.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

25/06/2018

a imensidão de uma folha de papel. a escrita e o leitor





michael burris johnson





nota de autor:
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“desapareci” por uns tempos do ciberespaço para escrever este “pequeno-tratado-pessoal”. são cerca de dez páginas. que tem por objetivo explicar o [meu] ato de comunicação. a escrita que produzo como emissor. como eu-artista ou [também] como eu-lírico. confesso que com mais raridade – do outro lado. em anonimato quase sempre absoluto. o recetor-leitor. o recetor-amigo mais ou menos próximo. mais ou menos silencioso. crítico. ponderado. com capacidade de reflexão e principalmente. com sensibilidade para me ler as pausas. a pontuação e as entrelinhas – um desafio para quem gosta de ler e um risco para quem gosta de escrever – sei que em cada palavra escrita serei menos meu e mais de quem me lê – toda [quase] a minha escrita é autobiográfica – como diz alberto manguel: “O autor morre quando põe o ponto final. O leitor nasce a seguir” – nem sempre é fácil escrever o que trazemos no miolo da alma. a dificuldade torna-se desespero e o apelo interior para fugir é ensurdecedor – escrever dá trabalho pra caraças – mas há coisas dentro de mim que nunca se tornará palavra. coisas que só o coração sente e que por mais esforço e entrega nunca chegará ao leitor – não sou suficiente mestre – em boa contramão. a bondade que encontramos diariamente no leitor-amigo e também no leitor-anónimo que. graciosamente. se entrega a decifrar uma mensagem que. na maior parte das vezes. não passa de desabafo – para estes leitores-companheiros o meu mais profundo agradecimento – e termino com um pensamento do saramago que de certo maneira resume em muito a minha motivação para escrever - “No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos a fazer e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade”

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introdução:
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“Não vale a pena ter vaidades no processo, porque o que existe de facto é o leitor” – josé ilídio torres
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foi com esta frase do meu amigo josé torres. poeta. professor. treinador no futebol de formação. político. pai. companheiro e fazedor de sonhos enquanto escritor que dei início a mais esta minha crônica-lírica-dissertativa – conheço o josé torres vai para caminho de quinze anos [não sei ao certo e não sou bom nas contas de tempo]. nunca imaginei que o tempo fugisse tão depressa. é tudo tão rápido. tudo tão estupidamente acelerado. desconcertante e ilusório. de repente já não sou novo. já não escrevo sem cadeira almofadada. sem óculos. sem uma pomadinha nas costas para combater os bicos de papagaio e principalmente. sem aquela resmunguice de quem envelhece contrariado – o problema nem está na idade. está na memória. nas recordações da juventude. na infinita alegria de ser jovem e irresponsável. nas correrias sem cansaço. na esperança inesgotável com que olhava as mãos. na mobilidade do cérebro. sem medo. selvagem. irrequieto. sempre à procura do impossível. do difícil. do perigoso. enquanto a adrenalina produzia sonhos e sorrisos em série. tudo em escala XXL – os dias eram intermináveis. acordava com os braços a tocar os polos. a envolver o mundo de peito aberto que me prometia em surdina vida eterna – a fragrância da juventude eram duas gotas de  patchouli misturadas com a certeza de que o mundo sempre nos haveria de arranjar um cantinho para viver. muita loucura. excentricidade. irreverência. cabelos compridos. bota bicuda de salto alto. blusão de ganga lois e o corpo a gingar ao som da guitarra de david gilmour que afogueava o tino para as primeiras pastilhas lipoperdur – viver era uma dor fantástica – mas não há volta a dar. nada volta ao passado – fico sem saber ao certo se o que dói hoje é um problema que parte do geral para o particular. do corpo para a alma ou pelo contrário. a dor nasce na alma e alastra-se ao corpo no seu todo – bem não adianta lamuriar. o único remédio que conheço para combater o tempo é escrever. escrever muito. se possível bem. mas se não for possível. entãoque se escreva mal. porque enquanto se escreve não há idade – no meu caso o assunto é ainda mais sério. nasci sem uma única palavra dentro de mim. disléxico e completamente desprovido de qualquer tipo de acordo ortográfico. tudo o que rabisco é feito com trabalho. à sacholada. ao suor e à teimosia – ultimamente só a escrita me faz verdadeiramente feliz – isto tudo para dizer que conheci o josé torres no luso poemas. um site para gente que gosta de escrever. e por mais que envelheça e que a memória se torne decrépita a entrada nesse grupo de poetas foi um momento marcante na minha vida: o luso e os seus membros trouxeram-me definitivamente para o mundo da escrita. fizeram-me bem. fizeram-me sonhar. fizeram renascer essa dor fantástica que é escrever – vou escrever pela primeira vez algo que nunca tive coragem: o luso amarrou-me à vida. deu-me uma nova oportunidade para me reinventar como homem. salvou-me de uma ociosidade inútil e profetizou a imortalidade. deu-me uma nova ordem no tempo. repensou prioridades e renovou-me a confiança nas mãos – todos os dias digo para mim: não quero morrer sem deixar uma última palavra escrita – sou um homem grato a essa boa gente do luso poemas – o zé torres era e é um fazedor de sonhos desse mundo da escrita. pertencia a um grupo restrito de escritores que estavam muito acima da média dos restantes companheiros – gozo-lhe a paciência e pachorra. não era fácil aturar a mediocridade de tanto ego balofo numa casa enfestada de poucos poetas e muitos não poetas – hoje. sem nenhuma dúvida. estaria muito melhor preparado para ler alguns dos seus textos corrosivos e mal amados – para se escrever é fundamental amar as palavras. sem vaidade. com humildade. com vontade de aprender e sacrifício – bem sei que não há escritores perfeitos. nunca haverá. mas há aqueles que brigam todos os dias com a imperfeição – aprendi muito desde esse primeiro dia em que ganhei coragem de escrever para o leitor – é pelo leitor que releio os meus textos vezes sem conta antes de os levar para o ciberespaço. é por ele que fico nervoso. fico feito de medo. fico com as mãos trémulas e em oração – bem sei que quem dá tudo o que tem a mais não é obrigado – que vos posso dizer mais não sei. talvez repetir o que não me canso de dizer: escrever dá trabalho pra caraças – o que sei mesmo é que uma folha de papel para se imortalizar só precisa de uma palavra escrita – mas eu escrevo apenas para falar com o leitor – e basta-me um para me fazer feliz 


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e aqui estou eu novamente escrevo. escrevo o que sei e posso e também o que me dá na real gana – confesso que estou aterrorizado com as palavras. dito melhor. com a sua falta: desapareceram de mim. abandonaram-me. desprezaram-me. ostracizaram-me e nem uma ficou para me iludir – estou completamente só. de mim também – não é fácil escrever quando estamos sozinhos. ausentes do corpo e da humanidade – dito de forma direta e objetiva. ausente de mim num todo: do mundo. dos amigos. dos menos amigos. da memória. das mãos. dos ossos. da carne. da realidade e do discernimento para saber diferenciar a palavra criativa. próspera. cativadora e amiga. da palavra tosca. que chega ao papel aos repelões. raivosa. inútil e em desabafo hostil – mas é assim. há coisas que não controlo. bem que gostaria de controlar. mas não dá. quando partimos do corpo deixamos tudo para trás. até o critério e um homem sem critério [de textualidade] não escreve. gatafunha – para se escrever é necessário ter um propósito sério para a mensagem: coerente. ponderada. mas também perturbadora na objetividade. reflexiva. questionável e controversa. com um pensamento maduro sem nunca deixar de ser irreverente – depois. é preciso escrever como quem conversa num grupo de amigos: com calor. com paixão. com magia. com envolvimento. capaz de arrancar o leitor-amigo para dentro de si. sentá-lo no seu interior com vista para tudo que é seu e convidá-lo a sair do seu mundo individual e dizer-lhe que apesar do seu papel passivo é ele. com a sua interpretação. que termina todas as histórias – nenhum escritor sobrevive sem que pelo menos tenha um leitor – o leitor é o centro do universo e todas as histórias giram à sua volta – o josé torres tem razão. “Não vale a pena ter vaidades no processo, porque o que existe de facto é o leitor” – é a este que compete promover uma leitura atenta e depurada. uma decantação. separando a palavra útil da inútil. a precisa da imprecisa. a ficcionada da real e a que abraça daquela que diz: basta. esta é a linha que separa os nossos mundos. daqui para a frente somos diferentes. acabou a tua história – só a leitura une o autor ao leitor para sempre – um escritor tem que se sentir possuído. tomado. ocupado por um leitor provocador. desafiante. irreverente e exigente pois só assim será capaz de evoluir e partir à conquista de novos leitores com novas histórias – um escritor não é um ser especial. pelo contrário. é um carregador de palavras. um carrejão incansável que transporta no seu ADN o compromisso evolutivo e incessante do homem – a imperfeição é o primeiro reconhecimento para o progresso e o escritor-artista sabe isso melhor de que ninguém. por isso não se cansa de questionar o que escreve – o escritor quando não escreve é infeliz. então. parte à procura da felicidade e começa a escrever e rapidamente se apercebe de um paradoxo: se não escreve é infeliz. quando escreve é infeliz – será que não se pode ser feliz quando satisfazemos unicamente o nosso desejo de escrever? não. tal como o azeite e a água não se misturam também o escritor e a felicidade são incompatíveis – o homem que escreve é um sofredor na procura constante da perfeição – ninguém como ele se entrega à critica. tantas vezes cruel. injusta e selvagem – aceitar o erro. as imperfeições e as suas limitações é o seu grande desafio – ele sabe como mais ninguém que escrever é também uma arte de sacrifício e de superação – o escritor procura sempre o perfeccionismo porque sabe que cada palavra escrita leva um pedaço de si e da sua vida – assimilar. armazenar. amassar. dar forma e levar para o papel a sua realidade – é esta a missão de quem gosta de escrever – um escritor é um interposto de vários ADNs que. quando compilado cuidadosamente com arte. sacrifício e devoção. se transforma numa mensagem capaz de transportar no seu espírito força suficiente para mover e transformar toda a matéria do mundo [eneida. de vergílio] – mas atenção. que ninguém se iluda. toda a mensagem é efémera e volátil; por mais empírica. por mais precisa e verdadeira só se manterá inquestionável enquanto permanecer silenciada e oculta no interior do seu criador. depois da criação artística. depois de entregue à leitura será o que cada leitor quiser que seja – a minha verdade não existe fora do meu corpo – cada leitor construirá a sua verdade – mas sou o que sou neste momento que escrevo. e sei que todos os botões de comando sobre mim avariaram. não é apenas falta de pilhas. não. desta vez é avaria mesmo. entrei em combustão depois de um pico de tensão – estou a arder de medo e de pânico. o odor a palavra carbonizada é nauseante. enjoativa e a eloquência fumega em direção ao eterno – tenho que me aguentar com coragem. sei que não há mal que sempre dure. nem bem que nunca acabe estou moribundo. amarrado à palavra por um fio. em términus da esperança. a lutar. a pedir a deus que me devolva a alegria de escrever. que me devolva o dom da escrita. que me devolva a esperança – estou “in extremis”. diria até que a palavra. esperança. é o meu suporte avançado de vida: enquanto houver vida. há esperança – acionei a reserva motivacional para situações de catástrofe. tenho que me aguentar. estou em modo insignificante. paralisado. vazio. desabitado de palavras bem-falantes. modestas ou motivacionais. estou um farrapo – escrever exige vontade. tempo. solidão. silêncio e eu estou sem vontade. sem tempo. confuso e com o corpo cheio de barulho – pela milésima vez procuro dentro de mim o que raramente consegui encontrar: magia para escrever – quando não há magia não se escreve sobrevive-se no passado – com a escrita reescrevo-me. aguento-me de pé. amparo a mediocridade e no imaginário o ombro amigo. protetor. fiel. afetuoso. zelador. a dizer numa cautela carinhosa: tem calma. isto passa. um dia. sem dares conta. estás com dez páginas escritas – aguento serenamentenem uma palavra ressabiada me chega à boca – sinto-me às portas do inferno. só a escrita me guarda de uma loucura prematura. mantêm-me vivo e em esperança – mesmo quando não escrevo fico exposto ao escrutínio dos leitores. o passado de quem escreve é sempre feito de palavras e estas não morrem nunca – enquanto houver um leitor serão eternas. são para sempre. vivem como se tivessem chegado ao papel neste momento e o cutelo de quem lê no ar num cai. não cai. afiado e sedento de dor. a reprovar pelo abanar da cabeça. a magoar pela vacilação. mata ou não mata – para sobreviver escrevo porque sempre que escrevo invento uma vida. uma atrás de outra. tantas como folhas de papel – não é fácil escolher escrever quando o subconsciente nos diz com todas as letras: vai pentear macacos. dedica-te à pesca – caio em frustração e desapareço do word. escondo-me no silêncio e interrogo-me em mil e uma coisa que não sei responder – se tinha dúvidas antes de me esconder agora tenho o dobro. escondido não sou de ninguém a não ser de mim. sozinho falo apenas para mim e ouço-me como se cada palavra representasse uma multidão em berros e em uníssono ouve-se: vai-te embora. rua. rua. já não há pachorra – sentado nesta cadeira que não me deixa por os pés no chão olho para a imensidão do mundo que tenho à minha frente e interrogo-me: vale a pena continuar? será perseverança ou teimosia? tenho tanto livros no meu pé-de-meia de leitura. tanto nome bonito. gente que dedicou a vida toda á escrita. ao estudo. à procura do mais certo para dizer o incerto e eu aqui. como se o meu computador fosse uma arma de destruição maciça. a impingir gato por lebre – valha-me deus nosso senhor – se achava a escrita medíocre. até como amador. quando a releio pergunto-me como fui capaz de rabiscar aquelas barbaridades – diz-me por favor meu senhor como fui capaz de escrever estas maluquices? não acredito. estarei no meu tino? não fumo. não me drogo. não bebo e não tomos pastilhas a não ser para umas maleitas passageiras – será então o quê? algum encosto? alguma alma penada? um antepassado que não encontra o caminho da luz e se diverte a fazer-me escrever tontarias? não sei. talvez o defeito seja mesmo meu. nunca deveria ter metido na cabeça esta coisa das letras. tanto jogo para jogar na internet. tanta mulher nua. cavalos e anões e logo haveria de encalhar no raio da escrita – não podes ser para o que não nasceste – mas com a escrita há um sentimento que me arranca as vísceras: a de que poderia ter feito melhor – leio um texto e lá vem o sentimento: podias fazer melhor – leio outro e novamente aquela erupção da pele: podias fazer melhor – a questão é só uma. poderia ou não fazer melhor? confesso que não sei – sei que dentro de mim existe a vontade. mas falta-me a magia no interior das palavras – as palavras precisam de ter no seu interior um pouco de poção mágica e quando não tem os textos não brilham no escuro – o pior é que não me conformo com o que não tenho; e não tenho verbos no futuro. nem arranha-céus. nem pastilhas para as dores de cabeça ou máquinas de escrever com teclas mágicas – escrever é simplesmente existir. é não me repetir. é baralhar o tempo e inventar-me todos os dias no futuro – quando não escrevo repito-me


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quando não escrevo repito-me. torno-me insuportável. maltrato-me. fujo dos espelhos que nem vampiro. escondo-me atrás de uma folha de papel e juro que a culpa não é minha. a culpa é do divino. é de toda a gente. é da casa. da janela que está meia fechada e deveria estar meia aberta. é do tempo. é da porta entreaberta. das alterações climáticas e do o el-niño que me sacode as folhas e me deixa em desespero – quando não escrevo os olhos desalinham-se. as mãos esganam-se uma à outra e o corpo grita socorro para dentro porque por fora o mundo está surdo – ninguém quer saber de quem escreve – estou triste. estou em desordem emocional. estou com a língua descolorida e os lábios desidratados escondem uma boca a saber a papel. o mesmo ranho no nariz. a mesma confusão nos canais lacrimais: chora. não chora e o corpo numa pilha de nervos desafia tudo que se lhe atravessa – a escrivaninha desfeita em desordem segura no tampo o zumbido-assobio de um computador podre. geme de manhã à noite. está no fim. dizem que se formatar fica para mais um tempinho – para quê se não tenho palavras?  está tudo um caco. tudo preso por arames. eu também e não me posso formatar. a idade já não permite. há um limite no tempo para recomeçar tudo de novo. passei esse limite à muito – já me avisaram que o melhor é não mexer muito. deixar-me andar até aguentar – agora tudo me amedronta. não sei que é feito das palavras. não sei se foram de vez ou se voltam com mais exigências – um dia fico sozinho – estou como o burro no meio da ponte. nem sei se espere ou desapareça para dentro de um livro – estremeço. alucino. a cabeça imagina a morte. os pulmões rasgam-se. os braços deitam-se ao passado e remexem no que está escrito – reler alivia a pressão – e o desassossego poderosamente instalado em tudo que sou – bamboleio. caio. não caio. desisto. não desisto. sinto-me aflito. agoniado. não sei o que fazer. estou perdido. sozinho. até de mim e o desespero rodeia-me com engenho: acicata o desalento. a coragem e a confiança – endoideço e tudo que é louco está fora da racionalidade. do equilíbrio. da tolerância. da esperança – um louco distorce tudo que há dentro de si. perde o uso da razão. desmorona-se em mil dúvidas e interrogações – a escrita é a minha alegria – bem sei que posso sempre falar. santo antónio falava aos peixes e não era louco. mas a oratória é sempre tão volátil. tão passageira e imprecisa e eu nasci sem saber falar. engasgo-me. a cabeça começa a trabalhar a mil e as palavras enrodilham-se no céu da boca. fico vermelho. desatinado e morro de vergonha – será tudo obra do divino para me obrigar a escrever? – bem. confesso que não sei e também não sei o que fazer para inverter este apagão comunicacional apesar de estar agitado e impaciente esperar é a única solução – quem espera sempre alcança – confesso que estou preocupado. estou nos limites da tolerância – arfo. interrogo-me se terei caído num abismo sem misericórdia. sem bondade. sem retorno – que destino está reservado para mim? não sei – penso. quem pensa existe – não posso desistir. já desisti de tanta coisa. já não tenho idade para desistir de mais nada – a cabeça pensa com terror. procuro-me. rodeio-me com o que me resta de ambição. teimo. mexo-me de um lado para o outro. os pensamentos também e as mãos revoltadas perseguem-nos. é agora ou nunca. um pelo menos tenho que agarrar. tem que cair de cansaço. um pelo menos tem que chegar ao papel. um. não é preciso mais. basta um para me despertar desta nostalgia enfadonha. basta um para que as palavras me subam pela coluna vertebral e ejacule. basta um e fecundo o papel de tudo o que sou. basta um – basta um para me eternizar no tempo – o meu estado de alma está baralhado. confuso. perdido e sem rumo. nada em mim é firmeza. coragem. liderança. estou para aqui – e agora. quem toma as rédeas do corpo? quem diz se sento ou não sento. se deito ou não deito. se parto a jarra ou não parto. se mando tudo para o caralho ou não mando quem?... não sei. não sei mesmo. sinto o cérebro dividido por um muro de betão. de um lado o que sou. do outro. o que quero ser – do lado esquerdo. a norte do hipotálamo. uma criança aziumada gargalha enquanto se rebola nos neurónios esfrangalhados por um texto diabólico da clarice. um texto destes pode matar qualquer leitor – do lado direito. a sul do mesmo hipotálamo. uma criança malabarista. com a barba por desfazer. fala com animais enquanto atira para o ar livros em branco. repete isto todos os dias. fala com os animais e atira livros em branco para o ar. e espera. e volta a falar com animais e continua a atirar livros em branco para o ar. e espera. e desespera. e a mão de atena sem chegar – os dias repetem-se e os livros em branco continuam no ar – que raio me aconteceu. estou doentio. estou a perder-me. não me poso esquecer que nasci em abril. nasci em revolução. de cravo ao peito. em palavras de ordem: a escrita a quem a trabalha. o escritor é quem mais ordena – serei abril até ao meu último suspiro – estou adoidado. olho para o que sobra de mim e vomito. vomito-me pernas a baixo. estou um esterco mas estou aliviado. estou pronto para recomeçar o que verdadeiramente nunca acabei – quero mais do que já tive. quero a mesma ambição. o mesmo cheiro a papel. às letras. às concordâncias. às combinações do plural e o mesmo barulho do mundo a correr como se todos me quisessem roubar o que penso – e a confusão a enlaçar-me o pescoço. esganado e a palavra da salvação debaixo da língua. teimosa como nunca. encutinha-se atrás de um dente que não é do siso e jura resistir até à morte – estou desabitado de tudo – não sei o que dizer. juro que não sei. digo que os rios correm para o infinito do mar. quantos milhares de poemas fazem os rios correr para o mar. quantos milhares de poemas falam de um amor de bosta. quantos milhares de poemas falam de porra nenhuma e eu com a mania das grandezas nunca estou bem com porra nenhuma que escrevo – não sou humilde. não deixo que a porra de um rio me leve até ao infinito do mar. não me deixo naufragar numa garrafa de rum. não deixo que a moby dick me engula e me regurgite para dentro de numa história infantil – um dia vou pagar por esta altivez – não é justo viver assim. não é fácil. eu só quero escrever uma história – quando escrevo sou criança. quando escrevo sou uma criança de júlio dinis – só quero ser criança e escrever. mais nada – tudo isto é o que quero ser. quase nada. nem sei se algum dia poderia ser alguma coisa do que não sou – confesso que nem queria ser nada de especial. nunca quis ser grande coisa. com o tempo fui percebendo que o mundo fabrica coisas que não são para mim – nunca percebi se a culpa dessa exclusão é minha ou do mundo – mas também não importa. tenho o mais importante. tenho mulher que adoro. tenho filhos que me adoram e dois cães que me idolatram e passam o dia a abanar a cauda – gosto de cães. gosto da forma como me olham e me envolvem. gosto da sua lealdade e da tolerância para com todos os meus absurdos – tenho um cão. quase lavrador. aqui em casa não há raças puras. eu também sou quase escritor. sou quase parvo. sou quase um cavalheiro. sou quase tudo que gostaria de ser e não sou – que se lixe o quase. mas estava a dizer o seguinte. tenho um cão que se deita ao meu pé enquanto escrevo. enrola-se em posição de quem sabe que a noite será longa. em estado de invernação e contemplação interior. sabe que nada pode interferir entre o barulho de teclar e a melodia ritmada de johann sebastian bach – ali fica embrenhado em si: olhos fechados como se estivesse hipnotizado pela fusão de bach com o teclado – invejo-lhe aquele descanso dócil. leve e tão genuinamente bom – sempre que teclo com mais força abre um olho. faz o barramento do meu estado de alma. três segundos em meditação interrogativa está tudo bem e volta a entrar para dentro de si – para além de me fazer companhia creio que a sua missão mais secreta é não permitir que nenhuma personagem me fuja porta fora – nas revisões dos textos faço questão de ler em voz alta. olha para mim. fixa os olhos nos meus. atiro-lhe com um sorriso e tento compreender se está tudo bem – não adianta. não lhe apanho nada. o brilho nos olhos ofusca-me os sentidos. fico com a ideia de que para ele tudo que faço ultrapassa a excelência – ficamos engastalhados no olhar. fico louco por o abraçar. o silêncio é profundo e interminável – a sua amizade por mim é incondicional. somos amigos e os amigos. como diz elbert hubbard. é aquele que sabe tudo a meu respeito e. mesmo assim. ainda gosta de mim – por fim volta a enroscar-se em si e eu imito-o e enrosco-me também em mim – escrever é isto mesmo. enroscarmo-nos em nós e imaginarmos um final feliz para um texto quase todo infeliz – eu não quero ser nada especial. quero escrever mas faltam-me palavras para explicar a falta que as palavras fazem – quando não escrevo repito-me



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quando não escrevo repito-me. perco-me em mim. torno-me aborrecido. emudeço e desfaleço. sinto a morte. quer dizer. penso que é a morte mas não posso garantir. nunca estive com a morte – diria que me sinto numa quase-morte. saio do corpo e vagueio. entristeço. turvo. desfoco do essencial e a escuridão toma posso do desejo: primeiro ataca mãos. depois. o corpo começa a resfriar. a temperatura cai e os órgãos mais importantes irritam-se. desorganizam-se e dão o primeiro sinal de que podem colapsar. impaciento-me. não consigo respirar. resfolego. a pele enrubesce. as unhas param de crescer e o corpo começa a apodrecer lentamente. cambaleio. os olhos perdem brilho. a tristeza apanha-me o coração e interrogo-me se realmente é possível morrer por falta de palavras – fico esgotado. cansado e com a tensão arterial completamente descontrolada – não há de ser nada – o que me inquieta mesmo é sentir o odor da morte. a sua vontade de ceifeira e o *“som da bigorna, como um clarim do céu, Vão dizendo em toda a parte: - O escritor [pintor] morreu.” *zeca afonso também conhecia a morte e sabia quando ela saía à rua – eu também sei. só não sei se sai à rua para mim ou para as poucas palavras que ainda carrego – quando estou em quase-falecimento tudo o que identifico é a tristeza – ninguém entende esta minha mágoa. nem tão pouco a sei escrever. ou desenhar. ou transformá-la num poema de rimas cruzadas e cantá-lo como braço armado do desespero – não sei de onde veio nem como me entrou no corpo e muito menos o que fazer para me libertar desta dor que não para de magoar – tocam os sinos da igreja da minha paróquia. o badalo diz que é defunto. não há morte nem funeral sem o toque do sineiro. são os mensageiros das más notícias em terra pequenas – o sineiro de tibães diz que se o badalo do sino deixar um ronco. um rasto. um 'ohhhhhhhh' que não quer parar. é sinal de que morreu ou está para morrer outra pessoa na paróquia – estou em dúvida se o sino roncou. não sei ao certo. parece-me que sim. confesso que estou com medo. não tenho medo da morte. tenho medo de não concluir três ou quatro manuscritos que julgo importantes para os que me são próximos – vou estar atento. vou deixar um ouvido no adro da igreja a tomar conta do sineiro – mas ainda estou vivo. sei-o porque respiro e sei-o porque não há ronco nem ceifeira por perto e tudo farei para que assim continue. não tenho intenção de subir para o cimo do meu espólio literário para me fazer desaparecer do mundo. nunca poria os pés em cima do conde de monte cristo. do dom quixote. do tolstói. do pessoa. dos cem anos de solidão. do camões ou do meu querido júlio dinis. nunca. por eles seria imortal – resistirei até que me chegue a palavra às mãos – toda a palavra que me chega às mãos respira e me faz respirar e quando eu respiro o corpo acredita na vida eterna – sem palavras não sou nada – mas também não quero ser nada para além de falar com o que escrevo. não quero nada que me faça ser o que não quero. nasci para escrever. quero escrever. quero ser… sei o que quero ser. mas também sei o que não posso ser – hoje. só quero que nada me aborreça – e é o que sei – no futuro. num outro dia. talvez queira ser um saca-rolhas para arrancar de mim este desassossegado maldito. ou um garfo luís XV rococó para levar alimento à alma. ou uma toalha de rosto em linho do egipto para enxugar a amargura. um biombo de bambu para me proteger de todos os que me apontam o dedo ou então. uma caixa de fósforos para incinerar todos os meus maus momentos e por fim. já que mais nada me ocorre pelo cérebro. gostava de ser um automóvel de velocidade. descapotável. a galgar quilómetros de indiferença pelo mundo. sem medo do tempo. a deixar para trás o passado e o futuro é o pé no acelerador a rasgar vento generoso – e o corpo centrifugado das impurezas pede mais vento e mais velocidade – e a boca a falar desapaixonada. com calão. a mandar foder o que fica para trás e pela frente tudo que vier por bem será bem vindo – e o carro a roncar por um “bufante” duplo. cromado. a expelir fumo branco e em mim um estrondoso sentimento de habemus uma nova vida – não quero mais esse gajo do passado. não o quero mais a comandar o corpo. a dizer isso não se faz. não é bonito. olha que as pessoas podem não gostar. olha o que vão dizer os correligionários. a confraria não permite. um homem que gosta de escrever não faz isso e blá blá e rebeubéu. pardais ao ninho – quero velocidade. quero que se lixe tudo. não tolero mais imposições ou limitações – cuspo pela janela. com ranço. grito palavrões e curvo em contramão. paro nos verdes e faço obscenidades. caretas e acelero. o carro ronca. os pneus plissam e arranco em alta velocidade em direção a um mundo desconhecido com um sorriso de orelha a orelha – sou livre – no retrovisor. os olhos expulsos do passado fazem-me existir para uma nova vida – agora sei que existo porque estou no retrovisor – olho para o retrovisor. olho para mim. volto a olhar para a frente. afunila-se a estrada. acelero ainda mais e olho para um mundo que me deseja e dentro de mim a dúvida: se não houvesse retrovisor existiria? volto a olhar para a frente e o futuro a entrar-me no que sou – o que ficou para trás já não tem importância – e eu sentado na velocidade a recolher o que me chega pela frente do carro. eufórico. abro e fecho o tejadilho. carrego em botões. tudo é novo. tudo é presente. tudo é automático. subo e desço o vidro lateral. ligo os quatro piscas. mas não vou com presa. vou com velocidade mas sem presa. ligo o rádio e a RFM anuncia dez músicas seguidas sem publicidade. mudo para a TSF e esta divulga a morte de um casal de gaivotas em lua de mel. um camião desgovernado ultrapassou a faixa de rodagem e apanhou o jovem casal – não estou para tragédias. passo para antena dois. nada como umas batidas de jazz de new orleans para retemperar corpo e alma – estou em mim. ouço-me na música de charlie haden e pat metheny. a última vez que ouvi esta melodia foi no funeral do meu pai. estávamos num dia de março ensoalhado e fresco – corria uma brisa de paz. era dia do pai. meu também. o mundo estava parado. todos os carros estavam parados. não havia velocidade nem curvas em contramão. só as vendedoras de flores corriam. só as flores sorriam. as nuvens quase paradas encobrem a casa dos crentes. o céu desapareceu e eu também desapareci de mim – as andorinhas voam baixinho – há um cheiro no ar a despedida – o coveiro. finge que as últimas exéquias são um ritual de fé. de sentimentos e de convicções. com cara de sofrimento. acaricia a pá das habilidades fúnebres. é ele que faz desaparecer toda a réstia de esperança da ressurreição – o silêncio misturava a família. os amigos. os curiosos e o padre. estávamos todos em sua volta. o meu pai sempre gostou de ter as pessoas em sua volta – o sr. padre pedia a deus para receber em sua casa o meu pai. eu pedia-lhe para não o tirar da minha. o sr. padre falava em fé. eu prometia raiva. o sr. padre falava em vida eterna. eu falava em vidas desfeitas – chegou a hora da água benta e eu ali de pé. estático. gelado como o meu pai. a pedir-lhe perdão e o corpo virado para o céu. branco. sem dores. com as mãos cruzados como se me quisesse dizer que a luta dele tinha acabado – dou-lhe o último beijo. as portadas fecham-se. a fechadura range. chamam por mim e entregam-me a chave da vida – quando caiu a primeira pá de terra tudo desapareceu. e eu desapareci também. um buraco negro engoliu-nos para sempre – nunca recuperei dessa separação – o funeral é o reconhecimento da morte. é o cais de embarque para uma viagem que não tem retorno. é na verdade o último adeus – perdi-me. passaram vinte anos e eu ainda ali estou a ver a terra a cair – o meu pai faz-me muita falta. um dia destes vou-me encontrar com ele. vamos falar. eu sei que adora falar – apago o rádio. não estou para nostalgias e muito menos para viagens ao passado num carro descapotável – adoro velocidade. adoro estes carros modernos que tem mais botões e alertas do que eu imaginação e quando alguma coisa está a correr menos bem. as luzes e as sirenes não dão sossego: se não colocas o cinto de segurança apita. se o óleo desce a luz vermelha acende. mas se a temperatura sobe acende outra luz ainda mais vermelha e se colidirmos com alguma coisa. abre-se um saco cheio de ar que evita batermos com a cabeça na parede – se tivesse um sistema destes na minha juventude tinha evitado muitas cabeçadas. mas não havia – estes carros modernos são o máximo. nem deus fazia melhor. gostava que um dia inventassem um destes balões para quem escreve. tenho a certeza de que evitava muita cabeçada literária – olho-me novamente no retrovisor. sempre que me olho vejo o que chegou do futuro. tudo que vejo já não existe à frente de mim. existe apenas no retrovisor. existe no passado – basta uma milésima de segundo para que tudo se torne pretérito – tiro os olhos da estrada e o futuro já deixou de o ser para ser o passado no retrovisor – gosto destes carros que amarram a vida pelos cornos. fazem-na presente e num coice atiram-na para o passado – gostava de ser assim – e eu num carro de alta velocidade ao comando de um volante que gira como o mundo. com uma buzina ao centro para anunciar a minha chegada da indefinição: quando parar o carro olho para a frente ou para o retrovisor? não sei. sei que buzino para anunciar a minha chegada – agora tudo que tinha para escrever ficou para trás. não me serve para nada – não se pode viajar a alta velocidade se não tiveres ao teu lado papel e caneta para tirar apontamentos – a velocidade é inimiga dos coxos e dos sonhadores e quando damos conta. estamos no fim da corrida e não trouxemos nada connosco. nem uma muda de roupa – tenho saudades da minha bicicleta. dos joelhos esfolados e daquela sensação de que as subidas eram maiores do que as forças e no fim do dia as pernas chegavam sempre onde queríamos – era o topo do meu mundo – não quero saber de carros. nem de bicicleta. nem dos pés que me trouxeram até aqui. se pudesse escolher ia diretamente para dentro de uma caneta. deslizar em tinta. preta por ser a mais parecida com o futuro. com um aparo grosso. roller baal. personalizado com o meu heterónimo. em letra desenhada. às curvas e contra curvas. para dar aquele ar de coisa distinta. capaz de rubricar livros de fãs. ou escrever uma enciclopédia. com capítulos. dividida por letras do abecedário. com capas grossas. próprias para ficarem em estantes de escritórios ou bibliotecas. lugares chiques. lugares de gente que sabe escrever. lugares de outro mundo – mas não sou. nem tinta. nem caneta. nem sombra do que poderia ser e não sou porque o destino é o que é – não gosto de falar de destino – não acredito nesse coisa de nascermos com o destino traçado. falamos do destino como desculpa para toda a palermice que se faz. eu fiz muita – que se lixe o destino. os carros descapotáveis e as velocidades. que se lixe tudo. só não quero que se lixe os leitores. fazem-me muita falta. são eles que me animam e me dizem que ainda é cedo para morrer – ainda quero escrever amanhã – quando não escrevo repito-me

- de seguida a parte 4 de 6 -


05/06/2018

alegoria





pintura - graça morais






as palavras aziumadas 
................usam samarra de cordeiro 
......................................propagam-se como vento
..............................................................esmordaçam como lobos




29/05/2018

24/05/2018

facebook - até mete nojo de tão lindo que é





imagem - google




apetece-me desabafar – hoje vou falar sobre a puta da internet – bem sei que não vai ser fácil. não se fala da internet sem perder uns quantos amigos cibernautas e mesmo que não os perca na sua totalidade. sei que alguns vão aziumar e dizer baixinho: se fosse escrever ao caralho – mas tem que ser. apetece-me. e quando me apetece alguma coisa sou como as grávidas. ou faço ou posso perder para sempre esta raiva de escrever – não vai ser fácil… mas em boa verdade. nos dias que correm. não há nada fácil. anda tudo no ar e tudo que anda no ar ou é avião ou likes do facebook

[dito isto]

na minha juventude. sabia perfeitamente distinguir quando um amigo estava num daqueles dias em que o pai lhe tinha dado calor às orelhas. o rosto trazia instalado um sistema de alerta facial que nos colocava de sobreaviso:

-- estou com pouca paciência. toca a abanar as orelhas para longe

mas se pelo contrário conseguisse um suplemento na féria semanal o semblante abria-se num sorriso rasgado de orelha a orelha e a partilha do aprazimento contagiava a amizade do grupo mais rápido do que a gripe espanhola:

-- bora pessoal. hoje fuma tudo à borla

sabíamos tudo uns dos outros. eramos amigos desde que o sol nascia até ao seu sumiço – o nosso rosto era uma impressão digital. única. intransferível e só interpretável pelos valores da amizade – eram tempos do arco da velha

[trinta anos mais tarde]

desde que apareceu a internet os amigos passaram a comunicar pelas redes sociais numa linguagem de símbolos e sons universais – passamos a estar diariamente presentes na vida daqueles que estimamos e também daqueles que pouco ou nada nos dizem – basta ter um computador e um registo no facebook e os amigos começam a nascer de todos os cantos. mais de mil no primeiro dia e ao fim do mês dez mil e ainda não completamos seis meses e já temos amigos até do japão e por cada amigo cem likes. enganchados nos likes milhares de dedos virados para um céu que nem sabíamos existir – não é fácil envelhecer com as novas tecnologias. todos os dias uma nova ferramenta e eu sem escola profissional para me ensinar como se faz um ctrl-alt-delete – o mundo de pernas para o ar e eu também – não tenho tempo para tanto amigo. não tenho tempo nem que viva mil anos. e o botão enter do meu teclado gasto. sem tinta. prestes a furar de tanto bater que sim – parece que estou triste mas não estou. estou ansioso. as teclas chamam pelos dedos. os likes sorriem. e os corações cada vez mais vermelhos. e os lábios carnudos. e ursinhos e gatinhos e o jardim zoológico nas teclas e cada animal quer dizer todo o tipo de merdas que não consegui aprender – estou velho. só sei mesmo deixar um polegar virado para o céu – espero que todo mundo saiba que estou confiante e bem de saúde

[hoje é um dia especial]

sinto-me global. sinto que me entreguei por inteiro ao mundo das redes sociais – só não quero é que me convidem para jogar á bola. não é por nada. mas já não sou dado a correrias e também não quero que ninguém saiba da minha mazelas nos joelhos – estou todo fodido – estou ansioso que o facebook me comunique o numero de likes recebidos no último mês – tenho fé que vou bater um novo máximo. estou no encalço do  CR7 – eu e o melhor do mundo a viver debaixo do mesmo teto global – os humanos nunca param de surpreender. como muita boa gente não sabia exprimir os seus sentimentos logo encontraram ferramentas virtuais para interpretar as emoções num espaço sem fronteiras e tudo à distância de um clique – carrega num smile amarelinho com a boca para cima já todo o mundo sabe que se trata de uma dose controlada de felicidade. dez smiles seguidos é uma overdose de júbilo. podendo. se não for vigiada. trazer sérios problema de saúde – mas para além destas preocupações e benefícios há uma outra vertente que valorizo imenso. um smile não envergonha a língua portuguesa. não é necessário escrever. basta o tal clique inofensivo e camões agradece – o único problema destas carinhas redondas a sorrir é perceber a sua veracidade. nunca saberemos se é uma imposturice ou se saiu mesmo do coração e como recebemos resmas delas por dia rapidamente apreendemos que o melhor é aceitar tudo tal e qual como vem empacotado. sem questionar. sem argumentar e no mesmo instante. para não acumular e perder o sentido da coisa. devolver a cortesia em modo de correio azul. um dedo virado para o céu acompanhado com uma dessas carinhas amarelas rechonchudinhas e a amizade ficará presa a cimento para sempre – quem inventou esta comunicação é um génio. se tivesse nascido na minha terra garanto-vos que enquanto não tivesse uma rua com o seu nome não descansaria – não importa o grau de amizade que liga o emissor com o recetor que a carinha encaixa perfeitamente no perfil. não importa se é gordo ou magro. letrado ou analfabeto. cavalheiro ou marginal. viva em braga ou no chile e fale castelhano ou checheno tudo funciona sobre rodas – estou até convencido que um dia será com estas figurinhas que entraremos em contacto com os extraterrestres – comunicar é agora espontaneidade e dá centenas de amigos ao dia – como é fácil iludir o nosso universo habitável – para perceber-mos se realmente alguém está bem na vida das redes sociais faz-se uma contagem rápida dos amigos e dos likes conquistados:

-- foda-se. parece impossível aquele nabo do antunes já tem mais oito amigos do que eu 

ganhar ou perder amigos é agora um drama com consequências muito mais gravosas do que no meu tempo – nesse meu tempo. um gajo embrulhava-se nuns socos e pontapés e no dia seguinte. como todos eram sempre poucos  para jogar futebol o remédio era mesmo fazer as pazes – um aperto de mão e a amizade continuava no mesmo ponto em que tinha sido interrompida – a oferta de amigos no mercado das redes sociais neste momento é maior do que a procura – os amigos estão ao preço dada uva mijona – és muito amigo se colocares muitos likes. e um amigo de trampa se te esqueceres de carregar os likes – o nosso mundo de amigos é agora assim: esgadanham-se uns aos outros por meia dúzia de likes:

-- ó filho se me deixares ser teu amigo prometo que te faço uns likes tão loucos que até vês a estrela polar

socialmente um gajo com poucos amigos nas redes sociais é um gajo marginalizado pela irmandade da Internet – se não me dás um like também não levas nenhum meu – se tem poucos amigos é porque o gajo não deve ser grande pistola. deve ter a mania que é chico esperto. menino da mamã – vai longe. vai – a solução é nem passar cartão e passar ao lado das postagens e das fotos – comentar um gajo com poucos amigos nem pensar é mau para a sua reputação

-- a estes merdas elitistas que não dão likes nem lhes dou confiança. bloquei-os logo – quero que se fodam todos

o problema é que todos querem ser amigos de todos para serem aceites no mundo global da internet – estes amigos não pesam às costas. não tens que os compreender. não tens que os ouvir. não tens que os chamar a atenção num momento menos feliz. simplesmente existem – é fácil a sua manutenção e mesmo quando se zangam por algum motivo não andam ao soco. nem que apertar a mão como cavalheiros – agora bloqueia-se o tratante e logo de seguida posta-se um frase pesarosa no perfil a dar conta da morte prematura de um amigo que verdadeiramente nunca o tinha sido:

-- tão bem lhe fiz e o agradecimento é este. não merecia. não tenho sorte nenhuma com os amigos

e o milagre da multiplicação já não é pão nem vinho. são amigos aos milhares. a emergir como ratos. de cantos que nem imaginava existir. e likes. abraços. migo e migas aos beijinhos e jinhos a perder de vista:

-- força migo;

-- deus é grande;

-- não mereces. mas vais ultrapassar;

-- aconteceu-me na semana passada. é uma tristeza mas já passou;

-- não ligues migo. esse gajo deve ser um paneleiro de merda;

-- se fosse comigo fodia-lhe as trombas;

-- vais [ver] que tudo se vai resolver. tem fé; 

-- se precisares de uma amiga sabes que para ti estou sempre aqui. jinhos;

-- cabrão. eu sei o que merecia esse filho da puta – há gajos que não se enxergam - abraço

e um homem depois destas manifestações de carinho incha mais que o peixe balão – bem sei que a maior parte destes amigos nem os conheço pessoalmente. e outra grande parte apenas os conheço de um único aperto de mão. ou de uma palavra reles de circunstância. ou então porque são amigos de amigos que também não conheço – o amigo de verdade. aquele que é mesmo amigo amigo nem me fala pelas redes sociais quando pressente um problema. liga-me por um telefone que quando toca ilumina o seu nome no mostrador – atendo. e logo chega em letra grande um like que não tem o dedo para cima. tem alegria suficiente para alimentar uma conversa por tempo impossível de contar – e assim é. retoma-se a amizade exatamente no ponto em que a interrompemos – não importa o tempo que passou. conhecemos todas as inflexões de voz e recuamos ao passado na única máquina que nos faz viajar no tempo: a amizade – os amigos de verdade são sempre únicos. cada um deles é um mundo único

-- que saudades tenho desses catraios

neste novo movimento tecnológico o importante mesmo já não é só o número de amigos que se possa somar. para esta malta o que começa a contar é a rapidez com que se coloca o like – um verdadeiro amigo tem que estar sempre atento. sempre de sentinela e mal surja a oportunidade o seu like tem de ser o primeiro – acabamos de postar um texto de quatro páginas e nos primeiros dez segundos já temos cinquenta likes. aos trinta segundos chegaram já mais de mil e antes do minuto atinjo os nove mil novecentos e noventa e cinco – incrível – passada a primeira hora lá chegam os últimos cinco amigos. envergonhados de cabeça baixa. cheios de desculpas esfarrapadas. quatro lamentam não terem tempo para ler a correr. o outro alegou:

-- a culpa é da EDP cortou-me a eletricidade. fiquei sem net apenas por ter em atraso o pagamento de uma fatura

entender este novo movimento das redes sociais é trabalhão que arrasa completamente com a intuição de um cristão. melhor. creio até que nos dias que correm já não há pessoas infelizes no mundo – esta nossa sociedade é um bando de gente socialmente feliz  

-- tudo mundo aparece nas redes sociais a rir com dentes mais brancos que o branco branco. o pepsodent faz milagres inacreditáveis – os dentistas estão fodidos – o pessoal escova os dentes cem vezes ao dia para aparecer no facebook

todas as manhãs mandam beijos de bom dia em múltiplos de dez o que me leva a pensar que talvez despertem sem falar um para o outro. creio que tem a ver com o respeito do espaço de cada um. no meu tempo os quartos eram muito mais pequenos e não havia forma de não invadir o espaço da nossa companheira:

-- vê se te despachas a sair da casa de banho que quero ir aí

ou então quando o amor andava no ar ela dizia:

-- deixa tudo arrumado que eu não sou tua criada 

os casais começavam logo pela manhã a comunicar e a partilhar tarefas e em juras de amor que perduravam para toda a vida. ela prometia que se despacharia mais depressa das pinturas e ele jurava pela sua saúde que nunca mais deixaria as cuecas no chão do quarto – mas isto está tudo mudado para melhor. todo o mundo se ama numa loucura que chega até a ser constrangedora para os casais mais antigos – agora sei que no passado o amor era muito fatela. senão vejamos – de tempos a tempos. curtos. vão para a internet. e como se fosse promessa.  botam palavras de amor aos conjugues que derretem qualquer coração de pedra. ninguém resiste a tanto love

-- estou convencido que se o shakespeare fosse vivo tinha que dar o triplo do veneno para o romeu bater a soleta. com este amor não é fácil falecer

o que mais me encanta é que nos dias de hoje não há casais incultos. todo o mundo tem uma bagagem cultural que constantemente me faz chegar as lágrimas aos olhos. oferecem frases de autores tão desconhecidos que até os próprios autores citados ficam na dúvida se realmente escreveram aquilo – o amor embrulhado em fitas de arte dura muito mais tempo – fico sempre muito orgulhoso deste seres humanos tão especiais. ainda bem que os amigos ficam realmente a saber que adoram literatura e que aproveitam todos os bocadinhos livres do dia para lerem e promoverem autores desconhecidos – são os novos mecenas do mundo tecnológico – depois vem a parte pior deste amor que arde e até se consegue ver. um amigo daqueles do coração. comunicativo e muito sensível às coisas do amor e que é capaz de ir a tribunal jurar a pés juntos que aquele amor é a oitava maravilha do mundo das redes sociais deixa um comentário em lágrimas:

-- parabéns. continuem a regar esse jardim de amor. vocês são perfeitos. nunca vi um casal que se amasse tanto

responde logo a dona daquele amor que não cabe numa resma de papel A4

-- és lindo. tens um coração lindo. jinhos lindo

de seguida o face torna-se numa slot machine e caem em catadupa gostos e corações que dava para encher o cesto da capuchino vermelho – a sua avó ficaria com um ego do super homem e a história do lobo mau lá teria que ser reformulada. a avozinha comia o lobo de faca e garfo com tanta manifestação carinhosa – mas o que mais me surpreende nestes movimentos sentimentais são aqueles que substituem o gosto por aqueles bonequinhos de boca aberta. espantados. creio eu – ora aqui o caso torna-se grave porque fico sem saber se a intenção de oferecer este dito boneco é de uma amizade de espanto ou gozo para espantar a amizade – no meu entender a mensagem que deixam pode ser entendida de várias formas 

1º - não imaginava que gostavas tanto do teu marido. estou espantada; 

2º - nunca me passou pela cabeça que se amassem tanto depois do que já o vi fazer-te. estou espantada;

3º - olha que tu tens um lata do caraças. és mesmo uma vendida. andas sempre a dizer mal dele e agora vens para aqui meter nojo – se fosses lavar a loiça… sua cabra. estou espantado;

4º - nunca vos vi comunicar um com o outro mas aqui na net são o casal mais maravilhoso do facebook. – ó bonitona. deixa que te diga. és um exemplo para todos. só se pode ter inveja de um amor tão genuíno - são TOP. estou espantado;

5º - tenho tantas saudades vossas. a última vez que vos vi estavam a almoçar no zé das bifanas – estavam os dois lindos. são um casal fantástico – só não fui à vossa mesa porque deveriam estar preocupados com alguma coisa pois estiveram sempre ao telemóvel e saíram a correr – beijinhos e continuem assim.  estou espantada;

6º - vocês estão juntos ainda? são uns heróis – confesso que nunca me passou pela cabeça que o vosso casamento aguentasse tanto – chegaram a casar pela igreja ou foi só pelo civil? – parabéns.  estou espantada;

7º - tens o sorriso mais lindo da net. nunca tinha reparado. estou espantada;

8º - és uma guerreira para aguentar esse gajo. ele não te merece.  estou espantada;

9º - puta que pariu esse amor. até mete nojo de tão lindo que é.  estou espantada;

10º - adoro-vos. gostava que a minha maria me escrevesse coisas assim. infelizmente é uma puta e só sabe foder-me a cabeça – maldita hora em que levei aquela cabra ao altar. se não fosse os filhos já a tinha atirado da janela – beijinho para vocês. são um exemplo – felicidades e dá um abraço ao sortudo. estou espantado;

e assim continuariamos com mais uns quantos exemplos mas infelizmente também eu não tenho tempo para escrever mais nada – a minha maria está aos berros e já sei que ou me apresento rapidamente em passo ligeirinho ou acontece-me como da última vez. deu-me no focinho e de seguida ligou para o número verde de violência doméstica a queixar-se de défice de atenção – bem sei que acaba tudo bem. logo que apanha um computador esquece tudo e enche-me de beijos e likes e não se farta de dizer aos amigos que sou o homem da sua vida – com a idade aprendi a ser tolerante e nunca me esqueço do que dizia os meus avós: uma bofetada pode salvar o casamento – o meu já vai a caminho das bodas de ouro e nunca me queixei de uma bofetada mal dada – sou um homem com sorte