.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

29/04/2020

a lourdes. a informação e o covid19










esta crónica é dedicada a uma pessoa muito especial para a nossa família: a lourdes não merecia este vírus



I.
chega mais uma vez aquele momento odioso dos números da tragédia nas últimas vinte quatro horas – e ali estou eu a olhar para a tv. silencioso. cabisbaixo. triste e com medo. a covid19 não para de se revelar. nenhuma família está completamente a salvo da dor – não é a primeira vez que o mundo está em maus lençóis e também não será a última vez. a história produziu imensas tragédias e também as guarda para servir de aviso. mas não adianta. o ser humano é coisa complicada. e nem o saber dos provérbios populares os acautela na ambição: lê o passado e ficarás preparado para o futuro – para não me perder pelas crises e tragédias no mundo. vou apenas referir-me às mais importantes deste século: sofri a primeira incursão de terror com o ataque terrorista ás torres gémeas no 11 de setembro de 2001. não foi fácil lidar com aquele limbo de indefinição das primeiras horas. mas logo percebemos que a guerra era inevitável – nunca conheci uma guerra boa para as mães – de seguida acorrentei-me ao pânico na falência do lehman brothers nos estados unidos. o colapso desta instituição financeira deu origem a uma crise económica mundial. acabando por afetar de diferentes formas todos os continentes – para se ter uma ideia da importância de certos países na nossa economia. dizia-se em tom jocoso. que quando os estados unidos ou a alemanha espirram. os países com as economias mais débeis ficam de cama com gripe – foi a maior crise. melhor dizendo. a maior gripe desde o crash de wall street de 1930 – este pedaço de terra plantado à beira-mar. mesmo sendo um país periférico e minúsculo do sul da europa. tantas vezes esquecido e ignorado. foi mais uma vez capaz de espantar o mundo – desde o tempo das descobertas e. com a chegada a lisboa das naus carregadas de ouro do brasil. nunca mais perdemos a mania das grandezas – o banco de portugal. que alegadamente tinha mecanismos para supervisão. garantindo a estabilidade e a solidez do nosso sistema financeiro. e deste modo. certificar a sua boa saúde e respeitabilidade. surpreendentemente. ou não. foi incompetente – o banco com o nome desta nossa nação imortal. não foi capaz de perceber. os sinais de alerta que chegavam da banca. não só de alguma banca. mas de uma maneira geral do nosso ecossistema financeiro – claro que os portugueses ainda hoje se interrogam como foi possível isso acontecer – o que ficamos a saber. é que os nossos bancos eram geridos por pessoas pouco idóneas. digo. por mafiosos – os nossos “banqueiros”. com raiva do que se passava fora de portas. fizeram questão de mostrar ao mundo. que apesar de pequenos e pobres. estávamos ao nível do que melhor se faz nos grandes países. não lhes faltado arte. e de uma penada. tivemos o BPN. BES. BANIF em bancarrota e assim. milhares de portugueses ficaram sem as poupanças de uma vida – um país inteiro enganado. em falcatruas somos capazes até de superar as grandes potências mundiais. mas ao contrário de outros países. onde os prevaricadores foram a tribunal e pagam com cadeia as trafulhices. no nosso adorado portugal. tudo continuou como dantes. os banqueiros nas suas casas e os depositantes na pobreza – por fim. com o país na bancarrota. com falências em série no tecido empresarial e o desemprego a roçar os 15%. deram-nos a estocada final. trouxeram a troika como a derradeira solução para a salvação do pouco que ainda detínhamos verdadeiramente nosso: as pequenas e médias empresas – estes cavalheiros chegados de países frios e escuros com breu. de poucos sorrisos. óculos escuros. gabardine preta e pasta de cabedal preta. não quiseram saber de quem era a culpa. e para expiação dos nossos pecados. uma dúzia de credos diários e jejum absoluto. como no tempo da inquisição. pão. água e fé no centeno que é outra forma de dizer centeio. ou coisa para matar a fome – de lâmina afiada foi cortar a eito. e não importa que seja velho ou doente. com ou sem medicamentos. com casa ou sem casa. uma barbárie com o selo da CE – tenho muitas dúvidas que seja possível contabilizar as mortes associadas a estas tragédias. mas se fosse possível. por arte de um qualquer nobel de contas. tenho a certeza que o saldo final destes falecimentos violentos. suplantaria em muitos os contabilizados pela covid19 – mas enfim. esses mortos nunca foram contabilizados. mas tem uma coisa em comum com os que morrem com a covid19: morrem ambos asfixiados – a diferença é que para uns a falência do corpo aconteceu por culpa de um vírus importado da china que ataca o sistema respiratório. e para os outros. a falência do corpo aconteceu por culpa de um vírus económico importado de banqueiros sem escrúpulos. que ataca de igual modo o sistema respiratório. sufocando as pessoas pela fome e pelo desgosto – o mundo em geral e os portugueses em particular. sempre viveram em agonia e na corda bamba – em rodapé do meu pensamento corre em passo acelerado uma esperança desmiolada: hoje vai ser melhor do que ontem. a curva não vai subir tanto – é a isto que se chama fé desmiolada. todo mundo sabe que será pior. mas todos continuamos pregados à televisão. numa espera amargurada. amarrados a fátima e às orações – somos uma nação de gente boa que está habituada a sorrir e a abraçar. queremos acreditar num milagre. que se sabe que não irá acontecer – felizmente que este fenómeno tresloucado e de pouco juízo é comum à maior parte dos meus conterrâneos. o que me deixa mais sossegado. ainda não apresentou sinais relevantes de um esgotamento nervoso – é bom saber que não estamos sós nos nossos devaneios – no entanto. há uma diferença enorme entre a minha fé desmiolada e a de um grande número de portugueses pouco ajuizados: eu tenho fé de que o número de infetados e de mortes seja menor. e os meus conterrâneos pouco ajuizados acreditam que o vírus só ataca o vizinho – por via dessa fé pouco ortodoxa. podem continuar a passear. podem ir à praia. formar grupos de cavaqueira à porta dos cafés fechados. e os mais novos também podem continuar a galhofar com este vírus estúpido que só mata velhos – como sei que a maioria dos jovens tem pais. avós. tios e outras almas em fim de vida. o que eles querem mesmo acreditar é que a doença só ataca pessoal da família dos vizinhos – pois bem. até pode ser uma doença de velhos. até me podem jurar a pé juntos que ninguém com menos de setenta anos será afetado por este vírus. podem dizer o que quiser. mas o que me revolta. não é o que a nossa juventude inconsciente diz. isso perdoo-lhes porque em boa verdade a culpa não creio mesmo que seja deles. mas isso levava-me a outra viagem. que nesta conjetura não é relevante. o que me custa imenso. mas imenso mesmo. é que as notícias nos nossos principais órgãos de comunicação social. escrita e falada. associem a tragédia das mortes pela covid19 à idade das vítimas. induzindo os espectadores mais novos a uma desresponsabilização emocional – sei bem que essa é uma verdade da covid19. sei também que é verdade que são os idosos as principais vítimas deste vírus. sei também que a maior parte deles estão muito debilitados por quadros clínicos muito complicados. mas todas essas verdades não justificam que a dor ou as lágrimas de uma morte sejam menores e diferentes de que quando acontece com pessoas mais novas – os velhos dominam o mistério da vida. são eles que dominam a magia do tempo. são eles que dão sentido à juventude para que possam perceber mais rapidamente que não devem desperdiçar um único segundo da sua vida – não podemos facilitar com as palavras. mesmo quando por mais que tentes elas digam o que não queres dizer. a morte não tem idade. nem nunca saberemos quem merece viver mais um dia. se um velho de oitenta anos que ainda toma conta dos netos para que os seus filhos possam sobreviver com os ordenados miseráveis. ou um jovem que com a sua má formação de carácter se transformará num breve espaço de tempo num criminoso sem escrúpulos – mas tentarei explicar melhor na segunda parte desta crónica o enredo das nossas televisões na caracterização das mortes nesta tragédia da covid19… e claro. com a nossa lourdes



II.
bem sei que é inevitável essa associação. mas fico com a ideia de que às vezes há uma comunicação desatenta com as palavras. pouco trabalhada. pouco cuidada. às vezes em pânico. que nos chega emparelhada. mesmo que de forma ténue. a sobreviver à custa da original. encriptada de aliviação. parasita. mas também um género de bálsamo anestesiante para as dores da alma. um relaxador de medo. um perdoa-me do comunicador. e que diz mais ao menos assim: caros ativos deste país. pagadores de impostos. gente que usa as autoestradas. gente que faz filas de trânsito. gente que leva filhos aos infantários. gente que corre atrás de uma bola. gente que faz o mundo andar à velocidade dos aviões. gente que compra moda. que compra excentricidades e coisas que não servem para coisa nenhuma. gente que faz política e ainda outros que se encaixam em perfeição no liberalismo selvagem. gente do lucro. das grandes cadeias mundiais de produção. das ações de wall street. da distribuição de dividendos. dos ricos cada vez mais ricos. e daqueles que são escandalosamente menos ricos. humildes. modestos sem saberem o porquê. talvez por causa do alimento. da sobrevivência. da dignidade do nome. da descendência. e do rir. do fingir para esquecer… e viramos as costas aos que têm mais gula do que olhos. e planeamos tudo para uma eternidade feliz e absoluta. que nunca teremos – relaxem… só morre malta acima dos oitenta anos. malta sem velocidade. malta das cadeiras de rodas. que não corre. que não paga impostos. não leva filhos aos infantários. só os vão buscar quando os pais não podem. malta estranha. velhos do restelo. estão sempre contra tudo e todos. só sabem ver telenovelas para não falar nas fraldas – descontraiam. isto é doença para quem arrasta os pés. nós temos é que trabalhar. temos que fazer o país andar. quem é que paga as contas no fim do mês – pois bem. não tenho oitenta anos. estou até ainda bastante longe dessa idade de risco. mas confesso-vos. este momento que estamos a atravessar está a deixar-me amedrontado – estou farto de pensar como a juventude às vezes é traiçoeira. fumei durante trinta anos e nunca imaginei que um dia seria capaz de envelhecer – palermices que só os velhos compreendem – apesar de já ter abandonado o vício há mais de quinze anos. as mazelas da nicotina são como vulcões adormecidos. a qualquer momento acordam. e sempre com mau feitio – os invernos infernizam-me os brônquios. causando-me desconforto no peito. e só não se torna grave porque um dia o escocês alexander fleming. reparou que as suas culturas de staphylococcus estavam contaminadas por mofo – infelizmente. na covid19. ainda ninguém reparou em nada que nos valesse nesta aflição. talvez apareça um galês. ou quem sabe… um português descendente do egas moniz. e me retire deste medo horrendo – mas não quero falar de mim. bato três vezes numa superfície preta e rumino entre dentes uma ladainha contra os males chineses que nos acercam: diabo do vírus seja cego. surdo e mudo – agora que já me sinto completamente protegido. confesso: estou cansado de andar da sala para o escritório e do escritório para a sala. às vezes vou à cama para descansar do que não faço. mas por pouco tempo. um bom soldado não dorme em tempo de guerra. tem que manter o corpo em estado de prontidão – já ouvi dizer que o vírus atacou o vizinho do quarto andar. apanhou-lhe as entranhas e nem tempo teve para dizer ai – ouve-se pela caixa do elevador que passa o dia a espirrar e a coçar-se – coitado. já não saía de casa desde o dia em que a covid19 surgiu na china. e ninguém consegue dizer como aquilo lhe foi parar ao quarto andar – uma calamidade nesta nossa comunidade vertical – há quem diga na vizinhança que viu um vulto a esgueirar-se pelas paredes do prédio. esfarrapado e com os olhos em bico. a tossir. com uma coroa na cabeça. e abeirar-se da janela com meneamentos de dragão oriental – é o diz que disse. a questão é ninguém sabe quanta verdade há numa mentira – confesso que estou em pânico. e também eu decretei uma cerca sanitária em redor da minha casa. já não me bastava a pandemia mundial e ainda ter que aguentar uma pandemia no prédio – por isso é que me mantenho em estado de alerta total. mais vale prevenir do que arremediar – desde o dia em que um chinês me impingiu um guarda-chuva com a mola quebrada. nunca mais fui capaz de confiar nessa malta de olhinho pequenino – ninguém está preparado para esta barbárie. mas se por um lado ter medo é fundamental para sobreviver. alerta-nos para perigos reais. faz-nos ficar em casa. lavar as mãos duzentas vezes ao dia. usar máscara. e outros cuidados excêntricos que até há bem pouco tempo eram impensáveis. por outro lado. o terror amarra-se à cabeça como sanguessuga ao corpo. e o bom senso fica em aflição. numa ansiedade dolorosa e sem controle emocional – o inferno deve ser uma coisa parecida com isto. imagino eu. só que sem a possibilidade de ouvir hauser. de ver a netflix. ler um bestseller e partilhar o isolamento social com a mulher da nossa vida – acredito que ter acesso a informação credível. com uma boa dose de sabedoria. uma atitude positiva. confiança nas autoridades e no nosso serviço nacional de saúde. é com toda a certeza o melhor antidoto para combater o medo – para aliviar este stress a que estou sujeito diariamente. como milhões de pessoas em todo o mundo. e também para vos mostrar como esta covid19 pode ser muito velhaco. vil. mau e traiçoeiro. um pulha da pior espécie. ao escolher como alvo principal os mais débeis e doentes. gente no limite das forças. cansada. gasta pela vida: os idosos. resolvi tirar do anonimato uma dessas pessoas com muita idade. mas muito especial para mim [que deus me ajude em palavras e a minha arte exalte o seu nome] tenho o prazer de vos apresentar uma pessoa que serviu a nossa família durante quatro gerações: lourdes. oitenta anos. diabética. hipertensa. graves dificuldades de locomoção e ainda outros problemas que. sendo de menor gravidade. a impossibilitam de ter uma vida normal – a ua. como carinhosamente é tratada no nosso meio familiar. chegou à casa dos meus bisavós maternos aos catorze anos com a missão ingrata de ajudar a tratar a minha avó de um mal ruim. como era normal dizer na época para as doenças oncológicas – com o falecimento da minha avó viajou para braga. veio servir para casa dos meus progenitores. e ali se fez mulher a partir dos seus dezasseis anos – com o tempo acabou por se tornar na “criada” de confiança dos meus pais e também a inveja de outras serventes nas redondezas – tratava das compras para alimentação diária da família. dos asseios da casa. da roupa. dos meus irmãos e mais tarde de mim. e por último. num upgrade às suas funções menos nobres. era também um género de terapeuta para situações de crise da minha mãe que. tomada pelos nervos ao cair da noite. iniciava uma série de ais aflitivos. atarantando o meu pai que ficava sem saber o que lhe fazer com os afrontamentos ruidosos – a solução passava pela lourdes: postava-se aos pés da cama. alevantava a voz. puxava o ânimo até á cabeceira da cama. e desenrolava em sistema de arma automática uma panóplia de histórias e segredos da vizinhança. extorquidos em sistema de saca-rolhas às colegas de profissão… sabe-se lá a que custo – bem… tal como um exorcista expulsa os espíritos maus do corpo. a lourdes. também expulsava os ais da minha mãe – com o avançamento dos enredos a trama das fofocas começava a produzir expectativas elevadas sobre o final. um género de telenovela com personagens conhecidas nas redondezas. e que mantinha a minha mãe com a atenção focalizada na narrativa. fazendo-a esquecer todos os males de aflição – os ais começavam rapidamente a espaçar. a perder vigor. e com a adição de um chá bem quentinho. bebido em tragos lentos. permitia que sua senhora deixasse escapar uns arrotos mais ao menos fortes sempre que o enredo esmorecia – estava dado o sinal para o fim da crise. a maleita estava em completa remissão – às doze badaladas da igreja do carmo já os anjos dormiam em sossego. e eu finalmente também em paz. enrodilhado em cobertores. agradecia a deus por me ter concedido a graça de ter em nossa casa uma curandeira com poderes especiais de cura – acreditem. as histórias da lourdes tinham o efeito de um valium. talvez até de algum ansiolítico mais forte. diria que nos nossos dias não se poderia adquirir sem receita médica – o que é certo é que a minha mãe ao romper do sol apresenta-se ao trabalho como um general. com a alma revigorada e pronta para comandar as suas funcionárias – com o casamento da minha irmã apareceram novas crianças. as minhas sobrinhas. sandra e bárbara. vieram elas também para os cuidados da ua. e o lar voltou a encher-se de alegria e barulhos – foram anos de muita paz e sorrisos. os avós tinham novamente crianças em casa. a lourdes novas preocupações. as miúdas não lhe saiam do pé o que lhe agradava. e eu deixei de fazer parte das preocupações dos mais velhos. estava tudo perfeito – não há dúvida que as crianças têm poderes curativos inimagináveis – os anos passaram e a lourdes ganhou direito a pertencer à nossa família sem necessidade de invocar a usucapião – para mim que nasci com a sua presença ao meu lado. que dormi na sua cama até a escola me chamar. que lhe fazia rolinhos no cabelo para adormecer. que me vestia. alimentava. acarinhava e aturava a minha vontade indomável de ser livre. dizem que não era fácil segurar-me. era mais do que óbvio que estava em nossa casa desde o tempo da pré-história – a lourdes era estimada por toda a família e mesmo com a chegada de novos membros. genros e noras. nada se alterou. o apreço por esta senhora era unânime – o tempo. infelizmente. também passou por mim. e um dia. o meu pai. perguntou-me porque não me casava – achei que tinha razão. os meus dias sempre tiveram o dobro das horas. estou até convencido. que com as cismas dos progenitores nos dias de hoje. o mais certo. era enfiarem-me pela goela abaixo umas quantas pílulas para a hiperatividade – fiz a vontade ao meu pai e também a mim. e casei com a companheira que resiste estoicamente a meu lado. confirmando a promessa de que era para sempre. para o bem e para o mal. com vírus ou sem vírus – um pouco antes da boda. e com muita tristeza para a família e principalmente para a minha mãe. a lourdes informou que iria voltar à aldeia dos meus ascendentes para tomar conta da mãe. senhora glória. com setenta e cinco anos; do pai. senhor barreto. com sessenta e quatro anos; e de uma tia. senhora marquinhas. com oitenta e nove anos. que depois da minha avó falecer acabou por casar com o meu avô – estamos não só a falar de gente idosa.  mas de gente escrava. com marcas no corpo de um passado feito de dificuldades. de miséria. de trabalho no campo sem descanso. de fome. e que para além da idade avançada. também copulavam saúde periclitante. limitando a sua mobilidade. e incapazes de se valerem a eles próprios – a lourdes percebeu que só com a sua ajuda seria possível dar mais algum tempo de vida com qualidade aos seus familiares. mas isso implicava a sua presença junto dos idosos em permanência – foram momentos dramáticos em casa dos meus pais. para lá de se perder uma pessoa que já era da família. perdia-se uma governanta insubstituível – infelizmente comprovou-se que era mesmo impossível a sua substituição. nunca conseguimos acertar com as novas promessas e acabamos por desistir de encontrar uma outra governanta. recorremos mais ao take away – muito bem. o texto está a complicar-se com a quantidade de páginas. o melhor é centrar a história definitivamente na personagem principal: a lourdes – esta alma de deus merece cada linha desta pequena eternidade que lhe escrevo – é ela a razão porque acho o covid19 um vírus muito estúpido e injusto – peço-vos que apreciem por favor esta história. para além de ser a história da lourdes é também a minha





III.
a maria de lourdes correia. nossa ua. frequentou a escola de s. mamede de escariz. aldeia onde nasceu no concelho de vila verde. até completar a segunda classe – naquela época. o país não tinha na letra da lei a escolaridade obrigatória. apenas frequentava o ensino escolar filhos de famílias mais abastadas – é sempre bom lembrar que nos primeiros anos da república o analfabetismo revelava a presença de aproximadamente 80% de analfabetos – também a lourdes foi resgatada da escola contra sua vontade. os pais precisavam de ajuda. o cultivo dos campos não se fazia sem mãos e os animais não conheciam o trilho para o pasto – as relações de amor e afetos familiares. como os beijos. os abraços. as expressões verbais de ternura. só se generalizaram no último terço do século passado. primeiro nos grandes centros urbanos. e só muito mais tarde nas comunidades rurais – a criança ao longo dos séculos sempre foi olhada como um pequeno adulto em crescimento. qualquer demonstração de carinho era muito mal-entendida pela comunidade. entendia-se nesse tempo de escureza. que as manifestações de afecto prejudicavam seriamente o crescimento. não ficando estes suficientemente fortes para resistir às borrascas da infância – a criança aos sete anos era referenciada por [quase] toda a comunidade rural como parte integrante da capacidade produtiva da família – aprendia caminhando ao lado dos pais. não tinha juventude ou tempo de aprendizagem. a resistência e a força para executar tarefas determinava o fim de um ciclo e o começo de outro: a criança tornava-se adulta – os dias dos seus progenitores eram passados de enxada na mão de sol a sol. num trabalho escravo. mal pago. não permitindo na maior parte do ano. exceção ao verão. alimentar a família condignamente – as semanas eram muito longas. com cargas horárias alinhadas à luminosidade solar. não havia semana inglesa. eram seis dias de padecimento e sacrifício. sobejando um único dia para se cumprir a vontade do senhor: ao sétimo dia descansar e glorificar o criador – assim era. pela manhã bem cedo. em júbilo pelo sossego do corpo. a família vestia com cuidados a roupa domingueira: ora puída. ora remendada. contudo. asseada e limpa. a iluminar o corpo com luz. numa nobreza à existência dos pés à cabeça. dignos de tudo – esperavam o chamamento do sino que. em batimentos ritmados e possantes. chegava a todos os cantos da freguesia num apelo aflitivo: despachem-se – as manhãs de domingo despertavam imperiosamente com a primeira eucaristia do dia na igreja paroquial da freguesia – o padre e o senhor são sempre pontuais – era o sinal para partir. ainda tinham de caminho uns bons quinze minutos em passo acertado – o domingo servia para asseverar a fé. recuperar as graças do senhor e renovar o pedido de socorro e proteção – o senhor era seu pastor e seu conselheiro – era ali. na casa de deus. que lhe rogava encarecidamente proteção divina. que não abandonasse a sua família. que os guiasse e iluminasse pelo caminho da virtude – no fim da eucaristia. enquanto o pai saía para o adro da igreja. a mãe. trajada de preto com o lenço a cobrir-lhe a cabeça em respeito. obediência. e com as crianças a seu lado. aproximavam-se de são mamede. santo protetor da aldeia. ajoelhavam-se com os olhos vencidos em clemência. devoção e renovavam a fé no espírito santo: pai todo o poderoso e salvador do mundo – por fim. despediam-se relembrando-lhe humildemente que a oferenda continuava válida: se as colheitas colherem a sua graça. presenteiam-no com meia rasa de milho e uma vela de parafina branca. pois a palavra do senhor é certa. cobre a terra e traz salvação – os dons e o chamado de deus são irrevogáveis – infelizmente. mesmo o dia do senhor não ficava sem trabalho. o regresso era igualmente feito em andamento de quem tem pressa: os animais também ruminam aos domingos. não apresentando nenhum tipo de respeito e gratidão para com o seu criador – o que sobrou da escola à lourdes foi uma assinatura trémula do nome. e umas quantas palavras que aprendeu a juntar. nem sempre da forma mais assertiva. mas o suficiente para dar as boas novas a sua mãe sobre o estado de saúde do seu único irmão internado no sanatório do caramulo com tuberculose – a lourdes nasceu em mil novecentos e trinta e nove. uma época complicadíssima. não havia ameaça pandémica. mas havia outros males na sociedade que matavam mais cristãos que a nossa covid19 – eram tempos muito difíceis para todos: não havia estado social. sistema nacional de saúde. não havia médicos de família. não havia transportes diários para se chegar às vilas e cidades. não havia dinheiro para medicamentos. o que realmente abundava no nosso portugal era muita miséria – como uma desgraça nunca vem só. estávamos no começo da II guerra mundial [1939-1945]. e a guerra civil na nossa vizinha espanha [1936-1939] apesar de já ter terminado. os efeitos ainda se faziam sentir no país – a fome. a pobreza. a miséria. a literacia. a falta de informação. a falta de todos e quaisquer cuidados de saúde e as guerras no mundo. fazia com que as pessoas naquela época. se preocupassem exclusivamente em sobreviver. a comida era escassa e difícil de encontrar – vivia-se um momento calamitoso. a guerra adquiria proporções cada vez mais devastadoras e o estado da economia tornou-se caótico – para agravar a situação em que o país se encontrava. salazar. o estadista nacionalista português e condutor dos destinos do império. decidiu. dividir o pouco que tínhamos com a nossa vizinha espanha – é portugal que alimenta a máquina de guerra fascista de franco. e mesmo depois da guerra civil terminar. é também salazar. mais uma vez. que evita a morte à fome de milhões de espanhóis. não interrompendo o envio de mantimentos – no entanto. salazar evitou que os horrores da II grande guerra atingisse o nosso país. e considerou ele. que esse foi o momento mais difícil da sua governação. mas também a maior graça que deus lhe concedeu. iluminando-o de sabedoria. de arte e de engenho. fazendo acreditar alemães e ingleses que a neutralidade de portugal era o que melhor servia as duas nações – só não evitou a fome. a miséria e o atraso tecnológico em relação a outros países da europa – não se podia ter tudo. tivemos paz – a tia da lourdes. senhora marquinhas. que cheguei a conhecer muitíssimo bem. foi trabalhar para o meu bisavô. e por necessitar de ajuda. acabou por chamar a lourdes para a sua companhia – tinha. como já disse. catorze anos – como também referi anteriormente. aos dezasseis anos. veio servir para a casa dos meus pais em braga. e ali ficou até cerca dos quarenta e cinco anos. quando foi obrigada a regressar à aldeia dos meus avós. parada de gatim no concelho de vila verde. para cuidar dos familiares idosos – foram os anos mais difíceis da sua vida. isolamento. solidão e muito sacrifício. foi como se tivesse sido desterrada. privada completamente de toda a liberdade – a casa. digo. o barraco. era composto por um quarto com duas camas onde dormia a lourdes e as duas velhotas. mais um quarto no exterior. que nas casas da aldeia. era vulgarmente designado pelo quarto dos defuntos e usado para os velórios sempre que alguém falecia – nesse quarto estava instalado o seu pai – sobrava uma cozinha e um “quarto de banho” feito às três pancadas onde mal cabia a sanita e nada mais – acrescentava-se o negrume nas paredes pelo fumo da lareira e uma lâmpada de casquilho grosso enfarruscada de fumo negro – não era uma casa portuguesa como cantarolava a amália rodrigues. nem uma casa como aquela em que vivera os últimos vinte e nove anos. era sim. uma casa miserável. pobre. muito pobre. a sua única riqueza era a humanidade com que a lourdes tratava os idosos – exilada do mundo. do conforto. do bem-estar. combatia a solidão e as horas com um rádio a pilhas que consentia que a radio renascença levasse diariamente a eucaristia aos velhinhos. uma tv portátil a preto e branco inundada de granulado cinza que. em boa verdade. ninguém percebia muito bem o que de lá saía – a sua única preocupação era cuidar do corpo dos velhinhos. levando-lhes a comida à boca. fazendo-lhes a higiene diária e quando acamados. mudar-lhes a posição de hora em hora. para evitar as escaras – nunca faltaram cuidados ou afetos àqueles idosos. e quando chegou a sua hora partiram em paz e com a certeza de que não encontrariam ninguém com a dimensão espiritual da lourdes – a lourdes renovou a necessidade de uma nova conciliação com o ser humano. uma outra forma de estar. de proceder. outra dimensão social para promover o amor e bem-estar. mostrando-nos que o que importa não é o que se espera da vida. mas sim. o que a vida espera de nós. que é como quem diz. aceitar a obrigação de responder às necessidades de cada individuo na exigência de cada momento – a lourdes abdicou da sua vida para responder às necessidades dos seus familiares no momento mais débil das suas vidas: a velhice – mahatma gandhi dizia que o amor é a força mais subtil do mundo. é completamente verdade – foi preciso muito amor para abdicar de uma vida confortável. citadina. com todas as condições de civilidade onde era estimada e reconhecida – depois das cerimónias fúnebres. e de um luto que fez questão de consagrar à sua prole. já nada a ligava àquele pedaço de terra longínqua de tudo. estava na hora de regressar a casa – regressar não para servir. regressar porque a nossa casa. era também a sua casa – mas como diz o papa francisco: quem não vive para servir. não serve para viver – a lourdes vive para servir – vivíamos na família um momento muitíssimo complicado. o meu pai encontrava-se em estado terminal de uma doença destrutora – foram cinco anos devastadores. cinco anos para o corpo chegar à miséria – a maldição do relógio não parava de contar tempo. os dias de luz tornavam-se cada vez mais escassos. e esperávamos. sem que já nenhum milagre pudesse acontecer. que a doença lhe tomasse definitivamente as forças – estava na hora do meu pai encontrar o céu porque tanto rezou – mais uma vez a lourdes esteve a seu lado dia e noite. tentando aliviar dores que já não cediam com nenhum tipo de medicação – foi quase um ano de uma angústia lacerante. a situação era muito crítica. a degradação física chegou a limites que nunca imaginei que fosse possível. já quase nada restava daquele corpo general. só o nome o ligava às fotos que ainda viviam pelos cantos da casa – estou convencido que a chegada da lourdes evitou que também tivéssemos que enterrar a minha mãe. estava completamente exausta e já sem lucidez física e psíquica para continuar a prestar os cuidados paliativos – finalmente. a dezassete de março de mil novecentos e noventa e oito. o meu pai desistiu de si e foi ao encontro do seu deus. levou com ele a nossa saudade e nas mãos a bondade dos homens – tenho agora uma profunda convicção que. com a chegada da minha mãe ao reino dos céus [dezembro de 2018]. o meu pai tenha encontrado a outra parte da vida que deixou para trás – hoje. com os meus quase trinta cinco anos de casamento. sei que o meu pai gostava imenso da minha mãe – a casa dos meus pais era muito fria. era assim um género de casa siberiana. tetos de estuque. imensas clarabóias. enorme em tamanho e correntes de ar e com frinchas nas janelas maiores de que guritas de sentinelas – aplicava-se na perfeição aquela expressão popular de trás-os-montes: nove meses de inverno e três de inferno. ninguém melhor do que eu sabia o que era viver naquela casa feita de frio – era uma enormidade de casa para duas mulheres desaparecidas no negrume do luto. e logo que o verão se arrastou para dentro do outono o frio tomou em absoluto conta dos corpos – a minha mãe confinava-se ao seu quarto para evitar que as nevascas lhe paralisasse os membros. e a lourdes arrastava-se pelo corredor chumbada de agasalhos procurando sorrisos que já não existiam – tudo era escuro e desgostoso – a minha mãe não se conformava com a solidão do luto. continuava mergulhada em memórias e saudade que a deixavam sem vontade de viver – com o tempo ganhou uma tristeza que me parecia mais um pronúncio de morte. o que me deixou a pensar na necessidade de se copiar o que se faz na suíça e criar os cafés da morte. para que as pessoas possam falar dos seus medos da “mortalidade entre goles de café e mordidas em bolinhos” – o desaparecimento do meu pai mudou completamente a minha forma de encarar a morte. se no passado me perguntassem se tinha medo de morrer o mais certo era ter dito que não. tudo se resumia a fechar os olhos. ou como diz fernando pessoa. a morte é a curva da estrada – pois bem. já não é assim. mudou tudo. a resposta alterou-se pelo sofrimento que fui obrigado a vivenciar – agora tenho pavor de morrer – já se sabe que o cérebro tem ferramentas que evitam que pensemos na morte. é a sua forma de se proteger da ansiedade – no entanto. com a forma horrenda e bárbara como o meu pai. dia a dia. passo a passo. dor a dor. foi perdendo o controle de viver. deixou em todos nós um estado de profunda revolta e mágoa. e principalmente um transtorno de ansiedade grave – passamos a projetar a nossa morte no mesmo quadro de dor e terror. o que ainda hoje é cruz que carrego e me faz caminhar pelas veredas da injustiça – estávamos todos completamente devastados e tudo demorou muito tempo a voltar aos sorrisos. a viver sem medo – para a minha mãe tudo foi mais espinhoso. para além da idade tinha perdido o seu amor de quase cinquenta e dois anos. e um companheirismo que ultrapassava em muito a vida conjugal. havia em comum a edificação de um património profissional construído com muito sacrifício – foi uma daquelas mulheres emancipadas do pós-guerra. que pela sua capacidade de trabalho e liderança se impusera no mundo dos homens – às vezes não é fácil admitir que aqueles que lideraram as nossas vidas também envelheçam. principalmente uma mãe. sempre tão imperiosa. robusta. dinâmica. e agora tão frágil. quebradiça e indefesa. a morte de meu pai envelheceu-a vinte anos – a minha família estava à justa para o apartamento. três filhos para três quartos. a solução passava por encontrar um apartamento próximo. um género upgrade e depois criar uma ponte vaporosa de abastecimento: alimentação e afetos – assim foi. surgiu uma oportunidade. e merquei um outro T3 mesmo ao lado do meu. dupliquei o número de quartos passando todos a viver à larga e à francesa – com este golpe de oportunidade consegui juntar à minha volta as três mulheres mais importantes da minha vida – foram anos bons para a nossa família. reinava finalmente a paz. e com a ajuda dos médicos fomos adiando o que sabemos ser inevitável – passaram-se vinte anos. e a lourdes na sua infinita vocação de servir os outros. continuou a auxiliar a minha mãe como se ainda pudesse enganar a idade. reinventando o tempo e escondendo as fragilidades de saúde – não era assim. as contrariedades já eram muitas. via-se perfeitamente que as debilidades estruturais do corpo estavam a chegar ao limite. entrara em definitivo na velhice dos cuidados – as viagens do quarto à sala começaram a demorar cada vez mais tempo. o andamento era cada vez mais lento. depois o passo a passo. e os ais que antigamente não existiam. agora. acompanhavam a curvatura das costas misturados com o inchaço dos joelhos a ranger caminho – a lourdes não podia continuar a oferecer à minha mãe as mordomias do passado. não era justo manter aquela canseira. o corpo era agora um peso e com dor – pedi-lhe várias vezes para que fosse mais contida na sua lida. mas não adiantava. tinha a teimosia de um carro de mulas bravas. e se insistisse em demasia. o mais certo era levar uns coices – duas coisas que não se podiam pedir à lourdes: para estar quieta. ou para estar calada – quando a minha mãe acordava o pequeno almoço estava pronto. o almoço adiantado. e a lida da casa num reboliço controlado – à tarde o enredo repetia-se com as mesmas protagonistas: o lanche por volta das quatro e meia. e quando o sol batia nas sete da tarde a lourdes gritava:

  -- senhora. a sopa está na mesa. venha senão arrefece

acompanhava com uma peça de fruta descascada e uns quantos comprimidos. todos em fila indiana para que não houvesse falhas no receituário – não podia mesmo haver esquecimento. era a única defesa para manter a idade escondida do padecimento. a senhora minha mãe chegou aos noventa e quatro anos – o fim do jantar trazia finalmente o descanso e também a telenovela que não se perdia nem por coisa grave – a minha mãe recolhia-se no quarto. e a seu lado. para o que desse ou fosse necessário. sentava-se a lourdes numa senhorinha de veludo mel. que bem a podia presentear com o nome – a comunicação era escassa. as atenções eram exclusivas para a meada da novela da SIC. a não ser que um tratante no écran precisasse de um corretivo verbal. os maus lá por casa não tinham a vida facilitada – a minha mãe teve a lourdes a seu lado até ao dia em que foi internada no hospital. dia e noite. em nenhum momento a abandonou – sofreu muito com a doença da sua senhora. todos sabíamos que a minha mãe não era uma pessoa fácil com a doença. sempre foi assim. uma qualquer dorzinha e era o deus me livre – também eu sofri imenso em miúdo com os seus males. mas era assim. ainda não havia ciência para todos os padecimentos. o que não se sabia ou era coisa ruim. ou nervos – a solução passava sempre por uma cura de águas e muito descanso sem arrelias – a dor era partilhada pela família em formato de ais de coisa grave – sem nenhum género de tolerância ao sofrimento. lá vinha o dr. rocha peixoto. com aquela perna mais curta do que outra. a subir as escadas com uma mão no corrimão e outra na bengala. em tremeliques promissores de um cai. não cai – atrás. em estado de alerta vermelho. não fosse o doutor perder a coerência com os degraus. seguia meu pai com o malote de médico e o estetoscópio que. com aflição ia dizendo:

cuidado sr. doutor… temos tempo

quem não achava piada nenhuma àquela coisa do… temos tempo era a minha mãe. que para contrariar deixava escapar um ai agudo emparceirado com dois suspiros profundos que se ouviam ao fundo das escadas – de uma penada. o médico. com as duas pernas em prumo. esbaforido. chegava ao quarto com mais ais do que a doente. virava-se e dizia:

-- boa noite dona carolina
-- boa noite sr. doutor

e mais dois ais moribundos. quase desmaiados… o que deixava antever sérias dificuldades para a cura

-- sr. lopes. arranje-me por favor uma cadeira

sentava-se todo desengonçado. recuperava folêgo. virava-se para a minha mãe e perguntava-lhe com ar de doutor:

-- minha senhora. então o que a preocupa 

é verdade que nos últimos seis meses havia realmente razões para se queixar. o cancro da mama alastrou primeiro para os ossos. e de seguida. disseminou-se a outros órgãos vitais. as dores tornaram-se realmente insuportáveis. a morfina deixou de ser competente no controle da dor. apenas o coração e a vontade de viver resistiam – quando a minha mãe faleceu. logo após as exéquias. tive o cuidado de falar com a lourdes e dizer-lhe que estava na hora de pensar mais em si. as desculpas com o avançar da idade deixam de funcionar – ou começava realmente a preservar a pouca saúde que ainda lhe restava ou o seu corpo iria ceder muito mais rápido do que poderia imaginar – estava na hora de descansar. de estar quieta. de viver sem preocupações. de viver sem horas – já não seria possível acertar contas com o passado. mas podia aceitá-lo. e aproveitar o resto dos seus dias para viver com serenidade pois merecia-o – a promessa ficou feita. tudo faríamos para a recompensar dos longos anos dedicados à nossa família. não só eu. mas todos aqueles que tiveram o privilégio de viver a seu lado. um sentimento de gratidão também reconhecido pelos meus irmãos – não queríamos que se preocupasse com nada. queríamos unicamente que se sentisse protegida. que se sentisse viva. em paz e com o seu deus – a lourdes sempre foi uma mulher de muita fé e com uma correspondência muito próxima com deus e seus discípulos – tenho a certeza. de que quando chegar ao céu. logo a seguir à sua assunção gloriosa. terá à sua espera as primeiras figuras da igreja – acreditem. falar da ligação da lourdes com o seu deus levava-me a uma quase interminável crónica – quem sabe um dia eu ganhe coragem – continuou por isso a viver no mesmo apartamento. usufruindo de todas as comodidades que cabiam à minha mãe – entretanto nos últimos meses o seu corpo debilitou-se imenso. os movimentos ficaram reduzidos ao espaço onde reside. e para se deslocar a nossa casa. já só é possível com a ajuda de cadeira de rodas – mas mantemos o bom hábito de que nos visite todas as tardes: senta-se no sofá. vê a júlia pinheiro. janta connosco. algo que já não fazia há muitos anos por limitações da sua senhora – lamento não me ser possível por falta de talento. descrever a satisfação que lhe encontramos sempre que se senta à mesa. finalmente servida e sem desassossego – a minha mãe roubava-lhe muito sossego – com o aparecimento da covid19 tomamos a decisão de a proteger. o que não fizeram os lares atempadamente. fizemos nós. ainda o vírus não tinha expressão no nosso país e já a lourdes estava em quarentena rigorosa – ao princípio custou-lhe um pouco. não alcançava o porquê de tanto cuidado. afinal a doença ainda estava em itália e por aqui ainda eram meia dúzia de casos sem expressão – hoje pensa de maneira diferente. está há mais de cinquenta dias sem visitas. e não há exceções para ninguém – uma única pessoa a visita diariamente. a minha companheira. leva-lhe a alimentação e um pouco de conforto. o que a doença permite – pois bem. cheguei ao momento das interrogações. como é possível deixar passar a mensagem que esta doença só mata mesmo pessoas de idade. que é como quem não diz. mas pensa: em vez de ir mais tarde. vai mais cedo – a comunicação é feita sempre com a subtileza de que é preferível morrer dez velhos em troca de um novo – não dizem o que estão a pensar. mas subentende-se: estes velhotes já viveram o suficiente. ou então. como já não são produtivos. são dispensáveis. não fazem falta – estou certo que muita da nossa juventude não sabe que esta gente velha e feia. que entope os hospitais com gripes. e consome quase a totalidade do nosso orçamento para o serviço nacional de saúde. foi quem fabricou. desenvolveu e trouxe para os nossos dias. com os seus sacrifícios inimagináveis. este estado providência que nos dá quase tudo: serviço nacional de saúde para toda a população com custos muito reduzidos. manuais escolares gratuitos durante o período de escolaridade obrigatória. universidade com propinas diminuídas. bolsas de estudo para os alunos com dificuldades. transportes urbanos com preço reduzido. e tantas outras coisas – pois parece que ninguém se quer lembrar disso – os noticiários gostam de abrir com o cataclismo de uma morte jovem. ou famoso pela ciência. ou pelas artes. ou pelo desporto. ou ainda unicamente pelo dinheiro. e tudo dito com tanta emoção e tanto infortúnio. e quando o mundo inteiro já está completamente apavorado. amedrontado. hiperventilado. e em sufoco. chega o alívio para esse cocktail de medos: é anunciado que apesar do número elevado de mortes. mais de noventa por cento dos falecidos tem mais de oitenta anos e com outras patologias associadas – esta voz não informa. esta voz mitiga o mal-estar. o desconforto e o incômodo de quem ainda não chegou à idade de risco – não há diferenciação positiva nas notícias. estamos a falar de números. estamos a falar de gente que por ter envelhecido perdeu o direito de ser chorado. de ser condecorado por serviços relevantes prestados à nação – em boa verdade esta gente idosa já estava morta muito antes da chegada da covid19 – agora temos esse massacre diário de lares contaminados. e os idosos infetados às dezenas. a morrerem porque quem tinha obrigação e a responsabilidade de os proteger não foi competente. e não me venham com desculpas de que a culpa é do vírus. ou dos funcionários que o carregaram para o interior dos lares. a culpa é dos seus responsáveis. dos gerentes. administradores. diretores. provedores e outros incompetentes sem nome ou nomeação – não consigo perceber como esta malta não deu importância a um vírus que estava a matar milhares em itália. digo. em toda a europa e ásia. e era notícia diária nos órgãos de informação de todo o mundo –desculpem. mas não compreendo como essa gentinha incompetente não valorizou os seus idosos. o seu ganha pão. aqueles que depois de sobreviverem a tanta maldade. e que com os seus sacrifícios. permitiu que o mundo moderno encontrasse uma resposta social para quem chega à velhice – a declaração universal dos direitos humanos. diz no seu artigo primeiro. que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. em nenhum dos seus artigos faz referência à idade. e também diz a nossa constituição no seu artigo 72º. que as pessoas idosas têm direito à segurança económica. a condições de habitação. convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social – não diz que a partir dos oitenta anos tem que ceder ventiladores aos mais novos. a dignidade humana é um valor moral que norteia toda a diversidade de valores de um indivíduo. idoso ou não idoso – claro que compreendo o dilema dos médicos quando lhes pedem para fazer o papel de deus. e também percebo que na dúvida se opte pelo doente que lhe dá mais garantias de sobrevivência – mas. como se pode atestar pelas inúmeras reportagens dos nossos meios de informação. que mostra diariamente a recuperação de idosos com idades muito avançadas. alguns com mais de cem anos. e que contra tudo o que era espectável. acabam por ultrapassar as graves infeções pulmonares sem sequelas. o que nos mostra que nem tudo é assim tão linear quando um médico tem que escolher entre um idoso e um “jovem” – não podemos permitir que estas triagens se repitam no mundo. temos todos neste planeta que tirar consequências desta grave crise de saúde. cada idoso tem um pouco da vida que consumimos hoje – o que vos posso dizer é que para mim. em face das notícias diárias que me chegavam. primeiro da china. depois de itália. e por último da nossa vizinha espanha. foi muito fácil perceber o que tinha que fazer. e fiz – felizmente que o fizemos no momento certo – a lourdes foi e será sempre alguém muito importante para a nossa família e estará em nossa casa até que deus entenda chamá-la – rogamos unicamente para que não faltem condições para a mantermos ao nosso lado – temos apenas uma preocupação. que acame e fique a necessitar de cuidados continuados e nos impossibilite de cumprir a nossa promessa. a ua sabe melhor que ninguém que ainda estamos todos a tentar sobreviver neste país que nos trata tão mal – a lourdes ocupou as nossas vidas sempre com muita paz e serenidade. e para mim foi sempre muito reconfortante tê-la por perto – podia contar dezenas de histórias fantásticas da lourdes com a nossa família. e outras mil de nós os dois. mil histórias boas. porque se contasse aquelas que me envergonhariam. estou convencido que as poderia multiplicar por dez – já que estamos em abril vou recordar uma história da minha adolescência vivida num período complicado para o nosso país: vivíamos a revolução de 25 de abril de 1974 – pouco tempo após a revolução. em pleno espírito revolucionário. com o país completamente em desordem. perigoso. mergulhado numa onda de violência. de intolerância. de perseguição a todos aqueles que de alguma forma estiveram ligados ao antigo regime. principalmente aos pides - polícia internacional e defesa do estado. seus informadores. políticos da assembleia nacional. igreja católica e outros dependentes das benesses do estado novo. todos estavam sujeitos a linchamento público – esta malta revolucionária. completamente alucinada. a viver uma liberdade sem regras. próxima do caos. não se ficou apenas por aqueles com ligação ao estado novo. tudo que que era patrão. rico ou pobre. com empresas grandes ou pequenas. coxo ou maneta. tudo era fascista. explorador da classe operária. e tinha obrigatoriamente que ser saneado. as suas empresas nacionalizadas. e criadas unidades coletivas de produção para as gerir – tudo era pertença dos operários. a terra a quem a trabalha. zero de patrões – coitado do meu pai. um patrão que nem sabia o que era capital quanto mais capitalista – para grandes males. grandes remédios. o meu pai aparece em casa armado até aos dentes. uma caçadeira e uma caixa de vinte quatro zagalotes – não dava para começar um movimento anticomunista. mas criar a ideia de que o primeiro comunista que tentasse entrar na empresa corria sérios riscos de não sair com vida – nunca nenhum tentou. não sei bem se por medo aos zagalotes. ou da minha mãe – estou convencido que nunca tentaram ocupar a empresa porque sabiam que também tinham que desocupar a minha mãe. o que não me parecia fácil sem a intervenção das forças motorizadas – só para que fique registado. não creio que o meu pai matasse o que quer que fosse. primeiro porque não tinha mira. e em segundo. não tinha uma condição fundamental para ser um vingador: raiva persistente – o meu pai o que tinha mesmo era uma alma do tamanho do mundo. não sabia fazer mal a nada. nem a ninguém. e apesar de se dizer da direita. era mais de esquerda do que os camaradas progressistas – viveram-se momentos revolucionários únicos. que por nada deste mundo gostaria de ter perdido – com o começo de um novo ano letivo. em setembro de 1974. o ambiente nas escolas não era diferente daquele que se vivia nas ruas. a luta pelo controle do liceu sá de miranda fazia-se com duas fações opostas no espetro político. o MRPP de arnaldo de matos. da extrema esquerda revolucionária. e o CDS de freitas de amaral e amaro da costa. da direita e democracia cristã – PSD. PS e até o PCP ainda não tinham expressão no meio estudantil – o problema agravou-se porque nesta bagunça instalada no liceu o que sobressaía eram os meus sinais exteriores de riqueza – transportava nos bolsos bastante pilim para um puto da minha idade. no liceu comecei a ter a fama de menino de papá. o que me desagradava por não ser verdade. e filho de fascista. neste caso confesso que já me agradava mais. mesmo não sendo verdade – o problema é que estava a pôr-me a jeito de um linchamento com motivações revolucionárias e sujeito à cassação dos bens em transporte – os meus colegas nunca souberam que a minha fortuna provinha dos descuidos noturnos de meu pai. e como a sua divulgação seria uma vergonha para os dois. classifiquei-a de confidencial e segurança máxima – juro-vos que preferia que o meu espólio tivesse a sua grandeza num assalto a uma sede de um partido político – mas já passaram anos suficientes para libertar essa informação confidencial: o meu pai. ao deitar-se. dobrava as calças pelas vincas e colocava-as nas costas da cadeira. sempre com muito cuidado para que no dia seguinte estivessem impecáveis – até aqui tudo bem não fosse a sua relação descuidada com o dinheiro – nunca mais conheci ninguém com um comportamento tão desprendido dos bens materiais como o meu pai – com o envelhecimento percebi que talvez exagerasse um pouco. e com alguma razão a minha mãe alertava-o para dar mais atenção ao pecúlio familiar. e acrescentava em modo de ralhete final: até parece que tens uma árvore das patacas – mas não adiantava. não era uma questão de árvore. era unicamente os seus descuidos desinteressados. era-lhe indiferente ter mais ou menos. as suas necessidades mediam-se pelos compromissos assumidos. e nada mais – no entanto. esta aparente imperfeição do meu pai. era a minha sorte e fonte de rendimento – a minha galinha de ovos de ouro – ao colocar na cadeira as calças. as moedas que tinha no bolso tombavam para a alcatifa – tudo fácil para mim. de manhã a lourdes ao arrumar o quarto fazia a recolha e entregava-me o legado – bem. eu sei que é difícil de acreditar. mas digo-vos que era muito dinheiro. para que possam ter uma ideia. dava para um catraio levar uma vida de multimilionário – a caminho do liceu parava no quiosque s. vicente. comprava um maço de tabaco ritz. como se fosse um homem. enquanto os meus amigos compravam dois cigarros para o dia todo. naquele tempo vendia-se cigarros avulso – como o dinheiro era muito. comprava uma bola de plástico para jogar com os meus camaradas no intervalo das aulas. juntava-lhe umas guloseimas e lá ia cantando e rindo. feliz com o sucesso da vida – logo que chegava ao liceu. e para forrar o estômago. fazia um reforço ao pequeno almoço de casa. um sumol e um bolo – quem estuda necessita de estar bem nutrido – no intervalo grande dava uma corrida ao badalhoco. uma tasquinha em frente ao liceu. e que o próprio nome me isenta de entrar em pormenores mais cuidados. mandava vir um quarto de sêmea de chouriço e mais um sumol para empurrar. e outra corrida para as aulas que o professor podia não perdoar o atraso – o regresso a casa era de autocarro. os alunos medíocres não se podem cansar e sempre era um quilómetro bem medido – o resto do dia era tirado para retemperar o corpo do desgaste das aulas: às vezes cinema. quando tinha amigos era nos matrecos do cerqueirinha que mostrava o poder de um capitalista. moeda atrás de moeda e jogava-se a tarde toda – já com mais corpo. para lá dos catorze anos e com mais de 1.75 de altura. a barba num novelo em reboliço envelhecia-me o suficiente para entrar em salas de jogos de adultos. e lá ia uma bilharada a dinheiro – para aquela malta mais velha era o franganote do dinheiro fácil e que os sabidolas adoravam desflorar – mas nem tudo foi mau. aprendi que o jogo nunca seria um modo de vida. não tinha sorte e também tinha falta de jeito – resta-me a recordação de umas mistas fantásticas. com duas pancadinhas de mostarda ficavam de estalo. e claro. o sumol ou a laranjina C. nunca foi grande coisa para álcool. ainda mantenho esse handicap social – naquela época estava ao nível do champalimaud ou mesmo do rockfeller. nem sabia bem o que fazer com o dinheiro – nunca mais fui rico o suficiente para recuperar o estatuto de capitalista. acredito que foi castigo de deus. já lhe tentei dizer que a culpa era da lourdes. mas nunca me deu ouvidos. os cigarros e o jogo fizeram-me cair em desgraça – e assim. fui vivendo de vários expedientes mais ou menos no limiar do chico-espertismo em minha casa. e também com a lourdes a guardar-me as nádegas do meu pai. protegendo-me e encobrindo todas as minhas travessuras. e foram muitas



IV.
a lourdes por tudo que fez de bem à minha família deveria ter direito a viver até aos cem anos. se juntar o bem que me fez. e continua a fazer. dava outra história. aditava-lhe mais cem anos. o que já contabiliza duzentos anos de vida – os meus netos desde a morte da minha mãe que tratam a lourdes por bisa. de bisavó. o que me deixa muito feliz – não sei se lhe guardarão memórias. mas com certeza. um dia. talvez os pais possam ler para eles esta pequena imortalidade que escrevi – a lurdes é o último farol da nossa família. ela passou todos os nossos momentos maus e também os bons – é ela que guarda as últimas memórias dos meus antepassados – prometi que tudo iria fazer para que os últimos anos da sua vida fossem vividos com serenidade. assim deus queira e será – a lourdes para nós não tem idade e a covis19. nascido em 2019. ainda não teve tempo para perceber que independentemente da idade há pessoas que são estimadas e fazem muita falta – tenho a certeza. que apesar da sua crueldade. se conhecesse bem a lourdes… não teria coragem de infetar gente idosa



25/04/2020

há pão neste meu abril





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o padeiro do meu bairro. homem honrado pelas mãos que há muitos anos dá forma ao pão. lamentava-se que tinha perdido o cravo vermelho de abril que. com carinho e gratidão. tinha aconchegado à lapela da camisa branca – estava triste. não era um cravo qualquer. e a cada interrogação dos seus clientes para a falta do cravo revolucionário. logo se aprontava a dar uma explicação que não era explicação. era tristeza – chegou a hora do almoço. e na mesa que sustenta a minha família. que um dia jurei proteger. estava o pão que o padeiro amassou para o meu abril – abri o pão. e do seu interior brotou um cravo vermelho. brotou um grito de liberdade – fez-se abril em minha casa. afinal eu sou um filho da revolução – há pão neste meu abril. mas ainda não há o abril que sonhei para todas as casas – há muito para fazer. há imenso para gritar. mesmo que hoje seja dia de festa



10/04/2020

coisas da quarentena





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ao passar pelo espelho reparei que continuo com todos os motivos para gostar de mim. sou simpático. rio com facilidade e estou mais magro do que nunca - foi então que resolvi recomeçar a usar o perfume dior. mesmo que as fragrâncias só se desloquem do quarto para o sofá e se misturem com o ladrar dos cães que não me largam o pé – a minha fé é que a covid19. estúpido como me parece ser.  coisa chinesa. ao passar à porta de casa não vá ficar com muita vontade de entrar. o aroma do perfume vai soar a muita mariquice. muito cheiro a menino de tenra idade... e como sabem. esta merda do vírus só quer mesmo pessoal reformado – por isso vos digo... não desistam da vida. carreguem-se de perfume. carreguem-se até que os vossos vizinhos batam à porta e vos perguntem se não sentem um cheiro a gato morto – sempre podem responder que é desinfetante do SNS




01/04/2020

excerto da crónica: os velhos. a comunicação e a covid19









fico com a ideia de que às vezes há uma comunicação desatenta com as palavras. pouco trabalhada. pouco cuidada. às vezes em pânico. que nos chega emparelhada. mesmo que de forma ténue. a sobreviver à custa da original. encriptada de aliviação. parasita. mas também um género de bálsamo anestesiante para as dores da alma. um relaxador de medo. um perdoa-me do comunicador. e que diz mais ao menos assim: caros ativos deste país. pagadores de impostos. gente que usa as autoestradas. gente que faz filas de trânsito. gente que leva filhos aos infantários. gente que corre atrás de uma bola. gente que faz o mundo andar à velocidade dos aviões. gente que compra moda. que compra excentricidades e coisas que não servem para coisa nenhuma. gente que faz política e ainda outros que se encaixam em perfeição no liberalismo selvagem. gente do lucro. das grandes cadeias mundiais de produção. das ações de wall street. da distribuição de dividendos. dos ricos cada vez mais ricos. e daqueles que são escandalosamente menos ricos. humildes. modestos sem saberem o porquê. talvez por causa do alimento. da sobrevivência. da dignidade do nome. da descendência. e do rir. do fingir para esquecere viramos as costas ao que tem mais gula do que olhos. e planeamos tudo para uma eternidade feliz e absoluta. que nunca teremos – relaxem só morre malta acima dos oitenta anos. malta sem velocidade. malta das cadeiras de rodas. que não corre. que não paga impostos. não leva filhos aos infantários. só os vão buscar quando os pais não podem. malta estranha. velhos do restelo. estão sempre contra tudo e todos. só sabem ver telenovelas para não falar nas fraldas – descontraiam. isto é doença para quem arrasta os pés. nós temos é que trabalhar. temos que fazer o país andar. quem é que paga as contas no fim do mês




28/03/2020

eu. o futebol e a covid19







imagem - google




estava eu. mais uma vez. a ouvir a narrativa assustadora de um médico italiano a trabalhar no combate ao cobid19 – na porta do seu hospital. ainda protegido com bata e luvas. e com os decalcos da máscara de proteção gravados na face. dizia em aflição. que se sentia nos limites. e que não sabia quanto tempo mais iria aguentar. estava arrasado e destroçado. e pedia desculpa por não conseguir valer a todos aqueles que precisavam dos seus cuidados – por último. num relato agonizante e já em lágrimas. dizia que para além de tentar salvar o maior número de infetados. ainda tinha que fazer o papel de deus. era também obrigado a escolher quem vivia e quem morria porque não havia ventiladores que chegassem para todos – sentia-se completamente exausto e reconhecia que estava a ser quase impossível lidar com a pressão. o hospital estava num caos. faltava tudo. desde material de proteção. a camas. enfermeiros. médicos. medicamentos. estavam simplesmente a fazer o que era possíveljá não ia a casa há mais de uma semana. descansava o que podia numa qualquer arrecadação porque as camas não chegavam para os doentes e. logo que recuperasse alguma energia. voltava ao trabalho até que a falta de energia o obrigasse a recolher novamente – era assim a sua vida nos últimos dias – lembrei-me então dos jogadores profissionais de futebol e da exigência da UEFA que com uma lei obrigava a que houvesse 72 horas de descanso entre os jogos – e porque a memória às vezes esquece a seletividade. também guarda o ridículo. lembrei-me daqueles programas desportivos que de domingo a domingo inundavam as televisões com conversas de ódio e maldizer – num desses programas. debatia-se em tom acalorado de coisa relevante. que a meio da semana realizar-se-ia um jogo para a liga dos campeões de grande importância e desgaste – diziam então. esses ditos senhores que em tempos passado jogaram também em campos de futebol. logo. induz-nos que sabem o dizem. digamos que são um tipo de doutores do futebol – asseguram estes novos doutores do share. que estes jogos. transmitidos para todo o mundo. são também cruciais para a afirmação de portugal como uma grande potencia mundial no futebol. e no desporto em geral – e acrescentavam. por esta razão. espera-se uma grande exibição e também uma grande vitória para bem do futebol nacional – o problema é que logo no fim desse jogo de afirmação dos clubes portugueses e de portugal no mundo. e cumprindo escrupulosamente o prazo da UEFA para recobro dos atletas. este podia não ser suficiente para a recuperação total dos jogadores. pois ao cansaço do jogo acrescentava-se o desgaste psicológico e da viagem – tal como no mundo antigo os deuses moravam no olimpo. no mundo atual os deuses jogam nos campos de futebol. com mordomias impensáveis para a maioria dos mortais: médicos. preparadores físicos. massagistas. softwares de treino. viagens com transportes especiais. hotéis de cinco estrelas. alimentação especialmente cuidada com a inclusão de cozinheiros especializados em alimentação saudável para atletas de alta competição. e para que não fique aqui todo o dia a relatar os cuidados com os superatletas. ordenados super mega inflacionados que nos envergonham e nos faz interrogar como foi possível deixarmos isto acontecer com gente. que em boa verdade. o que criam é apenas um espetáculo de entretenimento. tal e qual como o circo. o teatro. os músicos. e outras tantas coisas que nos ajuda a esquecer o que o homem criou para se aborrecer – como foi possível deixarmos que isto acontecesse quando tanta gente no mundo morre à fome – desculpem. mas vou tentar não entrar por este caminho de acerto de contas com o passado. esta não é a altura certa – o que sei é que neste momento há milhares de pessoas. das mais variadas profissões. que continuam a arriscar as suas vidas para que nós possamos estar em casa com medo – sim. estar com medo e pensar no medo é um luxo que nem todos se podem dar ao luxo de terem – voltando à minha memória. pois bem. quando as coisas correm mal a resposta é muito fácil. os deuses do futebol estavam cansados. o jogo a meio da semana arrasou a equipa. estavam sem forças e conforme o tempo se esgotava percebia-se perfeitamente que a força e o discernimento já não correspondiam à vontade – e agora senhores da bola. quando o futebol voltar. voltará com o mesmo descaramento. e depois do que viram de desgaste nos nossos profissionais de saúde. digam-nos sem aquela arrogância de que o futebol é o desporto rei e do povo.  se vão continuar a dizer que os pobres homens estavam cansados e a pressão é muito grande? às vezes. na minha loucura de humano. interrogo-me se estas coisas não acontecem para colocar tudo novamente no seu lugar – o que projeta a grandeza de um país no mundo é em boa verdade o seu serviço nacional de saúde e os seus profissionais – é bom saber que essa gente anónima existe – este nosso país é realmente enorme - obrigado




23/03/2020

quinze dias














quinze dias em casa. quinze dias sem abraçar e esta quarentena a deixar-me louco – quinze dias de trinta. quinze dias que podem ser sessenta e até quem sabe tempo que nem sabemos contar – o que vai ser de nós. o que vai ser da minha casa. o que vai ser das outras casas – uma mesa. dez cadeiras. dez pratos e eu a por a mesa para quem nunca chega – o que fez esta geração de errado? o que há em mim de errado? não sei. e mesmo que soubesse o que poderia eu fazer em tantos lugares do mundo – sei que vou continuar a por a mesa: dez copos. dez talheres. dez guardanapos e os pratos a voar como anjos – como será o mundo em cada prato. em cada casa se da minha janela só vejo desespero – tu. tu não me podes esconder como o céu está desinteressado. o vulto negro a encher-nos de terror. a roubar a dignidade a quem parte. a estropiá-los da vida. num silêncio mudo de dor. sem que ninguém segure a mão. sem um beijo. sem uma lágrima. sem uma oração. sem que nada possa enganar o sofrimento. dizer adeus. pedir perdão – um dia fecho tudo à minha volta. a janela também – estou intrigado com a calmaria das gaivotas na tempestade – porque não batem as ondas nas rochas? porque não troveja? porque não se esconde o sol atrás da lua? que orações tenho eu que rezar para que o mundo volte a sorrir?  estou certo que a razão dos pratos não voarem é a mesma razão das aves que com asas não saem do chão – há coisas que não foram feitas para voar – desígnios? quem quer acreditar nisso – o que mudou no meu infinito? porque raio puseram esta coisa pegajenta à minha frente se o que quero é apenas caminhar. viver o que me falta viver. sonhar o que me falta sonhar. juntar a família numa mesa daqui até itália. que passe por espanha. por moçambique. pelo canadá. pela austrália. pela índia. quero eliminar paradoxos. ligar o mundo num abraço – mas uma coisa é certa. no aperto conhecem-se os amigos quem haveria de dizer que os meus [nossos] estão escondidos nos hospitais. que raio de amigos corajosos tenho eu [temos nós] – que inveja terão outros – será que os merecemos? as ruas continuam com automóveis parvos para lá e para cá. como se o mundo fosse um semáforo que se pode ignorar quando dá jeito – e eu amarrado à mesa a olhar para os pratos. se houvesse ao menos uma corrente de ar para os fazer voar mais uma vez. um milagre – nem uma palavra me faz abrir a boca. o medo pendurou-se na luz – há um silêncio de abismo dentro de mim – olho e nada. e nada me faz pegar na mão e entrar pela garganta abaixo. porque tudo o que magoa está bem lá no fundo. no fundo do que sou. é lá que moro comigo e com o medo. com todos os que estão a sofrer – o mundo num passo que não corre e nada está parado. está tudo assim assim. assim mal. nem frio nem muito frio. nem sol nem muito sol. nem chuva nem muita chuva. só medo e desespero – não consigo tirar os olhos do amanhã – temos que resistir

voz - maria joão



22/03/2020

sou-te assim





pintura romanelli




sou-te assim:
de dia anjo amigo
de noite casanova
amor gizado em olhares.
nas palavras soletradas em desejo
salta o ladino
deito-te em braços que te enrolam
luxúrias escritas em deleite
teias tecidas de gemidos
de quem sempre te desejou.
da loucura dos carinhos
nasceram os nossos pomares
que germinam agora vida com brilho
aromas de primavera
sol dos nossos olhos.
já de madrugada
adormeces em sonhos de princesa
mulher volúpia.
ao acordar és sempre mais bela
vestes-te de mãe
e nos sorrisos
dizes:
a noite já nos espera




19/03/2020

Não são os silêncios que atravessam a linha... é a linha que interrompe o silêncio






bem penteado, perfumado
lustrou o sapato, fez a barba
alinhavou nos lábios o juízo final
a cortina serviu uma fatia da noite
por todo céu
foi abril...
alinhado em fila como estrelas.
desfez o sorriso no espelho
o verbo conduzia
a sombra obedecia um tanto rouca.
(e) como um doce com sal
manteve o ar distante
dividindo os analistas.
saiu como a melhor página de um livro
pensou como um poeta:
'o tempo é louco, diminui tudo'
melhor deixar o tempo
exatamente como imagino:
roendo as unhas
reajustado pela inflação
com o nome dela disparado no coração
repousado no sofá.

pois o sofá... não vai acabar.


vânia lopez


deambulações noturnas LXIV










16/03/2020

17 de março de 1998






antónio sampaio lopes





nota: este texto foi confecionado antes de 17 de março de 2019. ainda o meu agnosticismo não tinha sofrido com o abalo da morte da minha cunhada maria josé – a sua partida deu início a um novo ciclo de incertezas sobre a minha fé. fez-me questionar de novo deus e aceitar uma nova cruzada de interrogações e perguntas – sei que ter fé é ter dúvidas – confesso que ainda não estou totalmente certo de nada. mas estou recetivo a uma nova reconquista evangélica – saiba o senhor tocar-me – preciso de voltar a acreditar no que não vejo – o homem é feito de mudanças e eu sinto-me disponível para mudar – quero acreditar na ressurreição da alma. na sua imortalidade. na firmeza de que “para deus não haverá impossíveis para todas as suas promessas.” – a minha cunhada pisa agora o caminho da glória. vive uma nova existência no mundo celestial – sinto falta de falar com ela – um dia. quando a minha alma estiver mais forte. explicarei como a partida inesperada da zeza me retirou do abismo do nada – “na natureza nada se cria.  se perde. tudo se transforma” – a minha cunhada zeza transformou-se no meu último anjo



senhor. estou preocupado contigo e comigo – não é nada de especial. mas já passaram mais de vinte e um anos [vinte e dois] desde que levaste o meu pai para junto de ti – deixa-me dizer-te: não sei se sabes que o meu pai. todas as noites. te entregava uma oração com o sinal da cruz – creio que não sabes mesmo. em boa verdade. acho que não sabes nada do mundo. cresceu excessivamente para ti – mas não te inquietes. já passou demasiado tempo para me voltar a aborrecer contigo – o que queria que me dissesses. se não fosse muito incómodo para ti. é se o meu pai está bem. se ainda está ao pé de ti. se o tens protegido. guardado de outros males – é o mínimo que deves fazer por aqueles que te são fiéis. ele escolheu-te. desejou-te a seu lado. acreditava em ti. na tua proteção e na tua amizade – se a família não se escolhe. os amigos é sempre uma escolha nossa – o meu pai achava-te amigo. achava-te de confiança – sempre respeitei as suas escolhas. era teu devoto e rezava para que tu. no dia do juízo final. o acolhesses a teu lado – queria a vida eterna – espero sinceramente que não o tenhas desiludido – já comigo não tens com que te preocupar. escusas de me guardar lugar. fui purificado com a tua água. mas morrerei seco e em pecado – perdi toda a confiança em ti. nas tuas rezas. nas tuas leis e nos teus discípulos na terra – não te perdoo o que lhe fizeste. melhor. o que nos fizeste – a dor que lhe infligiste foi também a nossa dor – as boas famílias cristãs são assim. sofrem e riem juntas – nós éramos uma família. uma comunidade familiar de fé. de esperança. caridade e afetos – as nossas orações quotidianas deveriam reforçar a bondade em ti. a atenção. o perdão e a misericórdia o meu pai amou-te. amou a sua esposa. os seus filhos. o seu semelhante. o meu pai cumpriu os teus mandamentos e. quando errou. como homem concebido do barro de adão. teve a humildade de te pedir perdão pelas suas fraquezas. de se ajoelhar e apelar à tua infinita misericórdia – e tu que fizeste? uma família cristã é evangelizadora e missionária. o que tu fizeste foi acabar com a minha fé. terminaste com a evangelização da minha descendência – fechei-te a porta. a ti e à tua religião – eu sei que tinhas de levar o meu pai como fazes com todos os outros. mas não ficaste satisfeito só em levá-lo. tiveste que lhe roubar a alma. a memória. e a derradeira oportunidade de lhe falar pela última vez – eu sabia que o ia perder mas não em silêncio – um filho nunca é adulto enquanto o seu pai viver – eu não queria ser adulto. queria ser dono do tempo e trazer a vida para trás – queria falar-lhe de nós. falar-lhe de mim. do meu mundo. daquilo em que acreditava. os jovens acreditam em cada coisa mais tola – confesso que o que queria mesmo era o seu perdão – era demasiado jovem para a sua sabedoria – queria dizer-lhe que gostava de ter nascido mais cedo. de o ter mais tempo a meu lado. gostava de ter sido mais velho só para ele ser mais novo – um homem mais velho é sempre mais sábio – na juventude o coração perde-se em tudo e em nada. quase sempre sem tino. critério e valores. nunca percebi que metade de mim era dele – e eu sem saber que os corpos desaparecem enquanto a existência nos distrai com ruas e projetos que nunca chegarão a lado nenhum – os beijos que não lhe dei multiplicaram-se com a saudade e são agora uma inquietação permanente – que saudades tenho de ti meu pai – se eu te pudesse explicar a minha vida. explicar o tempo que gastei por aí. tenho a certeza de que me irias compreender. e me dirias que a terra prometida não existe para quem quer fazer coisas – dirias que ambição são sonhos que se podem realizar. dirias que é bom sonhar – vinte e um anos [vinte e dois] e as noites ainda escurecem com o teu nome – quando partiste ainda não era capaz de perceber como o tempo passa a correr. só quando envelhecemos compreendemos que o amanhã é quase sempre tardio para quem não faz o que deve fazer – há um momento certo para tudo – sabes deus!! o meu pai era um homem fantástico – nunca compreendi muito bem esse teu gesto miserável. essa canalhice. esse roubo ignóbil. calculista e maquiavélico. o meu pai era um homem bom. de quem toda a gente gostava e não merecia morrer sem que pudesse levar um sorriso de quem o amava – desculpa senhor. mas para ti o perdão ainda é um sentimento que renego – mas deixa-me dizer-te. com o envelhecimento acabei por amolecer. já não sinto aquela sensação de raiva e rancor. aquele mau estar quando ouço o teu nome. há dias em que não sinto mesmo nada. só não te quero por perto. não te quero dar a outra face – nunca percebi por que raio um homem magoado tem que dar a outra face – que se lixe. és o que és. e eu sou o que sou. e não faço questão nem de mudar. nem de esquecer – o que me intriga. é que desde que abandonei a tua casa. logo após cobrir o meu pai com terra sagrada. nunca mais te vi por perto – a minha dúvida é a seguinte: será que te pesou a consciência e percebeste que não agiste bem com a nossa família? ou não aguentaste a tampa e ficaste enfunado? confesso que às vezes acontecem-me coisas para as quais não encontro explicação. vem-me à ideia de que alguém com a tua personalidade se sinta ressabiado e goste de me provocar – vamos lá esclarecer esta coisa de uma vez por todas: eu não te quero mal. confesso que não sei porque não te quero mal. sim. depois do que me fizeste eu deveria ter ido por esse mundo inteiro anunciar que na tua boca não há verdade. mostrar como não és de confiança. afinal um trafulha é sempre um trafulha. quer viva no céu. ou na terra – que se lixe tudo senhor. que se lixe o passado e as tua trafulhices – quero tranquilidade. quero paz para mim e para as memórias do meu pai – se um dia não tiveres onde pernoitar quero que saibas que a minha casa está à tua disposição com água e pão. não terás que recorrer a nenhum dos teus milagres para saciar a fome e a sede – tens uma única condição. não podes falar de religião – falamos de bola. de política. do preço das coisas. sei lá. falamos como se eu ainda fosse criança – tu sabes que sempre gostei de ser criança. são inocentes. não contam o tempo e acreditam em tudo que lhes dizem – vê lá bem que até me fizeram acreditar em ti – pobre miudagem – se realmente é verdade que és omnipotente e misericordioso. então. és obrigado a perdoar-me. és obrigado a perdoar todos aqueles que pecaram por pensamentos. palavras. atos ou omissões – espero que ponhas um ponto final neste assunto e aceites de uma vez por todas o meu agnosticismo – esquece estes últimos vinte e um anos [vinte e dois]. esquece que um dia pertenci ao teu rebanho – deixa-me viver a minha condição de pai. deixa-me amar os meus filhos – nunca deverias ter levado o meu pai sem que ele me dissesse o que um pai diz sempre ao filho quando se ausenta: tem cuidado. toma conta da tua mãe. não te esqueças de apagar as luzes à noite – tudo o que me resta é aquele beijo frio. gelado – quero avisar-te que se me tentares roubar a alma e a memória. com as mesmas artimanhas que usaste com o meu pai. não vai resultar comigo. já deixei recomendações da minha última vontade. deixei tudo escrito – não me levas para lado nenhum. não somos amigos – entretanto. vamos mantendo a cordialidade. bom dia e boa tarde – vemo-nos nos casamentos. batizados e funerais – o resto já sabes






14/03/2020

um ensaio estranho sobre o absurdo






cyril rolando 




I.
abraço-me. abraço-me num abraço absurdo – que autoestima sobeja num abraço absurdo? que dúvidas farão de mim um recomeço? a irracionalidade de um abraço absurdo é quase sempre desespero e sofrimento – procuro no absurdo justificação para uma tristeza que às vezes parece um hábito repetitivo que vicia – sabe-se hoje que a genética interfere na herança dos vícios – cada vez acredito mais que nasci viciado numa dependência de coquetéis absurdos. sofro do síndrome de abstinência neonatal – não me lembro de viver sem que um absurdo não estivesse por perto – porque raio não param de me  acontecer estes absurdos excêntricos – talvez o diabo me tenha tomado a alma à nascença infetando-a de medos e horrores absurdos – talvez  deus me tenha entregue a este caminho absurdo apenas para me purificar de outras encarnações – que raio trouxe no corpo para que deus ou diabo se interessem por alguém tão estupidamente absurdo – sim. eu tornei-me num absurdo sem deus nem roque e o que temia me sobreveio – toda a vida é um absurdo incontrolável. um segundo mais tarde perde-se o comboio. um segundo mais cedo morremos esmagado pelo mesmo comboio – em cada segundo cabe uma enormidade de absurdos – somos o que somos num tempo incrivelmente egoísta. ninguém quer saber o que te levou a ser um absurdo. ou porque foste tu e não outro o parceiro perfeito para os absurdos – não acredito no destino – tudo vazado dum caldeirão de humanos. contaminados pelo absurdo das suas diferenças onde ninguém é igual a ninguém e no entanto. todos parecem tão iguais – não escolhemos viver assim. na fragilidade do nascimento somos infetados por um mundo absurdo – sou o gozo estúpido de um espermatozóide. eram mais de mil absurdamente o que chegou à vida foi este – não há dia nenhum que não me interrogue o porquê desta vida absurda que me consome numa labareda que ninguém sabe que existe – bem sei que as dúvidas absurdas confirmam a minha existência ínscia – perdoe-me deus ou diabo. mas só posso alterar o que vive e sinto em mim – já não sinto grande coisa – um homem é sempre o que sente e. mesmo que duvide do que acredita sentir. não pode deixar de acreditar. por mais absurdo que lhe pareça esse sentir incerto: às vezes amor. outras apenas indiferença ou ainda um absurdo de coisas que não se explicam. sente-se e sabe-se – é na dúvida que se encontra a certeza – a dúvida existe para nos dar certezas – que absurdo se torna o meu mundo se um dia perder as dúvidas sobre mim – quero continuar a viver este meu mísero e triste absurdo. quero continuar a duvidar. quero que o tempo que me resta seja todo ele de enormes incertezas absurdas – “antes morrer de pé do que viver de joelhos” – que cabeça não sabe duvidar? como se para duvidar do absurdo tivesse o corpo que viver no mundo das invenções. dos aviões. dos relógios atómicos. dos foguetões e das balas que continuam a matar aqueles que já morreram várias vezes de vergonha – confesso. tenho medo e vergonha do que penso. porque tudo o que penso quero que exista e tudo que existe é um absurdo que só faz sentido na minha cabeça – tenho raiva e vergonha do presente. tenho raiva e vergonha do passado. mas não tenho nada para amanhã. a não ser fabricar na minha cabeça absurdos inimagináveis – nada das coisas que imaginei morreu em mim porque o tempo das coisas não é de quem pensa. mas sim de quem faz – ainda quero fazer milhentas coisas. mesmo que sejam absurdas – a felicidade e a tristeza alimentam-se do pensamento. mesmo absurdo – penso. logo sou absurdo – utopia é acreditar que um dia todos os meus absurdos o deixarão de ser – nunca recusarei ser o que sou. mesmo que o absurdo em mim possa parecer loucura


II.
vivo agora também a dúvida absurda do silêncio – o silêncio preenche todos os vazios. traz bondade. dignidade. perdão e quando chega o barulho das dúvidas absurdasjá não tem força. nem tamanho para magoar – não deixa de existir. não. torna-se apenas num barulho bondoso. humano. clemente. compreensivo. e generosamente vai repetindo ao ouvido. numa tranquilidade completamente absurda: estás perdoado por toda essa vida absurda – e o eco das palavras a embalar-me num sono de criança.  talvez a síndrome de abstinência neonatal continue a fazer das suas. um viciado nunca se cura. a falta do cordão umbilical existirá até ao último suspiro – talvez esta minha resistência à loucura do absurdo seja o que me mantém vivo. ou então. a forma que encontrei para vos dizer que ainda tenho dignidade para suportar os vivos – talvez a dúvida absurda exista porque eu existo no silêncio – sem o silêncio da noite não sou nada – na dúvida absurda do silêncio posso correr para o outro lado de mim e não encontrar nada ouencontrar todo o barulho do mundo: os meus amigos a jogar à bola. o carro a acelerar. as máquinas a trabalhar. os filhos a chorar. a mãe a chamar e o pai a apontar para o absurdo dos nossos antepassados – e a mente que cria as tempestades absurdas pede uma última certeza que não seja absurda. e corro para todo lado e em todo lado me encontro com as mesmas marcas no corpo. as mesmas dúvidas absurdas – será que não há uma alegria absurda perpétua? não tenho aonde me esconder. e as tempestades não param porque não consigo parar de pensar nos absurdos da minha vida. não consigo parar de ter dúvidas do que fiz – confesso. não sei se a culpa é minha por me tornar num absurdo. ou o absurdo é um cabrão sem piedade que me infiltra doses maciças de inverdades. insegurança. hesitações e medos – o pior disto tudo é que não consigo fugir da inverdade. da insegurança. da hesitação e do medo – sofro. fugir de sofre já é sofrer – não consigo deixar de viver onde cresci – eu sou um todo e mesmo que me divida em silêncio ou barulho. em irreal ou real. em fé ou desconfiança. em deus ou ateu. em luz ou negrume. serei sempre eu. e mesmo morto serei eu. ninguém me apagará do universo – também eu alimentei o absurdo da vida. também eu fui de casa em casa. amigo em amigo. trabalho em trabalho.  sonho em sonho. em paz ou irado. ajoelhado ou de pé. com deus ou com o diabo. tudo num destino que não escolhi – nunca poderia ser pescador porque nasci sem mar. sonhei-o muitas vezes. visitei-o. senti-o quando a cada mergulho me fiz água. nadei como os peixes. mergulhei como os golfinhos. fechei-me numa garrafa e percorri todas as correntes do mundo com mensagens absurdas. mas ao fim do dia. a minha casa não cheirava a mar. cheirava a couro. os barcos eram máquinas e os pescadores eram operários – o absurdo é que amo as máquinas e o mar – tenho no peito tatuado uma gaivota e o mundo num abraço – aristóteles dizia que todos os seres foram criados para um fim – a minha dúvida é se há fins absurdos – o que faz um homem num desespero absurdo? olho para mim e interrogo-me se sou o que quis ser. ou sou o que me rodeou? o que fiz fez-me. ou sou o que sou porque não fiz o que deveria ter feito – há um limite para tudo. há um limite mesmo quando não há respostas para o que queremos saber – há um limite até para os absurdos – também eu fui castigado como sísifo. e a pedra no sopé da montanha todos os dias a crescer. e o absurdo das coisas em mim a tirar-me as forças para carregar o que mais ninguém vê – e uma pedra enorme no sopé de uma montanha absurda – porque me deram uma montanha se o que sempre desejei foi apenas o que sentia em mim? e o raciocínio perdido num sacrifício absurdo. em dor absurda. em raiva absurda. em desespero absurdo. maior que qualquer montanha absurda. maior que a pedra de sísifo – mato o absurdo que nasceu comigo? seria eu a mesma pessoa sem o absurdo? ou o absurdo é a minha pedra. a pedra que carrego e não chega a lado nenhum – infelizmente a eutanásia não se aplica a quem sofre de coisas absurdas – tenho que viver


III.
não tenho inveja do que não alcancei. talvez um pouco de azedume e arrependimento. mas não posso alterar o passado – serei o que o destino quiser. continuarei a erguer-me do chão quando caio – não me posso zangar por aquilo que errei quando pensava estar certo – cada época tem as suas certezas absurdas – não posso continuar a amar quem não respeita esta minha forma absurda de ser – não posso aceitar calado tamanha humilhação – não posso respeitar quem não acredita que o absurdo existe. tal como as “brujas. no creo. pero que las hay. las hay” – prefiro morrer sozinho. prefiro morrer a falar comigo. a explicar-me até que o último sopro me despedace esta absurda certeza incerta que vive comigo. como vive o coração. que trabalha como um coração. que voa como as gaivotas. que chora como os homens – escolhi sempre o melhor absurdo. não o menos arrojado. mas aquele que no futuro me faria honrar todo o passado – às vezes a justiça do passado faz-se apenas com uma única absurda certeza incerta – estou aqui meu querido absurdo. também eu te quero honrar. quero fazer-te existir como mestre de uma arte que por ser absurda só alguns a reconhecem – o absurdo não existe apenas porque eu nasci. mas confesso. ás vezes até que parece – se deus não me receber no dia que chegar ao céu.  que as portas do inferno se abram para que possa caminhar sobre as chamas. pois esse será o meu último absurdo – se no passado abandonei o divino. hoje. ajoelho-me com fé. e humildemente peço a deus que ilumine com sabedoria esta minha última viagem. absurda ou não – quero morrer em paz. quero que a minha alma suba ao céu enaltecida – quero confiança. saber e um bom destino para aqueles que deixei no teu quintal terreno – mas se nesta última caminhada.  perceber que fui eu o único culpado do absurdo existir. então. que me sobre saber e memória para o escrever com a maior crueldade que trago nas mãos – eu não me encerro em mim. não sou o fim do mundo. sei que sou futuro naqueles que mesmo em caminhos enganados fui capaz de trazer à vida: o sagrado que me perpetuou





16/01/2020

fumar fode as moscas






imagem google





sábado. com cheiro a libertinagem. envolvido em aromas açucarados de uma pastelaria. daqueles que fazem engordar só com o olhar. sorvo delicadamente um expresso com toda a tranquilidade quando dou de olhos com uma mosca: verde. ranhosa. barulhenta. olhos enormes. voava em círculos fechados sobre um aglomerado de pasteis de belém – na mesa ao lado um turista americano. creio que cubano. fumava um havano cohiba enrolado à mão e tal como eu seguia atentamente as acrobacias da mosca – o fumo era mais do que muito e rapidamente percebi que a mosca. sendo kamikaze. estava em dificuldades para atacar com acerto a pastelaria exposta – uma cortina sinistra de fumo era a última defesa do sortido da pastelaria e a inalação de monóxido de carbono a sua arma secreta – rapidamente aprendi que a melga voadora se iria foder – e assim foi. o insecto. com raiva. rompeu pelo gás e não se sustentou. descontrolou-se. ziguezagueou. perdeu altitude e atitude e. num ápice. entrou em espiral desgovernada. tomou a direção do granito eouvi um barulho estranho e logo percebi que a turbina tinha explodido – salta uma asa. um mícron de segundo à frente. perde a outra e última asa. acabando por se estatelar dentro de uma chávena de café pingado de uma velhinha que. por usar adoçante. tudo apontava para que sofresse de diabetes – salvou-se a baguete francesa torrada com manteiga sem sal. por um triz tinha-lhe apanhado todo o pequeno almoço – fiquei estarrecido. mas há males que vem por bem – peguei no telefone e liguei para a TAP [transportes aéreos portugueses]. pedi para falar com o comande fernando pinto e. emocionado. relatei-lhe o que tinha acontecido com a mosca – por favor não deixe ninguém fumar dentro dos aviões. o dióxido de carbono fode-lhe os pilotos – assim nasceu os voos verdes e o fim do fumo dentro dos aviões – escusavam de gastar mais dinheiro em simulações. é o fumo que atira os aviões todos para o caralho – agradeceu-me. senti-me satisfeito. fiquei com aquela sensação de que me tinha tornado num herói. devo ter evitado umas quantas mortes por esse mundo fora – mas não satisfeito. e num flash iluminado de saber. liguei para o dono da tabaqueira portuguesa e disse-lhe: têm que por nos maços de tabaco mais um alerta. fumar fode as moscas

joão surreal – 25 de abril de 2010


nota de autor:

joão surreal foi um personagem criada pelo josé luís. enquanto usuário frequente do luso poemas*. para um tipo de textos humorísticos – o escrito era redigido sem grandes cuidados estilísticos e gramaticais. o importante mesmo era a excentricidade humorística da história e a interatividade do personagem com o leitor – o leitor comentava o texto e no mesmo dia o joão respondia com mais humor e com nova argumentação ao texto original. o que originava uma sucessão de respostas e contra respostas – uma história em movimento que não terminava enquanto os comentários não terminassem – foi um momento engraçado que durou pouco tempo porque os comentários tornaram-se em demasia para a disponibilidade do joão – a dada altura as noites já não eram suficientemente longas para responder a todos os comentário. fui obrigado a calar esse puto reguila – foi uma experiência gira que deixou muita saudade – ficou a promessa do joão do seu regresso logo que se reformasse – ainda faltam uns anitos – e porque fui feliz com o joão surreal lembrei-me de partilhar as suas histórias com aqueles que nunca o conheceram – lembrem-se que os textos eram escritos praticamente a uma única mão e com uma única passagem para correções – por isso. não exijam muito do puto.  era bom rapaz mas ainda andava em aprendizagem de vida – tudo aconteceu em 2009/10. anos loucos no luso

* “site de poemas, cartas e pensamentos onde você pode deixar um pouco de si.”

31/12/2019

quero muita merda para 2020











chegou ao fim mais um ano de trampa – venha lá esse 2020. venha lá uma nova fé ou fezada de que tudo. finalmente. vai ser diferente para melhor – esta esperança saloia que me impregnaram no corpo é mesmo de baixo teor encefálico – mas. que posso fazer eu. sou apenas mais um mortal fraco e cegueta a deambular pelos ponteiros de um relógio que me engana desde aquela passagem de ano. onde eu e mais dois amigos destemidos. nas traseiras de uma toyota hiace. gritamos urras. vivas e impropérios à chegada de um ano que acreditávamos trazer todo o futuro risonho do universo – foi a última passagem de ano em que não fizemos contagem decrescente. o barulho dos foguetes iluminaram o caminho de uma carrinha parada num descampado de adamastores – não temíamos nada. nem ninguém. éramos apenas crianças mascarados de mosqueteiros onde o lema de alexandre dumas se renovava com esperança e alegria às doze badaladas: todos por um. um por todos e feliz ano novo – que bonitos que éramos. não há nada mais bonito de que um corpo imaculado – juramos que um dia. num futuro muito rápido. voltaríamos a comemorar uma outra passagem de ano num rolls-royce branco. descapotável e flutes de dom perignon apontados às estrelas – pobre é assim. sonha – sonhar não custa dinheiro – pobre o que quer é pinchar e cantarolar aquela contagem decrépita do ano velho e comer uva-passa às manadas para que nenhum mês caia em desgraça – pobre fica tão entusiasmado com o fim de ano que até se esquece de gastar o último dia de dezembro. e quando acorda. já é janeiro e pede socorro jurando que lhe roubaram o ano que acabou de terminar – claro que estou a citar o caco antibes. quem melhor do que ele fala de pobres.  só o caco é capaz de me espremer o cérebro no último dia de 2019. entrar dentro do meu ouvido e suavemente. chingar-me a honra e a fé: pobre tem que ficar tudo socado no conjugado”. pobre vai à loja de 1.99€ e “compra tudo de prástrico – pobre é uma visão do inferno. faz a festa assobiando num apito que vai e vem e atira confetes ao ar acreditando que é o botão dourado do got talent e. como não quer perder pitada do réveillon. fica tão apertadinho que até faz xixi pelas pernas abaixo. eufórico e com as meias ensopadas de mijo berra e jura que o novo ano lhe vai trazer paletes de dinheiro. e as gajas da plaboy tocar-lhe-ão á porta doidas por uns preliminares com o novo capitalista – no meu caso. criado e ampliado com o pó de deus. substituo as gatas assanhadas das revistas de adultos por uma renovada esperança de que a minha companheira maria joão deixe de ser rabugenta e teimosa – pobre é assim mesmo. contenta-se com pouca coisa. é boa pessoa. mas estúpido como uma porta – mas não se aflijam porque já me tratei pior do que uma porta. talvez por ser fim de ano sinta necessidade de recuperar alguma tolerância para comigo – o ano não foi bom para quem ama – mas agora que renovei a fé em deus. estou mais crente do que nunca no aparecimento da bondade divina para com este seu pobre servo reconquistado pelos desígnios do senhor – só há uma coisa que não quero perder com a entrada do ano novo: a memória e esta saudade que carrego dentro de mim que me fere como se trouxesse à cabeça a coroa de espinhos da crucificação de jesus – são estes espinhos que me recordam que um dia ao pó voltarei e nada serei se não aceitar em mim tudo o que é invisível – sou uma criatura de deus. agora agradecido. sentimental e com a fé actualizada para nunca mais esquecer de que a morte mais não é do que o fim do corpo na terra – quero acreditar que um dia. num outro espaço temporal. a saudade que não sei escrever terminará com o reencontro de todos aqueles que partindo desta terra nunca partiram de mim – em 2020 quero continuar a ter saudades do meu pai. da sua leveza de espírito. da sua bondade. do seu sentido de justiça e daquele sorriso que era um abraço – quero ainda ter mais saudades de minha mãe e continuar a cumprir a sua última vontade. eu e os meus irmãos sabemos bem o seu último desejo – quero continuar a sentir-me mal por ainda não ter encontrado arte e engenho para escrever sobre uma mulher que foi o pilar da nossa família – a minha mãe tinha a força de quinhentas trovoadas e a doçura dos primeiros dias de primavera. devemos-lhe quase tudo – era uma mulher emancipada que lutou por tudo aquilo que diariamente conquistou. sem nunca se esquecer de que uma família para se eternizar precisa de amor – lutar. trabalhar. amar. lutar. trabalhar. amar até que o coração ceda de cansaço – foi assim que a minha querida mãe partiu – quero que os dias de sol me tragam de novo a minha cunhada – a minha zéza também era o sol da nossa / sua família – em 2020 não quero perder nada do seu legado: devolveu-me a fé e a certeza de que esta vida é apenas uma passagem e o mais importante é dizer tudo o que que nos vai na alma no momento certo – nunca deixes nada por dizer. amanhã pode ser tarde – a minha cunhada disse-me as coisas mais bonitas que um homem pode ouvir. disse-o em saúde. sem medo. nos olhos. amarrando-me as mãos e com a bondade de um coração de ouro que imaginava viver para sempre – a minha zeza fez de mim um homem muito mais tranquilo e sereno. era a minha menina. era a irmã mais nova que nunca tive – para mim será sempre aquela miúda com cabelo aos caracóis. óculos enormes que escondiam uma vontade de viver celestial. envergonhada e giraça – conhecia escondida atrás das cortinas da sala a primeira vez que entrei na casa dos seus pais – não posso mudar o passado. mas posso e quero recordá-lo. quero recordar para sempre a minha cunhada feliz com o seu companheiro que agora guardo também no meu coração – a vida foi muito ingrata e injusta para este amor que só pecou porque o tempo se perdeu nos desencontros da vida – feliz ano joana e miguel. este ano roubou-te a pessoa mais importante da vida. mas não desistas de viver em alegria. vai por esse mundo fora e serás recompensada – a tua mãe estará de olho em ti – quero amar todos aqueles que vivem em mim. pouco ou muito. não importa. sem estas memórias não sou nada. e se não for nada não existo e quem não existe nunca saberá que o céu é a cobertura dos homens bons – sempre tive muita gente boa a meu lado. que sorte. uma graça que deus me concedeu – em 2020 quero a minha família e amigos mais perto de mim. todos. quero a vossa paz e a vossa bondade – não sou especial. mas sou lopes – em 2020 quero continuar a lembrar-me do tio joão. há dias que sinto tanto a sua falta. era um homem especial. inteligente e gentil. não merecia partir tão cedo. fez-nos muita falta – ficou a sua semente a confirmar que árvore boa não dá fruto mau – quero lembrar-me dos amigos que já partiram. do joquinha. do luís vieira e do sérvio. gostava de um dia voltar a falar com eles – em 2020 quero que os meus filhos continuem a crescer com honra. saúde. trabalho e bondade – quero que sejam destemidos no amor. amar sem medo é a melhor coisa do mundo. amem de qualquer das maneiras. quem ama não teme o próximo. nem o futuro. acreditem nas pessoas. ajudem sem olharem a quem. sorriam. vocês são homens fantásticos. são especiais. são únicos porque transportam a alma do vosso avô dentro de vocês – neste novo ano quero que as minhas noras sejam muito felizes. honradas pelos seus companheiros e gratificadas pela vida. vocês são as mulheres mais importantes do universo. são vocês que cuidam do nosso único tesouro. os filhos são a nossa luz – andreia. obrigado por esse sorriso com que carrega no peito o nosso luís. a andreia sabe como esse rapaz é especial. foi o meu primeiro desejo. ser pai do luís – não podia ter um filho melhor – obrigado também pelos nossos dois netos. tenho a certeza de que serão. um dia. miúdos grandes em virtudes e felizes – pedro não desistas nunca dos teus sonhos. a vida encontrar-te-á para o sucesso. não corras. mas não abrandes. tu és um bom rapaz. nunca me cansarei de acreditar no teu futuro. adoro-te – joão estamos muito orgulhosos de ti. este último ano confirmou o que sempre soubemos. tens tudo para ser feliz e independente – não te esqueças que foste ensinado a amar sem medo. aprende a sorrir e deixa-te ir pelo mundo fora. és excecional e com um coração enorme – um beijo muito especial para as futuras noras. bela e sofia. quero o melhor para vocês. mas também quero que não se esqueçam de fazerem os nossos meninos felizes. eles são meninos bons e gostam de amar uma única mulher – também quero para 2020 que a lurdes envelheça com dignidade. ela merece tudo de bom. os anjos não tem que servir de exemplo ao mundo – claro que um bom ano nunca poderia ser bom se a minha sobrinha e a sua família não chegarem em paz a sua casa. virá um anjo sentado na asa do avião – quero também para a minha irmã. irmão e famílias muita saúde e paz. serão sempre carne da minha carne e sangue do meu sangue – quero muito que a minha cunhada teresa não se esqueça da sua irmã neste novo ano. fazes muita falta á maria joão. e claro. muita saúde para toda a tua família – em 2020 quero o melhor da vida para a melhor companheira e mãe do mundo. são tantos anos a brindar a um novo ano – amo-te muito. mais do que a lua. o sol. o vento ou a chuva – o que seria de 2020 sem o teu sorriso – no novo ano vamos passear descalços pela praia. vamos ver o nascer do sol. vamos beijarmo-nos e renovar os votos do nosso casamento – preciso de me casar outra vez contigo – nunca tivemos medo de nos amarmos e assim será até ao fim dos nossos dias: prometo estar contigo na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. na riqueza e na pobreza. amando-te até que o nosso mundo termine – espero que deus finalmente ouça as tuas preces e não deixe que o teu pai se esqueça de ti – sei que esse é o teu maior desejo para 2020 – e já que 2019 está prestes a terminar. peço que 2020 traga muita saúde para todos aqueles que me estimam como amigo. o que seria eu sem os meus amigos – devo-vos tanto. são poucos. mas são tão bonitos e bons – salve 2020

sampaio rego – 31 de dezembro de 2019

ps. este texto foi escrito sem rede e a uma única mão – de que serviria corrigir?