numa das crónicas do
antónio lobo antunes ele diz o seguinte: "só ficas adulto depois de teu
pai morrer. porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a
morte” – é exatamente quando deixamos de ver o corpo que passamos a considerar
a vida como algo que termina – não importa há quanto tempo perdemos um pai.
esse tempo nunca será medível. creio até que é sempre o mesmo. é sempre muito.
apenas se torna mais subtil com o passar dos anos – é quando entramos mais
dentro do corpo. queremos saber tudo sobre nós. para alterar o que carece de
bondade nessa relação cada vez mais distante – a única coisa que me aborrece no
tempo não é a distância entre o que sou hoje e aquilo que perdi há vinte e oito
anos. mas sim a diferença entre as memórias que tinha naquela altura. e as que
tenho hoje – às vezes quero recordá-lo. fecho os olhos. à mesa éramos cinco –
agora conto quatro – não falta ninguém. falta o número – a cadeira não está
vazia. está a mais. sou eu que conto mal
– isto sim. é a dor que espera por todos quantos perdem o pai. e sem me tornar
demasiado arrogante perante quem não teve filhos. quando um filho nasce.
torna-se de imediato na nossa estrela polar. segui-lo é uma maravilha – há uma
compreensão que nasce quando alguém passa a precisar de nós – o que sei é que a
estrela que ele seguiu continua algures. o problema é que agora sou eu quem não
sabe orientar-se – a estrela que ele seguia não me serve – caminho
17 de março de
1998

