.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

22/03/2017

lobo antunes em braga – livraria centésima página II






foto google



dezembro de 2012 – chove copiosamente na minha cidade. braga. mais propriamente na sua sala de visitas. avenida central – estou agora na livraria centésima página e tenho a honra de vos anunciar de que o antónio lobo antunes é muito mais bonito ao vivo do que nas contracapas dos seus livros –

entrou na livraria assim como um cowboy entra no saloon. passo certo. acelerado. ritmado. sem desviar os olhos do infindável destino: uma cadeira e uma mesa rasca decorada com uma garrafa de água – visita a minha cidade para uma sessão de autógrafos a propósito do seu novo romance: “não é meia-noite quem quer” – o silêncio foi-se arrumando pela sala conforme as cadeiras se ocupavam – os seus admiradores miravam-no de soslaio. como se tivessem pavor de olhar de frente o seu ídolo. talvez com receio de que a todo o momento ele perguntasse: -- está a olhar para onde amigo? toca a andar. desocupe-me o espaço – sempre foi de conhecimento público o seu mau feitio. coisa de nascença. sorrisos só mesmo para o que lhe interessava. já nessa altura a sua mãe reclamava: -- só tens interesse pelas raparigas e pela escrita. ao qual lhe respondia: -- há mais alguma coisa? por isso não é de estranhar o seu afastamento seletivo do resto do mundo. nunca foi muito dado a intimidades com o seus leitores. para não falar da fama de aterrorizar os entrevistadores. como o próprio diz: “não [me] é fácil viver comigo” – sentado. inquieto. ajeitou o corpo. fletiu as pernas. atirou os olhos para o nada e ausentou-se do mundo que o rodeava. assim como quem diz: usem o meu corpo mas não abusem da minha paciência – estou convencido de que para lobo antunes a sala naquele momento encontrava-se vazia. presente só mesmo ele e os livros interrompidos nas prateleiras – e ali ficou sentado. a remoer o ossos. de um lado para outro. como se tivesse bichos carpinteiros. enquanto as mãos trabalhadas descansavam em cima da mesa. sabiam que a todo o momento eram obrigadas a dar início a mais uma palestra – o sr. antónio fala muito com as mãos – o momento era particular para mim. pela primeira vez tinha o autor em carne e osso ao pé de mim. nos livros já o tinha tido por perto muitas vezes. agora é diferente. agora posso senti-lo num único aroma – o momento não era fácil para mim. sentia-me nervoso. agitado. impaciente por ver o tempo passar sem que se desse início à cerimónia – não havia alternativa. tinha que aguentar firme. afinal este é um dia único. um dia  especial para os seus admiradores. até os livros interrompidos nas prateleiras me pareciam engalanados de atenções. bonitos. com as capas a reluzir. tudo edições raras e de autores consagrados. em destaque a nossa maior obra poética. os lusíadas. ao seu lado a sophia andresen. como era bonita esta mulher. só a sua escrita lhe ultrapassa os encantos. e logo de seguida o meu adorado júlio dinis. quantas vezes chorei nos seus livros. marcou-me a vida para sempre. ao seu lado o eça. sempre empoleirado no crime do padre amaro. que loucura de história. o júlio não podia ter melhor companhia. seguem-se os poemas do eugénio. na sua sensibilidade. como se pode dizer tanto com tão poucas palavras. e mais o camilo com aquele bigode inconfundível. e o saramago empoleirado no nobel. meu deus que loucura. que honra. olha! mais um que um dia vai dar que falar. o josé luís peixoto. gosto deste homem. já brilha. e tantos. tantos outros. aos magotes – dos estrangeiros não falo. afinal estamos na pátria de camões e não é todos os dias que uma pequena livraria recebe em sua casa um galardoado com o nobel latino – o cenário era nobre. gracioso. não podia ser melhor. o maior escritor português vivo rodeado de livros por todos os lados – escondi-me na segunda fila tentando passar a ideia de que estava por ali apenas pelo mau tempo. chovia. passava à porta e pensei: ai está um local agradável para me abrigar da intempérie. “voilá” – nunca gostei de estar na primeira fila – certo dia contaram-me uma história curiosa sobre a entrada em cena dos actores: dizem que quando sobem ao palco tentam perceber que tipo de público está na sua presença. dão dois passos em frente. dobram-se em vénia. e colocam os olhos na primeira fila. conforme levantam o corpo. em movimento lento. olham para as últimas três ou quatro filas. o que sobra é povo – aí está o dia perfeito para confirmar a teoria. espero bem que não me tenham aldrabado e que o sr. antónio me considere parte desse povo. sentei-me na segunda fila – abriu-se a sessão com a intervenção do responsável pela editora com amabilidades perfeitamente dispensáveis – mas o protocolo é para cumprir. felizmente logo perceberam que o melhor era entregar a palavra ao convidado – começou a roçar o corpo na cadeira de um lado para o outro enquanto as palavras começavam a sair a custo. um gaguejo tranquilo para ali e logo outro para acolá. depois. um silêncio que parecia uma eternidade. e tudo num vagar de assustar. e lá chegava outra palavra. outra ideia. e os fãs a baloiçar na entrega. e mais uma palavra. e mais um silêncio e as dúvidas a crescer na plateia: será que o homem quer mesmo falar para estes pacóvios? e o emudecimento a ganhar distancia. as palavras cada vez mais espaçadas – o silêncio crescia atabalhoadamente sendo apenas abafado pelo barulho da chuva no exterior. chove a cântaros na minha cidade – só não chovem palavras – por momentos fiquei convencido de que o autor iria sair como entrou: a galope e aos tiros para o ar. os cowboys são assim – não quis saber. e disse para mim mesmo. se não falar com a boca fico-lhe com os gestos. com os olhos. com os tiques. com a cor das mãos. da pele. afinal não é todos os dias que tenho o antónio lobo antunes na minha cidade – mas aos poucos as palavras começaram a cair-lhe da boca. como se descobrissem que estava na hora de tomar a plateia – e eu ali. estarrecido de medo. babado. doido para não perder uma única silaba. com a cabeça dobrada para a frente. todos queriam ser os primeiros a agarrar as palavras. e os olhos esbugalhados de tanta excitação e por dentro uma sensação de orgasmo. quente. com o coração a bater um tic tac explosivo. um contentamento estranho. louco. maravilhado. e a pergunta. porque não fiquei na primeira fila – e ali estava eu com o meu corpo estátua. completamente paralisado. perdido entre a imortalidade dos deuses e a gratidão eterna por existir aquele momento – só os olhos lhe acompanham as mãos. tudo o resto é paralisia. não se pode irritar os deuses – enquanto a chuva amainava as palavras caíam-lhe da boca em enxurrada. afinal havia uma razão para o mau tempo na minha cidade – finalmente tínhamos lobo antunes. o corpo atirou-se definitivamente para cima da mesa. estava agora ainda mais perto de mim e eu sem medo de o olhar naqueles olhos translúcidos. livres. bonitos. amenos. feitos de um silêncio-solidão-doce – só quem fala conhece o verdadeiro valor da palavra – os lábios sem descanso. falavam agora desconcertadamente. contorciam-se de prazer. numa cadência harmoniosa. com paixão. com gosto. com ternura. com entrega. agradecidos ao momento – a vida é feita de momentos. alguns ficam guardados para sempre. outros. nunca se fazem palavra – e não se cala. e a voz em inflexões subtis alerta: deitem atenção que esta parte é importante. e os afetos finalmente ali. ali à minha frente. a tocarem-me por dentro. e pela primeira vez senti um sofrimento que dói mas não é dor. é um desconforto feliz. uma vontade de chorar por não lhe poder dizer: eu já senti isso. eu já passei por isso. eu já fui assim. eu já quis escrever isso. afinal também é um de nós – e eu pensei que era extraterrestre – finalmente senti um silêncio bom. pacato. sereno. a plateia em ar de graça entregou-se ao autor sem medo – havia uma espécie de bonança. a tempestade perdeu toda a sua força e os sorrisos do autor estavam sem dono. eu guardei um só para mim – é enorme a porra deste homem e eu ali de braços cruzados. a olhar para tudo que é dele.. com um ar sério-doce. sério-aceitação. sério-bondade. sério-fraternal. amigo. camarada. sério-triste também.  até o casaco estava triste. pingado. amarrotado. talvez da vida. não sei. que mais poderia fazer pingar um casaco de um homem tão especial. não creio que não tivesse outro casaco. acredito é que todos os casacos quando lhe caem nos ombros ficam pingados. possivelmente pelo peso das palavras que transporta com ele  

[tenho o sentimento de que neste texto ainda falta mais um prego. enorme. capaz de segurar o prosista]



brevemente a parte III


deambulações noturnas XV






foto - sampaio rego



e pronto. passei a noite toda a remexer nas memórias - mas o mais cruel é que nada do que encontrei foi possível alterar - não percebo para que guardo tanta tralha - vou ter que me limpar. custe o que custar - mas confesso que não sei por onde





21/03/2017

espelhos





kit king e corey oda popp






úlceras estrábicas separam
palavras

lentes de aumento
arremessam os amigos.
palavras pequenas
juram os outros.
ao espelho
onde a luz se segura
em cristais.
uns e outros
decifram o mal

o espelho inventado pela imagem
gira tudo que se lhe apronta.
meus amigos leem de pé;
os outros.
de pernas para o ar







20/03/2017

dia do pai










em memória tenho o meu primeiro desejo como adolescente - ser pai - na altura não compreendi muito bem de onde me tinha chegado aquele sentimento - passei então muito tempo sem compreender e também confesso sem lhe atribuir grande importância - fui então pai muito novo e assim pensei ter colocado um ponto final neste assunto - hoje. passado mais este meu dia e do meu pai. a memória voltou e em forma de prenda trouxe-me de novo esse sentimento iluminado e a sua resposta - muitas vezes precisamos envelhecer para conquistar a sabedoria natural do mundo - os meus filhos são a única razão da minha vida. não houve um único dia da sua vida que me fizessem não ser grato à sua mãe pela sua existência - são a minha grande afirmação na vida e a única que me orgulha - são homens fantásticos. bons. leais. honrados. são homens de família e determinados a enaltecer a justiça dos comportamentos - tenho a certeza de que serão eles também bons pais – tê-los neste dia juntos voltou a lembrar-me que ser pai é para sempre – foi um grande momento de alegria e de agradecimento ao destino – já não sou um homem de muita fé mas se realmente houver esse deus que um dia acreditei. se estiver enganado. que me perdoe. mas não se esqueça de mos proteger




14/03/2017

lobo antunes em braga – livraria centésima página I






imagem - google


I.
na hora da conclusão do trabalho nunca pode faltar martelo e prego – o mestre ganha distância da obra. fecha um olho. inclina a cabeça para um lado. mira. de seguida repete o gesto para o lado oposto. mira novamente. arreguila os olhos. finca os pés. aponta o prego. ajusta os dedos em pressão. atira o braço para trás. ganha balanço e espaço e… zás. duas marteladas certeiras e a consciência em paz: venha daí um terramoto que daqui não abala para mais lado nenhum – sou livro. agora e para sempre – acredito que o antónio lobo antunes nos retoques finais dos seus livros  também sinta necessidade de pregar sempre mais um prego – se o antónio fosse engraxador daria aquele remate final de lustro: aquele movimento de arvorar o pano tingido de graxa. ora vai para um lado. ora vai para o outro. ora mais depressa. ora mais devagar para aniquilar o bacilo anti brilho. e agora um movimento circular. e o pano a enrodilhar-se num círculo cada vez mais estreito e tudo de volta ao começo com as mãos a puxar o pano para um lado e para o outro e nos intervalos deste vai e vem  um lance de génio e o pano a subir em diagonal. como se fosse uma montanha russa e de seguida uma queda abrupta. em força. e o barulho do pano a estalar no couro. trás. trás. trás – nos olhos um prazer que nunca percebi de onde vinha se do movimento enérgico do braço ou do barulho do pano a estatelar-se no brilho do sapato – o que seria do brilho do sapato sem aquele estalar do couro – e no final. quando os pés se acercavam do chão os olhos afundavam-se nos sapatos. lindos. como se voltassem a novos. quase jurava que me via no seu reflexo – mas o antónio diz que é um carpinteiro e sendo assim. só pode mesmo cravar uns pregos para ter a certeza de que a sua obra ficará para a eternidade – no caso do sr. antónio. que é um escritor enorme. do tamanho de uma biblioteca. creio que lhe baste um pequeníssimo prego. uma taxinha finíssima. quase invisível para ter a certeza. mais uma vez. de que a sua obra perdurará para todo o sempre – este homem é especial. ele não escreve. ele entrega-nos as palavras ao ouvido. como se estivesse a falar apenas para nós – como explicar – assim tipo uma conversa tu cá. tu lá. de braço dado. num tom de voz tão sereno que mais se aprece um sussurro entre amigos de cangosta – e o eco das palavras a percorrer o ouvido como uma delicadeza fascinante. e o corpo arrepiado com tanta amabilidade. mel. graciosidade e por dentro uma sensação de conforto. de aconchego. a fazer bem. a dar luz a umas quantas incoerências –  e repete. e repete. e repete. e o ouvido sempre à procura de mais delicadeza. de mais conforto. de mais tranquilidade. com uma  atenção que desconhecia para as palavras escritas. e a repetição no ouvido sem parar a embalar o corpo para uma paz que me aperta com carinho – sou um apaixonado pelas crónicas do sr. antónio. para cada um dos seus textos. um milhão de perguntas por lhe fazer: como se lembrou de escrever essa coisa? – o sr. antónio diz que foi por dinheiro. a pedido de um jornal. e que até nem lhe tinha grande amor – bendito jornal – eu amo as suas crónicas. fazem-me bem. distraem-me. fico assim um pouco como a sua tia velhota que quando lhe perguntavam porque não tinha TV lhe respondia: quando fecho os olhos vejo tanta coisa – poi eu estou igual. quando fecho o seu livro de crónicas também passo a ver tanta coisa – mas quando caio em mim novamente sou invadido por uma realidade danada – levo um soco no ego. caio para o lado atordoado. e à cabeça o raio de uma pergunta: não sei como tenho coragem de escrever



13/03/2017

medo




pintura híper realista - omar ortiz






se as mãos não me tremessem. talvez o medo nunca soubesse que existo – e quem sabe as palavras nasceriam mais íntegras. aos olhos dos que as leem


12/03/2017

há um dia em que despertamos e dizemos:




pintura - giovana santiago


II.


e aqui estou. completamente desacompanhado neste lençol que não quero que acabe. entrevado em razões que não consigo explicar – enrodilho-me. eu e o lençol numa cumplicidade platónica. amante. doce. num silêncio que não é mais do que o mundo sem humanos. sem erro. sem punição. sem preconceito e principalmente sem competição – eu destapo a alma. ele tapa-me o corpo. eu praguejo. ele dá-me serenidade. eu desisto. ele insiste na vida. eu esqueço-me de mim. ele lembra-me que a patranha só é contrariável quando permanecemos nos olhos do mundo – felizmente ainda sei que só este meu corpo magoado faz com que o lençol exista – acabou o gigantismo. não mais crescerei. matei a hormona. estrangulei-a. decapitei-a da ambição. fiz acontecer a morte a um corpo ainda a viver. finalmente – agora estou em desesperança num silêncio resignado. humilde. submisso. pesaroso. em forma de perdão à expectativa – com o tempo todas as lembranças se apagarão. a fé toma a dimensão da realidade e a aceitação da desfortuna será apenas um lamento baixinho: esperávamos mais – nesse dia restará apenas o nome. somente um nome singelo. sem imagem. sem boca. sem gestos. sem confiança. será apenas lápide – será no desconhecido que encontrão a totalidade de mim – revolvo-me mais uma vez e peço compaixão. peço uma horinha rápida. estou prenho da morte. prometo ao desconhecido que não volto a reencarnar e aceitarei o inferno como destino para a minha última morada –contorço-me. eu e o lençol. agoniamo-nos. amarguramo-nos. torturamo-nos. enquanto o lamento. em desespero. pede à boca para pedir perdão em voz que se faça ouvir pelo mundo – as mãos furibundas enrodilham o cérebro com o que resta de apego à vontade de viver retirando-lhes o desvario para a eutanásia – e viro-me para um lado. depois para outro. e mais outro e o amanhecer sem acerto. e viro-me outra vez e nada dá certo. nem eu nem o lençol cada vez mais amarrotado – afinal tudo estava errado e a saliva a cair-me pelo canto da boca encharca o travesseiro de um excremento pegajoso que só pode ser arrependimento – tudo tão real. tudo tão perfeito na imperfeição – era capaz de jurar que estou a sonhar. mas não estou. sei que as mãos tremem. os pés destilam ira num lençol gelado por não me aceitarem num branco que não é branco nem tem cor. enquanto os buracos das persianas projetam na parede as duas faces da vida: um quadriculado de luz e sombra – e eu preso por detrás de uma parede que não me serve nem para pendurar um quadro do meu passado – raio de penumbra cruel – escondo-me de mim e ofereço à miséria as mãos encaixotadas de um nada que me mata o afecto – e a contagem sem acerto possível. o deve e o haver paralisados de tragédia enquanto os olhos se contorcem entre sorrisos e lágrimas – olho para o relógio e assisto a um infindável movimento dos ponteiros. lento por não ter os segundos a correr – relógio que não dá horas não alerta do destino – espero um dia acordar e dizer: não me enganas mais com promessas. não me enganas com nada. nem que me  ofereças um ramo de flores com o perfume de um poema de herberto – “eu sou uma vida com furibunda melancolia, com furibunda concepção” – para a frente já quase nada. tudo lento. para trás. tudo feito numa amálgama de coisas que mais parece um abraço de apertos – e por aqui fico em partes do tempo que não compreendo e não sei explicar – se me pudesse explicar seria um de vocês


05/03/2017

há um dia em que despertamos e dizemos:




pintura - rafael pintos




I.

um dia em que despertamos e dizemos: já tive o bastante desta vida – e ali ficamos enrodilhados. num estado vegetal. meio a dormir. meio acordado. acomodado em lençol que já não é branco nem tem cor. nem é comprido. nem curto o suficiente para me acabar com esta pré-existência para a vida – revolvo-me no lençol e enrodilho-me comigo – recuso-me a abrir os olhos – sinto aquele pano enorme por inteiro. não sei a origem do tecido nem como foi feito. sei que me começa nos pés. depois. depois sobe até me esconder do insuportável. escorado numa moral categórica: o que está errado. errado está – as leis científicas são universais. enquanto as leis da moral são unicamente do meu lençol. um lençol bipolar. extremado. inflexível. às vezes leve porque me deixa levitar acima do que na realidade sou – revolvo-me. o lençol também. arrasta-se comigo de um lado para o outro. numa transparência que me permite rever com crueldade o que teimosamente quero esconder de mim – há coisas que não param de doer. nem com o tempo – gostava de perder este apego ao mundo. juro. juro que gostava – obrigava-me então a dormir sem roupa. sem nada que me revestisse o corpo de uma pele que não é minha. uma pele que se fez diabólica. cruel. desumana porque se está nas tintas para as teorias de kant – é um lençol. como direi. é um lençol que me cobre do mundo e me destapa de mim – debaixo dele sou solidão dorida. sou um eu fragilizado. agrilhoado a silêncio cruel – enrodilho-me então mais uma vez e auto-comunico. protesto. bato-me pela razão. enraiveço. juro justiça. vingança. sou cru. mau. bárbaro e de dedo em riste ameaço. julgo e condeno – é esta a forma de perdão que encontrei para dar repouso à moral kantiana: agir de acordo com a minha vontade para que as minhas ações se transformem válidas para todos – sei agora que a perfeição não existe. o ótimo é inimigo do bom – nem sou ótimo. nem bom. sou uma equação com um número interminável de soluções aproximadas – corre-me então um suor estranho pelo corpo. que não se apega a nada. esguio. desvairado. como se quisesse fugir da pele. assim como quem vai dizendo em forma de alerta: cuidado. o pior ainda está por aí a chegar – talvez este suor nojento saiba algum segredo do meu interior profundo. talvez – há dias em que despertamos e dizemos: já tive o bastante desta vida – desperto. não abro os olhos. estão inchados. enquanto o cabelo se arrepia em direção ao céu. os fantasmas não o largam. cara amarrotada de insónias. mau hálito. boca empalhada de fel. e aquele cheiro a putrefação dos sonhos mortos. mortos aos milhares. degolados. privados para sempre da ilusão – nenhum homem consegue sobreviver sem sonhos. nenhum homem – por cada volta nos lençóis mais um pedaço da vida para experienciar. em voltas que nada mudam e que magoam cada vez mais numa tortura que atormenta mais do que chicote – e o corpo a dobrar numa moral que me foi vendida como elixir de sucesso – mas não. o mundo mudou e eu também. estou mais antigo. mais sem forças. agora há mais um joelho a dobrar. e depois dobro o corpo. de seguida chegam as mãos com o peito e por último os olhos. tristes. apagados. agonizados. desocupados. a teimar com a luz. encovam-se numa omissão de meter medo. dissimulam-se em morte. impingem-se ao escuro numa graça de quem sabe que a morte é feita apenas de ausência – na escuridão é sempre mais difícil demonstrar que o corpo ainda quer viver – enrodilho-me noutra volta. uma perna no passado enquanto a outra pede caminho. pede angústia. dor. mutilação. só caminhando se faz passado – todo o meu futuro se faz de um presente que não controlo – revolvo-me. por cada volta chega a certeza que já nada existe dentro de mim que valha a pena acreditar. a fé morreu primeiro do que o corpo – resta-me um desejo carrasco de me desapegar da vida –
.
parte II - em breve



02/03/2017

vergonha




imagem - google





neste mundo de ravinas
meus olhos caem por terra
uns dizem que é vergonha
a poesia diz-me que não:
é apenas meu cajado
bicando sobras de quem passa



14/02/2017

sou




lucian freud




sou
sou
sou
mesmo contra vossa vontade sou
não sou este
o que desse palanque cogitais
sou aquele
aquele que daqui
deste meu reservatório
de ideias sou
sou assim
duro como pedra
mole como os pensamentos
tramados pelas mãos
sou
sou
sou
sou convencido no que sou
sou até um qualquer
sempre que quero
e quando não quero
também sou
hoje. por acaso. sou um ruído com olhos castanhos
vejo todos os sons com um sou
um sou único
talvez um sou com som
um que se ouve a si
para dizer
assim serei
com o meu som eu sou
sou
sou
sou
sou de um tamanho que já não existe
presente para o mundo
dos que nada são
sou afinal um sou só
só porque sou teimoso
para não ser um sou dos outros
sou meu
sou do meu sou
talvez louco. sim talvez
mas sou
sou






08/02/2017

epitáfio




pintura de michael borremans


onde o descanso não existe tudo permanece imutável – aceito então o dia tal e qual como o faço aparecer – a mágoa de ver a minha humanidade morrer já não é agonia nem aflição. é um atalho para a liberdade – a liberdade para o espírito também é possível ocorrer com o armagedon – “como direi. uma liberdade absoluta”. largada em voo de borboleta. num vagar feito de pressa. em voltas cegas de fantasia onde o daqui para acolá se torna uma dimensão impossível de medir no tempo – o momento cruel – a realidade só existe no agora – tudo que verdadeiramente existe em mim são campos inesgotáveis de malmequeres alinhados numa mestria ortodoxa. perfeita e objetiva – uma simbologia improrrogável a determinar com aspereza: culpado. condenado à pena de morte por asfixia – já não sou capaz de imaginar o impossível – espero numa espera que desespera – o dia seguinte será feito de um ventinho miudinho. fininho. gélido e ininterrupto – os corpos na hora da morte perdem calor – finalmente a tempestade perfeita imortalizará definitivamente a casa das utopias: morte também por asfixia – tudo que foi vida ficará reduzido a segundos de lembrança resolvidos numa nova contagem de tempo – mais de vinte mil dias resumidos à diferença entre o nascimento e a hora da morte – um sorriso para norte e uma pausa para o nada. em câmera lenta. e tudo tão real. tão cruel. e o punhal escondido por detrás de um coração que arrefeceu para pedra. sem sangue. sem raiva e sem esperança também. tudo isto numa alma que nunca se cansou de ser humana num mundo tantas vezes desumano – nem sempre a graciosidade nos enxerga como entendemos merecer – só o erro faz dos humanos mais humanos – como direi. uma liberdade absurda e absoluta só existe depois da morte – aqui estou prostrado. sem vos poder dizer nada de uma mágoa que já não quero compreender – sim. aceito para o bem ou para os malmequeres tombados ao pé da urna onde os resto mortais abraçarão o eterno do nada – partirei sozinho. se não há deus em vida também não há deus depois da vida – serão então as minhas virtude a trazer à lembrança uma saudade feita para a perfeição que acabou extinta por culpa da imperfeição – é noite. melhor. agora é sempre noite e o cérebro deseja o que o corpo que já não sabe fazer existir – alucinação – a celebração da morte não é utopia.  é liberdade perfeita – finalmente a aceitação do corpo tal e qual como o fabriquei – serei então um momento absoluto. prostrado horizontalmente num infinito de demónios soltos ao destino da imensidão esquecida onde a metáfora da despedida se faz com um: até sempre




06/01/2017

quebra-costas




foto - sampaio rego



coimbra - faz já algum tempo que passei por esta rua – quebra-costas - mas é hoje que me sinto com as costas quebradas -  fosse apenas as costas e o voltaren injetável resolvia isto de uma penada - mas não é - esta humidade vai acabar comigo - sinto as palavras cada vez mais empapadas - salva-me a leitura das memórias das minhas putas tristes do gabriel garcía márquez




03/01/2017

deambulações noturnas XIV




giovana santiago




terceiro dia de janeiro - apesar do dia vos parecer triste não se esqueçam de me levar no vosso sorriso




31/12/2016

mande este ano para o covil de satanás – feliz 2017




foto - sampaio rego





e este raio do 2016 está finalmente em estado terminal – sou contra a eutanásia caso contrário à muito tempo que já lhe tinha deitado as mãos ao pescoço – para ser verdadeiro vos digo que este ano não me deixa grandes recordações. foi péssimo – resta-me a saúde de ferro que não se cansa de resistir aos anos – mas o caricato é que tenho a certeza de que o guardarei em memória até ao fim dos meus dias. tortura – só guardamos o que nos marca – positivamente. os que são mesmo especiais por motivos que muitas vezes a razão desconhece – negativamente. os que nos magoaram ou tiveram a crueldade de alterar o que aquilatávamos como certo e afinal era apenas fantasia – recordo com saudade uma passagem de ano passada na traseira de uma  toyota hiace com mais dois amigos e o brinde feito com champanhe do mais rasco. juramos felicidade para sempre – a juventude é inocente – recordo-me também de um fim de ano num hotel com a minha família. tinha eu os meus dezasseis anos – disse mal da minha vida e jurei que nunca mais entrava num ano novo com tanta etiqueta marica – lembro-me de outro em que passei o ano em viagem de automóvel e comemorei duas vezes o réveillon . em espanha o ano novo chega sempre mais tarde uma hora – troquei votos de felicidade com a minha maria joão – felizes com tão pouco – ficou também em  memória a primeira passagem de ano sem o meu pai. foi muito difícil – a saudade não me larga nestes dias. um pai é para sempre – e assim foi passando ano após ano até chegar a este triste e energúmeno ano de 2016 – estou-lhe com um raiva que já não o posso ver mais – acreditem. não vou festejar a chegado do novo ano porque acredito que pouco ou nada vai mudar – vou festejar com muito regozijo a partida do 2016 – se realmente há um deus nos confins do céu que não venha com desculpas de que se tem que perdoar o que é imperdoável – que se deixe de tretas e me mande este ano para o covil de satanás e o deixe a afoguear nas labaredas do inferno para sempre – feliz ano novo para todos os meus amigos e familiares – obrigado por estarem comigo


23/12/2016

23 de dezembro de 2016





foto - sampaio rego




parabéns meu amor – e ás doze badaladas entramos no teu dia de taça na mão – primeiro foi o silêncio. depois estendemos os olhos um ao outro. e por fim. tocamo-nos num beijo branco – ali ficamos num abraço que não queríamos terminar – estávamos felizes. por instantes o que sobrava do mundo deixou de existir – e o abraço cada vez mais apertado – erguemos as taças e aceitamos o destino com um sorriso que também é paz – eu disse que te amava e tu disseste-me que me amavas ainda mais e juras-te eternidade ao nosso amor prometendo continuar a enlaçar as mãos até que deus nos queira sorrir – e ali ficamos num silêncio coberto de lágrimas que não nos magoou por ser só nosso – há tanto de nós que não pode ser partilhado – és tão bonita meu deus. e eu sem saber onde deitar o teu corpo nestes braços cada vez mais entrevados  – perdoa-me meu amor por tudo em que falhei – eu deveria saber escrever muitas mais palavras. mas não sei – não sei tanta coisa – mas sei que te amo até ao infinito dos meus dias  


16/12/2016

15/12/2016

vou. por ali vou





pintura híper realista - fábio magalhães




vou – lá vou eu a deambular pelos caminhos da noite. sozinho. como sempre. só assim sou capaz de me encontrar com a realidade crua da escuridão silenciosa – e lá vou eu passo a passo para dentro da justeza das memórias  – caminhar no passado é quase sempre uma crueldade – vou. em passo certo vou. vou pela noite adentro. sem receio. sem cuidado. sem defesa – na noite só a verdade emerge. os fantasmas deixam de ser fantasmas. a ilusão esmorece com vergonha e os sonhos. finalmente. adormecem de cansaço – também eles necessitam de sossegar. não é fácil viver atrás de devaneios  – vou. vou tão louco hoje como ontem – vou. vou tal e qual como sou. vou à procura de outras vidas que são estrelas no céu – vou. vou saudade. vou dentro de mim. vou de mãos nos bolsos. vou envelhecido. vou num assobio que se desvanece num tempo que já não mereço – vou. vou com o corpo como posso. vou contra um vento que me alimpa a face do que me sobra em pesar – vou. vou de rua em rua. e em cada esquina uma marca de que por ali passei sem nada saber do destino fadado – vou. vou porque preciso de ir – é urgente ir – só a verdade elimina o medo da morte