.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

09/03/2016

vou para o inferno III




foto - sampaio rego



3.

não sei – não sei muito bem para que um deus haveria de criar esta coisa redonda que gira como giram os carrosséis – não se faz ninguém feliz com coisas que giram sempre para o mesmo lado – se queria ter um povoado feito de gente feliz criava um céu sem girar. nem precisava de ser um grande céu. bastava que fosse igual àquele que me impingiam nos livros da catequese – anjinhos com asas. cascatas de água translúcidas. pombas brancas e um sol que se desfazia num amarelo silêncio que era ao mesmo tempo paz – tudo perfeito – a harmonia exemplar entre a natureza e o homem – diabo. nem vê-lo

– “portanto. submetam-se a deus – resistam ao diabo. e ele fugirá de vocês”

mas não. deus criou uma coisa redonda que gira como os carrosséis. criou este mundo que é tudo para uns e nada para outros – obstinado. sim –  doentio. talvez – cavalos. girafas. zebras. cestos que rodam sem parar. bicicletas. triciclos e outras coisas que servem para dar cor e animação a um mundo que não sabe girar sem ser em torno de si – o homem não sabe viver sem animação – e a voz no microfone a falar para o mundo inteiro. e o mundo surdo pelo cansaço de nada ouvir quando está em diversão – nada. sempre o nada – o mundo foi desde sempre um divertimento – para deus é com toda a certeza

– mais uma volta. uma nova corrida. uma nova viagem – e a vida toda feita a girar

deus concebeu este carrossel e é dele a voz nos altifalantes – diz que está em todo lado – mentiroso – mas vou continuar com o meu lado criativo. adoro este lado. faz-me bem. distorce a realidade sem me distorcer nada por dentro – lá vem o nada ao de cima novamente – certo dia. deus. há muito muito tempo. estava deprimido. depreciado. desfeito em tristezas. mergulhado em pastilhas de suporte de vida – prozac celestial era a terapia contra a infelicidade – o momento não era fácil. o desespero roubava-lhe lucidez – a depressão era um castigo que o atormentava nos seus silêncios eternos – profundamente triste. esgotado numa dor contínua que lhe atrasava os braços nos compromissos etéreos. ao mesmo tempo que a consciência sensível ia perdendo a salubridade – para pôr fim a esta agonia que anunciava uma morte impossível de acontecer. deus não morre. tomou a seguinte decisão: fazer a terra – é o que eu congemino neste pequeníssimo cérebro – ninguém com o perfeito juízo fazia uma terra com gente como eu – deus não estava bem – falo por mim que sou um pateta e tudo o que penso não serve para nada – mais uma vez o nada

– os meus pais. distraídos. compraram-me um bilhete – naquele tempo os métodos anti concecionais não eram fiáveis – era o tempo do termómetro

apanhei a última cegonha com destino á minha rua – nunca me senti indesejado. bem pelo contrário. foi a vontade de deus como diz a minha mãe – eram tempos difíceis para as cegonhas e para as famílias – muitas lágrimas aportaram os olhos da minha mãe

– e agora como vai ser para criar este menino. como vai ser meu deus. tu sabes que já não sou nova – era assim a apoquentação da minha mãe

duvido que deus soubesse de alguma coisa. mas se algo lhe tivesse assobiado aos ouvidos. tenho a firme convicção que não lhe passava pela cabeça o tamanho da encomenda que lhe chegava em  aborrecimentos – e lá vou eu no carrossel. num cesto que gira sem destino – gira para esquerda e para a direita e nenhuma mão capaz de  dar rumo ao cesto – nem a mão de deus – enquanto as zebras e os cavalos nobres. num galope celestial. certo. com direção. com altivez. elegância. de olhos postos no destino. percorrem tempo num acerto que nunca fui capaz de reproduzir – e o cesto a rodar sem parar e eu perdido em voltas sem saber – “deus ao menino e ao borracho põe a mão por baixo” – nunca fui menino. nunca fui borracho. cresci no dia em que nasci. cresci para fora do corpo e nunca fui capaz de segurar o olhos dentro do tempo certo – há um tempo certo para se fazer o que está certo

 
– nasci preso às asas de uma gaivota rumo a um vento que nunca me entendeu 

 
os carrosséis não giram da mesma forma para todos – o ar dos cavaleiros também conta para dar brio ao carrossel – eu lá vou todo desengonçado a girar para um lado e para o outro. sem saber se vou para norte. ou para sul – que importa se o banco só gira para os lados – os lados não tem norte ou sul – enquanto giro. os altifalantes gritam alegria. só as zebras e os cavalos se mantém  aprumados com o rumo do carrossel. tudo o resto vai para onde calha – vai para cima e para baixo. para um lado ou para o outro este cesto alucinado – ir sem rumo também é destino – tudo roda sobre mim – quem roda unicamente sobre si nunca saberá encontrar o verdadeiro caminho que lhe falta percorrer – o deus que me impingiram em criança não fazia isto. deus não é injusto. não é xenófobo e a minha rua é igual a tantas outras – ele tem obrigação de saber que não fui eu que escolhi aquela  cegonha tresloucada e muito menos escolhi o deus a quem rezar – no primeiro dia deus criou o dia e a noite e os carrosséis
 
 
– “e lá procurarão o senhor. o seu deus. e o acharão. se o procurarem de todo o seu coração e de toda a sua alma”
 
 
se te procurei foi por ordem da minha mãe. e também foi por sua ordem que frequentei a tua casa. apesar de nunca te ter visto por lá – fiz o que me mandaram e se te aborreci foi sem querer – deus não pode ser assim tão injusto. já não falo por mim que estou habituado desde pequeno ao seu silêncio. mas por aqueles que nunca se cansaram de acreditar nas orações que lhe consagram diariamente – deus não pode continuar a esconder-se no silêncio – deus se existisse não era injusto ou então não está em todo lado como faz acreditar

-- deus está cansado – imagino eu que também já estou cansado do seu cansaço

acredito que deus não é o responsável pela pasta da equidade no céu. tem um capataz a quem delegou todo a justiça terrena – concebo-o sisudo. com um bigode farfalhudo. voz grossa e a face cheia de cicatrizes de escaramuças – o feitor coloca-se à porta do céu e quando chega o pecador é com ele as primeiras falas – olha para o aspeto do pobre infeliz. e sem mais nenhum trato. dá-lhe um pontapé no rabo e diz-lhe sorrindo:

-- senta aí. alguém te virá buscar – e psiu! pouco barulho que o senhor teu deus está a descansar

e assim estou. sentado e ainda não entrei no céu – tratado como um verdadeiro nada – espero que alguém me mande para algum lado. um lado sem lado. um lado que por ser redondo abrace todos os pretensos lados renovando a fé dos indecisos com um novo lado mais justo. o lado que me faça aceitar o dever de gratidão por fazer parte deste mundo – o jogo de deus

– i love this game

apesar de não saber escrever. e esta missiva estar um pouco confusa. sei que um dia deus responderá a todas as minhas dúvidas – contrapondo: “abençoado são os teus olhos. porque veem; e os teus ouvidos. porque ouvem. pois. mesmo sem tê-lo visto. tu o amas; e ainda que não estejas podendo contemplar seu corpo neste momento. ”crês em sua pessoa e exultas com indescritível e glorioso júbilo” – qualquer idade necessita de ter um deus de verdade – na minha idade só preciso de um deus para me retirar para a barca – tenho que levar a moeda certa na boca – preciso de acreditar num ser superior – preciso de um deus – preciso que os meus filhos possam continuar a crescer como homens de bem e que sejam capazes de o encontrar onde eu não consegui – preciso que sejam sempre fortes e corajosos em seu caráter. afáveis com as demais pessoas. bondosos. amantes da paz – preciso que valorizem o trabalho. a justiça. a nobreza das ações acreditando sempre que um dia serão capazes de ouvir da sua boca que valeu a pena acreditar num deus que já foi o meu – preciso de um deus para lhe entregar as minhas preces. os meus medos. os meus receios – preciso de um deus para lhe pedir proteção divina para os meus filhos. para a minha maria joão – só assim poderei partir para a minha última viagem – preciso de um deus que me deixe comtemplar pela última vez o que mais amo neste mundo e seguidamente reencontrar definitivamente o meu verdadeiro pai – o meu pai terreno – tenho tantas saudades dele e quero tanto abraçá-lo – para sempre – preciso de um deus para sair definitivamente deste corpo. apanhar a cegonha de volta ao nada acreditando que deus tomará o meu lugar na proteção dos meus – preciso de um deus para todos aqueles que estimo e amo – para mim já é tarde. apesar de toda a minha vida ter feito quase tudo para lhe agradar – para mim basta que me receba pessoalmente na porta de onde quer que viva e me diga: foste um palerma. um tolo. se nunca te apareci foi por tua culpa – és um ingrato – mas sossega que não sou rancoroso e os teus filhos. ao contrário de ti. saberão escolher a estrada certa – mas descansa. podes estar tranquilo. estou de olho neles e tudo farei para lhes mostrar o caminho da luz – sei que só partindo em paz comigo serei capaz de me sentar á direita de deus e do meu pai

– e disse-lhe jesus: em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso

aqui estou eu meu deus. novamente. como quando te visitava na catequese. completamente livre de preconceito. quase ingénuo – desta vez para te dizer que o que aprendi na tua casa não me serviu de grande coisa. a não ser. o fato de me teres dado um padrão moral capaz de decidir com objetividade o que está certo ou errado – coisa de pouca monta neste novo tempo das tecnologias que andam num ar invisível – os  ensinamentos da moral deixaram de ter exclusividade nos homens de deus – mas adiante. se efetivamente existires. e se me vieres realmente receber á porta da tua casa. lembra-te de que os meus filhos existem porque um dia eu acreditei verdadeiramente em ti. na virtude da alma. da família. no amor verdadeiro. no certo a vencer o errado. no bem a se sobrepor ao mal. e na luz a iluminar as trevas – por mais insignificante e minúscula que encontres a minha alma recorda que ela é ainda preenchida pelo que sobra das tuas palavras – um homem de bem nesta idade necessita de acreditar num deus de bem – num deus que seja capaz de dar alento a quem vive a meu lado á mais de trinta anos – uma cama partilhada jamais aceita o silêncio das ausências eternas – que seja também capaz de me guardar os filhos até ao dia que eles encontrem a mesma saudade que hoje tenho pelo meu pai – hoje vou rezar um pai nosso – um homem na minha idade precisa de rezar mesmo que não acredite em nada

– pai nosso que estais no céu

um homem da minha idade só precisa de um deus para poder morrer em paz – eu sempre quis morrer em paz. na companhia dos meus filhos e da minha amada

.
.
.







07/03/2016

transumância




foto - sampaio rego




deslacei
que a inteireza é feita de inverdades
o amor contracena com o desamor


e até o afecto
fenecido
lamenta o tempo


é a hora da transumância humana
sobejam ainda:
alguns frutos selvagens da primavera



29/02/2016

vendido ao melhor preço




foto - sampaio rego



pobre homem – também tu foste picado pelo mosquito dos encómios inteligíveis e espontâneos – pobre tonto – tanta idade gasta à procura de uma coluna jónica capaz de me apartar de todas as almas erradicas do mundo e logo fui picado pelo pior bicho do universo – vendido ao melhor preço – sou agora homem-besta até que as minhas orelhas de burro sejam transplantadas para outro impuro – que seja rápido e sem dor enquanto a alma se torce em programa que não é de lavagem – deuses loucos estes que me fizeram – soubesse eu calar – soubesse eu cegar – soubesse eu deixar de ouvir – nem raios. nem coriscos. nem santa bárbara para dar o meu nome a uma trovoada – tivesse eu um raio para me cair das mãos e iluminaria o purgatório com um aviso – é para lá que vão todos os caçadores de almas – mesmo que os vosso olhos só enxerguem papel creiam que em marca de água vai anexado um sorriso feio – meu e apenas para mim – assim sei que estou vivo e cada vez mais desperto para o mundo dos mortais




01/01/2016

é janeiro




foto - sampaio rego
 

ora cá estou no primeiro dia do ano. seria um dia igual a tantos outros se não fosse a minha vontade de vos dizer tudo o que sinto - quero-vos bem e sei que não é por ser o meu primeiro dia do ano - quero-vos bem porque em minha casa há silêncio-paz e sempre que o silêncio me encontra eu desbulho da memória um amigo a que quero o melhor do mundo - é janeiro. é ano novo. é um dia de encontros com os meus fantasmas. é um dia do caraças e eu sem arte para vos dizer como tenho vontade de vos abraçar com palavras - se eu fosse poeta dizia-vos que janeiro tem mais encanto com vocês
 
poeta eu?
o poeta sobrevive nas vísceras de um cérebro sempre imensamente insatisfeito – sofre dor na procura das palavras que nunca saberá escrever – por mais palavras escritas. por mais palavras pensadas. por mais que deixe o corpo arder no inferno. não será capaz nunca de dizer às mãos o sofrimento de não as saber escrever – não há caminho feliz para quem gosta de escrever o que vê
 
sejam todos muito felizes em 2016 e não se esqueçam de me levar nos vossos sorrisos




29/12/2015

adeus ano velho




foto - sampaio rego
 



também eu gosto do silêncio e tive tão pouco este ano – se fosse possível eu acontecer de forma diferente neste novo ano – nascia em silêncio e juro que nem com a palmada no rabo chorava – respirava silêncio e pedia para me embrulharem num livro de poesia - depois sim. caía nos braços da minha mãe e ali ficava para sempre – em silêncio – feliz ano 2016 para todos os meus amigos – prometo-vos que não deixarei nunca de “perseguir as luzes das estrelas até ao fim da minha vida” - sejam felizes e obrigado por fazerem parte da minha vida
 

13/10/2015

professor marcelo




google - marcelo rebelo de sousa
 
 



gostava de ser como o professor marcelo. marcelo rebelo de sousa – dizem os amigos. inimigos também. que o homem é inteligentíssimo. um reconhecido génio lusitano. feito comendador da ordem militar de santiago da espada e da grã-cruz da ordem do infante d. henrique – estamos perante um homem de uma lucidez rara. com uma rapidez de raciocínio pouco habitual no nosso meio académico e político –sempre ouvi dizer que homem inteligente é aquele que se conhece a si mesmo – pois bem. o professor acumula este dom com o de conhecer ainda melhor os meandros da politiquice nacional – sempre que aparece na tv o professor parece um gaiato. com uma energia de fazer inveja a qualquer catraio – não há uma único sinal de cansaço tanto no argumento da retórica como na línguagem gestual - do primeiro ao último minuto do programa o professor marcelo é um autêntico “showman” – o professor é terrífico. faz ainda questão de alardear perante os seus admiradores que apenas necessita de dormir duas horas por noite para se manter em plena forma física e intelectual – na hora de almoço é vê-lo a dar uns mergulhos na praia de carcavelos. com chuva ou sol. inverno ou verão lá vai o homem como se fosse um homem do mar – é ele que dá força àquela velha teoria de que todos descendemos de um marinheiro – uma fura nas ondas. duas braçadas a favor da corrente e lá sai o sr. professor da água purgado de todas as maleitas de envelhecimento precoce – manuel de oliveira morreu novo quando um dia fizermos as contas entre os toque de finados – para completar esta panóplia de bênçãos. dizem os que com ele partilham a intimidade que o professor catedrático dita duas cartas ao mesmo tempo sem que em momento algum se confunda. mantendo sempre a postura do corpo. o brilho do raciocínio. a fala eloquente e a emoção gestual – marido. pai. professor universitário. político e por fim. comentador político na tv - a hora de marcelo rebelo de sousa. programa semanal de sua responsabilidade – estamos perante um verdadeiro sobredotado lusitano – gosto de o comparar a um automóvel topo de gama – um ferrari de versão esmerada. vermelho. cupê de duas portas e com um motor 3.6 litros V8 de 400cv de potência. acelera de 0–100 km/h em 4.3 segundos – uma loucura de carro – só para gajos com unhas. o motor de oito cilindros leva-o ao fim do mundo – uma bomba atómica com quatro rodas – é aqui que deprimo. afinal a minha inteligência não passa de um comercial de dois lugares comprado em segunda mão – junta da colaça rachada. vielas gastas. escova limpa vidros a nada limpar. retrovisor embaciado com tudo o que ficou para trás. e o “démarre” afogado num cheiro a gasolina que deixa antever uma explosão da “voiture” a qualquer momento –  eis o que é. fumo negro em escape que já não filtra o bom do que é mau. e a caixa das velocidades presa a uma marcha atrás que já não me deixa fazer nenhuma estrada em frente – ao volante. uma condução de raiva. o limite de velocidade nunca se aplicará ao meu cérebro – resignado. acolho-me sem medo. abraço o que posso fazer com gratidão aos deuses da fortuna. e olho o amanhã com esperança limitada para o corpo que me calhou em sorte – estou demasiado gasto para qualquer conserto. já não há peças de substituição – sou assim. o que não tem remédio remediado está – estou a ficar um caco – as noites começam a ficar cada vez mais pequenas para pensar – resta-me a escrita e pouco mais – escrevo então. enfim. é noite. e sendo assim. tenho que aproveitar todas as ideias que andam por aqui em fervura – bem sei que são tipo geiser. o repuxo já só aparece de hora a hora e com tendência a piorar – sou o que me calhou em sorte e a mais não sou obrigado  
 
nota - este texto tem mais de dois anos e por esse motivo não faz nenhuma alusão ao candidato presidencial marcelo rebelo de sousa
 



09/10/2015

aclasto




foto - sampaio rego



 

atrás
dos desfrutáveis olhos
vadiavam memórias temporais
contristados
entressonham lágrimas
em:
bem-aventurança





06/10/2015

vou para o inferno - II





foto - sampaio rego
 



2.

.

 
hoje confesso que não há domingo. não há missa. não há roupa nova e muito menos carne assada. sou quase vegetariano e o palavrão ajuda-me a manter o corpo em alerta contra as injustiças – e a pergunta reforçada: para que serve um deus na minha idade? para que quero um deus se já não tenho roupa nova. nem carne assada. nem domingo. nem aqueles sapatos apertados que por serem de couro só os podia calçar no dia do senhor – repito. para que serve um deus na minha idade? ele existe? algum dia existiu? se existe que milagre pode ainda compor num descrente que anseia pela evaporação crematória – envelhecer é um aborrecimento. um enorme aborrecimento – quanto mais velho mais dúvidas – sou mesmo um tonto. tanto saber desperdiçado em boémias inúteis de palavras divinas – reflexões sem fim – já não acredito na existência deste [meu] deus. um deus sem voz. sem retratos. sem aparições. sem comprovativo de morada. sem NIF. sem nada a não ser pinturas em capelas sistinas

.

- - nos dia de hoje. se deus existisse. já um qualquer paparazzi lhe tinha arrancado um retrato – tenho a certeza

.

mas vou fingir que aceito a sua existência como certa – hoje estou virado para este lado criativo. este lado fingido. o lado da indiferença. do faz de conta de que tudo é divino. quem sabe [se estiver enganado] a mão de deus a mexer comigo – faço então uso de todos os ensinamentos cristãos. da catequese assimilada. dar a outra face. do ressuscitar de lázaro. do enxugar os pés da maria madalena a jesus. das moedas de judas. do ósculo fraternal a fazer emergir a paz de cristo no coração do homem. do meu também – sou por momentos um homem renovado na sua fé – estou assim. meio criança. meio adulto – e agora a saudação da paz do senhor

.

-- deus que é deus não agrada a todos – recorro a uma máxima da história para comprovar esta teoria: não se pode agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo

.

deus optou por não me agradar a mim – digo eu. conspurcado de pecados – vamos lá então – imagino-o no seu gabinete rodeado de pilhas de papeis importantes. pessoais. valiosos. altamente confidenciais – tudo “top secret” – tratados por centenas de assessores de uma idoneidade inquestionável – estes assessores foram escolhidos por meio de concurso celestial rigorosíssimo. e com a sua mão direita juraram sobre a bíblia sagrada defender o catolicismo contra todas as investidas do demónio – recuperar os crentes perdidos. renovando-lhes a esperança num mundo eterno – deus é justiça – são estes servos leias que  ajudam diariamente deus a criar um mundo mais justo –

.

-- tudo dirigido sobre o mais rigoroso olhar de deus e debaixo de um rígido sigilo – o sigilo é a alma do negócio  

.

acomodado no seu cadeirão. de óculos na ponta do nariz. despacha documentos de alta prioridade e confidencialidade. sem um único sorriso – os problemas do mundo não lhe dão sossego – já não é aquele deus que me impingiram na catequese. com ar feliz e sempre rodeado de criancinhas a pularem de alegria e segurança – nem aquele que me protegia nas noites escuras. e debaixo dos cobertores lhe pedia proteção contra as sombras demoníacas que cobriam as paredes do meu quarto – não. infelizmente esse deus já não existe – o mundo tornou-se enorme para um deus que não fala para ninguém – deus já não consegue chegar a todo o lado – o mundo cresceu imenso – eu também

.

-- gosto deste meu lado de criatividade cínico mesmo que não sirva para nada – sei que não sou nada

.

deus também é cínico comigo – todo este cinismo apenas para conter a fuga de crentes para o mundo do nada – o nada está cada vez maior. incontrolável – nada temo. nada creio. nada me faz falta depois de morto. nada serei de olhos fechados – nada será sempre nada – e lá estou eu novamente no fundo do nada que é como quem diz no fundo do lixo – o lixo fica sempre por baixo. fica no silêncio das casas. dos cantos das salas triangulares. dos quartos de hóspedes. dos tapetes persas. dos quadros surrealistas. dos passpartour com retratos a preto e branco. das gavetas de pau santo. das ruas empedradas. dos cantos da alma onde os precipícios se tornam eternos – o meu nada é uma espécie de suicídio assistido – vamos morrendo tão devagar que acabamos por ver partir tudo que nos é querido – quando damos conta estamos sem nada. sem nada capaz de nos fazer morrer de uma só vez – e tudo isto num silêncio lacrimal que por não se ouvir ninguém sabe que existe – existimos num nada e dentro do nada sangramos pregados a uma cruz que não sendo a de jesus é outra que nos implora fé em alguém que nunca abraçou como um homem – fica então um deus assim como um presidente da república. cheio de etiqueta. nunca sai do seu palácio e não faz coisa nenhuma – não faz nada –  como o nosso presidente – coisas da democracia que no reino do céu deve ter outro nome qualquer já que não me parece que haja eleições para o ofício de deus – ouço dizer que deus está no céu desde que um dia se lembrou de criar este pedaço de terra redondo. com mar. sol. sal e pecados – culpa da eva

.

-- raios te partam eva. toda esta chatice por um orgasmo com o adão – espero que tenha valido a pena

.

me perdoem as mulheres por este desabafo ingrato e injusto mas estou cada vez mais certo de que se não fosse homem seria mulher e assim jamais seria nada – não acredito na ressurreição e também não acredito na encarnação – sei que estou vivo porque conheço o nada. sei escrever nada. sei dizer nada. sei desenhar o nada. sei até fazer um funeral ao nada só não tenho ninguém que o queira levar aos ombros e eu sozinho já não sou capaz – “com o suor do teu rosto comerás o teu nada. até que voltes ao nada. pois do nada foste formado; porque tu és nada e ao nada da terra retornarás” – que me perdoem todos aqueles que me abraçam com amor pois não é por falta deste que eu sou descrente – sou o que sou porque ao nada nunca se pode acrescentar nada a não ser matar a memória de um deus que verdadeiramente nunca existiu a não ser na minha igreja – um dia. cada vez mais breve. serás definitivamente um grande mentiroso - sei

.

3ª parte brevemente

.


   



25/09/2015

retalhos – número de série 25092015s(r)ego26




foto - sampaio rego




jamais saberei o que sou e quem sou - mas quando escrevo sou realmente o que sempre quis ser – verdadeiro



31/08/2015

ciclo das pedras





foto - sampaio rego



 
 
rolam pedras
rolam sem parar
rolam sem ninguém as ver
rolam agitadas donas de montanhas
mas rolam
rolam
todos os dias rolam
rolam inchadas
rolam papéis
rolam livros
rolam prosas
rolam rimas
rolam até palavrões
mas rolam
rolam
todos os dias rolam
rolam paridas
rolam inveja
rolam cobiça
rolam piadas
rolam maldades 
mas rolam
rolam
todos os dias rolam
rolam quadradas
rolam cegas
rolam porque o outro rola
rolam por rolar as pedras
rolam arrogantes
rolam uma
rolam duas
rolam três
rolam de três em três
rolam cem
rolam mil e três
rolam de quando em vez

 
mas rolam
rolam
todos os dias rolam
rolam do rolar as donas
de tanto rolar
apagaram as montanhas
as nuvens
as árvores
os lagos
os rios
os peixes
a terra

 
mas rolam
rolam
todos os dias rolam
mataram os olhos
os ouvidos
as mãos
a boca
o nariz
o coração
como pedra rola
devagar
mais devagar
mas ainda rola
rola
só sabe rolar
cada vez mais só
no seu rolar
sem sol
sem paixão
rola como palavra inútil
um dia
deixa de ser pedra
deixa de rolar
deixa de viver
restará pó

 

 

 



23/08/2015

vou para o inferno




foto - sampaio rego


1.
.

hoje penso em deus – confesso-me – cada vez tenho mais dificuldade em pensar no criador – já lá vai o tempo em que todas as noite. sem esquecimento. lhe devotava um pai nosso – o tempo passou. muito tempo. tanto que já poucas memórias me restam desse miúdo devoto – estou a entrar numa nova etapa existencial: olho-me pela vida e faço o balanço entre o deve e o haver – necessito muito de encontrar num novo silêncio. olhar para trás sem medo. compreender os novos chamamentos do corpo envelhecido. os novos apelos da alma em questões de fé – o que mudou no rapazinho imortalizado pela fé para um adulto descrente na eternidade dos céus? chegou a hora de pesar e contabilizar o que fiz mais e menos acertado – a vida é uma corrida feita em tempo supersónico onde a meta é sempre alcançada – a questão é saber como a vamos encontrar    aqui estou perante mim

.

-- estou certo de que necessitarei de um grande contrapeso para equilibrar os pratos da balança

.

a interrogação que coloco nos dias de hoje já não é tanto saber se devo acreditar ou não nesse meu deus do passado. nessa eternidade prometida – com os meus cinquenta anos feitos a dúvida coloca-se de forma diferente – para que serve um deus na minha idade? – na minha juventude. quando ia à missa do carmo. igreja que servia os paroquianos da minha freguesia. ouvia o padre carlos dizer: deus está em todo o lado. deus recompensa a justiça e a fidelidade de cada um. deus é justo. quem serve a deus de verdade nele descansa

.

-- ora eu não descansei coisa nenhuma. culpa minha. talvez não o tenha servido com a fé de um verdadeiro crente  

.

dizia aquilo com tal convicção que não havia alminha que não acreditasse na palavra do eclesiástico – este padre era quase tão importante como os santos parados nas paredes. parados mas vigilantes. nunca tiravam os olhos dos seus paroquianos e ai daquele que ousasse pronunciar o nome de deus em vão – o sr. padre carlos também não arredava os olhos dos seus fieis – a igreja repleta. de silêncio também. e aquelas almas todas a tombar o corpo para o lado de deus: oremos senhor. ámen – todos de joelhos – um gesto ao de leve da mão do sr. padre e todos os crentes de pé. um exército de fé incondicional pronto a marchar contra as injustiças satânicas comandados com a omnipresença do senhor – ele estava ali. está em todo o lado

.

-- oremos ao senhor pelos jovens da nossa diocese que sentem o chamamento de jesus

.

já não me lembro desse chamamento – o tempo apaga quase tudo. o caminho é agora assente em recordações a avulso e a perceção da justiça feita na perspetiva de uma alma pecadora recauchutada – não tenho medo da morte em pecado – a equidade já não é exclusiva do meu deus – agora também eu decido o que está mais certo e decido não aos olhos do senhor mas aos meus  que os alimentei do mundo que consumi – somos tempo e este muda tudo. principalmente o juízo do certo e o menos certo – a justiça é feita à medida da vida que escolhemos – pavlov chamou à correlação entre o estímulo incondicionado e a resposta incondicionada de reflexo incondicionado – as crianças reproduzem o comportamento que observam. o medo também pode ser aprendido – com a idade destrui a teoria e nenhuma sineta me faz salivar – não tenho medo de julgar contra a vontade de deus

.

-- o acólito toca a campainha e dá-se o início da oração eucarística e a consagração do pão e do vinho em corpo e sangue de jesus cristo

.

quem na minha meninice teria a ousadia de dizer que deus não era justo – népias. nem alma. todos temiam a eternidade do inferno – ninguém ousava altear a voz contra o meu deus. o deus de toda a minha rua. de todo o meu bairro. de todo o meu país – até a ideologia do estado novo tinha deus como chefe-mor – salazar mandou publicar: deus. pátria e família. por esta ordem de importância – ai de quem não acatasse a doutrina. a P.I.D.E. tratava-lhe da saúde – e assim se cumpria a palavra do ditador e de deus – também eu sou agora um ditador e a ordem das coisas alterada pela vontade da minha falta de fé em deus e na pátria. só me resta a família – eramos todos crentes. e o céu a nossa eternidade – não era fácil questionar ou duvidar uma fé que nascia com a primeira lufada de ar  

.

-- a hora foi pequenina e graças a deus é perfeitinho. com a graça do senhor

.

tudo era obra do senhor – assim nasci aos olhos de quem bem me queria: perfeitinho – ai se me pudessem ver por dentro – mas lá fui andando e vivendo com os olhos cravados em fé. queria acreditar no meu deus. no deus que sacrificou o seu único filho para que todos aqueles que nele acreditassem não perecessem. mas tivessem a vida eterna – a minha vida é cada vez menos eterna. a idade não perdoa – questionar era pecar e as portas do inferno abertas para uma perpetuidade a arder em chamas demoníacas – mas toda a criança cresce e com o crescimento do corpo cresceu também as incertezas da fé – com a idade a religião fica cada vez mais complexa. mais complicada de entender e explicar – deus não quer saber das nossas incertezas. não dá cavaco a ninguém – deus é deus. tudo o que permanece em mim é o seu silêncio. como sempre – habituámo-nos – no entanto. sempre acabei por  encontrar uma justificação para a sua mudez – imaginava-o com falta de tempo. ocupado. atarefado. a correr de um lado para o outro. uma mão aqui. uma criança salva. outra mão acolá. uma cura milagrosa. e o mar aberto mais uma vez para passar todos os males do mundo enquanto os mandamentos da lei de deus são cravados num céu onde todos os homens são justos – o mundo perfeito – um sinal nas alturas divinas a indicar o caminho merecido aos seus seguidores – o homem em plena harmonia terrena – deus era todo poderoso e o mundo dos homens íntegros – a fé estava por todo lado – na parede do meu quarto um terço enorme. em madeira. protegia-me de todos os males das trevas. enquanto em cima da mesinha de cabeceira um terço de nossa senhora de fátima. benzido com água sagrada. me protegia do medo do escuro – tantas vezes adormeci amarrado à fé da senhora de fátima – a noite é sempre tão escura para os inocentes –  não havia aposento em minha casa que não ostentasse um sinal de fé. uma cruz. um azulejo com um dos mandamentos de deus. um santo contra o mau olhado. e na sala de jantar uma tela enorme com a última ceia do senhor com judas em destaque – sempre existiram judas no meu mundo – era aqui que dávamos graças ao senhor por nunca nos ter faltado o pão – o milagre da multiplicação num lar de crentes agradecidos – vivíamos em estado de graça: fé. amor. saúde. trabalho e a mesa feita de fartura e tudo isto obra de um deus maior. dono de todas as vontades da terra – pecar era proibitivo para tanta gentileza divina – se me saía da boca um palavra mais atrevida logo a minha mãe me dizia: isso é pecado. nosso senhor não gosta dessa linguagem

.

-- sábado vais-te confessar para domingo receberes o senhor sem pecado

.

ir ao confesso para libertar o espírito. a alma do pecado. do erro. da desonra. ou da ignomínia da pior imperfeição do mundo – um palavrão dava direito à passagem pelo purgatório. e acrescentava:  

.

-- uma alma deve estar sempre limpa pois nunca sabemos quando se cumpre a vontade de deus de nos chamar para o seu reino

.

domingo lá recebia eu o senhor. o padre carlos no topo da igreja. ar seríssimo. tudo na igreja é sério. e os crentes todos alinhados. limpos. [na roupa também] confessados. sem um único palavrão. caminhavam passo a passo. solenemente. os olhos no altar em jeito de misericórdia e a boca entreaberta em benignidade pronta a receber o senhor purificador

.

-- o corpo de cristo: ámen

.

e lá vinha eu de cabeça baixa. expurgado de todos os males do mundo. limpo por dentro e por fora – finalmente puro. renascido para o mundo dos justos e do perdão – ajoelhava-me e ali ficava dois ou três minutos até que o ritual de purificação tivesse o tempo suficiente para não ser olhado de soslaio pelos meus parceiros de fé – nestas coisas da religião tudo tem o seu tempo – cristalino e lavado de todas as impurezas olhava agora o padre carlos olhos nos olhos – sentia-me gigantesco e grato com a divindade no corpo. tanta fé e a alma a inchar de orgulho com o senhor cada vez mais apertado dentro de mim – sentia-me diferente. um estado de paz e alegria silenciosa que nunca saberei explicar – muito menos escrever – finalmente os santos ganhavam vida. olhos largos. sorrisos abertos. apontavam-me o dedo enquanto os lábios pronunciavam em uníssono: és um bom menino – afinal os santos não eram apenas figuras de barro – estava em harmonia com a vontade de deus

.

-- ide em paz e que o senhor vos acompanhe

.

neste dia do senhor todo o cristão veste a sua melhor farpela para entrar na casa de deus – eu não era diferente – ali estava todo ajanotado. o orgulho da minha mãe. camisa engomada. sapato polido e um casaco a cobrir todas as imperfeições do corpo enquanto o cabelo caía para o lado de deus em perfeita geometria com a orelha. metade coberta e outra metade pronta a ouvir a pergunta sacramental da matriarca ao chegar a casa: de que cor era a batina do sr. padre – a minha mãe tinha que confirmar a minha lealdade aos mandamentos do senhor – ela sabia que satanás era mestre em desviar os menos devotos do caminho da virtude – os seus cuidados nunca eram demais para um filho que se quer como exemplo – é domingo e deus disse: ao sétimo dia descansarás. para que descanse o teu boi e o teu jumento – não tardava nada estava em casa a almoçar uma belíssima carne assada enquanto o meu pai descansava fazendo a vontade ao senhor – só a minha mãe não respeitava a palavra do senhor. era ela que cozinhava – as donas de casa nessa época tinham uma bula pontifícia para poderem alimentar a família de pão e amor  ao domingo

.

2ª parte - brevemente



13/08/2015

deambulações noturnas - IX





foto - sampaio rego



na procura da felicidade nunca encontro abrigo nos meus pensamentos – estes. deixam-me sempre angustiado pela quantidade da informação produzida ininteligível – escarnece sem piedade. como se pensar fosse ato abominável – encontro sempre algo para comparar com o que já fiz e emendar o que penso fazer – nasce então mais uma dúvida – a felicidade distancia-se. é mais dada às certezas. magnificência que o meu pensamento ainda não adquiriu – tenho agora a esperança que a morte traga a felicidade eterna. o pensamento será derrotado com o parar das pulsações – e assim alguém dirá por mim: não pensa. logo não existe.



24/07/2015

RELÂMPAGO




antónio manuel couto viana
 
 
 


RELÂMPAGO

 
Não me orgulho de nada:
O mundo foi severo.
A conta, após contada:
Zero.

 
Anda à volta de mim
Quem não sabe quem sou.
Eu fui-me sempre assim.
Ou...?

 
Vejo os outros que passam
Pobres de ser alguém.
Inúteis, ameaçam
Quem?

 
Um nome vale um ano,
Ou apenas um mês.
Há-de descer o pano
Sem me chegar a vez.


                                          (2004)


António Manuel Couto Viana

 



05/07/2015

entre o corpo e o nada




foto - sampaio rego
 
 
trago-me preso ao tempo e o caos alimenta-me a desordem – estou onde o mundo termina e a saudade começa

 

 



01/07/2015

noturno alucinogénico




foto - sampaio rego
 
 

a noite está terrível – não durmo – como sempre a massa encefálica desperta com a chegada do silêncio – começo então a pensar em alta velocidade. acredito eu que não conheço a velocidade de outros pensadores noturnos – gosto de pensar que sou rápido – só me sinto capaz de pensar em silêncio-escuro. sempre me conheci assim – defeito. só pode ser. digo eu e as sombras fantasmagóricas  presas às paredes. sujeitando o discernimento a um pânico alucinogénico onde a sensatez é enfraquecida pelo aparição de um ficheiro secreto – com a noite escura nunca sei o que é real ou criação – nem mesmo sei se ainda existo ou se sou uma mera sombra perdida num espaço de tempo que já passou – talvez seja um espectro. talvez