ética – o que vale a ética se a moral
está corrompida – não sei se alguma vez teve dimensão universal. não creio. nem
sei se seria bom termos todos as mesmas leis. porque ou estaríamos todos bem.
perfeitos. ou estaríamos todos a pecar – o problema não está nas diferenças do
mundo. está na diferença entre cidades do mesmo país – incomoda-me. digo. estou
incomodado. às vezes pergunto se não sou eu o deslocado. possivelmente o mundo
cabe em mim. e não posso pedir a quem vive a cinquenta quilómetros que tenha a
mesma ética – possivelmente estou mais longe. o corpo reside aqui mas eu
vagueio pelo universo – mas incomodo-me – e também aqui não sou inocente. a
injustiça não me dói da mesma maneira quando acontece a quem não conheço. posso
reconhecê-la. posso condená-la. mas não me entra no corpo – são os amigos que
me estragam a distância. quando toca num deles deixa de ser uma ideia. passa a
doer – não sei se isto me torna diferente daqueles que critico. talvez apenas
me coloque no mesmo lugar. com outra fronteira – mas há uma fronteira que não
consigo deslocar: a justiça – a justiça tem de ser cega. não pode aparecer
apenas quando somos nós os desconfortáveis – também não acredito numa justiça
repartida por valores. uma para o futebol. outra para a vida. posso compreender
que durante um jogo a paixão nos retire o discernimento. que por alguns minutos
queiramos um penálti que sabemos não existir. que o nosso jogador seja sempre
menos culpado do que o outro – somos humanos. pertencemos. queremos ganhar –
mas o jogo acaba. e o discernimento tem de voltar – se depois do apito ainda
aceitamos como justo aquilo que sabemos ter sido injusto apenas porque nos
favoreceu. então alguma coisa fica por explicar – se um homem suspende a
justiça quando ela lhe é inconveniente. que garantia me dá de que não fará o
mesmo quando estiver em causa alguma coisa verdadeiramente importante – talvez
o problema esteja aqui. há pessoas que têm os valores catalogados. uma ética
para cada gaveta. abrem a que lhes convém conforme o lugar onde estão – essas
pessoas assustam-me mais quando estão próximas. porque aos desconhecidos não
entrego nada de mim – não consigo perceber a mente humana. que tipo de justiça
há dentro das pessoas para que se deixem manipular por grupos. apenas porque
acreditam que vivem no mesmo bairro – pergunto-me: faço de conta que são
humanos bons? ou alimento a dúvida: se são assim para o que não tem valor. o
que serão quando o destino lhes exigir sacrifício pela verdade – se eu os
questionasse tenho a certeza de que diriam: mas isto não tem valor. é um jogo.
é diversão – talvez seja esse o problema. a justiça só ter valor quando não nos
custa nada – custa-me acreditar em humanos que repartem a alma de acordo com o
que os satisfaz. mesmo sabendo que outros ficam tristes – vou continuar na
minha dúvida. mas confesso. tenho medo. tenho medo da moral que apregoam –
ninguém pode ser sério quando divide o mundo pelos interesses – razão tinha
santo antónio em pregar aos peixes
netos – este texto já não é apenas
para os meus filhos. é sobretudo para os pais que eles agora são – leiam-no
devagar. não como uma lição. mas como aquilo que aprendi enquanto tentava
construir a casa onde vocês começaram a crescer
quando me tornei pai. aos vinte e um anos. a
minha maior busca foi compreender a urgência do meu próprio chão – o que teria
eu de saber? aprender? mudar? para que o meu filho colhesse não apenas o
sucesso. mas se tornasse um homem de bem – comecei por decifrar a minha família
– não com os olhos de quem pertence a ela. e por isso a defende contra tudo e
contra todos. mas tentando despi-la do melhor e do pior – como vivia? como agia
em sociedade? como se relacionava dentro de si? que lugar dava à palavra? ao
trabalho? ao perdão? à justiça? àquilo que não compreendia? procurei os seus
gestos. as suas feridas. a benevolência. os silêncios. a capacidade de se
abraçar ao imprevisto – depois passei às pessoas – primeiro o meu pai –
procurei as virtudes. os abismos. aquilo de que gostava e aquilo que prometi
não repetir – a postura com que caminhava. a forma como falava. como enfrentava
os problemas. o mau feitio. a doçura escondida. a exigência com aqueles que
dependiam do seu amparo. e sobretudo a forma como mantinha a palavra – depois a
minha mãe – submeti-a às mesmas perguntas. mas tive de acrescentar outras: a
bondade. a determinação. a capacidade de trabalhar. o amor que entregava sem
fazer contas – enfim. quando procuramos o menos bom parece sempre que
encontramos mais do que desejávamos – talvez porque uma virtude nos
tranquilize. enquanto uma falha nos obriga a pensar – – coloquei-me no lugar deles – peguei
essencialmente naquilo de que menos gostava nos meus pais. e tentei perceber
quanto de cada uma dessas fragilidades já morava em mim – posso garantir que
fui cruel – mas não foi difícil encontrar resposta – reconheci-me numa
imensidão de imperfeições – algumas eram deles. outras já eram inteiramente
minhas – foi então que percebi uma coisa que hoje me parece evidente: antes de
decidir que pai queria ser. precisava de compreender de que filho eu próprio
era feito – para mim. o sucesso humano dos meus filhos dependia de uma verdade
que naquele tempo julgava absoluta – precisava de lhes construir um chão –
depois os pilares – e finalmente dar-lhes liberdade suficiente para um dia
saírem da casa sem precisarem de mim para encontrar o caminho – o chão era o
amor – não havia nota. erro. desobediência. derrota ou escolha capaz de alterar
isso – podia reprovar um comportamento. podia zangar-me. castigar. exigir. mas
nunca poderia permitir que um filho confundisse a minha reprovação com falta de
amor – o amor não podia estar sujeito a avaliação – era o chão – tudo o resto
seria construído por cima – depois vieram os pilares
1º exemplo – não exigir aos filhos
aquilo que não estava disposto a exigir a mim próprio – podia falar-lhes de
respeito durante horas. mas bastaria que me vissem humilhar alguém para
aprenderem a lição contrária – podia mandar estudar. mas se nunca me vissem
procurar conhecimento aprenderiam que estudar era apenas uma obrigação para
crianças – os filhos escutam aquilo que lhes dizemos. mas aprendem sobretudo
aquilo que nos veem fazer –
2º justiça – um pai pode criar regras.
mas tem a obrigação de explicar para que servem – uma chamada de atenção. uma
exigência. um castigo. nunca deveriam depender do meu humor – a mesma ação não
podia ser aceitável hoje. e intolerável amanhã apenas porque eu tinha tido um
dia mau – uma regra sem fundamento é apenas poder – e eu queria autoridade. não
arbitrariedade –
3º disciplina – hora de jantar. hora
de dormir. hora de estudar. hora de brincar – naquele tempo fui muito rigoroso
– talvez demasiado em alguns momentos – acreditava que a disciplina preparava o
corpo para um mundo adulto cheio de horários. compromissos e obrigações – hoje
substituiria uma palavra: absoluto por coerência – disciplina não é impedir a
exceção. é impedir que a regra dependa do capricho –
4º respeito – fui intransigente com a
falta de respeito – comigo. com a mãe. com os irmãos. professores. funcionários
da escola. com quem carregava mais anos. com os amigos. com o desconhecido –
mas hoje acrescentaria uma coisa que talvez naquele tempo não soubesse
explicar: respeitar não é obedecer – é reconhecer no outro a mesma dignidade
que exigimos para nós – ser educado é uma forma de caminhar pela vida sem
deixar peso nos outros –
5º verdade e responsabilidade – a
mentira nunca poderia ser o caminho mais fácil para fugir ao erro – mas também
compreendi mais tarde que dizer a verdade tem de ser menos perigoso do que
escondê-la – se um filho tiver mais medo de confessar do que de mentir. alguma
coisa falhou na educação – errar faz parte – esconder deliberadamente o erro é
outra coisa – não se resolve um erro com outro erro – honrar a palavra. assumir
os próprios atos. pedir desculpa quando é necessário. e reparar aquilo que
ainda puder ser reparado –
6º conhecimento – estudar. querer
saber mais. sentir prazer na descoberta. compreender e aplicar aquilo que se
aprende – fomentar a curiosidade. o foco. a capacidade crítica. a observação
permanente – mas sobretudo ensinar a dúvida – um homem que sabe muito. e nunca
pergunta se pode estar errado. transforma facilmente conhecimento em arrogância
– saber é também conservar espaço para aquilo que ainda não sabemos –
7º adaptabilidade – o mundo não
oferece um chão para a vida inteira – mudam os amigos. os empregos. as
profissões. as tecnologias. as cidades. às vezes muda aquilo em que
acreditávamos – é preciso aprender a acolher a mudança sem desaparecer dentro
dela – adaptar-se não é submeter-se – há momentos em que a maior capacidade de
adaptação consiste precisamente em saber dizer: a isto não – a empatia
ajuda-nos a compreender as diferenças. a lucidez ensina-nos quais devemos
aceitar –
8º aprender a ser – talvez este seja o
mais difícil – inteligência emocional. aprender a habitar-se. conhecer o limite
do sim e a necessidade do não – saber estar sozinho. saber pedir ajuda. saber
amar. saber ser amado – aprender a perder sem se perder – porque viver também é
aprender a perder – perderão oportunidades. dinheiro. trabalhos. amigos.
amores. pessoas que julgavam eternas – um dia perderão também os pais – nenhuma
escola consegue impedir essas perdas – podemos apenas tentar ensinar-lhes que
uma derrota não lhes retira o nome –
9º criatividade – saber encontrar uma
saída quando o caminho conhecido termina – interrogar-se. experimentar. falhar.
voltar atrás. recomeçar – perceber que para cada caminho novo há sempre outro
que fica para trás – não desistir apenas porque a primeira solução falhou –
criatividade não é ter ideias extravagantes. é conseguir imaginar aquilo que
ainda não existe –
10º o belo – música. literatura.
pintura. escultura. natureza – ensinar que nem tudo aquilo que vale precisa de
servir para alguma coisa – há uma parte do homem que também se educa diante de
um quadro. dentro de um livro. ouvindo música. olhando o mar – o belo não nos
torna necessariamente melhores. mas uma vida incapaz de o reconhecer fica mais
pobre –
11º história – conhecer aquilo que
veio antes – a história do mundo. mas também a nossa – os avós. os pais. os
erros. os acertos. as dificuldades. aquilo que herdámos sem escolher – há um
mapa invisível que nos liga ao que nos rodeia – foi olhando para trás que
tentei decidir aquilo que queria levar para diante – não para repetir o
passado. mas para saber de onde partíamos –
12º individualidade – os filhos não
nasceram para realizar os sonhos que deixámos por cumprir – respeitar os seus
gostos. a música. os amigos. a intimidade. as diferenças. aquilo que escolherem
amar – aconselhar sempre que nos pedirem. intervir quando ainda for nossa
responsabilidade protegê-los. mas nunca escolher a vida deles para corrigir a
nossa – educar um filho não é fabricar uma versão melhorada do pai –
havia ainda uma coisa que não cabia
inteiramente em nenhum pilar – o dinheiro – aprender a ganhá-lo. poupá-lo.
gastá-lo. partilhá-lo. perceber aquilo que compra e principalmente aquilo que
nunca poderá comprar – trabalho não é apenas salário. é autonomia. dignidade e
responsabilidade – mas nenhum vencimento transforma um homem num homem de bem –
por cima de tudo coloquei a liberdade – naquele tempo acreditava que a
liberdade tinha de ser conquistada – hoje talvez diga de outra maneira: começa
por ser confiada. depois precisa de ser merecida. e finalmente defendida – fazer
o que está certo no momento certo. não depois – são as escolhas que lhe dão
forma – um homem sem liberdade nunca viverá inteiramente a sua vida. mas um
homem incapaz de assumir as consequências das próprias escolhas. também ainda
não é verdadeiramente livre – quando era um pai jovem acreditava que numa casa
tinha de existir um líder – e durante muito tempo esse líder fui eu – criava
regras. fazia-as cumprir. assumia os erros – fui exigente. em alguns momentos
talvez demasiado – hoje já não compararia uma família a uma matilha. nem sei se
uma casa precisa de um líder – sei que precisa de adultos capazes de assumir
responsabilidades. de discordar sem destruir a autoridade um do outro. e de
perceber que nenhum filho é igual ao irmão – os meus filhos cresceram – e foi
então que descobri aquilo que nenhuma tábua de educação me tinha ensinado –
educar não é resolver uma equação – podemos colocar nela todas as variáveis.
amor. disciplina. justiça. conhecimento. exemplo. liberdade – o resultado
continuará a pertencer ao filho – não sei quanto do que são nasceu daquilo que
fiz. nem quanto nasceu apesar daquilo que fiz – esta dúvida pertence-me e ainda
bem – obriga-me a continuar a olhar para o pai que fui com a mesma crueldade
com que um dia olhei para os meus pais – se hoje começasse novamente mudaria
algumas coisas – ouviria mais cedo. flexibilizaria algumas regras. talvez
tivesse menos medo de que uma exceção destruísse o edifício – mas manteria
outras sem hesitação: a verdade. o respeito. o trabalho. o conhecimento. a
justiça. a família. e a obrigação de nunca passar indiferente por quem precisa
de nós – não quero ensinar ninguém a educar os filhos – nem sei se saberia
fazê-lo – esta foi apenas a casa que tentei construir para os meus – e talvez
tenha demorado todos estes anos a compreender para que servia realmente – educamos
os filhos dentro de uma casa para que um dia tenham coragem de sair dela –
ensinamos o caminho. e depois temos de ter coragem para deixar de o indicar
hoje voltei a ser avô – o joão e a
sofia trouxeram para a nossa eternidade mais um rapaz – antónio – ainda agora
chegaste. e já trazes contigo um lugar que ninguém poderá voltar a ocupar – não
sabes quem somos. nem sabes ainda a quantidade de gente que te espera deste
lado – um dia saberás – vais aprender os nossos nomes. reconhecer as nossas
vozes. talvez correr por esta casa sem perceber quantos correram antes de ti –
e pouco a pouco também tu começarás a fazer parte desta história que ninguém
escreveu inteira. mas que todos transportamos dentro de nós – antónio. serás a
partir de hoje mais uma extensão de nós no universo – mas não quero que sejas a
nossa repetição – não nasceste para continuar os nossos erros. nem para
realizar os sonhos que deixámos por cumprir – nasceste para construir os teus –
é isso que mais te desejo – que te construas em liberdade – que ninguém te
convença de que existe apenas um caminho – que saibas mudar de direção sem
pensar que te perdeste. voltar atrás sem vergonha. começar novamente sempre que
a vida te mostrar que já não és aquele que escolheu a primeira estrada – e
antes de procurares a felicidade nos outros. procura-a dentro de ti – não
entregues a ninguém a responsabilidade de te fazer feliz – ama muito. deixa que
te amem ainda mais. mas guarda sempre dentro de ti um lugar que seja apenas teu
– será aí que regressarás quando o mundo fizer demasiado barulho – os lopes
trazem uma história dentro de si – nem sempre foi uma história fácil – talvez
por isso tenhamos aprendido a levantar-nos tantas vezes – receberás alguma
coisa dela sem escolher. como todos recebemos – mas não tens obrigação de
carregar tudo – leva aquilo que te fizer maior. o resto deixa ficar connosco – vais
errar. ainda bem – vais perder. vais chorar. vais amar quem talvez não
devesses. vais acreditar em coisas que um dia deixarão de fazer sentido – e um
dia descobrirás que crescer não é acertar sempre – é continuar inteiro depois
de percebermos que também fomos capazes de estar errados – não te desejo uma
vida perfeita – seria uma vida pequena – desejo-te curiosidade. coragem.
bondade. livros. música. amigos. gargalhadas. algum disparate. muito amor –
desejo-te a capacidade de olhar para alguém diferente de ti sem precisares de o
tornar igual – desejo-te mãos disponíveis para quem precisar delas. e olhos
suficientemente livres para encontrares beleza onde os outros passam sem olhar
– e quando não souberes para onde ir. há uma coisa que quero que saibas desde o
primeiro dia: tens casa – não a casa das paredes. essa um dia mudará de mãos –
tens esta outra. feita do teu pai. da tua mãe. dos que chegaram antes de ti.
dos que chegarão depois – uma casa onde o erro não te retira o nome. onde podes
partir. voltar. cair. levantar-te. ser diferente de nós – e continuar a ser
nosso – hoje ainda não sabes nada disto – dormes. respiras. talvez chores sem
perceber porquê – e nós ficamos deste lado. parvos de felicidade. a olhar para
um homem que ainda cabe inteiro em dois braços – bem-vindo. antónio – não sei
quanto tempo teremos juntos – ninguém sabe – mas sei uma coisa: a partir de
hoje. quando alguém me perguntar o que deixo depois de mim. haverá mais um nome
para responder: antónio – constrói-te em liberdade. procura a felicidade dentro
de ti. e depois vai – vai ser tudo aquilo que nós ainda não sabemos que podes
ser
hádias em que saio comigo. e vou por esse mundo fora. a olhar o que insiste
em existir. o que ocupa espaço – podia fechar os olhos. mas corria o risco de
tropeçar. magoar-me com a indiferença – caminho de olhos abertos – às vezes um
aceno de um transeunte. fico sem saber se me conhece. ou é alguém educado no
século passado – um carro acelerado. com gente dentro acelerada. de onde saem
crianças ainda mais aceleradas – hoje há pressa para tudo – uma velhinha corre
contra o tempo no seu vagar. a bengala a marcar o passo. um passo que segura a
mão à vida – para ela já só importa chegar – a morte comanda a vida. não
adianta correr. ela apanha-nos – na outra mão um saco de compras enrugado. cheio
de nada. o mais importante leva à cabeça: chegar – os cães chegam à rua com
pessoas presas a uma trela – fico com a sensação de que o mundo está de pernas
para o ar – é tudo tão complicado – tenho dois cães em casa. não os levo à rua
por não ter trela. nunca tive trela para nada – viver comigo sempre ficou por
opção – às vezes falo com os meus cães. sempre ao ouvido. não gosto de
conversas extraviadas. quem ouve mal acrescenta sempre um ponto – é quando lhes
pergunto se quando chego da rua sentem que sou diferente – nunca me
responderam. mas um dia deixei a porta de casa aberta e um deles aproveitou
para fugir – valeu-me uma vizinha. bateu à porta aflita e disse-me: o seu cão
estava a tentar chegar à campainha – o seu cão… sorri. nunca soube ser dono de
ninguém. tenho apenas a minha cabeça. e a casa onde aprendi a regressar – o meu
cão não fugiu. regressou. tal como eu. quando chego à rua. também acabo sempre
por procurar o caminho de casa – lá fora quase tudo me parece em contramão.
mudo de passeio na esperança de encontrar gente que caminhe no mesmo sentido.
mas não. ainda me perguntam se estou perdido. digo que não. quero apenas chegar
mais à frente – às vezes nem sei quem sou. meto a mão ao bolso e retiro uma
foto com uma casa. rodeada de girassóis. mas não são os girassóis que procuram
o sol. é a casa – é assim que sei que moro lá – pode não ser sempre. porque de
noite não há sol. e sem sol a casa não gira. e quem está dentro dela também não
– mas que importa isso. o que gira tem vida própria. não importa para onde
gira. o importante é girar. girar em liberdade. e que a coragem se faça de
olhos – é por isso que caminho sozinho. acompanhado nunca saberia o que é
importante. e enquanto caminhamos tudo pode acontecer – houve alturas em que
tinha medo de sair. o mundo era aborrecido. muita gente a falar. a dizer coisas
que eu não percebia. às vezes acreditava que estavam a falar para mim. para me
levar para um repente onde o caminho era sempre distante – o que me valeu foi a
foto da casa com os girassóis. era ali que acreditava morar. era ali que
regressava – e se um girassol morria. enterrava-o. dava-lhe um nome. uma
lápide. e uma oração de paz à sua alma – quando o sol voltava. já tinha outro
girassol no seu lugar – um homem pode andar só para se conhecer melhor. mas é o
lugar onde descansa que mostra com verdade o que é – às vezes vou a pensar
quantos seres vivos serão precisos para fazer um mundo completo – começo a
fazer as contas – algumas oliveiras. é preciso clorofila – um jardim com uma
rosa. três tulipas. e quatro cravos vermelhos. é preciso dar cor ao mundo. fazê-lo
crescer. andar para a frente com o nosso nome – dois cães. dois porque juntos
parecem uma multidão de gente racional. quando me apetecer falar vai ser uma barulheira
– um cavalo para chegar mais longe. gosto do galope. e da sua elegância. truc
truc. uma pata de cada vez. parece um britânico da realeza. elegante e
convencido da sua chiqueza – um canguru. gosto de animais que andam aos saltos.
quando alguma coisa não lhes agrada. saltam por cima. eu gostava de fazer o
mesmo. mas nem sempre consigo – e um galo para me despertar das noites em que
me perco dentro de mim – de seres vivos estamos conversados – depois só
precisava de um mar onde uma onda me levasse à lua. e as estrelas tocassem na
água – uma rosa dos ventos para saber sempre voltar à casa da fotografia – caminho
como se dentro de mim cantasse um fado. e por mais que queira ir. o que me
sustenta é sempre a viagem de regresso – sou um embarcadiço da vida. trago os
olhos que me deram esta forma. e por mais que queira ser o que não sou. há uma
força que vem do útero e me diz: podes ir. mas nunca sais do sítio de onde
partiste
às vezes penso que deveríamos ter mais
que uma vida. quer dizer. mais anos para viver – talvez até atingir a
imortalidade – mas depois penso melhor e percebo que a imortalidade seria a
pior coisa que poderia acontecer ao ser humano – deixaríamos de sonhar.
teríamos tempo para tudo. e quando há tempo para tudo. nada é urgente – seria
um aborrecimento – claro que o aborrecimento seria menor para quem pudesse
pagar a eternidade – eu já me imagino a viajar durante mil anos – viveria vinte
anos na amazónia. até conhecer as árvores pelo nome – depois partia para machu picchu.
e aprendia a viver como os incas – seguiria para as pirâmides de gizé. tornar-me-ia
faraó de mim mesmo. e navegaria pelo nilo até o deus do sol me inundar de luz –
na indía escrevia a cinzel o nome da minha amada no taj mahal– de lá dava um saltinho a petra e escrevia um
poema de amor. afinal o que seria da eternidade sem amor – descia os rápidos do
grande canyon a remar contra o tempo – dormia uma noite junto às cataratas de
niágara. pediria novamente a mão à minha companheira e jurava-lhe vida eterna
também para ela – caminharia pela muralha da china. e já completamente baralhado
por tantos séculos. fazia-me samurai no exército de terracota – ninguém
chegaria aos quinhentos anos com a geografia e a história intactas – navegaria
todos os oceanos. e a cada gaivota daria o meu nome. que mais não é do que
liberdade – tomaria banho em bora bora. e agarrado à barbatana de um tubarão
visitaria a grande barreira de coral – teria tempo. todo o tempo do mundo. e
talvez fosse esse o problema – por último faria o caminho de s. tiago –
partiria de frança. caminharia devagar. rezava se entretanto tivesse aprendido.
contemplava a natureza. falava com os animais. comia pão e bebia água –
atravessaria os pirenéus e. quando chegasse à catedral de s. tiago de
compostela. voltaria a casar com a mulher da minha eternidade – repetiria os
votos de amor. talvez com palavras diferentes. mil anos dão tempo suficiente
para melhorar uma declaração de amor – depois regressaria a casa – os meus
filhos. as minhas noras. os meus netos. toda a família estaria à minha espera –
e seria nesse momento que perceberia a estupidez de ter desejado viver para
sempre – há apenas uma maneira de um homem se tornar imortal. continuar
naqueles que vieram depois dele – eu já sou imortal
encontrámo-nos por aí – depois. ficámos amigos – foi
assim que a isabel e o beto entraram na minha vida – passo a passo fizemos o
nosso caminho. sem nunca precisarmos de saber onde nos levava – a bela
esgueirava-se por dentro de nós numa subtileza feita de sorrisos sem tamanho –
abraçava. e no seu silêncio fazia-nos sentir maiores do que realmente somos –
viajámos. dançámos. rimos. sentámo-nos tantas vezes à mesma mesa – ficaram os
jantares. as conversas. as pequenas coisas que naquele tempo pareciam apenas
vida e que hoje são memória – tínhamos apalavrado mais um jantar. mas
acreditamos sempre que o tempo espera por nós – não espera – desta vez chegou
primeiro – e agora já não posso contar com o teu sorriso à mesa. com o abraço.
com essa forma tão tua de estar sem precisar de ocupar espaço – partiste sem te
despedires de ninguém. tenho a certeza de que contrariada. não eras mulher para
estas pieguices de ir embora – estou triste. embora nem saiba se triste é
palavra suficiente para alguém que ainda tinha tanta vida para viver. tanta
velhice para merecer – ficou o beto. fica o meu amigo beto. e ficamos nós com
ele – no próximo jantar estaremos novamente os quatro. haverá uma cadeira que
ninguém precisará de ocupar. porque tu estarás sentada em tudo aquilo de que
nos lembrarmos – numa gargalhada. numa história repetida. num copo levantado.
naquele instante em que alguém disser o teu nome e todos ficarmos um pouco em
silêncio – quem sabe um dia. num outro lugar que te mereça mais. voltaremos a
encontrar-nos – e então riremos outra vez. falaremos de nós no presente. e
finalmente faremos o jantar que o tempo nos ficou a dever – deixo-te um beijo.
bela. com toda a saudade e todo o carinho – às vezes o tempo é apenas uma
invenção nossa. o que importa mesmo é que um dia dissemos olá. e ficámos amigos
– para sempre
o
que acontece depois da
morte? não sei – o que sei é que a nossa morte é como a apresentação de um
livro medíocre. no dia enche-se de gente a sala. mas mal acaba o livro vai para
a prateleira e nunca mais ninguém o abre – não importa o que fazemos. o tempo
apaga-nos. tira-nos o nome e tudo aquilo que fomos – a vida tem um tempo que
não coincide com o nosso – por isso. depois dos sessenta anos optei por deixar
de contar o tempo pelo calendário. cada dia é tudo o que tenho para existir – agora
digo que gosto de mim sempre que me apetece. perdi o medo. abraço quando desejo.
e sem saberem fico com o melhor de quem abraço. sinto o coração a bater. e as
mãos a pedirem sempre mais um pouco desse tempo – já não tenho medida para as
pessoas. as diferenças aproximam-me – percebo agora a ingratidão de ter julgado
aquilo que era apenas diferente – já não deixo por fazer aquilo que me apetece
apenas porque alguém pode não compreender. troquei a camisa branca engomada por
uma t-shirt selvagem – tatuei nos braços o melhor que a vida me deu. a minha
companheira. e uma gaivota – uma para nunca esquecer onde é a minha casa. a
outra para nunca esquecer que preciso de vento. e na última os meus filhos.
unidos ao que sempre quis deixar-lhes: família. verdade. trabalho. belo. honra.
e uma mão para quem tem menos – sou o que o dia me oferece. em tempos podia até
parecer pouco. mas agora não posso deixar que o segundo me leve sem um sorriso –
quero que saibam que entre os meus braços já nada escondo – perguntei-me: o que
te falta fazer? nada que possa fazer amanhã. porque amanhã ainda não é meu – passei
muito tempo a preocupar-me com o que os outros poderiam pensar de mim. agora.
sei que já não me inquieto. a maior parte das pessoas que me rodeiam ainda fala
do amanhã como eu falava. acreditam ainda nas impossibilidades. amanhã é que vai
ser. para o ano vou subir o evereste – já não tenho montanhas para subir. a
única coisa que subo é para cima de mim. do que os olhos alcançam. e às vezes
descubro lá dentro muito mais do que me lembro de ter vivido – teseu tinha
dúvidas se o barco continuava a ser o mesmo depois de lhe trocarem todas as
tábuas. eu já não – deste corpo com que comecei quase nada resta. nem os olhos
veem o mesmo. nem as mãos procuram as mesmas coisas. nem a cabeça acredita no
que acreditava – eu sou apenas a sombra do que fui capaz de guardar – estou em
paz. sei que a morte é apenas o fim da minha memória – depois ficarei na
memória dos outros. cada vez menos. até ser apenas um nome. uma fotografia.
talvez um livro fechado numa prateleira – mas enganei-me no princípio. um livro
fechado não é um livro morto. basta alguém voltar a abri-lo
bemsei que há muita gente a sofrer com o
preço dos combustíveis. felizmente. há três anos que conduzo um carro elétrico.
por isso já me tinha esquecido do peso que o combustível continua a ter na vida
de tanta gente – durante as férias precisei de alugar um carro. duas vezes.
para fazer exatamente o mesmo percurso. cerca de duzentos e quarenta
quilómetros – na primeira viagem paguei sessenta euros. com condutor – na
segunda aluguei um carro. fiz o mesmo percurso. sozinho. e quando o devolvi
paguei vinte e cinco euros – sorri. não pelo dinheiro. mas porque a vida às
vezes gosta de nos recordar pequenas verdades – fizeste o certo no momento
certo. há decisões que nos libertam duas vezes. primeiro da despesa. depois da
ilusão
o meu ego nunca
precisou de ser maior do que os outros. sempre lhe bastou não desperdiçar
aquilo que acredito ter recebido da vida – confio nas minhas intuições.
sobretudo quando falo da família. da educação. dos amigos. ou da escrita. mas
essa confiança nunca me livrou da dúvida. pelo contrário. obriga-me a regressar
vezes sem conta às mesmas ideias. às mesmas pessoas. às mesmas memórias. às
mesmas escolhas. revejo o que escrevo. o que digo. o que penso. e até quem fui.
não porque desconfie da vida. mas porque acredito que a verdade raramente se
entrega à primeira tentativa – escolho criteriosamente os amigos. não preciso
de muitos. preciso apenas de poder confiar neles. quando me engano. afasto-me.
dificilmente volto atrás. não por orgulho. mas porque deixo de reconhecer a
verdade da amizade quando a gratidão desaparece – há uma idade em que perder
pessoas já não me assusta. pior do que perder é aceitar a ingratidão como preço
da companhia. esse preço já não estou disposto a pagar – o meu ego não procura
aplauso. procura apenas justificar a vida que vivi. deixar aos que vierem
depois um caminho um pouco mais limpo do que aquele que encontrei – quando
acredito numa ideia dificilmente recuo. não porque me julgue dono da verdade.
mas porque a experimentei antes de a defender. e quando erro. o julgamento mais
duro nunca vem dos outros. vem sempre de mim. talvez seja essa a verdadeira
medida do meu ego: não querer ser maior do que ninguém. apenas não ficar aquém
de mim próprio – por isso estou certo de que com a idade chegou a melhor versão
de mim. mas mais importante. passei a gostar de mim sem pedir licença a ninguém – já não negoceio a minha paz – não quer ser maior do
que os outros. quero apenas ter a certeza de que não desperdiço a vida que me
coube viver
o
mar traz. o mar leva
– abri a gaveta onde vou adiando todas as decisões. aquele lugar onde
descartamos a mente de precisão: um dia vou deitar atenção ao que está aqui
dentro – um talão de compra de um bisegre. uma chave sem porta. uma pilha sem
carga. e a esperança de que um dia tudo volte a fazer sentido – a gaveta é um
pouco como um aterro sanitário. um papel cobre outro até que o tempo o
decomponha pela inutilidade – hoje resolvi abrir a gaveta. remexi os papéis.
cada um deles menos importante do que outro. e foi então que a gaveta me fez
uma pergunta: o que me fez guardar estes bisegres? procuro a resposta. dentro
de mim a gaveta está tão desarrumada como a memória: já não há espaço para tudo
nem para todos – abro caminho por dentro de mim. retiro o pó. arrumo as pedras
para as abas do mundo. sopro as teias de aranhas. e entre pernas o caminho é
feito de fé – tudo em mim é movido a fé – já não quero guardar o que não presta
– ao princípio cada coisa encontrava o seu lugar. uma caixa de rapé. um bilhete
sem viagem de regresso. e a passadeira sem pegadas – agora. estou parado
comigo. a olhar o que a vida teceu – envelheci. e aprendi que as nossas
escolhas se tornam mais leves quando nos olhamos sem medo do passado – nada no tempo
que gastei me pesa – a minha natureza não é feita de medo. aprendi a perdoar-me.
sou o melhor de mim. afinal o que posso fazer se tudo no mundo é novo e
aprendizagem – a inteligência nunca está pronta. cresce onde existe humildade
para continuar a aprender – cada dia é uma oferta do universo – não tenho arrependimento
do que parte. só parte o que chegou. tal como as marés. e nem por isso a lua se
zanga – amanhã será sempre um dia novo para mim. e se me conheço. encontrarei
outro atalho para chegar mais depressa ao que sou – o tempo não levou tudo.
deixou-me o suficiente para continuar a lembrar-me – sou a consequência de tudo
o que vivi. irrepetível – nem sempre virtude. quase nunca defeito. a verdade já
pesa o suficiente – sou antes vontade de viver. voltar atrás não é solução. a
razão da vida é o desafio. perna que não caminha não vê o mundo – ocupo-me e
desocupo-me. entre o que guardo e o que deixo para trás. descubro sempre que a
gaveta é mais pequena do que a vida – envelheci. passei anos a acreditar que
tinha de provar quem era. hoje fecho a gaveta. a soberba continua a confundir
altura com grandeza – viver sem medo aproximou-me de quem sou. mas uma gaveta desarrumada
é mais bonita fechada – a esperança cria o melhor e o pior de mim. leva-me ao
futuro. liberta-me do passado – o que perco está sempre no dia que já passou – desenterro-me
da gaveta e procuro viver. pois também existo nas escolhas. mesmo quando
tomadas de erros ingénuos – sou o primeiro habitante do mundo que planto. e
anfitrião da paz que nele habita – mas não desisto. há em mim verdade
suficiente para continuar a existir como sou – não mudo por ninguém. mesmo que
o punhal seja do tamanho do inferno – sorrio e interrogo-me novamente: sou tudo
o que há dentro desta gaveta. ou sou muito mais fora dela? o que importa isso
se sempre me sinto acompanhado. se as fotos nas paredes servem para me dizer
que já vivi outras realidades – interrogo-me novamente: o que leva as fotos a
atirarem-se ao nada? talvez o cansaço de viverem. ou de verem os outros
viverem. ou por apenas conhecerem a rua onde o que pensam existe – há quem viva
fechado dentro das próprias certezas. convencido de que o mundo termina onde
acaba o seu olhar. há quem entregue a própria vida às mãos dos outros. até
deixar de reconhecer a voz que traz por dentro. entre a soberba de quem julga
saber tudo. e o silêncio de quem já não sabe quem é. procuro apenas continuar
inteiro – e no mundo onde escolho viver. o que me magoa não me merece – o que
não soma. subtraio – o mar continua a trazer. o mar continua a levar. e eu
continuo à beira dele. pronto para acolher apenas o que me fizer crescer
II.
todas as perdas começam muito antes da
despedida. este texto nunca terá um fim. haverá sempre uma palavra à procura do
último ponto. por isso fica assim. incompleto. como eu
claro que sou escritor – escrevo porque não sei calar o que
me cresce dentro – escrevo-me no papel. conto histórias do meu passado. umas
doem. outras abrem o fundo onde ainda me procuro – talvez isto bastasse. mas um
homem quer sempre saber em que divisão joga – foi então que pensei nos homens
da bola. nos que fazem do jogo um ofício – comecei a perguntar-me que espécie
de escritor sou eu afinal – um homem raramente sabe o tamanho exato de si. conhecendo-me.
sei que escreveria metade do que sou. e esconderia a outra metade por medo de a
exagerar – um homem procura sempre uma imagem que lhe não minta – olho para aqueles
homens. e vejo-os entrar em campo como homens que nunca tiveram outra língua. ganham
milhões a pontapé. e repetem até à exaustão o que fazem. o que gostam – nenhum
escritor. por mais excecional que seja. toca o dinheiro que corre nos pés
desses homens – a única semelhança. é que no fim. todos regressam ao campo no
dia seguinte– andamos todo o dia aos pontapés à língua e às suas regras.
e pagamos cada erro com silêncio – falhar uma concordância é para um escritor.
o que falhar um penalty é para um avançado – um erro ortográfico é entrar fora
das leis do jogo. e às vezes custa-nos um jogo inteiro – depois há os
jogadores das ligas menores. onde a exigência baixa. mas o dinheiro também fica
difícil – e. no entanto. dizem o mesmo que os que ganham milhões. fazem o que
gostam – já os escritores bons. a dois dedos dos mestres. mas fora do foco da
luz. dizem também que fazem o que gostam. a diferença é que muitos acabam a contar moedas ao fim
do mês. vivem encavalitados no cartão de crédito – eis a conclusão. sou um
escritor que joga nos campeonatos distritais. sai do trabalho. arruma a cabeça
numa pasta de arquivo. coloca a placa na porta: volto já – levanta a cabeça e
diz para si: agora sou real – tomo o equipamento. chuteira e caneleiras sem
esquecer. e começo o aquecimento. primeiro uma vogal. conto os toques que dou
sem a deixar cair – depois. uma palavra pequenina. e aí já domino com a cabeça.
às vezes ombro. e quando dou por mim. chuto sem parar para o écran. e fico ao pontapé
às palavras até que a luz me consuma de cansaço – a alvorada desperta-me. e
quando volto ao que escrevi encontro sempre uma palavra que falhou o remate –
mas não importa. sou eu que marco as balizas no tempo. mas também sou eu que
lavo o equipamento – há seres estranhos. vivem no meio das palavras e confundem
silêncio com salário – mas não me importa. os jogadores da bola reformam-se ao
trinta e poucos anos. ficam à procura da bola e já não rola – eu. não tenho
idade para deixar de chutar vogais. e quando me canso. encontro sempre um verbo
que me motive. atiro uma palavra ao ar e sem a deixar cair remato-a para o
papel – quando acordo para o trabalho. a única certeza que levo é que mesmo
sendo pior escritor. no regresso. nenhuma letra me abandonou. às vezes até as
confundo com o meu cão. vêm ao meu encontro. abanam a cauda. e perdoam-me todos
os erros – e assim sigo. a lavar o equipamento para o jogo seguinte – neste
jogo de palavras não há apito final
o
dia chegou. e eu sou
agora uma porta aberta. onde entras e sais sempre que me quiseres visitar – a
cadeira está no sítio do costume. a mantinha agasalha o que falta. e o sorriso
continua a ocupar o lugar que criaste na nossa casa – a vida acontece. embala o
destino. o sino toca ao desespero. a roupa escurece. um terço. uma ave-maria. e
o que era tempo transforma-se em saudade – queria tanto que o ontem fosse
eterno – restavas tu de tudo o que sou – criaste-me. protegeste-me. amaste-me.
seguraste-me nos momentos em que o mundo parecia desabar. nunca me faltaste.
nunca me soltaste a mão – ninguém desaparece enquanto houver quem o pense. enquanto
uma memória regressar à mesa. enquanto um nome voltar a ser chamado. enquanto
um sorriso reencontrar caminho dentro de nós – levar-te-ei comigo para onde o
caminho me levar. serás sempre casa. serás sempre família. serás sempre nome. terás
a mesma terra do papá e da mamã. e será ali. junto deles. que te darei o último
beijo. depois ficarei a ouvir o silêncio. não para te procurar. mas para te
encontrar – e agora. peço-te. que onde estiveres. não nos largues a mão.
continuamos a precisar de ti – todos
a
tristeza não se
consegue escrever – sentado na escrivaninha. as mãos a tocar as teclas. as
paredes frias. e as lágrimas a escorrer sem tocarem a pele – há qualquer coisa
que as esconde do mundo – o que é meu não pode ser de mais ninguém – nunca quis
ser forte. nunca precisei de ser maior do que sou. tudo o que fiz a correr foi
para chegar mais longe – a boca sempre foi o meu maior pesadelo. nunca soube
dizer o que não sentia. e por isso. tornei-me escravo da minha verdade – a
balança já com tara. a pesar cada verbo no futuro. e eu a dizer que cresci.
mudei. a pedir perdão por cada palavra nova que inventava – talvez viver fosse
só isto – mas depois. há as pessoas. elas crescem connosco. não ao lado. nem há
frente. dentro de nós. como se fossem terra. semente. como móveis antigos
dentro da casa – queremos muito acreditar que tudo é para sempre – nascemos. e
no peito o coração bate amor. não sabemos o que é. sabemos que nos aquece.
ficámos maleáveis. e tomamos a forma dos braços que nos embala – choramos sem
conhecer a dor. apenas para crescer. para aprendermos a doçura – um dia rimos.
um dia passamos sem comer. mas nunca sabemos a verdade que o ventinho norte nos
vai trazer – foram tantas as noites que passei a imaginar o futuro. e em
nenhuma me vi a partir sem levar a saudade de quem me ensinou a voar – hoje
saiu de minha casa a minha segunda mãe. e ainda não sei o que fazer com o
corpo. estou assim – faz frio. quero voltar ao passado. aos braços que me
ergueram. e trazer tudo de volta. ouvir o coração antes das palavras. voltar ao
colo. ao primeiro UA – agora estamos os dois a lutar. a UA à sua maneira.
amarrada ao seu deus – mas eu não sei rezar. e interrogo-me porque a vida nos
faz isto – o corpo fraco a agarrar-se à vida. e o meu nome preso a uma mão a
tremer. como se toda a nossa vida fosse apenas aquele momento. os olhos com
sede de vida perdidos numa casa sem nada nosso – só queria fugir dali. levar-te
comigo para uma varanda antiga onde ainda coubéssemos os dois – tantos anos. e
nunca me falhaste. estiveste sempre ali. como se ali fosse o princípio de todos
os dias. e eu sempre a correr. como se esse dia nunca fosse acabar. como se
amar fosse distância – agora tenho a tua voz a sussurrar baixinho dentro de mim.
o teu nome é a minha vida. e se houver um deus maior. no dia em que a porta se
fechar. eu estrarei na barca para te dizer: leva-me num lencinho de mão.
recorda-me… e protege-me do frio que aí vem
háem
mim um sistema de freios e contrapesos – cada eu vigia o excesso do outro – não
sei como os criei. cresceram como os frutos nas árvores – acredito que cada um
dos meus eus ditou uma norma – e assim comecei a organizar o caos dentro de mim
– diz um: quando chegares ali volta para trás – e logo outro acrescentou. não
te esqueças que tu és a casa – e outro. o mais falador. que nunca está calado
diz: fala. não tenhas medo. a verdade é aquela que couber dentro de ti – por
fim. o mais perdido de todos acrescenta: escreve. prosa ou poesia. e se não
tiveres palavras escreve um haiku. mas não te esqueças das concordâncias em
modo tribal – a minha dúvida. sem solução. é saber se nasci assim. ou se o
mundo me talhou à sua forma – por isso escrevo. porque só na escrita me
aproximo do homem que imagino ser – pego em mim. em estado bruto. e de goiva na
mão. vou tirando lascas – ao princípio desconfio da mão. mas o tempo repõe tudo
no seu lugar – há dias em que passo por mim no espelho e continuo a andar. como
quem evita cumprimentar um desconhecido – mas chega sempre o dia em que o
enfrento e pergunto: quem sou eu? não sei – os olhos são animais perigosos.
impossíveis de domesticar – no espelho eu sou apenas o reflexo do que eles
gostam de criar. mas o que sinto não depende do reflexo. aí… sou verdade – as
gaivotas atravessam o céu. as palavras atravessam pessoas – às vezes paro a
meio da cozinha sem saber ao certo o que fui buscar – fico imóvel. a olhar a
janela. como se houvesse qualquer coisa em mim atrasada da vida – já não posso
mais mentir ao mundo. quero que saibam que em cada amanhecer eu sou o silêncio
da noite – visto-me do que sonhei e entro no que me espera. não por destino.
mas por tudo o que me leva. e se todos soubessem quantas coisas eu preciso de
levar ao vento. talvez os olhos se cruzassem num devaneio louco. e eu deixasse
de caber no nome que me deram – não sou o que veem. porque vivo no que sou. os
sapatos que me servem nasceram nos demónios que domei. e por mais que goste de
mim. nunca é suficiente – o fogo ocupa o espaço entre a bravura. e aquilo que
amanhã me cala – sou mais meu quando abraço os eus. por isso aceito-os: não
como chão frio. mas como caminho. e se no caminho me faltar o mundo. não
importa. em mim haverá sempre qualquer coisa por descobrir – bem sei que não é
fácil viver assim. não é fácil viver comigo. tão depressa faço silêncio. como
corro para onde não quero chegar – quem pode esperar por alguém assim? só a
minha casa guarda a chave do que sou. porque só nela me sinto inteiro. protegido
dos meus demónios. e mesmo quando um deles me rouba a serenidade. eu sei que o
espelho às vezes me devolve ao princípio do caminho. e é aí que volto a ver-me
nos braços da minha mãe. e o meu pai a dizer: é um menino. e vai para sempre
menino – de manhã aperto os atacadores devagar. como se o corpo precisasse de
tempo para aceitar outra vez o peso do mundo – e vou. porque tudo em mim
continua a caminhar. talvez por isso abril continue aceso em mim – é então que
faço uma fogueira dentro do que sou – à volta dela chegam os meus ancestrais. a
família que construí. e todos os eus que me trouxeram até aqui – dançamos em
silêncio. e por cada volta ao fogo. mais um dia deste caminho
e eu fico. não inteiro. não dividido. fico como
sou – há em mim mais do que um. e nenhum vai embora – aprendi que não se
escolhe o que somos. apenas o que fazemos com isso – há dias em que me
encontro. outros em que me atravesso. e talvez seja isso viver. não a certeza. mas
o movimento – já não procuro ser um. nem deixei de ser muitos. aprendi a não
fugir quando me contradigo – há um em mim que quer silêncio. outro que pede
mundo – e agora deixo-os existir. não em paz. mas sem guerra – talvez nunca
tenha sido sobre escolher. mas sobre suportar. e continuar. mesmo quando não
sei quem sou – e eu só. só de mim. só com as palavras que me cresceram na ponta
dos dedos. e em cada oração o sujeito mergulhado em formol. pergunta ao tempo
quanto tempo vou precisar para que volte a ser apenas um – a cabeça de um lado
para o outro. tenta reconhecer cada sentimento sem nome. e cada palavra um mar em
revolta. e a água um cardume de razões para desistir – é como se dentro de mim
habitassem ninfas dos tolos. e os ouvidos tapados por um eu que desconheço.
como se soubesse que um dia sou engolido por mim mesmo – escrevo por que ouço
as gaivotas a viver. e mesmo que a porta dos eus se feche. e a estrada se desfaça.
eu vou a correr por mim para ser um pouco dessa magia – e se me faltar um eu.
nem que seja inventado. eu crio-o – quero lá saber dos verbos e dos
complementos diretos. eu sou o sujeito de todas as orações – tenho medo. mas
também sei que a noite não fica para sempre – envelheci. e hoje deixo que os
meus eus falem sem lhes pedir explicação – o que fica deles escreve-se sozinho –
durante anos carreguei o que fui às costas – agora começo finalmente a sentir o
peso a afastar-se – se ficarmos colados ao passado não sentimos a mudança – somos
também aquilo que construímos para nos suportar – só o tempo cria distância suficiente para
vermos o erro – e talvez seja por isso que continuo a afastar-me de mim – e eu
sigo – é preciso quebrar
a ampulheta. e partir pelo que ainda não foi – se continuo a escrever é porque
nem tudo em mim nasceu da ruína – às palavras devo o que consegui salvar – foram
as palavras que impediram os meus eus de desaparecer completamente. continuaram
a respirar dentro de mim quando eu já não sabia como voltar – hoje já não me
importa o valor do que deixo. apenas que exista – foi com as palavras que
consegui continuar quando tudo em mim já queria parar – talvez chegue um dia em
que o silêncio já não me doa – não sei quanto tempo vou escrever. sei que sobrevivi
o suficiente para me tornar outra coisa. e mesmo que não voe serei para sempre
gaivota
gaivotas– atravessam – há nelas qualquer coisa que
não é minha – voam contra o vento como se o vento não mandasse – e depois
deixam-se levar como se nunca tivessem escolhido – não sei se são livres. ou
apenas melhores a obedecer – são as únicas amigas de éolo – acredito que ao
contrário de guardar o vento numa caixa. o guardam debaixo das asas – às vezes rasgam
o ar. outras voam para o céu como anjos – e eu sem saber se o fazem por vontade.
ou apenas por destino – há momentos em que parecem decidir. outros em que
parecem cair – e eu aqui em baixo. sem saber qual dos dois sou. ou qual deles
sou em cada rajada – também tenho um vento. empurra-me. puxa-me. muda de
direção sem me pedir – todos temos um
destino. todos temos um vento. todos temos um vento que sopra a favor – nem que
seja por um dia. por um momento de silêncio – o meu vento é a minha força.
mesmo quando me empurra para um destino que não quero – às vezes avanço. outras
cedo. e nunca sei se fui eu. ou se fui levado – olho para elas e penso: como se
aprende isto? voar sem pedir. sem explicar. sem hesitar – talvez não aprendam. talvez
apenas sejam. e eu ainda não – se ao menos soubesse escrever a força do vento. e
dizer quantas poeiras minúsculas são minhas – não sei – o que sei é que todas
juntas fariam uma ilha só para mim. com uma casa em cima de uma onda. e uma
cama feita de sono profundo. sono descanso. sonho quieto – onde os meus eus
acordam sem saber qual de mim abriu os olhos
ao leitor não importa qual dos eus
fala. importa que fale – as palavras são gaivotas para mim. liberdade – e para
quem me lê? não sei. talvez nada. talvez apenas o deslumbramento de um eu que
precisa de ser compreendido – se eu soubesse falar não escrevia. juro – as
palavras dizem o que podem. para mim quase tudo. para o leitor… quase nada – e
ainda assim salvam-me – pergunto sempre ao eu que escreve: o que seria de ti
sem isto? poeira? estrada sem fim? talvez um homem sentado na falésia a olhar
para os próprios pés – dentro de mim nada sai que não me pertença – o que de
mim chega ao papel pouco importa. importa o que me sustém – e ainda assim
escrevo. como quem procura alguém que diga: quando escreves és eu – procuro-me
nos outros. nos seus silêncios. nas suas falhas – talvez escreva para não
desaparecer. ou para deixar rasto. ou mapa – acredito que as palavras podem ser
mais do que isso. que podem tocar alguém. mesmo que por um instante – um gesto.
um reconhecimento. um sim dito em silêncio – e então escrevo mais – não para
explicar. não para convencer. mas para existir fora de mim – há dias em que
sinto que tudo o que escrevo me ultrapassa. e outros em que nada do que escrevo
chega – e nesse intervalo continuo. escrever é o único lugar onde não me perco
completamente – e mesmo que ninguém leia. mesmo que ninguém compreenda. há
sempre um eu que fica – isso basta – mas confesso: se um dia crescer. se os
dedos exigirem razão. mesmo que seja apenas com um dedo. escreverei tudo o que
penso – serei olhos abertos sobre o mundo. serei ninguém por ser de todos. e
ninguém por caber em todos – e no fundo do que sou. um murmúrio de gente como
eu. a acenar em silêncio – escrevo na procura de quem me reconheça: quando
escreves és eu – sou a procura dos meus eus nos outros. na palavra certa no
lugar incerto de quem lê – todas as incertezas pedem um gesto que as atravesse
– e a desilusão ensina-me a resistir aos que não me alcançam – envelheci. e
agora tanto faz falar como calar. o que me sobra são palavras – às vezes é preciso
sair do que fomos para tocar o que somos – sem distancia do passado não há
mudança – somos também o que construímos para nos suportar – o tempo não mede.
afasta – não me diz onde estou. mas empurra-me – por isso avanço pelo que falta
– fui feito no amor. e é com isso que escrevo – às palavras devo o que consegui
manter aceso – foram elas que alimentaram os meus eus. que atravessaram a
escuridão – que me devolveram de onde eu já não voltava – hoje já não me
importa o valor do que deixo. apenas que fique – porque foi com elas que
atravessei esta extensão sem fim – e um dia. quando se calarem. saberei que
cheguei – não sei quanto tempo ainda escrevo – sei apenas que me inventei nos
destroços. e mesmo que não voe. há em mim qualquer coisa que já aprendeu a ser
gaivota
escrevo para perceber quantos sou quando penso
ser apenas um – incubadora de eus nasce dessa inquietação – um lugar onde cada
parte de mim ganha forma e voz – o nascimento do múltiplo – se alguém me ouvir –
gaivotas – sem guerra – e contra freios. são passos da mesma procura: existir dividido sem
deixar de ser inteiro – se alguém se reconhecer neles. então não escrevi
sozinho
1.o nascimento do múltiplo
tenhomedo – não
tardarei a deixar de me reconhecer nas minhas palavras. e talvez seja por isso
que este pensamento vibra num abrigo de eus: o meu corpo – agora sei. não sou
um – a dor. a alegria. a tristeza. a saudade. a esperança. a dúvida. a loucura.
a paixão. vivem em mim como se cada uma tivesse o seu nome – há em mim quem ame
uma única mulher. inteiro. para sempre – há outro que se espalha pelo mundo.
fala. ri. procura tudo – pergunto à minha amada: amas-me?
-- sim. amo-te
qual deles? fico em silêncio – há um sorriso que
lhe cai dos olhos e me prende nos lábios – calor – e há ainda outro sem nome – estranho
não saber nomear o que é meu – todas as manhãs acorda diferente. ontem podia ser
antónio. hoje parece-me manuel. talvez silva. gosto de silva. cresce em solos
pobres – e eu rastejo como se andasse em bicos de pés. os picos não se veem.
floriram para dentro da pele – há também aquele que mede o tempo. e que me diz:
o tempo não são anos. é a luz que encontraste – descansa – diz o silva –
mereces o repouso. procura nos teus eus a força de recomeçar – e às vezes não
me basto. levanto-me para escrever. como se. na dispersão de tudo. ainda
houvesse uma palavra à procura de ser escutada
um aniversário vale pela memória – o que fizemos e
guardamos – sexta-feira somei mais um ano. cheguei ao hoje. que nada mais é que
o prenúncio do dia seguinte – juntei a família e amigos – estavam todos – e
celebrei a vida que me guarda. à volta de uma mesa cheia. num ruído bom que não
queria que acabasse – e ficou em mim – a família é o meu único propósito. o
único chamamento que reconheço. o que me leva sem margem. só caminho – o
nascimento aconteceu. depois fui obrigado a crescer. e ainda não parei – o que
levo deste aniversário são as presenças que me ajudaram a soprar as velas. e
esta música que me ofereceram – a felicidade é tão efémera. para sempre fica a
melodia – obrigado