muitasvezes inventamos o
ciúme pelo prazer do encontro dos corpos. sabemos que depois da tensão. ou da
pergunta que nunca chegou a ser. surgirá a dança do cortejo – este artifício
permite que os galanteios renasçam. e que os corpos se reencontrem – assim faço
ciúme como a aranha faz a teia. para atrair o que deseja – o toque surge como
primeira carícia. lembrança daquela que inventámos no passado quando nos
procurámos – o paladar do primeiro beijo reaparece. e no arrepio do contacto
com a epiderme dissolve-se o ciúme – chega o momento em que digo. sou teu – o
suor cresce com a fusão dos corpos – a noite é minha. e o ciúme aliado – e da
alma frágil emerge a perícia da mulher – também ela usa o ciúme. e faz crescer
o desejo – depois os corpos dormem enrolados nas artimanhas do pecado venial.
sabendo que noutro dia qualquer o ciúme voltará. apenas para fazer sorrir a
noite
numa das crónicas do
antónio lobo antunes ele diz o seguinte: "só ficas adulto depois de teu
pai morrer. porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a
morte” – é exatamente quando deixamos de ver o corpo que passamos a considerar
a vida como algo que termina – não importa há quanto tempo perdemos um pai.
esse tempo nunca será medível. creio até que é sempre o mesmo. é sempre muito.
apenas se torna mais subtil com o passar dos anos – é quando entramos mais
dentro do corpo. queremos saber tudo sobre nós. para alterar o que carece de
bondade nessa relação cada vez mais distante – a única coisa que me aborrece no
tempo não é a distância entre o que sou hoje e aquilo que perdi há vinte e oito
anos. mas sim a diferença entre as memórias que tinha naquela altura. e as que
tenho hoje – às vezes quero recordá-lo. fecho os olhos. à mesa éramos cinco –
agora conto quatro – não falta ninguém. falta o número – a cadeira não está
vazia. está a mais. sou eu que conto mal
– isto sim. é a dor que espera por todos quantos perdem o pai. e sem me tornar
demasiado arrogante perante quem não teve filhos. quando um filho nasce.
torna-se de imediato na nossa estrela polar. segui-lo é uma maravilha – há uma
compreensão que nasce quando alguém passa a precisar de nós – o que sei é que a
estrela que ele seguiu continua algures. o problema é que agora sou eu quem não
sabe orientar-se – a estrela que ele seguia não me serve – caminho
se me perguntarem o que quero da vida. quero só
isto: mais um dia – parece pouco. não é – digo isto e ouço o cliché na minha
voz – quando cortamos o tempo. o erro expõe-se; abrimos a ética e a moral com
bisturi – há em nós algo que não é lei universal – é erro. às vezes só nosso.
por vezes ilusão. outras o erro atravessa quem mais gostamos – só o erro pesa
quando o levamos – o que está certo não pesa. assumimos que todos fariam o
mesmo. aí nasce a lei universal – não somos salvos pelo que está certo – o que
está certo não tem louvor. nem medalha no peito – já para o que está errado.
não funciona assim – o erro não é só nosso. não fica no corpo. nem na cabeça –
o erro não é fechado. propaga-se. não tem fim – o erro muda de nome quando é
dentro de casa. o devia aperta mais do que o fiz – o devia penaliza. o não
fizemos confirma – os anos são soma. ainda assim a juventude perdoa – olhamos o
que não tem fim. sem mapa. é quando digo. corrige. faz a soma certa – a meia
idade chega sem aviso. perde a emenda – aceitar é tudo o que lhe sobra – o erro
consolidou-se. solidificou-se. tornou-se uma bolha dentro do sapato – ao
princípio controlas a dor. depois mancas – dor é o ponto de encontro do que
somos com a consciência – há um dia em que querer mais um dia já é uma vitória
– peço mais um dia. acrescento um ano ao que dói – já não se trata de viver.
trata-se de aguentar – amanhã quero continuar a escrever. não importa se bem.
quero ser melhor do que ontem – amanhã não quero ser lido. as únicas letras que
escrevi foram para mim. quando falo em mim falo da minha família – eu sou
família – amanhã quero ser compreendido. não pelo que fiz bem. mas pelo que fiz
mal – em mim procuro ordem. sempre me definiu – nunca acreditei na desordem. na
falta de regras. de ética. de justiça – não procuro perdão. nem consolo. nem
clemência. sempre fui uma alma livre e selvagem – de mim saiu o bem e o mal. de
mim se fez a distância e a certeza. de mim se fez o amor e a loucura – procuro
retidão na justiça. ética no erro – ninguém é só o que falhou
2.
agora a pergunta é onde quero ir – aqui a resposta
é mais fácil – quero ir para o mesmo sitio de onde parti – é o único sitio onde
a escrita não tem obrigação de explicar – eu sou erro. ainda assim. nunca
abdiquei do bem – procurei-me no certo. aí encontrei a origem do que sou – não
celebro o erro. aceito-o por destino – é assim que a dor nasce com o primeiro
choro – nunca foi teatro – o bem nasce connosco. depois. o selo rompe-se com o
tempo – o meu destino nunca foi contar uma história. foi criar uma estrada com
mapa. para que quem chegue não se perca – o meu ofício na terra foi sobreviver:
consertar o tempo com o que chegou. porque tudo o que chegou é meu – escrevi a
bússola. mapeei o corpo – não há nenhum livro que me possa salvar. dentro dele
guardo os restos do que não fui. para que existam
3.
para a terceira parte a pergunta mais difícil. o
que te impede de agir para lá chegar – o que me impede de agir não é o medo de
errar. é o medo de ser injusto – errar é humano. a injustiça é falha moral –
dizem que o homem evolui. não é verdade. o homem muda. primeiro por dentro.
depois. se tiver coragem. deixa que isso se veja – evoluir é uma régua viciada.
medem-nos sempre a partir de fora – eu não preciso de provar nada a mim.
nenhuma dor me mutilará. o corpo aguenta o mundo – o problema está na moral dos
outros. em quem acha que mudei para pior. e só pensa isso quem me conhece mal
por excesso – fragmentar o conhecimento é violência. reduzir alguém a um antes
é injustiça. o erro perdoa-se. a injustiça ainda não tem lei que a absolva – quero
ser correto com o que sou. e com o que escrevo. quero que vejam o bem no erro. e
no erro a graça do humano – não podemos ser de todos
4.
por fim. a pergunta de encerramento: o que me faz
feliz – a felicidade não existe. somos o agora. e dentro deste agora cabe tudo
– se me obrigarem a responder. é simples: sou feliz a escrever. a escrita traz
consigo a verdade – entre palavras encontro a cadeira que sustenta o homem. um
braço ligado ao ser. um olho na imperfeição. uma perna pronta a fugir – repete-se
o que está justo. no papel encontra-se a ordem do que somos – o papel não
mente. mas nenhum homem é feito de papel – junto a ele chega a família que o
construiu. somos feitos de todos os que vieram antes de nós. mesmo dos que não
sabemos o nome – de que serviria a morte se com ela não chegasse a redenção – a
minha redenção é a minha família. a minha única obra digna de registo – na
minha imperfeição concebi a perfeição. sou mais inteiro ao pé dos meus filhos. e
a minha companheira: fez do meu imperfeito um lugar possível. a liga que me deu
nome e futuro – não serei o mesmo depois de a terra me chamar – fui inteiro
enquanto estive