há dias em que saio comigo. e vou por esse mundo fora. a olhar o que insiste
em existir. o que ocupa espaço – podia fechar os olhos. mas corria o risco de
tropeçar. magoar-me com a indiferença – caminho de olhos abertos – às vezes um
aceno de um transeunte. fico sem saber se me conhece. ou é alguém educado no
século passado – um carro acelerado. com gente dentro acelerada. de onde saem
crianças ainda mais aceleradas – hoje há pressa para tudo – uma velhinha corre
contra o tempo no seu vagar. a bengala a marcar o passo. um passo que segura a
mão à vida – para ela já só importa chegar – a morte comanda a vida. não
adianta correr. ela apanha-nos – na outra mão um saco de compras enrugado. cheio
de nada. o mais importante leva à cabeça: chegar – os cães chegam à rua com
pessoas presas a uma trela – fico com a sensação de que o mundo está de pernas
para o ar – é tudo tão complicado – tenho dois cães em casa. não os levo à rua
por não ter trela. nunca tive trela para nada – viver comigo sempre ficou por
opção – às vezes falo com os meus cães. sempre ao ouvido. não gosto de
conversas extraviadas. quem ouve mal acrescenta sempre um ponto – é quando lhes
pergunto se quando chego da rua sentem que sou diferente – nunca me
responderam. mas um dia deixei a porta de casa aberta e um deles aproveitou
para fugir – valeu-me uma vizinha. bateu à porta aflita e disse-me: o seu cão
estava a tentar chegar à campainha – o seu cão… sorri. nunca soube ser dono de
ninguém. tenho apenas a minha cabeça. e a casa onde aprendi a regressar – o meu
cão não fugiu. regressou. tal como eu. quando chego à rua. também acabo sempre
por procurar o caminho de casa – lá fora quase tudo me parece em contramão.
mudo de passeio na esperança de encontrar gente que caminhe no mesmo sentido.
mas não. ainda me perguntam se estou perdido. digo que não. quero apenas chegar
mais à frente – às vezes nem sei quem sou. meto a mão ao bolso e retiro uma
foto com uma casa. rodeada de girassóis. mas não são os girassóis que procuram
o sol. é a casa – é assim que sei que moro lá – pode não ser sempre. porque de
noite não há sol. e sem sol a casa não gira. e quem está dentro dela também não
– mas que importa isso. o que gira tem vida própria. não importa para onde
gira. o importante é girar. girar em liberdade. e que a coragem se faça de
olhos – é por isso que caminho sozinho. acompanhado nunca saberia o que é
importante. e enquanto caminhamos tudo pode acontecer – houve alturas em que
tinha medo de sair. o mundo era aborrecido. muita gente a falar. a dizer coisas
que eu não percebia. às vezes acreditava que estavam a falar para mim. para me
levar para um repente onde o caminho era sempre distante – o que me valeu foi a
foto da casa com os girassóis. era ali que acreditava morar. era ali que
regressava – e se um girassol morria. enterrava-o. dava-lhe um nome. uma
lápide. e uma oração de paz à sua alma – quando o sol voltava. já tinha outro
girassol no seu lugar – um homem pode andar só para se conhecer melhor. mas é o
lugar onde descansa que mostra com verdade o que é – às vezes vou a pensar
quantos seres vivos serão precisos para fazer um mundo completo – começo a
fazer as contas – algumas oliveiras. é preciso clorofila – um jardim com uma
rosa. três tulipas. e quatro cravos vermelhos. é preciso dar cor ao mundo. fazê-lo
crescer. andar para a frente com o nosso nome – dois cães. dois porque juntos
parecem uma multidão de gente racional. quando me apetecer falar vai ser uma barulheira
– um cavalo para chegar mais longe. gosto do galope. e da sua elegância. truc
truc. uma pata de cada vez. parece um britânico da realeza. elegante e
convencido da sua chiqueza – um canguru. gosto de animais que andam aos saltos.
quando alguma coisa não lhes agrada. saltam por cima. eu gostava de fazer o
mesmo. mas nem sempre consigo – e um galo para me despertar das noites em que
me perco dentro de mim – de seres vivos estamos conversados – depois só
precisava de um mar onde uma onda me levasse à lua. e as estrelas tocassem na
água – uma rosa dos ventos para saber sempre voltar à casa da fotografia – caminho
como se dentro de mim cantasse um fado. e por mais que queira ir. o que me
sustenta é sempre a viagem de regresso – sou um embarcadiço da vida. trago os
olhos que me deram esta forma. e por mais que queira ser o que não sou. há uma
força que vem do útero e me diz: podes ir. mas nunca sais do sítio de onde
partiste