.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

25/04/2020

há pão neste meu abril





foto -google




o padeiro do meu bairro. homem honrado pelas mãos que há muitos anos dá forma ao pão. lamentava-se que tinha perdido o cravo vermelho de abril que. com carinho e gratidão. tinha aconchegado à lapela da camisa branca – estava triste. não era um cravo qualquer. e a cada interrogação dos seus clientes para a falta do cravo revolucionário. logo se aprontava a dar uma explicação que não era explicação. era tristeza – chegou a hora do almoço. e na mesa que sustenta a minha família. que um dia jurei proteger. estava o pão que o padeiro amassou para o meu abril – abri o pão. e do seu interior brotou um cravo vermelho. brotou um grito de liberdade – fez-se abril em minha casa. afinal eu sou um filho da revolução – há pão neste meu abril. mas ainda não há o abril que sonhei para todas as casas – há muito para fazer. há imenso para gritar. mesmo que hoje seja dia de festa



10/04/2020

coisas da quarentena





imagem google




ao passar pelo espelho reparei que continuo com todos os motivos para gostar de mim. sou simpático. rio com facilidade e estou mais magro do que nunca - foi então que resolvi recomeçar a usar o perfume dior. mesmo que as fragrâncias só se desloquem do quarto para o sofá e se misturem com o ladrar dos cães que não me largam o pé – a minha fé é que a covid19. estúpido como me parece ser.  coisa chinesa. ao passar à porta de casa não vá ficar com muita vontade de entrar. o aroma do perfume vai soar a muita mariquice. muito cheiro a menino de tenra idade... e como sabem. esta merda do vírus só quer mesmo pessoal reformado – por isso vos digo... não desistam da vida. carreguem-se de perfume. carreguem-se até que os vossos vizinhos batam à porta e vos perguntem se não sentem um cheiro a gato morto – sempre podem responder que é desinfetante do SNS




01/04/2020

excerto da crónica: os velhos. a comunicação e a covid19









fico com a ideia de que às vezes há uma comunicação desatenta com as palavras. pouco trabalhada. pouco cuidada. às vezes em pânico. que nos chega emparelhada. mesmo que de forma ténue. a sobreviver à custa da original. encriptada de aliviação. parasita. mas também um género de bálsamo anestesiante para as dores da alma. um relaxador de medo. um perdoa-me do comunicador. e que diz mais ao menos assim: caros ativos deste país. pagadores de impostos. gente que usa as autoestradas. gente que faz filas de trânsito. gente que leva filhos aos infantários. gente que corre atrás de uma bola. gente que faz o mundo andar à velocidade dos aviões. gente que compra moda. que compra excentricidades e coisas que não servem para coisa nenhuma. gente que faz política e ainda outros que se encaixam em perfeição no liberalismo selvagem. gente do lucro. das grandes cadeias mundiais de produção. das ações de wall street. da distribuição de dividendos. dos ricos cada vez mais ricos. e daqueles que são escandalosamente menos ricos. humildes. modestos sem saberem o porquê. talvez por causa do alimento. da sobrevivência. da dignidade do nome. da descendência. e do rir. do fingir para esquecere viramos as costas ao que tem mais gula do que olhos. e planeamos tudo para uma eternidade feliz e absoluta. que nunca teremos – relaxem só morre malta acima dos oitenta anos. malta sem velocidade. malta das cadeiras de rodas. que não corre. que não paga impostos. não leva filhos aos infantários. só os vão buscar quando os pais não podem. malta estranha. velhos do restelo. estão sempre contra tudo e todos. só sabem ver telenovelas para não falar nas fraldas – descontraiam. isto é doença para quem arrasta os pés. nós temos é que trabalhar. temos que fazer o país andar. quem é que paga as contas no fim do mês




28/03/2020

eu. o futebol e a covid19







imagem - google




estava eu. mais uma vez. a ouvir a narrativa assustadora de um médico italiano a trabalhar no combate ao cobid19 – na porta do seu hospital. ainda protegido com bata e luvas. e com os decalcos da máscara de proteção gravados na face. dizia em aflição. que se sentia nos limites. e que não sabia quanto tempo mais iria aguentar. estava arrasado e destroçado. e pedia desculpa por não conseguir valer a todos aqueles que precisavam dos seus cuidados – por último. num relato agonizante e já em lágrimas. dizia que para além de tentar salvar o maior número de infetados. ainda tinha que fazer o papel de deus. era também obrigado a escolher quem vivia e quem morria porque não havia ventiladores que chegassem para todos – sentia-se completamente exausto e reconhecia que estava a ser quase impossível lidar com a pressão. o hospital estava num caos. faltava tudo. desde material de proteção. a camas. enfermeiros. médicos. medicamentos. estavam simplesmente a fazer o que era possíveljá não ia a casa há mais de uma semana. descansava o que podia numa qualquer arrecadação porque as camas não chegavam para os doentes e. logo que recuperasse alguma energia. voltava ao trabalho até que a falta de energia o obrigasse a recolher novamente – era assim a sua vida nos últimos dias – lembrei-me então dos jogadores profissionais de futebol e da exigência da UEFA que com uma lei obrigava a que houvesse 72 horas de descanso entre os jogos – e porque a memória às vezes esquece a seletividade. também guarda o ridículo. lembrei-me daqueles programas desportivos que de domingo a domingo inundavam as televisões com conversas de ódio e maldizer – num desses programas. debatia-se em tom acalorado de coisa relevante. que a meio da semana realizar-se-ia um jogo para a liga dos campeões de grande importância e desgaste – diziam então. esses ditos senhores que em tempos passado jogaram também em campos de futebol. logo. induz-nos que sabem o dizem. digamos que são um tipo de doutores do futebol – asseguram estes novos doutores do share. que estes jogos. transmitidos para todo o mundo. são também cruciais para a afirmação de portugal como uma grande potencia mundial no futebol. e no desporto em geral – e acrescentavam. por esta razão. espera-se uma grande exibição e também uma grande vitória para bem do futebol nacional – o problema é que logo no fim desse jogo de afirmação dos clubes portugueses e de portugal no mundo. e cumprindo escrupulosamente o prazo da UEFA para recobro dos atletas. este podia não ser suficiente para a recuperação total dos jogadores. pois ao cansaço do jogo acrescentava-se o desgaste psicológico e da viagem – tal como no mundo antigo os deuses moravam no olimpo. no mundo atual os deuses jogam nos campos de futebol. com mordomias impensáveis para a maioria dos mortais: médicos. preparadores físicos. massagistas. softwares de treino. viagens com transportes especiais. hotéis de cinco estrelas. alimentação especialmente cuidada com a inclusão de cozinheiros especializados em alimentação saudável para atletas de alta competição. e para que não fique aqui todo o dia a relatar os cuidados com os superatletas. ordenados super mega inflacionados que nos envergonham e nos faz interrogar como foi possível deixarmos isto acontecer com gente. que em boa verdade. o que criam é apenas um espetáculo de entretenimento. tal e qual como o circo. o teatro. os músicos. e outras tantas coisas que nos ajuda a esquecer o que o homem criou para se aborrecer – como foi possível deixarmos que isto acontecesse quando tanta gente no mundo morre à fome – desculpem. mas vou tentar não entrar por este caminho de acerto de contas com o passado. esta não é a altura certa – o que sei é que neste momento há milhares de pessoas. das mais variadas profissões. que continuam a arriscar as suas vidas para que nós possamos estar em casa com medo – sim. estar com medo e pensar no medo é um luxo que nem todos se podem dar ao luxo de terem – voltando à minha memória. pois bem. quando as coisas correm mal a resposta é muito fácil. os deuses do futebol estavam cansados. o jogo a meio da semana arrasou a equipa. estavam sem forças e conforme o tempo se esgotava percebia-se perfeitamente que a força e o discernimento já não correspondiam à vontade – e agora senhores da bola. quando o futebol voltar. voltará com o mesmo descaramento. e depois do que viram de desgaste nos nossos profissionais de saúde. digam-nos sem aquela arrogância de que o futebol é o desporto rei e do povo.  se vão continuar a dizer que os pobres homens estavam cansados e a pressão é muito grande? às vezes. na minha loucura de humano. interrogo-me se estas coisas não acontecem para colocar tudo novamente no seu lugar – o que projeta a grandeza de um país no mundo é em boa verdade o seu serviço nacional de saúde e os seus profissionais – é bom saber que essa gente anónima existe – este nosso país é realmente enorme - obrigado




23/03/2020

quinze dias














quinze dias em casa. quinze dias sem abraçar e esta quarentena a deixar-me louco – quinze dias de trinta. quinze dias que podem ser sessenta e até quem sabe tempo que nem sabemos contar – o que vai ser de nós. o que vai ser da minha casa. o que vai ser das outras casas – uma mesa. dez cadeiras. dez pratos e eu a por a mesa para quem nunca chega – o que fez esta geração de errado? o que há em mim de errado? não sei. e mesmo que soubesse o que poderia eu fazer em tantos lugares do mundo – sei que vou continuar a por a mesa: dez copos. dez talheres. dez guardanapos e os pratos a voar como anjos – como será o mundo em cada prato. em cada casa se da minha janela só vejo desespero – tu. tu não me podes esconder como o céu está desinteressado. o vulto negro a encher-nos de terror. a roubar a dignidade a quem parte. a estropiá-los da vida. num silêncio mudo de dor. sem que ninguém segure a mão. sem um beijo. sem uma lágrima. sem uma oração. sem que nada possa enganar o sofrimento. dizer adeus. pedir perdão – um dia fecho tudo à minha volta. a janela também – estou intrigado com a calmaria das gaivotas na tempestade – porque não batem as ondas nas rochas? porque não troveja? porque não se esconde o sol atrás da lua? que orações tenho eu que rezar para que o mundo volte a sorrir?  estou certo que a razão dos pratos não voarem é a mesma razão das aves que com asas não saem do chão – há coisas que não foram feitas para voar – desígnios? quem quer acreditar nisso – o que mudou no meu infinito? porque raio puseram esta coisa pegajenta à minha frente se o que quero é apenas caminhar. viver o que me falta viver. sonhar o que me falta sonhar. juntar a família numa mesa daqui até itália. que passe por espanha. por moçambique. pelo canadá. pela austrália. pela índia. quero eliminar paradoxos. ligar o mundo num abraço – mas uma coisa é certa. no aperto conhecem-se os amigos quem haveria de dizer que os meus [nossos] estão escondidos nos hospitais. que raio de amigos corajosos tenho eu [temos nós] – que inveja terão outros – será que os merecemos? as ruas continuam com automóveis parvos para lá e para cá. como se o mundo fosse um semáforo que se pode ignorar quando dá jeito – e eu amarrado à mesa a olhar para os pratos. se houvesse ao menos uma corrente de ar para os fazer voar mais uma vez. um milagre – nem uma palavra me faz abrir a boca. o medo pendurou-se na luz – há um silêncio de abismo dentro de mim – olho e nada. e nada me faz pegar na mão e entrar pela garganta abaixo. porque tudo o que magoa está bem lá no fundo. no fundo do que sou. é lá que moro comigo e com o medo. com todos os que estão a sofrer – o mundo num passo que não corre e nada está parado. está tudo assim assim. assim mal. nem frio nem muito frio. nem sol nem muito sol. nem chuva nem muita chuva. só medo e desespero – não consigo tirar os olhos do amanhã – temos que resistir

voz - maria joão



22/03/2020

sou-te assim





pintura romanelli




sou-te assim:
de dia anjo amigo
de noite casanova
amor gizado em olhares.
nas palavras soletradas em desejo
salta o ladino
deito-te em braços que te enrolam
luxúrias escritas em deleite
teias tecidas de gemidos
de quem sempre te desejou.
da loucura dos carinhos
nasceram os nossos pomares
que germinam agora vida com brilho
aromas de primavera
sol dos nossos olhos.
já de madrugada
adormeces em sonhos de princesa
mulher volúpia.
ao acordar és sempre mais bela
vestes-te de mãe
e nos sorrisos
dizes:
a noite já nos espera




19/03/2020

Não são os silêncios que atravessam a linha... é a linha que interrompe o silêncio






bem penteado, perfumado
lustrou o sapato, fez a barba
alinhavou nos lábios o juízo final
a cortina serviu uma fatia da noite
por todo céu
foi abril...
alinhado em fila como estrelas.
desfez o sorriso no espelho
o verbo conduzia
a sombra obedecia um tanto rouca.
(e) como um doce com sal
manteve o ar distante
dividindo os analistas.
saiu como a melhor página de um livro
pensou como um poeta:
'o tempo é louco, diminui tudo'
melhor deixar o tempo
exatamente como imagino:
roendo as unhas
reajustado pela inflação
com o nome dela disparado no coração
repousado no sofá.

pois o sofá... não vai acabar.


vânia lopez


deambulações noturnas LXIV










16/03/2020

17 de março de 1998






antónio sampaio lopes





nota: este texto foi confecionado antes de 17 de março de 2019. ainda o meu agnosticismo não tinha sofrido com o abalo da morte da minha cunhada maria josé – a sua partida deu início a um novo ciclo de incertezas sobre a minha fé. fez-me questionar de novo deus e aceitar uma nova cruzada de interrogações e perguntas – sei que ter fé é ter dúvidas – confesso que ainda não estou totalmente certo de nada. mas estou recetivo a uma nova reconquista evangélica – saiba o senhor tocar-me – preciso de voltar a acreditar no que não vejo – o homem é feito de mudanças e eu sinto-me disponível para mudar – quero acreditar na ressurreição da alma. na sua imortalidade. na firmeza de que “para deus não haverá impossíveis para todas as suas promessas.” – a minha cunhada pisa agora o caminho da glória. vive uma nova existência no mundo celestial – sinto falta de falar com ela – um dia. quando a minha alma estiver mais forte. explicarei como a partida inesperada da zeza me retirou do abismo do nada – “na natureza nada se cria.  se perde. tudo se transforma” – a minha cunhada zeza transformou-se no meu último anjo



senhor. estou preocupado contigo e comigo – não é nada de especial. mas já passaram mais de vinte e um anos [vinte e dois] desde que levaste o meu pai para junto de ti – deixa-me dizer-te: não sei se sabes que o meu pai. todas as noites. te entregava uma oração com o sinal da cruz – creio que não sabes mesmo. em boa verdade. acho que não sabes nada do mundo. cresceu excessivamente para ti – mas não te inquietes. já passou demasiado tempo para me voltar a aborrecer contigo – o que queria que me dissesses. se não fosse muito incómodo para ti. é se o meu pai está bem. se ainda está ao pé de ti. se o tens protegido. guardado de outros males – é o mínimo que deves fazer por aqueles que te são fiéis. ele escolheu-te. desejou-te a seu lado. acreditava em ti. na tua proteção e na tua amizade – se a família não se escolhe. os amigos é sempre uma escolha nossa – o meu pai achava-te amigo. achava-te de confiança – sempre respeitei as suas escolhas. era teu devoto e rezava para que tu. no dia do juízo final. o acolhesses a teu lado – queria a vida eterna – espero sinceramente que não o tenhas desiludido – já comigo não tens com que te preocupar. escusas de me guardar lugar. fui purificado com a tua água. mas morrerei seco e em pecado – perdi toda a confiança em ti. nas tuas rezas. nas tuas leis e nos teus discípulos na terra – não te perdoo o que lhe fizeste. melhor. o que nos fizeste – a dor que lhe infligiste foi também a nossa dor – as boas famílias cristãs são assim. sofrem e riem juntas – nós éramos uma família. uma comunidade familiar de fé. de esperança. caridade e afetos – as nossas orações quotidianas deveriam reforçar a bondade em ti. a atenção. o perdão e a misericórdia o meu pai amou-te. amou a sua esposa. os seus filhos. o seu semelhante. o meu pai cumpriu os teus mandamentos e. quando errou. como homem concebido do barro de adão. teve a humildade de te pedir perdão pelas suas fraquezas. de se ajoelhar e apelar à tua infinita misericórdia – e tu que fizeste? uma família cristã é evangelizadora e missionária. o que tu fizeste foi acabar com a minha fé. terminaste com a evangelização da minha descendência – fechei-te a porta. a ti e à tua religião – eu sei que tinhas de levar o meu pai como fazes com todos os outros. mas não ficaste satisfeito só em levá-lo. tiveste que lhe roubar a alma. a memória. e a derradeira oportunidade de lhe falar pela última vez – eu sabia que o ia perder mas não em silêncio – um filho nunca é adulto enquanto o seu pai viver – eu não queria ser adulto. queria ser dono do tempo e trazer a vida para trás – queria falar-lhe de nós. falar-lhe de mim. do meu mundo. daquilo em que acreditava. os jovens acreditam em cada coisa mais tola – confesso que o que queria mesmo era o seu perdão – era demasiado jovem para a sua sabedoria – queria dizer-lhe que gostava de ter nascido mais cedo. de o ter mais tempo a meu lado. gostava de ter sido mais velho só para ele ser mais novo – um homem mais velho é sempre mais sábio – na juventude o coração perde-se em tudo e em nada. quase sempre sem tino. critério e valores. nunca percebi que metade de mim era dele – e eu sem saber que os corpos desaparecem enquanto a existência nos distrai com ruas e projetos que nunca chegarão a lado nenhum – os beijos que não lhe dei multiplicaram-se com a saudade e são agora uma inquietação permanente – que saudades tenho de ti meu pai – se eu te pudesse explicar a minha vida. explicar o tempo que gastei por aí. tenho a certeza de que me irias compreender. e me dirias que a terra prometida não existe para quem quer fazer coisas – dirias que ambição são sonhos que se podem realizar. dirias que é bom sonhar – vinte e um anos [vinte e dois] e as noites ainda escurecem com o teu nome – quando partiste ainda não era capaz de perceber como o tempo passa a correr. só quando envelhecemos compreendemos que o amanhã é quase sempre tardio para quem não faz o que deve fazer – há um momento certo para tudo – sabes deus!! o meu pai era um homem fantástico – nunca compreendi muito bem esse teu gesto miserável. essa canalhice. esse roubo ignóbil. calculista e maquiavélico. o meu pai era um homem bom. de quem toda a gente gostava e não merecia morrer sem que pudesse levar um sorriso de quem o amava – desculpa senhor. mas para ti o perdão ainda é um sentimento que renego – mas deixa-me dizer-te. com o envelhecimento acabei por amolecer. já não sinto aquela sensação de raiva e rancor. aquele mau estar quando ouço o teu nome. há dias em que não sinto mesmo nada. só não te quero por perto. não te quero dar a outra face – nunca percebi por que raio um homem magoado tem que dar a outra face – que se lixe. és o que és. e eu sou o que sou. e não faço questão nem de mudar. nem de esquecer – o que me intriga. é que desde que abandonei a tua casa. logo após cobrir o meu pai com terra sagrada. nunca mais te vi por perto – a minha dúvida é a seguinte: será que te pesou a consciência e percebeste que não agiste bem com a nossa família? ou não aguentaste a tampa e ficaste enfunado? confesso que às vezes acontecem-me coisas para as quais não encontro explicação. vem-me à ideia de que alguém com a tua personalidade se sinta ressabiado e goste de me provocar – vamos lá esclarecer esta coisa de uma vez por todas: eu não te quero mal. confesso que não sei porque não te quero mal. sim. depois do que me fizeste eu deveria ter ido por esse mundo inteiro anunciar que na tua boca não há verdade. mostrar como não és de confiança. afinal um trafulha é sempre um trafulha. quer viva no céu. ou na terra – que se lixe tudo senhor. que se lixe o passado e as tua trafulhices – quero tranquilidade. quero paz para mim e para as memórias do meu pai – se um dia não tiveres onde pernoitar quero que saibas que a minha casa está à tua disposição com água e pão. não terás que recorrer a nenhum dos teus milagres para saciar a fome e a sede – tens uma única condição. não podes falar de religião – falamos de bola. de política. do preço das coisas. sei lá. falamos como se eu ainda fosse criança – tu sabes que sempre gostei de ser criança. são inocentes. não contam o tempo e acreditam em tudo que lhes dizem – vê lá bem que até me fizeram acreditar em ti – pobre miudagem – se realmente é verdade que és omnipotente e misericordioso. então. és obrigado a perdoar-me. és obrigado a perdoar todos aqueles que pecaram por pensamentos. palavras. atos ou omissões – espero que ponhas um ponto final neste assunto e aceites de uma vez por todas o meu agnosticismo – esquece estes últimos vinte e um anos [vinte e dois]. esquece que um dia pertenci ao teu rebanho – deixa-me viver a minha condição de pai. deixa-me amar os meus filhos – nunca deverias ter levado o meu pai sem que ele me dissesse o que um pai diz sempre ao filho quando se ausenta: tem cuidado. toma conta da tua mãe. não te esqueças de apagar as luzes à noite – tudo o que me resta é aquele beijo frio. gelado – quero avisar-te que se me tentares roubar a alma e a memória. com as mesmas artimanhas que usaste com o meu pai. não vai resultar comigo. já deixei recomendações da minha última vontade. deixei tudo escrito – não me levas para lado nenhum. não somos amigos – entretanto. vamos mantendo a cordialidade. bom dia e boa tarde – vemo-nos nos casamentos. batizados e funerais – o resto já sabes






14/03/2020

um ensaio estranho sobre o absurdo






cyril rolando 




I.
abraço-me. abraço-me num abraço absurdo – que autoestima sobeja num abraço absurdo? que dúvidas farão de mim um recomeço? a irracionalidade de um abraço absurdo é quase sempre desespero e sofrimento – procuro no absurdo justificação para uma tristeza que às vezes parece um hábito repetitivo que vicia – sabe-se hoje que a genética interfere na herança dos vícios – cada vez acredito mais que nasci viciado numa dependência de coquetéis absurdos. sofro do síndrome de abstinência neonatal – não me lembro de viver sem que um absurdo não estivesse por perto – porque raio não param de me  acontecer estes absurdos excêntricos – talvez o diabo me tenha tomado a alma à nascença infetando-a de medos e horrores absurdos – talvez  deus me tenha entregue a este caminho absurdo apenas para me purificar de outras encarnações – que raio trouxe no corpo para que deus ou diabo se interessem por alguém tão estupidamente absurdo – sim. eu tornei-me num absurdo sem deus nem roque e o que temia me sobreveio – toda a vida é um absurdo incontrolável. um segundo mais tarde perde-se o comboio. um segundo mais cedo morremos esmagado pelo mesmo comboio – em cada segundo cabe uma enormidade de absurdos – somos o que somos num tempo incrivelmente egoísta. ninguém quer saber o que te levou a ser um absurdo. ou porque foste tu e não outro o parceiro perfeito para os absurdos – não acredito no destino – tudo vazado dum caldeirão de humanos. contaminados pelo absurdo das suas diferenças onde ninguém é igual a ninguém e no entanto. todos parecem tão iguais – não escolhemos viver assim. na fragilidade do nascimento somos infetados por um mundo absurdo – sou o gozo estúpido de um espermatozóide. eram mais de mil absurdamente o que chegou à vida foi este – não há dia nenhum que não me interrogue o porquê desta vida absurda que me consome numa labareda que ninguém sabe que existe – bem sei que as dúvidas absurdas confirmam a minha existência ínscia – perdoe-me deus ou diabo. mas só posso alterar o que vive e sinto em mim – já não sinto grande coisa – um homem é sempre o que sente e. mesmo que duvide do que acredita sentir. não pode deixar de acreditar. por mais absurdo que lhe pareça esse sentir incerto: às vezes amor. outras apenas indiferença ou ainda um absurdo de coisas que não se explicam. sente-se e sabe-se – é na dúvida que se encontra a certeza – a dúvida existe para nos dar certezas – que absurdo se torna o meu mundo se um dia perder as dúvidas sobre mim – quero continuar a viver este meu mísero e triste absurdo. quero continuar a duvidar. quero que o tempo que me resta seja todo ele de enormes incertezas absurdas – “antes morrer de pé do que viver de joelhos” – que cabeça não sabe duvidar? como se para duvidar do absurdo tivesse o corpo que viver no mundo das invenções. dos aviões. dos relógios atómicos. dos foguetões e das balas que continuam a matar aqueles que já morreram várias vezes de vergonha – confesso. tenho medo e vergonha do que penso. porque tudo o que penso quero que exista e tudo que existe é um absurdo que só faz sentido na minha cabeça – tenho raiva e vergonha do presente. tenho raiva e vergonha do passado. mas não tenho nada para amanhã. a não ser fabricar na minha cabeça absurdos inimagináveis – nada das coisas que imaginei morreu em mim porque o tempo das coisas não é de quem pensa. mas sim de quem faz – ainda quero fazer milhentas coisas. mesmo que sejam absurdas – a felicidade e a tristeza alimentam-se do pensamento. mesmo absurdo – penso. logo sou absurdo – utopia é acreditar que um dia todos os meus absurdos o deixarão de ser – nunca recusarei ser o que sou. mesmo que o absurdo em mim possa parecer loucura


II.
vivo agora também a dúvida absurda do silêncio – o silêncio preenche todos os vazios. traz bondade. dignidade. perdão e quando chega o barulho das dúvidas absurdasjá não tem força. nem tamanho para magoar – não deixa de existir. não. torna-se apenas num barulho bondoso. humano. clemente. compreensivo. e generosamente vai repetindo ao ouvido. numa tranquilidade completamente absurda: estás perdoado por toda essa vida absurda – e o eco das palavras a embalar-me num sono de criança.  talvez a síndrome de abstinência neonatal continue a fazer das suas. um viciado nunca se cura. a falta do cordão umbilical existirá até ao último suspiro – talvez esta minha resistência à loucura do absurdo seja o que me mantém vivo. ou então. a forma que encontrei para vos dizer que ainda tenho dignidade para suportar os vivos – talvez a dúvida absurda exista porque eu existo no silêncio – sem o silêncio da noite não sou nada – na dúvida absurda do silêncio posso correr para o outro lado de mim e não encontrar nada ouencontrar todo o barulho do mundo: os meus amigos a jogar à bola. o carro a acelerar. as máquinas a trabalhar. os filhos a chorar. a mãe a chamar e o pai a apontar para o absurdo dos nossos antepassados – e a mente que cria as tempestades absurdas pede uma última certeza que não seja absurda. e corro para todo lado e em todo lado me encontro com as mesmas marcas no corpo. as mesmas dúvidas absurdas – será que não há uma alegria absurda perpétua? não tenho aonde me esconder. e as tempestades não param porque não consigo parar de pensar nos absurdos da minha vida. não consigo parar de ter dúvidas do que fiz – confesso. não sei se a culpa é minha por me tornar num absurdo. ou o absurdo é um cabrão sem piedade que me infiltra doses maciças de inverdades. insegurança. hesitações e medos – o pior disto tudo é que não consigo fugir da inverdade. da insegurança. da hesitação e do medo – sofro. fugir de sofre já é sofrer – não consigo deixar de viver onde cresci – eu sou um todo e mesmo que me divida em silêncio ou barulho. em irreal ou real. em fé ou desconfiança. em deus ou ateu. em luz ou negrume. serei sempre eu. e mesmo morto serei eu. ninguém me apagará do universo – também eu alimentei o absurdo da vida. também eu fui de casa em casa. amigo em amigo. trabalho em trabalho.  sonho em sonho. em paz ou irado. ajoelhado ou de pé. com deus ou com o diabo. tudo num destino que não escolhi – nunca poderia ser pescador porque nasci sem mar. sonhei-o muitas vezes. visitei-o. senti-o quando a cada mergulho me fiz água. nadei como os peixes. mergulhei como os golfinhos. fechei-me numa garrafa e percorri todas as correntes do mundo com mensagens absurdas. mas ao fim do dia. a minha casa não cheirava a mar. cheirava a couro. os barcos eram máquinas e os pescadores eram operários – o absurdo é que amo as máquinas e o mar – tenho no peito tatuado uma gaivota e o mundo num abraço – aristóteles dizia que todos os seres foram criados para um fim – a minha dúvida é se há fins absurdos – o que faz um homem num desespero absurdo? olho para mim e interrogo-me se sou o que quis ser. ou sou o que me rodeou? o que fiz fez-me. ou sou o que sou porque não fiz o que deveria ter feito – há um limite para tudo. há um limite mesmo quando não há respostas para o que queremos saber – há um limite até para os absurdos – também eu fui castigado como sísifo. e a pedra no sopé da montanha todos os dias a crescer. e o absurdo das coisas em mim a tirar-me as forças para carregar o que mais ninguém vê – e uma pedra enorme no sopé de uma montanha absurda – porque me deram uma montanha se o que sempre desejei foi apenas o que sentia em mim? e o raciocínio perdido num sacrifício absurdo. em dor absurda. em raiva absurda. em desespero absurdo. maior que qualquer montanha absurda. maior que a pedra de sísifo – mato o absurdo que nasceu comigo? seria eu a mesma pessoa sem o absurdo? ou o absurdo é a minha pedra. a pedra que carrego e não chega a lado nenhum – infelizmente a eutanásia não se aplica a quem sofre de coisas absurdas – tenho que viver


III.
não tenho inveja do que não alcancei. talvez um pouco de azedume e arrependimento. mas não posso alterar o passado – serei o que o destino quiser. continuarei a erguer-me do chão quando caio – não me posso zangar por aquilo que errei quando pensava estar certo – cada época tem as suas certezas absurdas – não posso continuar a amar quem não respeita esta minha forma absurda de ser – não posso aceitar calado tamanha humilhação – não posso respeitar quem não acredita que o absurdo existe. tal como as “brujas. no creo. pero que las hay. las hay” – prefiro morrer sozinho. prefiro morrer a falar comigo. a explicar-me até que o último sopro me despedace esta absurda certeza incerta que vive comigo. como vive o coração. que trabalha como um coração. que voa como as gaivotas. que chora como os homens – escolhi sempre o melhor absurdo. não o menos arrojado. mas aquele que no futuro me faria honrar todo o passado – às vezes a justiça do passado faz-se apenas com uma única absurda certeza incerta – estou aqui meu querido absurdo. também eu te quero honrar. quero fazer-te existir como mestre de uma arte que por ser absurda só alguns a reconhecem – o absurdo não existe apenas porque eu nasci. mas confesso. ás vezes até que parece – se deus não me receber no dia que chegar ao céu.  que as portas do inferno se abram para que possa caminhar sobre as chamas. pois esse será o meu último absurdo – se no passado abandonei o divino. hoje. ajoelho-me com fé. e humildemente peço a deus que ilumine com sabedoria esta minha última viagem. absurda ou não – quero morrer em paz. quero que a minha alma suba ao céu enaltecida – quero confiança. saber e um bom destino para aqueles que deixei no teu quintal terreno – mas se nesta última caminhada.  perceber que fui eu o único culpado do absurdo existir. então. que me sobre saber e memória para o escrever com a maior crueldade que trago nas mãos – eu não me encerro em mim. não sou o fim do mundo. sei que sou futuro naqueles que mesmo em caminhos enganados fui capaz de trazer à vida: o sagrado que me perpetuou





16/01/2020

fumar fode as moscas






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sábado. com cheiro a libertinagem. envolvido em aromas açucarados de uma pastelaria. daqueles que fazem engordar só com o olhar. sorvo delicadamente um expresso com toda a tranquilidade quando dou de olhos com uma mosca: verde. ranhosa. barulhenta. olhos enormes. voava em círculos fechados sobre um aglomerado de pasteis de belém – na mesa ao lado um turista americano. creio que cubano. fumava um havano cohiba enrolado à mão e tal como eu seguia atentamente as acrobacias da mosca – o fumo era mais do que muito e rapidamente percebi que a mosca. sendo kamikaze. estava em dificuldades para atacar com acerto a pastelaria exposta – uma cortina sinistra de fumo era a última defesa do sortido da pastelaria e a inalação de monóxido de carbono a sua arma secreta – rapidamente aprendi que a melga voadora se iria foder – e assim foi. o insecto. com raiva. rompeu pelo gás e não se sustentou. descontrolou-se. ziguezagueou. perdeu altitude e atitude e. num ápice. entrou em espiral desgovernada. tomou a direção do granito eouvi um barulho estranho e logo percebi que a turbina tinha explodido – salta uma asa. um mícron de segundo à frente. perde a outra e última asa. acabando por se estatelar dentro de uma chávena de café pingado de uma velhinha que. por usar adoçante. tudo apontava para que sofresse de diabetes – salvou-se a baguete francesa torrada com manteiga sem sal. por um triz tinha-lhe apanhado todo o pequeno almoço – fiquei estarrecido. mas há males que vem por bem – peguei no telefone e liguei para a TAP [transportes aéreos portugueses]. pedi para falar com o comande fernando pinto e. emocionado. relatei-lhe o que tinha acontecido com a mosca – por favor não deixe ninguém fumar dentro dos aviões. o dióxido de carbono fode-lhe os pilotos – assim nasceu os voos verdes e o fim do fumo dentro dos aviões – escusavam de gastar mais dinheiro em simulações. é o fumo que atira os aviões todos para o caralho – agradeceu-me. senti-me satisfeito. fiquei com aquela sensação de que me tinha tornado num herói. devo ter evitado umas quantas mortes por esse mundo fora – mas não satisfeito. e num flash iluminado de saber. liguei para o dono da tabaqueira portuguesa e disse-lhe: têm que por nos maços de tabaco mais um alerta. fumar fode as moscas

joão surreal – 25 de abril de 2010


nota de autor:

joão surreal foi um personagem criada pelo josé luís. enquanto usuário frequente do luso poemas*. para um tipo de textos humorísticos – o escrito era redigido sem grandes cuidados estilísticos e gramaticais. o importante mesmo era a excentricidade humorística da história e a interatividade do personagem com o leitor – o leitor comentava o texto e no mesmo dia o joão respondia com mais humor e com nova argumentação ao texto original. o que originava uma sucessão de respostas e contra respostas – uma história em movimento que não terminava enquanto os comentários não terminassem – foi um momento engraçado que durou pouco tempo porque os comentários tornaram-se em demasia para a disponibilidade do joão – a dada altura as noites já não eram suficientemente longas para responder a todos os comentário. fui obrigado a calar esse puto reguila – foi uma experiência gira que deixou muita saudade – ficou a promessa do joão do seu regresso logo que se reformasse – ainda faltam uns anitos – e porque fui feliz com o joão surreal lembrei-me de partilhar as suas histórias com aqueles que nunca o conheceram – lembrem-se que os textos eram escritos praticamente a uma única mão e com uma única passagem para correções – por isso. não exijam muito do puto.  era bom rapaz mas ainda andava em aprendizagem de vida – tudo aconteceu em 2009/10. anos loucos no luso

* “site de poemas, cartas e pensamentos onde você pode deixar um pouco de si.”

31/12/2019

quero muita merda para 2020











chegou ao fim mais um ano de trampa – venha lá esse 2020. venha lá uma nova fé ou fezada de que tudo. finalmente. vai ser diferente para melhor – esta esperança saloia que me impregnaram no corpo é mesmo de baixo teor encefálico – mas. que posso fazer eu. sou apenas mais um mortal fraco e cegueta a deambular pelos ponteiros de um relógio que me engana desde aquela passagem de ano. onde eu e mais dois amigos destemidos. nas traseiras de uma toyota hiace. gritamos urras. vivas e impropérios à chegada de um ano que acreditávamos trazer todo o futuro risonho do universo – foi a última passagem de ano em que não fizemos contagem decrescente. o barulho dos foguetes iluminaram o caminho de uma carrinha parada num descampado de adamastores – não temíamos nada. nem ninguém. éramos apenas crianças mascarados de mosqueteiros onde o lema de alexandre dumas se renovava com esperança e alegria às doze badaladas: todos por um. um por todos e feliz ano novo – que bonitos que éramos. não há nada mais bonito de que um corpo imaculado – juramos que um dia. num futuro muito rápido. voltaríamos a comemorar uma outra passagem de ano num rolls-royce branco. descapotável e flutes de dom perignon apontados às estrelas – pobre é assim. sonha – sonhar não custa dinheiro – pobre o que quer é pinchar e cantarolar aquela contagem decrépita do ano velho e comer uva-passa às manadas para que nenhum mês caia em desgraça – pobre fica tão entusiasmado com o fim de ano que até se esquece de gastar o último dia de dezembro. e quando acorda. já é janeiro e pede socorro jurando que lhe roubaram o ano que acabou de terminar – claro que estou a citar o caco antibes. quem melhor do que ele fala de pobres.  só o caco é capaz de me espremer o cérebro no último dia de 2019. entrar dentro do meu ouvido e suavemente. chingar-me a honra e a fé: pobre tem que ficar tudo socado no conjugado”. pobre vai à loja de 1.99€ e “compra tudo de prástrico – pobre é uma visão do inferno. faz a festa assobiando num apito que vai e vem e atira confetes ao ar acreditando que é o botão dourado do got talent e. como não quer perder pitada do réveillon. fica tão apertadinho que até faz xixi pelas pernas abaixo. eufórico e com as meias ensopadas de mijo berra e jura que o novo ano lhe vai trazer paletes de dinheiro. e as gajas da plaboy tocar-lhe-ão á porta doidas por uns preliminares com o novo capitalista – no meu caso. criado e ampliado com o pó de deus. substituo as gatas assanhadas das revistas de adultos por uma renovada esperança de que a minha companheira maria joão deixe de ser rabugenta e teimosa – pobre é assim mesmo. contenta-se com pouca coisa. é boa pessoa. mas estúpido como uma porta – mas não se aflijam porque já me tratei pior do que uma porta. talvez por ser fim de ano sinta necessidade de recuperar alguma tolerância para comigo – o ano não foi bom para quem ama – mas agora que renovei a fé em deus. estou mais crente do que nunca no aparecimento da bondade divina para com este seu pobre servo reconquistado pelos desígnios do senhor – só há uma coisa que não quero perder com a entrada do ano novo: a memória e esta saudade que carrego dentro de mim que me fere como se trouxesse à cabeça a coroa de espinhos da crucificação de jesus – são estes espinhos que me recordam que um dia ao pó voltarei e nada serei se não aceitar em mim tudo o que é invisível – sou uma criatura de deus. agora agradecido. sentimental e com a fé actualizada para nunca mais esquecer de que a morte mais não é do que o fim do corpo na terra – quero acreditar que um dia. num outro espaço temporal. a saudade que não sei escrever terminará com o reencontro de todos aqueles que partindo desta terra nunca partiram de mim – em 2020 quero continuar a ter saudades do meu pai. da sua leveza de espírito. da sua bondade. do seu sentido de justiça e daquele sorriso que era um abraço – quero ainda ter mais saudades de minha mãe e continuar a cumprir a sua última vontade. eu e os meus irmãos sabemos bem o seu último desejo – quero continuar a sentir-me mal por ainda não ter encontrado arte e engenho para escrever sobre uma mulher que foi o pilar da nossa família – a minha mãe tinha a força de quinhentas trovoadas e a doçura dos primeiros dias de primavera. devemos-lhe quase tudo – era uma mulher emancipada que lutou por tudo aquilo que diariamente conquistou. sem nunca se esquecer de que uma família para se eternizar precisa de amor – lutar. trabalhar. amar. lutar. trabalhar. amar até que o coração ceda de cansaço – foi assim que a minha querida mãe partiu – quero que os dias de sol me tragam de novo a minha cunhada – a minha zéza também era o sol da nossa / sua família – em 2020 não quero perder nada do seu legado: devolveu-me a fé e a certeza de que esta vida é apenas uma passagem e o mais importante é dizer tudo o que que nos vai na alma no momento certo – nunca deixes nada por dizer. amanhã pode ser tarde – a minha cunhada disse-me as coisas mais bonitas que um homem pode ouvir. disse-o em saúde. sem medo. nos olhos. amarrando-me as mãos e com a bondade de um coração de ouro que imaginava viver para sempre – a minha zeza fez de mim um homem muito mais tranquilo e sereno. era a minha menina. era a irmã mais nova que nunca tive – para mim será sempre aquela miúda com cabelo aos caracóis. óculos enormes que escondiam uma vontade de viver celestial. envergonhada e giraça – conhecia escondida atrás das cortinas da sala a primeira vez que entrei na casa dos seus pais – não posso mudar o passado. mas posso e quero recordá-lo. quero recordar para sempre a minha cunhada feliz com o seu companheiro que agora guardo também no meu coração – a vida foi muito ingrata e injusta para este amor que só pecou porque o tempo se perdeu nos desencontros da vida – feliz ano joana e miguel. este ano roubou-te a pessoa mais importante da vida. mas não desistas de viver em alegria. vai por esse mundo fora e serás recompensada – a tua mãe estará de olho em ti – quero amar todos aqueles que vivem em mim. pouco ou muito. não importa. sem estas memórias não sou nada. e se não for nada não existo e quem não existe nunca saberá que o céu é a cobertura dos homens bons – sempre tive muita gente boa a meu lado. que sorte. uma graça que deus me concedeu – em 2020 quero a minha família e amigos mais perto de mim. todos. quero a vossa paz e a vossa bondade – não sou especial. mas sou lopes – em 2020 quero continuar a lembrar-me do tio joão. há dias que sinto tanto a sua falta. era um homem especial. inteligente e gentil. não merecia partir tão cedo. fez-nos muita falta – ficou a sua semente a confirmar que árvore boa não dá fruto mau – quero lembrar-me dos amigos que já partiram. do joquinha. do luís vieira e do sérvio. gostava de um dia voltar a falar com eles – em 2020 quero que os meus filhos continuem a crescer com honra. saúde. trabalho e bondade – quero que sejam destemidos no amor. amar sem medo é a melhor coisa do mundo. amem de qualquer das maneiras. quem ama não teme o próximo. nem o futuro. acreditem nas pessoas. ajudem sem olharem a quem. sorriam. vocês são homens fantásticos. são especiais. são únicos porque transportam a alma do vosso avô dentro de vocês – neste novo ano quero que as minhas noras sejam muito felizes. honradas pelos seus companheiros e gratificadas pela vida. vocês são as mulheres mais importantes do universo. são vocês que cuidam do nosso único tesouro. os filhos são a nossa luz – andreia. obrigado por esse sorriso com que carrega no peito o nosso luís. a andreia sabe como esse rapaz é especial. foi o meu primeiro desejo. ser pai do luís – não podia ter um filho melhor – obrigado também pelos nossos dois netos. tenho a certeza de que serão. um dia. miúdos grandes em virtudes e felizes – pedro não desistas nunca dos teus sonhos. a vida encontrar-te-á para o sucesso. não corras. mas não abrandes. tu és um bom rapaz. nunca me cansarei de acreditar no teu futuro. adoro-te – joão estamos muito orgulhosos de ti. este último ano confirmou o que sempre soubemos. tens tudo para ser feliz e independente – não te esqueças que foste ensinado a amar sem medo. aprende a sorrir e deixa-te ir pelo mundo fora. és excecional e com um coração enorme – um beijo muito especial para as futuras noras. bela e sofia. quero o melhor para vocês. mas também quero que não se esqueçam de fazerem os nossos meninos felizes. eles são meninos bons e gostam de amar uma única mulher – também quero para 2020 que a lurdes envelheça com dignidade. ela merece tudo de bom. os anjos não tem que servir de exemplo ao mundo – claro que um bom ano nunca poderia ser bom se a minha sobrinha e a sua família não chegarem em paz a sua casa. virá um anjo sentado na asa do avião – quero também para a minha irmã. irmão e famílias muita saúde e paz. serão sempre carne da minha carne e sangue do meu sangue – quero muito que a minha cunhada teresa não se esqueça da sua irmã neste novo ano. fazes muita falta á maria joão. e claro. muita saúde para toda a tua família – em 2020 quero o melhor da vida para a melhor companheira e mãe do mundo. são tantos anos a brindar a um novo ano – amo-te muito. mais do que a lua. o sol. o vento ou a chuva – o que seria de 2020 sem o teu sorriso – no novo ano vamos passear descalços pela praia. vamos ver o nascer do sol. vamos beijarmo-nos e renovar os votos do nosso casamento – preciso de me casar outra vez contigo – nunca tivemos medo de nos amarmos e assim será até ao fim dos nossos dias: prometo estar contigo na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. na riqueza e na pobreza. amando-te até que o nosso mundo termine – espero que deus finalmente ouça as tuas preces e não deixe que o teu pai se esqueça de ti – sei que esse é o teu maior desejo para 2020 – e já que 2019 está prestes a terminar. peço que 2020 traga muita saúde para todos aqueles que me estimam como amigo. o que seria eu sem os meus amigos – devo-vos tanto. são poucos. mas são tão bonitos e bons – salve 2020

sampaio rego – 31 de dezembro de 2019

ps. este texto foi escrito sem rede e a uma única mão – de que serviria corrigir?




29/12/2019

no meu peito já não cabem gaivotas*





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nota de autor.

vinte e oito meses depois resolvi terminar esta saga analítica de quatro tipos de morte – confesso-vos que a morte emocional e terapêutica me custou imenso a escrever. verdadeiramente. só agora estou a disfrutar dessa descida ao inferno – não foi fácil estender a escada para pular do mundo das dores. mas agora sei que o tempo é um erro.a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”*. o sofrimento esgueirou-se silenciosamente. e as palavras adocicaram-se é com esta memória persistente e resistente que aprendi a encontrar-me no hoje. quero-me em papel – sei agora melhor do que nunca. que qualquer uma das minhas mortes. num tempo que não sei contar. resolverá com crueldade esta minha forma de escrever o que sinto – aqui estou com a última parte. a morte dolosa ou fraudulenta e. ao contrário das mortes anteriores. onde tinha descido ao inferno. nesta. subi ao céu e diverti-me com anjos e querubins


 4. a morte dolosa ou fraudulenta

introdução.

finalmente uma morte que traz boa disposição – confesso que já sentia falta de uma escrita levezinha. tranquila. serena. uma escrita tipo chazinho de camomila – nesta saga analítica de quatro tipos de morte. a morte dolosa ou fraudulenta. que vos entrego. foge completamente ao estilo de escrita do sampaio rego. creio que é mais o género do joão surreal – mas não importa quem escreve. o importante mesmo é esta vontade de compor a vida que me sai de dentro. esta emoção. esta perturbação. este desassossego que me magoa e que simultaneamente me ilude com o tempo. faz-me viver. faz-me sorrir – meu deus. como sou feliz nesta busca incessante das palavras que nunca sei onde estão – hoje. graciosamente. trago-vos uma morte que é uma história embrulhada numa bela surpresa. com um final tipo alfred hitchcock – tentarei então fazer um embrulho com um laço bonito. quer dizer. um laço pomposo e misterioso. só espero que o papel chegue e a história no final mereça o vosso sorriso – vamos começar então


1.
um marido convencidíssimo de que a sua esposa o atraiçoa sente-se completamente desesperado. e de tal forma encasquetou que essa deslealdade era real que a sua vida se tornou num verdadeiro inferno – o ciúme passou a administrar totalmente a sua racionalidade. transformando-a numa irracionalidade absurda e absoluta – afogado nesse sentimento egoísta e incapaz de dialogar com a sua companheira. busca em si um motivo para essa traição. mas por mais que procure uma mingua de razão para essa evidente deslealdade. não a enxerga – está desesperado. sempre amou esta mulher. sempre foi um homem fiel. sempre viveu para a família – à falta de uma resposta que lhe alivie o sofrimento deixa-se tomar por uma raiva silenciosa e o desfecho é o colapso emocional – não quer acreditar que se tenha enganado a respeito de uma companheira que conheceu ainda adolescente. não quer e não pode. a mulher que um dia jurou amar pela santidade do casamento católico é o centro do seu universo – o que seria da sua vida sem a única pessoa que deu sentido à sua existência – com a psicose gravemente instalada. esta leva-o a um pensamento delirante. pouco lúcido. sistematizado pela negatividade e dotado de uma lógica errática própria de quem está doente – uma mente doente pensa doentiamente – a falta de confiança arrasta-o para uma agressividade interior perigosa e desgastante e a relação entra definitivamente num estágio dramático – o silêncio é agora o seu maior inimigo – o fim do seu casamento está por um fio. a angústia é contínua e as noites uma enfermidade dolorosa que o impede de descansar – deita-se infeliz e levanta-se ainda mais infeliz. sente-se o pior homem do mundo – inseguro e com a sua autoestima a roçar a lama. percebe que não aguenta muito mais esta sua indeterminação e. resolve partir em busca da verdade. doa o que doer – ele sabe que o tempo está contra si. este medo de perder a mulher que ama está a enlouquecê-lo – o coração está prestes a implodir de sofrimento. é hora de saber toda a verdade. é hora de saber se ainda é o homem que a sua mulher quer ter a seu lado para o resto da vida – chegou o momento de enfrentar o medo. é urgente saber a verdade. a sua amada tem que lhe dizer. olhos nos olhos. que o amor acabou. que foi bom. mas chegou ao fim – depois de muito ponderar concebe então um plano que lhe permita. objetivamente. aferir se as suas preocupações são reais ou apenas a alma doente – tem que saber se a sua esposa tem um caso ou não. se o ama ou não. meios termos já não são aceitáveis. a dor é colossal. insuportável. há que colocar tudo em pratos limpos – reconhece as suas fragilidades por que está a passar e reconhece também que só um amigo verdadeiro será capaz de o compreender e ajudar – está desesperado. sabe que o plano é arriscado e maquiavélico. mas parece-lhe ser esta a única solução capaz de lhe devolver a paz e o casamento


2.
o amigo dirige-se a sua casa. toca a campainha. aguarda uns segundos. a porta abre-se e dá de caras com a esposa do zé meireles que. surpreendida com a visita. lhe pergunta:
-- a esta hora aqui. aconteceu alguma coisa?
o amigo pesaroso e pouco à vontade responde-lhe a gaguejar:
-- si... sim há. nem sei como te dizer…
faz-se silêncio. os olhos da cutilde arregalam-se. o corpo entesa-se. as faces ruborizam-se enquanto a mudez é consentimento para que o amigo do seu marido diga rapidamente ao que veio – o jeremias entristecido. com os olhos encharcados de dor. a tremer e a gaguejar diz-lhe então:
- oo zé acabou de falecer. foi atropelado
.
[colocado num local estratégico. camuflado. mas com uma perfeitíssima visão para o patamar da sua porta. o zé tenta perceber nos meneamentos da sua querida esposa se realmente vislumbra algum detalhe de júbilo ou tristeza]
.
a cutilde estremece. bamboleia. como se também ela tivesse sido atropelada e. enquanto os segundos se multiplicavam por uma eternidade toda ela é tomada por uma dor paralisante. não consegue pronunciar uma única palavra – não se ouve um único som ao redor de si. parecia até que o mundo tinha acabado de falecer – o jeremias. em pânico. arruma-se igualmente dentro do silêncio. concentra-se e projecta os olhos para dentro da alma da cutilde – também ele quer saber se o seu amigo está. ou não. a ser enganado pela esposa – o zé meireles é o seu amigo do coração. cresceram juntos. fizeram a escola juntos. andaram nos namoricos juntos e quando um tombava com um copo o outro nunca ficava para trás. se tivesse que dar a vida por alguém. esse alguém. seria o zé – são mais do que amigos. são manos e o sofrimento de um mano não dói. mata-nos – a cutilde dá dois passos atrás. encosta-se à porta. percebe que está prestes a colapsar. e sem que o jermias lhe pudesse valer. o corpo desfalece e as pernas acabam por ceder – cutilde está prostrada no chão – o jeremias entra em pânico. pela primeira vez percebe que talvez o plano possa não correr como tinham planeado. dá-lhe duas bofetadinhas ao de leve. abana-a. chama-a pelo nome em desespero e. com custo. tempo e terror. a cutilde reabre os olhos – completamente desfigurada. rapidamente recupera a memória do drama que está a viver e. numa agonia de estraçalhar o coração. recusa a acreditar que o seu zé a tenha deixado ficar para sempre – a dor é insuportável. o coração está prestes a partir-se e o corpo a sufocar perde-se em lágrimas – completamente desorientada levanta-se. anda de um lado para o outro sem discernir o que realmente deve fazer. sente-se perdida e não consegue raciocinar – se por um lado quer sair a correr para abraçar o zé. por outro. recusa-se confrontar com a verdade – já ninguém tinha realmente dúvidas que a cutilde amava o zé. era fácil de perceber que a dor era genuína. saí-lhe da alma. o zé meireles era o único homem da sua vida – quem entrou em pânico foi o jeremias. também ele começou a sentir as pernas a desfalecer enquanto o corpo tremia como varas verdes – estava metido numa alhada e agora não sabia como descalçar a bota – com a voz trémula tentou rapidamente encontrar um paliativo para o drama. pelo menos adiar um pouco o que parecia já não ter solução – foi uma grande estupidez. diria mesmo. do tamanho da sé de braga – amarrou nas mãos da cutilde. olhou-a nos olhos e pediu-lhe para ter esperança porque. em boa verdade. ele não viu o corpo. apenas tinha recebido um telefonema do hospital a dar conta da tragédia. mas o melhor era realmente verificar se o falecido era mesmo o zé – lembrando-lhe um episódio recente que passara na TV. também anunciaram a morte de alguém que afinal não tinha acontecido – suplicou-lhe para que dentro do possível relaxasse e descansasse um pouco. em breve lhe daria notícias a confirmar ou não a morte do seu marido – a pobre mulher consumia-se em dor. mas percebeu que o melhor seria mesmo recolher-se um pouco e esperar pela confirmação do seu amigo – o momento era de solidão. precisava ficar só. libertar a sua raiva com deus. perguntar-lhe porquê o seu zé. qual a razão para lhe roubar o homem da sua vida


3.
o jeremias completamente tresloucado foi rapidamente ter com o seu amigo a um café nas redondezas – o zé já o esperava agitado e tomado por uma cor que prognosticava grandes sarilhos. tudo apontava para que fosse ele o próximo a desfalecer – o jeremias sem deixar que o zé dissesse uma única palavra disse-lhe: zé não tens razão nenhuma para desconfiares da cutilde. ela não só não tem ninguém como te ama perdidamente – os olhos do zé. momentaneamente.  encheram-se de alegria – mas agora te digo meu amigo. depois do que vi. creio que ela vai mesmo deixar de te amar – não sei como vamos descalçar esta bota. fizemos asneira da grossa – juro-te que não sei o que fazer para reverter esta palermice – o zé se por um lado se sentia feliz por saber que afinal o amor da sua mulher era realmente verdadeiro. por outro. compreendeu que a sua cabeça lhe tinha pregado uma partida – e agora o que fazer? o coração acelerou. o suor começou a escorrer-lhe pela face e o pânico tomou-lhe conta da emoção. estava como o burro no meio da ponte. não sabia para que lado se deveria virar – fiz asneira e vou perder a cutilde. desabafou o zé – desesperado mais uma vez pediu ao amigo para o ajudar a reverter a doidice em que se tinha metido. não podia perder a mulher que amava por causa de uns ciúmes estúpidos – e ali ficaram aquelas duas almas descarnadas a tentar encontrar uma solução para resolver o imbróglio. a preocupação era que a cutilde não desconfiasse que afinal tudo não tinha passado de um teste estúpido e doentio para aferir a sua lealdade


4.
a cutilde. afogada em dor. não encontrava justificação para continuar a viver sem o seu zé e. num ato tresloucado e desesperado. ingere um frasco de calmantes – a vida sem o seu grande amor não faz sentido. a solução é também ela acompanhar o seu marido na viagem final – tudo para ela tinha sido bem claro no dia em que desposou o zé. viveria a seu lado para o bem e para o mal. na saúde e na doença e até que a morte os separasse – sim. que a morte os separasse quando a velhice já não tem remédio. não assim. ainda se estavam a conhecer. eram umas crianças. dentro de poucos dias comemorariam o quarto ano de uma união sagrada – que deus lhe perdoe. mas prefere estar ao lado o seu marido no céu


5.
entretanto o zé continuava a discutir com o seu amigo a melhor forma de resolver o problema e. por mais voltas que dessem. rapidamente perceberam que a única saída para aquela palermice era regressar a casa. pedir perdão à sua mulher e esperar que ela compreendesse que esta loucura só aconteceu porque a amava loucamente e não a suportaria perder por nada deste mundo – assim fez. encheu-se de coragem e pôs os pés rapidamente a caminho. quanto mais depressa resolvesse esta sua triste história mais depressa a sua vida voltaria à normalidade – entra em casa e depara-se com o corpo da cutilde estendido no chão da entrada do quarto – toma-a nos braços. e em desespero. abana-a. chama pelo seu nome umas quantas vezes. pousa o ouvido no seu coração e rapidamente percebe que a cutilde já não pertence a este mundo – senta-se no chão e com a sua amada nos braços aperta-a contra o seu peito e ali fica em silêncio a embalá-la como se estivesse a dormir – revoltado com ele mesmo. percebe tarde de mais que foi a sua insegurança que acabou por lhe roubar o seu grande amor. tinha estragado tudo e ele era o único culpado do que acontecera


6.
entretanto a cutilde chega ao céu e a primeira coisa que faz é perguntar ao s. pedro onde está o seu zé. e quando não é o seu espanto quando ele lhe diz que a morte do zé foi um embuste. infelizmente para ela o zé não faleceu. mas pode ficar tranquila. o seu amor por ele foi altamente recompensado. o zé ficou com a casa e o carro pagos ao banco. para não falar nos milhares que vai receber do seguro de vida


7.
moral da história: não acredite em tudo que lhe dizem – antes de tomar uma overdose de pastilhas. atirar-se de um penhasco ou dar um tiro na cabeça. verifique com os seus olhos se ninguém o aldrabou – e mais um conselho senhor leitor. tome muito atenção à vida. na maior parte das vezes é mesmo essa ordinária que nos engana. amámo-la e em troca faz-nos um manguito – mas no meu caso. que sou o contador da história. aviso-vos desde já que não tomo pastilhas. excetuando as que me aliviam o relinchar dos bicos de papagaio – pobre cutilde


- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros
* albert einstein