.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

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29/12/2019

no meu peito já não cabem gaivotas*





imagem - google 




nota de autor.

vinte e oito meses depois resolvi terminar esta saga analítica de quatro tipos de morte – confesso-vos que a morte emocional e terapêutica me custou imenso a escrever. verdadeiramente. só agora estou a disfrutar dessa descida ao inferno – não foi fácil estender a escada para pular do mundo das dores. mas agora sei que o tempo é um erro.a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”*. o sofrimento esgueirou-se silenciosamente. e as palavras adocicaram-se é com esta memória persistente e resistente que aprendi a encontrar-me no hoje. quero-me em papel – sei agora melhor do que nunca. que qualquer uma das minhas mortes. num tempo que não sei contar. resolverá com crueldade esta minha forma de escrever o que sinto – aqui estou com a última parte. a morte dolosa ou fraudulenta e. ao contrário das mortes anteriores. onde tinha descido ao inferno. nesta. subi ao céu e diverti-me com anjos e querubins


 4. a morte dolosa ou fraudulenta

introdução.

finalmente uma morte que traz boa disposição – confesso que já sentia falta de uma escrita levezinha. tranquila. serena. uma escrita tipo chazinho de camomila – nesta saga analítica de quatro tipos de morte. a morte dolosa ou fraudulenta. que vos entrego. foge completamente ao estilo de escrita do sampaio rego. creio que é mais o género do joão surreal – mas não importa quem escreve. o importante mesmo é esta vontade de compor a vida que me sai de dentro. esta emoção. esta perturbação. este desassossego que me magoa e que simultaneamente me ilude com o tempo. faz-me viver. faz-me sorrir – meu deus. como sou feliz nesta busca incessante das palavras que nunca sei onde estão – hoje. graciosamente. trago-vos uma morte que é uma história embrulhada numa bela surpresa. com um final tipo alfred hitchcock – tentarei então fazer um embrulho com um laço bonito. quer dizer. um laço pomposo e misterioso. só espero que o papel chegue e a história no final mereça o vosso sorriso – vamos começar então


1.
um marido convencidíssimo de que a sua esposa o atraiçoa sente-se completamente desesperado. e de tal forma encasquetou que essa deslealdade era real que a sua vida se tornou num verdadeiro inferno – o ciúme passou a administrar totalmente a sua racionalidade. transformando-a numa irracionalidade absurda e absoluta – afogado nesse sentimento egoísta e incapaz de dialogar com a sua companheira. busca em si um motivo para essa traição. mas por mais que procure uma mingua de razão para essa evidente deslealdade. não a enxerga – está desesperado. sempre amou esta mulher. sempre foi um homem fiel. sempre viveu para a família – à falta de uma resposta que lhe alivie o sofrimento deixa-se tomar por uma raiva silenciosa e o desfecho é o colapso emocional – não quer acreditar que se tenha enganado a respeito de uma companheira que conheceu ainda adolescente. não quer e não pode. a mulher que um dia jurou amar pela santidade do casamento católico é o centro do seu universo – o que seria da sua vida sem a única pessoa que deu sentido à sua existência – com a psicose gravemente instalada. esta leva-o a um pensamento delirante. pouco lúcido. sistematizado pela negatividade e dotado de uma lógica errática própria de quem está doente – uma mente doente pensa doentiamente – a falta de confiança arrasta-o para uma agressividade interior perigosa e desgastante e a relação entra definitivamente num estágio dramático – o silêncio é agora o seu maior inimigo – o fim do seu casamento está por um fio. a angústia é contínua e as noites uma enfermidade dolorosa que o impede de descansar – deita-se infeliz e levanta-se ainda mais infeliz. sente-se o pior homem do mundo – inseguro e com a sua autoestima a roçar a lama. percebe que não aguenta muito mais esta sua indeterminação e. resolve partir em busca da verdade. doa o que doer – ele sabe que o tempo está contra si. este medo de perder a mulher que ama está a enlouquecê-lo – o coração está prestes a implodir de sofrimento. é hora de saber toda a verdade. é hora de saber se ainda é o homem que a sua mulher quer ter a seu lado para o resto da vida – chegou o momento de enfrentar o medo. é urgente saber a verdade. a sua amada tem que lhe dizer. olhos nos olhos. que o amor acabou. que foi bom. mas chegou ao fim – depois de muito ponderar concebe então um plano que lhe permita. objetivamente. aferir se as suas preocupações são reais ou apenas a alma doente – tem que saber se a sua esposa tem um caso ou não. se o ama ou não. meios termos já não são aceitáveis. a dor é colossal. insuportável. há que colocar tudo em pratos limpos – reconhece as suas fragilidades por que está a passar e reconhece também que só um amigo verdadeiro será capaz de o compreender e ajudar – está desesperado. sabe que o plano é arriscado e maquiavélico. mas parece-lhe ser esta a única solução capaz de lhe devolver a paz e o casamento


2.
o amigo dirige-se a sua casa. toca a campainha. aguarda uns segundos. a porta abre-se e dá de caras com a esposa do zé meireles que. surpreendida com a visita. lhe pergunta:
-- a esta hora aqui. aconteceu alguma coisa?
o amigo pesaroso e pouco à vontade responde-lhe a gaguejar:
-- si... sim há. nem sei como te dizer…
faz-se silêncio. os olhos da cutilde arregalam-se. o corpo entesa-se. as faces ruborizam-se enquanto a mudez é consentimento para que o amigo do seu marido diga rapidamente ao que veio – o jeremias entristecido. com os olhos encharcados de dor. a tremer e a gaguejar diz-lhe então:
- oo zé acabou de falecer. foi atropelado
.
[colocado num local estratégico. camuflado. mas com uma perfeitíssima visão para o patamar da sua porta. o zé tenta perceber nos meneamentos da sua querida esposa se realmente vislumbra algum detalhe de júbilo ou tristeza]
.
a cutilde estremece. bamboleia. como se também ela tivesse sido atropelada e. enquanto os segundos se multiplicavam por uma eternidade toda ela é tomada por uma dor paralisante. não consegue pronunciar uma única palavra – não se ouve um único som ao redor de si. parecia até que o mundo tinha acabado de falecer – o jeremias. em pânico. arruma-se igualmente dentro do silêncio. concentra-se e projecta os olhos para dentro da alma da cutilde – também ele quer saber se o seu amigo está. ou não. a ser enganado pela esposa – o zé meireles é o seu amigo do coração. cresceram juntos. fizeram a escola juntos. andaram nos namoricos juntos e quando um tombava com um copo o outro nunca ficava para trás. se tivesse que dar a vida por alguém. esse alguém. seria o zé – são mais do que amigos. são manos e o sofrimento de um mano não dói. mata-nos – a cutilde dá dois passos atrás. encosta-se à porta. percebe que está prestes a colapsar. e sem que o jermias lhe pudesse valer. o corpo desfalece e as pernas acabam por ceder – cutilde está prostrada no chão – o jeremias entra em pânico. pela primeira vez percebe que talvez o plano possa não correr como tinham planeado. dá-lhe duas bofetadinhas ao de leve. abana-a. chama-a pelo nome em desespero e. com custo. tempo e terror. a cutilde reabre os olhos – completamente desfigurada. rapidamente recupera a memória do drama que está a viver e. numa agonia de estraçalhar o coração. recusa a acreditar que o seu zé a tenha deixado ficar para sempre – a dor é insuportável. o coração está prestes a partir-se e o corpo a sufocar perde-se em lágrimas – completamente desorientada levanta-se. anda de um lado para o outro sem discernir o que realmente deve fazer. sente-se perdida e não consegue raciocinar – se por um lado quer sair a correr para abraçar o zé. por outro. recusa-se confrontar com a verdade – já ninguém tinha realmente dúvidas que a cutilde amava o zé. era fácil de perceber que a dor era genuína. saí-lhe da alma. o zé meireles era o único homem da sua vida – quem entrou em pânico foi o jeremias. também ele começou a sentir as pernas a desfalecer enquanto o corpo tremia como varas verdes – estava metido numa alhada e agora não sabia como descalçar a bota – com a voz trémula tentou rapidamente encontrar um paliativo para o drama. pelo menos adiar um pouco o que parecia já não ter solução – foi uma grande estupidez. diria mesmo. do tamanho da sé de braga – amarrou nas mãos da cutilde. olhou-a nos olhos e pediu-lhe para ter esperança porque. em boa verdade. ele não viu o corpo. apenas tinha recebido um telefonema do hospital a dar conta da tragédia. mas o melhor era realmente verificar se o falecido era mesmo o zé – lembrando-lhe um episódio recente que passara na TV. também anunciaram a morte de alguém que afinal não tinha acontecido – suplicou-lhe para que dentro do possível relaxasse e descansasse um pouco. em breve lhe daria notícias a confirmar ou não a morte do seu marido – a pobre mulher consumia-se em dor. mas percebeu que o melhor seria mesmo recolher-se um pouco e esperar pela confirmação do seu amigo – o momento era de solidão. precisava ficar só. libertar a sua raiva com deus. perguntar-lhe porquê o seu zé. qual a razão para lhe roubar o homem da sua vida


3.
o jeremias completamente tresloucado foi rapidamente ter com o seu amigo a um café nas redondezas – o zé já o esperava agitado e tomado por uma cor que prognosticava grandes sarilhos. tudo apontava para que fosse ele o próximo a desfalecer – o jeremias sem deixar que o zé dissesse uma única palavra disse-lhe: zé não tens razão nenhuma para desconfiares da cutilde. ela não só não tem ninguém como te ama perdidamente – os olhos do zé. momentaneamente.  encheram-se de alegria – mas agora te digo meu amigo. depois do que vi. creio que ela vai mesmo deixar de te amar – não sei como vamos descalçar esta bota. fizemos asneira da grossa – juro-te que não sei o que fazer para reverter esta palermice – o zé se por um lado se sentia feliz por saber que afinal o amor da sua mulher era realmente verdadeiro. por outro. compreendeu que a sua cabeça lhe tinha pregado uma partida – e agora o que fazer? o coração acelerou. o suor começou a escorrer-lhe pela face e o pânico tomou-lhe conta da emoção. estava como o burro no meio da ponte. não sabia para que lado se deveria virar – fiz asneira e vou perder a cutilde. desabafou o zé – desesperado mais uma vez pediu ao amigo para o ajudar a reverter a doidice em que se tinha metido. não podia perder a mulher que amava por causa de uns ciúmes estúpidos – e ali ficaram aquelas duas almas descarnadas a tentar encontrar uma solução para resolver o imbróglio. a preocupação era que a cutilde não desconfiasse que afinal tudo não tinha passado de um teste estúpido e doentio para aferir a sua lealdade


4.
a cutilde. afogada em dor. não encontrava justificação para continuar a viver sem o seu zé e. num ato tresloucado e desesperado. ingere um frasco de calmantes – a vida sem o seu grande amor não faz sentido. a solução é também ela acompanhar o seu marido na viagem final – tudo para ela tinha sido bem claro no dia em que desposou o zé. viveria a seu lado para o bem e para o mal. na saúde e na doença e até que a morte os separasse – sim. que a morte os separasse quando a velhice já não tem remédio. não assim. ainda se estavam a conhecer. eram umas crianças. dentro de poucos dias comemorariam o quarto ano de uma união sagrada – que deus lhe perdoe. mas prefere estar ao lado o seu marido no céu


5.
entretanto o zé continuava a discutir com o seu amigo a melhor forma de resolver o problema e. por mais voltas que dessem. rapidamente perceberam que a única saída para aquela palermice era regressar a casa. pedir perdão à sua mulher e esperar que ela compreendesse que esta loucura só aconteceu porque a amava loucamente e não a suportaria perder por nada deste mundo – assim fez. encheu-se de coragem e pôs os pés rapidamente a caminho. quanto mais depressa resolvesse esta sua triste história mais depressa a sua vida voltaria à normalidade – entra em casa e depara-se com o corpo da cutilde estendido no chão da entrada do quarto – toma-a nos braços. e em desespero. abana-a. chama pelo seu nome umas quantas vezes. pousa o ouvido no seu coração e rapidamente percebe que a cutilde já não pertence a este mundo – senta-se no chão e com a sua amada nos braços aperta-a contra o seu peito e ali fica em silêncio a embalá-la como se estivesse a dormir – revoltado com ele mesmo. percebe tarde de mais que foi a sua insegurança que acabou por lhe roubar o seu grande amor. tinha estragado tudo e ele era o único culpado do que acontecera


6.
entretanto a cutilde chega ao céu e a primeira coisa que faz é perguntar ao s. pedro onde está o seu zé. e quando não é o seu espanto quando ele lhe diz que a morte do zé foi um embuste. infelizmente para ela o zé não faleceu. mas pode ficar tranquila. o seu amor por ele foi altamente recompensado. o zé ficou com a casa e o carro pagos ao banco. para não falar nos milhares que vai receber do seguro de vida


7.
moral da história: não acredite em tudo que lhe dizem – antes de tomar uma overdose de pastilhas. atirar-se de um penhasco ou dar um tiro na cabeça. verifique com os seus olhos se ninguém o aldrabou – e mais um conselho senhor leitor. tome muito atenção à vida. na maior parte das vezes é mesmo essa ordinária que nos engana. amámo-la e em troca faz-nos um manguito – mas no meu caso. que sou o contador da história. aviso-vos desde já que não tomo pastilhas. excetuando as que me aliviam o relinchar dos bicos de papagaio – pobre cutilde


- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros
* albert einstein




06/08/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*






adelino ângelo 






3. a morte terapêutica


nesta terceira parte a minha dissertação incide objetivamente nos benefícios da aplicação da morte terapêutica em mentes em avançado estado de instabilidade emocional – recorremos então a algumas boas praticas já experimentadas na morte assistida e transpomo-las para fórmula terapêutica – o que realmente torna interessante a aplicação desta morte é a possibilidade de fazer falecer apenas o que nos magoa – começamos por sedar a nossa existência. aliviamos a dor. manietamos o passado. silenciamo-lo. sitiamos a memória de longo prazo e introduzimos na memória recente doses de elevada esperança – obviamente que como em qualquer tratamento é necessário ter sempre em atenção as dosagens. foram muitos anos de sofrimento e o corpo pode reagir negativamente ao excesso de esperança – a solução é a prescrição de doses de baixo teor de felicidade. administradas sobre uma apertada vigilância – evitar recaídas é fundamental – ao passado é-lhe finalmente oferecido uma morte controlada. boa. honrada e sem dor – claro que é necessário escolher muito bem o que queremos realmente que faleça. não se pode fazer falecer o coração. nem os pulmões. nem o cérebro. nem  o que resta da vontade de viver – esta não é uma morte onde para falecer baste um pouco de coragem e uma bala no tambor. não. não é – esta morte. consiste em eliminar. silenciar ou simplesmente enclausurar. por um período de tempo estabelecido. uma determinada área do corpo. membro ou apenas um insignificante sentimento – tomar a decisão de eliminar o que quer que seja num corpo diminuído não é tarefa simples para o seu executor – não é fácil castigar um corpo quando o que resta de motivação é praticamente nada – o momento é de aflição para o carrasco – quando o corpo está doente a dor torna-se numa força incontrolável. os sentimentos desaparecem e automutilação toma posse do centro de comando cerebral – o pensamento está refém do desespero – selecionamos então um alvo no corpo que acreditamos estar possuído de um mal sem solução. desligamo-lo do suporte de vida libertando-o da teimosia de viver em agonia – aos poucos a memória de longo prazo começa a desprender-se das rotinas abandonando o corpo numa marcha de silêncio e paz – o silêncio. agora fúnebre. acompanha a saída das reminiscências numa viagem de aceitação. de perdão. sem castigo. sem remorso. sem medo que no dia seguinte o passado ressuscite num dedo apontado à covardia – entramos então em modo segurança extrema. sobreviver é a palavra de ordem – personalizamos o nosso próprio plano de recuperação e com a ajuda da esperança aplicamos o tratamento final da morte terapêutica – cortamos a mão que escreve. substituímos uma perna de carne e osso por uma de pau. sacrificamos a ambição. matamos um pouco da ternura. escondemos a paixão e doseamos para o máximo o caudal da amargura. ameaçamos o sorriso com uma faca de dois gumes e garantimos uma atenção especial ao corpo se este voltar a acreditar que ainda é possível refazer a vida – aproxima-se o momento das decisões. é fundamental eliminar o acessório e assim. permitir que a vontade de viver se projete num novo espaço temporal – eisntein dizia que “o tempo não é aquilo que parece. Não corre em uma única direção, e o futuro existe simultaneamente com o passado” – se o tempo não corre numa única direção então não há razão para ficarmos presos ao passado – para grandes males. grandes remédios. a solução passa por aplicar a estratégia de terra queimada. exterminar tudo que possa ser útil ao inimigo – um género de contrafogos que mais não é do que uma “contra-morte” – se o que arde não volta a arder também o que morre não volta a morrer – ficamos mais doentes quando olhamos mais para o passado do que para o caminho que ainda temos a percorrer – a angústia apenas consegue sobreviver se mantiver acorrentado a si o desanimo. a ansiedade e o medo – sobreviver é uma luta diária. um inferno. uma descarga elétrica contínua que nos amarra em cada dia do ano. não há férias. não há aniversários. não há natal. não há desculpa para nada. o que existe é apenas os dias marcados a negro no calendário  – um corpo depressivo não vive. sobrevive – o oposto da depressão não é a felicidade. é a vontade de querer viver. a força. a determinação. a procura da liberdade – nenhum homem é livre quando a dor lhe confisca todos os pensamentos – ninguém pode desvalorizar o silêncio de um homem tomado pela dor. o seu sofrimento é a sua impressão digital – este penar não se torna infernal apenas porque desacertadamente. ou não. optamos pelo caminho errado. recusamos ajuda médica ou dizemos não aos ansiolíticos – a dor nasce escondida no corpo. depois. depois começa a gatinhar. de seguida aprende a caminhar. em bicos de pés. com a graciosidade de uma bailarina. e o corpo gargalha com a subtileza com que vai amargando. o que era em bicos de pés são agora passos delicados. a fazer estrada desconhecida. lentamente. tão lentamente que o corpo se vai alterando. adaptando. moldando. até que chega um dia. sem que tenha dado conta. cada passo é um compasso entre caminhar ou apear – a dor já não engana.  multiplicou-se em amargura. em angústia. em revolta. em intolerância. arrestando o corpo num desequilíbrio irracional. doentio. falso. e por fim. como todos os impostores. promete-lhe um precipício libertador – o que cresceu como uma anormalidade dolorosa é agora uma normalidade consentida. aceite e autorizada a viver numa vergonha silenciosa – a dor já não é estranha. é intima. próxima. carne da sua carne. como se o tivesse acompanhado desde o útero de sua mãe – a manifestação externa do sofrimento só se torna audível ao fim de muitos e muitos anos de conflitualidade interpessoal – se por um lado todo o corpo dói. por outro. estas dores são a razão da sua teimosia em continuar com a vida – tudo que ocorre no nosso mundo solitário é feito de sofrimento. de interrogações. de dúvidas e de uma cabeça que não sabe descansar para tornar mais fácil o que quase sempre parece impossível – tudo acontece ao mesmo tempo e à mesma hora. o cérebro ora implode. ora explode e uma e outra parte sem entendimento. sem tréguas – o descanso não existe para quem faz do seu dia a dia um combate com as interrogações – acreditar que tudo tem uma razão para acontecer é a resistir. encontrar essa razão a causa de todos os problemas – infelizmente nem tudo tem uma razão. nem tudo pode ser explicado – claro que ainda haveria sempre o recurso a um charro terapêutico. umas quantas passas distribuídas pelos períodos mais críticos do dia como forma de aliviar as dores ou estimular o funcionamento dos órgãos sensoriais para novas formas de luta – mas não. esta maleita dolorosa está muito para além do charro. da pastilha ou de um sono mal aparelhado por uns quantos fantasmas erráticos – não. não é assim.  esta dor cresce com o pensamento e distrai-se com o sofrimento – todo o homem nasce com o entendimento natural de valores negativos e positivos e uns e outros lutam entre si em busca de uma pacificação natural entre o bem e o mal. o certo e o errado – infelizmente nem sempre esta biossíntese é adaptável às exigentes e naturais formas de vida que nos rodeiam – um dia. o corpo diz: basta. já não há razão que me faça ver outras razões. chegou a hora – usamos então todo o mal armazenado para um último momento e assim devolver definitivamente a liberdade ao corpo – o que dói na pele ou na carne é diferente do que dói no coração – há estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – volto a repetir a frase do mia couto acrescentando-lhe um novo ponto final: “cada homem é uma raça” que respira para caminhar e sempre que caminha aumenta a estrada para mais perto do seu fim – a estrada não se escolhe. nasce connosco – cada homem tem a sua estrada para a morte



- a quarta parte do texto será dedicada à morte dolosa ou fraudulenta 
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros