21/04/2026

cheguei ao hoje





 

um aniversário vale pela memória – o que fizemos e guardamos – sexta-feira somei mais um ano. cheguei ao hoje. que nada mais é que o prenúncio do dia seguinte – juntei a família e amigos – estavam todos – e celebrei a vida que me guarda. à volta de uma mesa cheia. num ruído bom que não queria que acabasse – e ficou em mim – a família é o meu único propósito. o único chamamento que reconheço. o que me leva sem margem. só caminho – o nascimento aconteceu. depois fui obrigado a crescer. e ainda não parei – o que levo deste aniversário são as presenças que me ajudaram a soprar as velas. e esta música que me ofereceram – a felicidade é tão efémera. para sempre fica a melodia – obrigado



16/04/2026

escuridão vista de dentro: um inventário aos anos







1.

aqui estou. a olhar. a pensar nas coisas que ainda existem dentro de mim. e também nas coisas. que não estando dentro de mim. me iluminam como iluminam as auroras do norte – faz anos hoje que nasci. e da viagem nada. nem mapa de mim – sempre que este dia regressa penso nas coisas boas que me aconteceram. na chuva que me molhou. nos lábios que me beijaram como se fossem primavera. e no voo doce que me levou para onde já não caio – e agora que o tempo é menos do que sou. o que faço comigo? vivo com quê? recordo os afetos que me seguraram até aqui? ou choro a raiva que transporto e me corrói a alma como um corpo fora do seu lugar – vivo sem vagar – o mundo moldou-me na forma que eu escolhi – a verdade é que são as coisas que existem em mim que me fazem do tamanho que sou – e dou por mim a contar os anos. mais um. e o calendário rasgado em quatro. e corro. sei que se faz tarde para o que há de vir – só resguardado estou sereno. só resguardado sou eu numa verdade boa – e já não sei onde começa o tempo em mim – há dias em que sorrio por gratidão e outros. apenas por obrigação – motivo-me com as palavras que escrevo. fortifico-me com a fé num deus que inventei só para mim –- resisto -- conto as rugas porque não me apetece contar mais nada – fujo do que não posso evitar. desespero. insulto-me com palavras e juro que estou ainda mais vivo do que ontem – corro ao redor de cadeiras que nunca se ocupam. enquanto a chuva entra-me pelos olhos e ficaesbracejo e grito com o que me resta para a vida: aqui estou deus cruel. crucifico-me não por ti. mas pelo que trago em mim. esta é a minha casa. é aqui que farei da morte desculpa – e os fantasmas a correr numa casa saqueada que é tudo em mim – tudo o que tenho é nada. e mesmo assim. campos plantados de sonhos – apetece-me descansar estas pernas sem descanso – e eu aqui a ler o tempo até me doer os olhos. as mãos a rasgar o dia de ontem. as lembranças a sangrar. e o sino tlim… tlam… tlim… tlam… não chama. conta – o silêncio pesa – fujam… fujam… o coração não vê o que não ama – de frente o vento rasga-me a voz e as montanhas devolvem-me os gritos em desespero – sou neste corpo envelhecido o inventário de tudo o que o tempo me trouxe – aqui me encontro ainda eu a escrever como se as palavras me trouxessem uma vida extra – se deus me desse uma vela e um sopro. apagava toda a tristeza que guardei para sobreviver – procuro ainda esperança. ainda tempo. ainda tudo o que sempre procurei para que as coisas se acalmem – vivo num fogo que me gasta – toda a minha vida é feita de coisas. certas e incertas. às vezes sorriso. outras. amargos de boca – não importa. tudo se perdoa quando o outono chega – a cabeça não para de pensar. mata-se. agonia-se com a saudade. e todas as coisas valiosas cada vez mais afastadas – não por fugirem. mas por eu já não chegar – só tenho uma vida – o desespero é a minha pele desde o dia em que me obriguei a crescer – só a esperança ralha comigo – a mãe de tudo o que sou partiu para um silêncio onde não entro – e nunca mais ninguém soube onde guardar a casa – as coisas que amo a morrer vezes sem fim. como se os aniversários quisessem rebobinar os dias – estou aqui porque não posso estar noutro lugar. noutro inferno. e o que imagino é um negro que me fere por dentro – nenhuma palavra será gaivota. nem me levará onde eu sou – nada acontece às velas que não ardem – e eu pendurado nas coisas que existem dentro de mim. que amo. que beijo. e que sofro sempre que as tomo em silêncio – é tudo o que sei fazer – o mundo só me tem servido para envelhecer – aqui estou. e é neste corpo que tudo termina em mim

 

2.

e agora falo para vocês – é por isso que às vezes creio que sou sábio. é quando olho em redor. e percebo que tudo é muito mais do que eu consigo carregar – e o que é um homem arrastado no tempo? é vida – sou mais do que quando nasci. e menos do que imaginei ser – sou dois parêntesis abertos à espera de sentido. existo por não estar só. construí-me com o que sobrou do mundo – nunca me perdi de mim. encontrei-me no que vinha antes. recebi um nome. dei-o – e o que sou ficou – e depois vieram vocês. não como futuro. mas como começo – os meus filhos são a origem do mundo. antes deles eu não existia. só depois apareceram as estrelas. os oceanos encheram-se de peixes. as gaivotas fizeram liberdade. e do sol cresceram os bem-me-queres – eles sempre existiram em mim – não me lembro de um único dia sem eles. só com eles me tornei inteiro – nenhum filho me deve nada. tudo o que me deram foi mais do que uma fotografia guardada – sou pai. não poderia ter sido mais nada – mesmo que tivesse direito a um sonho – o que vos deixo começa antes de vocês – já tu eras começo – ao meu lado. o belo tem o teu rosto. como se o sim nunca tivesse acabado – a nossa vida tem sido isto: anos a falar. e o dia seguinte a chegar doce – amar-te foi a coisa mais simples que o coração aprendeu – tem sido tão bom envelhecer a teu lado. estamos tão crescidos que até os sonhos vieram de nós – todos os dias começam nos teus olhos – há dias em quero recordar os vossos avós. mas já passou tanto tempo. que nem sempre os consigo ver – lembro-me do último beijo. e isso basta – quando envelhecemos. a memória falha. mas o amor não – guardem o que se perde. antes que se apague – a vida tenta sempre tomar-nos o espírito. é quando chamamos a liberdade. mudamos de rosto para permanecer – sair. caminhar. viajar. saber o bastante para continuar. fazer amigos. perdê-los. aprender a amar no intervalo – entregar-se ao mundo. procurar-se nele – há sempre um lugar que recolhe – falar com os animais. eles escutam melhor do que muitos humanos – tocar a natureza. pousar o ouvido. é lá que o melhor fica – juntar a família não há dia certo. qualquer um serve – oferecer ao universo o que somos – isso basta – enquanto o destino deles dependia de mim. nunca pude ser o que queria ser – agora. sou o que sou – e deles só espero amizade. companheirismo. que caminhem ao meu lado. mesmo quando não entendem – isso é o amor impossível – os pais não são apenas um corpo. ficam – quando a idade nos mostra o fim do caminho. o mais importante é perceber o que nos trouxe até aqui – aceitar o que trazemos. mesmo que seja pouco – o que nos leva é a certeza. de que nada mais poderíamos ser. senão este abismo da despedida – uma família precisa de saudade. é assim que se mantém – por isso nos tornamos no que nos identifica. e quando partimos. o corpo desaparece para que a saudade aprenda a viver sem nós – um dia o caminho da saudade-silêncio chegará. sem aviso. sem despedida – não distingue – ficamos perdidos. partimo-nos em bocados que não sabemos juntar – faltou-nos palavra – é para isso que nascemos. para dizer. que um dia. nos tornamos ausentes antes da partida – nascemos. deixamos a semente. e vamos sem destino – do outro lado está a luz que me deu forma – não fiquem tristes. não vistam gravata escura. não me tragam flores. nem prantos. tragam os netos. juntem-se em círculo ao que sobra de mim – deem as mãos – nada mais restará para além do que fomos 


 

27/03/2026

dança do ciúme

 




muitas vezes inventamos o ciúme pelo prazer do encontro dos corpos. sabemos que depois da tensão. ou da pergunta que nunca chegou a ser. surgirá a dança do cortejo – este artifício permite que os galanteios renasçam. e que os corpos se reencontrem – assim faço ciúme como a aranha faz a teia. para atrair o que deseja – o toque surge como primeira carícia. lembrança daquela que inventámos no passado quando nos procurámos – o paladar do primeiro beijo reaparece. e no arrepio do contacto com a epiderme dissolve-se o ciúme – chega o momento em que digo. sou teu – o suor cresce com a fusão dos corpos – a noite é minha. e o ciúme aliado – e da alma frágil emerge a perícia da mulher – também ela usa o ciúme. e faz crescer o desejo – depois os corpos dormem enrolados nas artimanhas do pecado venial. sabendo que noutro dia qualquer o ciúme voltará. apenas para fazer sorrir a noite

 

17/03/2026

março. o tempo não conta

 




numa das crónicas do antónio lobo antunes ele diz o seguinte: "só ficas adulto depois de teu pai morrer. porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a morte” – é exatamente quando deixamos de ver o corpo que passamos a considerar a vida como algo que termina – não importa há quanto tempo perdemos um pai. esse tempo nunca será medível. creio até que é sempre o mesmo. é sempre muito. apenas se torna mais subtil com o passar dos anos – é quando entramos mais dentro do corpo. queremos saber tudo sobre nós. para alterar o que carece de bondade nessa relação cada vez mais distante – a única coisa que me aborrece no tempo não é a distância entre o que sou hoje e aquilo que perdi há vinte e oito anos. mas sim a diferença entre as memórias que tinha naquela altura. e as que tenho hoje – às vezes quero recordá-lo. fecho os olhos. à mesa éramos cinco – agora conto quatro – não falta ninguém. falta o número – a cadeira não está vazia. está  a mais. sou eu que conto mal – isto sim. é a dor que espera por todos quantos perdem o pai. e sem me tornar demasiado arrogante perante quem não teve filhos. quando um filho nasce. torna-se de imediato na nossa estrela polar. segui-lo é uma maravilha – há uma compreensão que nasce quando alguém passa a precisar de nós – o que sei é que a estrela que ele seguiu continua algures. o problema é que agora sou eu quem não sabe orientar-se – a estrela que ele seguia não me serve – caminho

 

17 de março de 1998

 

02/03/2026

dentro do que ficou

 




1.

se me perguntarem o que quero da vida. quero só isto: mais um dia – parece pouco. não é – digo isto e ouço o cliché na minha voz – quando cortamos o tempo. o erro expõe-se; abrimos a ética e a moral com bisturi – há em nós algo que não é lei universal – é erro. às vezes só nosso. por vezes ilusão. outras o erro atravessa quem mais gostamos – só o erro pesa quando o levamos – o que está certo não pesa. assumimos que todos fariam o mesmo. aí nasce a lei universal – não somos salvos pelo que está certo – o que está certo não tem louvor. nem medalha no peito – já para o que está errado. não funciona assim – o erro não é só nosso. não fica no corpo. nem na cabeça – o erro não é fechado. propaga-se. não tem fim – o erro muda de nome quando é dentro de casa. o devia aperta mais do que o fiz – o devia penaliza. o não fizemos confirma – os anos são soma. ainda assim a juventude perdoa – olhamos o que não tem fim. sem mapa. é quando digo. corrige. faz a soma certa – a meia idade chega sem aviso. perde a emenda – aceitar é tudo o que lhe sobra – o erro consolidou-se. solidificou-se. tornou-se uma bolha dentro do sapato – ao princípio controlas a dor. depois mancas – dor é o ponto de encontro do que somos com a consciência – há um dia em que querer mais um dia já é uma vitória – peço mais um dia. acrescento um ano ao que dói – já não se trata de viver. trata-se de aguentar – amanhã quero continuar a escrever. não importa se bem. quero ser melhor do que ontem – amanhã não quero ser lido. as únicas letras que escrevi foram para mim. quando falo em mim falo da minha família – eu sou família – amanhã quero ser compreendido. não pelo que fiz bem. mas pelo que fiz mal – em mim procuro ordem. sempre me definiu – nunca acreditei na desordem. na falta de regras. de ética. de justiça – não procuro perdão. nem consolo. nem clemência. sempre fui uma alma livre e selvagem – de mim saiu o bem e o mal. de mim se fez a distância e a certeza. de mim se fez o amor e a loucura – procuro retidão na justiça. ética no erro – ninguém é só o que falhou

 

 

2.

agora a pergunta é onde quero ir – aqui a resposta é mais fácil – quero ir para o mesmo sitio de onde parti – é o único sitio onde a escrita não tem obrigação de explicar – eu sou erro. ainda assim. nunca abdiquei do bem – procurei-me no certo. aí encontrei a origem do que sou – não celebro o erro. aceito-o por destino – é assim que a dor nasce com o primeiro choro – nunca foi teatro – o bem nasce connosco. depois. o selo rompe-se com o tempo – o meu destino nunca foi contar uma história. foi criar uma estrada com mapa. para que quem chegue não se perca – o meu ofício na terra foi sobreviver: consertar o tempo com o que chegou. porque tudo o que chegou é meu – escrevi a bússola. mapeei o corpo – não há nenhum livro que me possa salvar. dentro dele guardo os restos do que não fui. para que existam

 

3.

para a terceira parte a pergunta mais difícil. o que te impede de agir para lá chegar – o que me impede de agir não é o medo de errar. é o medo de ser injusto – errar é humano. a injustiça é falha moral – dizem que o homem evolui. não é verdade. o homem muda. primeiro por dentro. depois. se tiver coragem. deixa que isso se veja – evoluir é uma régua viciada. medem-nos sempre a partir de fora – eu não preciso de provar nada a mim. nenhuma dor me mutilará. o corpo aguenta o mundo – o problema está na moral dos outros. em quem acha que mudei para pior. e só pensa isso quem me conhece mal por excesso – fragmentar o conhecimento é violência. reduzir alguém a um antes é injustiça. o erro perdoa-se. a injustiça ainda não tem lei que a absolva – quero ser correto com o que sou. e com o que escrevo. quero que vejam o bem no erro. e no erro a graça do humano – não podemos ser de todos

 

4.

por fim. a pergunta de encerramento: o que me faz feliz – a felicidade não existe. somos o agora. e dentro deste agora cabe tudo – se me obrigarem a responder. é simples: sou feliz a escrever. a escrita traz consigo a verdade – entre palavras encontro a cadeira que sustenta o homem. um braço ligado ao ser. um olho na imperfeição. uma perna pronta a fugir – repete-se o que está justo. no papel encontra-se a ordem do que somos – o papel não mente. mas nenhum homem é feito de papel – junto a ele chega a família que o construiu. somos feitos de todos os que vieram antes de nós. mesmo dos que não sabemos o nome – de que serviria a morte se com ela não chegasse a redenção – a minha redenção é a minha família. a minha única obra digna de registo – na minha imperfeição concebi a perfeição. sou mais inteiro ao pé dos meus filhos. e a minha companheira: fez do meu imperfeito um lugar possível. a liga que me deu nome e futuro – não serei o mesmo depois de a terra me chamar – fui inteiro enquanto estive


06/02/2026

cicatriz

 



imagina um homem com uma cicatriz na testa. funda. impossível de ignorar. vive com ela a vida inteira. carregou-a. e entregou-a a todos que com ele partilharam a sua existência – um dia imagina-se sem ela. os que não o conheciam antes não diriam nada. seria apenas mais um a circular pelo mundo. não seria mais bonito porque nunca o viram feio – quando levo a cicatriz comigo. percebo que me olham mais tempo do que deviam. não perguntam. nunca perguntam. há qualquer coisa em mim que parece já ser dos que me olham. como se tivessem chegado antes de mim à conversa – o espanto não dói. fica. acompanha – e eu deixo-os ficar. sempre vivi assim. oferecendo ao outro aquilo que não posso retirar – há quem nada queira saber do que lhe antecede. a cicatriz chega. e só depois há antes – se perdesse a cicatriz. não saberia o que restava. não por falta. mas por excesso de silêncio – haveria gestos que já ninguém reconheceria. histórias que deixariam de encontrar lugar. alguns afastar-se-iam sem saber porquê. outros ficariam à espera de algo que não voltaria. eu seguiria inteiro por fora. mas sem chão no ponto exato onde tudo começou – há coisas que não se retiram sem que o mundo se desorganize um pouco – às vezes. no meio de um silêncio partilhado aparece o amor. não como gesto bonito. mas como urgência – e ali fica. há alguém a quem devo mais do que palavras. não o digo. deixo-o ficar. o que não desaparece fica para sempre – escrevo para devolver o que me foi dado. não como agradecimento. mas como forma de permanência. só assim me completo: quando aquilo que vivi encontra lugar nas palavras – quero um espaço onde caiba inteiro. e se um dia alguém me encontrar ali. ficará. se não. seguirá. ambas as coisas são justas – escrevo mostrando o que me acontece quando o mundo falha. quando um objeto se parte. quando algo não corresponde. é nesse desvio que me reconheço. não procuro tranquilidade. procuro não mentir – no fim. resta apenas isto: continuar a escrever como quem aceita a própria finitude. sabendo que certas marcas não pedem explicação. e que a linguagem. quando é verdadeira. basta

 

19/01/2026

o corpo aceso em água

 


se me perguntarem o que busco na escrita respondo sem rodeios -- procuro-me -- a escrita leva-me para um estado de transe que me traz o que eu não sabia ter – surpreendo-me com as palavras. a escrivaninha fica mais funda. o corpo acende-se em água. e deixo que me leve para depois do que sou – descalço entro por corredores sem saber onde eles desaguam – pergunto-me o que vem dos verbos – fico sem saber se saí do que sou. ou se fui costurado pelo que entrou – a sombra colou-se ao teto. e não raras vezes quem vejo na cadeira não sou eu – a memória descomplica-se e os ferros que me agrilhoavam derretem ao calor do pensamento – um perfume na ferrugem dos dedos – quando a palavra não faz sentido. escuto-me – repouso nas luzes que me dão forma – e pergunto que porta abri para escrever o que não sei – é então que sai de mim uma gaivota a domar o vento. leva as palavras até ao limiar da pós-vida – tudo o que escrevo é deste mundo – ou de outro que já vivi – e isso faz-me compreender esta realidade de forma menos brutal – é o que se impõe – por isso. compreender-me é prolongar a vida em palavras – parto pelas mãos. não pela ideia de partir. sigo a água – não o infinito – e já não sei se a sombra que me atravessa pertence a este mundo. ou de outro que inventei para o suportar – a razão do que sou chega pelo entendimento do que escrevo – bem como pela gravidade do universo – tal como partículas que colidem – só a liberdade tem a força de me roubar os olhos e colocá-los nas letras – transformo-me em água – procuro o desacerto – o erro ortográfico. e interrogo-me nos corredores que inventei para sair de mim – nem uma janela para descansar. nem uma porta para me salvar. nem um banco para assentar – ao fim de cada texto um túmulo com o meu nome – a tecla “a” gasta e o “h” em falta – morto – escrever é um suicídio. uma bala lenta que rasga cada memória ao som do bater nas teclas – não posso deixar que a mão escreva o que é só meu. mesmo louco. sei que o destino está sempre preso ao que fui capaz de construir dentro de mim – o que me resta de tempo não fará de mim história. talvez apenas um conto com uma mensagem: faz o que está certo no momento certo – não depois – nem que um comboio te trepe a alma. nem que um vagão venha cheio de adjetivos – ser livre é planar no vento que sacode cada palavra. cada imagem – abrir as asas é a vida a fazer-te sonho – e a sombra é o ponto final da tua história. de fazeres o certo no momento certo – não depois