gaivotas – atravessam – há nelas qualquer coisa que
não é minha – voam contra o vento como se o vento não mandasse – e depois
deixam-se levar como se nunca tivessem escolhido – não sei se são livres. ou
apenas melhores a obedecer – são as únicas amigas de éolo – acredito que ao
contrário de guardar o vento numa caixa. o guardam debaixo das asas – às vezes rasgam
o ar. outras voam para o céu como anjos – e eu sem saber se o fazem por vontade.
ou apenas por destino – há momentos em que parecem decidir. outros em que
parecem cair – e eu aqui em baixo. sem saber qual dos dois sou. ou qual deles
sou em cada rajada – também tenho um vento. empurra-me. puxa-me. muda de
direção sem me pedir – todos temos um
destino. todos temos um vento. todos temos um vento que sopra a favor – nem que
seja por um dia. por um momento de silêncio – o meu vento é a minha força.
mesmo quando me empurra para um destino que não quero – às vezes avanço. outras
cedo. e nunca sei se fui eu. ou se fui levado – olho para elas e penso: como se
aprende isto? voar sem pedir. sem explicar. sem hesitar – talvez não aprendam. talvez
apenas sejam. e eu ainda não – se ao menos soubesse escrever a força do vento. e
dizer quantas poeiras minúsculas são minhas – não sei – o que sei é que todas
juntas fariam uma ilha só para mim. com uma casa em cima de uma onda. e uma
cama feita de sono profundo. sono descanso. sonho quieto – onde os meus eus
acordam sem saber qual de mim abriu os olhos
