nota de autor
escrevo para perceber quantos sou quando penso
ser apenas um – incubadora de eus nasce dessa inquietação – um lugar onde cada
parte de mim ganha forma e voz – o nascimento do múltiplo – se alguém me ouvir –
gaivotas – e sem guerra. são passos da mesma procura: existir dividido sem
deixar de ser inteiro – se alguém se reconhecer neles. então não escrevi
sozinho
1. o nascimento do múltiplo
tenho medo – não
tardarei a deixar de me reconhecer nas minhas palavras. e talvez seja por isso
que este pensamento vibra num abrigo de eus: o meu corpo – agora sei. não sou
um – a dor. a alegria. a tristeza. a saudade. a esperança. a dúvida. a loucura.
a paixão. vivem em mim como se cada uma tivesse o seu nome – há em mim quem ame
uma única mulher. inteiro. para sempre – há outro que se espalha pelo mundo.
fala. ri. procura tudo – pergunto à minha amada: amas-me?
-- sim. amo-te
qual deles? fico em silêncio – há um sorriso que
lhe cai dos olhos e me prende nos lábios – calor – e há ainda outro sem nome – estranho
não saber nomear o que é meu – todas as manhãs acorda diferente. ontem podia ser
antónio. hoje parece-me manuel. talvez silva. gosto de silva. cresce em solos
pobres – e eu rastejo como se andasse em bicos de pés. os picos não se veem.
floriram para dentro da pele – há também aquele que mede o tempo. e que me diz:
o tempo não são anos. é a luz que encontraste – descansa – diz o silva –
mereces o repouso. procura nos teus eus a força de recomeçar – e às vezes não
me basto. levanto-me para escrever. como se. na dispersão de tudo. ainda
houvesse uma palavra à procura de ser escutada
