um aniversário vale pela memória – o que fizemos e
guardamos – sexta-feira somei mais um ano. cheguei ao hoje. que nada mais é que
o prenúncio do dia seguinte – juntei a família e amigos – estavam todos – e
celebrei a vida que me guarda. à volta de uma mesa cheia. num ruído bom que não
queria que acabasse – e ficou em mim – a família é o meu único propósito. o
único chamamento que reconheço. o que me leva sem margem. só caminho – o
nascimento aconteceu. depois fui obrigado a crescer. e ainda não parei – o que
levo deste aniversário são as presenças que me ajudaram a soprar as velas. e
esta música que me ofereceram – a felicidade é tão efémera. para sempre fica a
melodia – obrigado
sampaio[r]ego
21/04/2026
cheguei ao hoje
16/04/2026
escuridão vista de dentro: um inventário aos anos
1.
aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda
existem dentro de mim. e também nas coisas. que não estando dentro de mim. me
iluminam como iluminam as auroras do norte – faz anos hoje que nasci. e da
viagem nada. nem mapa de mim – sempre que este dia regressa penso nas coisas
boas que me aconteceram. na chuva que me molhou. nos lábios que me beijaram
como se fossem primavera. e no voo doce que me levou para onde já não caio –
e agora que o tempo é menos do que sou. o que faço comigo? vivo com quê?
recordo os afetos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e
me corrói a alma como um corpo fora do seu lugar – vivo sem vagar – o mundo
moldou-me na forma que eu escolhi – a verdade é que são as coisas que existem
em mim que me fazem do tamanho que sou – e dou por mim a contar os anos. mais
um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. sei que se faz tarde para o que
há de vir – só resguardado estou sereno. só resguardado sou eu numa verdade boa
– e já não sei onde começa o tempo em mim – há dias em que sorrio por gratidão
e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo.
fortifico-me com a fé num deus que inventei só para mim –- resisto -- conto as
rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não posso evitar.
desespero. insulto-me com palavras e juro que estou ainda mais vivo do que
ontem – corro ao redor de cadeiras que nunca se ocupam. enquanto a chuva entra-me
pelos olhos e fica – esbracejo e grito com o que me resta para a vida:
aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti. mas pelo que trago em mim. esta
é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr
numa casa saqueada que é tudo em mim – tudo o que tenho é nada. e mesmo assim.
campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e
eu aqui a ler o tempo até me doer os olhos. as mãos a rasgar o dia de ontem. as
lembranças a sangrar. e o sino tlim… tlam… tlim… tlam… não chama. conta – o
silêncio pesa – fujam… fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o
vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou
neste corpo envelhecido o inventário de tudo o que o tempo me trouxe – aqui me
encontro ainda eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra –
se deus me desse uma vela e um sopro. apagava toda a tristeza que guardei para
sobreviver – procuro ainda esperança. ainda tempo. ainda tudo o que sempre
procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo que me gasta –
toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso.
outras. amargos de boca – não importa. tudo se perdoa quando o outono chega – a
cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas
valiosas cada vez mais afastadas – não por fugirem. mas por eu já não chegar – só
tenho uma vida – o desespero é a minha pele desde o dia em que me obriguei a
crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu para um
silêncio onde não entro – e nunca mais ninguém soube onde guardar a casa – as
coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários quisessem
rebobinar os dias – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro
inferno. e o que imagino é um negro que me fere por dentro – nenhuma palavra será
gaivota. nem me levará onde eu sou – nada acontece às velas que não ardem – e
eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo. e que
sofro sempre que as tomo em silêncio – é tudo o que sei fazer – o mundo só me
tem servido para envelhecer – aqui estou. e é neste corpo que tudo termina em
mim
2.
e agora falo para vocês – é por isso que às vezes
creio que sou sábio. é quando olho em redor. e percebo que tudo é muito mais do
que eu consigo carregar – e o que é um homem arrastado no tempo? é vida – sou
mais do que quando nasci. e menos do que imaginei ser – sou dois parêntesis
abertos à espera de sentido. existo por não estar só. construí-me com o que
sobrou do mundo – nunca me perdi de mim. encontrei-me no que vinha antes.
recebi um nome. dei-o – e o que sou ficou – e depois vieram vocês. não como futuro.
mas como começo – os meus filhos são a origem do mundo. antes deles eu não
existia. só depois apareceram as estrelas. os oceanos encheram-se de peixes. as
gaivotas fizeram liberdade. e do sol cresceram os bem-me-queres – eles sempre
existiram em mim – não me lembro de um único dia sem eles. só com eles me
tornei inteiro – nenhum filho me deve nada. tudo o que me deram foi mais do que
uma fotografia guardada – sou pai. não poderia ter sido mais nada – mesmo que tivesse
direito a um sonho – o que vos deixo começa antes de vocês – já tu eras começo
– ao meu lado. o belo tem o teu rosto. como se o sim nunca tivesse acabado – a
nossa vida tem sido isto: anos a falar. e o dia seguinte a chegar doce – amar-te
foi a coisa mais simples que o coração aprendeu – tem sido tão bom envelhecer a
teu lado. estamos tão crescidos que até os sonhos vieram de nós – todos os dias
começam nos teus olhos – há dias em quero recordar os vossos avós. mas já passou
tanto tempo. que nem sempre os consigo ver – lembro-me do último beijo. e isso
basta – quando envelhecemos. a memória falha. mas o amor não – guardem o que se
perde. antes que se apague – a vida tenta sempre tomar-nos o espírito. é quando
chamamos a liberdade. mudamos de rosto para permanecer – sair. caminhar. viajar.
saber o bastante para continuar. fazer amigos. perdê-los. aprender a amar no
intervalo – entregar-se ao mundo. procurar-se nele – há sempre um lugar que
recolhe – falar com os animais. eles escutam melhor do que muitos humanos –
tocar a natureza. pousar o ouvido. é lá que o melhor fica – juntar a família
não há dia certo. qualquer um serve – oferecer ao universo o que somos – isso
basta – enquanto o destino deles dependia de mim. nunca pude ser o que queria
ser – agora. sou o que sou – e deles só espero amizade. companheirismo. que
caminhem ao meu lado. mesmo quando não entendem – isso é o amor impossível – os
pais não são apenas um corpo. ficam – quando a idade nos mostra o fim do
caminho. o mais importante é perceber o que nos trouxe até aqui – aceitar o que
trazemos. mesmo que seja pouco – o que nos leva é a certeza. de que nada mais
poderíamos ser. senão este abismo da despedida – uma família precisa de
saudade. é assim que se mantém – por isso nos tornamos no que nos identifica. e
quando partimos. o corpo desaparece para que a saudade aprenda a viver sem nós
– um dia o caminho da saudade-silêncio chegará. sem aviso. sem despedida – não
distingue – ficamos perdidos. partimo-nos em bocados que não sabemos juntar – faltou-nos
palavra – é para isso que nascemos. para dizer. que um dia. nos tornamos
ausentes antes da partida – nascemos. deixamos a semente. e vamos sem destino –
do outro lado está a luz que me deu forma – não fiquem tristes. não vistam
gravata escura. não me tragam flores. nem prantos. tragam os netos. juntem-se
em círculo ao que sobra de mim – deem as mãos – nada mais restará para além do
que fomos
27/03/2026
dança do ciúme
muitas vezes inventamos o
ciúme pelo prazer do encontro dos corpos. sabemos que depois da tensão. ou da
pergunta que nunca chegou a ser. surgirá a dança do cortejo – este artifício
permite que os galanteios renasçam. e que os corpos se reencontrem – assim faço
ciúme como a aranha faz a teia. para atrair o que deseja – o toque surge como
primeira carícia. lembrança daquela que inventámos no passado quando nos
procurámos – o paladar do primeiro beijo reaparece. e no arrepio do contacto
com a epiderme dissolve-se o ciúme – chega o momento em que digo. sou teu – o
suor cresce com a fusão dos corpos – a noite é minha. e o ciúme aliado – e da
alma frágil emerge a perícia da mulher – também ela usa o ciúme. e faz crescer
o desejo – depois os corpos dormem enrolados nas artimanhas do pecado venial.
sabendo que noutro dia qualquer o ciúme voltará. apenas para fazer sorrir a
noite
17/03/2026
março. o tempo não conta
numa das crónicas do
antónio lobo antunes ele diz o seguinte: "só ficas adulto depois de teu
pai morrer. porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a
morte” – é exatamente quando deixamos de ver o corpo que passamos a considerar
a vida como algo que termina – não importa há quanto tempo perdemos um pai.
esse tempo nunca será medível. creio até que é sempre o mesmo. é sempre muito.
apenas se torna mais subtil com o passar dos anos – é quando entramos mais
dentro do corpo. queremos saber tudo sobre nós. para alterar o que carece de
bondade nessa relação cada vez mais distante – a única coisa que me aborrece no
tempo não é a distância entre o que sou hoje e aquilo que perdi há vinte e oito
anos. mas sim a diferença entre as memórias que tinha naquela altura. e as que
tenho hoje – às vezes quero recordá-lo. fecho os olhos. à mesa éramos cinco –
agora conto quatro – não falta ninguém. falta o número – a cadeira não está
vazia. está a mais. sou eu que conto mal
– isto sim. é a dor que espera por todos quantos perdem o pai. e sem me tornar
demasiado arrogante perante quem não teve filhos. quando um filho nasce.
torna-se de imediato na nossa estrela polar. segui-lo é uma maravilha – há uma
compreensão que nasce quando alguém passa a precisar de nós – o que sei é que a
estrela que ele seguiu continua algures. o problema é que agora sou eu quem não
sabe orientar-se – a estrela que ele seguia não me serve – caminho
17 de março de
1998
02/03/2026
dentro do que ficou
1.
se me perguntarem o que quero da vida. quero só
isto: mais um dia – parece pouco. não é – digo isto e ouço o cliché na minha
voz – quando cortamos o tempo. o erro expõe-se; abrimos a ética e a moral com
bisturi – há em nós algo que não é lei universal – é erro. às vezes só nosso.
por vezes ilusão. outras o erro atravessa quem mais gostamos – só o erro pesa
quando o levamos – o que está certo não pesa. assumimos que todos fariam o
mesmo. aí nasce a lei universal – não somos salvos pelo que está certo – o que
está certo não tem louvor. nem medalha no peito – já para o que está errado.
não funciona assim – o erro não é só nosso. não fica no corpo. nem na cabeça –
o erro não é fechado. propaga-se. não tem fim – o erro muda de nome quando é
dentro de casa. o devia aperta mais do que o fiz – o devia penaliza. o não
fizemos confirma – os anos são soma. ainda assim a juventude perdoa – olhamos o
que não tem fim. sem mapa. é quando digo. corrige. faz a soma certa – a meia
idade chega sem aviso. perde a emenda – aceitar é tudo o que lhe sobra – o erro
consolidou-se. solidificou-se. tornou-se uma bolha dentro do sapato – ao
princípio controlas a dor. depois mancas – dor é o ponto de encontro do que
somos com a consciência – há um dia em que querer mais um dia já é uma vitória
– peço mais um dia. acrescento um ano ao que dói – já não se trata de viver.
trata-se de aguentar – amanhã quero continuar a escrever. não importa se bem.
quero ser melhor do que ontem – amanhã não quero ser lido. as únicas letras que
escrevi foram para mim. quando falo em mim falo da minha família – eu sou
família – amanhã quero ser compreendido. não pelo que fiz bem. mas pelo que fiz
mal – em mim procuro ordem. sempre me definiu – nunca acreditei na desordem. na
falta de regras. de ética. de justiça – não procuro perdão. nem consolo. nem
clemência. sempre fui uma alma livre e selvagem – de mim saiu o bem e o mal. de
mim se fez a distância e a certeza. de mim se fez o amor e a loucura – procuro
retidão na justiça. ética no erro – ninguém é só o que falhou
2.
agora a pergunta é onde quero ir – aqui a resposta
é mais fácil – quero ir para o mesmo sitio de onde parti – é o único sitio onde
a escrita não tem obrigação de explicar – eu sou erro. ainda assim. nunca
abdiquei do bem – procurei-me no certo. aí encontrei a origem do que sou – não
celebro o erro. aceito-o por destino – é assim que a dor nasce com o primeiro
choro – nunca foi teatro – o bem nasce connosco. depois. o selo rompe-se com o
tempo – o meu destino nunca foi contar uma história. foi criar uma estrada com
mapa. para que quem chegue não se perca – o meu ofício na terra foi sobreviver:
consertar o tempo com o que chegou. porque tudo o que chegou é meu – escrevi a
bússola. mapeei o corpo – não há nenhum livro que me possa salvar. dentro dele
guardo os restos do que não fui. para que existam
3.
para a terceira parte a pergunta mais difícil. o
que te impede de agir para lá chegar – o que me impede de agir não é o medo de
errar. é o medo de ser injusto – errar é humano. a injustiça é falha moral –
dizem que o homem evolui. não é verdade. o homem muda. primeiro por dentro.
depois. se tiver coragem. deixa que isso se veja – evoluir é uma régua viciada.
medem-nos sempre a partir de fora – eu não preciso de provar nada a mim.
nenhuma dor me mutilará. o corpo aguenta o mundo – o problema está na moral dos
outros. em quem acha que mudei para pior. e só pensa isso quem me conhece mal
por excesso – fragmentar o conhecimento é violência. reduzir alguém a um antes
é injustiça. o erro perdoa-se. a injustiça ainda não tem lei que a absolva – quero
ser correto com o que sou. e com o que escrevo. quero que vejam o bem no erro. e
no erro a graça do humano – não podemos ser de todos
4.
por fim. a pergunta de encerramento: o que me faz
feliz – a felicidade não existe. somos o agora. e dentro deste agora cabe tudo
– se me obrigarem a responder. é simples: sou feliz a escrever. a escrita traz
consigo a verdade – entre palavras encontro a cadeira que sustenta o homem. um
braço ligado ao ser. um olho na imperfeição. uma perna pronta a fugir – repete-se
o que está justo. no papel encontra-se a ordem do que somos – o papel não
mente. mas nenhum homem é feito de papel – junto a ele chega a família que o
construiu. somos feitos de todos os que vieram antes de nós. mesmo dos que não
sabemos o nome – de que serviria a morte se com ela não chegasse a redenção – a
minha redenção é a minha família. a minha única obra digna de registo – na
minha imperfeição concebi a perfeição. sou mais inteiro ao pé dos meus filhos. e
a minha companheira: fez do meu imperfeito um lugar possível. a liga que me deu
nome e futuro – não serei o mesmo depois de a terra me chamar – fui inteiro
enquanto estive
06/02/2026
cicatriz
imagina um homem com uma cicatriz na testa. funda.
impossível de ignorar. vive com ela a vida inteira. carregou-a. e entregou-a a
todos que com ele partilharam a sua existência – um dia imagina-se sem ela. os
que não o conheciam antes não diriam nada. seria apenas mais um a circular pelo
mundo. não seria mais bonito porque nunca o viram feio – quando levo a cicatriz
comigo. percebo que me olham mais tempo do que deviam. não perguntam. nunca
perguntam. há qualquer coisa em mim que parece já ser dos que me olham. como se
tivessem chegado antes de mim à conversa – o espanto não dói. fica. acompanha –
e eu deixo-os ficar. sempre vivi assim. oferecendo ao outro aquilo que não
posso retirar – há quem nada queira saber do que lhe antecede. a cicatriz
chega. e só depois há antes – se perdesse a cicatriz. não saberia o que
restava. não por falta. mas por excesso de silêncio – haveria gestos que já ninguém reconheceria. histórias
que deixariam de encontrar lugar. alguns afastar-se-iam sem saber porquê.
outros ficariam à espera de algo que não voltaria. eu seguiria inteiro por fora.
mas sem chão no ponto exato onde tudo começou – há coisas que não se retiram
sem que o mundo se desorganize um pouco – às vezes. no meio de um silêncio
partilhado aparece o amor. não como gesto bonito. mas como urgência – e ali
fica. há alguém a quem devo mais do que palavras. não o digo. deixo-o ficar. o
que não desaparece fica para sempre – escrevo para devolver o que me foi dado.
não como agradecimento. mas como forma de permanência. só assim me completo: quando
aquilo que vivi encontra lugar nas palavras – quero um espaço onde caiba
inteiro. e se um dia alguém me encontrar ali. ficará. se não. seguirá. ambas as
coisas são justas – escrevo mostrando o que me acontece quando o mundo falha.
quando um objeto se parte. quando algo não corresponde. é nesse desvio que me
reconheço. não procuro tranquilidade. procuro não mentir – no fim. resta apenas
isto: continuar a escrever como quem aceita a própria finitude. sabendo que
certas marcas não pedem explicação. e que a linguagem. quando é verdadeira.
basta
19/01/2026
o corpo aceso em água
se me perguntarem o que busco na escrita respondo
sem rodeios -- procuro-me -- a escrita leva-me para um estado de transe que me
traz o que eu não sabia ter – surpreendo-me com as palavras. a escrivaninha
fica mais funda. o corpo acende-se em água. e deixo que me leve para depois do
que sou – descalço entro por corredores sem saber onde eles desaguam –
pergunto-me o que vem dos verbos – fico sem saber se saí do que sou. ou se fui
costurado pelo que entrou – a sombra colou-se ao teto. e não raras vezes quem
vejo na cadeira não sou eu – a memória descomplica-se e os ferros que me
agrilhoavam derretem ao calor do pensamento – um perfume na ferrugem dos dedos
– quando a palavra não faz sentido. escuto-me – repouso nas luzes que me dão
forma – e pergunto que porta abri para escrever o que não sei – é então que sai
de mim uma gaivota a domar o vento. leva as palavras até ao limiar da pós-vida
– tudo o que escrevo é deste mundo – ou de outro que já vivi – e isso faz-me
compreender esta realidade de forma menos brutal – é o que se impõe – por isso.
compreender-me é prolongar a vida em palavras – parto pelas mãos. não pela
ideia de partir. sigo a água – não o infinito – e já não sei se a sombra que me
atravessa pertence a este mundo. ou de outro que inventei para o suportar – a
razão do que sou chega pelo entendimento do que escrevo – bem como pela
gravidade do universo – tal como partículas que colidem – só a liberdade tem a
força de me roubar os olhos e colocá-los nas letras – transformo-me em água –
procuro o desacerto – o erro ortográfico. e interrogo-me nos corredores que
inventei para sair de mim – nem uma janela para descansar. nem uma porta para
me salvar. nem um banco para assentar – ao fim de cada texto um túmulo com o
meu nome – a tecla “a” gasta e o “h” em falta – morto – escrever é um suicídio.
uma bala lenta que rasga cada memória ao som do bater nas teclas – não posso
deixar que a mão escreva o que é só meu. mesmo louco. sei que o destino está
sempre preso ao que fui capaz de construir dentro de mim – o que me resta de
tempo não fará de mim história. talvez apenas um conto com uma mensagem: faz o
que está certo no momento certo – não depois – nem que um comboio te trepe a
alma. nem que um vagão venha cheio de adjetivos – ser livre é planar no vento
que sacode cada palavra. cada imagem – abrir as asas é a vida a fazer-te sonho
– e a sombra é o ponto final da tua história. de fazeres o certo no momento
certo – não depois
30/12/2025
2026. a incerteza do tempo
nota de autor
ao fim de cada ano escrevo este
texto para medir o que o tempo me deu e o que me levou – não é um balanço de
contas nem um gesto de esperança – é uma forma de tocar no que ficou. no que
nasceu. e no que partiu – escrevo para fechar o ano com memória. e abrir o
seguinte sem promessas
2026 à vista – o calendário avança mas nada se
resolve por magia – o ano termina sem fechar coisa alguma – apenas se acumula –
chegamos ao novo tempo com as mesmas virtudes gastas. e as mesmas fragilidades
intactas no corpo. porque é disso que somos feitos – esperar que tudo seja
diferente é uma forma educada de recusar a morte – o que fomos não se dissolve
na mudança do número – e sem que a mão amarre o que passou. o universo revolve
a memória segundo a segundo –
é aí quando nos apercebemos do peso de cada instante – e o que pensamos ser
cura é apenas ilusão – nenhum homem muda num segundo – o tempo é um embuste bem
montado. por isso nada recomeça por nada ter terminado – o que encontramos na
palavra esperança não é magia. mas resiliência para continuar a carregar o que
já pesa – tudo é medido em tempo. o tempo que levamos casados. o tempo dos
filhos. o tempo exato das pessoas que perdemos. dos amigos. do trabalho. e do
tempo que encontramos em nós para nos renovarmos. voltar os olhos ao futuro – é
no futuro que começa cada segundo. e dentro dele o que ainda não sabemos. carrega
a força da verdadeira transformação – a mudança de ano é uma equação lançada às estrelas. o homem insiste em
medi-la com o que tem e com o que sabe. no seu mecanismo interno. como quem dá
corda a um relógio. mexe as pernas para aceitar o tempo que chega – este. mesmo
indiferente. por vezes também alheio ao nosso sofrimento. segue para o fim –
para um tempo. apenas não existimos – quando precisamos que volte atrás. o
tempo não responde. envelhecemos e a única contagem que é certa é o nosso
desaparecimento – chegamos às vinte e quatro. o fogo estala no ar. dá-mos
gritos como quem venceu o ano. abraçámo-nos como quem abraça a vida eterna.
prometemos à primeira brisa juramentos que a tempestade leva. e quando acordamos do teatro. as pancadas de
molière abrem-nos os olhos para a escuridão – num segundo mudamos o ano no
calendário. mudamos de roupa. às vezes de carro. mas o homem não acompanha essa
pressa – o nosso tempo conta um tempo que só nós sentimos – o nosso maior
desejo é impossível de ser realizado num segundo. precisamos de anos para
mudarmos o que ninguém consegue ver – o homem vive sem garantias. num segundo
perdemos a pessoa que mais amamos. num segundo ganhamos a lotaria. nada na vida
é certo. cada segundo guarda o tempo necessário para nos iludir de que amanhã
será melhor – o que faz com que brindemos a um ano novo é a raça que guardamos
dentro de nós. cada homem é uma raça em vigília. carregámo-la porque os nossos
antepassados se recusaram a desistir. rangeram os dentes e disseram: quero mais
um segundo – mas aqui estou às portas de um novo ano. para os que me conhecem
ficarei igual. nenhum segundo tem força para me mudar o suficiente para que
alguém se surpreenda comigo – mas para mim. continuarei com a minha mudança
silenciosa. envelhecer cada dia com mais luz. abrir a janela. e deixar o ar
correr dentro de mim – mas eu sei que o próximo ano não será igual a este. isso
deve-se à raça que habita em cada um de nós – a minha neta carolina nasceu.
resistiu a nove meses de gestação. e no seu segundo. com a nossa raça. eclodiu
no mundo com a grandeza que todos os bebés trazem consigo – a família com o seu
nascimento percebeu que o passado nunca fica para trás. levámo-lo para a frente
de nós. dá-nos a eternidade. passamos o testemunho para que os segundos façam
tempo. porque só com pessoas existe tempo – sem filhos e netos para que servia
o tempo? tudo podia acabar amanhã que nenhum sino tocava o nosso nome. nenhum
ouvido pediria silêncio – eu conto o tempo porque conto a família viva. nós
todos somos uma cápsula de tempo aberta. e é naquele segundo que mudamos o
calendário. e temos a coragem de fazer o deve e haver do ano. às vezes de
vários anos. às vezes apenas olhando para o céu. e em cada foguete que sobe ao infinito.
uma memória dos meus pais. e pergunto ao universo. porque não me dás apenas um
segundo intacto desse passado – as saudades não têm tempo – quando perdemos
alguém que amamos o tempo não existe. é tudo hoje. o beijo é de hoje. o abraço
é de hoje. a chávena do pequeno almoço quente. e a comida na mesa a fumegar. e
as cadeiras ocupadas de nós todos – não podemos esquecer. mas temos a obrigação
de continuar. é preciso deixar aos filhos a força da perda. somos nós. os pais.
que transformamos esta saudade num número de calendário. ser forte é saber
recordar – o calendário nasceu porque a memória é seletiva e precisa de datas
para não se perder – este ano um fecho honrou-nos em silêncio – o meu filho
joão. em janeiro. concluiu o seu doutoramento em tecnologias e sistemas de
informação – e passou a ensinar de forma plena – realizou um dos meus sonhos.
ver um filho honrar o saber pelo gesto de ensinar – vê-lo lecionar na
universidade é perceber que o conhecimento também é uma forma de continuidade –
setembro também o guardei para ele e para a minha nova nora sofia – o melhor
setembro da minha memória – nesse mês deixou de precisar do meu nome para
existir – e isso não doeu como eu temia – ensinou-me onde acaba o pai e começa
o homem – as mãos dadas. o silêncio em mim à espera do sim. e a certeza de que
o deus deles os vai guardar para sempre – eu e a mãe levámo-lo ao altar. e
saímos pela primeira vez em quarenta anos sem filhos. trazíamos a cobrir-nos o
dever cumprido. e nos lábios o nosso sim: sim. fizemos tudo certo. o tempus
nostrum entregue aos frutos do amor – há outros nomes que vivem não apenas este
ano. mas em todos. completam o puzzle daquilo que sou – o luís e o pedro são
outros dois filhos que caminham comigo e me levam para a frente – que bons eles
são. parecidos com o avô – o pedro tem apenas uma promessa por cumprir. eu espero.
tenho tempo – as noras andreia e bela. acrescentam luz. uma mais recatada.
outra mais expansiva – as diferenças aproximam-nas – que bom – os netos.
beatriz e santiago. devolvem-me a inocência – uma referência especial à minha
neta beatriz. que este ano aprendeu que quando se trabalha com seriedade os
resultados aparecem – a excelência começa a mostrar-se – e por fim a avó lurdes
lembra-nos que o tempo também sabe ficar. a memória compreende. o corpo resiste
– quem já não precisa de calendário é a minha companheira há muito tempo – nós
já não sabemos quando começou esse dia – fundimo-nos um no outro sem ruído – é
ela que organiza o meu caos. mantém a casa de pé quando o tempo deixa de contar
comigo. e o silêncio que partilhamos é o castelo que me protege – ela é a
certeza de que a bondade pode caminhar pelo tempo sem pedir lugar à vaidade –
abre e fecha a circunferência invisível da família. impede-nos de quebrar.
resistimos à desordem do mundo. o passe-partout onde todos descansamos – são os
segundos dela que dão valor ao nosso tempo – houve ainda este ano um lugar onde
o tempo deixou de me pesar – foi no boom festival que fui levado para fora do
que pensava ser – o corpo aprendeu outra vez a escutar. a consciência abriu uma
porta que eu julgava fechada – não fui procurar nada. mas encontrei-me – chorei
o que não tinha chorado. enterrei o que julgava enterrado – voltei com menos
certezas. e com mais espaço dentro de mim – sei apenas isto: não voltei igual –
obrigado. luís silva. por me levares a um novo conhecimento –importante também
este ano e de relembrar para sempre. foi a luz com que a minha irmã mais velha
atravessou a sua doença – aos setenta e seis anos ensinou-nos que a vida não se
vence. luta-se – hoje está curada. não porque derrotou a morte. mas porque
soube ficar de pé enquanto ela passava – ela é o nosso grande exemplo de luz
serena – ainda bem que o tempo me deu o tempo para lhe dizer que a amo – é a
minha irmã. aurora – creio que chegou o momento de fechar o ano. nada deve ser
prolongado quando o tempo tem a sua hora de fecho – os amigos são sempre
importantes – não vou enumerá-los – eu e eles sabemos quem são – sabemos também
que são como os corais – protegem o nosso habitat. mesmo quando moramos no cimo
de uma onda – são quase sempre eles que nos seguram. para que o fim não se
proclame pelos sete mares – aos mais próximos exigimos sempre mais. queremos
receber o mesmo que guardámos dentro do que construímos – às vezes não é
possível. somos todos diferentes. mesmo sendo muito parecidos nos desígnios do
caminho – mas não há ano que não traga uma boa colheita – ângela e marco. bem
vindos ao meu tempo. foi aquele segundo que nos ligou – este ano também tive
segundos perdidos para sempre. o almeno gonçalves partiu. viveu na minha
adolescência e depois correu para lisboa à procura do seu grande amor: o teatro
– ficam as recordações – recuperei imenso de mim neste ano. encontrei-me com o
meu passado. e fiz-me mais bonito – a família e os amigos não pesam. sentam-se
ao nosso lado e fazem o tempo connosco – bem-vindo dois mil e vinte e seis
27/12/2025
ano novo com vida velha
caminho na projeção da lonjura do tempo
diria
que estou envelhecido
tudo o que me resta é a demora
consumida
num rugido silencioso
no intervalo das
pernas respiro a morte
sempre certa
num prazo incógnito
umas vezes espero em raiva
outras
apenas medo
o tempo real é irreal
acrescento presságio
à melancolia
baralho cartas
interrogo estrelas
cuspo búzios
e o corpo pendurado na corda é um balanço
às vezes
quase vivo
ás vezes
quase morto
e num coma induzido
finjo-me outro
respiro dor em silêncio
arfo
arrependimento
num bate coração cansado
onde
o corpo afunda
desonra pelo que não fez
escarra fel pelo que fui
sufoca na sua
própria vida
23/12/2025
o que fica – parabéns
aqui está mais um ano para ti – sempre que acrescentas um
ano. corro a acrescentar outro para mim – não quero que me apanhes. gosto de
ser mais velho. gosto de saber que posso contribuir para a tua felicidade. e quando
te sinto feliz. acrescento-me em ti – depois… sou de abril. carneiro e torrão.
gosto dos gestos que se repetem. de te dar a mão e caminhar contigo por dentro
de mim. e ao fim do dia. encostar-me ao tempo que fomos. e perguntar-lhe se
ainda nos reconhece – tu… és deste mês bonito. o mês da família. onde os dois
aprendemos a crescer com os nossos filhos – és capricórnio. delicada. bailarina
que me atravessa em bicos de pés – nós somos a família. a que nos entregaram e
recordamos. e agora. aquela que fizemos – e que um dia será também recordação –
mas que dia mais bonito para se nascer – nasceste e foste logo para a ceia de
natal. e ainda não tinhas aberto os olhos. já havia em ti qualquer coisa de casa
– eu levo anos a tentar dizer-te que te amo. e a palavra nunca chega – fico
sempre sem jeito. enrodilham-se. e quando chegam ao papel dizem pouco em
relação ao que sinto. que não passa da dor de não ter envelhecido mais a teu
jeito – este é o quadragésimo primeiro ano que continuamos a atravessar juntos.
confesso que já não me lembro do primeiro. não é culpa minha. é a vida a
escolher o que fica – quanto mais vivemos. mais alguma coisa fica para trás. mas
por culpa da idade sei. hoje escolho-te com mais consciência do que naquele dia.
quando ainda não sabíamos tudo – para mim continuas a chegar como no início. e
por mais voltas que eu tenha dado sobre mim. como os girassóis ao sol. encontro
sempre os teus olhos. e quando isso acontece. descubro sempre alguma coisa
nova. às vezes um sorriso. às vezes uma ruga de expressão. é assim que o tempo
passa. vais acrescentando idade. sem nunca te afastares de mim. e isso muda-me –
somos feitos de tempo. toque e permanência – parabéns
maria joão – digo que te amo. com o desconforto de quem sabe que a palavra é pequenina
demais – por isso digo-te. amo-te. e fico em silêncio
19/12/2025
a casa que deixo em mim
escrevo diariamente porque preciso de ser um pouquinho
melhor a cada dia – é a única forma que tenho de me completar e sossegar – é
neste caminho que trago a família para dentro de mim – o meu grande amor é proporcional à canceira – uma exaustão
sem limites – não podemos acreditar que os filhos serão melhores que os pais. se
não sentirem. nos instantes deles. que eu e a mãe abrimos caminho – o nosso
espetro de luz é guia para chegarem mais longe – só assim se fica mais perto da
plenitude e da realização pessoal – família – trabalho – verdade – honra –
dignidade – bondade – para mim. o natal é isto – e as memórias dos que partiram.
mas nunca saíram do meu corpo – trago o natal dentro de mim. e em cada luz do
meu pinheiro. uma memória acesa
12/12/2025
a importância de ser ridículo
nota de autor – este texto nasceu das minhas falhas
matinais e da teimosa mania de perder os chinelos – escrevi-o para aprender a
rir de mim e. quem sabe. ajudar outros a rirem-se de si – se há aqui alguma
verdade. é esta: ser ridículo também é uma forma de existir
nesse dia acordei cheio de falhas – perguntei-me o que me falta para
deixar de ser ridículo – sentei-me na
beira da cama. atirei os pés para o chão. olhei-me de cima a baixo. estava todo
– depois olhei o relógio. marcava as horas certas para me encontrar com o mundo
– voltei a olhar-me e comecei a contar as falhas que encontrei em mim – a
primeira que encontrei foi um botão do casaco de pijama desabotoado. e
interroguei-me. como fui capaz de me deitar assim? estou a perder o brio –
quando envelhecemos vamos perdendo tudo – abotoei-o. mais vale tarde do que
nunca – de seguida percebi que o telemóvel não estava a carregar. outra falha.
esta grave. o mundo que me serve vive no interior desse aparelho. o mais certo
é ficar isolado de mim a qualquer momento – quando pensei que as falhas
ficariam por ali. mais uma. faltava-me os chinelos de quarto – como poria os
pés no chão sem proteção? vou ter que ir para o banho em bicos de pés. mesmo
assim estou sujeito a ficar rendido. e um homem rendido é um homem diminuído –
só de pensar sinto o escroto a contrair – não há nada pior do que acordar com a
sensação de que sou um falhado – as manhãs são sempre intensas. um homem quando
dorme mal acorda devagarinho. às vezes. de tão devagarinho. fica sem saber se
se está a levantar ou a deitar – mas hoje estava acordado. não diria bem
acordado. mas no ponto. médio. como os bifes quando me perguntam se quero bem
ou mal passado – olhei em frente. que não era grande distância. a tocar-me os
olhos tinha um guarda-vestidos. e dentro dele uma vida inteira protegida – abri
a porta. de correr para os lados. comigo raramente alguma coisa anda para a
frente. e veio-me à memória um casaco que me levou à lapónia – não foi uma
grande viagem. culpa minha. quem se lembra de ir visitar o pai natal no mês de
agosto. só lá estavam as renas e o capataz que tomava conta delas – era um
sujeito mal humorado. barrigudo e com uma barba enorme. branca. nem se dignou a
responder às minhas perguntas – quem respondia era o cão. um husky siberiano. mas
não percebi o que me queria dizer – mas também o que importa. um cão só é o
melhor amigo do homem porque não fala a mesma língua dos humanos – e ali
fiquei. num estado de sonolência que comprometia o dia. a interrogar-me: onde
falhei. onde estão os chinelos do quarto? olhei para o interior da porta onde
guardo os dias que já me aconteceram. e ao lado do casaco um colete de sarja.
com os dentes marcados de um leão do serenguéti – não era um mau leão. estava
apenas aborrecido com o excesso de turistas na sua terra – acabei por ter
sorte. juntei-lhe uma pitada de coragem. uma lata de espinafres. e quando abriu
as mandibulas meti-lhe a mão pela boca dentro. bem até ao fundo. e virei-o do
avesso – foi uma viagem memorável. apanhei o avião para a tanzânia. e depois segui
para as planícies sem fim. no norte do país. em cima de um elefante-da-savana.
primo afastado do dumbo – as orelhas eram menos irrequietas e mais pequenas – mas
via-se que era da família – não foi uma viagem fácil. corri várias vezes
perigo. lutei com uma anaconda da américa do sul. mas já emigrada em áfrica há
muitos anos – aborreci-me também com um crocodilo. felizmente resolvi a
situação com diálogo – quando me apanhei no avião de volta fiquei numa alegria.
estas viagens são cada vez mais perigosas. não sei se é pelo buraco do ozono.
pelo aumento das temperaturas. mas os animais saíram do seu habitat e
misturaram-se com os humanos – claro que hoje já se começa a ouvir com
frequência no reino animal: diz-me com quem andas. eu te direi quem és – e com
razão. no dia em que ia embarcar para o meu país. estava um urso polar a chegar
com destino ao serenguéti. mas com aquele casaco de pelo não vai passar bem –
imagino o pobre coitado com o rabo metido num frappé de cerveja e um prato de
tremoços na mão – foi então que me voltei a perguntar: o que me falta para
deixar de ser ridículo? onde estão as minhas falhas? estava ainda ensonado. aborrecido por não
saber onde tinha deixado os chinelos de quarto. olhei para o relógio digital.
marcava uma hora que desconhecia. talvez fosse cedo demais para pensar. talvez ainda
fosse noite profunda. talvez me tivesse perdido num qualquer fuso horário. talvez
tivesse perdido greenwich. ou o juízo – para ser franco não quero saber. sei
que a porta da minha vida está aberta. e que toda a roupa no seu interior
encaixa nas minhas medidas. sou o reflexo das cores que usei – um homem não
pode acordar rápido. para acordar sem abrir os olhos era na adolescência. nessa
altura os sonhos penduravam-se nas pálpebras. eram tantos que nem as deixavam
abrir – agora já não é assim. há sempre um bico de papagaio a queixar-se do
colchão. o mau hálito preso a um filete de peixe do jantar do dia anterior. e o
chá de camomila para sossegar a alma. dar-lhe descanso ainda em vida. acaba por
dilatar a bexiga e mais cedo ou mais tarde vou ter de dormir com um urinol ao
pé da cama. porque enquanto procuro os chinelos arrisco-me a fazer xixi pelas
pernas abaixo – um homem nunca deveria envelhecer. antigamente sonhava ir ao
evereste. e no outro dia peguei na mochila e fui – toda a gente dizia que era
muito alto. mas nunca achei isso. era do tamanho dos meus sonhos – quando lá
cheguei. tirei uma manta de arraiolos da mochila. estendi-a no chão. sentei-me.
olhei para o futuro e perguntei a mim mesmo: o que vieste fazer ao teto do
mundo – nunca encontrei resposta que me satisfizesse. dei uma volta inteira
sobre mim. trezentos e sessenta graus. e nunca me vi em lado nenhum – foi então
que percebi que o melhor que fazemos é viver um dia de cada vez – levava comigo
uma sande de marmelada. igual à que comia na escola primária. juntei-lhe um
jarro de tinto verde carrascão. um pastel de nata. e no fim um café expresso
com adoçante por causa dos diabetes – ali fiquei. a olhar o mundo que tinha
deixado em baixo. e por muito que possamos subir. nunca deixaremos de levar
connosco as nossas origens – somos o que somos – e pior de tudo é que mesmo no
cimo do monte continuo sem saber onde deixei os chinelos – ainda bem que guardo
as botas de subir dificuldades dentro do armário – e por ali me
demorei a olhar para o que fui. nada de novo guardo naquele armário. tudo
dentro dele já foi usado – mas estou numa fase da vida que já não quero roupa
nova. quero-me a mim. por inteiro. quero-me a viver dentro de uma caixa de
burronas com mais de mil cores – e para cada dia em que perco os chinelos
pinto-me de uma cor que me faça existir como nunca fui – tenho duas vidas.
teria mais se tivesse tempo para as escrever. mas como hoje quero algo rápido.
como antigamente os telegramas – hoje deixo de ser ridículo. stop. amanhã
voltarei a ser o que sou. stop. cumprimentos – quero ser um telegrama que diga
pouca coisa mas que faça muita distância – quero ser astronauta. neil armstrong.
e poder dizer para mim. hoje é um pequeno passo sem chinelos. mas um passo
gigante descalço – quero ser jacques cousteau. construir um calypso. e navegar
por mim. descobrir o meu mundo silencioso. e colocar uma tabuleta no coração a
dizer: em construção. não faça barulho – quero ser pintor. edvard munch. e que
de dentro de mim saia um grito que se faça ouvir em todos aqueles que se sentem
ridículos. e se mesmo assim a surdez teimar em não ouvir. então que se levante
uma tempestade de areia e cubra o mundo de pó para que ninguém possa cuspir para o ar – quero ser
relojoeiro. com uma luneta no olho da precisão. a dar corda a rodinhas.
ponteirinhos e parafusinhos. mas se mesmo assim não der ao tempo uma razão para
eu continuar a existir. então que me marquem na testa um relógio de sol. e no
céu uma estrela polar. quero partir para chegar a horas de me reinventar sem
falhas – por último. e porque quero ser todas as profissões do mundo.
mas não domino a física quântica. nem sei viajar no tempo à velocidade da luz.
quero ser escritor. quero escrever-me numa história de humor. e mesmo que
ninguém ria por não me achar ridículo. quero que saibam. que em cada palavra
escrita há uma falha que invento em mim. não é por mal. mas preciso de ser
ridículo para escrever – estamos numa quadra especial. temos que ser solidários
com quem não é ridículo. por isso por momentos deixei de ser ridículo e nada
melhor que terminar com um poema de natal – não gosto de passar por esta quadra
sem deixar um apontamento de luz
a revolta das vacas
dez vacas entraram num supermercado
[perto de si]
ameaçaram o leiteiro
destruíram as bolas de queijo
e
e torturaram os ovos kinder
de seguida colocaram-se em fuga
num carro a alta velocidade
[testemunhas. sérias. afirmam ter
visto um pacote de leite magro ao volante de uma carrinha mimosa]
só escapou a margarina e os pais natal de chocolate
[estavam no frigorífico protegidos por
uma camada de frio]
e assim terminou a minha história. stop. os
chinelos ainda não apareceram. stop. mas se aparecerem. stop. que seja perto de
mim. stop. não estou para grandes viagens. stop. saudações ridículas. stop
08/12/2025
a morte não é fim. é só o que resta de nós
nota de autor
este texto nasceu do silêncio.
escrevi-o para aprender a despedir-me de mim e para agradecer aos que me deram
forma – não é um funeral: é uma devolução. um regresso ao princípio. um gesto
de amor pelo que fica
naquele momento
todos os corpos estavam hirtos. todos menos eu e o padre – eu já só era
corpo-silêncio. deitado com o que restava de mim – o padre de joelhos. em
vénia. naquele friozinho divino rezava ao sagrado. enquanto as mãos se
entrelaçavam em orações de salvação – hoje é o dia em que me despeço da vida.
quer dizer. para os que me rodeiam já me despedi. mas não sabem que ainda estou
naquele limbo. o escuro e as sombras – as mãos emparelhadas ao centro de mim
ajustam o fato ao correr do corpo – camisa branca engomada presa ao nó de
gravata que me sufoca. sapato negro. e um terço a contar os rosários da vida –
e eu a ver os santos pendurados nos pedestais – tantos e todos a olhar para o
céu – a igreja que me recebe como último adeus está cansada destas despedidas.
todos os humanos se despedem. não importa o que foram ou o que fizeram. tudo
vale o mesmo — até o que fingimos esquecer – e aqui fico a olhar o teto numa
subtileza que os olhos não temem – e eu ali. refletido naqueles que me velam.
entre o altar e o que já não sou. a olhar para cristo – e a dizer baixinho: tem
uma coroa igual à minha – e os santos a murmurar entre dentes – os bancos
corridos de sicupira percorrem a igreja em dois lados. cansados de tanto corpo
que não regressou – a meio o corredor preso a uma carpete vermelha foge da
porta em direção ao sacrário. entra no conopeu. e enfrenta o corpo do senhor
numa hóstia alumiada por duas velas sem dúvidas quanto ao que ali existe – só não sei
se os santos olham para algum defunto – talvez escolham uns e não outros por
capricho. ou pelas esmolas – não creio que se interessem muito pelo que fizemos
em vida. ou então pelo que tentamos alcançar – as velas ardem para nos anunciar
o inferno. em cada chama um pecado a gritar salvação. e um santo a olhar de soslaio
– está meia casa. não tenho muitos admiradores. nem muitos amigos. mas os que
aqui estão deram-me imenso trabalho. por isso sinto-me confortável. aceito a
meia igreja como se fosse uma multidão – não sei tudo o que deixei para trás.
mas sei que estou aqui. e sei que a morte é um momento roubado à vida. enquanto
o manustérgio e galheteiros correm para o altar nas mãos do sacristão – é
preciso despachar o defunto – só cristo se mantinha impávido. braços abertos.
pregados a uma cruz que bem podia ser a minha – afinal somos cúmplices um do
outro desde a catequese – enquanto ele se demorava nos seus mistérios. eu saí à
minha procura – agora sempre que olho para ele fico sem saber o que lhe dizer –
talvez me esteja a tentar perguntar: está aqui a fazer o quê? sempre o conheci
naquela posição. imaginava que estava assim para poder abraçar. mas não –
nasceu assim. e mesmo que quisesse fechar os braços não seria capaz – é a forma
de se equilibrar nos humanos. suspenso num arame que ninguém vê – eu também não
podia mudar – a estola avança primeiro que o padre. mãos em prece e o cíngulo
sem saber se anda para a frente ou para trás – o missal marca a abertura para o
fim – fez-se um silêncio de morte – o padre virado de costas para cristo.
remoía baixinho o silêncio – não sei se por mim ou se pelos santos olharem para
o céu – não sei há quanto tempo estou aqui. sei apenas que ainda sou este vento
fininho preso a mim – já não consigo ver nada do caminho percorrido – só tenho
a porta como destino – mas que importa o que está para trás. se não lhe posso
tocar – a missa de corpo presente prossegue como se houvesse muito para contar
– as palavras são o que são – mas algumas ainda me incomodam – obrigam-me a
cerrar os olhos – ninguém ouve nada num sermão de despedida – os santos não lhe ligam. não tiram os olhos
do além. mas também não posso estranhar. sempre foram assim. pelo menos comigo
– nem são judas tadeu. o santo das causas impossíveis. me deu ouvidos – a
sineta do altar estremece o silêncio – o corpo de cristo é levado às alturas –
e eu à procura de uma esmola para a volta do sacristão – a putrefação é o meu
último aroma – o que sei é que não estou só nesta despedida – leva-me o
silêncio – mas não posso falar do que me sustém antes de falar de mim – eu sou
a família. e todos são apenas um – foi nela que procurei um lugar para chegar –
foi com ela que fiz da terra estrada. da voz rugido. e das mãos orações para eu
escutar – foi por ela que me inventei para que o amanhã chegasse mais cedo –
para que vivessem sem medo – fiz de mim uma autoestrada. e se nunca fui
abençoado. foi porque nunca cheguei ao destino – a família sempre foi o lugar
onde a minha vida assentou. e carreguei-a comigo com toda a minha honra e
dignidade – e agora. que estou nesta antecâmara do que fui e do que possa vir a
ser. sei que. mesmo quando me perdi. permaneci inteiro – e tudo o que me deram
é o que sou – fiz de mim procura. e se nada me encontrou. foi porque a chegada
nunca foi o meu lugar – antes de seguir para o silêncio do meu pai. tenho de
falar da minha mãe – foi ela que me trouxe ao mundo. foi ela que fez dos seus
dias o gesto de esperar por mim – e quando o grito chegou. eu fiquei para
sempre perfume seu – é este perfume agora que sufoca a putrefação – e nos dias
em que me tornei passageiro do desacerto. com o corpo esquecido da razão. foi a
memória primeira. o sopro inicial. que me levou de encontro à voz que havia
dentro de mim – afinal era a tua – porque para uma mãe um filho não cresce.
somos sempre o seu segredo. e no abraço o gesto mais puro de todo o universo –
um homem só encontra o peso inteiro do seu nome quando o céu se faz órfão – a
minha mãe viveu até aos noventa e quatro anos – tive tempo para lhe mostrar
que. a memória do dia em que me deu um nome. ainda hoje respira no que sou – onde
nós estamos agora – porque ela estará sempre onde eu estiver – não importa se
estou morto ou não. ela vive em mim – ela é a força que nos ligou em volta de
uma missão – mesmo na ausência. sou-te assim – tanto de nós a caber no
silêncio. e logo que a porta se feche quero os braços da minha mãe – porque no
fim somos sempre o que deixamos – fui-lhe abrigo. fui-lhe filho. e trouxe-lhe a
minha família para que soubesse que tudo o que sou lhe pertence – a minha vida
inteira – e agora. nesta imobilidade temporal. procuro apenas o gesto que me
liga à vida – maria joão. os teus lábios continuam pousados na memória de mim –
e nesta alma sem corpo és ainda a casa onde me abandono – és a claridade que
guardo. a imagem que dói por saber que nunca mais adormecerei nos teus cabelos
– os momentos eternos vivem num beijo que nos abraçou uma vida inteira – tu és
o meu lar – uma cama de palavras e viagens onde a maré sempre nos encontrou –
sempre que te procurei. encontrei onde repousar – sempre que te abracei. fiz-me
um barco sem velas – foste o círculo de fogo que me segurou até ao fim – em
cada grito um avanço. em cada ferida uma cura – e para cada história um
recomeço para o fim – e se o vento me obrigar a pedir perdão. eu o farei – à
família que me ergueu. ao pai que me deu as voltas que ainda carrego. à mãe que
me trouxe ao mundo e me guardou até ao fim. à mulher que me soube. e aos filhos
que me continuam – e eu ali. a ver tudo de baixo para cima. o padre às voltas
ao que fui. atira incenso como quem atira pedras – e os fantasmas perfilados
pelas paredes. pendurados em crucifixos tão nus como eu – e tudo à minha volta
é um pedido para partir do frio que me guarda – o nó da gravata. as mãos do meu
pai a dar as voltas da vida – nunca saí deste nó. foi a mão dele que me segurou
sempre que voava para a minha própria finitude – agora sei que vou embora. vou
largar as amarras – a noite segura-me por dentro. como se quisesse ficar comigo
mais um instante – e o silêncio do meu pai voltará a mostrar-me o mundo dele. e
eu voltarei a saber que sou mesmo seu filho. e do longe faremos palavras – e em
cada oração o sujeito seremos nós – agora vou para onde fores. caminharei
contigo até ao novo fim – e dir-te-ei no caminho o que sou. irás ficar
surpreendido por eu ser tanto de ti – e mesmo que me digas que nada importa. eu
te direi que gosto de ti assim como és – e mesmo que o nó se desate de vez.
hoje sei que o anjo que inventei para me guardar eras afinal tu – o segundo
chega sempre antes do minuto. sempre chegou. mas só agora entendo que é no
segundo. e não no minuto. que a vida decide tudo – já nada me resta de tempo –
aqui nesta prisão terrena fica o melhor de mim em liberdade – e eu. voarei até
ao silêncio. e quando nada em mim restar do que fez dor. daremos as mãos. e
juntar-nos-emos à mamã – todos sabemos que a vida é uma correria – ontem era eu.
e agora já não sei quem sou. nem sei para onde vou – não sei se estou triste ou
feliz. sei apenas que estou em descanso – a vida é uma trabalheira – a
consciência nunca nos é explicada. ocupa-nos a liberdade. e com o tempo
percebemos que somos quase apenas consciência – e sem fórmula matemática
podemos dizer que a consciência é só vida compilada em tempo – a consciência é
a lanterna que nos ilumina o caminho. às vezes é a palavra que não se ouve. ou
a mão que nos impede de cair – agora o que sei é que estarei morto assim que a
porta do sacrário se feche – o cálice da vida arrumado ao escuro. e o corpo de
cristo à porta a chamar pelo meu nome – sentirei pela última vez um friozinho a
dizer baixinho: olha para mim: está na hora da salvação – à porta anjos e
querubins afinam aleluias em trombetas que repetem sempre o mesmo refrão: os
desígnios de deus são insondáveis – e quando a minha noite eterna chegar serei
um vagabundo do universo – todos os sonhos serão terra. as dores barco à
deriva. e a raiva que me consumiu será fogo que se apaga para sempre – e no céu
não serei nada. nem pó. porque a pó só vão os bem-aventurados – mas se o vento
me obrigar a ajoelhar. eu ajoelharei. porque tudo o que levo é abril. e nos
vossos beijos o perfume de ser só o que me deram – vivi para fazer o certo no
momento certo. e sempre que falhei foi por ser apenas um de vós – este é o meu
fim – no bolso à esquerda. por cima do coração. a foto da minha companheira –
continuarei a seu lado para sempre – nas mãos. as dos meus filhos – seguirei de
mãos dadas até ao reencontro – no lado direito a família. os amigos que se
tornaram família. toda a que couber no seu interior – e o porta-estandarte são
as mãos dos meus pais – e agora. deixo-me ir – a porta tomará o seu lugar em
definitivo – o fogo curar-me-á de todos os desassossegos – e na boca. a última
oração: não me salvem. se não levar a memória dos afetos
05/12/2025
a geometria do meio
nota de autor
escrita do meu meio corpo – o lado
que sangra procura o lado que escuta. e juntos respiram até serem um só
um dia
destes. quando o sol nascer do outro lado do meu meio corpo. estarei de costas
para este meio dia que enxergo – há um descompasso de meio dia no meu meio
corpo: meio coração. meio batimento. meio litro de sangue. meia lata de
lágrimas guardadas para um aperto afetivo. um pé de meia de quem entende que a
vida é feita de meias verdades – talvez seja um eixo desalinhado. rotação –
meio. meio dia. e uma multidão assustada parte do meio dia que carrego para
outro meio que não sei nomear – ouço bach. só a música devolve a vida inteira
ao meu meio corpo – e eu. sem saber a qual meio dia darei a alma inteira –
escrevo até descobrir
24/11/2025
carneiro
nota de autor
este é um exercício de
reconhecimento. do homem que sou. feito de faísca. impulso e verdade – a minha
combustão interior – é menos sobre o zodíaco e mais sobre mim. sobre o que me
move. me inquieta e me cria - um
carneiro que existe na coragem de começar
o que se pode dizer sobre um homem carneiro? – não
sei – mas o que posso dizer sobre mim – é o que sei – falando sobre mim. não há
necessidade de acrescentar mais um signo – às vezes sinto-me desconectado do
universo. perdido. como se fosse um cometa a fazer a sua orbita. giro e giro e
nunca chego a lado nenhum – é assim que me sinto. um pé na terra. a cabeça na
lua – e as mãos a tocar o sistema interestelar – sou do primeiro signo do zodíaco.
logo trago comigo a vontade da faísca – incendiar para começar. não importa
arder. o importante é começar – depois logo se vê até onde chegam as labaredas
– este impulso criador é a essência do que sou. tudo se move na vontade de
criar. de inovar – de encontrar solução para o que à primeira vista se esconde
do possível – todos os dias preciso de começar alguma coisa. não importa o que
seja. pode ser um pensamento. um projeto. uma ligação espiritual – o que sei é
que vou de alma. a cabeça vem mais atrás – preciso é de acreditar. tem de ser
executável – empírico – a rotina destrói-me. o movimento salva-me. e em
silêncio encontro sentido -- o risco é parente do sucesso – o zodíaco diz-me
que faço fronteira com touro – por isso dizem que sou menos impulsivo e mais estratégico
– mas intenso continuo a ser – menos impulsivo não sei. nunca me deram fita
métrica para medir o seu alcance – mas creio que mesmo com menos ainda será muito.
a impulsividade deixa-me muitas nódoas negras no corpo – e confesso. como forma
de perdão. que deixo algumas também em quem me desafia – nem sempre a uso em
proporcionalidade – às vezes um tornado de palavras. outras um ventinho
fininho. a ferir a epiderme – quanto à estratégia. talvez. nem sempre com bons
resultados. mas sempre fiel ao pensamento. e por isso. se há culpa nas minhas falências
estratégicas. emocionais ou profissionais. não é minha culpa. é da estratégia
que não se alimenta na medida certa do que o mundo oferece – mas apesar de tudo
visto-me de verdade – do trabalho feito – do gesto que me torna reconhecido – e
principalmente. porque não vivo sem amor. da sua correspondência – reconheci-me
a primeira vez com a hora do zénite. o sol entrou-me com fome. e dele retirei a
primeira energia para me tornar um sobrevivente – tomei o primeiro leite e
senti pela primeira vez o toque da pele que nos cobre. e nos braços da minha
mãe a voz que me abraçou. e do nome que me calhou a certeza de que nunca mais
poderia ser mais ninguém senão quem sou – nasci para ser líder de mim – e
brilhar apenas pelo exemplo – mesmo que não seja do tamanho que imaginei. mas é
dentro do que sinto. a obrigação de me sentir reconhecido – carrego comigo o
peso da verdade – e essa não tem medida – é do meu tamanho – e dos olhos que a
veem – cresci. e comigo a vontade de saber de todos os livros. e o que não sei.
é por falta de tempo. talvez se tivesse mais mil anos pela frente. eu pudesse
saber tudo de mim. e só se sabe tudo de nós quando sabemos tudo dos outros – a
mediocridade abala-me. às vezes até desfaleço. mas o que mais me incomoda são
aqueles que sabem tudo – e de tudo se fazem – e com tudo me importunam – não
procuro aplauso. posso até ser generoso. mas que ninguém me fique a dever – o
que dou é o que me sobra da vida que construí. o que exijo é apenas gratidão
por fazerem parte do mundo onde cresço e aprendo – e aprendo com todos – nunca
percebi porque trouxeram um carneiro para o zodíaco. talvez por ser herbívoro.
talvez pelas suas marradas com aqueles chifres de refilão – não sei. mas para ser
abril. é porque trouxe a liberdade dos recomeços. o confronto dos ideais. a
busca pela completude – abril é o eterno retorno da vida que regressa do frio –
sei agora que não poderia ter nascido num noutro qualquer mês – confesso que
também não aceitaria. fugiria até ao dia que me acolheu – não é por maldade. é
por ser o que sinto. e sempre que sinto sou frontal. honesto. às vezes bruto.
às vezes visceral. mas é o que sou e sinto – nunca me ensinaram a esconder
nada. nem o zodíaco. por isso. fico no que não sou – às vezes besta. às vezes
vulcão. às vezes carrasco – mas como sou metamorfo. tudo me passa rapidamente –
o que explode para lá. implode para cá – ficam as lembranças com os seus
ensinamentos – e o rancor. quem me dera tê-lo – ensinaria a mente a não cair
duas vezes no mesmo erro – gosto de mim. porque sempre que gosto eu avanço um
espaço. e sempre que avanço o universo cresce. fico sem medo. e quando fico sem
medo. sinto-me mais perto dos que trago por bem – as pessoas constroem-me.
iluminam-me. e em cada uma uma vida que desconheço. e mais do que uma desculpa
para o que não entendo. a certeza de que o erro compensa o caminho – eu sou
hoje o caminho do amanhã – ser melhor é uma missão impossível de concretizar.
mas o importante é capturar os espaços vazios – enfrentar o vazio é a grande
missão terrena – o único que a morte teme – kant disse que o bem é a vontade
pura – o gesto sem cálculo – a boa vontade como bem moral absoluto. o único bem
incondicional – não depende das consequências. nem de desejos. nem de
inclinações – agir por dever. por respeito à lei moral. é o que faz a ação ser
boa. e quando a ação é boa. todos os erros merecem perdão – o pedido de
desculpa só deve existir quando não agimos pelo bem. porque é a razão que
compensa o erro –- e é por ela que estamos perdoados – no amor tem o seu grande
calcanhar de aquiles – todo o amor é criação. o desejo só existe se houver
obra. o que quase sempre quer dizer deusa – é quando surge uma vontade de se incendiar.
e das cinzas renasce cada beijo ou abraço – gosto de ti porque em nós não há sombras
– nada no amor é para amanhã. a palavra amo-te não espera – tudo é urgência –
porque tudo nele arde – beijar – abraçar – contemplar – tocar – depois…
fundir-se com a amada é um gesto único – tão único como ela – porque não há
mais ninguém a não ser a amada – o carneiro é homem de uma só mulher – tudo
nele é movimento – todo ele é o dia seguinte – e mesmo sem luz ou vento. segue
o destino que o coração desenhou – tanto faz se vai para longe – o agora é a
certeza absoluta – e se um dia acabar. tombará como fruto da árvore do amor – é
o amor que o sustenta. todo ele é movido a paixão. a mel. a carinho. mas sempre
com reconhecimento de que nada seria igual se não existisse – existir só faz
sentido quando os olhos se tocam sem querer possuir. dar é a sua razão. sobretudo
se não tiver medida – é no dar que ele existe – é no impossível que cresce a
faísca – amor tem sempre que ser livre e genuíno -- onde o tempo só serve para
acrescentar desejo –- e assim chego ao fim do que é ser um carneiro de abril –
existo num estado de começar. agir antes de temer. e acreditar que em cada
gesto um novo mundo pode florir – coragem sem medo. erro sem estrada. coração
sem destino -- gaivota – morrer devagar para renascer depressa. tudo o que é importante
chega no dia seguinte – nasci para incendiar o escuro – e chamar-lhe vida
15/11/2025
as gerações são assassinas das gerações anteriores
nota de autor
este texto é um espelho gasto. onde o reflexo não
procura beleza mas vestígios – escrevo como quem tenta perceber onde começa o
meu e acaba o dos meus pais – escrevo para não perder o nome – para que o
silêncio deles continue a respirar em mim – as gerações são assassinas das
gerações anteriores – mas eu quero ser apenas o eco do que ainda vive. não o
carrasco – cada palavra que deixo é um fragmento do que fui – não escrevo por
vaidade. escrevo para lembrar. para dar forma ao que o tempo desfaz – e se um
dia o esquecimento vier. que ao menos encontre esta nota. e saiba que aqui
alguém amou o nosso nome antes de desaparecer
nascemos.
e os nossos pais são a glória do universo dentro de nós – crescemos com eles. e
deles trazemos as ferramentas para construir a nossa própria vida: um bisturi.
um martelo. e um nível – não precisamos de mais nada. apenas as mãos se
transformarão. cada ferramenta a fronteira entre o que herdámos e o que criamos
– um dia olhamos o espelho e perguntamos: sou mais do pai ou da mãe – não
interessa. sou o que ficou na peneira do barro com que me moldei – às vezes um
pires raso. sem valor. escarrador de memórias e vaidades – outras um jarro para
flores da vista alegre. onde deposito o meu próprio jardim – duas rosas. porque
vida é espinhosa. um girassol. porque a vida é luz. e uma urze que me vergasta
sempre que me envergonho de não ter crescido mais – é quando pego no bisturi e
delicadamente. como cirurgião. retalho-me em pedaços de silêncio e memória.
depois olho novamente o espelho e pergunto: sou mais parecido com a mãe ou o
pai – crescemos à procura da verdadeira identidade. nada é nosso. só o corpo de
empréstimo. só o gesto que se gasta. tudo o resto em nós cheira a fim. a
desaparecimento. a esquecimento – quantos eus foram precisos para esta versão
de mim? corremos para o espelho novamente. olhamos. e de dentro uma raiva
destemida. sem medo. como se thor em nós erguesse o martelo a estilhaçar o que
vemos – e no chão. o desespero – as concordâncias não se fazem de raiva – a
vida é uma selva. não fora de nós. dentro de nós. ou dos eus. onde o certo é
quase sempre incompleto. e o incerto teimoso – tens que saber – precisas de
saber mais de ti – e as mãos -- que moldam e desfazem -- de quem são? a minha
mãe pinta as unhas. e nem pinga de verniz verte fora do frasco – eu não consigo
ter nada dentro do frasco. talvez vento norte. ou a síndrome de ménière. talvez
tudo junto – arte descuidada – talvez – o meu pai é um gentleman. não usa
bengala e muito menos cartola. mas anda hirto. com os olhos postos em quem
passa. e dobra-se em vénias para cumprimentar o inesperado – eu pelo contrário.
caminho curvado. e nunca aprendi para que servem as vénias – a última vénia foi
na igreja. mas cristo já tinha fugido. no altar. uma coroa de espinhos com o
meu nome – e pergunto-me: ando por aqui pelos meus antepassados? ou finjo-me no
que sou para agradar o passado? não sei – será bom saber a verdade? a dos meus
pais talvez. afinal sou o reflexo moldado. os olhos do meu pai. o génio da
minha mãe. e pronto. o molde que ninguém vê. apenas eu. por caber dentro do
espelho – por isso. e porque me quero dentro dos dois. uso o nível. e a bolha
de ar sempre aos saltos. umas vezes o andar do pai. outras a voz da mãe – e à
noite. quando me deito. e os fantasmas são todos meus. digo eu que já os
batizei. ponho o nível sobre o peito. acerto a bolha ao centro como quem afina
a respiração. o paquímetro a comandar com mestria cada milímetro – é quando
chamo pelos meus fantasmas – o velho honrado na mesinha de cabeceira.
sentado no abajur. com os pés numa lâmpada de quarenta velas. coça a cabeça
como quem coça o mundo. e pergunta-me para que serve um nível – a honra está na
fusão. no amor com que fazemos história. cada filho é um universo de séculos.
de tempo que não se consegue contar. porque ninguém sabe quem deu corda ao
relógio – a seguir ao silêncio chamo o palhaço. ri-se por tudo e por
nada – se estou calado. ri-se – se falo ri-se – se durmo desaparece – não
percebe que a vida é feita mais de silêncios do que das falas – o que penso é o
que sou. e tudo o que penso é o que me faz erguer. às vezes império. outras
mendigo. e geralmente. nada me faz rir. porque sou sério demais com tudo que
trago dos meus pais. porque eles foram a única verdade em que acredito. e mesmo
calado. reconhecia que era ali a fonte do amor. e um homem sem amor é foguetão perdido
para marte – o interrogação – fantasma que. por se ter perdido dentro de
si. nunca sabe quem o alimenta. e todas as noites pergunta: é hoje que vamos
acabar com o medo? e eu. preso ao que sou. porque foi assim que os meus pais me
teceram. enrolo-me num novelo de enredos. e entre travessões e exclamações.
garanto-lhe que viver será sempre um mistério – onde pensar é sangrar – fixo o
instante. porque é nele que existo. tal como as estrelas no céu – vejo-as. mas
não lhes toco – toda a minha noite é uma tela. o que pinto é o dia. pois é nele
que existo. de noite sou espaço. buraco negro – ventre-pulmão onde a respiração
é desabafo do que engoli a viver – interrogações no pincel. destreza para
sobreviver – por perto. o fantasma. filho do mundo. ouve-me – o silêncio
também. porque todo eu sou esse nada onde respira a boca muda – como vestir o
nome -- se dele sou feito -- e do tanto que me deu. nunca me levou pela margem
do mundo. todo eu sou longe. tudo em mim está onde não sei – se soubesse o
valor da água parada tinha nascido peixe. e se o vento me pudesse levar. eu ia.
mesmo sem saber o que ainda em mim vale – mesmo vivendo num aquário – vivo na
distância do que sou e do que deveria ser – nascer é um encargo. ser filho uma
tarefa interminável. uma viagem sem destino. porque tudo o que acontece é
comparação – mas -- ser filho é gostar de mim. porque gosto de onde venho --gostar
é a palavra para mesmo assim amar o vazio – eu não posso ser assassino de quem
me deu forma. mesmo que em segredo eu ame mais a placenta do que as pernas que
me carreguem – amanhã. serei apenas lembrança. e outra geração matar-me-á ao
esquecimento. e todos os silêncios que fui nunca mais serão terra. e o longe
nunca será perto. porque a distância das palavras será silenciada por outro nascer
– por isso gosto de mim. porque enquanto eu gostar de mim. o espaço dos nomes
nunca será esquecido – obrigação mais vazia? não. eu sou passado. morro no
presente. já que do futuro não tenho medo – sou apenas um espaço no tempo.
todos somos um espaço no tempo – se fosse encontrado. talvez pedra. ou uma
estrada sem nome. coisa nenhuma que tivesse origem – quando o sol amainar. a
partida será silêncio. e o beijo que carrego -- como guitarra no tempo -- soará
só para o vazio. e o que importa isso a quem já é lembrança? por isso escrevo.
para que o gesto da criação. num dia de amor ao acaso. com o perfume de quem
ama. tenha gerado o meu nome – e é esse nome que não quero perder – deixo o
nome aos filhos. e será deles a obrigação de não esquecerem as outras gerações
– sobretudo estas. do mundo onde tudo é captado e guardado. eu só não quero ser
o assassino dos meus pais. nem os meus filhos os assassinos de mim e dos avós –
é preciso guardar o que fomos. pois nós somos esse fomos – acredito que as
gerações só se consolidam ao fim de cinco ou seis linhagens – considero o
renascer da nossa com os meus pais. depois de um início que não traçamos – não
tivemos palavra. nem foto. nem diário para consultar o que cada um mereceu. nem
castigo guardado para o futuro – sou silêncio partido. mesmo que me esconda em
risos cansados – sou eu o mestre do passado. sou eu que tenho que fazer o que
não foi feito – sou eu que tenho que escrever os feitos. que quase sempre são
mais rápidos do que as vozes – mas principalmente o que nos fez sofrer – as
dores. os ossos quebrados. o coração agitado. o amor guardado da terra
prometida e nunca alcançada – nós somos crescimento. fizemos do amor um fado. e
dos abraços. a certeza: todos viemos da mesma placenta – guardiões do
sacrifício. fizemos estrada para o futuro. somos a ponte entre átomos – este é
o meu amor aos meus pais. sou agora servo deles. e se um dia a porta se abrir.
é por eles que os meus passos hão de procurar – se o merecer – e só então. porque
ser filho. e pai. é fardo de luz que dá sentido à existência – não falarei das
vossas obras. nem dos ganhos. nem das ilhas onde habitais. falarei do amor --
da comunhão do nome -- porque em boa verdade. tudo o que somos é apenas um
nome. e mesmo que não saibamos quem lhe deu o primeiro sopro. carregamo-lo há séculos – falarei dos meus
heróis até que uma voz me chame
