bemsei que há muita gente a sofrer com o
preço dos combustíveis. felizmente. há três anos que conduzo um carro elétrico.
por isso já me tinha esquecido do peso que o combustível continua a ter na vida
de tanta gente – durante as férias precisei de alugar um carro. duas vezes.
para fazer exatamente o mesmo percurso. cerca de duzentos e quarenta
quilómetros – na primeira viagem paguei sessenta euros. com condutor – na
segunda aluguei um carro. fiz o mesmo percurso. sozinho. e quando o devolvi
paguei vinte e cinco euros – sorri. não pelo dinheiro. mas porque a vida às
vezes gosta de nos recordar pequenas verdades – fizeste o certo no momento
certo. há decisões que nos libertam duas vezes. primeiro da despesa. depois da
ilusão
o meu ego nunca
precisou de ser maior do que os outros. sempre lhe bastou não desperdiçar
aquilo que acredito ter recebido da vida – confio nas minhas intuições.
sobretudo quando falo da família. da educação. dos amigos. ou da escrita. mas
essa confiança nunca me livrou da dúvida. pelo contrário. obriga-me a regressar
vezes sem conta às mesmas ideias. às mesmas pessoas. às mesmas memórias. às
mesmas escolhas. revejo o que escrevo. o que digo. o que penso. e até quem fui.
não porque desconfie da vida. mas porque acredito que a verdade raramente se
entrega à primeira tentativa – escolho criteriosamente os amigos. não preciso
de muitos. preciso apenas de poder confiar neles. quando me engano. afasto-me.
dificilmente volto atrás. não por orgulho. mas porque deixo de reconhecer a
verdade da amizade quando a gratidão desaparece – há uma idade em que perder
pessoas já não me assusta. pior do que perder é aceitar a ingratidão como preço
da companhia. esse preço já não estou disposto a pagar – o meu ego não procura
aplauso. procura apenas justificar a vida que vivi. deixar aos que vierem
depois um caminho um pouco mais limpo do que aquele que encontrei – quando
acredito numa ideia dificilmente recuo. não porque me julgue dono da verdade.
mas porque a experimentei antes de a defender. e quando erro. o julgamento mais
duro nunca vem dos outros. vem sempre de mim. talvez seja essa a verdadeira
medida do meu ego: não querer ser maior do que ninguém. apenas não ficar aquém
de mim próprio – por isso estou certo de que com a idade chegou a melhor versão
de mim. mas mais importante. passei a gostar de mim sem pedir licença a ninguém – já não negoceio a minha paz – não quer ser maior do
que os outros. quero apenas ter a certeza de que não desperdiço a vida que me
coube viver
o
mar traz. o mar leva
– abri a gaveta onde vou adiando todas as decisões. aquele lugar onde
descartamos a mente de precisão: um dia vou deitar atenção ao que está aqui
dentro – um talão de compra de um bisegre. uma chave sem porta. uma pilha sem
carga. e a esperança de que um dia tudo volte a fazer sentido – a gaveta é um
pouco como um aterro sanitário. um papel cobre outro até que o tempo o
decomponha pela inutilidade – hoje resolvi abrir a gaveta. remexi os papéis.
cada um deles menos importante do que outro. e foi então que a gaveta me fez
uma pergunta: o que me fez guardar estes bisegres? procuro a resposta. dentro
de mim a gaveta está tão desarrumada como a memória: já não há espaço para tudo
nem para todos – abro caminho por dentro de mim. retiro o pó. arrumo as pedras
para as abas do mundo. sopro as teias de aranhas. e entre pernas o caminho é
feito de fé – tudo em mim é movido a fé – já não quero guardar o que não presta
– ao princípio cada coisa encontrava o seu lugar. uma caixa de rapé. um bilhete
sem viagem de regresso. e a passadeira sem pegadas – agora. estou parado
comigo. a olhar o que a vida teceu – envelheci. e aprendi que as nossas
escolhas se tornam mais leves quando nos olhamos sem medo do passado – nada no tempo
que gastei me pesa – a minha natureza não é feita de medo. aprendi a perdoar-me.
sou o melhor de mim. afinal o que posso fazer se tudo no mundo é novo e
aprendizagem – a inteligência nunca está pronta. cresce onde existe humildade
para continuar a aprender – cada dia é uma oferta do universo – não tenho arrependimento
do que parte. só parte o que chegou. tal como as marés. e nem por isso a lua se
zanga – amanhã será sempre um dia novo para mim. e se me conheço. encontrarei
outro atalho para chegar mais depressa ao que sou – o tempo não levou tudo.
deixou-me o suficiente para continuar a lembrar-me – sou a consequência de tudo
o que vivi. irrepetível – nem sempre virtude. quase nunca defeito. a verdade já
pesa o suficiente – sou antes vontade de viver. voltar atrás não é solução. a
razão da vida é o desafio. perna que não caminha não vê o mundo – ocupo-me e
desocupo-me. entre o que guardo e o que deixo para trás. descubro sempre que a
gaveta é mais pequena do que a vida – envelheci. passei anos a acreditar que
tinha de provar quem era. hoje fecho a gaveta. a soberba continua a confundir
altura com grandeza – viver sem medo aproximou-me de quem sou. mas uma gaveta desarrumada
é mais bonita fechada – a esperança cria o melhor e o pior de mim. leva-me ao
futuro. liberta-me do passado – o que perco está sempre no dia que já passou – desenterro-me
da gaveta e procuro viver. pois também existo nas escolhas. mesmo quando
tomadas de erros ingénuos – sou o primeiro habitante do mundo que planto. e
anfitrião da paz que nele habita – mas não desisto. há em mim verdade
suficiente para continuar a existir como sou – não mudo por ninguém. mesmo que
o punhal seja do tamanho do inferno – sorrio e interrogo-me novamente: sou tudo
o que há dentro desta gaveta. ou sou muito mais fora dela? o que importa isso
se sempre me sinto acompanhado. se as fotos nas paredes servem para me dizer
que já vivi outras realidades – interrogo-me novamente: o que leva as fotos a
atirarem-se ao nada? talvez o cansaço de viverem. ou de verem os outros
viverem. ou por apenas conhecerem a rua onde o que pensam existe – há quem viva
fechado dentro das próprias certezas. convencido de que o mundo termina onde
acaba o seu olhar. há quem entregue a própria vida às mãos dos outros. até
deixar de reconhecer a voz que traz por dentro. entre a soberba de quem julga
saber tudo. e o silêncio de quem já não sabe quem é. procuro apenas continuar
inteiro – e no mundo onde escolho viver. o que me magoa não me merece – o que
não soma. subtraio – o mar continua a trazer. o mar continua a levar. e eu
continuo à beira dele. pronto para acolher apenas o que me fizer crescer
II.
todas as perdas começam muito antes da
despedida. este texto nunca terá um fim. haverá sempre uma palavra à procura do
último ponto. por isso fica assim. incompleto. como eu
claro que sou escritor – escrevo porque não sei calar o que
me cresce dentro – escrevo-me no papel. conto histórias do meu passado. umas
doem. outras abrem o fundo onde ainda me procuro – talvez isto bastasse. mas um
homem quer sempre saber em que divisão joga – foi então que pensei nos homens
da bola. nos que fazem do jogo um ofício – comecei a perguntar-me que espécie
de escritor sou eu afinal – um homem raramente sabe o tamanho exato de si. conhecendo-me.
sei que escreveria metade do que sou. e esconderia a outra metade por medo de a
exagerar – um homem procura sempre uma imagem que lhe não minta – olho para aqueles
homens. e vejo-os entrar em campo como homens que nunca tiveram outra língua. ganham
milhões a pontapé. e repetem até à exaustão o que fazem. o que gostam – nenhum
escritor. por mais excecional que seja. toca o dinheiro que corre nos pés
desses homens – a única semelhança. é que no fim. todos regressam ao campo no
dia seguinte– andamos todo o dia aos pontapés à língua e às suas regras.
e pagamos cada erro com silêncio – falhar uma concordância é para um escritor.
o que falhar um penalty é para um avançado – um erro ortográfico é entrar fora
das leis do jogo. e às vezes custa-nos um jogo inteiro – depois há os
jogadores das ligas menores. onde a exigência baixa. mas o dinheiro também fica
difícil – e. no entanto. dizem o mesmo que os que ganham milhões. fazem o que
gostam – já os escritores bons. a dois dedos dos mestres. mas fora do foco da
luz. dizem também que fazem o que gostam. a diferença é que muitos acabam a contar moedas ao fim
do mês. vivem encavalitados no cartão de crédito – eis a conclusão. sou um
escritor que joga nos campeonatos distritais. sai do trabalho. arruma a cabeça
numa pasta de arquivo. coloca a placa na porta: volto já – levanta a cabeça e
diz para si: agora sou real – tomo o equipamento. chuteira e caneleiras sem
esquecer. e começo o aquecimento. primeiro uma vogal. conto os toques que dou
sem a deixar cair – depois. uma palavra pequenina. e aí já domino com a cabeça.
às vezes ombro. e quando dou por mim. chuto sem parar para o écran. e fico ao pontapé
às palavras até que a luz me consuma de cansaço – a alvorada desperta-me. e
quando volto ao que escrevi encontro sempre uma palavra que falhou o remate –
mas não importa. sou eu que marco as balizas no tempo. mas também sou eu que
lavo o equipamento – há seres estranhos. vivem no meio das palavras e confundem
silêncio com salário – mas não me importa. os jogadores da bola reformam-se ao
trinta e poucos anos. ficam à procura da bola e já não rola – eu. não tenho
idade para deixar de chutar vogais. e quando me canso. encontro sempre um verbo
que me motive. atiro uma palavra ao ar e sem a deixar cair remato-a para o
papel – quando acordo para o trabalho. a única certeza que levo é que mesmo
sendo pior escritor. no regresso. nenhuma letra me abandonou. às vezes até as
confundo com o meu cão. vêm ao meu encontro. abanam a cauda. e perdoam-me todos
os erros – e assim sigo. a lavar o equipamento para o jogo seguinte – neste
jogo de palavras não há apito final
o
dia chegou. e eu sou
agora uma porta aberta. onde entras e sais sempre que me quiseres visitar – a
cadeira está no sítio do costume. a mantinha agasalha o que falta. e o sorriso
continua a ocupar o lugar que criaste na nossa casa – a vida acontece. embala o
destino. o sino toca ao desespero. a roupa escurece. um terço. uma ave-maria. e
o que era tempo transforma-se em saudade – queria tanto que o ontem fosse
eterno – restavas tu de tudo o que sou – criaste-me. protegeste-me. amaste-me.
seguraste-me nos momentos em que o mundo parecia desabar. nunca me faltaste.
nunca me soltaste a mão – ninguém desaparece enquanto houver quem o pense. enquanto
uma memória regressar à mesa. enquanto um nome voltar a ser chamado. enquanto
um sorriso reencontrar caminho dentro de nós – levar-te-ei comigo para onde o
caminho me levar. serás sempre casa. serás sempre família. serás sempre nome. terás
a mesma terra do papá e da mamã. e será ali. junto deles. que te darei o último
beijo. depois ficarei a ouvir o silêncio. não para te procurar. mas para te
encontrar – e agora. peço-te. que onde estiveres. não nos largues a mão.
continuamos a precisar de ti – todos
a
tristeza não se
consegue escrever – sentado na escrivaninha. as mãos a tocar as teclas. as
paredes frias. e as lágrimas a escorrer sem tocarem a pele – há qualquer coisa
que as esconde do mundo – o que é meu não pode ser de mais ninguém – nunca quis
ser forte. nunca precisei de ser maior do que sou. tudo o que fiz a correr foi
para chegar mais longe – a boca sempre foi o meu maior pesadelo. nunca soube
dizer o que não sentia. e por isso. tornei-me escravo da minha verdade – a
balança já com tara. a pesar cada verbo no futuro. e eu a dizer que cresci.
mudei. a pedir perdão por cada palavra nova que inventava – talvez viver fosse
só isto – mas depois. há as pessoas. elas crescem connosco. não ao lado. nem há
frente. dentro de nós. como se fossem terra. semente. como móveis antigos
dentro da casa – queremos muito acreditar que tudo é para sempre – nascemos. e
no peito o coração bate amor. não sabemos o que é. sabemos que nos aquece.
ficámos maleáveis. e tomamos a forma dos braços que nos embala – choramos sem
conhecer a dor. apenas para crescer. para aprendermos a doçura – um dia rimos.
um dia passamos sem comer. mas nunca sabemos a verdade que o ventinho norte nos
vai trazer – foram tantas as noites que passei a imaginar o futuro. e em
nenhuma me vi a partir sem levar a saudade de quem me ensinou a voar – hoje
saiu de minha casa a minha segunda mãe. e ainda não sei o que fazer com o
corpo. estou assim – faz frio. quero voltar ao passado. aos braços que me
ergueram. e trazer tudo de volta. ouvir o coração antes das palavras. voltar ao
colo. ao primeiro UA – agora estamos os dois a lutar. a UA à sua maneira.
amarrada ao seu deus – mas eu não sei rezar. e interrogo-me porque a vida nos
faz isto – o corpo fraco a agarrar-se à vida. e o meu nome preso a uma mão a
tremer. como se toda a nossa vida fosse apenas aquele momento. os olhos com
sede de vida perdidos numa casa sem nada nosso – só queria fugir dali. levar-te
comigo para uma varanda antiga onde ainda coubéssemos os dois – tantos anos. e
nunca me falhaste. estiveste sempre ali. como se ali fosse o princípio de todos
os dias. e eu sempre a correr. como se esse dia nunca fosse acabar. como se
amar fosse distância – agora tenho a tua voz a sussurrar baixinho dentro de mim.
o teu nome é a minha vida. e se houver um deus maior. no dia em que a porta se
fechar. eu estrarei na barca para te dizer: leva-me num lencinho de mão.
recorda-me… e protege-me do frio que aí vem
háem
mim um sistema de freios e contrapesos – cada eu vigia o excesso do outro – não
sei como os criei. cresceram como os frutos nas árvores – acredito que cada um
dos meus eus ditou uma norma – e assim comecei a organizar o caos dentro de mim
– diz um: quando chegares ali volta para trás – e logo outro acrescentou. não
te esqueças que tu és a casa – e outro. o mais falador. que nunca está calado
diz: fala. não tenhas medo. a verdade é aquela que couber dentro de ti – por
fim. o mais perdido de todos acrescenta: escreve. prosa ou poesia. e se não
tiveres palavras escreve um haiku. mas não te esqueças das concordâncias em
modo tribal – a minha dúvida. sem solução. é saber se nasci assim. ou se o
mundo me talhou à sua forma – por isso escrevo. porque só na escrita me
aproximo do homem que imagino ser – pego em mim. em estado bruto. e de goiva na
mão. vou tirando lascas – ao princípio desconfio da mão. mas o tempo repõe tudo
no seu lugar – há dias em que passo por mim no espelho e continuo a andar. como
quem evita cumprimentar um desconhecido – mas chega sempre o dia em que o
enfrento e pergunto: quem sou eu? não sei – os olhos são animais perigosos.
impossíveis de domesticar – no espelho eu sou apenas o reflexo do que eles
gostam de criar. mas o que sinto não depende do reflexo. aí… sou verdade – as
gaivotas atravessam o céu. as palavras atravessam pessoas – às vezes paro a
meio da cozinha sem saber ao certo o que fui buscar – fico imóvel. a olhar a
janela. como se houvesse qualquer coisa em mim atrasada da vida – já não posso
mais mentir ao mundo. quero que saibam que em cada amanhecer eu sou o silêncio
da noite – visto-me do que sonhei e entro no que me espera. não por destino.
mas por tudo o que me leva. e se todos soubessem quantas coisas eu preciso de
levar ao vento. talvez os olhos se cruzassem num devaneio louco. e eu deixasse
de caber no nome que me deram – não sou o que veem. porque vivo no que sou. os
sapatos que me servem nasceram nos demónios que domei. e por mais que goste de
mim. nunca é suficiente – o fogo ocupa o espaço entre a bravura. e aquilo que
amanhã me cala – sou mais meu quando abraço os eus. por isso aceito-os: não
como chão frio. mas como caminho. e se no caminho me faltar o mundo. não
importa. em mim haverá sempre qualquer coisa por descobrir – bem sei que não é
fácil viver assim. não é fácil viver comigo. tão depressa faço silêncio. como
corro para onde não quero chegar – quem pode esperar por alguém assim? só a
minha casa guarda a chave do que sou. porque só nela me sinto inteiro. protegido
dos meus demónios. e mesmo quando um deles me rouba a serenidade. eu sei que o
espelho às vezes me devolve ao princípio do caminho. e é aí que volto a ver-me
nos braços da minha mãe. e o meu pai a dizer: é um menino. e vai para sempre
menino – de manhã aperto os atacadores devagar. como se o corpo precisasse de
tempo para aceitar outra vez o peso do mundo – e vou. porque tudo em mim
continua a caminhar. talvez por isso abril continue aceso em mim – é então que
faço uma fogueira dentro do que sou – à volta dela chegam os meus ancestrais. a
família que construí. e todos os eus que me trouxeram até aqui – dançamos em
silêncio. e por cada volta ao fogo. mais um dia deste caminho
e eu fico. não inteiro. não dividido. fico como
sou – há em mim mais do que um. e nenhum vai embora – aprendi que não se
escolhe o que somos. apenas o que fazemos com isso – há dias em que me
encontro. outros em que me atravesso. e talvez seja isso viver. não a certeza. mas
o movimento – já não procuro ser um. nem deixei de ser muitos. aprendi a não
fugir quando me contradigo – há um em mim que quer silêncio. outro que pede
mundo – e agora deixo-os existir. não em paz. mas sem guerra – talvez nunca
tenha sido sobre escolher. mas sobre suportar. e continuar. mesmo quando não
sei quem sou – e eu só. só de mim. só com as palavras que me cresceram na ponta
dos dedos. e em cada oração o sujeito mergulhado em formol. pergunta ao tempo
quanto tempo vou precisar para que volte a ser apenas um – a cabeça de um lado
para o outro. tenta reconhecer cada sentimento sem nome. e cada palavra um mar em
revolta. e a água um cardume de razões para desistir – é como se dentro de mim
habitassem ninfas dos tolos. e os ouvidos tapados por um eu que desconheço.
como se soubesse que um dia sou engolido por mim mesmo – escrevo por que ouço
as gaivotas a viver. e mesmo que a porta dos eus se feche. e a estrada se desfaça.
eu vou a correr por mim para ser um pouco dessa magia – e se me faltar um eu.
nem que seja inventado. eu crio-o – quero lá saber dos verbos e dos
complementos diretos. eu sou o sujeito de todas as orações – tenho medo. mas
também sei que a noite não fica para sempre – envelheci. e hoje deixo que os
meus eus falem sem lhes pedir explicação – o que fica deles escreve-se sozinho –
durante anos carreguei o que fui às costas – agora começo finalmente a sentir o
peso a afastar-se – se ficarmos colados ao passado não sentimos a mudança – somos
também aquilo que construímos para nos suportar – só o tempo cria distância suficiente para
vermos o erro – e talvez seja por isso que continuo a afastar-me de mim – e eu
sigo – é preciso quebrar
a ampulheta. e partir pelo que ainda não foi – se continuo a escrever é porque
nem tudo em mim nasceu da ruína – às palavras devo o que consegui salvar – foram
as palavras que impediram os meus eus de desaparecer completamente. continuaram
a respirar dentro de mim quando eu já não sabia como voltar – hoje já não me
importa o valor do que deixo. apenas que exista – foi com as palavras que
consegui continuar quando tudo em mim já queria parar – talvez chegue um dia em
que o silêncio já não me doa – não sei quanto tempo vou escrever. sei que sobrevivi
o suficiente para me tornar outra coisa. e mesmo que não voe serei para sempre
gaivota
gaivotas– atravessam – há nelas qualquer coisa que
não é minha – voam contra o vento como se o vento não mandasse – e depois
deixam-se levar como se nunca tivessem escolhido – não sei se são livres. ou
apenas melhores a obedecer – são as únicas amigas de éolo – acredito que ao
contrário de guardar o vento numa caixa. o guardam debaixo das asas – às vezes rasgam
o ar. outras voam para o céu como anjos – e eu sem saber se o fazem por vontade.
ou apenas por destino – há momentos em que parecem decidir. outros em que
parecem cair – e eu aqui em baixo. sem saber qual dos dois sou. ou qual deles
sou em cada rajada – também tenho um vento. empurra-me. puxa-me. muda de
direção sem me pedir – todos temos um
destino. todos temos um vento. todos temos um vento que sopra a favor – nem que
seja por um dia. por um momento de silêncio – o meu vento é a minha força.
mesmo quando me empurra para um destino que não quero – às vezes avanço. outras
cedo. e nunca sei se fui eu. ou se fui levado – olho para elas e penso: como se
aprende isto? voar sem pedir. sem explicar. sem hesitar – talvez não aprendam. talvez
apenas sejam. e eu ainda não – se ao menos soubesse escrever a força do vento. e
dizer quantas poeiras minúsculas são minhas – não sei – o que sei é que todas
juntas fariam uma ilha só para mim. com uma casa em cima de uma onda. e uma
cama feita de sono profundo. sono descanso. sonho quieto – onde os meus eus
acordam sem saber qual de mim abriu os olhos
ao leitor não importa qual dos eus
fala. importa que fale – as palavras são gaivotas para mim. liberdade – e para
quem me lê? não sei. talvez nada. talvez apenas o deslumbramento de um eu que
precisa de ser compreendido – se eu soubesse falar não escrevia. juro – as
palavras dizem o que podem. para mim quase tudo. para o leitor… quase nada – e
ainda assim salvam-me – pergunto sempre ao eu que escreve: o que seria de ti
sem isto? poeira? estrada sem fim? talvez um homem sentado na falésia a olhar
para os próprios pés – dentro de mim nada sai que não me pertença – o que de
mim chega ao papel pouco importa. importa o que me sustém – e ainda assim
escrevo. como quem procura alguém que diga: quando escreves és eu – procuro-me
nos outros. nos seus silêncios. nas suas falhas – talvez escreva para não
desaparecer. ou para deixar rasto. ou mapa – acredito que as palavras podem ser
mais do que isso. que podem tocar alguém. mesmo que por um instante – um gesto.
um reconhecimento. um sim dito em silêncio – e então escrevo mais – não para
explicar. não para convencer. mas para existir fora de mim – há dias em que
sinto que tudo o que escrevo me ultrapassa. e outros em que nada do que escrevo
chega – e nesse intervalo continuo. escrever é o único lugar onde não me perco
completamente – e mesmo que ninguém leia. mesmo que ninguém compreenda. há
sempre um eu que fica – isso basta – mas confesso: se um dia crescer. se os
dedos exigirem razão. mesmo que seja apenas com um dedo. escreverei tudo o que
penso – serei olhos abertos sobre o mundo. serei ninguém por ser de todos. e
ninguém por caber em todos – e no fundo do que sou. um murmúrio de gente como
eu. a acenar em silêncio – escrevo na procura de quem me reconheça: quando
escreves és eu – sou a procura dos meus eus nos outros. na palavra certa no
lugar incerto de quem lê – todas as incertezas pedem um gesto que as atravesse
– e a desilusão ensina-me a resistir aos que não me alcançam – envelheci. e
agora tanto faz falar como calar. o que me sobra são palavras – às vezes é preciso
sair do que fomos para tocar o que somos – sem distancia do passado não há
mudança – somos também o que construímos para nos suportar – o tempo não mede.
afasta – não me diz onde estou. mas empurra-me – por isso avanço pelo que falta
– fui feito no amor. e é com isso que escrevo – às palavras devo o que consegui
manter aceso – foram elas que alimentaram os meus eus. que atravessaram a
escuridão – que me devolveram de onde eu já não voltava – hoje já não me
importa o valor do que deixo. apenas que fique – porque foi com elas que
atravessei esta extensão sem fim – e um dia. quando se calarem. saberei que
cheguei – não sei quanto tempo ainda escrevo – sei apenas que me inventei nos
destroços. e mesmo que não voe. há em mim qualquer coisa que já aprendeu a ser
gaivota
escrevo para perceber quantos sou quando penso
ser apenas um – incubadora de eus nasce dessa inquietação – um lugar onde cada
parte de mim ganha forma e voz – o nascimento do múltiplo – se alguém me ouvir –
gaivotas – sem guerra – e contra freios. são passos da mesma procura: existir dividido sem
deixar de ser inteiro – se alguém se reconhecer neles. então não escrevi
sozinho
1.o nascimento do múltiplo
tenhomedo – não
tardarei a deixar de me reconhecer nas minhas palavras. e talvez seja por isso
que este pensamento vibra num abrigo de eus: o meu corpo – agora sei. não sou
um – a dor. a alegria. a tristeza. a saudade. a esperança. a dúvida. a loucura.
a paixão. vivem em mim como se cada uma tivesse o seu nome – há em mim quem ame
uma única mulher. inteiro. para sempre – há outro que se espalha pelo mundo.
fala. ri. procura tudo – pergunto à minha amada: amas-me?
-- sim. amo-te
qual deles? fico em silêncio – há um sorriso que
lhe cai dos olhos e me prende nos lábios – calor – e há ainda outro sem nome – estranho
não saber nomear o que é meu – todas as manhãs acorda diferente. ontem podia ser
antónio. hoje parece-me manuel. talvez silva. gosto de silva. cresce em solos
pobres – e eu rastejo como se andasse em bicos de pés. os picos não se veem.
floriram para dentro da pele – há também aquele que mede o tempo. e que me diz:
o tempo não são anos. é a luz que encontraste – descansa – diz o silva –
mereces o repouso. procura nos teus eus a força de recomeçar – e às vezes não
me basto. levanto-me para escrever. como se. na dispersão de tudo. ainda
houvesse uma palavra à procura de ser escutada
um aniversário vale pela memória – o que fizemos e
guardamos – sexta-feira somei mais um ano. cheguei ao hoje. que nada mais é que
o prenúncio do dia seguinte – juntei a família e amigos – estavam todos – e
celebrei a vida que me guarda. à volta de uma mesa cheia. num ruído bom que não
queria que acabasse – e ficou em mim – a família é o meu único propósito. o
único chamamento que reconheço. o que me leva sem margem. só caminho – o
nascimento aconteceu. depois fui obrigado a crescer. e ainda não parei – o que
levo deste aniversário são as presenças que me ajudaram a soprar as velas. e
esta música que me ofereceram – a felicidade é tão efémera. para sempre fica a
melodia – obrigado
aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda
existem dentro de mim. e também nas coisas. que não estando dentro de mim. me
iluminam como iluminam as auroras do norte – faz anos hoje que nasci. e da
viagem nada. nem mapa de mim – sempre que este dia regressa penso nas coisas
boas que me aconteceram. na chuva que me molhou. nos lábios que me beijaram
como se fossem primavera. e no voo doce que me levou para onde já não caio–
e agora que o tempo é menos do que sou. o que faço comigo? vivo com quê?
recordo os afetos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e
me corrói a alma como um corpo fora do seu lugar – vivo sem vagar – o mundo
moldou-me na forma que eu escolhi – a verdade é que são as coisas que existem
em mim que me fazem do tamanho que sou – e dou por mim a contar os anos. mais
um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. sei que se faz tarde para o que
há de vir – só resguardado estou sereno. só resguardado sou eu numa verdade boa
– e já não sei onde começa o tempo em mim – há dias em que sorrio por gratidão
e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo.
fortifico-me com a fé num deus que inventei só para mim –- resisto -- conto as
rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não posso evitar.
desespero. insulto-me com palavras e juro que estou ainda mais vivo do que
ontem – corro ao redor de cadeiras que nunca se ocupam. enquanto a chuva entra-me
pelos olhos e fica – esbracejo e grito com o que me resta para a vida:
aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti. mas pelo que trago em mim. esta
é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr
numa casa saqueada que é tudo em mim – tudo o que tenho é nada. e mesmo assim.
campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e
eu aqui a ler o tempo até me doer os olhos. as mãos a rasgar o dia de ontem. as
lembranças a sangrar. e o sino tlim… tlam… tlim… tlam… não chama. conta – o
silêncio pesa – fujam… fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o
vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou
neste corpo envelhecido o inventário de tudo o que o tempo me trouxe – aqui me
encontro ainda eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra –
se deus me desse uma vela e um sopro. apagava toda a tristeza que guardei para
sobreviver – procuro ainda esperança. ainda tempo. ainda tudo o que sempre
procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo que me gasta–
toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso.
outras. amargos de boca – não importa. tudo se perdoa quando o outono chega – a
cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas
valiosas cada vez mais afastadas – não por fugirem. mas por eu já não chegar – só
tenho uma vida – o desespero é a minha pele desde o dia em que me obriguei a
crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu para um
silêncio onde não entro – e nunca mais ninguém soube onde guardar a casa – as
coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários quisessem
rebobinar os dias – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro
inferno. e o que imagino é um negro que me fere por dentro – nenhuma palavra será
gaivota. nem me levará onde eu sou – nada acontece às velas que não ardem – e
eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo. e que
sofro sempre que as tomo em silêncio – é tudo o que sei fazer – o mundo só me
tem servido para envelhecer – aqui estou. e é neste corpo que tudo termina em
mim
2.
e agorafalo para vocês – é por isso que às vezes
creio que sou sábio. é quando olho em redor. e percebo que tudo é muito mais do
que eu consigo carregar – e o que é um homem arrastado no tempo? é vida – sou
mais do que quando nasci. e menos do que imaginei ser – sou dois parêntesis
abertos à espera de sentido. existo por não estar só. construí-me com o que
sobrou do mundo – nunca me perdi de mim. encontrei-me no que vinha antes.
recebi um nome. dei-o – e o que sou ficou – e depois vieram vocês. não como futuro.
mas como começo – os meus filhos são a origem do mundo. antes deles eu não
existia. só depois apareceram as estrelas. os oceanos encheram-se de peixes. as
gaivotas fizeram liberdade. e do sol cresceram os bem-me-queres – eles sempre
existiram em mim – não me lembro de um único dia sem eles. só com eles me
tornei inteiro – nenhum filho me deve nada. tudo o que me deram foi mais do que
uma fotografia guardada – sou pai. não poderia ter sido mais nada – mesmo que tivesse
direito a um sonho – o que vos deixo começa antes de vocês – já tu eras começo
– ao meu lado. o belo tem o teu rosto. como se o sim nunca tivesse acabado – a
nossa vida tem sido isto: anos a falar. e o dia seguinte a chegar doce – amar-te
foi a coisa mais simples que o coração aprendeu – tem sido tão bom envelhecer a
teu lado. estamos tão crescidos que até os sonhos vieram de nós – todos os dias
começam nos teus olhos – há dias em quero recordar os vossos avós. mas já passou
tanto tempo. que nem sempre os consigo ver – lembro-me do último beijo. e isso
basta – quando envelhecemos. a memória falha. mas o amor não – guardem o que se
perde. antes que se apague – a vida tenta sempre tomar-nos o espírito. é quando
chamamos a liberdade. mudamos de rosto para permanecer – sair. caminhar. viajar.
saber o bastante para continuar. fazer amigos. perdê-los. aprender a amar no
intervalo – entregar-se ao mundo. procurar-se nele – há sempre um lugar que
recolhe – falar com os animais. eles escutam melhor do que muitos humanos –
tocar a natureza. pousar o ouvido. é lá que o melhor fica – juntar a família
não há dia certo. qualquer um serve – oferecer ao universo o que somos – isso
basta – enquanto o destino deles dependia de mim. nunca pude ser o que queria
ser – agora. sou o que sou – e deles só espero amizade. companheirismo. que
caminhem ao meu lado. mesmo quando não entendem – isso é o amor impossível – os
pais não são apenas um corpo. ficam – quando a idade nos mostra o fim do
caminho. o mais importante é perceber o que nos trouxe até aqui – aceitar o que
trazemos. mesmo que seja pouco – o que nos leva é a certeza. de que nada mais
poderíamos ser. senão este abismo da despedida – uma família precisa de
saudade. é assim que se mantém – por isso nos tornamos no que nos identifica. e
quando partimos. o corpo desaparece para que a saudade aprenda a viver sem nós
– um dia o caminho da saudade-silêncio chegará. sem aviso. sem despedida – não
distingue – ficamos perdidos. partimo-nos em bocados que não sabemos juntar – faltou-nos
palavra – é para isso que nascemos. para dizer. que um dia. nos tornamos
ausentes antes da partida – nascemos. deixamos a semente. e vamos sem destino –
do outro lado está a luz que me deu forma – não fiquem tristes. não vistam
gravata escura. não me tragam flores. nem prantos. tragam os netos. juntem-se
em círculo ao que sobra de mim – deem as mãos – nada mais restará para além do
que fomos
muitasvezes inventamos o
ciúme pelo prazer do encontro dos corpos. sabemos que depois da tensão. ou da
pergunta que nunca chegou a ser. surgirá a dança do cortejo – este artifício
permite que os galanteios renasçam. e que os corpos se reencontrem – assim faço
ciúme como a aranha faz a teia. para atrair o que deseja – o toque surge como
primeira carícia. lembrança daquela que inventámos no passado quando nos
procurámos – o paladar do primeiro beijo reaparece. e no arrepio do contacto
com a epiderme dissolve-se o ciúme – chega o momento em que digo. sou teu – o
suor cresce com a fusão dos corpos – a noite é minha. e o ciúme aliado – e da
alma frágil emerge a perícia da mulher – também ela usa o ciúme. e faz crescer
o desejo – depois os corpos dormem enrolados nas artimanhas do pecado venial.
sabendo que noutro dia qualquer o ciúme voltará. apenas para fazer sorrir a
noite
numa das crónicas do
antónio lobo antunes ele diz o seguinte: "só ficas adulto depois de teu
pai morrer. porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a
morte” – é exatamente quando deixamos de ver o corpo que passamos a considerar
a vida como algo que termina – não importa há quanto tempo perdemos um pai.
esse tempo nunca será medível. creio até que é sempre o mesmo. é sempre muito.
apenas se torna mais subtil com o passar dos anos – é quando entramos mais
dentro do corpo. queremos saber tudo sobre nós. para alterar o que carece de
bondade nessa relação cada vez mais distante – a única coisa que me aborrece no
tempo não é a distância entre o que sou hoje e aquilo que perdi há vinte e oito
anos. mas sim a diferença entre as memórias que tinha naquela altura. e as que
tenho hoje – às vezes quero recordá-lo. fecho os olhos. à mesa éramos cinco –
agora conto quatro – não falta ninguém. falta o número – a cadeira não está
vazia. está a mais. sou eu que conto mal
– isto sim. é a dor que espera por todos quantos perdem o pai. e sem me tornar
demasiado arrogante perante quem não teve filhos. quando um filho nasce.
torna-se de imediato na nossa estrela polar. segui-lo é uma maravilha – há uma
compreensão que nasce quando alguém passa a precisar de nós – o que sei é que a
estrela que ele seguiu continua algures. o problema é que agora sou eu quem não
sabe orientar-se – a estrela que ele seguia não me serve – caminho
se me perguntarem o que quero da vida. quero só
isto: mais um dia – parece pouco. não é – digo isto e ouço o cliché na minha
voz – quando cortamos o tempo. o erro expõe-se; abrimos a ética e a moral com
bisturi – há em nós algo que não é lei universal – é erro. às vezes só nosso.
por vezes ilusão. outras o erro atravessa quem mais gostamos – só o erro pesa
quando o levamos – o que está certo não pesa. assumimos que todos fariam o
mesmo. aí nasce a lei universal – não somos salvos pelo que está certo – o que
está certo não tem louvor. nem medalha no peito – já para o que está errado.
não funciona assim – o erro não é só nosso. não fica no corpo. nem na cabeça –
o erro não é fechado. propaga-se. não tem fim – o erro muda de nome quando é
dentro de casa. o devia aperta mais do que o fiz – o devia penaliza. o não
fizemos confirma – os anos são soma. ainda assim a juventude perdoa – olhamos o
que não tem fim. sem mapa. é quando digo. corrige. faz a soma certa – a meia
idade chega sem aviso. perde a emenda – aceitar é tudo o que lhe sobra – o erro
consolidou-se. solidificou-se. tornou-se uma bolha dentro do sapato – ao
princípio controlas a dor. depois mancas – dor é o ponto de encontro do que
somos com a consciência – há um dia em que querer mais um dia já é uma vitória
– peço mais um dia. acrescento um ano ao que dói – já não se trata de viver.
trata-se de aguentar – amanhã quero continuar a escrever. não importa se bem.
quero ser melhor do que ontem – amanhã não quero ser lido. as únicas letras que
escrevi foram para mim. quando falo em mim falo da minha família – eu sou
família – amanhã quero ser compreendido. não pelo que fiz bem. mas pelo que fiz
mal – em mim procuro ordem. sempre me definiu – nunca acreditei na desordem. na
falta de regras. de ética. de justiça – não procuro perdão. nem consolo. nem
clemência. sempre fui uma alma livre e selvagem – de mim saiu o bem e o mal. de
mim se fez a distância e a certeza. de mim se fez o amor e a loucura – procuro
retidão na justiça. ética no erro – ninguém é só o que falhou
2.
agora a pergunta é onde quero ir – aqui a resposta
é mais fácil – quero ir para o mesmo sitio de onde parti – é o único sitio onde
a escrita não tem obrigação de explicar – eu sou erro. ainda assim. nunca
abdiquei do bem – procurei-me no certo. aí encontrei a origem do que sou – não
celebro o erro. aceito-o por destino – é assim que a dor nasce com o primeiro
choro – nunca foi teatro – o bem nasce connosco. depois. o selo rompe-se com o
tempo – o meu destino nunca foi contar uma história. foi criar uma estrada com
mapa. para que quem chegue não se perca – o meu ofício na terra foi sobreviver:
consertar o tempo com o que chegou. porque tudo o que chegou é meu – escrevi a
bússola. mapeei o corpo – não há nenhum livro que me possa salvar. dentro dele
guardo os restos do que não fui. para que existam
3.
para a terceira parte a pergunta mais difícil. o
que te impede de agir para lá chegar – o que me impede de agir não é o medo de
errar. é o medo de ser injusto – errar é humano. a injustiça é falha moral –
dizem que o homem evolui. não é verdade. o homem muda. primeiro por dentro.
depois. se tiver coragem. deixa que isso se veja – evoluir é uma régua viciada.
medem-nos sempre a partir de fora – eu não preciso de provar nada a mim.
nenhuma dor me mutilará. o corpo aguenta o mundo – o problema está na moral dos
outros. em quem acha que mudei para pior. e só pensa isso quem me conhece mal
por excesso – fragmentar o conhecimento é violência. reduzir alguém a um antes
é injustiça. o erro perdoa-se. a injustiça ainda não tem lei que a absolva – quero
ser correto com o que sou. e com o que escrevo. quero que vejam o bem no erro. e
no erro a graça do humano – não podemos ser de todos
4.
por fim. a pergunta de encerramento: o que me faz
feliz – a felicidade não existe. somos o agora. e dentro deste agora cabe tudo
– se me obrigarem a responder. é simples: sou feliz a escrever. a escrita traz
consigo a verdade – entre palavras encontro a cadeira que sustenta o homem. um
braço ligado ao ser. um olho na imperfeição. uma perna pronta a fugir – repete-se
o que está justo. no papel encontra-se a ordem do que somos – o papel não
mente. mas nenhum homem é feito de papel – junto a ele chega a família que o
construiu. somos feitos de todos os que vieram antes de nós. mesmo dos que não
sabemos o nome – de que serviria a morte se com ela não chegasse a redenção – a
minha redenção é a minha família. a minha única obra digna de registo – na
minha imperfeição concebi a perfeição. sou mais inteiro ao pé dos meus filhos. e
a minha companheira: fez do meu imperfeito um lugar possível. a liga que me deu
nome e futuro – não serei o mesmo depois de a terra me chamar – fui inteiro
enquanto estive
imagina um homem com uma cicatriz na testa. funda.
impossível de ignorar. vive com ela a vida inteira. carregou-a. e entregou-a a
todos que com ele partilharam a sua existência – um dia imagina-se sem ela. os
que não o conheciam antes não diriam nada. seria apenas mais um a circular pelo
mundo. não seria mais bonito porque nunca o viram feio – quando levo a cicatriz
comigo. percebo que me olham mais tempo do que deviam. não perguntam. nunca
perguntam. há qualquer coisa em mim que parece já ser dos que me olham. como se
tivessem chegado antes de mim à conversa – o espanto não dói. fica. acompanha –
e eu deixo-os ficar. sempre vivi assim. oferecendo ao outro aquilo que não
posso retirar – há quem nada queira saber do que lhe antecede. a cicatriz
chega. e só depois há antes – se perdesse a cicatriz. não saberia o que
restava. não por falta. mas por excesso de silêncio – haveria gestos que já ninguém reconheceria. histórias
que deixariam de encontrar lugar. alguns afastar-se-iam sem saber porquê.
outros ficariam à espera de algo que não voltaria. eu seguiria inteiro por fora.
mas sem chão no ponto exato onde tudo começou – há coisas que não se retiram
sem que o mundo se desorganize um pouco – às vezes. no meio de um silêncio
partilhado aparece o amor. não como gesto bonito. mas como urgência – e ali
fica. há alguém a quem devo mais do que palavras. não o digo. deixo-o ficar. o
que não desaparece fica para sempre – escrevo para devolver o que me foi dado.
não como agradecimento. mas como forma de permanência. só assim me completo: quando
aquilo que vivi encontra lugar nas palavras – quero um espaço onde caiba
inteiro. e se um dia alguém me encontrar ali. ficará. se não. seguirá. ambas as
coisas são justas – escrevo mostrando o que me acontece quando o mundo falha.
quando um objeto se parte. quando algo não corresponde. é nesse desvio que me
reconheço. não procuro tranquilidade. procuro não mentir – no fim. resta apenas
isto: continuar a escrever como quem aceita a própria finitude. sabendo que
certas marcas não pedem explicação. e que a linguagem. quando é verdadeira.
basta
se me perguntarem o que busco na escrita respondo
sem rodeios -- procuro-me -- a escrita leva-me para um estado de transe que me
traz o que eu não sabia ter – surpreendo-me com as palavras. a escrivaninha
fica mais funda. o corpo acende-se em água. e deixo que me leve para depois do
que sou – descalço entro por corredores sem saber onde eles desaguam –
pergunto-me o que vem dos verbos – fico sem saber se saí do que sou. ou se fui
costurado pelo que entrou – a sombra colou-se ao teto. e não raras vezes quem
vejo na cadeira não sou eu – a memória descomplica-se e os ferros que me
agrilhoavam derretem ao calor do pensamento – um perfume na ferrugem dos dedos
– quando a palavra não faz sentido. escuto-me – repouso nas luzes que me dão
forma – e pergunto que porta abri para escrever o que não sei – é então que sai
de mim uma gaivota a domar o vento. leva as palavras até ao limiar da pós-vida
– tudo o que escrevo é deste mundo – ou de outro que já vivi – e isso faz-me
compreender esta realidade de forma menos brutal – é o que se impõe – por isso.
compreender-me é prolongar a vida em palavras – parto pelas mãos. não pela
ideia de partir. sigo a água – não o infinito – e já não sei se a sombra que me
atravessa pertence a este mundo. ou de outro que inventei para o suportar – a
razão do que sou chega pelo entendimento do que escrevo – bem como pela
gravidade do universo – tal como partículas que colidem – só a liberdade tem a
força de me roubar os olhos e colocá-los nas letras – transformo-me em água –
procuro o desacerto – o erro ortográfico. e interrogo-me nos corredores que
inventei para sair de mim – nem uma janela para descansar. nem uma porta para
me salvar. nem um banco para assentar – ao fim de cada texto um túmulo com o
meu nome – a tecla “a” gasta e o “h” em falta – morto – escrever é um suicídio.
uma bala lenta que rasga cada memória ao som do bater nas teclas – não posso
deixar que a mão escreva o que é só meu. mesmo louco. sei que o destino está
sempre preso ao que fui capaz de construir dentro de mim – o que me resta de
tempo não fará de mim história. talvez apenas um conto com uma mensagem: faz o
que está certo no momento certo – não depois – nem que um comboio te trepe a
alma. nem que um vagão venha cheio de adjetivos – ser livre é planar no vento
que sacode cada palavra. cada imagem – abrir as asas é a vida a fazer-te sonho
– e a sombra é o ponto final da tua história. de fazeres o certo no momento
certo – não depois
ao fim de cada ano escrevo este
texto para medir o que o tempo me deu e o que me levou – não é um balanço de
contas nem um gesto de esperança – é uma forma de tocar no que ficou. no que
nasceu. e no que partiu – escrevo para fechar o ano com memória. e abrir o
seguinte sem promessas
2026 à vista – o calendário avança mas nada se
resolve por magia – o ano termina sem fechar coisa alguma – apenas se acumula –
chegamos ao novo tempo com as mesmas virtudes gastas. e as mesmas fragilidades
intactas no corpo. porque é disso que somos feitos – esperar que tudo seja
diferente é uma forma educada de recusar a morte – o que fomos não se dissolve
na mudança do número – e sem que a mão amarre o que passou. o universo revolve
a memória segundo a segundo –
é aí quando nos apercebemos do peso de cada instante – e o que pensamos ser
cura é apenas ilusão – nenhum homem muda num segundo – o tempo é um embuste bem
montado. por isso nada recomeça por nada ter terminado – o que encontramos na
palavra esperança não é magia. mas resiliência para continuar a carregar o que
já pesa – tudo é medido em tempo. o tempo que levamos casados. o tempo dos
filhos. o tempo exato das pessoas que perdemos. dos amigos. do trabalho. e do
tempo que encontramos em nós para nos renovarmos. voltar os olhos ao futuro – é
no futuro que começa cada segundo. e dentro dele o que ainda não sabemos. carrega
a força da verdadeira transformação– a mudança de ano é uma equação lançada às estrelas. o homem insiste em
medi-la com o que tem e com o que sabe. no seu mecanismo interno. como quem dá
corda a um relógio. mexe as pernas para aceitar o tempo que chega – este. mesmo
indiferente. por vezes também alheio ao nosso sofrimento. segue para o fim –
para um tempo. apenas não existimos – quando precisamos que volte atrás. o
tempo não responde. envelhecemos e a única contagem que é certa é o nosso
desaparecimento – chegamos às vinte e quatro. o fogo estala no ar. dá-mos
gritos como quem venceu o ano. abraçámo-nos como quem abraça a vida eterna.
prometemos à primeira brisa juramentos que a tempestade leva. equando acordamos do teatro. as pancadas de
molière abrem-nos os olhos para a escuridão – num segundo mudamos o ano no
calendário. mudamos de roupa. às vezes de carro. mas o homem não acompanha essa
pressa – o nosso tempo conta um tempo que só nós sentimos – o nosso maior
desejo é impossível de ser realizado num segundo. precisamos de anos para
mudarmos o que ninguém consegue ver – o homem vive sem garantias. num segundo
perdemos a pessoa que mais amamos. num segundo ganhamos a lotaria. nada na vida
é certo. cada segundo guarda o tempo necessário para nos iludir de que amanhã
será melhor – o que faz com que brindemos a um ano novo é a raça que guardamos
dentro de nós. cada homem é uma raça em vigília. carregámo-la porque os nossos
antepassados se recusaram a desistir. rangeram os dentes e disseram: quero mais
um segundo – mas aqui estou às portas de um novo ano. para os que me conhecem
ficarei igual. nenhum segundo tem força para me mudar o suficiente para que
alguém se surpreenda comigo – mas para mim. continuarei com a minha mudança
silenciosa. envelhecer cada dia com mais luz. abrir a janela. e deixar o ar
correr dentro de mim – mas eu sei que o próximo ano não será igual a este. isso
deve-se à raça que habita em cada um de nós – a minha neta carolina nasceu.
resistiu a nove meses de gestação. e no seu segundo. com a nossa raça. eclodiu
no mundo com a grandeza que todos os bebés trazem consigo – a família com o seu
nascimento percebeu que o passado nunca fica para trás. levámo-lo para a frente
de nós. dá-nos a eternidade. passamos o testemunho para que os segundos façam
tempo. porque só com pessoas existe tempo – sem filhos e netos para que servia
o tempo? tudo podia acabar amanhã que nenhum sino tocava o nosso nome. nenhum
ouvido pediria silêncio – eu conto o tempo porque conto a família viva. nós
todos somos uma cápsula de tempo aberta. e é naquele segundo que mudamos o
calendário. e temos a coragem de fazer o deve e haver do ano. às vezes de
vários anos. às vezes apenas olhando para o céu. e em cada foguete que sobe ao infinito.
uma memória dos meus pais. e pergunto ao universo. porque não me dás apenas um
segundo intacto desse passado – as saudades não têm tempo – quando perdemos
alguém que amamos o tempo não existe. é tudo hoje. o beijo é de hoje. o abraço
é de hoje. a chávena do pequeno almoço quente. e a comida na mesa a fumegar. e
as cadeiras ocupadas de nós todos – não podemos esquecer. mas temos a obrigação
de continuar. é preciso deixar aos filhos a força da perda. somos nós. os pais.
que transformamos esta saudade num número de calendário. ser forte é saber
recordar – o calendário nasceu porque a memória é seletiva e precisa de datas
para não se perder – este ano um fecho honrou-nos em silêncio – o meu filho
joão. em janeiro. concluiu o seu doutoramento em tecnologias e sistemas de
informação – e passou a ensinar de forma plena – realizou um dos meus sonhos.
ver um filho honrar o saber pelo gesto de ensinar – vê-lo lecionar na
universidade é perceber que o conhecimento também é uma forma de continuidade –
setembro também o guardei para ele e para a minha nova nora sofia – o melhor
setembro da minha memória – nesse mês deixou de precisar do meu nome para
existir – e isso não doeu como eu temia – ensinou-me onde acaba o pai e começa
o homem – as mãos dadas. o silêncio em mim à espera do sim. e a certeza de que
o deus deles os vai guardar para sempre – eu e a mãe levámo-lo ao altar. e
saímos pela primeira vez em quarenta anos sem filhos. trazíamos a cobrir-nos o
dever cumprido. e nos lábios o nosso sim: sim. fizemos tudo certo. o tempus
nostrum entregue aos frutos do amor – há outros nomes que vivem não apenas este
ano. mas em todos. completam o puzzle daquilo que sou – o luís e o pedro são
outros dois filhos que caminham comigo e me levam para a frente – que bons eles
são. parecidos com o avô – o pedro tem apenas uma promessa por cumprir. eu espero.
tenho tempo – as noras andreia e bela. acrescentam luz. uma mais recatada.
outra mais expansiva – as diferenças aproximam-nas – que bom – os netos.
beatriz e santiago. devolvem-me a inocência – uma referência especial à minha
neta beatriz. que este ano aprendeu que quando se trabalha com seriedade os
resultados aparecem – a excelência começa a mostrar-se – e por fim a avó lurdes
lembra-nos que o tempo também sabe ficar. a memória compreende. o corpo resiste
– quem já não precisa de calendário é a minha companheira há muito tempo – nós
já não sabemos quando começou esse dia – fundimo-nos um no outro sem ruído – é
ela que organiza o meu caos. mantém a casa de pé quando o tempo deixa de contar
comigo. e o silêncio que partilhamos é o castelo que me protege – ela é a
certeza de que a bondade pode caminhar pelo tempo sem pedir lugar à vaidade –
abre e fecha a circunferência invisível da família. impede-nos de quebrar.
resistimos à desordem do mundo. o passe-partout onde todos descansamos – são os
segundos dela que dão valor ao nosso tempo – houve ainda este ano um lugar onde
o tempo deixou de me pesar – foi no boom festival que fui levado para fora do
que pensava ser – o corpo aprendeu outra vez a escutar. a consciência abriu uma
porta que eu julgava fechada – não fui procurar nada. mas encontrei-me – chorei
o que não tinha chorado. enterrei o que julgava enterrado – voltei com menos
certezas. e com mais espaço dentro de mim – sei apenas isto: não voltei igual –
obrigado. luís silva. por me levares a um novo conhecimento –importante também
este ano e de relembrar para sempre. foi a luz com que a minha irmã mais velha
atravessou a sua doença – aos setenta e seis anos ensinou-nos que a vida não se
vence. luta-se – hoje está curada. não porque derrotou a morte. mas porque
soube ficar de pé enquanto ela passava – ela é o nosso grande exemplo de luz
serena – ainda bem que o tempo me deu o tempo para lhe dizer que a amo – é a
minha irmã. aurora – creio que chegou o momento de fechar o ano. nada deve ser
prolongado quando o tempo tem a sua hora de fecho – os amigos são sempre
importantes – não vou enumerá-los – eu e eles sabemos quem são – sabemos também
que são como os corais – protegem o nosso habitat. mesmo quando moramos no cimo
de uma onda – são quase sempre eles que nos seguram. para que o fim não se
proclame pelos sete mares – aos mais próximos exigimos sempre mais. queremos
receber o mesmo que guardámos dentro do que construímos – às vezes não é
possível. somos todos diferentes. mesmo sendo muito parecidos nos desígnios do
caminho – mas não há ano que não traga uma boa colheita – ângela e marco. bem
vindos ao meu tempo. foi aquele segundo que nos ligou – este ano também tive
segundos perdidos para sempre. o almeno gonçalves partiu. viveu na minha
adolescência e depois correu para lisboa à procura do seu grande amor: o teatro
– ficam as recordações – recuperei imenso de mim neste ano. encontrei-me com o
meu passado. e fiz-me mais bonito – a família e os amigos não pesam. sentam-se
ao nosso lado e fazem o tempo connosco – bem-vindo dois mil e vinte e seis