.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

14/08/2017

viagem





r.b. kitaj




o tempo sorveu um corpo
a concupiscência
que albergou a sensualidade
é agora uma figura geométrica

o varão
outrora prazer
recumbiu-se
ao futuro



06/08/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*






adelino ângelo 






3. a morte terapêutica


nesta terceira parte a minha dissertação incide objetivamente nos benefícios da aplicação da morte terapêutica em mentes em avançado estado de instabilidade emocional – recorremos então a algumas boas praticas já experimentadas na morte assistida e transpomo-las para fórmula terapêutica – o que realmente torna interessante a aplicação desta morte é a possibilidade de fazer falecer apenas o que nos magoa – começamos por sedar a nossa existência. aliviamos a dor. manietamos o passado. silenciamo-lo. sitiamos a memória de longo prazo e introduzimos na memória recente doses de elevada esperança – obviamente que como em qualquer tratamento é necessário ter sempre em atenção as dosagens. foram muitos anos de sofrimento e o corpo pode reagir negativamente ao excesso de esperança – a solução é a prescrição de doses de baixo teor de felicidade. administradas sobre uma apertada vigilância – evitar recaídas é fundamental – ao passado é-lhe finalmente oferecido uma morte controlada. boa. honrada e sem dor – claro que é necessário escolher muito bem o que queremos realmente que faleça. não se pode fazer falecer o coração. nem os pulmões. nem o cérebro. nem  o que resta da vontade de viver – esta não é uma morte onde para falecer baste um pouco de coragem e uma bala no tambor. não. não é – esta morte. consiste em eliminar. silenciar ou simplesmente enclausurar. por um período de tempo estabelecido. uma determinada área do corpo. membro ou apenas um insignificante sentimento – tomar a decisão de eliminar o que quer que seja num corpo diminuído não é tarefa simples para o seu executor – não é fácil castigar um corpo quando o que resta de motivação é praticamente nada – o momento é de aflição para o carrasco – quando o corpo está doente a dor torna-se numa força incontrolável. os sentimentos desaparecem e automutilação toma posse do centro de comando cerebral – o pensamento está refém do desespero – selecionamos então um alvo no corpo que acreditamos estar possuído de um mal sem solução. desligamo-lo do suporte de vida libertando-o da teimosia de viver em agonia – aos poucos a memória de longo prazo começa a desprender-se das rotinas abandonando o corpo numa marcha de silêncio e paz – o silêncio. agora fúnebre. acompanha a saída das reminiscências numa viagem de aceitação. de perdão. sem castigo. sem remorso. sem medo que no dia seguinte o passado ressuscite num dedo apontado à covardia – entramos então em modo segurança extrema. sobreviver é a palavra de ordem – personalizamos o nosso próprio plano de recuperação e com a ajuda da esperança aplicamos o tratamento final da morte terapêutica – cortamos a mão que escreve. substituímos uma perna de carne e osso por uma de pau. sacrificamos a ambição. matamos um pouco da ternura. escondemos a paixão e doseamos para o máximo o caudal da amargura. ameaçamos o sorriso com uma faca de dois gumes e garantimos uma atenção especial ao corpo se este voltar a acreditar que ainda é possível refazer a vida – aproxima-se o momento das decisões. é fundamental eliminar o acessório e assim. permitir que a vontade de viver se projete num novo espaço temporal – eisntein dizia que “o tempo não é aquilo que parece. Não corre em uma única direção, e o futuro existe simultaneamente com o passado” – se o tempo não corre numa única direção então não há razão para ficarmos presos ao passado – para grandes males. grandes remédios. a solução passa por aplicar a estratégia de terra queimada. exterminar tudo que possa ser útil ao inimigo – um género de contrafogos que mais não é do que uma “contra-morte” – se o que arde não volta a arder também o que morre não volta a morrer – ficamos mais doentes quando olhamos mais para o passado do que para o caminho que ainda temos a percorrer – a angústia apenas consegue sobreviver se mantiver acorrentado a si o desanimo. a ansiedade e o medo – sobreviver é uma luta diária. um inferno. uma descarga elétrica contínua que nos amarra em cada dia do ano. não há férias. não há aniversários. não há natal. não há desculpa para nada. o que existe é apenas os dias marcados a negro no calendário  – um corpo depressivo não vive. sobrevive – o oposto da depressão não é a felicidade. é a vontade de querer viver. a força. a determinação. a procura da liberdade – nenhum homem é livre quando a dor lhe confisca todos os pensamentos – ninguém pode desvalorizar o silêncio de um homem tomado pela dor. o seu sofrimento é a sua impressão digital – este penar não se torna infernal apenas porque desacertadamente. ou não. optamos pelo caminho errado. recusamos ajuda médica ou dizemos não aos ansiolíticos – a dor nasce escondida no corpo. depois. depois começa a gatinhar. de seguida aprende a caminhar. em bicos de pés. com a graciosidade de uma bailarina. e o corpo gargalha com a subtileza com que vai amargando. o que era em bicos de pés são agora passos delicados. a fazer estrada desconhecida. lentamente. tão lentamente que o corpo se vai alterando. adaptando. moldando. até que chega um dia. sem que tenha dado conta. cada passo é um compasso entre caminhar ou apear – a dor já não engana.  multiplicou-se em amargura. em angústia. em revolta. em intolerância. arrestando o corpo num desequilíbrio irracional. doentio. falso. e por fim. como todos os impostores. promete-lhe um precipício libertador – o que cresceu como uma anormalidade dolorosa é agora uma normalidade consentida. aceite e autorizada a viver numa vergonha silenciosa – a dor já não é estranha. é intima. próxima. carne da sua carne. como se o tivesse acompanhado desde o útero de sua mãe – a manifestação externa do sofrimento só se torna audível ao fim de muitos e muitos anos de conflitualidade interpessoal – se por um lado todo o corpo dói. por outro. estas dores são a razão da sua teimosia em continuar com a vida – tudo que ocorre no nosso mundo solitário é feito de sofrimento. de interrogações. de dúvidas e de uma cabeça que não sabe descansar para tornar mais fácil o que quase sempre parece impossível – tudo acontece ao mesmo tempo e à mesma hora. o cérebro ora implode. ora explode e uma e outra parte sem entendimento. sem tréguas – o descanso não existe para quem faz do seu dia a dia um combate com as interrogações – acreditar que tudo tem uma razão para acontecer é a resistir. encontrar essa razão a causa de todos os problemas – infelizmente nem tudo tem uma razão. nem tudo pode ser explicado – claro que ainda haveria sempre o recurso a um charro terapêutico. umas quantas passas distribuídas pelos períodos mais críticos do dia como forma de aliviar as dores ou estimular o funcionamento dos órgãos sensoriais para novas formas de luta – mas não. esta maleita dolorosa está muito para além do charro. da pastilha ou de um sono mal aparelhado por uns quantos fantasmas erráticos – não. não é assim.  esta dor cresce com o pensamento e distrai-se com o sofrimento – todo o homem nasce com o entendimento natural de valores negativos e positivos e uns e outros lutam entre si em busca de uma pacificação natural entre o bem e o mal. o certo e o errado – infelizmente nem sempre esta biossíntese é adaptável às exigentes e naturais formas de vida que nos rodeiam – um dia. o corpo diz: basta. já não há razão que me faça ver outras razões. chegou a hora – usamos então todo o mal armazenado para um último momento e assim devolver definitivamente a liberdade ao corpo – o que dói na pele ou na carne é diferente do que dói no coração – há estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – volto a repetir a frase do mia couto acrescentando-lhe um novo ponto final: “cada homem é uma raça” que respira para caminhar e sempre que caminha aumenta a estrada para mais perto do seu fim – a estrada não se escolhe. nasce connosco – cada homem tem a sua estrada para a morte



- a quarta parte do texto será dedicada à morte dolosa ou fraudulenta 
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros








24/07/2017

amo-te porque existes dentro de mim








apenas uma pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o casamento é um compromisso de amor entre duas pessoa que juram cuidarem-se até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo e da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noite que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinou a crescer numa cumplicidade graciosa – nunca mais parei de crescer. tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia. depois de o sol se esconder. os lençóis abriam-se em seda. os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos sempre compartidos – nunca tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia onde tudo começou e recapitulo o meu sim: sim. aceito esta mulher na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca mais aquela igreja teve uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nosso filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias passaram a correr – o amor ensinou-nos a viver numa cumplicidade que também é aceitação – não me canso de te pedir perdão mesmo que na maior parte dos dias não ouças as minhas palavras – são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim




12/07/2017

deambulações noturnas XX




foto - sampaio rego




frequentemente o pensamento veste-se de mendigo – arrogante. o ego. só olha para os botões de ouro em camisa de seda – engano tremendo – muitas vezes. por baixo dos farrapos. existe a alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo literário



03/07/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*




adelino ângelo



1.    a morte física ou da personalidade
a morte física de um corpo – declara-se o óbito quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e ausência completa de atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida apontando as possíveis causas da sua morte permitindo deste modo o desaparecimento do corpo para sempre do mundo sensível





2.    a morte emocional
aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa. menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre a passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio terrorista. consente o descarnamento da sua rede de neurónios. permitindo deste modo. que a sua intimidade seja exposta a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta – dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador perante o desconhecido – o corpo humano revela na plenitude total a sua fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença. esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no mais fundo dos silêncios que guarda em si – e ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe caiem dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com doses maciças de um químico afectivo. fertilizado no útero de uma mulher mais pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa desordem impossível de acalmar. enquanto por fora. a ressaca é feita de imagens que já não quer compreender – tudo o que compreende acaba a magoar – não se quer compreender os livros. a religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão porque se nasce ou porque se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço. um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo à dor enquanto e cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o mundo já não é mensagem –  já nada traz movimento. as mãos recusam brigar enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é um provocação ao destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora. correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo. sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia – não interessa. não interessa e não interessa – o corpo que morre emocionalmente ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próxima mas acima de tudo o amor por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração que não é mais do que uma viagem ao centro da dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa. acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. oferece a todos o que só pode dar a alguns – termino com uma frase do mia couto: “quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”

- a terceira parte do texto será dedicada à morte terapêutica
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros


11/06/2017

tratado simplificado de uma amizade magoada





caravaggio


1.

quando a desilusão se chama amigo – num tempo de interrogações amargurei. depois. em dificuldade. dei uma oportunidade à lucidez acabando esta por despontar num exercício prático de libertação do homem – nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro – não sendo guerreiro. mas em liberdade absoluta. resolvi então escrever um tratado simplificado de uma amizade magoada – bem sei que quem espera desespera. eu desesperei – mas as palavras acabaram por chegar no seu vagar. tal e qual como me foi chegando a vida cinzenta – tudo foi acontecendo numa demora estranha. tomada por uma nostalgia envelhecida ao tempo – dei então início à minha busca: encontrei-me nas origens. nas causas. nas motivações. na ambição. na imbecilidade e regressei ao ponto de encontro para poder chegar novamente ao desencontro – sei agora o que quero dizer numa escrita que desejo direita mesmo que a causa não me dignifique – perder um amigo é sempre uma culpa dividida – descobri a serenidade e despedi-me da alma para me encontrar mais de perto com a verdade. assumi a mortalidade e pedi a têmis que me ajudasse a derrotar o erro escrevendo a justeza numa consciência iluminada – encontrar a minha verdade decantada da imperfeição é fundamental – sei que será sempre uma verdade minha e que muito bem pode não ser a de mais ninguém – com o corpo em braços avaliar-me-ei pelo conhecimento num processo autocritico: colocar-me no centro da humanidade. avaliar escolhas. questionar processos. aceitar e compreender o erro. reconhecer a individualidade e por fim. com a verdade purificada. combater e derrotar a desilusão como uma das mais violentas formas de enfraquecimento e eliminação da estabilidade emocional – afinal tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada para um quarto vazio



2.

decompôs-me em segmentos finíssimos de lucidez. e à velocidade de uma bala alcanço o desencanto – corpo e mente aceitam a deceção num estado de alma de acolhimento cristão: perdoa-lhe que não sabe o que faz – estamos os dois perdoados. eu por te fazer existir num pedaço de terra que acabou desabitado. e tu por me trazeres enganado num abraço que acabou por nada abraçar – juro que não sabia que os abraços se perdiam como o vento – mas não há forma de nos esvairmos da condição humana que tragicamente carrega em si o erro. numa contagem de tempo sempre provisória – a imperfeição do homem é uma das razões da sua diversidade – sei agora que o corpo se me partiu em milésimos de segundos. onde estávamos juntos ficamos separados. marginalizamo-nos nas razões. as mãos desuniram-se violentamente. tu limpaste-as como pilatos. enquanto eu. em vergonha. as guardei para sempre na fundura dos bolsos – de seguida dividimos as palavras. tu recuperaste as tuas e eu quebrei as minhas para nunca mais as usar – há palavras que nunca deveriam ter nascido – ficamos os dois dentro de um quarto vazio. numa porta que se fechou quase sem fazer barulho – quando te virei as costas trouxe toda a raiva do mundo no corpo. explodi numa dor que me atravessou todos os anos da vida. num arrependimento alucinogénio. culpei o mundo. de seguida culpei as pessoas do meu mundo. depois a rua onde crescemos. o passeio onde jogamos à bola. o jogo da estátua. as caricas. e aquele candeeiro que se apagava sempre que lhe dávamos um pontapé –  eu é que deveria ter levado esse pontapé. afinal a minha casa ficava numa rua a descer mas eu sempre a quis subir. teimoso – a dor cortou-me os pulsos dias sem conta. e eu sem saber como estancar a raiva. e um murro na parede. e outro na mesa. e um ralhete a um deus que sempre me pareceu surdo – houve um tempo em que tu e eu acreditávamos nesse nosso deus. morava na mesma religião. na mesma pregação. na mesma prática do bem: “a lei de deus é justa e boa – “quem obedece à lei de deus faz o bem e ama as pessoas” – nós prometemos-lhe praticar o bem. amar as pessoas. não mentir e honrar os amigos – a humilhação serrava-me o corpo num barulho que me enlouquecia – tu não me honraste. mentiste-me com palavras que prometemos nunca usar – esqueceste-te do apalavrado com deus. esqueceste-te de mim e esqueceste-te de tudo que era meu – fiquei só. perdi-me do corpo. do que o meu pai me ensinou. da compaixão. do perdão. fiquei sem uma única palavra que me trouxesse de volta a casa – no corpo só cabia agora raiva e interrogações – o que fazer aos aniversários em que me desejaste muitos anos numa vida feliz? o que fazer aos natais sem aquele abraço-tradição? o que fazer ao teu número de telefone? o que dizer aos amigos? como viver apartados por um muro de cólera? – a amizade verdadeira é uma forma de amor incondicional – durante muito tempo andei desaparecido de mim. não me reconhecia. estranhava o corpo. os seus desejos. os medos e o que a memória desejava pela noite perdia-se na manhã – expulsar-te da minha humanidade não era tarefa fácil – magoei-me com tudo que tinha à mão. atirei-me para dentro de palavras que me torturassem até que a dor se tornasse numa raiva tão escura que nunca mais fosse possível encontrar-te pelo nome – mutilei-me com a confiança. sangrei honra. chorei humilhação. despedi-me da esperança e o que era amizade foi substituído por luto – quando um amigo nos morre nas mãos é para sempre – sempre amei os meus amigos – mas a tua morte resistia aos meus dias. nunca foi bom a mentir nem a matar a saudade: um café partilhado. uma conversa urbana. uma miúda cobiçada. um automóvel da mesma marca a caminho da tua casa. um nome geminado. e estas duplicações a dizerem-me que a tua partida foi um equivoco do tempo. uma noite mal dormida. um pesadelo horrendo depois de uma farra de copos – uma armadilha à amizade – quis acreditar que um guronzan e uma dietinha de arroz branco me devolveria novamente os dias como sempre foram – ao nascimento do sol recuperaria a luz da confiança. eu voltaria a aceitar-me tal e qual como sou. e tu tornavas a aparecer dentro daquele sorriso que nunca te deixou crescer – mas não. afinal o luto é muito mais que roupa negra. é o corpo negro. pisado. enraivecido numa acidez que me faz arder num inferno que não foi desejado por mim – não aguentei. atirei-te de um penhasco para o mar e nunca mais procurei o teu corpo – este meu luto durou um tempo que nunca quis aprender a contar – quanto mais tempo tivesses desaparecido mais prazo tinha para escapar do abismo – com os dias a passar tudo foi sendo substituído por silêncio. um silêncio que não é dor. não é raiva. não é azia. é uma saudade que nos enfeitiça e liberta serenamente. sem que nada possamos fazer. as memórias que obstinadamente escondemos – esta saudade dói. dói pela distância. dói porque os dois fomos um e agora somos ausência – não há forma de controlar esta saudade. simplesmente aparece. devagar devagarinho e o corpo tomado por um marasmo sereno. tranquilo. silencioso. sem arrependimento – à boca são roubadas todas as palavras que magoam. enquanto as mãos se espreguiçam delicadamente – é importante não amedrontar o dia seguinte – o tempo em silêncio assustou-as. envergonhadas esconderam-se no escuro dos bolsos que. em boa verdade. não as escondiam de nada – e o dia seguinte a exigir uma renovada aliança com a fé. as nuvens a correr para sul. sem pressa. enquanto um novo arco-íris adorna o céu num colorido de cores quentes – o sol rompe pelo corpo. as sombras estatelam-se no passado. e o coração retoma os batimentos numa alegria que é hino – beethoven – os olhos renovam-se. resplendecem em inesperados campos de flores: bem-me-quer. mal-me-quer. bem-me-quer e o vento a soprar de fininho. manso.  quente. de norte para sul. a envolver o erro numa carícia de indulto – o corpo recupera a inocência numa calmaria que já não anuncia mau tempo. finalmente – invadido por uma trégua delicada recuo ao passado. à pureza dos ideais. todos por um. um por todos. deito a cabeça a uma árvore. tapo os olhos. e conto até mais de cinquenta. depois. desenfreadamente. volto a correr pela vida. voltamos a jogar à bola. ao deita fora. e celebramos vitórias sem ganhar coisa nenhuma – sorrimos. somos puros. e o mundo também – para haver um mundo impuro é necessário haver gente impura – não havia. nesse tempo tudo era perfeito – juntamos a família às celebrações. os amigos também. festejamos o meu aniversário e de seguida o teu que acontecia sempre um dia depois do de meu pai – estamos em agosto. nunca senti frio em agosto. era um mês especial. não havia tristeza. nem solidão. nem saudade. nem medo. nem injustiça. nada. só havia sol. luz. muita luz e uma vontade enorme de a trazer para dentro do corpo – um dia o meu pai deixou de festejar a vida. e o agosto quase desapareceu. passaste a existir só tu num mês moribundo. mas também quiseste partir. deixaste de festejar a amizade e o agosto esfriou para sempre – eu gelei – juntei então tudo que era teu num dia depois de agosto. acrescentei-lhe os abraços. os sorrisos. as promessas. as juras. as palavras que nos tornaram amigos. os natais. principalmente aqueles em que me levavas a casa um abraço quente de verão. a tua bondade e aquela tua vontade única de partilhares a vida com afeição – nós amávamos o natal – prometo que este ano escreverei a verdadeira história do meu pai natal – quero guardar o melhor de ti – devo-te isso – há dividas que só se pagam com afetos – um homem grato faz o mundo muito mais bonito – nunca te deixei de ser agradecido nem mesmo no dia em que te atirei para o fim do mundo – o corpo ainda dói. sempre que o sol se esconde o corpo dói. e eu sem entender como lidar com uma dor que não quero que continue dor – e ali fico eu preso às horas da noite num emudecimento que me enlouquece – não é fácil perder o que se pensa ser eternal – o tempo passa e o teu corpo teima em reaparecer – aceitei o desafio – passaste a viver numa dimensão que não sabia existir: estás longe estando ao meu pé – és memória – reinventei para ti outro corpo. outros olhos. outros gestos. outro modo de andar e um outro sorriso. desocupei-te as mãos dos bolsos. tornei-os mais largos e mais fundos para te caber toda a cobiça do mundo. e dei-te um lugar na terra rodeado de gente por todos os lados – ficaste mais parecido com todos aqueles que não conheço. mais banal. menos divinizado. passaste a ser apenas mais um homem que envelhece no meu tempo – só os amigos não envelhecem –  tu envelheceste de um dia para o outro – afinal também já tens cabelos brancos. tens o corpo mais tombado para a frente. as unhas cada vez mais ruídas e o sorriso que te fazia criança está agora muito mais cansado. adulto. indiferente ao mundo. ao teu e ao meu – sem esse sorriso deixei de reconhecer aquele rapazinho franzino. magricela. sempre a correr desenfreadamente à frente da sua própria bicicleta. numa velocidade estonteante. louca. de um lado para o outro – só estavas bem onde não estavas – e assim ficaste para o resto da vida. sempre gostastes de estar em todo lado sem nunca estar em nenhum – escondi-te do erro. fingi que os amigos nunca falham e fui-te perdendo devagarinho para não me magoar – ultimamente já quase não falávamos. perdeste a fala. aprendeste a pisar. humilhar e fazias gosto em o mostrar – refugiei-me no tempo – quando gostamos de alguém somos capazes de jurar que o mundo não é redondo – perdeste a juventude. depois a inocência. as leis do teu deus. não faças aos outros o que não queres para ti. perdeste a coragem. as origens. escolhestes os mais fracos para te tornares mais forte. ficaste injusto. prepotente. cego. egocêntrico. interesseiro e vaidoso. mais vaidoso que a sé de braga – passaste a sentir-te bem com o mal dos outros – tu não eras assim – por mais de mais de mil vezes tentei dizer-te que estavas errado. que o sucesso não tem um só caminho – essa personagem magoava-me. avisei-te que mais tarde ou mais cedo a vida te iria cobrar. o teu deus não dorme – a justiça tarda. mas não falha não foi assim que te conheci – não me deste ouvidos. perdeste-os com a ambição e não foste capaz de tirar os olhos do papel e da montblanc – tiveste medo de me olhar nos olhos – desisti esperando. não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe – enganei-me. o tempo não te melhorou. pelo contrário. aprendeste a mentir sobre ti e sobretudo. sobre os outros – um homem mentiroso não vale nada – abandonei o diminutivo no teu nome e passei-te a chamar o que todos te chamam – eu também perdi o meu diminutivo – descobri que a vida é muitas vezes ingrata. aprendi a resignar-me. nem sempre as lutas nos levam à glória – mas também descobri que não te quero como inimigo. um amigo só necessita de um cantinho no coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo – não te darei o meu corpo. nasci sem inimigos e também morrerei sem eles – abri então uma porta que não dava para uma quarto vazio. deixei entrar o que sobreviveu de melhor dos dois. abracei-te com tudo o que me magoou. e chorei. chorei até que as lágrimas me enchessem as mãos de ti. expulsei-te da raiva e voltei à vida. fechei a porta. dois passos em frente. parei. e não voltei a olhar para trás – fui – jurei nunca mais te voltar a ver



3.

momentos de onde nunca te conseguirei apagar. momentos em que faria por ti tudo o que me pedisses – um homem honrado não pode esquecer o bem que lhe fizeram – não há dia nenhum que o esqueça – sempre te fui leal – e o que foi um caminho de afetos é agora um corpo encalhado numa pilha de palavras que não servem para te dizer quase nada – quando estou só já não sou capaz de falar contigo – aquele pedaço de terra desabitado perdeu a cor do céu. as gaivotas abrigaram-se do sal e as flores definharam com o pouco que restava da primavera. não resistiram à desilusão – gostava de lhes ter perguntado se a minha vida seria diferente se tivesse nascido noutra rua – não há uma única flor para me responder – morrerei sem saber – um homem quando perde os sonhos fica só. entranha-se no corpo à procura do que já não existe e acaba por se magoar com a ilusão de que ainda pode modificar o passado – não pode. por mais que volte a sonhar a história vai terminar sempre em dor  – o que está feito. feito está – há dois momentos que marcam a nossa vida. o primeiro ocorre com o nascimento. aparece sem que nada possamos fazer para o evitar. nascemos e pronto. toca a respirar para sobreviver – o segundo momento é aquele que se torna certo para quem tem a ousadia de nascer: a morte – não pode ser evitada mas pode ser dignificada. para isso basta que no dia da partida leves um sorriso na face – ainda há gente que o leva – procuro agora o meu sorriso. um que me recompense de todos os sonhos que não foi capaz de realizar – ainda não o encontrei mas sei que anda algures por este mundo – desencontrado? sim. culpa minha. creio eu – estou cansado. as noites esgotam-me. os olhos não fecham. deito-me em cima do corpo e ali fico de olhos abertos até que o cansaço me atire para a antecâmara da morte: o desespero – quero muito acreditar que há sempre uma razão maior para o que nos acontece de menos bom na vida – neste momento sobreviver é um desafio tremendo – sinto o corpo a pedir dignidade. estou sem fé e sem um único sorriso para me poder despedir – bato á porta do meu deus de criança e pergunto-lhe se ainda há lugar na sua cruz para crucificar uma amizade – não me responde. nunca me respondeu a coisa nenhuma – tento agora aceitar-me nesta infindável dor da perda – recebo em mim a inevitabilidade da desilusão e preparo o corpo para conhecer o seu último sorriso – o meu lugar está guardado no pedaço de terra desabitado



4.

ainda não te consegui perdoar. mas tento todos os dias – não sei se irei conseguir – creio que não. já não há tempo – envelheci




07/06/2017

deambulações noturnas XIX





pintura - r.g. nascimento





um amigo só necessita de um cantinho do coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo




02/06/2017

deambulações noturnas XVIII





kit king e corey oda popp



e lá continuo eu com o meu tratado simplificado de uma amizade magoada – deixei de contar as noites. perdi a soma das horas. do desespero. da raiva e do medo de não encontrar a palavra mais acertada para que a verdade não aconteça distorcida – a minha “arte” vive unicamente do esforço – confesso-vos que na maior parte das noites acabei por me perder no interior do corpo – reencontrar-me é uma provação à minha justeza – não é fácil escrever afetos perdidos – cada linha deste tratado sobrevive á custa de cem linhas expulsas e todas levaram um pouco de mim – também eu me expulsei para sobreviver – sofrerei até á linha final – tem de ser. mereço eu. e merecem os que continuam a gostar [acreditar] de mim



deambulações noturnas XVII




ran ortner






tratado simplificado de uma amizade magoada - e assim chego às 6 da manhã escondendo o sono atrás de cada palavra sentida - ousadamente vou  escrevendo noite após noite este tratado que vale mais do que um abraço perdido para sempre - afinal tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada para um quarto vazio - nenhum corpo merece uma dor que é perda por mais defeitos feitos ou desfeitos


24/05/2017

pássaros da noite





pintura - diego fazio



não há forma de me reencontrar na noite - estou completamente perdido. de um lado eu. do outro eu também - e os dois eus cada vez mais de acordo - se um diz mata o outro já não diz não mates. se um diz basta o outro diz que o basta só peca por tardio. se um diz coragem o outro diz muita. se um não diz nada o outro encolhe-se no nada - afinal o silêncio é a antecâmara da morte - nos meus eus apenas uns quantos pássaros a chilrear numa alegria que desconheço nos intervalos do que me sobra da janela - talvez o sol nasça apenas para quem lhe canta esperança - eu continuo preso às minhas lâmpadas de baixo consumo. numa fé moribunda e incapaz de produzir qualquer tipo de som para que a manhã me nasça - faz-me falta um abracinho e um segredo ao ouvido para que a noite não seja eterna



18/05/2017

deambulações noturnas XVI






van gogh


quando sentires o vento por baixo das palavras. aferrolha tudo e repousa até o tempo amainar – as palavras soltas ao vento de nada valem




15/05/2017

vânia – afinal. deus mora nos nossos quintais





vânia lopez




com coragem aqui estou em palavras para enobrecer a tua amizade – chegou o momento de te dizer o quanto foram [são] importantes as tuas palavras-estimulo ao longo desta minha aventura prosista – tentar ser prosista não é fácil –– retribuo então esse teu carinho com o talento que me sobra nestas mãos que te querem bem. sei que não será grande coisa. serão apenas umas quantas palavras. algumas velhas. gastas. puídas. outras sem nexo que de tão desajustadas do corpo me caiem dos bolsos –  dobrei uma em forma de triângulo. um triângulo perfeito. com os ângulos todos iguais. e coloquei no bolso da frente do casaco a imitar um lenço de seda – um homem quer-se arranjado quando está prestes a oferecer o seu bem mais precioso: a palavra – gosto de palavras. sempre gostei. servem para coisas inacreditáveis. e quando bem usadas. podem fazer de nós pessoas fantásticas. às vezes até imortais – quando escrevemos ficamos guardados no tempo para sempre – com as palavras posso fazer quase tudo. escrever o nome de quem gosto. matar as saudades. escrever cartas de amizade. escrever poemas de amor ou de raiva. e outras que por serem tão complexas só os poetas as entendem. posso também dizer que o mundo é mais bonito contigo. e dizer com toda a impiedade que uma palavra pode comportar: gosto de ti – gosto de ti assim. gosto de ti como te descubro nos meus olhos. como quando me chegas em silêncio. ou como te escuto no interior da tua poesia. e também gosto de ti na forma como me olhas naquela foto em que te colocas de lado para o mundo – ainda bem que existes – sabes que gosto de escrever. e quando começo a escrever não paro. fico com a sensação de que nunca digo o suficiente. insegurança creio eu. ou então falta de jeito. sei que não tenho muito. às vezes nem percebo porque escrevo. fico sempre com tanto medo de não saber verdadeiramente o valor de cada palavra. quando erramos a escrever é para sempre. as palavras não se trocam. nem as podemos pedir de volta. depois de escritas são para a vida toda – como também é para a vida toda aquelas mensagens que trocamos na calada da noite. tu mandas um olá. eu respondo com um bonequinho a sorrir. tu mandas uma palavra. eu devolvo a tua com mais duas minhas e começa o encantamento poético. e as palavras a escreverem-se como se tivessem uma força desconhecida. como se os deuses do olimpo nos tomassem conta das mãos e nos dissessem: escrevam. sejam feliz – e assim ficamos a dar brilho às estrelas enquanto a noite. calmamente.  se prepara para dar lugar à realidade – gosto de saber que estás por aí nesse teu quintal – escrevo-te porque não sei falar. porque não confio nas palavras que me saem da boca. saem-me sempre muito depressa. impercebíveis. e tão confusas que se acabam por perder no mundo-solidão – pouco sei desse mundo solidão. gosto mais do nosso. o das palavras escritas que partilhamos em gosto. numa arte que nos abraça e poucos entendem – quem escreve cresce todos os dias dentro se si – nós fizemos crescer uma amizade – mas para que serve isto tudo que estou a dizer se não for capaz de escrever uma palavra nova para te oferecer – não serve para nada – escreverei então alguma coisa que te traga em braços por esse distal mundo oceânico. onde tu. desse lado. ficaste presa. e eu. deste lado. em castigo – arrumo as montanhas para um lado e sento-te ao pé de um campo de magnólias. estamos na primavera. corre por nós um perfume dourado-sol. suave. suave-inocência –.paro as águas dos rios. paro ao nuvens. paro todos os pássaros no ar. e arrumo o vento morno dentro de um poema que compus para pessoas especiais – há agora um silêncio celestial disponível para escutar a tua poesia – arranjas o cabelo. as poetisas querem-se bonitas. dás o jeito ao corpo que eu conheço. sacodes as mãos do tempo pérfido. e por último. uma olhadinha no espelho da vida. é lá que nasce toda a poesia do mundo. a tua também – e ali fico a ouvir-te até que o tempo se acabe e os poemas se tornem ficção – voltas então para o teu quintal. e eu fico a colher magnólias em campos de palavras – afinal. “deus mora nos nossos quintais”


para a vânia lopez – um comentário faz muitas vezes a diferença - obrigado por cada dia em que me ajudas-te a escrever e a enfrentar os meus medos