nota de autor:
netos – este texto já não é apenas
para os meus filhos. é sobretudo para os pais que eles agora são – leiam-no
devagar. não como uma lição. mas como aquilo que aprendi enquanto tentava
construir a casa onde vocês começaram a crescer
quando me tornei pai. aos vinte e um anos. a
minha maior busca foi compreender a urgência do meu próprio chão – o que teria
eu de saber? aprender? mudar? para que o meu filho colhesse não apenas o
sucesso. mas se tornasse um homem de bem – comecei por decifrar a minha família
– não com os olhos de quem pertence a ela. e por isso a defende contra tudo e
contra todos. mas tentando despi-la do melhor e do pior – como vivia? como agia
em sociedade? como se relacionava dentro de si? que lugar dava à palavra? ao
trabalho? ao perdão? à justiça? àquilo que não compreendia? procurei os seus
gestos. as suas feridas. a benevolência. os silêncios. a capacidade de se
abraçar ao imprevisto – depois passei às pessoas – primeiro o meu pai –
procurei as virtudes. os abismos. aquilo de que gostava e aquilo que prometi
não repetir – a postura com que caminhava. a forma como falava. como enfrentava
os problemas. o mau feitio. a doçura escondida. a exigência com aqueles que
dependiam do seu amparo. e sobretudo a forma como mantinha a palavra – depois a
minha mãe – submeti-a às mesmas perguntas. mas tive de acrescentar outras: a
bondade. a determinação. a capacidade de trabalhar. o amor que entregava sem
fazer contas – enfim. quando procuramos o menos bom parece sempre que
encontramos mais do que desejávamos – talvez porque uma virtude nos
tranquilize. enquanto uma falha nos obriga a pensar – – coloquei-me no lugar deles – peguei
essencialmente naquilo de que menos gostava nos meus pais. e tentei perceber
quanto de cada uma dessas fragilidades já morava em mim – posso garantir que
fui cruel – mas não foi difícil encontrar resposta – reconheci-me numa
imensidão de imperfeições – algumas eram deles. outras já eram inteiramente
minhas – foi então que percebi uma coisa que hoje me parece evidente: antes de
decidir que pai queria ser. precisava de compreender de que filho eu próprio
era feito – para mim. o sucesso humano dos meus filhos dependia de uma verdade
que naquele tempo julgava absoluta – precisava de lhes construir um chão –
depois os pilares – e finalmente dar-lhes liberdade suficiente para um dia
saírem da casa sem precisarem de mim para encontrar o caminho – o chão era o
amor – não havia nota. erro. desobediência. derrota ou escolha capaz de alterar
isso – podia reprovar um comportamento. podia zangar-me. castigar. exigir. mas
nunca poderia permitir que um filho confundisse a minha reprovação com falta de
amor – o amor não podia estar sujeito a avaliação – era o chão – tudo o resto
seria construído por cima – depois vieram os pilares
1º exemplo – não exigir aos filhos
aquilo que não estava disposto a exigir a mim próprio – podia falar-lhes de
respeito durante horas. mas bastaria que me vissem humilhar alguém para
aprenderem a lição contrária – podia mandar estudar. mas se nunca me vissem
procurar conhecimento aprenderiam que estudar era apenas uma obrigação para
crianças – os filhos escutam aquilo que lhes dizemos. mas aprendem sobretudo
aquilo que nos veem fazer –
2º justiça – um pai pode criar regras.
mas tem a obrigação de explicar para que servem – uma chamada de atenção. uma
exigência. um castigo. nunca deveriam depender do meu humor – a mesma ação não
podia ser aceitável hoje. e intolerável amanhã apenas porque eu tinha tido um
dia mau – uma regra sem fundamento é apenas poder – e eu queria autoridade. não
arbitrariedade –
3º disciplina – hora de jantar. hora
de dormir. hora de estudar. hora de brincar – naquele tempo fui muito rigoroso
– talvez demasiado em alguns momentos – acreditava que a disciplina preparava o
corpo para um mundo adulto cheio de horários. compromissos e obrigações – hoje
substituiria uma palavra: absoluto por coerência – disciplina não é impedir a
exceção. é impedir que a regra dependa do capricho –
4º respeito – fui intransigente com a
falta de respeito – comigo. com a mãe. com os irmãos. professores. funcionários
da escola. com quem carregava mais anos. com os amigos. com o desconhecido –
mas hoje acrescentaria uma coisa que talvez naquele tempo não soubesse
explicar: respeitar não é obedecer – é reconhecer no outro a mesma dignidade
que exigimos para nós – ser educado é uma forma de caminhar pela vida sem
deixar peso nos outros –
5º verdade e responsabilidade – a
mentira nunca poderia ser o caminho mais fácil para fugir ao erro – mas também
compreendi mais tarde que dizer a verdade tem de ser menos perigoso do que
escondê-la – se um filho tiver mais medo de confessar do que de mentir. alguma
coisa falhou na educação – errar faz parte – esconder deliberadamente o erro é
outra coisa – não se resolve um erro com outro erro – honrar a palavra. assumir
os próprios atos. pedir desculpa quando é necessário. e reparar aquilo que
ainda puder ser reparado –
6º conhecimento – estudar. querer
saber mais. sentir prazer na descoberta. compreender e aplicar aquilo que se
aprende – fomentar a curiosidade. o foco. a capacidade crítica. a observação
permanente – mas sobretudo ensinar a dúvida – um homem que sabe muito. e nunca
pergunta se pode estar errado. transforma facilmente conhecimento em arrogância
– saber é também conservar espaço para aquilo que ainda não sabemos –
7º adaptabilidade – o mundo não
oferece um chão para a vida inteira – mudam os amigos. os empregos. as
profissões. as tecnologias. as cidades. às vezes muda aquilo em que
acreditávamos – é preciso aprender a acolher a mudança sem desaparecer dentro
dela – adaptar-se não é submeter-se – há momentos em que a maior capacidade de
adaptação consiste precisamente em saber dizer: a isto não – a empatia
ajuda-nos a compreender as diferenças. a lucidez ensina-nos quais devemos
aceitar –
8º aprender a ser – talvez este seja o
mais difícil – inteligência emocional. aprender a habitar-se. conhecer o limite
do sim e a necessidade do não – saber estar sozinho. saber pedir ajuda. saber
amar. saber ser amado – aprender a perder sem se perder – porque viver também é
aprender a perder – perderão oportunidades. dinheiro. trabalhos. amigos.
amores. pessoas que julgavam eternas – um dia perderão também os pais – nenhuma
escola consegue impedir essas perdas – podemos apenas tentar ensinar-lhes que
uma derrota não lhes retira o nome –
9º criatividade – saber encontrar uma
saída quando o caminho conhecido termina – interrogar-se. experimentar. falhar.
voltar atrás. recomeçar – perceber que para cada caminho novo há sempre outro
que fica para trás – não desistir apenas porque a primeira solução falhou –
criatividade não é ter ideias extravagantes. é conseguir imaginar aquilo que
ainda não existe –
10º o belo – música. literatura.
pintura. escultura. natureza – ensinar que nem tudo aquilo que vale precisa de
servir para alguma coisa – há uma parte do homem que também se educa diante de
um quadro. dentro de um livro. ouvindo música. olhando o mar – o belo não nos
torna necessariamente melhores. mas uma vida incapaz de o reconhecer fica mais
pobre –
11º história – conhecer aquilo que
veio antes – a história do mundo. mas também a nossa – os avós. os pais. os
erros. os acertos. as dificuldades. aquilo que herdámos sem escolher – há um
mapa invisível que nos liga ao que nos rodeia – foi olhando para trás que
tentei decidir aquilo que queria levar para diante – não para repetir o
passado. mas para saber de onde partíamos –
12º individualidade – os filhos não
nasceram para realizar os sonhos que deixámos por cumprir – respeitar os seus
gostos. a música. os amigos. a intimidade. as diferenças. aquilo que escolherem
amar – aconselhar sempre que nos pedirem. intervir quando ainda for nossa
responsabilidade protegê-los. mas nunca escolher a vida deles para corrigir a
nossa – educar um filho não é fabricar uma versão melhorada do pai –
havia ainda uma coisa que não cabia
inteiramente em nenhum pilar – o dinheiro – aprender a ganhá-lo. poupá-lo.
gastá-lo. partilhá-lo. perceber aquilo que compra e principalmente aquilo que
nunca poderá comprar – trabalho não é apenas salário. é autonomia. dignidade e
responsabilidade – mas nenhum vencimento transforma um homem num homem de bem –
por cima de tudo coloquei a liberdade – naquele tempo acreditava que a
liberdade tinha de ser conquistada – hoje talvez diga de outra maneira: começa
por ser confiada. depois precisa de ser merecida. e finalmente defendida – fazer
o que está certo no momento certo. não depois – são as escolhas que lhe dão
forma – um homem sem liberdade nunca viverá inteiramente a sua vida. mas um
homem incapaz de assumir as consequências das próprias escolhas. também ainda
não é verdadeiramente livre – quando era um pai jovem acreditava que numa casa
tinha de existir um líder – e durante muito tempo esse líder fui eu – criava
regras. fazia-as cumprir. assumia os erros – fui exigente. em alguns momentos
talvez demasiado – hoje já não compararia uma família a uma matilha. nem sei se
uma casa precisa de um líder – sei que precisa de adultos capazes de assumir
responsabilidades. de discordar sem destruir a autoridade um do outro. e de
perceber que nenhum filho é igual ao irmão – os meus filhos cresceram – e foi
então que descobri aquilo que nenhuma tábua de educação me tinha ensinado –
educar não é resolver uma equação – podemos colocar nela todas as variáveis.
amor. disciplina. justiça. conhecimento. exemplo. liberdade – o resultado
continuará a pertencer ao filho – não sei quanto do que são nasceu daquilo que
fiz. nem quanto nasceu apesar daquilo que fiz – esta dúvida pertence-me e ainda
bem – obriga-me a continuar a olhar para o pai que fui com a mesma crueldade
com que um dia olhei para os meus pais – se hoje começasse novamente mudaria
algumas coisas – ouviria mais cedo. flexibilizaria algumas regras. talvez
tivesse menos medo de que uma exceção destruísse o edifício – mas manteria
outras sem hesitação: a verdade. o respeito. o trabalho. o conhecimento. a
justiça. a família. e a obrigação de nunca passar indiferente por quem precisa
de nós – não quero ensinar ninguém a educar os filhos – nem sei se saberia
fazê-lo – esta foi apenas a casa que tentei construir para os meus – e talvez
tenha demorado todos estes anos a compreender para que servia realmente – educamos
os filhos dentro de uma casa para que um dia tenham coragem de sair dela –
ensinamos o caminho. e depois temos de ter coragem para deixar de o indicar