15/05/2026

incubadora de eus - 3. gaivotas

 



gaivotas – atravessam – há nelas qualquer coisa que não é minha – voam contra o vento como se o vento não mandasse – e depois deixam-se levar como se nunca tivessem escolhido – não sei se são livres. ou apenas melhores a obedecer – são as únicas amigas de éolo – acredito que ao contrário de guardar o vento numa caixa. o guardam debaixo das asas – às vezes rasgam o ar. outras voam para o céu como anjos – e eu sem saber se o fazem por vontade. ou apenas por destino – há momentos em que parecem decidir. outros em que parecem cair – e eu aqui em baixo. sem saber qual dos dois sou. ou qual deles sou em cada rajada – também tenho um vento. empurra-me. puxa-me. muda de direção sem me pedir –  todos temos um destino. todos temos um vento. todos temos um vento que sopra a favor – nem que seja por um dia. por um momento de silêncio – o meu vento é a minha força. mesmo quando me empurra para um destino que não quero – às vezes avanço. outras cedo. e nunca sei se fui eu. ou se fui levado – olho para elas e penso: como se aprende isto? voar sem pedir. sem explicar. sem hesitar – talvez não aprendam. talvez apenas sejam. e eu ainda não – se ao menos soubesse escrever a força do vento. e dizer quantas poeiras minúsculas são minhas – não sei – o que sei é que todas juntas fariam uma ilha só para mim. com uma casa em cima de uma onda. e uma cama feita de sono profundo. sono descanso. sonho quieto – onde os meus eus acordam sem saber qual de mim abriu os olhos


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