emdezembro de 2010
resolvi trazer para casa um aquário e cinco peixes miscigenados na raça e na
cor – instalei a caixa de vidro num local aconchegado e protegido das correntes
de ar. forrei o fundo com joguinhas brancas. encalhei uma nau
naufragada do tempo do vasco da gama. plantei umas algas verdes fofinhas
para que os guelras pudessem jogar ao esconde esconde. encrostei uma
ânfora que borbulha bolhinhas de oxigénio e. mais uns quantos bisegres
para que o fundo da caixa reproduzisse. dentro das inúmeras limitações.
o fundo do oceano – depois de tudo devidamente preparado e ornamentado inundei
a caixa de vidro com água da companhia – delicadamente. abri a saca de
plástico transparente. que me permitiu transportar os guelras da loja
até casa e. um a um. com delicadeza. operei o transbordo
para o meu oceano pacífico privado – e ali fiquei a apreciar os meus novos
animais de estimação. quer dizer. os meus novos guelras de
estimação e. rapidamente percebi. de que os peixes e as crianças têm
uma característica em comum. só precisam de liberdade para serem felizes
– ali estava eu parado. também imerso em prazer. a degustar o meu
novo e excêntrico “affair” hídrico. suplementado com uma convicção firme
de que tinha acertado no escolhimento dos novos inquilinos para o meu exótico
aquário – os guelras estavam felizes e confiantes no seu novo habitat. estavam
enérgicos. corriam como loucos. davam piruetas com curvas e
contracurvas. faziam bolhinhas pela boca e as barbatanas não paravam de
bater. mais parecia o voo das andorinhas a anunciar a primavera.
tal era a velocidade e alegria com que se moviam de um lado para o outro –
estávamos todos felizes. eu. os peixes e o max. que ao meu
lado. intrigado com a singularidade dos feitios e cores dos novos amigos.
não parava de abanar a cauda – estava tudo a correr dentro da normalidade
perspetivada pela vendedora. especialista em animais de todas as
espécies. quando me apercebi que algo estranho estava a acontecer. os guelras estavam tremulosos e. os
olhosesbugalhadosnão paravam de piscar – esta altercação não
estava prevista no manual de boas práticas de manuseamento e bem-estar de
peixes ornamentais – entrei em pânico. não sabia nada da anatomia de
peixes. em toda a minha vida só com cães tinha partilhado afetos.
não fazia a menor ideia de como se tratava um peixe e muito menos avaliar a
gravidade dos seus sintomas – será que estavam todos a ter um AVC por
intoxicação da água? ou seriam apenas pequenos espasmos nervosos de adaptação
ao seu novo lar? o que me desassossega. é que para o bem e para o mal.
sou eu o único responsável pelo seu bem-estar – estamos numa época em que não
se pode facilitar com os cuidados aos animais. ainda me culpam de maus
tratos e quem sabe. acabo em tribunal acusado de negligência – e pior.
estou sujeito a que a qualquer momento me toque a campainha e me apareça à
porta a CMTV acompanhada pelo PAN [partida das pessoas. dos animais e da natureza]–
comecei à procura do que poderia estar a causar aquele pisca pisca e pensei:
será que os peixes estão nauseados com o cloro da água da companhia? é bem
possível. a água ultimamente não tem andado grande coisa – se fossem
humanos. percebíamos com facilidade se o problema recaía sobre a má
qualidade da água. reviravam os olhos. esfregavam-nos e logo concluíamos
que a maleita passaria com umas gotas oftalmológicas – mas a verdade é que os
guelras não tem mãos e as barbatanas são curtas. creio que nem esticadas
chegam aos olhos. que chatice. nem uma comichãozinha podem ter –
deus lá teve as suas razões para que na sua infinitude sabedoria não lhes desse
mãos – mas a verdade. é que se lhes tivesse implantado umas mãozinhas.
tinha-me aligeirado a resolução do problema. misturava na água umas gotinhas
para a conjuntivite e logo via se o pisca pisca diminuía – vá-se lá entender
deus e os peixes – mas o melhor é meter a viola ao saco e calar-me. não
vá o todo o poderoso aborrecer-se com este meu palavreado e ainda lhes
desarranja os intestinos –já deveria saber há muito
que os desígnios de deus são insondáveis e nunca questionáveis – começo a ficar
preocupado. sinto que o pisca pisca está mais intenso e também os sinto
mais paraditos – pudessem ao menos chorar para eu perceber a gravidade do piscar
do olhos – mas como se veria uma lágrima no meio de um oceano? os peixes são
uma dor de cabeça – pensando bem. talvez nesta coisa das lágrimas a
minha preocupação seja uma tolice. os peixes não choram não por não
terem lágrimas. mas porque não tem sentimentos – a verdade é que também
conheço muitos humanos assim. sem lágrimas e sem sentimentos e não vivem
no meio do oceano – quem sabe se deus quando criou o mundo animal tenha
concebido os peixes propositadamente assim. diferentes de todos os
outros animais – talvez quisesse um animal que não fosse bem animal. distinto
de tudo o que tinha criado até ao momento. distante dos homens.
escamado. com guelras para sobreviver escondido na água. frio.
sem sorrisos. com mau feitio e indiferente a tudo que existe fora do
mundo aquático – e por mais tentativas do homem para influenciar o seu modo de
viver. domesticar. ou até mantê-los em cativeiro. a
resposta seria sempre um desapego silencioso por tudo o que o rodeia.
sem emoções. sem latidos ou abanares da cauda. sem rosnar.
sem miar. sem asas e sem sonhos– tudo o que este animal marítimo
traz ao mundo dos humanos é um alheamento sincronizado do movimento das
barbatanas com o abrir e fechar das guelras. abana o rabo e pisca os
olhos para assinalar a marcha pela profundeza dos oceanos – deus
substituiu-lhes então as mãos por guelras para que não pudessem abraçar. de
seguida. tirou-lhe a voz para que não pudessem dizer: gosto de ti
e ainda insatisfeito. trocou os pulmões por guelras para que não
pudessem arfar quando se apaixonassem – por fim. meteu-os nos oceanos e
mandou-os multiplicarem-se. dizendo-lhes: vocês serão o maior
desafio para a humanidade– os homens nunca compreenderão a vossa
indiferença. nem tão pouco aceitarão a forma como vos amais – e assim se
fez a vida dos peixes desde a criação do mundo até à compra do meu aquário – a
vida dos animais com guelras é realmente muito complicada e insípida – foi
quando pensei como a criação do homem foi especial. como é bom dizer a
alguém gosto de ti. abraçar e sentir o calor da retribuição. o
carinho de um abraço. um sorriso. uma palavra ou uma lágrima – deus
fez um grande trabalho – enquanto me inebriavacom as correrias dos guelras. sentado a meu
lado o meu cão seguia atentamente as acrobacias dos seus novos camaradas com
espanto. percebi no seu olhar que estava feliz. não sei se por
achar que teria ganho mais cinco companheiros. ou apenas porque estava solidário
com a minha alegria – a vida só tem sentido quando não desistimos dos afetos.
mesmo quando esses afetos são difíceis de alcançar. como com os peixes –
encostei a minha cara ao aquário e com um sorriso de quem gosta de fazer novos
amigos apresentei-me: sou o sampaio. muito gosto. sou o
vosso encarregado de bem-estar. espero que se sintam confortáveis na
vossa casa. que também é a minha – fiquei à espera de uma resposta
emocional. um olá. uma cambalhota com um mortal à retaguarda. um
borrifo de água. mas nada – foi quando fui levemente surpreendido. depois
da apresentação fiquei com a ideia de que já não piscavam os olhos e.
estava para jurar. que até sorriam – fiquei em paz e resolvi não mais questionar
ou mudar o que deus fez – olhei novamente… e decidi batizá-los.
escrevi o texto: aquário
sampaio rego 20 de novembro de 2019
aquário
os meus olhos encheram-se de peixes – eugénio.
amarelo. explícito na sensibilidade – camões. nos olhos a sua
marca – excêntrico. chama-se dali. são cores – torga. veste-se
de negro. talvez saiba da morte – pessoa. sempre ele. um
vira casacas. à noite caeiro – eu… sou aquário de ascendente
[hoje]. mas só depois de carneiro
[dedicado a júlio saraiva poeta e
jornalista já falecido]
sou teatro…
parei agora para pensar um pouco
sossegar-me destas aflições
vocês compreendem…
não é fácil representar toda a vida.
nesta pausa
posso ser quem sou
inclino-me,
seguro a cabeça com as mãos
fecho os olhos
e vestido a preceito desde a última
cena
viajo até à nascente,
lá… onde vivem as fadas.
neste encontro,
não preciso do ponto
nem do contraponto
e nas luzes da ribalta
surgem sonhos infrangíveis
neste pensar, encontro-me
em palcos dourados,
tribunas,
plateias,
camarotes,
frisas e palmas
é o teatro gigante
e eu tão pequeno
tudo esgotado,
tudo de pé
chamam-me os aplausos
em coro,
acenam cachoeiras de flores
que eclodem aos meus pés.
é a primavera
pensava eu.
…
mas os olhos ainda raíam
deste descer à verdade.
rompem as pancadas de molière
o contrarregra vai subir o pano
também eu subo à vida
acabou o teatro.
nodia em que postei o teatro no luso
poemas. agosto de 2009. recebi uma mensagem privada do poeta e
jornalista júlio saraiva que. amavelmente. fez questão de me
dizer que tinha apreciado imensamente o poema e. na sua simplicidade.
pediu-me autorização para o levar para o seu blogue – nem queria acreditar que o
júlio saraiva se tinha dado ao trabalho de me escrever. que me elogiasse
e quisesse divulgar o poema na sua página – é a primeira vez que torno público
este episódio. confesso que fiquei um pouco envergonhado e pensei:
e agora o que vai ser de mim. como vou manter o nível. que dirá o
júlio quando ler o meu próximo poema – admito que nunca me senti nem confortável.
nem feliz com a poesia. só a prosa me enredava o tempo com alegria – entrei
em pânico e achei que o melhor para a minha poesia seria silenciar-me.
quanto menos pessoas soubessem deste episódio melhor – não sei se alguma vez o
postou. confesso que não sou muito bom a tomar conta da vida dos outros.
mas também não é importante. valorizo mais o impulso. valorizo
mais a verdade do momento. e esta é sempre mais apreciada quando emerge na
espontaneidade – uns tempos depois faleceu e nunca tive oportunidade de lhe
agradecer aquele gesto. principalmente. nunca tive oportunidade
de lhe dizer como aquela mensagem. naquele momento. me ajudou a
renovar a vontade de escrever – o luso era um espaço pequeno para tanto ego
gigante. sobrava a vaidade. a arrogância. a falta de
humildade e. principalmente. o bom senso e a tolerância – reconheço
que havia colegas intragáveis. com mau carácter. monstrinhos egocêntricos
que projetavam uma grandeza que em boa verdade não tinham – ser grande entre os
pequenos não os tornavam especiais – não era fácil lidar com esse lado negro
dos poetas – mas bem lá no fundo confesso que aprendi muito
com os meus camaradas do luso e a todos estou agradecido – depois. tal como os
mágicos fazem magia. o júlio também fez acontecer um momento excecional
para mim – durante um tempo esqueci tudo o que era mau – a modéstia chega sempre
mais depressa por quem não precisa de se por em bicos de pés para ganhar altura.
já são grandes e ponto – que nunca lhe falte nada esteja ele onde estiver. mas
se faltar. que não seja papel. lápis e… amigos. para que.
em companhia. beba o seu “choupinho”
emcontramão. uma dama rebuliça e enérgica
dirige-se para mim – acerto-lhe com os olhos e interrogo-me: será que vou
ter problemas. a esta velocidade vai-se-me enfaixar no pescoço – cabelo loiro
oxigenado. levantado à frente. face redonda e rosada. não
sei se é cor natural ou está apenas afogueada da velocidade que imprime ao
andamento. uma pochete louis vitton contrafacionada num bairro chinês de
pequim. acompanha o movimento das pernas numa desordem perigosa. ainda
vai dar com o adereço na cabeça de algum transeunte – botas douradas. furadas
com estilização. sobem-lhe pela perna com ganas de chegar o mais longe
possível – dois dedos acima de uma rótula rombuda e três abaixo da cintura uma
pequena mini saia branca vestida com desprezo. a fazer sobressair uma
cicatriz mal-arrumada no umbigo. mascarada de importância com piercings-diamante
falso de quinze quilates – confesso que fiquei com a ideia de que a saia era
apenas um adorno para desviar as atenções do umbigo – olhos redondos. claros.
a contrastar com uma pintura excêntrica. umnegro que não era
luto. balançava o corpo numa agitação perigosa para os dois enormes
seios amarrotados pela licra preta de uma camisola de alças – confesso que por
momentos entrei em pânico. a aproximação apresentava-se desatenta.
descuidada e desnorteada e decididamente em excesso de velocidade – tinha que
evitar a todo custo o embate – já não tenho condições para choques com viaturas
de transporte de matérias perigosas – cerrei os dentes e preparei-me para a
fusão dos corpos – quando pensei que o embate era inevitável a dama num
movimento de toureio atira com as ancas para um lado e sai com o tronco pelo
outro – foi tudo tão rápido que comecei à procura da bandarilha espetada no
corpo – felizmente tudo não passou de excitação – olhei para trás e ainda não
recuperado percebi que a minha alucinação se deveu a uma mini saia comprada nas
galerias lafayette de paris. encandeou-me. cegou-me. roubou-me o
norte e mesmo numa excitante desordem mental. percebi rapidamente que me
tinha perdido nos adereços. a testosterona invadiu-me os neurónios. começou
a descer-me pelas vértebras. comecei a suar em bica e quando dei conta
estava com a dama em pecado. em pensamento. mesmo à minha frente –
era muita mulher para mim. era muita curva e contracurva. era um
pecado quase mortal. deus e a minha companheira nunca me perdoariam um
pecado com esta dimensão – desorientado. fiquei sem saber se seria
melhor atirar-me para uma valeta ou aceitar o embate como inevitável e
preparar-me para as consequências – era impossível ficar indiferente às
propriedades naturais [penso eu] desta excêntrica dama – deitei os olhos ao
chão. arrependi-me. voltei a olhar. deitei novamente os
olhos ao chão. voltei a arrepender-me. voltei com os olhos para o
chão. e é quando surpreendentemente a dama dirige-me a palavra:
estás a olhar para onde – surpreendido. envergonhado e embaraçado
respondi: estava a olhar para a celulite. isso não está nada bem e
não condiz com a mini saia – e assim. numa manhã de quarta-feira nos
cruzamos numa eternidade de tempo: eu tão cedo não vou esquecer esta
dama e a dama vai comprar todas os cremes anti celulite que existirem no
planeta e arredores – ninguém se transforma naquilo que não é…
escrevo. escrevo e existo para logo de seguida desaparecer
como desaparece o fósforo em combustão – a palavra é um amor repentino com uma única
chama intensa – depois. como se tudo não passasse de um caso. tudo
morre com a leitura – no chão. como que a dizer que afinal a palavra é efémera.
o pauzinho carbonizado aduba a terra. onde um dia. quem sabe.
nasce uma flor qualquer – paz ao escritor
talvez
esteja louco. mas às vezes
acredito que estou onde nunca consigo chegar – se não estou louco. então.
sou a vontade de um deus. ou de um génio. ou uma peça de um xadrez
estranho. ou até quem sabe. um caminho tortuoso para chegar a um lugar
que ainda não existe. ou sou outra qualquer coisa insignificante que por
não ter valor se encontra postado no chão da feira da ladra – se eu soubesse
que isto terminaria assim. talvez tivesse amado uma boneca de porcelana para
não ter que me envergonhar. para não ter que encontrar nenhuma palavra
que me isentasse de ter nascido assim. louco – mas se nasci louco como
penso. porque raio continuo a gostar de mim quando procuro chegar ao que
nunca alcanço – não sei. se soubesse possivelmente era dono de uma torre
de babel. um cavalo de corrida. dezassete gaivotas e uma cama que
me aceitasse quando sonho
com o sol de volta renasce a manhã – ergo-me das trevas. espreguiço-me.
chego-me à janela. olho o céu como quem quer medir a distância entre
a terra e os milagres. sorrio… epor ali fico a existir sem
querer saber nada do que dizem os astros para o dia de hoje – apetece-me unicamenteviver. aceitar o destino e inspirar o mundo – adoro estas manhãs em
que olho para o futuro sem me preocupar com o destino e. tal como disse
nelson mandela. “Seja qual for o Deus, eu sou mestre do meu destino e
capitão da minha alma.” – hoje. também eu me sinto mestre e capitão da
minha alma – a imensidão do céu azul liberdade de tomie ohtake disputa a luz
com o castanho infantil dos meus olhos. atrás de mim a juventude e a
cama por fazer. para a frente. o que me sobrou dos sonhos revolucionários
e o fim das camas por fazer – a linha do horizonte é sempre ténue e dolorosa para
quem acaba de acordar para o erro. parao sacrifício. paraa resiliência epara o combate diário corpo a corpo. não
fosse eu um sobrevivente da revolução de abril – olho o fim do mundo que os
meus olhos alcançam e digo para mim que estou a acordar: se o mundo é
assim tão enorme como dizem. porque será que me sinto sempre tão apertado.
tãoacanhado. a sufocar. como se o céu a todo o
momento me pudesse cair em cima da cabeça – agora percebo bem o medo do obelix.
também ele andava sempre apavorado que “le ciel lui tombe sur la tête”
– não nasci nem vivo em gália e também sinto que o céu me pode cair a todo o
momento sobre a cabeça – sorrio num jeito de deixa para lá. hoje não me
quero aborrecer. afinal o dia até está bonito – sei e sinto que mereço este
dia – para me despedir deste céu que me guarda o infinito. espreguiço-me
até tocar com as pontas dos dedos nas paredes do mundo e parto em direção ao polibã
a cantarolar grândolavila morena. do nosso amado zeca afonso – atiro-me
para debaixo da água “muy caliente”. digo uma dúzia de palavrões
e reafirmo: fascismo nunca mais. o povo é quem mais ordena – eu faço parte do
povo – lavo-me dos pesadelos da noite e prometo a mim mesmo enfrentar o meu
destino com briga.“é melhor morrer pelo fogo. em combate.
a morrer em casa. pela fome” [fidel castro] – enrolo-me num
toalhão estampado com um cravo vermelho de abril. dou duas lufadas de
bafo quente para o espelho e desapareço – às vezes não me suporto. mas
não é o caso de hoje – limpo-o com a ponta da toalha e dou comigo a brilhar.
a sorrir e com a barba aos saltos de um lado para o outro – é a minha barba
revolucionária da manhã. um pelo virado para a esquerda e outro para a
anarquia – um homem lavado é sempre bonito – sinto-me enorme. poderoso e
pergunto-me: será que é hoje o dia certo para vestir a t-shirt do che
guevara – penso duas vezes. olho para mim novamente… e. tudo
como dantes: sorridente. barbudo. enorme e poderoso – com
convicção digo para o gajo do espelho: é hoje que vais vestir o raio da
t-shirt – sei muito bem o que vale uma revolução. já vivi as suas falsidades.
contradições e ilusões –a democracia chegou à minha adolescência
exatamente como chegavam os propagandistas às romarias: carregados de
quinquilharias para vender ao preço da uva mijona–eram os
famosíssimos vendedores da banha da cobra e na verdade. tudo o que
impingiam. era muito mais do que produtos de baixa qualidade. era
magia. era o ressurgimento do milagre
da multiplicação no mundo contemporâneo. era a troca de uma nota por um
saco a abarrotar de coisa nenhuma - tal como os políticos - a ladainha era
sempre a mesma. com uma voz firme e uma oratória previamente treinada.
enérgica e objectiva. tomava conta da vontade do cliente que ficava
como a serpente do encantador: estacado e encantado. a sua única
motivação era deitar a mão às pechinchas – estes homens subiam para cima das
suas caminhetas. levantavam o tolde de lona e logo apareciam umas quantas
“rumas” de cobertores. bem empilhados. com as cores organizadas
num degradê harmonioso e mais outros mil e tantos produtos que ninguém sabia
para o que serviam – ajustavam à boca um micro preso ao peito. protegiam-no
com um lenço de mão para absorver os perdigotos. davam três pancadinhas
e começavam os testes: um dois três.
umdois três. um dois três quatrocinco…
seis mil cobertores vendidos. e logo de seguida. para não perder
nenhum romeiro. numa voz poderosa a imitar os primeiros locutores da
rádio. começava a propagandear os seus produtos com a arte dos grandes mestres
da oratória – eram homens cansativos. não se calavam um único segundo e
o romeiro nem tempo tinha para se questionar porque estava ali estacado.
e quando despertasse do encantamento. estava sem a nota de mouzinho da
silveira – o propagandista era um homem astuto e matreiro. e para que os
romeiros se sentissem mais tranquilos e confiantes. apontava-lhes o dedo
em riste. percorria-os um a um. agora numa locução meiga e doce e.
benzia-se com um olho na fé e outro nas notas de quinhentos – comunicar com
doçura era a sua arma secreta para apanhar na sua teia comunicacional os clientes
mais difíceis e desconfiados – era chegado o momento para juntar à doçura uma
laracha inofensiva e quebrar pelo humor o gelo dos mais resistentes:
-- estamos nesta romaria também a pedido
do seu santo padroeiro… não fiquem espantados! sim!… é
verdade… santo também tem as suas necessidades – o nosso querido s.
judas tadeu. mais uma vez. aproveitará a nossa presença nesta gloriosíssima
celebração em ação de graças para suprimir muitas das suas necessidades – podem
não acreditar. mas os santos também têm frio –por isso é que
aqui estamos todos mais uma vez. para agradecer. para louvar e
proclamar a obra salvífica de deus. que protegidos pela sua imensa
bondade nos permite. mais um ano. estarmos neste convívio
religiosos. alegrados pelos seus feitos e sempre fiéis ao seu chamamento
misericordioso – mais uma vezobrigado meu deus por poder tirar o
frio aos teus fiéis. amém
o suor caía-lhe em bica ensopando a camisa de satisfação.
de paixão. de arte e sacrifício – tanto palavreado. tanta
gesticulação. tanta imaginação e tudo para vender um cobertor – este sujeito
não parava um minuto. talvez use pilhas duracel
mas como vos
dizia. este é tambémo momento para que o nosso querido s. judas
tadeu. possa adquirir os nossos fantásticos produtos. que. como
sabem. são os mais baixos do universo – já não há milagre que faça
baixar o preço destes maravilhosos produtos – só deus e eu sabemos que este é o
preço justo para a excelência do que trazemos nesta carrinha de quatro rodas que
é o nosso ganha pão – vejam só -apontando para os cobertores-
podem dar a volta ao mundo duas vezes que. nunca encontrarão cobertores
com esta qualidade – saibam que com um cobertor fabricado com esta magnifica lã
nunca mais terão que ter medo às frentes frias que nos chegam da sibéria – o
senhor sabe que falo verdade e porque sou um homem grato aos seus desígnios a
“minha boca anunciará todos os dias vossa justiça e vossas graças incontáveis”
(Sl 70,14-15) amém – este cobertor será a minha ruína – senhores e senhoras.
o que vos peço por este fantástico cobertor será muito menos do que um
automóvel. um barco. um avião. uma viagem ao brasil. um
jantar no pedro dos leitões… este cobertor… este cobertor vai
custar a módica quantia de…
e a multidão em
desordem emocional comprime-se para ficar o mais perto possível do mestre das
vendas – é importante ver bem esse incrível cobertor que desafia os frios
gélidos siberianos – e lá continuava com a ladainha sem anunciar o preço do
cobertor – era assim que prendia a atenção dos romeiros
-- senhoras e senhores. meninas e meninos casadoiros.
vejam só a qualidade deste cobertor de pura lã virgem –com este
cobertor vindo diretamente das conceituadíssimas fábricas da serra da estrela.
nunca mais terão que passar os vossos invernos enregelados– o frio
acabou para sempre. e atenção senhoras e senhores!... para
levarem este fantástico e único cobertor para vossa casa… sim.
vocês vão querer levar o cobertor para vossa casas. não vai pagar mil
escudos. não vai pagar novecentos. não vai pagar oitocentos e
seiscentos também não. vai pagar uma miserável nota de quinhentos
escudos – por apenas quinhentos escudos terá no seu inverno o insuportável
calor deste mês de agosto. será como se vivessem na ilha selvagem das
caraíbas. como se cobrissem com um casaco de vison – uma pechincha…
e mesmo que viva mais duzentos anos. nunca mais terá a oportunidade de
comprar um cobertor com esta qualidade a este miserável preço de uma nota de
quinhentos paus
e sem deixar esmorecer
o desassossego numa multidão que não parava de aumentar. de se empurrar.
o mestre das vendas entusiasmado com a exaltação dos romeiros não parava de
pinchar de um lado para o outro. de gesticular. como se os braços
a todo o momento se desprendessem do corpo – já pouco espaço restava à sua
volta. tinha captado. definitivamente. a atenção dos
romeiros – este homem andava e pulava quilómetros em cima da sua caminheta.
ninguém ficava indiferente à sua resistência física: as pernas.
os braços. os olhos e a língua não paravam um minuto – vender era o seu
sustento. dava tudo o que tinha e mesmo o que já não tinha. nada nem
ninguém o desalentavae. se sentisse desânimo num ou outro
possível comprador. a solução era falar-lhe olhos nos olhos – e ele
fazia-o. arregalava os olhos de tal forma que era como se dissesse: está
proibido de sair daqui sem levar o cobertor – o suor caia-lhe testa abaixo. a
luta era corpo a corpo. romeiro a romeiro. cada cobertor vendido
era um dia de sustento
-- e atenção caros senhoras e senhores. saibam que com
o cobertor ainda levam uma faca de cozinha em aço inox mil e noventa e cinco.
usada pelos famosos ninjas na china antiga. e ainda… e ainda…
mais uma dúzia de copos em cristal da mongólia. e mais… hoje
estou um mãos-abertas… e só porque estou aqui nesta lindíssima terra.
e porque me sinto sentimental… quero que saibam quecom este
maravilhoso cobertor… levam esta fantástica faca. estes deslumbrantes
copos. e ainda. e ainda… e ainda… mais um saca
rolhas com um design singular do excêntrico magasin printemps parisiense – hoje
é o vosso dia de sorte
e não sei
quantas coisas mais pela módica quantia de quinhentos escudos – e o povinho romeiro
ali de volta a babar. inquieto. a aconchegar-se o mais à frente
possível. não fosse acabar a mercadoria – todosquerem ser os
primeiros a receber o cobertor da serra da estrela e todas as fantásticas quinquilharias
pela insignificância de uma nota de quinhentos escudos – é um grande negócio.
o propagandista ganha a vida e o romeiro leva para casa a ilusão de que fez o
negócio da sua vida. e mesmo não necessitando de nada do que mercou.
sente que foi uma pechincha de ocasião que nunca mais se voltará a repetir – todos
felizes: o propagandista. o povinho e também o santo padroeiro.
afinal de contas é mais um milagre debitado na sua contabilidade. acabando
por subir uns pontos no ranking dos santos e. obviamente. agradar a deus – ele sabe que ninguém gosta
mais de milagres que o seu chefe – e quando anunciava o começo da distribuição dos
produtos não se cansava de avisar. em voz ainda mais encorpada. de
que o stock era limitado – a agitação era total. empurrões e mais empurrões
e as notas de quinhentos no ar em acenos de agonia – era o black friday dos
nossos dias
-- e mais um conjunto para aquele cavalheiro. e outro
para esta menina casadoira e ainda mais outra para esta bonita família. e
esta senhora quer dois cobertores e quem levar dois cobertores não leva uma
faca. leva duas. não leva um saca-rolhas. mas sim dois
e o homem a
desfazer-se em simpatia e as notas de quinhentos em pilha. pousadas num cobertor
com um paralelepípedo em cima não fosse o vento se fanfarronar em democrata e
dividir a fortuna pelos menos abastados – foi mais ou menos assim que chegou a democracia
ao meu país. uns quantos políticos subiram para cima do palanque e
começaram a vender-nos a banha da cobra gesticulando não só os braços mas
também as idiotices – e o zé povo a viver um momento único e histórico.
eufórico. inculto. impreparado e sem maldade para perceber que
estava a lidar não com propagandistas. mas com charlatões – esta raça
escabrosa de políticos camaleónicos não troca cobertores por notas de
quinhentos. trocam votos por lugares numa casa que dizem ser da
democraciae da vontade do povo– mas não. não é a casa do
povo nem de coisa nenhuma. é o
esconderijo legalizado de um grupo de malfeitores que a coberto do voto
democrático duvidoso sonegam o erário público com a maior hipocrisia e
desfaçatez. tornando os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos e
poderosos– é a toca onde duzentos e trinta bandidos. sem escrúpulos. ano
após ano. nos atulha de mentiras e nos rouba a esperança – infelizmente
ainda não inventaram uma nova ordem política mais competente e justa – temos
que nos aguentar com estes malfazentes. temos que votar nos menos maus.
nos que nos roubam com mais cuidado e vergonha – e o povo iludido na revolução gritava
palavras de ordem como se também eles tivessem derrubado a ditadura – a nossa democracia
acabou com mais de mil privilégios. mas depressa criou outros que por
serem tantos ninguém consegue contar – o mundo das revoluções está repleto de
contradições – uma sociedade livre é uma sociedade desigual. injusta e
discriminatória – mais liberdade é igual a mais horror nas desigualdades – e é
assim que aparecem os desarreigados. os inconformados. os que
precisam de revoluções diárias para aceitar as suas contradições – a revolução
de hoje retificará os erros da revolução de ontem – eu vivo numa revolução
contínua. também eu retifico hoje os erros de ontem e. amanhã.
noutra revolução. já sei que retificarei os de hoje – liberdade.
fraternidade e igualdade são conceitos sustentados pela retórica política
porque em boa verdade nenhuma destas palavras sobreviveria ao produto final das
revoluções – mas como diz nelson mandela: “não existe nenhum passeio
fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o
vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da
montanha dos nossos desejos” – é por isso que eu vivo num mundo de
revoluções. o meu vale da morte é diário. e a luta para o
ultrapassar é palavra de ordem – mas o importante é que mesmo nesta democracia
imperfeita o meu país ficou mais justo depois da revolução de abril – o meu
lamento vai apenas para o tipo de gentalha que tem comandado o destino desta
fantástica nação de gente boa e bonita –na verdade. os políticos que
nos venderam a democracia não foram nada diferentes dos propagandistas da minha
adolescência. prometeram-nos um cobertor e não sei mais quantas coisas
que depressa percebemos que não correspondia à verdade – mas quem for sério não
pode nunca dizer que a sua vida não melhorou depois da revolução de abril. melhorou
e muito – estou imensamente grato a todos aqueles que de uma maneira ou de
outra contribuíram para que aquele movimento das forças armadas rompesse
naquela madrugada de abril – confesso que ao fim destes anos todos sou ainda um
resistente de abril. faço parte do povo unido jamais será vencido;“da força. força. companheiro vasco. nós seremos a
muralha de aço; do trabalho dá pão. repressão não; da
terra a quem a trabalha; medo nunca mais; da paz. pão. habitação;
e viva a liberdade e o MFA [movimento das forças armadas]” – e eu a
crescer com a velocidade dos cometas. feliz. como se as
revoluções existissem para sempre. como se a adolescência se eternizasse
em manifestações e reivindicações e o corpo nunca parasse de gritar: fascismo
nunca mais – mas “adelante adelante”. que a saudade também mata –
amarro nas jeans e enfio-as até que nada sobre das pernas de abril. aperto
o fecho e o botão numa correria. enfio a t-shirt do che. calço uns
calcantes tipo charlie chaplin. viro-me para a porta no mundo que
sustenta os astros e questiono-me: vais a correr ou levas o que te pesa
pela mão? saio a correr. corro como se a revolução me perseguisse.
olho o céu novamente. o azul já não é de liberdade e as nuvens ficaram
mais nuvens – será que o mau tempo está por aí a chegar? talvez não seja má
ideia resgatar o guarda-chuva do bengaleiro – volto atrás. contrariado.
nas revoluções a chuva não molha. reabro a porta da minha única casa.
olho para dentro à minha procura e não me vejo: o mais certo é ter ido
para a concentração da CGTP [confederação geral dos trabalhadores portugueses] na
avenida central – pego no guarda-chuva do 007 não vá a chuva trazer com ela um
fascista tresloucado. na gabardina do detetive colombo. nunca se
sabe se a PIDE [polícia internacional e de defesa do estado] ainda está operacional.
no chapéu e bengala do poirrot.
a vida sorri sempre para quem usa a massa cinzenta. e por último. a
lupa do holmes. envelhecer obriga-nos a ver tudo ao pormenor – e fui
pelo mundo fora como se tivesse acabado de me tornar num revolucionário da LUAR
[liga de unidade de acção popular] – passa por mim. em sentido contrário
o zé povinho com um dinossauro político preso a um cordel. um pato bravo
a fazer quá quá e um elefante branco num show de trapézio. equilibra-se
numa só pata em cima de uma cigarra que não para de gemer. o peso um dia
destes parte-lhe a coluna –atrás. em passo lento ede
vara na mão. o destino a tocar tudo para o dia seguinte vai gritando:
sem cultura não há liberdade – ninguém se mete com o destino. mas eu sou
um revolucionário de abril e trago o che ao peito. sem medodisse-lhe:
estás a caminhar para o lado errado. a cultura com liberdade é para o
lado oposto – olhou-me com ar de poucos amigos. aproximou-se. sacou
de uma faca de ponta e mola e encostou-ma ao pescoço. e numa voz rouca-intranquila.
disse-me: cresce. vai-te foder – sorri e disse-lhe: outra
vez!!!... – virei as costas. olhei para a t-shirt e pensei:
sou mesmo um revolucionário não só de abril. mas de todos os meses – e
segui rua abaixo cantarolando "hasta siempre comandante che. hasta sempre comandante che" – e lá foi o destino à sua vida e eu à minha – agostinho
da silva dizia que a liberdade só existe quando todos os nossos actos concordam
com todo o nosso pensamento – não minha vida os meus actos não concordaram com
todo o meu pensamento. mas uma coisa sei. sempre escolhi o
caminho que pisei e sempre em total liberdade – “hasta siempre”
umdia serei apenas
este que escreve. porque em boa verdade. neste mundo a que não
pertenço. nada mais sou do que uma metáfora hiperbolizada – e aqueles.
que por serem daqui. dizem que não sou o que as palavras dizem que
sou. um dia. depois do sol cair. dirão que afinal fui o que as palavras
diziam – tudo o que realmente sou vive neste corpo estranho quem não sabe quem
é. nem de onde é – morrerei feito palavra escrita. porque falar
não sei e mesmo que soubesse quem me quereria ouvir? – talvez os peixes. talvez
minha querida cunhada. não sei se me ouves aí no céu.
mas se me ouvires. como quero acreditar. quero que saibas que vou
ter muitas saudades tuas – nunca haveriam de existir estes dias de saudade no
calendário. não sei quem os inventou. mas quem quer que tenha
sido nunca teve uma cunhada como eu tive – tu sabes que nunca fui muito de
lamechices. nem sei porque raio sou assim. gostava de não ser.
mas fico sempre com a sensação de que quando gosto de alguém de verdade não preciso
de muito espalhafato para lhe dizer: gosto de ti – eu sei que tu sabias
que eu gostava de ti – mas hoje é diferente. hoje o calendário marca dor.
viagem. saudade e preciso de todas as lamechices do mundo. preciso
abraçar-te. beijar-te. olhar-te e dizer-te: gosto de ti.
gosto de ti de como gosto do céu. do sol. do mar. das
gaivotas. do silêncio das montanhas. sei lá que mais cunhadinha.
gosto de ti daqui deste lugar que te perdeu até aí onde te escondeste – gosto
de ti zeza. apetece-me dizer mil vezes gosto de ti. e mais mil
que te adoro e que tenho muitas saudades tuas e que estou destroçado por me
teres abandonado sem que me tenhas ouvido dizer: fica mais um bocadinho.
só mais um dia. só mais um abraço – minha querida cunhadinha.
o que faz um homem com esta saudade que nos magoa? se tivesse um carro com um
motor potente. ou um foguetão. ou a varinha mágica do harry
potter. quem sabe. metia-me no tempo em marcha atrás e debruçava-me
outra vez nos teus braços. amarrava-te novamente essas mãos bonitas e
obrigava-te a sorrir mais uma vez e depois. abraçávamo-nos numa
despedida sem fim para que o tempo nunca mais andasse para a frente – vou
trazer sempre comigo esse teu último abraço. vou segurá-lo dentro de mim.
vou guardar esse bater magoado do coração… vou amarrar-te a mim para
sempre – desculpa zeza. não tive forças para te amarrar à vida – não me
conformo que tudo tenha sido tão rápido – minha querida cunhada. foste
tão corajosa. sempre que uma parte do corpo cedia lá inventavas tu uma
desculpa para nos animares para logo de seguida te esconderes dentro de ti num silêncio
fértil da consciência. alimentando de inocência essa alma ressentida e magoada
de tantas interrogações e nenhuma resposta a não ser. adocicar essa dor
que crescia sem parar com esses olhos de esperança – não vou deixar que partas
assim. não te vou esquecer. quero lá saber dessa tua mania antiga
de te ausentares do nosso mundo e depois. como se nada fosse.
regressavas com um sorriso que ninguém levava a mal – desta vez não vai
acontecer. vou-me encher de força e raiva e vou desviar o mundo para o
lado melhor e falar-te. dizer-te que preciso de ti. de te ouvir.
preciso dessa tua teimosia. preciso dessa forma como viravas as costas ao
relógio. preciso desse teu jeito de me entrares pela porta a correr.
preciso de ti tal como eras porque era isso que te fazia especial – agora só quero
que a memória não ceda ao tempo e sempre que acordar vou querer acreditar que tu
estás aí por perto. talvez a passear. talvez a comprar sapatos ou
aquele creme para te tirar as rugas dos olhos e. quando perceber que
afinal não estás onde os mortais estão. que a raiva me faça fechar os olhos
e te traga ao meu mundo nem que seja por um minuto. ou um instante tão
breve como um flash. mas que no clarão os teus olhos encontrem os meus e
o que era escuridão é afinal o milagre da vida para além da morte – não quero
saber nada dessa tua viagem. enquanto dormir tu existes porque a saudade
só acontece quando estamos acordados – acordado ou a dormir vou dar-te a mão e vamos
por essas ruas sem destino e. como o tempo deixou de ser tempo. talvez
possamos apanhar o avião novamente para milão. visitamos a catedral.
as galerias vittorio emanuele e depois. pela noite. voltamos ao mesmo
cinema e assistimos ao mesmo filme e saímos a rir e vamos comer uma pizza
quatro estações e falar do que só nós sabíamos falar. falar e rir.
rir e falar. e dizer palermices. e rir. e dizer mais
palermices. as crianças riem sempre da vida – tu cresceste criança – sempre
que a saudade apertar vou-te telefonar e livra-te de não atenderes esse mamarracho.
não venhas com aquelas tretas do costume de que deixaste o telemóvel não sei onde
e que a cabeça está na lua e que não tens tempo para nada – sempre que a
saudade apertar. doer e precisar de uma amiga vou buscar-te e sair
contigo por esse nosso mundo fora. vamos ver o mar e prometo mostrar-te
a liberdade das minhas gaivotas e depois. abrimos os braços e voamos até
ao céu e quando o vento amainar e o sol cansar. sentamo-nos no areal.
e ficamos em silêncio até a noite a chegar – o sol nunca morre. esconde-se
para que possamos ver o brilho das estrelas – tu minha querida cunhada brilhavas
como as estrelas – tenho a certeza de que quando estiveres devidamente
instalada no céu e deres conta destas palermices que estou a escrever vais
sorrir e achar que sou louco. e se calhar tens razão. e não é que
não me tenhas dito isso tantas vezes. mas dizias sempre com tanta doçura
e carinho que sempre achei que não era verdade – sempre achei que um dia destes
íamos comer o gelado que te prometi e falar dessas nossas coisas excêntricas
que só nós os dois sabíamos falar – éramos os dois loucos. loucos
varridos. éramos amigos loucos – minha querida cunhada porque nos
deixaste? porque raio não deste conta desse monstro que crescia dentro de ti –
distraíste-te e agora quem paga somos nós que ficamos aqui a escolher a melhor
foto. o melhor momento. a melhor conversa. a escolher a tua
vida que queremos guardar para sempre – não foste justa comigo. não
foste justa com as tuas irmãs que estão destroçadas. com a tua mãe que
continua a dizer. e com toda a razão. que nenhuma mãe do mundo
deveria perder um filho. para não falar na tua filha que agora vai ter
que inventar mil desculpas por não te ter a seu lado naqueles momentos
especiais – o que foste fazer minha querida cunhada – sinto tanto a tua falta.
foram tantos anos de carinho. cumplicidade e amizade – a amizade de
verdade é indescritível. não se explica. sabemos que aquela
pessoa gosta de nós independentemente daquilo que realmente somos. faz-nos
sentir bem. seguros e em paz – tu eras a minha amiga do coração – eramos
amigos não porque um dia escolhi a tua irmã para viver comigo. éramos
amigos porque olhamos um para o outro e percebemos que seria assim para sempre.
ficamos amigos como se tivéssemos nascido na mesma rua. andado na mesma
escola. jogado à corda. à macaca. sei lá o que mais minha
querida amiga – sabes. sempre fui um otimista e também sempre achei que
sabia ler o futuro. e não é que te imaginava com cem anos. encarquilhada.
com mau feitio. a resmungar por tudo e por nada. em cima dos
teus saltos altos. lábios bem pintados. cabelo esticado como só
tu sabias fazer e a roupa com um aprumo que era capaz de jurar que a tinhas
acabado de comprar – nunca te vi sem esses sapatos enormes que te punham na lua
e tu nesse equilíbrio bem-parecido a caminhar como só as rainhas sabem caminhar
– sempre caminhaste como se vivesses nas nuvens. como se fosses um anjo –
primeiro foste uma boa menina. depois. envelheceste. mas
nunca deixaste de ser uma boa menina. todas as pessoas boas são ingénuas.
às vezes acho que essa ingenuidade era o teu jeito de nos dizeres que não querias
ser como as outras pessoas. não tinhas os mesmos interesses. tinhas
o teu mundo com as tuas cores – tu querias tudo simples. palavras
simples. sorrisos simples e até o futuro que julgavas ser eterno o
quiseste sempre simples – talvez já adivinhasses o teu destino – mas se o pressentiste
nunca nos dissestes nada – vou ter saudades tuas minha querida cunhada. vou
ter saudade de não ligares patavina aos telefones. vou ter saudades dessa
teimosia que nasceu contigo como nos nascem os sinais na pele. vou ter
saudades de todas as palavras que ao longo da vida me foste dizendo e que
fizeram de mim aos teus olhos um ser tão bonito e especial – não era eu que era
especial. eras tu. eras tu que vias o que mais ninguém via – vou
ter saudade daquele abraço com que me recebeste naquele dia que entrei de
rompante pela porta. tinham sido muitos meses sem nos vermos. correste
e abraçaste-me de tal forma que nunca mais o esqueci – vou ter saudades minha
querida cunhada de tanta coisa – como é possível a vida ser tão injusta. agora
que tinhas encontrado o companheiro da tua vida. tinhas encontrado o homem que
sabia fazer-te feliz. sabia que eras uma rainha – uma mulher não se faz rainha.
nasce rainha – eu não sou crente. mas às vezes gostava de saber que
estou errado. que quando partimos vamos para um lugar onde encontramos
todos aqueles que gostamos e amamos – quem me dera zeza que esteja errado.
se estiver. então. talvez encontres aí os meus pais e o nosso tio
joão. talvez não estejas assim tão sozinha e se assim for. um dia
destes. marcávamos aí um encontro para voltarmos a falar um pouco das
nossas palermices – minha querida cunhada. quem é que agora me vai dizer
essas coisas bonitas que só tu eras capaz de dizer – levo para sempre esse
último abraço. choramos. apertamos as mãos e sorriste como se não
estivesses a sofrer e enquanto eu me sentia perdido e arrasado tu viraste-te
para a enfermeira e disseste-lhe: o meu cunhado é o sol da minha vida –
meu deus zeza. e agora quem me dirá novamente uma coisa dessas – vou ter
muitas saudades tuas. vou ter saudades desse teu brilho com que vivias a
vida. vou ter saudades dessa luz que iluminava o caminho de quem vivia a
teu lado – vou te guardar para sempre – por favor. toma conta de mim e
dos nossos
pequenas grandes
notas:
não seria justo
não dizer que sou um homem orgulhoso da família a que pertença. a minha cunhada
partiu sem que as suas irmãs a deixassem um único momento sozinha – do primeiro
dia até ao seu último suspiro – nos últimos dias a zeza esteve sempre
acompanhada pela família que a amava. despediu-se de todos com serenidade – um beijinho
especial para a tia alcina e para a minha sobrinha renata que passaram as duas
últimas noites em vigília ao lado da zeza – teresa e maria joão vocês deram
sentido à minha frase: a família é um compromisso de afetos – é mesmo – continuo
com uma cunhada fantástica e tenho a meu lado uma companheira maravilhosa que
não me canso de amar
por último.
um agradecimento especial ao seu companheiro que esteve sempre presente a seu
lado – ele sabia que a zeza era a minha menina e terá a minha gratidão até ao
fim dos meus dias – só tenho pena que não o tivesse conhecido trinta anos antes
– mas a vida é o que é. e o importante é sabermos que o tempo na maior parte
das vezes é uma ilusão – nessa contagem de tempo que os homens inventaram a minha zeza foi muito feliz a seu lado – às vezes
o tempo não é tudo – a minha cunhada levou o seu respeito. o seu afeto e
o seu amor na sua viagem final – partiu em paz sabendo que foi a mulher de uma
vida – desejo-lhe tudo que há de melhor para a sua vida – em mim terá sempre um
amigo e mais do que isso. terá o meu respeito pela sua humanidade e honorabilidade
– que mais pode um homem ter?