o meu ego nunca
precisou de ser maior do que os outros. sempre lhe bastou não desperdiçar
aquilo que acredito ter recebido da vida – confio nas minhas intuições.
sobretudo quando falo da família. da educação. dos amigos. ou da escrita. mas
essa confiança nunca me livrou da dúvida. pelo contrário. obriga-me a regressar
vezes sem conta às mesmas ideias. às mesmas pessoas. às mesmas memórias. às
mesmas escolhas. revejo o que escrevo. o que digo. o que penso. e até quem fui.
não porque desconfie da vida. mas porque acredito que a verdade raramente se
entrega à primeira tentativa – escolho criteriosamente os amigos. não preciso
de muitos. preciso apenas de poder confiar neles. quando me engano. afasto-me.
dificilmente volto atrás. não por orgulho. mas porque deixo de reconhecer a
verdade da amizade quando a gratidão desaparece – há uma idade em que perder
pessoas já não me assusta. pior do que perder é aceitar a ingratidão como preço
da companhia. esse preço já não estou disposto a pagar – o meu ego não procura
aplauso. procura apenas justificar a vida que vivi. deixar aos que vierem
depois um caminho um pouco mais limpo do que aquele que encontrei – quando
acredito numa ideia dificilmente recuo. não porque me julgue dono da verdade.
mas porque a experimentei antes de a defender. e quando erro. o julgamento mais
duro nunca vem dos outros. vem sempre de mim. talvez seja essa a verdadeira
medida do meu ego: não querer ser maior do que ninguém. apenas não ficar aquém
de mim próprio – por isso estou certo de que com a idade chegou a melhor versão
de mim. mas mais importante. passei a gostar de mim sem pedir licença a ninguém – já não negoceio a minha paz – não quer ser maior do
que os outros. quero apenas ter a certeza de que não desperdiço a vida que me
coube viver