I.
o
mar traz. o mar leva
– abri a gaveta onde vou adiando todas as decisões. aquele lugar onde
descartamos a mente de precisão: um dia vou deitar atenção ao que está aqui
dentro – um talão de compra de um bisegre. uma chave sem porta. uma pilha sem
carga. e a esperança de que um dia tudo volte a fazer sentido – a gaveta é um
pouco como um aterro sanitário. um papel cobre outro até que o tempo o
decomponha pela inutilidade – hoje resolvi abrir a gaveta. remexi os papéis.
cada um deles menos importante do que outro. e foi então que a gaveta me fez
uma pergunta: o que me fez guardar estes bisegres? procuro a resposta. dentro
de mim a gaveta está tão desarrumada como a memória: já não há espaço para tudo
nem para todos – abro caminho por dentro de mim. retiro o pó. arrumo as pedras
para as abas do mundo. sopro as teias de aranhas. e entre pernas o caminho é
feito de fé – tudo em mim é movido a fé – já não quero guardar o que não presta
– ao princípio cada coisa encontrava o seu lugar. uma caixa de rapé. um bilhete
sem viagem de regresso. e a passadeira sem pegadas – agora. estou parado
comigo. a olhar o que a vida teceu – envelheci. e aprendi que as nossas
escolhas se tornam mais leves quando nos olhamos sem medo do passado – nada no tempo
que gastei me pesa – a minha natureza não é feita de medo. aprendi a perdoar-me.
sou o melhor de mim. afinal o que posso fazer se tudo no mundo é novo e
aprendizagem – a inteligência nunca está pronta. cresce onde existe humildade
para continuar a aprender – cada dia é uma oferta do universo – não tenho arrependimento
do que parte. só parte o que chegou. tal como as marés. e nem por isso a lua se
zanga – amanhã será sempre um dia novo para mim. e se me conheço. encontrarei
outro atalho para chegar mais depressa ao que sou – o tempo não levou tudo.
deixou-me o suficiente para continuar a lembrar-me – sou a consequência de tudo
o que vivi. irrepetível – nem sempre virtude. quase nunca defeito. a verdade já
pesa o suficiente – sou antes vontade de viver. voltar atrás não é solução. a
razão da vida é o desafio. perna que não caminha não vê o mundo – ocupo-me e
desocupo-me. entre o que guardo e o que deixo para trás. descubro sempre que a
gaveta é mais pequena do que a vida – envelheci. passei anos a acreditar que
tinha de provar quem era. hoje fecho a gaveta. a soberba continua a confundir
altura com grandeza – viver sem medo aproximou-me de quem sou. mas uma gaveta desarrumada
é mais bonita fechada – a esperança cria o melhor e o pior de mim. leva-me ao
futuro. liberta-me do passado – o que perco está sempre no dia que já passou – desenterro-me
da gaveta e procuro viver. pois também existo nas escolhas. mesmo quando
tomadas de erros ingénuos – sou o primeiro habitante do mundo que planto. e
anfitrião da paz que nele habita – mas não desisto. há em mim verdade
suficiente para continuar a existir como sou – não mudo por ninguém. mesmo que
o punhal seja do tamanho do inferno – sorrio e interrogo-me novamente: sou tudo
o que há dentro desta gaveta. ou sou muito mais fora dela? o que importa isso
se sempre me sinto acompanhado. se as fotos nas paredes servem para me dizer
que já vivi outras realidades – interrogo-me novamente: o que leva as fotos a
atirarem-se ao nada? talvez o cansaço de viverem. ou de verem os outros
viverem. ou por apenas conhecerem a rua onde o que pensam existe – há quem viva
fechado dentro das próprias certezas. convencido de que o mundo termina onde
acaba o seu olhar. há quem entregue a própria vida às mãos dos outros. até
deixar de reconhecer a voz que traz por dentro. entre a soberba de quem julga
saber tudo. e o silêncio de quem já não sabe quem é. procuro apenas continuar
inteiro – e no mundo onde escolho viver. o que me magoa não me merece – o que
não soma. subtraio – o mar continua a trazer. o mar continua a levar. e eu
continuo à beira dele. pronto para acolher apenas o que me fizer crescer
II.
todas as perdas começam muito antes da
despedida. este texto nunca terá um fim. haverá sempre uma palavra à procura do
último ponto. por isso fica assim. incompleto. como eu