hoje voltei a ser avô – o joão e a
sofia trouxeram para a nossa eternidade mais um rapaz – antónio – ainda agora
chegaste. e já trazes contigo um lugar que ninguém poderá voltar a ocupar – não
sabes quem somos. nem sabes ainda a quantidade de gente que te espera deste
lado – um dia saberás – vais aprender os nossos nomes. reconhecer as nossas
vozes. talvez correr por esta casa sem perceber quantos correram antes de ti –
e pouco a pouco também tu começarás a fazer parte desta história que ninguém
escreveu inteira. mas que todos transportamos dentro de nós – antónio. serás a
partir de hoje mais uma extensão de nós no universo – mas não quero que sejas a
nossa repetição – não nasceste para continuar os nossos erros. nem para
realizar os sonhos que deixámos por cumprir – nasceste para construir os teus –
é isso que mais te desejo – que te construas em liberdade – que ninguém te
convença de que existe apenas um caminho – que saibas mudar de direção sem
pensar que te perdeste. voltar atrás sem vergonha. começar novamente sempre que
a vida te mostrar que já não és aquele que escolheu a primeira estrada – e
antes de procurares a felicidade nos outros. procura-a dentro de ti – não
entregues a ninguém a responsabilidade de te fazer feliz – ama muito. deixa que
te amem ainda mais. mas guarda sempre dentro de ti um lugar que seja apenas teu
– será aí que regressarás quando o mundo fizer demasiado barulho – os lopes
trazem uma história dentro de si – nem sempre foi uma história fácil – talvez
por isso tenhamos aprendido a levantar-nos tantas vezes – receberás alguma
coisa dela sem escolher. como todos recebemos – mas não tens obrigação de
carregar tudo – leva aquilo que te fizer maior. o resto deixa ficar connosco – vais
errar. ainda bem – vais perder. vais chorar. vais amar quem talvez não
devesses. vais acreditar em coisas que um dia deixarão de fazer sentido – e um
dia descobrirás que crescer não é acertar sempre – é continuar inteiro depois
de percebermos que também fomos capazes de estar errados – não te desejo uma
vida perfeita – seria uma vida pequena – desejo-te curiosidade. coragem.
bondade. livros. música. amigos. gargalhadas. algum disparate. muito amor –
desejo-te a capacidade de olhar para alguém diferente de ti sem precisares de o
tornar igual – desejo-te mãos disponíveis para quem precisar delas. e olhos
suficientemente livres para encontrares beleza onde os outros passam sem olhar
– e quando não souberes para onde ir. há uma coisa que quero que saibas desde o
primeiro dia: tens casa – não a casa das paredes. essa um dia mudará de mãos –
tens esta outra. feita do teu pai. da tua mãe. dos que chegaram antes de ti.
dos que chegarão depois – uma casa onde o erro não te retira o nome. onde podes
partir. voltar. cair. levantar-te. ser diferente de nós – e continuar a ser
nosso – hoje ainda não sabes nada disto – dormes. respiras. talvez chores sem
perceber porquê – e nós ficamos deste lado. parvos de felicidade. a olhar para
um homem que ainda cabe inteiro em dois braços – bem-vindo. antónio – não sei
quanto tempo teremos juntos – ninguém sabe – mas sei uma coisa: a partir de
hoje. quando alguém me perguntar o que deixo depois de mim. haverá mais um nome
para responder: antónio – constrói-te em liberdade. procura a felicidade dentro
de ti. e depois vai – vai ser tudo aquilo que nós ainda não sabemos que podes
ser