a criação do homem foi especial. como é bom dizer a
alguém gosto de ti. abraçar e sentir o calor da retribuição. o
carinho de um abraço. um sorriso. uma palavra ou uma lágrima – deus
fez um grande trabalho – enquanto me inebriavacom as correrias dos guelras. sentado a meu
lado o meu cão seguia atentamente as acrobacias dos seus novos camaradas com
espanto. percebi no seu olhar que estava feliz. não sei se por
achar que teria ganho mais cinco companheiros. ou apenas porque estava solidário
com a minha alegria – a vida só tem sentido quando não desistimos dos afetos.
mesmo quando esses afetos são difíceis de alcançar. como com os peixes –
encostei a minha cara ao aquário e com um sorriso de quem gosta de fazer novos
amigos apresentei-me: sou o sampaio. muito gosto. sou o
vosso encarregado de bem-estar. espero que se sintam confortáveis na
vossa casa. que também é a minha – fiquei à espera de uma resposta
emocional. um olá. uma cambalhota com um mortal à retaguarda. um
borrifo de água. mas nada – foi quando fui levemente surpreendido. depois
da apresentação fiquei com a ideia de que já não piscavam os olhos e.
estava para jurar. que até sorriam – fiquei em paz e resolvi não mais questionar
ou mudar o que deus fez – olhei novamente… e decidi batizá-los.
escrevi o texto: aquário
sampaio rego 20 de novembro de 2019
aquário
os meus olhos encheram-se de peixes – eugénio.
amarelo. explícito na sensibilidade – camões. nos olhos a sua
marca – excêntrico. chama-se dali. são cores – torga. veste-se
de negro. talvez saiba da morte – pessoa. sempre ele. um
vira casacas. à noite caeiro – eu… sou aquário de ascendente
[hoje]. mas só depois de carneiro
[dedicado a júlio saraiva poeta e
jornalista já falecido]
sou teatro…
parei agora para pensar um pouco
sossegar-me destas aflições
vocês compreendem…
não é fácil representar toda a vida.
nesta pausa
posso ser quem sou
inclino-me,
seguro a cabeça com as mãos
fecho os olhos
e vestido a preceito desde a última
cena
viajo até à nascente,
lá… onde vivem as fadas.
neste encontro,
não preciso do ponto
nem do contraponto
e nas luzes da ribalta
surgem sonhos infrangíveis
neste pensar, encontro-me
em palcos dourados,
tribunas,
plateias,
camarotes,
frisas e palmas
é o teatro gigante
e eu tão pequeno
tudo esgotado,
tudo de pé
chamam-me os aplausos
em coro,
acenam cachoeiras de flores
que eclodem aos meus pés.
é a primavera
pensava eu.
…
mas os olhos ainda raíam
deste descer à verdade.
rompem as pancadas de molière
o contrarregra vai subir o pano
também eu subo à vida
acabou o teatro.
nodia em que postei o teatro no luso
poemas. agosto de 2009. recebi uma mensagem privada do poeta e
jornalista júlio saraiva que. amavelmente. fez questão de me
dizer que tinha apreciado imensamente o poema e. na sua simplicidade.
pediu-me autorização para o levar para o seu blogue – nem queria acreditar que o
júlio saraiva se tinha dado ao trabalho de me escrever. que me elogiasse
e quisesse divulgar o poema na sua página – é a primeira vez que torno público
este episódio. confesso que fiquei um pouco envergonhado e pensei:
e agora o que vai ser de mim. como vou manter o nível. que dirá o
júlio quando ler o meu próximo poema – admito que nunca me senti nem confortável.
nem feliz com a poesia. só a prosa me enredava o tempo com alegria – entrei
em pânico e achei que o melhor para a minha poesia seria silenciar-me.
quanto menos pessoas soubessem deste episódio melhor – não sei se alguma vez o
postou. confesso que não sou muito bom a tomar conta da vida dos outros.
mas também não é importante. valorizo mais o impulso. valorizo
mais a verdade do momento. e esta é sempre mais apreciada quando emerge na
espontaneidade – uns tempos depois faleceu e nunca tive oportunidade de lhe
agradecer aquele gesto. principalmente. nunca tive oportunidade
de lhe dizer como aquela mensagem. naquele momento. me ajudou a
renovar a vontade de escrever – o luso era um espaço pequeno para tanto ego
gigante. sobrava a vaidade. a arrogância. a falta de
humildade e. principalmente. o bom senso e a tolerância – reconheço
que havia colegas intragáveis. com mau carácter. monstrinhos egocêntricos
que projetavam uma grandeza que em boa verdade não tinham – ser grande entre os
pequenos não os tornavam especiais – não era fácil lidar com esse lado negro
dos poetas – mas bem lá no fundo confesso que aprendi muito
com os meus camaradas do luso e a todos estou agradecido – depois. tal como os
mágicos fazem magia. o júlio também fez acontecer um momento excecional
para mim – durante um tempo esqueci tudo o que era mau – a modéstia chega sempre
mais depressa por quem não precisa de se por em bicos de pés para ganhar altura.
já são grandes e ponto – que nunca lhe falte nada esteja ele onde estiver. mas
se faltar. que não seja papel. lápis e… amigos. para que.
em companhia. beba o seu “choupinho”
emcontramão. uma dama rebuliça e enérgica
dirige-se para mim – acerto-lhe com os olhos e interrogo-me: será que vou
ter problemas. a esta velocidade vai-se-me enfaixar no pescoço – cabelo loiro
oxigenado. levantado à frente. face redonda e rosada. não
sei se é cor natural ou está apenas afogueada da velocidade que imprime ao
andamento. uma pochete louis vitton contrafacionada num bairro chinês de
pequim. acompanha o movimento das pernas numa desordem perigosa. ainda
vai dar com o adereço na cabeça de algum transeunte – botas douradas. furadas
com estilização. sobem-lhe pela perna com ganas de chegar o mais longe
possível – dois dedos acima de uma rótula rombuda e três abaixo da cintura uma
pequena mini saia branca vestida com desprezo. a fazer sobressair uma
cicatriz mal-arrumada no umbigo. mascarada de importância com piercings-diamante
falso de quinze quilates – confesso que fiquei com a ideia de que a saia era
apenas um adorno para desviar as atenções do umbigo – olhos redondos. claros.
a contrastar com uma pintura excêntrica. umnegro que não era
luto. balançava o corpo numa agitação perigosa para os dois enormes
seios amarrotados pela licra preta de uma camisola de alças – confesso que por
momentos entrei em pânico. a aproximação apresentava-se desatenta.
descuidada e desnorteada e decididamente em excesso de velocidade – tinha que
evitar a todo custo o embate – já não tenho condições para choques com viaturas
de transporte de matérias perigosas – cerrei os dentes e preparei-me para a
fusão dos corpos – quando pensei que o embate era inevitável a dama num
movimento de toureio atira com as ancas para um lado e sai com o tronco pelo
outro – foi tudo tão rápido que comecei à procura da bandarilha espetada no
corpo – felizmente tudo não passou de excitação – olhei para trás e ainda não
recuperado percebi que a minha alucinação se deveu a uma mini saia comprada nas
galerias lafayette de paris. encandeou-me. cegou-me. roubou-me o
norte e mesmo numa excitante desordem mental. percebi rapidamente que me
tinha perdido nos adereços. a testosterona invadiu-me os neurónios. começou
a descer-me pelas vértebras. comecei a suar em bica e quando dei conta
estava com a dama em pecado. em pensamento. mesmo à minha frente –
era muita mulher para mim. era muita curva e contracurva. era um
pecado quase mortal. deus e a minha companheira nunca me perdoariam um
pecado com esta dimensão – desorientado. fiquei sem saber se seria
melhor atirar-me para uma valeta ou aceitar o embate como inevitável e
preparar-me para as consequências – era impossível ficar indiferente às
propriedades naturais [penso eu] desta excêntrica dama – deitei os olhos ao
chão. arrependi-me. voltei a olhar. deitei novamente os
olhos ao chão. voltei a arrepender-me. voltei com os olhos para o
chão. e é quando surpreendentemente a dama dirige-me a palavra:
estás a olhar para onde – surpreendido. envergonhado e embaraçado
respondi: estava a olhar para a celulite. isso não está nada bem e
não condiz com a mini saia – e assim. numa manhã de quarta-feira nos
cruzamos numa eternidade de tempo: eu tão cedo não vou esquecer esta
dama e a dama vai comprar todas os cremes anti celulite que existirem no
planeta e arredores – ninguém se transforma naquilo que não é…
escrevo. escrevo e existo para logo de seguida desaparecer
como desaparece o fósforo em combustão – a palavra é um amor repentino com uma única
chama intensa – depois. como se tudo não passasse de um caso. tudo
morre com a leitura – no chão. como que a dizer que afinal a palavra é efémera.
o pauzinho carbonizado aduba a terra. onde um dia. quem sabe.
nasce uma flor qualquer – paz ao escritor
talvez
esteja louco. mas às vezes
acredito que estou onde nunca consigo chegar – se não estou louco. então.
sou a vontade de um deus. ou de um génio. ou uma peça de um xadrez
estranho. ou até quem sabe. um caminho tortuoso para chegar a um lugar
que ainda não existe. ou sou outra qualquer coisa insignificante que por
não ter valor se encontra postado no chão da feira da ladra – se eu soubesse
que isto terminaria assim. talvez tivesse amado uma boneca de porcelana para
não ter que me envergonhar. para não ter que encontrar nenhuma palavra
que me isentasse de ter nascido assim. louco – mas se nasci louco como
penso. porque raio continuo a gostar de mim quando procuro chegar ao que
nunca alcanço – não sei. se soubesse possivelmente era dono de uma torre
de babel. um cavalo de corrida. dezassete gaivotas e uma cama que
me aceitasse quando sonho
com o sol de volta renasce a manhã – ergo-me das trevas. espreguiço-me.
chego-me à janela. olho o céu como quem quer medir a distância entre
a terra e os milagres. sorrio… epor ali fico a existir sem
querer saber nada do que dizem os astros para o dia de hoje – apetece-me unicamenteviver. aceitar o destino e inspirar o mundo – adoro estas manhãs em
que olho para o futuro sem me preocupar com o destino e. tal como disse
nelson mandela. “Seja qual for o Deus, eu sou mestre do meu destino e
capitão da minha alma.” – hoje. também eu me sinto mestre e capitão da
minha alma – a imensidão do céu azul liberdade de tomie ohtake disputa a luz
com o castanho infantil dos meus olhos. atrás de mim a juventude e a
cama por fazer. para a frente. o que me sobrou dos sonhos revolucionários
e o fim das camas por fazer – a linha do horizonte é sempre ténue e dolorosa para
quem acaba de acordar para o erro. parao sacrifício. paraa resiliência epara o combate diário corpo a corpo. não
fosse eu um sobrevivente da revolução de abril – olho o fim do mundo que os
meus olhos alcançam e digo para mim que estou a acordar: se o mundo é
assim tão enorme como dizem. porque será que me sinto sempre tão apertado.
tãoacanhado. a sufocar. como se o céu a todo o
momento me pudesse cair em cima da cabeça – agora percebo bem o medo do obelix.
também ele andava sempre apavorado que “le ciel lui tombe sur la tête”
– não nasci nem vivo em gália e também sinto que o céu me pode cair a todo o
momento sobre a cabeça – sorrio num jeito de deixa para lá. hoje não me
quero aborrecer. afinal o dia até está bonito – sei e sinto que mereço este
dia – para me despedir deste céu que me guarda o infinito. espreguiço-me
até tocar com as pontas dos dedos nas paredes do mundo e parto em direção ao polibã
a cantarolar grândolavila morena. do nosso amado zeca afonso – atiro-me
para debaixo da água “muy caliente”. digo uma dúzia de palavrões
e reafirmo: fascismo nunca mais. o povo é quem mais ordena – eu faço parte do
povo – lavo-me dos pesadelos da noite e prometo a mim mesmo enfrentar o meu
destino com briga.“é melhor morrer pelo fogo. em combate.
a morrer em casa. pela fome” [fidel castro] – enrolo-me num
toalhão estampado com um cravo vermelho de abril. dou duas lufadas de
bafo quente para o espelho e desapareço – às vezes não me suporto. mas
não é o caso de hoje – limpo-o com a ponta da toalha e dou comigo a brilhar.
a sorrir e com a barba aos saltos de um lado para o outro – é a minha barba
revolucionária da manhã. um pelo virado para a esquerda e outro para a
anarquia – um homem lavado é sempre bonito – sinto-me enorme. poderoso e
pergunto-me: será que é hoje o dia certo para vestir a t-shirt do che
guevara – penso duas vezes. olho para mim novamente… e. tudo
como dantes: sorridente. barbudo. enorme e poderoso – com
convicção digo para o gajo do espelho: é hoje que vais vestir o raio da
t-shirt – sei muito bem o que vale uma revolução. já vivi as suas falsidades.
contradições e ilusões –a democracia chegou à minha adolescência
exatamente como chegavam os propagandistas às romarias: carregados de
quinquilharias para vender ao preço da uva mijona–eram os
famosíssimos vendedores da banha da cobra e na verdade. tudo o que
impingiam. era muito mais do que produtos de baixa qualidade. era
magia. era o ressurgimento do milagre
da multiplicação no mundo contemporâneo. era a troca de uma nota por um
saco a abarrotar de coisa nenhuma - tal como os políticos - a ladainha era
sempre a mesma. com uma voz firme e uma oratória previamente treinada.
enérgica e objectiva. tomava conta da vontade do cliente que ficava
como a serpente do encantador: estacado e encantado. a sua única
motivação era deitar a mão às pechinchas – estes homens subiam para cima das
suas caminhetas. levantavam o tolde de lona e logo apareciam umas quantas
“rumas” de cobertores. bem empilhados. com as cores organizadas
num degradê harmonioso e mais outros mil e tantos produtos que ninguém sabia
para o que serviam – ajustavam à boca um micro preso ao peito. protegiam-no
com um lenço de mão para absorver os perdigotos. davam três pancadinhas
e começavam os testes: um dois três.
umdois três. um dois três quatrocinco…
seis mil cobertores vendidos. e logo de seguida. para não perder
nenhum romeiro. numa voz poderosa a imitar os primeiros locutores da
rádio. começava a propagandear os seus produtos com a arte dos grandes mestres
da oratória – eram homens cansativos. não se calavam um único segundo e
o romeiro nem tempo tinha para se questionar porque estava ali estacado.
e quando despertasse do encantamento. estava sem a nota de mouzinho da
silveira – o propagandista era um homem astuto e matreiro. e para que os
romeiros se sentissem mais tranquilos e confiantes. apontava-lhes o dedo
em riste. percorria-os um a um. agora numa locução meiga e doce e.
benzia-se com um olho na fé e outro nas notas de quinhentos – comunicar com
doçura era a sua arma secreta para apanhar na sua teia comunicacional os clientes
mais difíceis e desconfiados – era chegado o momento para juntar à doçura uma
laracha inofensiva e quebrar pelo humor o gelo dos mais resistentes:
-- estamos nesta romaria também a pedido
do seu santo padroeiro… não fiquem espantados! sim!… é
verdade… santo também tem as suas necessidades – o nosso querido s.
judas tadeu. mais uma vez. aproveitará a nossa presença nesta gloriosíssima
celebração em ação de graças para suprimir muitas das suas necessidades – podem
não acreditar. mas os santos também têm frio –por isso é que
aqui estamos todos mais uma vez. para agradecer. para louvar e
proclamar a obra salvífica de deus. que protegidos pela sua imensa
bondade nos permite. mais um ano. estarmos neste convívio
religiosos. alegrados pelos seus feitos e sempre fiéis ao seu chamamento
misericordioso – mais uma vezobrigado meu deus por poder tirar o
frio aos teus fiéis. amém
o suor caía-lhe em bica ensopando a camisa de satisfação.
de paixão. de arte e sacrifício – tanto palavreado. tanta
gesticulação. tanta imaginação e tudo para vender um cobertor – este sujeito
não parava um minuto. talvez use pilhas duracel
mas como vos
dizia. este é tambémo momento para que o nosso querido s. judas
tadeu. possa adquirir os nossos fantásticos produtos. que. como
sabem. são os mais baixos do universo – já não há milagre que faça
baixar o preço destes maravilhosos produtos – só deus e eu sabemos que este é o
preço justo para a excelência do que trazemos nesta carrinha de quatro rodas que
é o nosso ganha pão – vejam só -apontando para os cobertores-
podem dar a volta ao mundo duas vezes que. nunca encontrarão cobertores
com esta qualidade – saibam que com um cobertor fabricado com esta magnifica lã
nunca mais terão que ter medo às frentes frias que nos chegam da sibéria – o
senhor sabe que falo verdade e porque sou um homem grato aos seus desígnios a
“minha boca anunciará todos os dias vossa justiça e vossas graças incontáveis”
(Sl 70,14-15) amém – este cobertor será a minha ruína – senhores e senhoras.
o que vos peço por este fantástico cobertor será muito menos do que um
automóvel. um barco. um avião. uma viagem ao brasil. um
jantar no pedro dos leitões… este cobertor… este cobertor vai
custar a módica quantia de…
e a multidão em
desordem emocional comprime-se para ficar o mais perto possível do mestre das
vendas – é importante ver bem esse incrível cobertor que desafia os frios
gélidos siberianos – e lá continuava com a ladainha sem anunciar o preço do
cobertor – era assim que prendia a atenção dos romeiros
-- senhoras e senhores. meninas e meninos casadoiros.
vejam só a qualidade deste cobertor de pura lã virgem –com este
cobertor vindo diretamente das conceituadíssimas fábricas da serra da estrela.
nunca mais terão que passar os vossos invernos enregelados– o frio
acabou para sempre. e atenção senhoras e senhores!... para
levarem este fantástico e único cobertor para vossa casa… sim.
vocês vão querer levar o cobertor para vossa casas. não vai pagar mil
escudos. não vai pagar novecentos. não vai pagar oitocentos e
seiscentos também não. vai pagar uma miserável nota de quinhentos
escudos – por apenas quinhentos escudos terá no seu inverno o insuportável
calor deste mês de agosto. será como se vivessem na ilha selvagem das
caraíbas. como se cobrissem com um casaco de vison – uma pechincha…
e mesmo que viva mais duzentos anos. nunca mais terá a oportunidade de
comprar um cobertor com esta qualidade a este miserável preço de uma nota de
quinhentos paus
e sem deixar esmorecer
o desassossego numa multidão que não parava de aumentar. de se empurrar.
o mestre das vendas entusiasmado com a exaltação dos romeiros não parava de
pinchar de um lado para o outro. de gesticular. como se os braços
a todo o momento se desprendessem do corpo – já pouco espaço restava à sua
volta. tinha captado. definitivamente. a atenção dos
romeiros – este homem andava e pulava quilómetros em cima da sua caminheta.
ninguém ficava indiferente à sua resistência física: as pernas.
os braços. os olhos e a língua não paravam um minuto – vender era o seu
sustento. dava tudo o que tinha e mesmo o que já não tinha. nada nem
ninguém o desalentavae. se sentisse desânimo num ou outro
possível comprador. a solução era falar-lhe olhos nos olhos – e ele
fazia-o. arregalava os olhos de tal forma que era como se dissesse: está
proibido de sair daqui sem levar o cobertor – o suor caia-lhe testa abaixo. a
luta era corpo a corpo. romeiro a romeiro. cada cobertor vendido
era um dia de sustento
-- e atenção caros senhoras e senhores. saibam que com
o cobertor ainda levam uma faca de cozinha em aço inox mil e noventa e cinco.
usada pelos famosos ninjas na china antiga. e ainda… e ainda…
mais uma dúzia de copos em cristal da mongólia. e mais… hoje
estou um mãos-abertas… e só porque estou aqui nesta lindíssima terra.
e porque me sinto sentimental… quero que saibam quecom este
maravilhoso cobertor… levam esta fantástica faca. estes deslumbrantes
copos. e ainda. e ainda… e ainda… mais um saca
rolhas com um design singular do excêntrico magasin printemps parisiense – hoje
é o vosso dia de sorte
e não sei
quantas coisas mais pela módica quantia de quinhentos escudos – e o povinho romeiro
ali de volta a babar. inquieto. a aconchegar-se o mais à frente
possível. não fosse acabar a mercadoria – todosquerem ser os
primeiros a receber o cobertor da serra da estrela e todas as fantásticas quinquilharias
pela insignificância de uma nota de quinhentos escudos – é um grande negócio.
o propagandista ganha a vida e o romeiro leva para casa a ilusão de que fez o
negócio da sua vida. e mesmo não necessitando de nada do que mercou.
sente que foi uma pechincha de ocasião que nunca mais se voltará a repetir – todos
felizes: o propagandista. o povinho e também o santo padroeiro.
afinal de contas é mais um milagre debitado na sua contabilidade. acabando
por subir uns pontos no ranking dos santos e. obviamente. agradar a deus – ele sabe que ninguém gosta
mais de milagres que o seu chefe – e quando anunciava o começo da distribuição dos
produtos não se cansava de avisar. em voz ainda mais encorpada. de
que o stock era limitado – a agitação era total. empurrões e mais empurrões
e as notas de quinhentos no ar em acenos de agonia – era o black friday dos
nossos dias
-- e mais um conjunto para aquele cavalheiro. e outro
para esta menina casadoira e ainda mais outra para esta bonita família. e
esta senhora quer dois cobertores e quem levar dois cobertores não leva uma
faca. leva duas. não leva um saca-rolhas. mas sim dois
e o homem a
desfazer-se em simpatia e as notas de quinhentos em pilha. pousadas num cobertor
com um paralelepípedo em cima não fosse o vento se fanfarronar em democrata e
dividir a fortuna pelos menos abastados – foi mais ou menos assim que chegou a democracia
ao meu país. uns quantos políticos subiram para cima do palanque e
começaram a vender-nos a banha da cobra gesticulando não só os braços mas
também as idiotices – e o zé povo a viver um momento único e histórico.
eufórico. inculto. impreparado e sem maldade para perceber que
estava a lidar não com propagandistas. mas com charlatões – esta raça
escabrosa de políticos camaleónicos não troca cobertores por notas de
quinhentos. trocam votos por lugares numa casa que dizem ser da
democraciae da vontade do povo– mas não. não é a casa do
povo nem de coisa nenhuma. é o
esconderijo legalizado de um grupo de malfeitores que a coberto do voto
democrático duvidoso sonegam o erário público com a maior hipocrisia e
desfaçatez. tornando os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos e
poderosos– é a toca onde duzentos e trinta bandidos. sem escrúpulos. ano
após ano. nos atulha de mentiras e nos rouba a esperança – infelizmente
ainda não inventaram uma nova ordem política mais competente e justa – temos
que nos aguentar com estes malfazentes. temos que votar nos menos maus.
nos que nos roubam com mais cuidado e vergonha – e o povo iludido na revolução gritava
palavras de ordem como se também eles tivessem derrubado a ditadura – a nossa democracia
acabou com mais de mil privilégios. mas depressa criou outros que por
serem tantos ninguém consegue contar – o mundo das revoluções está repleto de
contradições – uma sociedade livre é uma sociedade desigual. injusta e
discriminatória – mais liberdade é igual a mais horror nas desigualdades – e é
assim que aparecem os desarreigados. os inconformados. os que
precisam de revoluções diárias para aceitar as suas contradições – a revolução
de hoje retificará os erros da revolução de ontem – eu vivo numa revolução
contínua. também eu retifico hoje os erros de ontem e. amanhã.
noutra revolução. já sei que retificarei os de hoje – liberdade.
fraternidade e igualdade são conceitos sustentados pela retórica política
porque em boa verdade nenhuma destas palavras sobreviveria ao produto final das
revoluções – mas como diz nelson mandela: “não existe nenhum passeio
fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o
vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da
montanha dos nossos desejos” – é por isso que eu vivo num mundo de
revoluções. o meu vale da morte é diário. e a luta para o
ultrapassar é palavra de ordem – mas o importante é que mesmo nesta democracia
imperfeita o meu país ficou mais justo depois da revolução de abril – o meu
lamento vai apenas para o tipo de gentalha que tem comandado o destino desta
fantástica nação de gente boa e bonita –na verdade. os políticos que
nos venderam a democracia não foram nada diferentes dos propagandistas da minha
adolescência. prometeram-nos um cobertor e não sei mais quantas coisas
que depressa percebemos que não correspondia à verdade – mas quem for sério não
pode nunca dizer que a sua vida não melhorou depois da revolução de abril. melhorou
e muito – estou imensamente grato a todos aqueles que de uma maneira ou de
outra contribuíram para que aquele movimento das forças armadas rompesse
naquela madrugada de abril – confesso que ao fim destes anos todos sou ainda um
resistente de abril. faço parte do povo unido jamais será vencido;“da força. força. companheiro vasco. nós seremos a
muralha de aço; do trabalho dá pão. repressão não; da
terra a quem a trabalha; medo nunca mais; da paz. pão. habitação;
e viva a liberdade e o MFA [movimento das forças armadas]” – e eu a
crescer com a velocidade dos cometas. feliz. como se as
revoluções existissem para sempre. como se a adolescência se eternizasse
em manifestações e reivindicações e o corpo nunca parasse de gritar: fascismo
nunca mais – mas “adelante adelante”. que a saudade também mata –
amarro nas jeans e enfio-as até que nada sobre das pernas de abril. aperto
o fecho e o botão numa correria. enfio a t-shirt do che. calço uns
calcantes tipo charlie chaplin. viro-me para a porta no mundo que
sustenta os astros e questiono-me: vais a correr ou levas o que te pesa
pela mão? saio a correr. corro como se a revolução me perseguisse.
olho o céu novamente. o azul já não é de liberdade e as nuvens ficaram
mais nuvens – será que o mau tempo está por aí a chegar? talvez não seja má
ideia resgatar o guarda-chuva do bengaleiro – volto atrás. contrariado.
nas revoluções a chuva não molha. reabro a porta da minha única casa.
olho para dentro à minha procura e não me vejo: o mais certo é ter ido
para a concentração da CGTP [confederação geral dos trabalhadores portugueses] na
avenida central – pego no guarda-chuva do 007 não vá a chuva trazer com ela um
fascista tresloucado. na gabardina do detetive colombo. nunca se
sabe se a PIDE [polícia internacional e de defesa do estado] ainda está operacional.
no chapéu e bengala do poirrot.
a vida sorri sempre para quem usa a massa cinzenta. e por último. a
lupa do holmes. envelhecer obriga-nos a ver tudo ao pormenor – e fui
pelo mundo fora como se tivesse acabado de me tornar num revolucionário da LUAR
[liga de unidade de acção popular] – passa por mim. em sentido contrário
o zé povinho com um dinossauro político preso a um cordel. um pato bravo
a fazer quá quá e um elefante branco num show de trapézio. equilibra-se
numa só pata em cima de uma cigarra que não para de gemer. o peso um dia
destes parte-lhe a coluna –atrás. em passo lento ede
vara na mão. o destino a tocar tudo para o dia seguinte vai gritando:
sem cultura não há liberdade – ninguém se mete com o destino. mas eu sou
um revolucionário de abril e trago o che ao peito. sem medodisse-lhe:
estás a caminhar para o lado errado. a cultura com liberdade é para o
lado oposto – olhou-me com ar de poucos amigos. aproximou-se. sacou
de uma faca de ponta e mola e encostou-ma ao pescoço. e numa voz rouca-intranquila.
disse-me: cresce. vai-te foder – sorri e disse-lhe: outra
vez!!!... – virei as costas. olhei para a t-shirt e pensei:
sou mesmo um revolucionário não só de abril. mas de todos os meses – e
segui rua abaixo cantarolando "hasta siempre comandante che. hasta sempre comandante che" – e lá foi o destino à sua vida e eu à minha – agostinho
da silva dizia que a liberdade só existe quando todos os nossos actos concordam
com todo o nosso pensamento – não minha vida os meus actos não concordaram com
todo o meu pensamento. mas uma coisa sei. sempre escolhi o
caminho que pisei e sempre em total liberdade – “hasta siempre”