...........................................................................................não tirem o vento às gaivotas







28/02/2012

eu camões








sossego. as mãos nos ouvidos tamponam a vida que me chega em tormento – novos adamastores – já não suporto mais a falta de esperança de um povo que um dia passou além da taprobana – e é nesta república. nesta amálgama ocidental praia lusitana. que um dia nos vestiram o futuro com as nobres cores da esperança-futuro e coragem-sangue – aldrabões. impostores. intrujões. trapaceiros. vampiros. que fizestes à espada de d. afonso henriques? que fizestes ao pinhal de d. dinis. que fizestes às naus de d. joão II.? e do fontismo o que resta? sangue. é tudo o que sobra da nossa bandeira. sangue-dor. sangue-desilusão. sangue-fome. sangue-desespero. sangue-desemprego – não há verde. do escudo só as chagas de cristo estão ressuscitadas – mas somos povo. nobre povo. nação valente. imortal. corajosamente continuamos a marchar contra os canhões – camões por quem perdeste um olho?




sampaio rego



Lembranças, que lembrais meu bem passado



Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
Não me deixeis morrer em tal estado.


Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.


Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.


Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida há-de ser sempre em tormento.



Luís Vaz de Camões



27/02/2012

procura




                                                              amanda joseph



hoje. ainda não me vi nos teus olhos



21/02/2012

voz-papel







 caricaturista brasileiro amaro amaral (?)





não sei como escrever que a vida é um momento – entrei um dia dentro de um espaço com muitas palavras. percebi. gente escrevia. uns bem. outros assim assim – afortunado. a imaginação ganhou asas. as palavras fizeram-se gaivota e o sal do mar imaginária cobriu-me o corpo de voz-papel – agora. agora sou assim. escrevo assim assim. e nesta vida assim procuro o futuro – assim. sem saber que hoje é dia. sou assim ou assim assim. não sei. não sei mesmo. não é importante – sei que hoje tenho terra por baixo dos pés e um punhado de palavras ainda por dizer – o tempo? interessa? um dia só as árvores saberão. há mais ar e menos um nome por quem chamar – por mais tempo que viva nunca verei as árvores darem pássaros. só ruy belo sabe fazer das palavras árvores com pássaros – na minha árvore não haverá pássaros. os meus frutos cairão com as folhas de outono – silêncio – tal como o poeta continuarei a amar as árvores-pássaro enquanto elas crescerem dentro de mim – já falta pouco para brotarem abraços suplicantes –





20/02/2012

ayahuasca






                                                                                   alexei jawlensky



não há forma de abater este descontentamento - não sei se nasceu dentro de mim ou se tomei a rua errada – agora. agora tenho o tempo. o gasto. e o que me resta em sorte - será muito? se sofrer sim – dor é tempo – tenho um olho no sofrimento e outro no descanso eterno – aguento-me




ayahuasca – palavra quíchua (língua do império inca), significa “planta da alma”, “planta com alma”, ou “planta dos mortos”.




17/02/2012

contrariedades







                             edward hopper


ceifarei a solidão com mais palavras. mais tarde ou mais cedo voltarei a ter a tua mão dentro dos meus sorrisos



16/02/2012

cristata






                                      jean-michel basquiat, cavalgando com a morte






não sei. esta coisa de escrever a vida. muitas vezes não dá certo - não sei. não sei mesmo. encontro sempre dúvidas nas palavras e são sempre tão imprecisas. incertas. inconstantes e a morte está sempre tão presente que os verbos nunca multiplicam o futuro. e o tempo esperança é sempre tão frio. como inverno. gelo. cadáver - se fosse um sorvete era verão. calor. família. doçura. mel. amigos – aonde estou se aqui não me encontro. para onde vou se nunca daqui saí - um dia serei cheiro. defunto. choro em faces comprimidas – diluído nas lágrimas a parte que tinha de bom. na oração a solução para todos os erros e por fim. uma mão cheia de água benta para dizer adeus – depois. virão as memórias misturadas com silêncio para os que ficam – o tempo será então saudade




 
cristata – nome cientifico da cotovia-de-poupa




14/02/2012

manifesto






                             foto de samuel aranda vencedora do “world press photo" 2011







não me peçam para esquecer que hoje é sábado – não. não me peçam para esquecer as centenas de camionetas-gente que na estrada protestam contra o desemprego. a noite a roubar o último lamento de calor ao sem-abrigo ou o desespero do filho da nação a gritar por um dia de trabalho – não. não me peçam para esquecer o pai envergonhado por não saber explicar ao filho o porquê da falta de pão. o homem-desalento que debaixo de um cobertor fino de lã chora por não conseguir cobrir o silêncio-vergonha ou aquele que em desespero se despediu da vida convencido que era ele o mal do meu mundo – não. não me peçam para esquecer o operário sentado à porta da fábrica a ouvir o silêncio das máquinas. o campo esquecido do lenço preto na cabeça da ceifeira. o pescador irritado por não saber do seu mare nostrum. ou o trespasse das ruas vazias colado aos vidros cobertos de pó – não. não me peçam para esquecer o zeca afonso. o cravo de abril que pariu a grândola vila morena. a utopia de uma esquerda vencida pela evolução do tempo. a direita da auto-regulação fabricada pelo político sofista. a ganância do banqueiro-cimento – não. não me peçam para esquecer o desespero da mãe que perdeu o filho numa guerra de conveniência. o corpo retorcido do velho que morreu esquecido no frio da cidade. o marginalizado pela diferença. a doença do serviço nacional de saúde. o acesso sem acesso ao conhecimento. a justiça desigual para o rico e para o pobre – não. não me peçam para esquecer gandhi. mandela. martin luther king. a fé no homem. gedeão com “o sonho comanda a vida”. a liberdade-vento tomada com sangue ao totalitarismo. ou a caminhada-sacrifício da raça humana ao longo da linha do tempo – não. não me peçam para esquecer que a vida é trabalho-honra. descanso-paz. palavra-arte que rola dentro do movimento de translação. desde que o homem descobriu o fogo – não. não me peçam para esquecer o berço da europa: solidariedade-grega sim. dos sem terra. de áfrica. do buraco do ozono ou do animal perdido para sempre – não. não me peçam para esquecer que amanhã é domingo – não.não me peçam para esquecer que de nada me serve ser homem se não sou humano – não me posso esquecer – não me vou esquecer




11/02/2012

vânia lopez






 
 
 
 
o silencio ousa ser mais alto que os gritos...






tem cabelos negros macios
olhos verdes como o céu
estatura alta
estava usando jeans escuro
e uma camiseta branca
levava uma mochila
com todos nossos dias de chuva
foi visto pela última vez
indo pelas ruas dentro de mim
por volta das quatro horas de ontem
com o silêncio que consegue
ser mais alto que meus gritos...





(baseado em fatos reais)



09/02/2012

alberto caeiro










Se Eu Morrer Novo



Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.





Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa





08/02/2012

na escuridão do corpo







ron mueck




não há caminho diferente – a escolha foi feita no tempo em que as palavras não sabiam eliminar a esperança – o tempo andou – agora. agora a escolha é saber por qual das bermas faço caminho – a esperança é para outras vidas. noutro espaço – há dias em que caminho contra os carros. outros dias. quando a ilusão é doença. caminho a favor dos carros – alguns levam pessoas em silêncio. outros. só o rádio abafa o silêncio das faces pedra. conformadas – caminho – sempre me disseram que a vida se faz a caminhar – caminho então –  ainda é possível acreditar na estrada? não – não acredito em estradas em que uns vão para lá e outros vêm para cá – se não há dois mundos não pode haver dois sentidos para se chegar a um fim – fim é morte e morte é descanso – hoje quero acreditar que o fim é mais fácil por este caminho. por este lado da rua. caminhando atrás deste carro preto com gente aos berros – vou por aqui. sei que o precipício é maior e o corpo voa antes de dizer uma única palavra de salvação – não há arrependimento – sempre quis voar – desde sempre soube que um dia iria voar  



mário quintana





                                                             mário quintana



INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!”



07/02/2012

assim





                                                                  rembrandt






não estou
[escusam de me procurar]
parti
parti assim assim
fui-me em silêncio

esqueci tudo
estou por tudo
cansado do tempo
abandonei
o corpo
assim assim

bem
quer dizer
não sei
talvez tenha morrido
morrido assim assim

quem sabe
este meu assim assim
seja um erro na linha do tempo
um momento vazio
um segundo eterno
mas não é
agora já não é
o tempo
o tempo consumi-o todo
num corpo assim assim

restam os chinelos de agasalho
parados
sem pé
guardam o espectro
de um tempo dependurado
assim assim

perdido
nas paredes os gritos
sufocados pela cor da tinta
branco assim assim
branco. branco. branco
e o corpo.
perdido em busca de outro corpo
e o laço da corda
baloiça
assim assim

onde estou se não estou aqui
para onde fui
se da cor não sou
nem assim
nem assim assim

diz-me tu
que escreves assim
sou o que não sou
sombra
sombra assim assim

se um dia o sol morrer
mesmo que seja
assim assim
a sombra será eterna
nesta dor de ser
assim

inventei-me todos os dias
numa história
era uma vez
depois
depois não sei
foi tudo assim assim

dentro do tempo
o corpo
assim assim
perdida nas paredes
a vida
assim assim
a cabeça
assim assim
e a seus pés
decapitados pela razão
os olhos
assim. mortos de pó

 
 
 
 

amélie nothomb

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“ Aqueles que, de uma maneira ou de outra conheceram a morte demasiado de perto e lhe escaparam tem em si a sua própria Eurídice; sabem que à neles qualquer coisa que se recorda demasiado bem da morte e que é melhor não olhar de frente. É que, como uma toca, como um quarto de cortinas cerradas, como a solidão, a morte é, simultaneamente, horrível e tentadora. Achamos que poderíamos sentir-nos bem nela. Bastaria deixarmo-nos arrastar para chegarmos a essa hibernação interior. Eurídice é tão sedutora que temos tendência a esquecermo-nos do motivo por que é preciso resistir-lhe.”  
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amélie nothomb - metafísica dos tubos
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04/02/2012

il mangiatore di fagioli

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annibale carracci - il mangiatore di fagioli
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pergunto-me: para onde estará o homem a olhar? não sei. não é possível saber. o artista esqueceu-se de o deixar anotado – era tão fácil. bastava uma nota de rodapé e este meu dia nunca teria acontecido – agora estou aqui perdido em congeminações que nunca passarão de meros exercícios num raciocínio sem qualquer valor académico – sinto-me também um quadro. sem lógica. irracional. sem cores. linhas. contornos. sombras. dobras. estilo. iluminação. sem nada. vazio. perdido no branco da tela ainda virgem –  nunca serei um rococó – sou imaginação e a imaginação não é nada aos olhos do desconhecido – olho. olho e volto a olhar a pintura e não sei o que vejo naqueles olhos negros – sei apenas o que o pintor quis que eu soubesse: homem do povo. chapéu de palha. unhas sujas dentro de umas mão rudes. como se dissesse: é delas que sobrevivo. – o que teria levado carraci a pintar um homem do povo? o que escondia este homem dentro de si de tão importante que obrigasse um artista a pegar nos pincéis e a dizer: tu viajarás comigo para a eternidade. habitarás os salões das mansões e compartilharás da companhia dos nobres. dos condes. das baronesas. dos príncipes. das rainhas. da arcádia e suas paisagens ideais –  serás para sempre o meu homem. o comedor de feijões – amarrado à mão o pão. preso pela força do pulso como se dissesse: este é meu. tenho direito a ele. trabalhei – todo o homem que trabalha tem direito ao seu pedaço de pão – toalha branca. camisa branca e a jarra de vinho em tons pastel. rasgada por uns traços finos de quem. um dia.  quer ser cor forte – na mesa a fé. o pão diz-me: estou aqui. não se esqueçam de que eu e o vinho fazemos a ceia do senhor – havia esperança no cimo daquela mesa. havia futuro – às vezes gosto de imaginar que este homem é uma fraude. uma invenção do pintor. não é um jornaleiro. não é um trabalhador do campo substituindo a carne por um prato de leguminosas – não. este homem é um seu amigo veneziano. comerciante rico. encomendou-lhe o trabalho apenas para divertimento do seu excêntrico ego – talvez naquela tempo já houvesse um espécie de carnaval veneziano e o seu amigo gostasse de se disfarçar de carrejão das docas – ou quem sabe este homem fosse um nobre descendente dos fundadores do condado de bolonha. ganancioso como quase todos os ricos e poderosos. o prazer advinha-lhe dos longos passeios que dava em jeito de revista às suas terras. terras estas que se perdiam de vista. muito para além do rio pó. e entregues aos cuidados de gente que trabalhava de sol a sol. gente da terra – jornada sempre cansativa. não estava habituado a grandes esforços. parava para almoçar num dos seus muitos caseiros – em frente dele a família que o acolhia olhava com atenção o seu amo a comer – a um canto da sala um casal. da cinta ao solo de terra batida a certeza de que os campos continuarão a florir. meia dúzia de filhos. alinhados pelo tempo de criação. escutam em silêncio o barulho da boca a sorver os feijões. quentes digo eu –  só o barulho da lenha. a queimar a panela de ferro negro. competia com o ranger das mãos a rasgar o pão – aquele olhar arrasta de dentro de si um silêncio de medo – dentro daqueles pequenos olhos pretos quero ler: por que estais aí especados a olhar-me se apenas estou a comer a minha comida – gosto de imaginar o encontro dos olhos. estes que o artista pintou para me afligir no comedor de feijões. ou aqueles que quero alcançar. e que o pintor plantou dentro da minha imaginação – imagino então. sei que não mudarei um único movimento do quadro por imaginar o que quer que seja.  mesmo que dentro dos meus olhos veja os olhos de uma família humilde. honrada pelo trabalho. parada no canto da sala. deprecada em clemência silenciosa. enquanto dentro do seu corpo cintilava o orgulho e honra por ter na sua casa o homem mais poderoso da região – gosto de imaginar –  o que seria de um homem que gosta de escrever sem imaginação – por isso é que quero ainda poder ver a mulher do jornaleiro parada em frente à mesa. de olhos no chão. à espera que o seu senhor termine a refeição – ou ainda. nuns olhos acabados já no tempo do romantismo. imagino o comedor de feijões. a meter a colher à boca. no barulho de um bater de asas. um passarinho entra pela porta dentro e de bicada em bicada apanha todas as migalhas perdidas num dia especial para aquele lar. e o homem assustado pela aparição do belo não conseguiu esconder o espanto dos olhos – também eu estou a pintar. não era minha intenção substituir o carracci nesta vontade de dar cor à minha folha de papel – bem para ser franco não sei o que quero imaginar. às vezes quero apenas inventar novas tintas. misturo-as. volto a misturar. e vejo uma nova cor – agora estou a ver a jarra pintada de lilás triste – na minha cabeça quero apenas criar quadros como na época do iluminismo. época da razão. um movimento de mão artística. capaz de reformular os conceitos erradamente predeterminados para o mundo que me trouxe até aos dias de hoje – pintar um jornaleiro na época não era normal. talvez o artista quisesse ser diferente e dar um murro na mesa das elites. ou então carregado de dívidas. com os impostos em atraso. com o subsídio de férias e de natal cortados e em graves dificuldades económicas. tenha vendido a sua alma ao poder do capital – carracci sabia que este homem disfarçado de tragédia era apenas uma manobra de marketing de um dos senhores poderosos da região que desta forma quis dizer: como veem a vida está má para todos. temos de fazer sacrifícios. temos que reduzir despesas e custos de mão obra. aumentar a competitividade neste mundo que agora começa a ser global – quem sabe o pobre jornaleiro. aquele que não aparece no quadro foi despedido. extinção do posto de trabalho – a esperança está naquele naco de luz que o pintor deixou penetrar no tempo daquela gurita pendurada ao ombro do jornaleiro. protegida por uma cruz de quem sabe que a vida é sofrimento – o tempo nada trouxe de novo. tudo parece igual para os que trabalham – para a história fica apenas o pintor e o seu comedor de feijões –
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26/01/2012

generatividade / estagnação





 annibale carracci




o cadáver acontece – sem palavra. insignificante. inofensivo. imóvel. inocente. indiferente – tudo está agora escuro – onde não há palavra não há ruído – as mãos deixaram de escrever. estão cruzadas. a imaginação parou. fixa num ponto inventado. o verbo é agora pretérito perfeito misturado com silêncio – no fato preto a cor da minha vida – os olhos fechados. a cor da gravata não sei. nem sei quem a escolheu. pode ter sido tirada à sorte daquela última gaveta do guarda-vestidos. sei que o nó é grosso. apertado. bem apertado. estranho. há uma falta de ar dentro de mim. deve ser das tábuas. estão tão juntas aos cotovelos – a boca fechada. presa nos lábios. a cola – colaram-me os lábios. obrigaram-me ao silêncio. agora nunca mais posso dizer olá – sem palavra não sirvo para nada. nem vento sou. nem gaivota. nem desespero. nem lágrima. só choro quando falo – será que alguém teve medo que eu dissesse alguma coisa desagradável. talvez um amigo daqueles que sabem que há palavras que matam mais do que a morte – passei a vida a dizer que não sabia falar. mas assim. fechada. com cola – nunca imaginei que a morte consistisse nesta falta de palavra – sempre me vi em gestos. era assim que falava. os braços para trás e para a frente. a correrem como loucos. os olhos caídos no chão como piões rodavam entre as pernas também elas desconsoladas por nunca saberem o caminho do corpo. e a boca sempre ali. morta por dizer o que nunca sabia dizer. só na cabeça as palavras faziam sentido. e dentro. a língua. as papilas gustativas. sempre a salivar por um verbo de amor – só com o meu amor os beijos eram palavras. podia dizer amo-te sem gastar palavras – que faço sem boca? que faço vestido de preto? que faço ao corpo velho. enrugado. triste. como sempre foi. perdido. escondido em projectos. em esboços. viagens? nunca saía de dentro do meu corpo – abram-me a boca. deixem entrar o ar mesmo que esteja frio. morto. mesmo que nos côncavos olhos já não se veja os lugares onde me sentei a sorrir. aquela rocha voltada para o mar. na póvoa. onde pela primeira vez falei com as gaivotas – que dia. o céu cinza. o mar cinza. tudo estava cinza. os pescadores em terra cosiam as redes. em silêncio. era agosto – e eu ali com um agosto jovem. ainda não sabia nada de oceanos. só mais tarde descobri que o mar lava a alma – sozinho. nem ninfa se via. só eu e as gaivotas. voavam-me em círculos por cima do corpo. como abutres. já sabiam que mais tarde ou mais cedo a boca seria a minha morte – não é uma questão de falar para vós. aqui já não tenho mais nada para dizer. mas para onde vou. podem perguntar donde venho. o que fiz. ou o que gostaria de ter feito – pensando bem também não sei donde venho. nem o que fiz. ou o que gostaria de ter feito – há tanta coisa dentro de mim que nunca fui capaz de escolher. hoje queria uma coisa. amanhã outra – talvez não precise da boca. talvez tenha dito tudo que é permitido a um homem preso a um corpo que nunca pára de estar quieto – não sei falar – mesmo com a boca fechada não tenho silêncio dentro de mim. nunca tive. há sempre alguém a fazer barulho. sempre alguém a querer dizer: tu não és tu – se eu nunca sou eu então para que quero viver? – não há forma de manter o corpo dentro da cabeça e rebolar até aos pés dos que me percebem – preciso de silêncio – isto de se ser cadáver em vida é complicado – quero morrer



20/01/2012

então até já





van gogh




tempo moderno. no homem a máquina e na máquina o homem – os antepassados não compreenderiam. eu. também passado. ou quase .compreendo porque ouço vozes a dizer: está tudo bem. correu tudo bem. a pedra foi dinamitada – raios de pedra. implodiu dentro de um eu onde moram outros eus: a família. os amigos. os abraços. os cumprimentos. e aqueles que do simples bom dia fazem ressuscitar o tempo dos bisavós – bom dia era unicamente educação – pum. momentaneamente deitamos as mãos aos ouvidos. a implosão é sempre uma explosão nos tímpanos sentimentais – ouvi dizer que os ouvidos estão presos ao coração por lágrimas que ainda não foram choradas – mas não. o barulho era enganador. traumas do que ouvimos noutras vidas – por aqui é festa. é garrafa de dom pérignom. explodiu de alegria enquanto do céu caem mil confeitos. com mil  cores. há quem diga que são lágrimas secas. outros. com mais fé. dizem que são sorrisos de quem o espera no passeio da foz – ainda há mar para ver



19/01/2012

vasco graça moura







nó cego, o regresso



(...)
 

XVII

como meter o mundo
num poema? traduzir-lhe
a áspera realidade, a doçura
intranquila?


como meter o trabalho
dos homens, os seus dias,
nessas escassas linhas,
seus ócios, seus espelhos,


seus desvarios, suas
catástrofes de amor?
como meter a morte
nas palavras?


só que uma coisa bela
é para sempre uma alegria inquieta.

(...)


11/01/2012

mors omni aetate communis est





théodore géricault




o mar traz no cimo das ondas gaivotas loucas. todas loucas. até aquele cinzenta que vive dentro do meu único pulmão capaz de transformar a desordem em confiança – este pulmão comprei-o a um fidalgo que viaja dentro do corpo desde o dia que descobri sofrimento que nunca iria compreender – é um homem importante. diferente. alto. distinto. elegante. usa cartola. luvas de pelica. um lenço branco recortado cai-lhe do bolso do casaco negro de caxemira. emparelha com a camisa branca. engomada e de pura seda. na extremidade das mangas uns botões de punho em ouro com caveiras encastradas. no dedo anelar um anel igual. enorme. com a mesma caveira em alto relevo. serve para encerrar as cartas confidenciais com lacre da vida que consome. nunca percebi para quem escreve. talvez um familiar a viver nalgum local remoto que eu ainda desconheça – caminha amarrado a uma bengala que serve apenas para marcar os passos. sempre certos. ritmados. como se de música se tratasse. talvez marcha militar. nem depressa nem devagar. as pernas andam apenas porque andam. movimento de quem nunca está parado em local nenhum. imagino que anda para não estar parado. talvez não goste de nenhuma parte do corpo que o alberga. ou então movimenta-se para o ajudar a manter as costas direitas. sempre perpendiculares ao sentido de tudo que me passa pela cabeça. como os pêndulos dos relógios que preenchem paredes vazias de tempo que anda mesmo sem ponteiros. os sapatos. ah. os sapatos de atacadores brilham. não sei se são novos ou engraxados. mas brilham. brilham como nada do que tenho brilha. brilham como os olhos dos meus amigos. brilham como as mãos dos que me cumprimentam. brilham como os castiçais que seguram velas que teimam em manter acesso o que já morreu. brilham como as palavras escritas nas paredes em que me encosto para descansar os pés que me suportam – este cavalheiro. importante continuo a pensar eu. anda sempre de um lado para o outro. um dia aqui. outro ali. mas sempre a sugar o ar que desinteressadamente entra pela boca aos gritos – este “gentlemen” creio que deve ser de descendência britânica. nunca se atrasa. àquela hora ali está. batendo ritmadamente a sua bengala num órgão qualquer – agora percebo que a dor não me pertence. nem a vida – um dia faço alguma coisa que não goste e zás. pancada final – acredito que é para isso que vive dentro do meu único pulmão – um dia. irritado. diz: o tempo acabou –


* a morte não poupa ninguém — mors omni aetate communis est



20/12/2011

natal 2011





                                                              jacopo bassano




brevemente partirei para dentro da minha família. amigos e companheiros da arte da literatura - esta é uma quadra de recolha. meditação e agradecimento pela vivência de muitas coisas belas que a vida graciosamente me permitiu apreciar - sendo assim. feliz. voltarei em 2012 com a esperança renovada de que o novo ano será ainda melhor para mim e para todos aqueles que estimo

aos meus amigos e leitores desejo-lhes um feliz natal e um ano novo cheio de sucessos pessoais

abraço



14/12/2011

cadáver procura-se





jackie k. seo




as mãos. outrora possantes. crentes na imortalidade atrofiaram. enroscaram-se em volta dos pulsos – são agora escadas em caracol para chegar ao inferno – subiram. subiram. subiram. degrau atrás de degrau até que um dia. envelhecidas pelo tempo suicidaram-se no silêncio do corpo – maldito corpo que pariu umas mãos assim. maldito belzebu. maldita língua. se soubesses ao menos dizer o meu nome. talvez ainda fosse a tempo de colar a cabeça a outro corpo – aproveitava os olhos. os ouvidos. a boca. o sabor dos dias nebulosos. das maças da porta da loja. da espiga vermelha. o casaco aos retalhos. os sapatos de verniz com aquela fivela dourada. o pente que arrastava o cabelo para trás do nada. o old spice a fingir o ar do mar – aproveitava tudo menos o coração – era então outro – sempre disse que este coração haveria de me levar á morte



13/12/2011

o meu corpo é um lugar de silêncio





lucian freud




é no mar que submerjo nas noites em que não me encontro. e no silêncio descanso – um dia entregarei os olhos a uma estrela-do-mar. uma que por viver tão fundo nunca soube o que era um raio de sol – não os entrego por não querer ver mais. não. sou cego desde que nasci – nunca me vi por fora. só por dentro tenho uma vaga ideia dos corpos que me ocupam – talvez haja dentro do meu corpo um buraco que não tem fundo. onde outros corpos entram porque têm de entrar. e depois. saem porque têm de sair – acredito que não encontrem nada que os faça ficar mais um pouco. nem mesmo como caixeiros viajantes eles param. um banho retemperador. uma refeição. um bom sono para reaver energias e pela manhã. com as primeiras nesgas de luz. arrumar a mala e partir para uma nova etapa de sobrevivência – muitas vezes dou comigo a imaginar que os corpos são paridos em silêncio. num qualquer pedaço do meu corpo que ainda desconheço – loucura. só pode ser. às vezes imagino coisas que não lembra ao diabo – sempre tive corpos a entrar e a sair – estranho.  entram e saem e nem uma palavra – nunca percebi a razão porque atravessam o meu corpo como se fossem donos da minha intimidade – atravessam – atravessam como os patos selvagens atravessam o céu à procura de terras refúgio. terras quentes. terras de abrigo – atravessam em formação. como se juntos fossem um seta gigante a indicar: é ali que vamos ser felizes – acredito que também estes corpos silenciosos atravessem o meu corpo para atalhar caminho. para se acercarem mais depressa de outros corpos. mais quentes. mais abrigados. mais protegidos. mais espaçosos. mais luminosos. corpos onde finalmente podem ser felizes – o meu  corpo  nunca foi grande. sempre me senti acanhado dentro dele. imagino sempre tanta coisa. e quero guardar tudo. quinquilharias que só eu vejo como tesouros – no passado dizia-se que tudo trazia saber. em cada velharia havia vida. o conhecimento assente em pequenos lingotes de tempo partiam de boca em boca. terra em terra. até que um tolo de ouvido tísico. ávido de saber. escrevia em papel a alma de uma nação: o seu povo em estado puro – também eu quero guardar tudo. quero fazer parte desta nação virada para o infinito do mar. destemida. louca. arrojada. altruísta. solidária. crente que a sua robustez de nação secular advém do acreditar. a força vem das dificuldades. quanto maior. mais ao ouvido os tambores marcam a marcha: contra os canhões. marchar. marchar – sempre marchei em dificuldades convencido de que estas trariam corpos com vozes para dentro de mim. mentira – ninguém ouve o silêncio – o silêncio traz sempre mais silêncio. silêncio dor. faca. mutilação. até que um dia damos conta que já não respeitamos o corpo que suporta todos os corpos. todas as portas. todos os buracos que abro para ter a certeza que na hora da morte não sou comida dos corvos – morte. morte. morte em silêncio. como velho. como trapo. como pó insignificante – nunca sei nada. e quero ainda saber tanto – tudo me ocupa espaço. aquela história de que o saber não ocupa lugar é a maior mentira que inventaram até hoje. uma mentira de um aldrabão. de um estúpido perdido do seu próprio corpo. um destes vultos que gosta de atalhar caminho pelos corpos. um preguiçoso – as saudades de mim são imensas. dos calções curtos. da bola. do pião. da carica. do calor das noites de verão. e dos invernos onde os cobertores da serra. de lã pura. agasalhavam os males da geada branca que cobria os campos. das memórias – com os pés encostados a uma botija de areia quente. rezava ao meu anjo da guarda. pedia-lhe perdão pelas faltas que não cometia e prometia-lhe que jamais voltaria a ouvir um palavrão. respeitaria os meus pais e os mais velhos. sempre. iria à missa. e nunca faltaria a uma aula de catequese. comungando todos os domingos a palavra do senhor – amém – acabava sempre com um pedido a deus. se por acaso me levasse durante a noite que eu partisse sem pecado. e no paraíso me esperasse o descanso eterno – estou cansado. a idade não pára de avançar e  o coração já não encontra espaço para bater com precisão no meio de tantos corpos – triste e cansado. e os corpos sempre a passar calados. cada vez em maior número. e com mais silêncio. já arrastam os pés – ingratos. nunca foram capazes de pronunciar um obrigado por os deixar passar pelo meu corpo sem os questionar uma única vez – não adianta. sempre foi assim. sempre usaram o meu corpo de passagem e entre mim e eles há apenas tempo. tempo feito a relógio – passam. passam uns dias mais devagar. outros. mais depressa. e eu sem nunca saber o que  fazer – olho-os. e percebo que os olhos estão costurados. passajados a linha de seda embebida em cera para resistir ao tempo. a boca cerrada por um cadeado forte. e nos ouvidos restos de folhas dos lusíadas – numa das pontas ainda se pode ler – adamastor –  talvez estes corpos sejam adamastores zangados com o rumo que dei à minha vida



12/12/2011

de nihilo nihil






                                             peter paul rubens – ressurreição






distinguir estes frios não me é possível. há uma ordem nas palavras que não domino: dor. saudade. alegria. recordação. amor. amizade. abraço. lágrima. compreensão. bondade. resignação – tudo se alimenta da carne da minha carne – e os olhos tremem


*de nihilo nihil – nada vem do nada – lucrécio



11/12/2011

Sabes, Pai - jorge reis-sá









sabes, pai

o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol


ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada


nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava



10/12/2011

cogitações - I









escrevo o que penso em cada momento e a cada momento penso em escrever



08/12/2011

notícia de última hora





maluda




a notícia presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de novo – – fresquinha. acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – – e o pobre do homem. com sorrisos guardados na algibeira para oferecer aos compradores ávidos de saber virgem – este vulto. cria a sua vida num círculo geométrico imperfeito. perfeito só o seu crânio circular. tão perfeito que era capaz de jurar que tinha sido feito a compasso – dentro deste círculo. bem arranjado porque precisa de vender. uns olhos circulares enormes. enfeitados por duas orelhas circulares ainda mais enormes e uma boca circular. aberta é um buraco escuro. um futuro perdido de palavras que nunca foram pronunciadas – todos estes círculos estão seguros a um tronco rectangular. contraste no mundo circular. cai na vertical e só a boca sorri na horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. roda. roda como as bailarinas dentro de caixas. e dança com a música apanhada nas orelhas rotatórias – sacode os braços. e as notícias perdidas no tempo. transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhares do mundo exterior sem geometria. desbotadas pela luz. fora de moda. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o vento perdido dos braços – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali: editada. estampada. estendida. estatelada. prenha de uma primeira página virada para o infinito – vaidosa pelo tamanho da letra diz: sou notícia. sou nova vida depois de já ter sido outra – vendida em quiosques circulares. sem princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo o que já foi possuído como se ainda houvesse assunto por desvirginar. e o rompimento do hímen feito por um par de mãos violentas a desfolhar notícias e as pontas dos dedos manchadas de tinta preta – despontam as pontas das revistas e estas a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se em galanteios que mais parecem valsas dançadas em salões nobres de um qualquer czar que se deixou fotografar na intimidade para uma revista da fofoquice – talvez desta vez sempre partam pelo mundo. talvez encontrem uns olhos que as adoptem para sempre ou um sorriso fique gravado no corpo que lhe deu nova vida – dentro deste círculo geométrico imperfeito há um escuro que não vem do luto. é o prédio. está de fronte ao sol. apareceu de um dia para o outro – talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são verdadeiras e os homens que as vendem serão finalmente livres e os outros. aqueles que passam a correr é que não existem – todas as notícias são circulares como a vida. e até o tempo aos poucos ficou também ele circular. ponho e reponho a vida gasta dos outros em dias que se repetem. prendo-a por molas a arames que nunca substituo. estão comigo desde o primeiro dia. esticados em tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor. sorriso ou esperança. agora bombeiam a meio. estão cansados do peso da vida que já não suportam. dia após dia. ano após ano – um dia vou ter que os substituir. terá que ser um dia especial. tenho que estar forte. não posso perder mais nada do que preenche a minha vida circular. só me restam estes arames e as chaves que amarram a noite aos cadeados que fecha o círculo – estou vivo. vivo de notícias feitas em rotações de uma terra que não sabe que entre si e o cosmos há um eixo no meu imaginário. recto. e eu erecto. aprumado por uma bissectriz louca que trespassa o centro do círculo. acaba enterrada na terra onde guardo toda a esperança perdida pela vida que não vivi: – – bom dia. o jornal notícias e a bola. – – são dois euros por favor – – perdoem-me mas… “Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo”*

* citação de fernando pessoa



07/12/2011

o concerto - tchaikovsky










                 - o corpo descansa na mesma almofada da alma -



retalhos – número de série 07122011s(r)ego01





rené magritte




um dia destes. quando o sol nascer do outro lado do meu meio corpo. estarei de costas para este meio dia que enxergo    há um descompasso de meio dia dentro do meu meio corpo: meio coração. meio batimento cardíaco. meio litro de sangue e meia lata de lágrimas guardadas para um aperto afectivo. um pé de meia de quem sabe que a vida é feita de meias verdades – talvez seja um problema giratório. rotação – meio. meio dia. e  uma multidão horrorizada abala do meio dia que albergo para outro meio que ainda não sei onde é – ouço bach. só a música traz a vida por inteiro até ao meu meio corpo –  e eu sem saber a qual meio dia darei a alma por inteiro – escreverei até descobrir



06/12/2011

hoje










hoje estou assim: dentro de mim há um abraço ainda por dar a todos aqueles de quem gosto – gosto assim como o filme da minha vida me ensinou a gostar – gosto como gosto das flores. do sol. dos carros guiados por gente que não conheço. da mãe que empurra o carrinho do bebé. da avó que corre atrás do neto. do esfarrapado que teima em vestir a roupa limpa. das bolas de sabão perdidas das mãos de um criança no seu primeiro dia de escola. das nuvens. do mar. das minhas gaivotas livres enfeitadas pelo sal da vida. gosto sem saber muito bem definir o que devo gostar num dia como o de hoje – gosto da amizade – é desta varanda que vejo o que quero ver. e hoje quero ver todos aqueles que me fazem acreditar que a vida tem momentos que são um paraíso



05/12/2011

esotérico





Onik Sahakian




dentro de mim há cada vez menos de mim. estou a ausentar-me – há momentos em que já não existo. não estou. não estou para nada – gosto desta palavra nada. sempre que a uso fico invisível. não me reconheço. e não reconheço os outros. talvez os outros me vejam. talvez identifiquem a minha face. a minha voz. os meus olhos. até aqueles gestos que se repetem por serem tão meus. pretérito – epilepsia emocional. espasmos. contracção involuntária dos músculos. dos olhos. da boca. da mente. resta o adn – o adn tem uma particularidade única. reproduz com elegância a sinopse do seu corpo. mesmo quando o seu dono está ausente –  predominam os tiques. a boca a pender para o lado. as mãos transpiram. os olhos piscam mais de três vezes e depois aquela maneira de inclinar o corpo como quem vai cair. talvez até morrer a qualquer momento – e os outros dizem: é ele. e eu digo: não sou eu porque eu nunca deixaria os olhos fecharem-se. ou a língua parar. eu gosto dos músculos da face exaltados e do corpo firme. tão firme como as árvores que se amarram ao chão com raízes que não sei onde param – não reconheço ninguém porque não me reconheço a mim – aceno. sorrio. pulo. faço o pino. estendo a mão para um cumprimento de circunstância entremeado com  duas dúzias de palavrões. e digo: prazer em conhecê-lo e. num ápice. torno-me parte do mundo. sou igual. porque ninguém sabe o que penso – quando penso. invisível ao mundo. das ruas apinhadas de gente. dos carros. dos relógios nas torres da igreja a bater por gente que já não é. das crianças com fome de sapatos desfeitos de subirem sempre a mesma rua sem pão. dos mendigos. dos sem-abrigo. dos infelizes de todos o infelizes. deste mundo cruel. tudo isto é uma sala de espelhos onde o corpo gira ao tempo das imagens. umas vezes sou alto. outras baixo. outras apareço aos ésses. com as mãos no chão. e depois ainda há aquele outro espelho que divide o corpo em dois: do lago esquerdo a cabeça e do lado direito o corpo distorcido da realidade – sou muitos e não sou nenhum. os espelhos são donos de tudo. não tenho forma de descobrir a verdade do corpo. teria que partir todos os espelhos. e quando se parte um espelho são sete anos de azar – talvez já não tenha tempo para gastar o tempo todo. isto para não dizer que azarento como sou o mais certo era partir à primeira o espelho onde o corpo é aquele que tem a memória – estilhaçado. perco tudo. os nomes que gosto e os que não gosto. as vozes que me adormecem e as que amarram à noite ouvindo ventos que correm pelas brechas mais exíguas da memória. e até a minha gaivota cinzenta pararia de voar. não haveria espaço dentro de mim para voltar a abrir as asas – talvez um dia possa fazer dos vidros estilhaçados um novo eu – em vidrinhos 



02/12/2011

Poema numa esquina de Paris - António Gedeão





Louis Hayet




Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.

Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:

DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE LA RESISTANCE.
VIVE LA FRANCE.



27/11/2011

teoria de um troglodita





                                                                      van gogh




uma porta aberta e o outono a fazer vento – não estou aqui. nem eu nem aquele outro que mora dentro das pálpebras fechadas – tudo pode acabar a qualquer momento – tenho as palavras caídas num chão que não voltarei a pisar. é o meu tapete de trapos – trapos!? onde é que eu fui buscar esta ideia? não fui eu. foi o outro. idiota como sempre – estou de pernas para o ar e ninguém vê – e as sombras continuam a dançar nas paredes da caverna






24/11/2011

Saramago - Definição de filho









"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder?! Como? Não é nosso, recordam-se?! Foi apenas um empréstimo".



19/11/2011

Ruy Belo - Os pássaros nascem na ponta das árvores









As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração



08/11/2011

perfume





lucian freud




gastas o tempo a não ser. dizes: são palavras senhores – nem atena foi feliz e tu perdida no saber do que nunca foste capaz de aprender - cultura - será que sabes escrever: fui barriga prenha – és cruz para quem do meio das tuas pernas caiu – parir é dor. criar é amor e tu envolta em canetas – nas fotos que guardam o passado: um pai. faz tranças num cabelo igual ao teu – e o vento já partiu da boca aberta de éolo – aguarda. todas as folhas ao teu lado partirão – e na face os primeiros sinais de outono. pau seco. despido. na pele a memória de uma virgindade perdida – e o belo a crescer – entre as pernas. resta agora o barulho das águas que se perderam. búzio com o primeiro choro – és mulher. ainda – e mãe?

[e tudo morreu nas entranhas. ao seu lado a placenta jaz imóvel. acabou de perder a sua única vida]



01/11/2011

teresa teixeira – sterea









“Às vezes, amigo, caem-me palavras líquidas dos olhos de te ler...”
sterea – 02.06.2011

comentário feito no meu texto “nunca acaba amiga”

 
como dizer-te que as tuas palavras sufocam – o ar desaparece. um nó feito de comoção aperta. e eu sem saber deslaçar esta aflição – na cabeça nascem atalhos que me levam para perto do que me dizes – há palavras que são eternas. e o corpo certifica para sempre o que é ser feliz – a cadeira ainda é a mesma desde aquele dia em que te li pela primeira vez. só o couro perdeu a cor. gastou-se na procura de um lugar seguro onde guardar as palavras que me deixas – escrever é bom – saber que me lês é especial – sempre que me escreves deixas-me cansado – fico sem saber o que fazer ao coração – deito as mãos ao peito e sei que ele bate das tuas palavras. sempre certo. ritmado pelos afectos de quem gosta de ler o que as palavras escondem – e o pensamento sem nada dizer. perdido nas entre linhas da vida que deixas tombar sobre o papel. feito de bondade – as estrelas brilham mesmo quando não há noite – o tempo é a tua alma. fez-te palavra – resta a memória – o que seria dos homens sem memória. sem nomes. sem lugares. sem abraços. sem bondade. há rostos que não se podem esquecer. momentos – momentos escritos são para sempre – memória – e leio e releio e o corpo ali. aqui. acolá. os olhos parados em sorrisos. eternos – não há força que desocupe o tempo quando dizes que as palavras são feitas para abraçar. e eu a agigantar-me ao mundo. a acreditar que o passado nos teus olhos é esperança. até a dor termina quando sorri pela vontade de te dizer: obrigado. obrigado por me fazeres feliz. obrigado por me ajudares a escrever. obrigado por me ajudares a ver o caminho. certo pelas palavras com que me abraças – memória – o que seria dos homens sem memória – há um outro tempo na tua escrita desigual. mulher-abraço. mulher-doce. mulher-dor. mulher-esperança. mulher-futuro. e uma mulher-mulher capaz de escolher a bondade. estender as mãos à vida. à amizade – e eu deste lado a ouvir o que escreves – ouço palavras como se fossem ditas ao ouvido. e o nó aperta. sufoca. e o ar foge. e a dor de estar feliz aqui dentro a dizer-te: doce memória. bendita memória – e abro mais um texto. e lá vens tu devagar. em silêncio é primavera. pelas rosas brancas – as amendoeiras sempre dão flor. todo o ano. o fruto pendurado em palavras que não acabam – e lembro vinhas do douro a correr rio. é outono. à lareira chama-se o inverno. largam-se as palavras. frias. à sombra do que arde. é quando a tristeza volta às noites longas. aqui o tempo parou. para sempre – e eu estou no meio de palavras-bondade. palavras-mel. palavras-saber – memória – quando escreves há em ti palavras que me apertam e só a dor. em sorrisos. me faz lembrar que sou mortal – quanta bondade. quanta ternura. quanta beleza há nesses olhos que sabem ler estas minhas palavras tortas. loucas. perdidas no tempo que imaginava só meu. pela incompreensão de nem eu as entender – e eu ali a contar pedras no chão. juntava-as com o arrastar das pernas de um lado para o outro. uma a uma. até fazer um muro que nunca mais me deixou ver para outro lado. um muro de vergonha. um muro apenas atravessado pelo som que anunciava a partida dos sorrisos. em bocas que nunca souberam dar um beijo – um beijo teresa. um beijo na face que já não tinha lado – não há lados para aqueles usam palavras para acarinhar. para dizer gosto – gosto porque gosto. porque é quente. é verão. porque é frio. é inverno. e no teu tempo inventas outro tempo. o tempo do que é desigual pela força de um outro tempo. feito à força de nunca veres o erro nos outros – sou erro. mas depois de te ler. volto a ser apenas eu. desigual sim. mas eu. assim como sou em cada palavra que escrevo feita memória – tu nasceste com essa grandeza de saber ler as palavras com abraços. e depois. escreves essas coisas que me fazem ver novamente o tempo como se hoje fosse o primeiro segundo de um dia que nunca tive. um tempo novo onde o erro ainda não tinha nascido – memória – e os muros voltam a cair. as pernas voltam a fazer cair as pedras para lá das nuvens onde vivem os arrependimentos que nunca consegui escrever. linhas em branco. imagino eu – não podes. nunca mais. fazer destas coisas teresa. estou sem ar e as palavras respiram com dificuldade e não tenho forma de te dizer obrigado. sem ter de que parar a meio para voltar a ganhar fôlego – estou cansado. estou cansado mas feliz. por ainda conseguir dizer-te obrigado. obrigado por manteres a memória como um abraço feito de palavras que não sei esquecer – obrigado teresa. até sempre



15/10/2011

ensaio para um dia de sol





j. rafael pintos lopez




olho
submeto-me ao dia de sol
a esplanada toma a cidade
óculos ray-ban
perna alçada
costas no chão
onde vivem todos as dores
pela frente
o sol e o “garçon”
reclamo atenção aos dois
pssssssssss
um café curto como o raio
de sol
o dia já vai longo
olho
os que não me olham
estamos todos ao mesmo
sol
finalmente o pedido
atiro-me ao café
preciso de um excitante
cafeína
com adoçante
tenho medo da diabetes
de seguida um raio de sol
este é meu
escolhi-o
pelo sorriso
pela luz
é vida
olho
nestes dias só sei olhar
estou fora do corpo
da roupa
da intelectualidade
dos óculos graduados
há quem pense por aqui
livros abertos
jornais enormes
revistas cor-de-rosa
todos menos eu
a diferença
mais uma vez marginalizo-me
não sei ler com o sol
raios queimam palavras
olho
não faço nada
sinto umas dores
vivem por detrás
às costas do que vejo
é a vida
olho
para a frente
vento ameno
olhos frágeis
ao tempo
à idade
à cidade
para onde caem os sonhos
há sol em qualquer canto
nos hospitais, nos asilos, nos olhares
há sol onde há medo e morte
é a vida
olho
cimento
negro
desbotado
irritado
o cão matou o marido por ciúme
crime passional
dizem os jornais diários
gente que cuida do que vê
correm carros
correm pessoas
correm cafés
só mendigos mantêm a qualidade de vida
olho
é a vida
olho
é verão
corre o “garçon”
corre o copo
com água pelas bordas
mais uma
e é o fim
da gota
mas é de equilíbrios o “garçon”
equilibra o copo
o sorriso
no ouvido
o francês com sotaque
da porta da casa:
“un café très rapide”
de seguida o lisboeta:
uma bica curta se faz favor
está com pressa
diz a boca
no olhar
no gesto
o suor
é a vida
e os olhos
dos clientes
extasiados
seguram o copo como se fosse o mundo
talvez seja
afinal somos feitos de água
e da água não há medos
só quando os sorrisos se afogam
no tempo
no próximo mês
depois das férias
perdem-se de todos os raios de sol
e há tantos pelas ruas
perdidos
no calor
abandonam-nos
partem para “vacances”
é a vida
olho
e os candeeiros estáticos
agarrados às placas de trânsito
sentidos obrigatórios
obrigações impostas
rotundas que não os deixam circular
e o polícia vestido de pistola
acena com a mão para dizer:
mais rápido
mas estamos de férias
o país está de férias
as matrículas amarelas estão de férias
temos que andar mais rápido
é a vida
olho
o sol cai
a água do copo não
cai a cidade
não cai o “garçon”
caem os óculos ray-ban
não caem os olhos leitores
cai o descanso
não cai a vida
ergo as costas
desdobro as pernas
levanto o corpo
olho a cidade
está morta
escura
vivos só eu e o garçon
tudo o resto fugiu
de escuro ou de medo
aproxima-se uma nuvem
talvez chova
e eu sem guarda-chuva
talvez fique aqui para amanhã
a cidade voltará com o sol
e o “garçon” também



11/10/2011

vou começar um grito com: era uma vez





                                                   gottfried helnwein




sem saber o que trazia dentro da pele. nasci – com a primeira palmada o primeiro grito. de vida. arreliei-me – o peito encheu. o corpo inchou e. em protesto. gritei – gritei alto – foi aí que apreendi a gritar. não a chorar. a gritar – grito por tudo e por nada. de tanto gritar já ninguém distingue os gritos de revolta – noite. sempre noite – vou criar um novo grito para matar os silêncios das noites que não acabam – vou começar um grito com: era uma vez – ter um grito com história. um príncipe encantado. montado num cavalo branco com asas de gaivota. apaixonado encontra a princesa mais bela de todo o universo. mais bela que a branca de neve. e os gritos mais altos nascerão ainda mais dentro da pele. quebrando todos os sapatos de vidro. todas as abóboras que fazem carruagens encantadas de ilusão e todas as ratazanas são agora homens mentirosos que inventam finais felizes num mundo intolerante para os sentimentos. sem som – malditos ruídos silenciosos – quero um grito apocalíptico. um grito que faça estalar todos os tímpanos da terra. quero um grito que envenene todas as maçãs podres do paraíso que nunca conheci – grito. tudo o que ninguém ouve. que me disforma a boca. os lábios. a língua. as cordas vocais e distorço a forma. rebolo. entrelaço os pés pelas mãos. arranho. arranco os cabelos. os ouvidos. o cérebro. o coração e por fim os pulmões. para tirar a respiração ao próprio ar – grito pelo castigo que deus me deu: saber-me – sempre soube – um dia vou cortar os pulsos e os gritos serão sangue aos pés de todos os surdos –



10/10/2011

amadíssimo





                                                                   mário cesariny




alguém me dá uma ajuda a encontrar o meu nada - isto que me está a acontecer não é nada bom - há nadas por tudo quanto é nada e não consigo reconhecer o meu - possivelmente anda por aí misturado com os vossos nadas



04/10/2011

nos ouvidos a faca





lucian freud




foto:

em cima de um banco de pedra a faca sangra. ao seu lado a língua jaz


reconheci a faca. usava-a sempre que não podia falar. com esta cortava a língua junto às cordas vocais. guardando-a depois no bolso da conversa de surdos – anémico pela repetição constante dos sons fónicos caía em silêncio – assassinado o ruído. entorpecia o tempo até que o sangue estancasse a morte – ali ficava. adormecido pelas ninfas da morte. ouvia os cânticos da vida dos felizes no reflexo da lâmina que polida e brilhante projectava imagens de gente que nunca cheguei a conhecer – o melhor era fingir que já não estava vivo. enganar o chamamento da morte por mais um dia. levar os sons a uma nova vida. dobrar o cabo das tormentas no fio da lâmina – as pestanas apodreceram. caíram perdidas no desejo de não ter mais surdos a meu lado – só eu sei que ainda não estou morto. só meus ouvidos morreram entre amigos – eram exclusivos estes amigos. eram meus: dizia a faca. muitos. chegados de todos os lados – sou apenas um. quase morto. sem olhos. a um pequeno nada de cegar – aninho-me. deixo o corpo entrar dentro do meu outro corpo. protejo-me – para trás ficavam as mãos amarradas à cabeça. os olhos quase mortos anunciam outras mortes à gargalhada – todos estaremos mortos. mais cedo ou mais tarde – enterrado entre o braço e antebraço a vergonha de ver o que nunca devia ter visto. apontava com o dedo indicador para dentro de mim: culpado – não havia piedade naqueles corpos. vaidosos. arrogantes. pretensiosos. presunçosos. elitistas. racistas e anormais de profissão – por fim parava o sangue com um garrote feito de coisas que ouvia. sem valor. nas veias deixava de circular tudo que era revolta. suspendia a respiração. enroscava-me na posição fetal e hibernava até a memória esquecer a existência dos pequenos nadas – ali ficava dia após dia – e a primavera chegou com palavras