31/12/2018

que se foda 2018. esperança para 2019



                                                                      imagem google


que se foda o 2018. que se foda o 2017 que o gerou. alimentou. pariu. e o atirou para mim no último dia de dezembro – estou extenuado deste 2018. eu e todos aqueles que comigo dividiram cada um destes trezentos e sessenta e cinco dias – finalmente 2019 à vista – e agora como será este novo ano? não sei e nem quero sequer pensar em prognósticos – prognósticos só mesmo no fim do ano – no último ano escrevia. na minha boa fé e bem-aventurança. que nada poderia ser pior do que o ano em término – enganei-me completamente – nunca imaginei que fosse possível assomar um ano tão horribilis. nunca mesmo. nem nos meus piores pesadelos poderia prever que 2018 descambasse para níveis tão miseráveis – foi o ano em que confirmei todas as minhas fragilidades e compreendi como a dor pode ser egoísta. uma chave mesquinha que abre todas as portas do inferno – descobri toda a solidão: entre os outros. a diferença. a sem rosto. a que exclui. a que pede fim para tudo. para a saudade. para o perdão e para a redenção – em 2018 percebi que perder os pais é uma fatalidade que nunca será superada [ainda não sou capaz de escrever sobre a partida da minha mãe] – percebi também que a vida vale tanto quanto pesa o nosso sucesso. quando tudo corre bem queremos viver duzentos anos. se corre menos bem podemos partir no dia seguinte sem deixar falta nenhuma – em 2018 tornei-me mais humano. mudei meu jeito de ser. de sofrer e de amar também. talvez isto seja apenas envelhecer – em 2018 só permaneci sem saber se a dor é punição ou purificação – por isso os meus votos para o meu 2019 são feitos em silêncio absoluto. tudo que vier por bem aceitarei com humildade. e o que vier por mal terá o meu renovado haka de guerra: cerrarei com mais força os dentes e bradarei como bradam os neozelandeses. farei caretas horrendas. tão horrendas que. se as visse ao espelho. talvez me assustassem a mim mesmo. baterei com os pés no chão. com as mãos nos cotovelos e esbugalharei os olhos. arquearei as pernas. encherei os pulmões de ar e tornar-me-ei gigante para o medo. para o erro. para a adversidade. para a solidão. para a saudade e usarei todas as artimanhas para enfrentar o que resta da maldição de 2018 – em 2019 por cada passo em frente a memória dos meus antepassados em estandarte. por cada centímetro conquistado a honra glorificada. e por cada gota de sangue perdida o sorriso dos meus filhos a dizer que tudo valeu a pena por eles – a meu lado a companheira de sempre. de mão dada. a sorrir. com olhos iluminados de bondade.  bonitos. caridosos. confiantes e contra tudo. a dizer: yes. we can e tudo o amor supera – hoje sei que a minha força nasce dentro dela – neste novo ano nenhum adamastor me roubará o encanto de a ver envelhecer a meu lado. sei que inventarei um novo sorriso para a fazer feliz – em 2019 quero que a minha família se reagrupe em cada clã. que encontre a sua própria identidade sem nunca esquecer que os nossos pais serão sempre a nossa estrela polar – os meus irmãos são tudo o que me resta. em cada um deles vejo um fragmento de mim e o reflexo dos nossos pais – não os quero perder. mais do que nunca. preciso deles por perto. preciso mesmo muito – prometo que 2019 será o ano dos reencontros – um beijo especial para as sobrinhas que vi crescer em casa dos meus pais: sandra e bárbara. que 2019 vos cubra com o melhor que há no mundo. terão sempre um lugar privilegiado no meu coração – e agora a lurdes. a lurdes é do tamanho do mundo – tudo o que se queira de 2019 para a lurdes será sempre pouco para tanta bondade – sabem os meus avós. depois os meus pais. de seguida eu. que me viu nascer. os meus irmãos. as minhas sobrinhas e agora os meus netos – meu deus – ensinaste-nos tanto e destes-nos tudo. chegou a tua hora. a hora do descanso. agora seremos nós a servir-te – esta é a tua casa e a tua família. estarás ao nosso lado até que deus te sorria – e para terminar. já que a missiva vai longa. espero também que 2019 ajude os meus filhos e suas companheiras a concretizar com ainda mais sucesso os seus projetos de vida. que lhes ilumine o engenho para o trabalho. a arte para o diálogo e a sabedoria para amar as coisas simples – que se continuem a amar. a respeitar e renovem todos os dias os votos de afetividade – e nunca se cansem de alegrar o coração das suas amadas. elas serão sempre o vosso porto de abrigo – nada no mundo irradia mais encanto do que uma mulher feliz – o segredo da longevidade dos casamentos está no diálogo. nunca no silêncio – uma palavra especial para o meu filho pedro. amo-o daqui até à lua – este ano espero que a vida e o destino o ajudem a reencontrar o sorriso. é hora de deixar de fumar e acabar o que começaste no primeiro dia de escola – eu e a tua mãe temos todo o tempo do mundo. esperamos por ti – em 2019 quero que os meus netos continuem a viver a sua infância com muita alegria e que nunca lhes falte o abraço dos pais para se tornarem adultos estimados e bonitos – que “deus” proteja toda a sua família – para os meus amigos quero tudo que há de melhor no mundo. merecem o melhor. a vossa companhia ajudou-me a superar este ano de merda – sem vocês teria sido insuportável – o mundo seria deserto sem os valores da amizade

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seria injusto não referir o que 2018 trouxe de bom:

•      o meu filho do meio trouxe-me uma nova nora – adoro todas as minhas noras. cada uma diferente. cada uma igual – a bela será sempre recebida na nossa família com afeto. gratidão e  de braços abertos – eu e a sua mãe estamos-lhe eternamente gratos por encontrar no nosso filho as qualidades que fazem dele alguém muito especial para nós

•      reencontrei-me com os meus primos da juventude. toni. zé e filipe – foi um jantar e tanto – histórias bonitas relembradas. abraço apertados. laços de sangue  reafirmados – percebemos que jamais nos perdoaríamos se voltássemos a cair na ratoeira do tempo e do trabalho – 2019 será o ano do reagrupar

•      revi o meu tio zeca. irmão do meu pai – foi o meu tio da juventude. um homem bom. tranquilo. sereno como um anjo na terra – amo este meu tio. é tudo o que me resta do meu pai na terra – ele e o meu pai são a verdadeira herança da nossa família 

•      recuperei uma amizade perdida. uma daquelas ausências que ninguém gosta de carregar dentro de si – acredito que finalmente é possível um novo começo. de um jeito diferente – espero que um dia este meu amigo me leia com bondade – estou pronto para me explicar

•      confirmei que as pessoas boas nunca nos abandonam – um abraço especial de um amigo especial: MM

•      já são presença recorrente ao longo dos anos… sempre ali – um abraço afetuoso para carvalho araújo e paulo duarte

 

feliz ano 2019 para todos

e…

adeus 2018. que te fodas bem fodido



07/12/2018

deambulações noturnas XXXV


 ivan kulikov



de quem partiu ressuscita sempre que a minha palavra nasce – por isso. escrevo – escrevo a própria saudade 



29/11/2018

não sei





não sei

não sei se envelheci desatinado

se me perdi ou se abandonei o corpo no dia em que fiz dezoito anos

não sei mesmo

não sei se me maltratei por nunca querer saber nada de mim e querer saber tudo do mundo

não sei juro que não sei

gostava de sabermas não sei

não sei tantas coisas que deveria saber

nem sei se um dia poderei recompensar quem não fui capaz de sossegar

nem sei se um dia poderei regressar e nascer de outro modo

voltar aos braços de minha mãe e esconder-me de novo no ventre da imortalidade

não sei... juro que não sei

a vida não nos deixa saber tanta coisa

há tanta dor escondida

há tudo o que fiz

e tudo o que deveria ter feito e não fiz

sei que um dia destes vou ficar sozinho no mundo

sei que um dia destes um rosto se vai apagar

o silêncio vai arranhar

e a saudade vai voltar

sei que estou apavorado

estou em desordem numa vida que tem a sua própria ordem

estou nos braços de minha mãe

e a minha mãe está nos meus

 


declamado por - maria joão



26/11/2018

deambulações noturnas XXXIV


cao hui


o pior defeito de um homem é a sua falta de memória e gratidão - e mesmo que a desculpa se esconda atrás de uma pseudoarte. a solidão e o vómito serão sempre a sua companhia


23/11/2018

mamã: emprestas-me a tua mulher



arquivo familiar


hoje acompanhei a maria joão na visita diária à minha mãe – chegar. sorrir. beijar. sorrir. sorrir e falar sem dizer quase nada porque. já não há palavras que valham a pena – depois como se o tempo pudesse acabar a qualquer momento. começa a prepará-la para dormir. higiene mínima. pescoço acomodado à almofada. roupa ajustada. e por fim. um abraço de filha. e um carinho que me aperta o peito e enche o coração – a mesma rotina há meses – já aconchegada. a minha mãe. olha para mim e. como se a doença não existisse. diz-me: emprestas-me a tua mulher para ficar comigo uma noite – desfez-me de riso e partiu-me o coração – a uma mãe não se pode negar nada e disse-lhe: claro que sim mamã. para a semana terá uma noite inteira com a maria joão – será uma noite mágica pois. além de minha mulher. é um anjo na terra – sou um homem de sorte – sei que. quando chegar a hora.  ela a levará consigo para o céu. tal como levou o papá 




05/11/2018

conto e contar


caspar friedrich


nem sei se respiro ou deito a alma ao lixo – estou assim. os dias a contar dentro de mim e eu sem saber que gaveta abrir – conto. conto tudo o que pode ser contado: os botões da camisa. os dedos das mãos. as lâmpadas acesas e as que se fundiram com o passar do tempo. conto pernas e sapatos gastos de tanto caminhar. conto dias em que sorri e outros em que desapareci – estou assim. pesaroso. arrependido e perdido. procuro-me nas razões. no azar. na sorte. e no destino. às vezes sozinho. outras. junto companhia como quem não quer a coisa – passo o tempo entretido a contar. a vida não é uma conta que se faz de cabeça baixa. tudo o que conto hoje não sei ainda o poderei contar amanhã. é tudo tão volátil. tão fácil de quebrar – o futuro corre sempre tão depressa – conto cada abril honrado. cada natal vivido. e março como se fosse ontem – conto os vivos. os que já não estão vivos e os que. estando vivos. se fingem de mortos – um corpo aflito só resiste ao descanso eterno pela saudade – conto pelos dedos para não me enganar nem enganar o mundo. onde as contas se fazem e desfazem ao ritmo da vida – e eu defronte das minhas gavetas sem saber contar o tempo que me resta para abrir cada uma delas – conto comigo e quem comigo me ajudou a fazer as contas do tempo. as contas não se fazem sozinhas. dentro das minhas contas há contas de outras contas que nunca poderei compensar – conto as vezes que amei sem saber que o amor é também um conto: era uma vez uma princesa linda. tão linda que é impossível contar a sua formosura – tudo o que conto está ligado por nós que não sei desatar. e os dedos gigantes enrodilham-se em contas que não têm fim – conto as noites que passei sem dormir. conto os fantasmas que inventei e outros que por serem invisíveis não sei contar. conto estrelas. conto gaivotas. conto as rugas de um rosto cansado. gasto. a chamar a morte. o destino. o horror – e as luzes do sótão acesas. a iluminar o mundo das contas. e a faca entalada na garganta grita em desespero: noves fora zero. zero. igual a nada 



27/09/2018

deambulações noturnas XXXIII

  
horace pippin
 
 
as noites estão cada vez mais escuras: escrevo não o que trago nas mãos mas o que trago do passado
 
  

24/09/2018

aqui estou

    
foto - arquivo família 
 

  

aqui estou eu. um pé no passado e outro no futuro que me escapa – quem me dera que o mundo não fosse um segredo. nem um passarinho tonto à procura dos porquês. ou esta coisa que sinto dentro de mim que não sei se é fé ou vontade de morrer – lanço-me para cima do que sou. escondo-me. a cama rebola. eu rebolo-me contra a cama. afundo-me num contrato sonolento. luto. fujo do segredo. fujo dos porquês e perco o rasto dos meus próprios pés – não quero caminhar mais. estou cansado – a dormir fico morto para o mundo das sombras – o candeeiro bamboleia entre uma janela e um guarda-roupa. onde repousam os cabides de uma vida. encostado ao canto dos lamentos um casaco preto de bombazina. forrado de procura e ambição. mangas puídas. cotovelos esfacelados e um lenço branco no bolso direito escarrado de atropelos – na parede a minha foto de há quarenta anos. olhos negros. tristes. não sei se posei triste ou se antecipei o futuro na lente da máquina. lábio quebrado. cabelo puxado à esquerda. escorrido. à espera de tesoura para me compor. pescoço meio torto a tombar para o dono do destino e um cristo pregado por mim à parede – os olhos de deus perdidos em mim. vigilante. castrador. incómodo. sempre a sussurrar mesmo em silêncio: não devias ter feito isto. aquilo. aqueloutro. pecaste. erraste. e a alma dorida de tantos porquês – entraste-me pela boca como se fosses palavra. eu disse amém e o teu corpo amarrotou-se na minha gula de viver – se realmente existes perdoa-me por nunca ter aceite o teu destino – se não perdoares. vomita-me uma última vez e parte de mim como entraste

 


16/09/2018

eu. a minha cidade. o notário e o iodo

     
pintura - eugène boudin
 

 

estou no coração da minha cidade – raramente me desloco ao centro da minha cidade. nunca fui muito de confusões nem vou muito à bola com multidões – pior. confesso que tenho medo dos carros que não são conduzidos por mim. das motas com escape livre. dos polícias com pistolas e das janelas em edifícios que não param de crescer – as cidades já não são como antigamente. são confusas. impessoais. conflituosas. irritantes. barulhentas. fazem-me nervos. baralham-me o funcionamento do corpo e o coração começa a bater sem gostar. quando dou conta o coração descompassa. as pernas entram em desespero. os calcanhares latejam. perco o discernimento. a paciência. entro numa agitação masoquista. acalento. ruborizo. fico tresloucado e só me apetece fugir para o que é meu – este cansaço associado ao nervoso miudinho recorda-me os domingos de verão na minha infância – não havia domingo de bom tempo que os meus pais não aproveitassem para dar um pulinho à praia – nessa época. os médicos aconselhavam banhos de iodo para quase todos as maleitas do corpo e do espírito – os meus pais levavam muito a sério os conselhos dos senhores doutores. era gente que tinha estudado em coimbra – no sábado à noite já não havia sossego em minha casa: preparavam-se os fatos de banho. as toalhas. os bonés. o protetor solar. o prego para o jogo do espeto. a bola nívea. as cartas para jogar uma bisca lambida e sorrisos que só apareciam nessa altura do ano. éramos felizes com tão pouco –  a noite passava em passo de caracol. mas quando o dia raiava já a minha mãe e a lurdes [minha segunda mãe] andavam em bolandas a tratar do farnel – neste farnel não faltava nada. era tudo a multiplicar por dez. o ar do mar incrustado de iodo puxava um apetite desgovernado – comia-se até chegar com o dedo – a minha mãe ficava feliz. entendia que crianças bem alimentadas são mais resistentes às maleitas dos invernos. ficam menos expostas às pontadas de uma corrente de ar – eu acreditava. naquele tempo. dizia-se que napoleão temia mais uma corrente de ar do que uma bala de canhão – passei a vida toda com medo das pontadas de ar e estive quase a morrer atropelado – são coisas do diabo – o meu pai era o responsável por reunir os apetrechos que garantiam luxo e conforto à excursão domingueira: guarda-sóis. tapa ventos. mantas. cadeiras e banquinhos e uma cuba de plástico cheia de gelo para manter as bebidas frescas durante todo o dia – a questão que se colocava era como meter tudo na mala do carro – nunca nada ficou para trás – depois dos banhos de sol. sal e iodo refugiávamo-nos num pinhal a forrar o estômago com as iguarias preparadas pelas minhas duas mães – eram dias enormes. bonitos. afetuosos. era um abraço que ainda hoje aperta – chegávamos a casa já com o sol quase engolido pela escuridão – seria tudo perfeito não fosse eu regressar completamente arrasado de cansaço. sentia o corpo todo a colapsar. preso por arames. como se estivesse ligado à corrente elétrica e pudesse implodir os fusíveis a todo o momento – ficava um cangalho. quebrado e sem forças – a minha mãe dizia que era efeito do iodo. mexia com o meu sistema nervoso. a transmissão de sinais entre as diferentes partes do corpo estava em conflito. em rotura e as dores nas pernas completavam a moldura de um miúdo à beira do colapso – a praia era demasiadamente esgotante para mim – não era nada fácil aguentar aqueles domingos mergulhados em iodo – o problema piorava com a minha mãe a multiplicar por cem os sintomas. resultado: overdose quase mortal – mas aos poucos lá me ia acalmando dizendo que os benefícios destas tomas seriam para toda a vida e que uma noite de repouso traria tudo à normalidade – assim era. no dia seguinte acordava novo em folha – em troca destas dores benfeitoras o frio do inverno não passaria pela lã das camisolas interiores e as gripes e constipações curar-se-iam com sumos de laranja. vitamina C natural – já não uso camisola interior de lã. nem ceroulas. nem tenho aquela comichão da lã virgem que me comia o cérebro o dia todo – só eu e deus é que sabemos o que se sofria com aquele agasalho. mil vezes pior do que o iodo  – toda a comichão acabou quando chegou a camisola do século XXI: a thermotebe – foi uma bênção de deus – nunca percebi porque não foi contemplado com um nobel o sr. thermotebe. uma injustiça – o tempo passou rápido demais. tudo está diferente. trocámos o iodo pelo monóxido de carbono. comecei a fumar e só parei trinta anos mais tarde. engordei. fiquei feiíssimo. passei a usar óculos para ler. desisti de correr. de saltar. de ter pressa pelo dia seguinte. os prédios cresceram. desumanizaram-se. a mercearia do zeca lacota e a casa de pasto luso-brasileira fecharam. também e à praça do comércio já não chegam pela madrugada os camiões do algarve carregados com as primeiras uvas da época – quem a viu e quem vê. não conheço ninguém. ando aqui à meia hora e nenhum dos meus colegas de liceu passou por mim. estou só numa cidade que era minha – as portas do comércio despidas de amizade. sem comerciantes enfarpelados. a sorrir. a dar bom dia. a enviar cumprimentos para os paizinhos. já ninguém me chama pelo nome. as crianças já não partem vidros a jogar à bola. nem jogam à macaca. nem há peditórios para as festas de santo antónio. olho para todo o lado e não encontro nada. nem o mário polícia sinaleiro. está tudo de pernas para o ar. só os sinos das igrejas batem as mesmas horas – sou um desconhecido na minha cidade – enquanto caminho vou recusando todas as emoções saudosistas – um homem tem que ter os olhos postos no futuro. sei ao que vim – vim ao centro da minha cidade por obrigação. o notário exige a minha presença. com mais rigor. exige que assine presencial – aqui estou para fazer valer com verdade o meu nome num papel que deveria ser importante. não estou certo que assim seja – e o doutor notário confirma que sou mesmo quem diz o cartão de cidadão – são casas estranhíssimas. povoadas de doutores. de vendedores e compradores. todos com sorrisos cuidados. os que vendem convencidos que venderam bem. os que compram inchados de orgulho. atestando o seu poderio económico e os doutores juram que sem o conhecimento da lei o mundo seria uma selva – com ar sério só mesmo as funcionárias. estão-se nas tintas para os negócios. passam-lhes pelas mãos milhões e ganham tostões – já passou o tempo em que era simpaticamente coagido pelo advogado a entregar voluntariamente uma gorjeta ao funcionário como reconhecimento de bons serviços prestados – este. agradecido pela deferência. despedia-se com um aperto de mão que se não fosse o iodo lixava-me as falanges – subi ao notário para reconhecer uma procuração que permite alienar. no brasil. uma coisa que nunca rendeu um centavo – que homem de negócios compreende isto? o melhor é enterrar este ex-negócio no esquecimento para não me envergonhar – esta coisa dos contratos escritos exige corpos robustos e bem iodados – o tráfico comercial produz cada coisa mais estranha – só gente estranha produz coisas estranhas – mas acreditemos no futuro – saí para a rua feliz. o brasil em breve terá notícias minhas. a minha assinatura voará sobre o atlântico e me fará representar com tudo que existe em abundância em mim: imaginação e esperança – creio que este stock de imaginação e esperança se deve às doses maciças de iodo que apanhei em catraio – a minha mãe tinha razão. o iodo é para toda a vida – estou de regresso a casa. o tempo passou. os carros também e os semáforos ordenam ritmadamente o nosso mundo. agora passa a combustão fóssil para logo de seguida passar a combustão O2 – tudo a consumir energia que não é renovável e os filhos do criador cada vez mais acelerados e irritados. afrontam as buzinadelas com movimentos de toureio a pé. e a classe para sobreviver é a forma como gingamos a coluna vertebral. o joelho metido para dentro e o corpo a equilibrar a desordem psíquica enquanto o físico acelera rumo ao inevitável: o fim dos sonhos – vivo nesta confusão que se tornou sobrevivência. ainda ando com verde. ainda paro com o vermelho – graças ao iodo ainda conservo o tino – a minha vida é um para-arranca. tanto esticão e solavanco. um dia fico sem caixa de velocidades – vai-me valendo o iodo para aguentar esta vida de trampa 

 

14/09/2018

deambulações noturnas XXXII

    
eliane brum
   
 

senti-me inspirado e pensei: tenho de escrever qualquer coisa – como correu bem resolvi não parar: qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa. qualquer coisa… e quando dei por mim já era tudo e já era nada – qualquer coisa

 


12/09/2018

08/09/2018

acaso


vânia lopez
 
 

os telhados dormem
as caixas de correio esperam
só os guarda roupas
não temem os cabides vazios
 
 
 
[não me canso de te ler]

 

25/06/2018

a imensidão de uma folha de papel – a escrita e o leitor


michael burris johnson


 nota de autor:

“desapareci” por uns tempos do ciberespaço para escrever este ensaio pessoal de dimensão contida sobre o [meu] ato de comunicação. a escrita que produzo como emissor. como eu-artista ou [também] como eu-lírico. confesso que. com menos frequência – do outro lado. em anonimato quase sempre absoluto. o recetor-leitor. o recetor-amigo mais ou menos próximo. mais ou menos silencioso. crítico. ponderado. com capacidade de reflexão e principalmente. com sensibilidade para me ler as pausas. a pontuação e as entrelinhas – um desafio para quem gosta de ler e um risco para quem gosta de escrever – sei que em cada palavra escrita serei menos meu e mais de quem me lê – quase toda a minha escrita é autobiográfica – como diz alberto manguel: “o autor morre quando põe o ponto final. o leitor nasce a seguir” – nem sempre é fácil escrever o que trazemos no miolo da alma. a dificuldade torna-se desespero e o apelo interior para fugir ensurdece – escrever dá trabalho para caraças – mas há coisas dentro de mim que nunca se tornarão palavra. coisas que só o coração sente e que por mais esforço e entrega nunca chegarão ao leitor – não sou mestre o suficiente – em boa contramão. há a bondade do leitor-amigo e também do leitor-anónimo que. graciosamente. se entrega a decifrar uma mensagem que. na maior parte das vezes. não passa de desabafo – para estes leitores-companheiros o meu mais profundo agradecimento – e termino com um pensamento do saramago que de certa maneira resume em muito a minha motivação para escrever - “no fundo. todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito. porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade”


introdução:

“não vale a pena ter vaidades no processo. porque o que existe de facto é o leitor” – josé ilídio torres

não vale a pena ter vaidades no processo porque o que existe de facto é o leitor. escrevo a partir desta verdade como quem aceita uma condição sem defesa. tudo o resto vem depois. o estilo. a biografia. a ambição – quando escrevo. escrevo para alguém que não vejo. alguém que não controlo. alguém que termina o texto por mim – o leitor não é o fim da viagem. é o ponto de partida – foi o tempo que me ensinou a desconfiar da vaidade. envelhecer não dói apenas no corpo. dói na memória. na comparação entre o que fomos e o que já não somos – a escrita ficou. é o único lugar onde a idade não manda. aqui começa outra coisa. não nasci com facilidade para as palavras. tudo o que escrevo é trabalho. insistência. erro. releitura – escrever nunca foi talento natural. foi teimosia. talvez por isso nunca tenha escrito sem pensar no leitor – é por ele que volto atrás. corto. recomeço. tremo antes de publicar – aprendi cedo que um texto não pertence a quem o escreve. pertence a quem o lê. e que basta uma palavra escrita para justificar uma folha inteira – não escrevo para me imortalizar. escrevo para falar com alguém – se houver um leitor. basta

 

1.     o leitor como origem

e aqui estou eu novamente – escrevo. escrevo o que sei e o que posso. escrevo também o que me dá na real gana – confesso que estou aterrorizado com as palavras. ou com a sua ausência. desapareceram de mim. abandonaram-me. nem uma ficou para me iludir – estou completamente só. até de mim também. não é fácil escolher escrever quando tudo em mim pede fuga. leio. comparo. tenho tantos livros no meu pé-de-meia. tanta gente que dedicou a vida à escrita. ao estudo. à procura do mais certo para dizer o incerto. e eu aqui. como se o meu computador fosse uma arma de destruição maciça. a tentar vender gato por lebre – releio um texto e surge sempre a mesma frase. podias fazer melhor. releio outro e a frase regressa. não grita. insiste. a questão é só uma. poderia ou não fazer melhor – caio em frustração e desapareço do word. escondo-me no silêncio e interrogo-me em mil e uma coisas que não sei responder. se tinha dúvidas antes de me esconder agora tenho o dobro. escondido não sou de ninguém a não ser de mim. sozinho falo apenas para mim. e cada palavra pesa como uma multidão – dito de forma direta. estou ausente de tudo. do mundo. dos amigos. da memória. das mãos. da realidade. estou ausente sobretudo do critério para distinguir a palavra viva. da palavra tosca que chega ao papel aos repelões. raivosa. inútil. um desabafo hostil – bem sei que há coisas que não controlo. quando partimos do corpo deixamos tudo para trás. até o critério. e um homem sem critério não escreve. gatafunha – para se escrever é preciso um propósito sério. uma mensagem coerente. ponderada. mas também intensa. questionável. controversa. com pensamento maduro. mas sem perder a irreverência – depois. é preciso escrever como quem conversa entre amigos. com calor. com paixão. com envolvimento. capaz de puxar o leitor para dentro de si. sentá-lo no seu interior com vista para tudo o que é seu. convidá-lo a sair do seu mundo e dizer-lhe que. apesar do seu silêncio. é ele quem termina todas as histórias – nenhum escritor sobrevive sem pelo menos um leitor. o leitor é o centro do universo. todas as histórias gravitam à sua volta. não vale a pena ter vaidades no processo porque o que existe de facto é o leitor. cabe-lhe depurar a leitura. separar a palavra que abraça da palavra que diz basta. daqui para a frente somos diferentes. acabou a tua história. só a leitura une o autor ao leitor para sempre – um escritor precisa sentir-se possuído por um leitor exigente. provocador. irreverente. só assim evolui – um escritor não é um ser especial. é um carregador de palavras. um carrejão que transporta no corpo o compromisso imperfeito do homem com o progresso. a imperfeição é o primeiro passo da evolução. e o escritor-artista sabe isso melhor do que ninguém. ele sabe que escrever é uma arte de sacrifício. e de superação. por isso não se cansa de questionar o que escreve – quando não escreve é infeliz. quando escreve também. a felicidade e a escrita não se misturam – o homem que escreve é um sofredor na procura constante da perfeição. aceitar o erro é o seu grande desafio. cada palavra escrita leva um pedaço da sua vida. assimilar. amassar. dar forma. levar para o papel a sua realidade – um escritor é um interposto de vários ADN. quando cuidadosamente compilados com arte. sacrifício e devoção. transformam-se numa mensagem com força suficiente para mover a matéria do mundo – por mais empírica. por mais precisa e verdadeira. só se manterá inquestionável enquanto permanecer silenciada e oculta no interior do seu criador. depois da criação artística. depois de entregue à leitura. será o que cada leitor quiser que seja. essa é a missão – a minha verdade não existe fora do meu corpo. cada leitor constrói a sua. e eu sou apenas isto neste momento. um corpo em avaria total. entrei em combustão. o odor a palavra carbonizada é insuportável – a escrita ficou – estou amarrado à palavra por um fio. no limite da esperança. escrever exige vontade. tempo. solidão. silêncio. e eu estou vazio. sem vontade. sem silêncio – resta a magia. procuro-a. quando não há magia não se escreve. apenas se sobrevive no passado – com a escrita reescrevo-me. aguento-me de pé. invento um ombro amigo que me diz tem calma. isto passa. um dia estás com dez páginas escritas. sinto-me às portas do inferno – só a escrita me protege da loucura. mesmo quando não escrevo continuo exposto ao escrutínio dos leitores – o passado de quem escreve nunca morre. enquanto houver um leitor. as palavras permanecem – escrevo para sobreviver. sempre que escrevo crio uma vida. tantas quantas folhas de papel. não é fácil escolher escrever quando tudo em mim pede fuga – é quando me escondo no silêncio. interrogo-me. vale a pena continuar. será perseverança ou teimosia? leio. comparo. sinto-me pequeno. sinto-me medíocre. e ainda assim escrevo. porque escrever é existir. é não me repetir – quando não escrevo. repito-me

 

2.     o corpo em desordem

quando não escrevo. repito-me. torno-me insuportável. maltrato-me. fujo dos espelhos como um vampiro. escondo-me atrás de uma folha de papel e juro que a culpa não é minha. é do divino. de toda a gente. da casa. da janela meio fechada que deveria estar entreaberta. do tempo. da porta escancarada. das alterações climáticas e do el-niño que me sacode as folhas e me atira ao desespero – quando não escrevo. os olhos desalinham-se. as mãos engalfinham-se e o corpo grita socorro para dentro porque por fora o mundo é surdo – ninguém quer saber de quem escreve – estou triste. em desordem emocional. com a língua descolorida. e os lábios secos escondem uma boca a saber a papel. o nariz ranhoso. os canais lacrimais em conflito. chora. não chora. e o corpo. numa pilha de nervos. desafia tudo o que se atravessa – a escrivaninha desfeita segura no tampo o zumbido-assobio de um computador podre. geme de manhã à noite. está no fim. dizem que se formatar fica para mais um tempinho – para quê se não tenho palavras. está tudo um caco. tudo preso por arames. eu também. e não me posso formatar. a idade já não permite. há um limite no tempo para recomeçar tudo de novo. passei esse limite há muito – agora tudo me amedronta. não sei o que é feito das palavras. não sei se foram de vez ou se voltam com mais exigências – estou como o burro no meio da ponte. sem saber se espero ou desapareça para dentro de um livro – estremeço. a cabeça imagina a morte. os pulmões rasgam-se. os braços deitam-se ao passado e remexem no que está escrito – reler alivia a pressão – e o desassossego instala-se em tudo o que sou – caio. não caio. desisto. não desisto. estou aflito. perdido. sozinho. até de mim – o desespero trabalha com engenho. atiça o desalento. devora coragem. corrompe a confiança – enlouqueço e tudo o que é louco está fora da racionalidade. do equilíbrio. da tolerância. da esperança – a escrita é a minha alegria – bem sei que posso sempre falar. mas a fala é volátil. passageira. imprecisa. engasgo-me. a cabeça acelera. as palavras enrodilham-se no céu da boca. fico vermelho. desatinado. morro de vergonha – será tudo obra do divino para me obrigar a escrever? confesso que não sei. e não sei o que fazer para inverter este apagão – apesar da agitação esperar é a única solução – quem espera sempre encontra o que procura – estou nos limites da tolerância – não posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir de mais nada – procuro-me. teimo. mexo-me. os pensamentos também. é agora ou nunca. pelo menos um tem de chegar ao papel. um. não é preciso mais. basta um para me despertar desta nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras desçam pela coluna vertebral e ejacule. basta um e fecundo o papel de tudo o que sou – basta um – o meu estado de alma está baralhado. confuso. sem rumo. nada em mim é firmeza. coragem. liderança. quem diz se sento ou não sento. se deito ou não deito. se parto a jarra ou não parto. se desisto ou não desisto… quem? sinto o cérebro dividido por um muro de betão. de um lado o que sou. do outro o que quero ser – e os neurónios esfrangalhados por um texto diabólico da clarice. um texto destes pode matar qualquer leitor – um leitor morto perde a lucidez. desfaz-se – e o muro a dividir o que estava unido. uma criança amuada de um lado. malabarista do outro. os livros em branco no ar. e a mão de atena sem chegar – os dias repetem-se nas folhas. os livros permanecem no vazio – não posso esquecer que nasci em abril. nasci em revolução. de cravo ao peito. em palavras de ordem – a escrita a quem a trabalha – serei abril até ao último suspiro – olho para o que sobra de mim e vomito. estou um esterco. mas estou aliviado. pronto para recomeçar o que verdadeiramente nunca acabei – quero o mesmo cheiro a papel. às letras. às concordâncias. o mesmo barulho do mundo a correr – estou desabitado de tudo – não sei o que dizer. juro que não sei – digo que os rios correm para o infinito do mar. quantos poemas dizem o mesmo. quantos falam de porra nenhuma – e eu com a mania das grandezas nunca estou bem com nada do que escrevo – não sou humilde – um dia vou pagar por esta altivez – não é justo viver assim. não é fácil. eu só quero escrever uma história – quando escrevo sou criança. uma criança de júlio dinis – só quero ser criança e escrever. mais nada – nunca quis ser grande coisa – o mundo fabrica coisas que não são para mim – mas não importa. tenho o essencial. uma mulher que amo. filhos que me adoram. dois cães que me idolatram – tenho um cão que é quase labrador. quase porque aqui em casa não há raças puras. eu também sou quase escritor. quase parvo. quase um cavalheiro. sou quase tudo o que gostaria de ser. mas não sou – o quase que se lixe – o max deita-se ao meu pé enquanto escrevo. enrola-se sabendo que a noite será longa. nada interfere entre o teclar e a melodia de bach – sempre que teclo com mais força abre um olho. mede o meu estado de alma. três segundos. está tudo bem. volta a fechar – creio que a sua missão secreta é não deixar fugir nenhuma personagem – leio em voz alta. ele escuta. não julga – fico com a ideia de que para ele tudo o que faço ultrapassa a excelência – escrever é isto mesmo. enroscarmo-nos em nós. imaginar um final feliz para um texto quase todo infeliz – não quero ser nada especial. quero escrever – mas faltam-me palavras para explicar o vazio que as palavras deixam – quando não escrevo. repito-me

 

3.     a quase-morte da palavra

quando não escrevo. repito-me. perco-me em mim. torno-me insuportável. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso que é a morte. mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do essencial. e a escuridão toma posse do desejo – primeiro ataca as mãos. depois o corpo começa a resfriar. a temperatura cai. e os órgãos desorganizam-se – fico impaciente. não consigo respirar. resfolego. a pele enrubesce. as unhas param de crescer. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha o coração. e interrogo-me se é possível morrer por falta de palavras – fico exausto. cansado. com a tensão completamente descontrolada – não há de ser nada – o que me inquieta é sentir o odor da morte. a sua vontade de ceifeira – sei reconhecer quando a morte sai à rua. também sei quando passa perto de mim – só não sei se vem por mim. ou pelas poucas palavras que ainda tenho – quando estou neste estado de quase-morto tudo o que identifico é a tristeza – ninguém entende esta mágoa. nem eu a sei escrever. ou desenhar. ou transformá-la em poema – não sei de onde veio. nem como se instalou no corpo. só sei que magoa –tocam os sinos da igreja da minha paróquia. o badalo anuncia defunto. em terras pequenas os sinos são mensageiros das más notícias – dizem que quando o sino deixa um ronco longo. um rasto que não quer parar. alguém morreu ou está para morrer – não sei se roncou. acho que sim. confesso que estou com medo. não da morte. mas de não concluir três ou quatro manuscritos que julgo importantes para quem é próximo – vou ficar atento. um ouvido no adro. outro de vigia ao sineiro – mas ainda estou vivo. sei-o porque respiro. e ainda não há ceifeira por perto – nunca pisaria o meu espólio literário para desaparecer do mundo. nunca pisaria o conde de monte cristo. o dom quixote. o tolstói. o pessoa. o gabriel garcía márquez. o camões. o meu querido júlio dinis – por eles seria imortal – resistirei até que a palavra me chegue às mãos – toda a palavra que me chega às mãos respira. e faz-me respirar – sem palavras não sou nada – mas também não quero ser nada para além de falar com o que escrevo – nasci para escrever. quero escrever. sei o que quero ser. mas também sei o que não posso ser – hoje só quero que nada me aborreça – no futuro. noutro dia. talvez queira ser um saca-rolhas para arrancar de mim este desassossego. ou um garfo para levar alimento à alma. ou uma toalha para enxugar a amargura. ou uma caixa de fósforos para incinerar maus momentos – por agora só quero continuar – não posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir de mais nada – procuro-me. teimo. mexo-me. os pensamentos também – é agora ou nunca. basta um. um tem de chegar ao papel. basta um para me despertar desta nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras me subam pela coluna vertebral. basta um e fecundo o papel de tudo o que sou – basta um – o resto é ruído – o passado pesa. o futuro ainda não chegou – só o presente respira – cada palavra que chega às mãos devolve-me o corpo – quando respiro o corpo acredita na vida eterna – escrevo para falar com alguém – não peço mais nada – sem palavras não sou nada – quando não escrevo. repito-me

 

4.     a tentação da fuga

quando não escrevo. repito-me. perco-me em mim. torno-me insuportável. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso que é a morte. mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do essencial e a escuridão toma posse do desejo. primeiro ataca as mãos. depois o corpo começa a arrefecer. a temperatura cai. os órgãos desorganizam-se. dão sinais de colapso – fico impaciente. não consigo respirar. resfolego. a pele enrubesce. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha-me o coração e interrogo-me se é possível morrer por falta de palavras – não tenho medo de morrer. tenho medo de ficar parado – tenho medo da imobilidade – escrever é o que me mantém preso à vida. mas quando a escrita falha. tudo falha – e o corpo começa a pedir outra coisa. velocidade. fuga. deslocação – preciso de sair de mim – é quando me imagino num automóvel de velocidade. descapotável. a galgar quilómetros de indiferença. sem medo do tempo. a deixar para trás o que fui – o futuro é o pé no acelerador. o vento a rasgar o rosto. o corpo centrifugado das impurezas a pedir mais estrada – não penso. não escrevo. avanço – e a boca fala sem cuidado. sem ética. sem contenção. a mandar embora tudo o que pesa – quero distância. quero ruído. quero que o passado desapareça no retrovisor – mas o retrovisor insiste – olho. vejo-me a chegar do futuro – tudo o que vejo já não existe à frente de mim. existe apenas atrás – basta uma milésima de segundo para que tudo se torne passado irreversível – tiro os olhos da estrada e o futuro já passou – o automóvel corre. mas eu continuo dentro de mim – paro. arranco. paro. acelero – vou com velocidade. sem pressa – ligo o rádio. desligo – não quero vozes. não quero notícias. não quero histórias que não são minhas – a velocidade promete libertação. mas não entrega sentido – não se pode fugir de si sem levar o corpo atrás – percebo então que a fuga também cansa – que a estrada não escreve – que nenhum motor substitui uma palavra – posso correr o mundo inteiro. mas continuo sem escrever – e sem escrever volto ao mesmo lugar – parado. repetido – quando não escrevo. repito-me

 

5.     onde a linguagem perde um corpo

quando não escrevo. repito-me. mas há um dia em que a repetição ganha peso real. um peso que não se imagina – é o dia em que a morte deixa de ser metáfora – o meu pai morreu e com ele morreu uma parte da linguagem – não a fala. a linguagem – porque há mortes que não retiram palavras. retiram o lugar onde elas assentavam – lembro-me do dia como se o tempo tivesse decidido parar só para nos observar – março. luz limpa. uma brisa mansa. tudo indecentemente normal – o mundo não se perturbou com a morte do meu pai – continuou a girar como se nada tivesse acontecido – essa é talvez a primeira violência da morte – o silêncio misturava a família. os amigos. os curiosos – todos juntos. todos separados – o padre falava em fé. em vida eterna. em casa de deus – eu pensava em casas vazias – o meu pai sempre gostou de ter pessoas à sua volta – naquele dia tinha todas. mas já não estava – quando caiu a primeira pá de terra algo se fechou definitivamente – não foi o caixão – foi a linguagem – percebi nesse instante que há coisas que nunca mais se dizem da mesma forma – a palavra pai perdeu corpo – ficou ideia – e uma ideia não abraça – o funeral é o reconhecimento da morte – é o cais de embarque para uma viagem sem retorno – até ali ainda se nega – depois. aceita-se – a morte exige assinatura – perdi-me nesse dia – passaram anos – ainda estou ali a ver a terra a cair – há memórias que não avançam no tempo – ficam suspensas. não envelhecem. apodrecem devagar – desde então escrevo com essa falta. não para a preencher. isso seria impossível. mas para a contornar – escrever tornou-se uma forma de conversar com o que já não responde – um monólogo consentido pela ausência – não escrevo para ressuscitar o meu pai. isso seria blasfémia. escrevo porque ele me ensinou a estar sentado à mesa. a ouvir. a esperar. a dar tempo às coisas – e escrever é isso. é dar tempo ao que dói – há dias em que escrevo e sinto que ele está ali. não como fantasma. como silêncio bom. aquele silêncio que não julga. que não apressa. que não exige explicação – quando escrevo respiro. quando respiro acredito. e quando acredito aceito que a morte não é o fim da palavra – é o lugar onde ela começa a pesar – não tenho medo da minha morte. tenho medo de morrer antes de dizer o essencial – talvez por isso escreva. talvez por isso continue – o meu pai morreu. eu fiquei. e fiquei com palavras a mais e tempo a menos – escrever é a forma que encontrei de não desaparecer com ele – quando não escrevo. repito-me

 

6.     existir no meio do ruído

quando escrevo. não é vaidade. nem arte no sentido elevado da palavra – escrever é sobrevivência – uma espécie de hemodiálise – limpo o sangue. purifico-me. e volto ao mundo mais justo. mais tolerante. mais inteiro – gosto de me sentir bem. de andar bonito no mundo – gosto de sorrir e de sentir sorrisos em contramão – o mundo é feito de sorrisos. uns sinceros. outros contrafeitos. alguns bordados à mão – mas sempre com afeição – gosto de quem sorri – da mulher que amamenta. da que trabalha. da que ensina. da que lava o chão – gosto do homem que prefere sorrir a endurecer – gosto dos que fazem. dos que cuidam. dos que resistem – nem que fosse apenas pela minha mãe. nem que fosse apenas pelo meu pai – gosto do sorriso da natureza – da chuva. dos rios. das árvores. das aves – gosto do sorriso dos animais – dos que voam. dos que rastejam. dos que sobrevivem – gosto do sorriso do mundo quando ainda acredita em si – mas confesso que ultimamente tenho perdido a fé – não no mundo. mas na forma como o mundo escuta – ainda assim não perdi a fé na escrita – escrevo para não me repetir – escrevo para renovar a confiança – escrevo para encontrar outra forma de entregar o meu sorriso – quando escrevo trago o leitor para dentro de mim – acomodo-o – dou-lhe permanência – entrego-lhe tudo o que sou – sem defesas – o texto é frágil – caminha-se nele com cuidado – cada palavra pode partir – o leitor sabe isso – caminha atento – compreende – avalia – e nessa atenção cria-se um lugar onde a morte recua – enquanto lemos ninguém morre – existe apenas o perigo de morrer – os que escrevem vivem em clausura – não por desprezo do mundo – mas por excesso de amor – tudo nos importa – mesmo o que nos rejeita – mesmo o que nos ignora –vivemos num tempo de ruído – mensagens curtas. frases leves. tudo para durar um dia – ler tornou-se difícil – escrever tornou-se quase inútil – o leitor é uma espécie em extinção – e no entanto escrevemos – não para agradar – mas para existir – escrevemos porque sem palavras desaparecemos – escrevemos para que alguém. algures. nos encontre – não queremos mansões. nem poder. nem heranças – queremos apenas isto – que a palavra seja justa – que a língua seja honrada – que a escrita seja digna do que carregou antes de nós – escrever é confiar no invisível – acreditar que alguém surgirá de trás de um parágrafo – que lerá – que não nos deixará morrer sozinhos – escrevemos com medo – cada frase é um risco – cada leitura uma bala – nunca saberemos se morremos de alegria ou de desgosto – só o leitor saberá – escrevemos amor. mas dói o erro – escrevemos fé. mas pesa a rotina – escrevemos vida. mas o que dói é morrer sem chegar –escrevo para enganar a dor – escrevo para não me tornar vulgar – escrevo porque ainda acredito que uma palavra pode fazer falta – nem que seja por um instante – existir é isso – fazer falta – nem que seja uma vez – quando não escrevo. repito-me

 

7.     existir no meio do ruído

quando não escrevo repito-me – escrevo então. imito os escritores. e não sou sequer remotamente semelhante aos que sabem escrever – mas escrevo. bracejo ideias para um teclado negro enquanto os olhos expulsam uma luzinha hesitante. quase intermitente. como faróis rasgados pela tempestade – escrevo protegido por uma persiana que do dia faz noite. luz acesa. quatro lâmpadas iluminam um silêncio absoluto. um quadrado triste e aflitivo – atrás da escrivaninha uma cadeira segura duas mãos penduradas. inertes. enquanto o corpo oscila à procura das palavras – não é fácil escrever – escrevo. procuro-me para fazer uma história – esfrego a manhã nos olhos. estou cansado. os verbos parados numa indecisão rebelde. continuo ou não continuo – movo-me na cadeira. os verbos também. querem fazer-se sentir – estremeço. o pensamento estremece comigo – chegou a hora da luz. o quadrado entra em declínio. desaba – a manhã explode pelas frinchas e uma ideia implode – o que era para ser história é agora entulho – o delete pede um impulso suicida – que se dane. nenhuma ideia é boa até ser história – escrever enlaça-me ao tempo. mesmo ao que já passou – tudo passa. a vida passa. os amigos passam. a juventude passa – os livros passam de mão em mão e as palavras tornam-se estranhas – escrevo para me afastar de mim. para sair de mim – acredito que com a minha escrita acontece o mesmo que nos retrovisores: há um ponto neutro que nos esconde a realidade. e quando menos se acredita. ali está o leitor em atenção. a buzinar. a surgir de trás de um parágrafo – encontro quem me lê como chega o vento norte. frio. inconstante. descuidado – e eu perdido de mim. a morrer devagar por um substantivo coletivo que nunca chega a ser comunidade – resisto – nem sempre digo o que esperam de mim – escrevo. escrevo e não sou de ferro – escrevo e choro – e a baba a escorrer pelo canto da boca. e mais outra. e mais baba. e outra. e as manhãs começam numa carnificina – escrevo esta melancolia que me ameaça dia após dia – como se a minha vida dependesse do que escrevo – em tempos não dependeu. hoje escrever é o que me resta para continuar a sair de mim – não há forma de me esconder da claridade. também não quero. acredito em recomeços – acredito que cada raio de sol traga outra hipótese. talvez uma palavra. talvez um silêncio. talvez apenas a coragem de continuar – escrever é a negação do céu. é insatisfação dos órgãos – hoje dói um pulmão. amanhã o coração – falta o ar. falta o humor. falta o sentido. e mesmo assim escolho a palavra para louvar a vida quando já estou meio morto – escrever separa os amigos – do lado de dentro ficam os que sabem ler. os que podem magoar – do lado de fora os que vivem sem palavras – os que não leem não sabem magoar. vivem do lado de fora do corpo. ausentes das palavras – não os condeno. mas não posso viver ali – não sei porra de nada de mim. nada em mim é suficientemente importante para decorar – quando me perguntam a matrícula de identificação respondo: tenho que ver no bilhete. não sei de cor – escrevo porque não sei viver de outra forma. porque escrever é a única linguagem inteligível que me permite falar – é com as palavras que saio de mim. e quando me dou conta. regressei – não sou escritor. imito os escritores – arremesso palavras contra o papel com uma raiva boa – uma atrás de outra – e continuo – escrevo porque tudo que escrevo é um bilhetinho que podes encostar ao coração. ou trazer no lenço da mão. ou no bolso pequenino das calças. porque só quem escreve poderá um dia ressuscitar – onde houver uma folha em branco eu escrevo. o que for preciso para existir. e se ali tiver de morrer. que seja com todas as palavras possíveis – quando não escrevo. repito-me

 

8.     onde o escritor se faz papel

não vale a pena ter vaidades no processo. porque o que existe de facto é o leitor” – é verdade. o josé torres nunca teve tanta razão – é por esta razão. gigantesca. que escrevi este conjunto de páginas e decidi reconhecer [para sempre] que todo o leitor necessita de papel nas mãos – assim farei. assim me farei papel – prometo – como será ainda não sei. mas tenho umas luzes em que acredito – mas nunca jamais poderei [vocês também] esquecer este meu amadorismo – tudo farei para não vos embustear. nem desapontar


13/06/2018

clarice lispector - a paixão segundo G. H.



clarice lispector



" Por enquanto o primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda é uma bondade. É uma doçura - A Paixão Segundo G. H.


05/06/2018

alegoria


pintura - graça morais



as palavras aziumadas 
................vestem samarra de cordeiro 
......................................propagam-se como vento
..............................................................esmordaçam como lobos

29/05/2018

deambulações noturnas XXX


pintura - andrea mantegna


quem nunca conheceu a dor jamais entenderá a morte – 

conciliação precisasse


24/05/2018

facebook - até mete nojo de tão lindo que é



imagem - google



1º parte

apetece-me desabafar – hoje vou falar sobre a maldita internet – bem sei que não vai ser fácil. não se fala da internet sem perder uns quantos amigos cibernautas e mesmo que não os perca na sua totalidade. sei que alguns vão aziumar e murmurar entre dentes: se fosse escrever para o caralho – mas tem que ser. apetece-me. e quando me apetece alguma coisa sou como as grávidas: ou faço. ou corro o risco de perder para sempre esta raiva de escrever – não vai ser fácil… mas em boa verdade. nos dias que correm. não há nada fácil. anda tudo no ar. e tudo o que anda no ar ou é avião ou like do facebook

[dito isto]

na minha juventude. sabia perfeitamente distinguir quando um amigo estava num daqueles dias em que o pai lhe tinha dado um aquecimento às orelhas. o rosto trazia instalado um sistema de alerta facial que nos colocava de sobreaviso:

-- estou com pouca paciência. toca a abanar as orelhas para longe

mas se pelo contrário conseguisse um suplemento na féria semanal o semblante abria-se num sorriso rasgado de orelha a orelha e a partilha do aprazimento contagiava a amizade do grupo mais rápido do que a gripe espanhola:

-- bora pessoal. hoje fuma tudo à borla

sabíamos tudo uns dos outros. éramos amigos desde que o sol nascia até ao seu sumiço – o nosso rosto era uma impressão digital: única. intransferível e decifrável apenas pelos códigos da amizade – eram tempos do arco da velha

[trinta anos mais tarde]

desde que apareceu a internet os amigos passaram a comunicar pelas redes sociais numa linguagem de símbolos e sons universais – passámos a estar diariamente presentes na vida daqueles que estimamos e também na dos que pouco ou nada nos dizem – basta ter um computador e um registo no facebook e os amigos começam a nascer de todos os cantos. mais de mil no primeiro dia e ao fim do mês dez mil e ainda não completamos seis meses e já temos amigos até do japão e por cada amigo cem likes. enganchados nos likes milhares de dedos apontados para um céu que nem sabíamos existir – não é fácil envelhecer com as novas tecnologias. todos os dias uma nova ferramenta e eu sem escola profissional para me ensinar como se faz um ctrl-alt-delete – o mundo de pernas para o ar e eu também – não tenho tempo para tanto amigo. nem que vivesse mil anos chegaria. e o botão enter do meu teclado gasto. sem tinta. prestes a furar de tanto bater que sim – parece que estou triste. mas não estou. estou ansioso. as teclas chamam pelos dedos. os likes sorriem. e os corações cada vez mais vermelhos. os lábios carnudos. os ursinhos. os gatinhos. um autêntico jardim zoológico nas teclas. onde cada animal parece quer dizer todo o tipo de merdas que nunca aprendi – estou velho. só sei mesmo deixar um polegar virado para o céu – espero que todo mundo saiba que estou confiante e bem de saúde

 

[hoje é um dia especial]

sinto-me global. sinto que me entreguei por inteiro ao mundo das redes sociais – só não quero é que me convidem para jogar á bola. não é por nada. mas já não sou dado a correrias e também não quero que ninguém saiba das minhas mazelas nos joelhos – estou todo fodido – ansioso que o facebook me comunique o número de likes recebidos no último mês – tenho fé que vou bater um novo máximo. estou no encalço do  CR7 – eu e o melhor do mundo a viver debaixo do mesmo teto global – os humanos nunca param de surpreender. como muita gente não sabia exprimir os seus sentimentos. logo surgiram ferramentas virtuais para traduzir emoções num espaço sem fronteiras – tudo à distância de um clique – carrega num smile amarelinho com a boca para cima já todo o mundo sabe que se trata de uma dose controlada de felicidade. dez smiles seguidos é uma overdose de júbilo. podendo. se não for vigiada. trazer sérios problemas de saúde – mas para além destas preocupações e benefícios há uma outra vertente que valorizo imenso. um smile não envergonha a língua portuguesa. não exige escrita. basta o tal clique inofensivo. e até camões agradece – o único problema destas carinhas redondas a sorrir é perceber a sua veracidade. nunca saberemos se é impostura ou se vem mesmo do coração. e como recebemos resmas delas por dia. rapidamente percebemos que o melhor é aceitar tudo como vem empacotado. sem questionar. sem argumentar e no mesmo instante. para não acumular e perder o sentido da coisa. devolver a cortesia em modo de correio azul. um dedo virado para o céu acompanhado com uma dessas carinhas amarelas rechonchudinhas e a amizade ficará presa a cimento para sempre – quem inventou esta comunicação é um génio. se tivesse nascido na minha terra. garanto-vos. já teria uma rotunda com o seu nome – não importa o grau de amizade que liga o emissor com o recetor. a carinha encaixa-se sempre na perfeição. não importa se é gordo ou magro. letrado ou analfabeto. cavalheiro ou marginal. viva em braga ou no chile e fale castelhano ou checheno. tudo funciona sobre rodas – estou convencido de que um dia será com estas figurinhas que faremos o primeiro contacto com os extraterrestres – comunicar tornou-se um ato espontâneo. e rende centenas de amigos por dia – como é fácil iludir o nosso universo habitável – para percebermos se realmente alguém está bem na vida das redes sociais faz-se uma contagem rápida dos amigos e dos likes conquistados:

-- foda-se. parece impossível: aquele nabo do antunes já tem mais oito amigos do que eu

 

2º parte

ganhar ou perder amigos tornou-se um drama com consequências muito mais sérias do que no meu tempo – nesse tempo. um gajo embrulhava-se numa troca de socos e pontapés. e no dia seguinte. como nunca havia gente suficiente para jogar futebol. o remédio era mesmo fazer as pazes – um aperto de mão e a amizade continuava no mesmo ponto em que tinha sido interrompida – a oferta de amigos no mercado das redes sociais hoje é maior do que a procura – os amigos estão ao preço da uva mijona – és um grande amigo se deixares muitos likes. mas um amigo de trampa se te esqueceres de carregar nos likes – o nosso mundo de amigos é agora assim: esgadanham-se por meia dúzia de likes:

-- ó filho se me deixares ser teu amigo prometo que te faço uns likes tão loucos que até vês a estrela polar

quem tem poucos amigos nas redes sociais é logo marginalizado – se não me dás um like. também não levas nenhum meu – se tem poucos amigos é porque o gajo não deve ser grande pistola. deve ter a mania que é chico esperto. menino da mamã – vai longe. vai – a solução é ignorar e passar ao lado das postagens e das fotos – comentar um gajo com poucos amigos? nem pensar. é mau para a sua reputação

-- a estes merdas elitistas que não dão likes nem lhes dou confiança. bloqueio-os logo – quero que se fodam todos

o problema é que todos querem ser amigos de todos só para caberem neste mundo global da internet – estes amigos não pesam às costas. não tens que os compreender. nem ouvir. nem chamar a atenção num momento menos feliz. simplesmente existem – é fácil a sua manutenção e mesmo quando se zangam por algum motivo não andam ao soco. nem têm que apertar a mão como cavalheiros – agora bloqueia-se o tratante e logo de seguida posta-se uma frase pesarosa no perfil a dar conta da morte prematura de um amigo que verdadeiramente nunca o tinha sido:

-- tão bem lhe fiz e o agradecimento é este. não merecia. não tenho sorte nenhuma com os amigos

e o milagre da multiplicação já não é pão nem vinho. são amigos aos milhares. a emergir como ratos. de cantos que nem imaginava existir. e likes. abraços. migo e migas aos beijinhos e jinhos a perder de vista:

-- força migo;

-- deus é grande;

-- não mereces. mas vais ultrapassar;

-- aconteceu-me na semana passada. é uma tristeza mas já passou;

-- não ligues migo. esse gajo deve ser um paneleiro de merda;

-- se fosse comigo. fodia-lhe as trombas;

-- vais “ber” que tudo se vai resolver. tem fé;

-- se precisares de uma amiga sabes que para ti estou sempre aqui. jinhos;

-- cabrão. eu sei o que merecia esse filho da puta – há gajos que não se enxergam - abraço

depois destas manifestações de carinho incha mais que o peixe balão – bem sei que a maioria destes amigos nem os conheço pessoalmente. e outra grande parte apenas os conheço de um único aperto de mão. ou de uma palavra reles de circunstância. ou então porque são amigos de amigos que também não conheço – o amigo de verdade. aquele que é mesmo amigo amigo. nem me fala pelas redes sociais quando percebe que há um problema. liga-me. e quando o telefone toca. o nome dele ilumina o mostrador – atendo. e logo chega em letra grande um like que não tem o dedo para cima. tem alegria suficiente para alimentar uma conversa por tempo impossível de contar – e assim é. retoma-se a amizade exatamente no ponto em que a interrompemos – não importa o tempo que passou. conhecemos todas as inflexões de voz e recuamos ao passado na única máquina que nos faz viajar no tempo: a amizade – os amigos de verdade são sempre únicos. cada um deles é um mundo único

-- que saudades tenho desses catraios

neste novo movimento tecnológico. o mais importante já nem é o número de amigos que se possa somar. para esta malta o que começa a contar é a rapidez com que se coloca o like – um verdadeiro amigo tem que estar sempre atento. sempre de sentinela e. mal surja a oportunidade. o seu like tem de ser o primeiro – acabamos de postar um texto de quatro páginas e nos primeiros dez segundos já temos cinquenta likes. aos trinta segundos chegaram já mais de mil e antes do minuto atinjo os nove mil novecentos e noventa e cinco – incrível – passada a primeira hora. lá chegam os últimos cinco amigos. de cabeça baixa e cheios de desculpas esfarrapadas. quatro lamentam não terem tempo para ler a correr. o outro alegou

-- a culpa é da EDP cortou-me a eletricidade. fiquei sem net por causa de uma fatura em atraso

entender este novo mundo digital exige uma ginástica mental impossível. melhor. creio até que nos dias de hoje já não há pessoas infelizes – a sociedade é agora um bando de gente socialmente feliz.

-- toda a gente aparece nas redes sociais a rir. com dentes mais brancos que o branco mais branco. o pepsodent faz milagres inacreditáveis – os dentistas estão fodidos – o pessoal escova os dentes cem vezes ao dia só para sair bem no facebook

todas as manhãs mandam beijos de bom dia aos montes. o que me leva a pensar que talvez despertem sem sequer se falarem. creio que é pelo respeito ao espaço de cada um. no meu tempo. os quartos eram bem menores e não havia como não invadir o espaço da nossa companheira:

-- vê se te despachas a sair da casa de banho que quero ir aí

ou então quando o amor andava no ar ela dizia:

-- deixa tudo arrumado que eu não sou tua criada

 

3º parte

os casais começavam logo pela manhã a comunicar. a dividir tarefas e a trocar juras de amor eternas. ela prometia despachar-se mais depressa nas pinturas e ele jurava pela sua saúde que nunca mais deixaria as cuecas no chão – mas agora tudo mudou. para melhor. todo o mundo se ama numa loucura que chega até a ser constrangedora para os casais mais antigos – agora sei que no passado o amor era muito fatela. senão vejamos – de tempos a tempos. curtos. vão para a internet. e como se fosse promessa.  botam palavras de amor aos conjugues capazes de derreter até o coração mais empedernido – ninguém resiste a tanto romance digital

-- estou convencido de que. se o shakespeare fosse vivo. teria que triplicar a dose de veneno para o romeu bater a soleta. com este amor não é fácil falecer

o que mais me encanta é que nos dias de hoje não há casais incultos. todo o mundo exibe uma bagagem cultural que me comove até às lágrimas. oferecem frases de autores tão desconhecidos que até os próprios autores citados ficam na dúvida se alguma vez escreveram aquilo – o amor embrulhado em fitas de arte dura muito mais tempo – fico sempre muito orgulhoso destes seres humanos tão especiais. ainda bem que os amigos ficam realmente a saber que adoram literatura e que aproveitam todos os bocadinhos livres do dia para lerem e promoverem autores desconhecidos – são os novos mecenas da cultura digital– depois vem a parte pior deste amor que arde e até se consegue ver. um amigo daqueles do coração. comunicativo e muito sensível às coisas do amor e que é capaz de ir a tribunal jurar a pés juntos que aquele amor é a oitava maravilha do mundo das redes sociais deixa um comentário em lágrimas:

-- parabéns. continuem a regar esse jardim de amor. vocês são perfeitos. nunca vi um casal que se amasse tanto

responde logo a dona daquele amor que não cabe numa resma de papel A4

-- és lindo. tens um coração lindo. jinhos lindo

logo a seguir. o facebook vira uma slot machine. os gostos e corações caem em catadupa. suficientes para encher o cesto da capuchinho vermelho – a avó dela ficaria com um ego de super-homem e o lobo mau teria que reaprender o seu papel – a avozinha comia o lobo de faca e garfo com tanta manifestação carinhosa – mas o que mais me surpreende nestes movimentos sentimentais são aqueles que substituem o gosto por aqueles bonequinhos de boca aberta. espantados. creio eu – e aqui é que a coisa se complica. fico sem saber se esse bonequinho de boca aberta significa admiração genuína ou puro gozo. no meu computador. as interpretações podem ser várias:

 

1º - não fazia ideia de que gostavas tanto do teu marido. estou espantada;

2º - nunca pensei que ainda se amassem tanto. depois do que já o vi fazer-te. estou espantada;

3º - olha que tu tens uma lata do caraças. és mesmo uma vendida. andas sempre a dizer mal dele e agora vens para aqui meter nojo – se fosses lavar a loiça… sua cabra. estou espantado;

4º - nunca vos vi comunicar um com o outro. mas aqui na net são o casal mais maravilhoso do facebook. – ó bonitona. deixa que te diga. és um exemplo para todos. só se pode ter inveja de um amor tão genuíno - são TOP. estou espantado;

5º - tenho tantas saudades vossas. a última vez que vos vi estavam a almoçar no zé das bifanas – estavam os dois lindos. são um casal fantástico – só não fui à vossa mesa porque deveriam estar preocupados com alguma coisa pois estiveram sempre ao telemóvel e saíram a correr – beijinhos e continuem assim.  estou espantada;

6º - vocês estão juntos ainda? são uns heróis – confesso que nunca me passou pela cabeça que o vosso casamento aguentasse tanto – chegaram a casar pela igreja ou foi só pelo civil? – parabéns.  estou espantada;

7º - tens o sorriso mais lindo da net. nunca tinha reparado. estou espantada;

8º - és uma guerreira para aguentar esse gajo. ele não te merece.  estou espantada;

9º - puta que pariu esse amor. até mete nojo de tão lindo que é.  estou espantada;

10º - adoro-vos. gostava que a minha maria me escrevesse coisas assim. infelizmente é uma puta e só sabe foder-me a cabeça – maldita hora em que levei aquela cabra ao altar. se não fosse os filhos já a tinha atirado da janela – beijinho para vocês. são um exemplo – felicidades e dá um abraço ao sortudo. estou espantado

e assim continuaríamos com mais uns quantos exemplos. mas infelizmente também eu não tenho tempo para escrever mais nada – a minha maria está aos berros e já sei que ou me apresento rapidamente em passo ligeirinho ou acontece-me como da última vez. deu-me no focinho e de seguida ligou para o número verde de violência doméstica a queixar-se de défice de atenção – bem sei que tudo acaba bem. mal apanha um computador esquece tudo. e enche-me de beijos e likes e não se farta de dizer aos amigos que sou o homem da sua vida – com a idade aprendi a ser tolerante e nunca me esqueço do que diziam os meus avós: uma bofetada pode salvar o casamento – o meu já vai a caminho das bodas de ouro e nunca me queixei de uma bofetada mal dada – sou um sortudo da velha guarda