.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

18/09/2017

o homem só cresce em silêncio




francisco sousa



tenho a certeza de que é sábado apesar dos raios de sol me parecerem diferentes daqueles que me abordaram há oito dias – há nestes raios de sol um calor desigual. menos envolvente. menos sedutor. mais divergente. egoísta. em total contramão com o ideal de todos diferentes. todos iguais – este sol acordou num formato de apatia discriminatória. mais seletivo. só aquece o que quer. elitista. sem equidade. sem passar cartão. diria. xenófobo – sinto o corpo a tremer. a pele pálida. enquanto os ossos engastalhados seguram. em dificuldade. as mãos a pedir um novo desafio – a vontade de escrever está cada vez mais intrincada. o sol. hoje. não aquece – os pés rasos fogem do corpo a sete pés. enquanto este. em esforço. não para de os importunar – já compreendi que não adianta fugir do que o destino emparelhou – como disse. sinto o corpo diferente. assim como se me fosse desconhecido. estranho. sem nome próprio. marginal se fosse uns sapatos diria que eram novos. novos em folha. a estrear no mundo dos caminhantes. nas primeiras passadas. vaidosos por ostentar uns calcantes a inaugurar caminho. acontecem os primeiros obstáculos: duas belíssimas bolhas nos calcanhares. vermelhas como um pôr-do-sol escaldante. zangadas. obrigam o corpo a caminhar tombado para o lado do desespero – o primeiro sinal de que não há caminhos sem compromisso – tudo que é novo tem que ser aprovado pelo corpo. primeiro desconfia. rejeita. com o tempo tolera. suporta. admite com condições e finalmente. com o tempo. adapta-se ao molde ou obriga o molde a adaptar-se a ele – sei apenas que esta sensação de calor. de quentura. agora mais abrasamento. talvez aconteça para me fazer perceber que não há dois dias iguais – vivo este sábado como se fosse o primeiro da minha vida. com medo – com a idade vamos querendo ver morrer algumas partes do corpo de que não gostamos. já não achamos piada ao molde. queremos parti-lo. esborracha-lo. esmagá-lo e esconder os cacos do mundo – é sábado. o sol apanha-me de frente. forte. a expulsar as sombras para norte enquanto o passado. incrédulo. não sabe como se abrigar da luz fujo sem sair de dentro de mim o silêncio perde-se nos raios de sol. coloco-me de lado. de perfil não existo. estou meio escondido e o outro meio é apenas mistério – só meio corpo apanha uns quantos raios de sol – excesso de luz faz mal à saúde. envaidecemo-nos e deixamo-nos encandear. cegamos com os olhos abertos – tudo que é em demasia acaba por fazer mal – não sei muito bem decifrar este calor. um calor-fogo que não é explicável. talvez transpiração. aflição. talvez premonição. talvez uma maloqueira que ultimamente não consigo tirar dos meus delírios – estou no meu velório e não sei como dizer ao cangalheiro que me leve com urgência para o crematório – as obséquias deixam qualquer morto à beira de um ataque de nervos – já não há paciência para tanta merdice sentimental – em boa verdade. o que se aproveita de estar morto é o silêncio – apesar deste descanso eterno me confortar preocupa-me não ver ninguém a chorar devo ter tido uma vida de merda – não deixo saudades a ninguém – mas também estou a ser ridículo. enquanto estive vivo nunca me preocupei com estas coisas do choro e agora porque estou morto sinto falta – razão tinha a minha mãe quando dizia que a velhice é ingrata. o que não fazes de novo dificilmente farás em velho – se tivesse feito um pé-de-meia de amigos de peito teria hoje ao meu pé uns quantos em lágrimas – não fiz. agora nada feito. o que não tem remédio. remediado está – sou muito pateta. afinal sempre soube que seria assim nunca fui capaz de fazer amigos de conveniência – não quis viver em mentira para morrer em verdade – deveria ter deixado ordens para que me contratassem uma dúzia de carpideiras. não umas quaisquer.  umas com provas dadas em velórios complicados – evitar vergonhas à família é fundamental – talvez seja melhor assim. sempre gostei do silêncio. o homem só cresce verdadeiramente em silêncio mas a realidade agora é outra. depois de morto já nada cresce. que se dane. afinal estou morto – o melhor mesmo é continuar neste meu choro interior. este choro que é só meu. mereço-o. mesmo que ninguém o ouça – sou digno deste silêncio – as pessoas entram todas esbatidas pelo velório adentro. com ar de quem sofre. mas mal se começam a aproximar do defunto deitam os olhos ao chão. fazem o sinal da cruz e pernas para que te quero – para algumas criaturas acredito que esta fuga não é por mal. não lidam bem com a morte e não gostam de gente que já não respira – mas para outras alminhas a questão é diferente.  têm medo que o defunto lhes pergunte: que raio está tu aqui a fazer? e elas a fingir que são surdas. a assobiar para o lado enquanto percorrem os bolsos à procura de um lenço que nunca assoou nada – mas também não consigo encontrar explicação para terem estes medos. afinal de contas o morto nunca as tratou mal em vida não seria no velório que lhes pediria satisfações – mesmo que me apeteça não posso chorar. não posso mesmo. pode entrar alguém que não me conheça bem. só os amigos me viram chorar. não é depois de morto que vou dar esse prazer a quem não me conhece – um homem não deve chorar em frente a desconhecidos nem que esteja com as tripas na mão – é sábado. está sol. talvez este calor que desconheço me tenha assolado a moleirinha. talvez não esteja a bater bem dos carretos.  talvez… talvez tanta coisa – aos sábados costumo estar sempre mais morto do que vivo – para todos os efeitos ainda não estou morto. estou a escrever e nenhum morto é capaz de escrever – escrever só mesmo os moribundos  


12/09/2017

reencontro




salvador dali



não era sem tempo – faz tempo que me perdi no vosso tempo. um que vocês inventaram para me fazerem perder um tempo que jamais recuperarei – hoje. estou no meu tempo. estou só. melhor. estou comigo – é bom estar comigo novamente



14/08/2017

viagem





r.b. kitaj




o tempo sorveu um corpo
a concupiscência
que albergou a sensualidade
é agora uma figura geométrica

o varão
outrora prazer
recumbiu-se
ao futuro



06/08/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*






adelino ângelo 






3. a morte terapêutica


nesta terceira parte a minha dissertação incide objetivamente nos benefícios da aplicação da morte terapêutica em mentes em avançado estado de instabilidade emocional – recorremos então a algumas boas praticas já experimentadas na morte assistida e transpomo-las para fórmula terapêutica – o que realmente torna interessante a aplicação desta morte é a possibilidade de fazer falecer apenas o que nos magoa – começamos por sedar a nossa existência. aliviamos a dor. manietamos o passado. silenciamo-lo. sitiamos a memória de longo prazo e introduzimos na memória recente doses de elevada esperança – obviamente que como em qualquer tratamento é necessário ter sempre em atenção as dosagens. foram muitos anos de sofrimento e o corpo pode reagir negativamente ao excesso de esperança – a solução é a prescrição de doses de baixo teor de felicidade. administradas sobre uma apertada vigilância – evitar recaídas é fundamental – ao passado é-lhe finalmente oferecido uma morte controlada. boa. honrada e sem dor – claro que é necessário escolher muito bem o que queremos realmente que faleça. não se pode fazer falecer o coração. nem os pulmões. nem o cérebro. nem  o que resta da vontade de viver – esta não é uma morte onde para falecer baste um pouco de coragem e uma bala no tambor. não. não é – esta morte. consiste em eliminar. silenciar ou simplesmente enclausurar. por um período de tempo estabelecido. uma determinada área do corpo. membro ou apenas um insignificante sentimento – tomar a decisão de eliminar o que quer que seja num corpo diminuído não é tarefa simples para o seu executor – não é fácil castigar um corpo quando o que resta de motivação é praticamente nada – o momento é de aflição para o carrasco – quando o corpo está doente a dor torna-se numa força incontrolável. os sentimentos desaparecem e automutilação toma posse do centro de comando cerebral – o pensamento está refém do desespero – selecionamos então um alvo no corpo que acreditamos estar possuído de um mal sem solução. desligamo-lo do suporte de vida libertando-o da teimosia de viver em agonia – aos poucos a memória de longo prazo começa a desprender-se das rotinas abandonando o corpo numa marcha de silêncio e paz – o silêncio. agora fúnebre. acompanha a saída das reminiscências numa viagem de aceitação. de perdão. sem castigo. sem remorso. sem medo que no dia seguinte o passado ressuscite num dedo apontado à covardia – entramos então em modo segurança extrema. sobreviver é a palavra de ordem – personalizamos o nosso próprio plano de recuperação e com a ajuda da esperança aplicamos o tratamento final da morte terapêutica – cortamos a mão que escreve. substituímos uma perna de carne e osso por uma de pau. sacrificamos a ambição. matamos um pouco da ternura. escondemos a paixão e doseamos para o máximo o caudal da amargura. ameaçamos o sorriso com uma faca de dois gumes e garantimos uma atenção especial ao corpo se este voltar a acreditar que ainda é possível refazer a vida – aproxima-se o momento das decisões. é fundamental eliminar o acessório e assim. permitir que a vontade de viver se projete num novo espaço temporal – eisntein dizia que “o tempo não é aquilo que parece. Não corre em uma única direção, e o futuro existe simultaneamente com o passado” – se o tempo não corre numa única direção então não há razão para ficarmos presos ao passado – para grandes males. grandes remédios. a solução passa por aplicar a estratégia de terra queimada. exterminar tudo que possa ser útil ao inimigo – um género de contrafogos que mais não é do que uma “contra-morte” – se o que arde não volta a arder também o que morre não volta a morrer – ficamos mais doentes quando olhamos mais para o passado do que para o caminho que ainda temos a percorrer – a angústia apenas consegue sobreviver se mantiver acorrentado a si o desanimo. a ansiedade e o medo – sobreviver é uma luta diária. um inferno. uma descarga elétrica contínua que nos amarra em cada dia do ano. não há férias. não há aniversários. não há natal. não há desculpa para nada. o que existe é apenas os dias marcados a negro no calendário  – um corpo depressivo não vive. sobrevive – o oposto da depressão não é a felicidade. é a vontade de querer viver. a força. a determinação. a procura da liberdade – nenhum homem é livre quando a dor lhe confisca todos os pensamentos – ninguém pode desvalorizar o silêncio de um homem tomado pela dor. o seu sofrimento é a sua impressão digital – este penar não se torna infernal apenas porque desacertadamente. ou não. optamos pelo caminho errado. recusamos ajuda médica ou dizemos não aos ansiolíticos – a dor nasce escondida no corpo. depois. depois começa a gatinhar. de seguida aprende a caminhar. em bicos de pés. com a graciosidade de uma bailarina. e o corpo gargalha com a subtileza com que vai amargando. o que era em bicos de pés são agora passos delicados. a fazer estrada desconhecida. lentamente. tão lentamente que o corpo se vai alterando. adaptando. moldando. até que chega um dia. sem que tenha dado conta. cada passo é um compasso entre caminhar ou apear – a dor já não engana.  multiplicou-se em amargura. em angústia. em revolta. em intolerância. arrestando o corpo num desequilíbrio irracional. doentio. falso. e por fim. como todos os impostores. promete-lhe um precipício libertador – o que cresceu como uma anormalidade dolorosa é agora uma normalidade consentida. aceite e autorizada a viver numa vergonha silenciosa – a dor já não é estranha. é intima. próxima. carne da sua carne. como se o tivesse acompanhado desde o útero de sua mãe – a manifestação externa do sofrimento só se torna audível ao fim de muitos e muitos anos de conflitualidade interpessoal – se por um lado todo o corpo dói. por outro. estas dores são a razão da sua teimosia em continuar com a vida – tudo que ocorre no nosso mundo solitário é feito de sofrimento. de interrogações. de dúvidas e de uma cabeça que não sabe descansar para tornar mais fácil o que quase sempre parece impossível – tudo acontece ao mesmo tempo e à mesma hora. o cérebro ora implode. ora explode e uma e outra parte sem entendimento. sem tréguas – o descanso não existe para quem faz do seu dia a dia um combate com as interrogações – acreditar que tudo tem uma razão para acontecer é a resistir. encontrar essa razão a causa de todos os problemas – infelizmente nem tudo tem uma razão. nem tudo pode ser explicado – claro que ainda haveria sempre o recurso a um charro terapêutico. umas quantas passas distribuídas pelos períodos mais críticos do dia como forma de aliviar as dores ou estimular o funcionamento dos órgãos sensoriais para novas formas de luta – mas não. esta maleita dolorosa está muito para além do charro. da pastilha ou de um sono mal aparelhado por uns quantos fantasmas erráticos – não. não é assim.  esta dor cresce com o pensamento e distrai-se com o sofrimento – todo o homem nasce com o entendimento natural de valores negativos e positivos e uns e outros lutam entre si em busca de uma pacificação natural entre o bem e o mal. o certo e o errado – infelizmente nem sempre esta biossíntese é adaptável às exigentes e naturais formas de vida que nos rodeiam – um dia. o corpo diz: basta. já não há razão que me faça ver outras razões. chegou a hora – usamos então todo o mal armazenado para um último momento e assim devolver definitivamente a liberdade ao corpo – o que dói na pele ou na carne é diferente do que dói no coração – há estradas que nunca nos levarão para lado nenhum – volto a repetir a frase do mia couto acrescentando-lhe um novo ponto final: “cada homem é uma raça” que respira para caminhar e sempre que caminha aumenta a estrada para mais perto do seu fim – a estrada não se escolhe. nasce connosco – cada homem tem a sua estrada para a morte



- a quarta parte do texto será dedicada à morte dolosa ou fraudulenta 
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros








24/07/2017

amo-te porque existes dentro de mim








apenas uma pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o casamento é um compromisso de amor entre duas pessoa que juram cuidarem-se até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo e da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noite que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinou a crescer numa cumplicidade graciosa – nunca mais parei de crescer. tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia. depois de o sol se esconder. os lençóis abriam-se em seda. os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos sempre compartidos – nunca tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia onde tudo começou e recapitulo o meu sim: sim. aceito esta mulher na alegria e na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca mais aquela igreja teve uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nosso filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias passaram a correr – o amor ensinou-nos a viver numa cumplicidade que também é aceitação – não me canso de te pedir perdão mesmo que na maior parte dos dias não ouças as minhas palavras – são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim




12/07/2017

deambulações noturnas XX




foto - sampaio rego




frequentemente o pensamento veste-se de mendigo – arrogante. o ego. só olha para os botões de ouro em camisa de seda – engano tremendo – muitas vezes. por baixo dos farrapos. existe a alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo literário



03/07/2017

no meu peito já não cabem gaivotas*




adelino ângelo



1.    a morte física ou da personalidade
a morte física de um corpo – declara-se o óbito quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e ausência completa de atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida apontando as possíveis causas da sua morte permitindo deste modo o desaparecimento do corpo para sempre do mundo sensível





2.    a morte emocional
aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa. menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre a passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio terrorista. consente o descarnamento da sua rede de neurónios. permitindo deste modo. que a sua intimidade seja exposta a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta – dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador perante o desconhecido – o corpo humano revela na plenitude total a sua fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença. esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no mais fundo dos silêncios que guarda em si – e ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe caiem dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com doses maciças de um químico afectivo. fertilizado no útero de uma mulher mais pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa desordem impossível de acalmar. enquanto por fora. a ressaca é feita de imagens que já não quer compreender – tudo o que compreende acaba a magoar – não se quer compreender os livros. a religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão porque se nasce ou porque se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço. um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo à dor enquanto e cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o mundo já não é mensagem –  já nada traz movimento. as mãos recusam brigar enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é um provocação ao destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora. correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo. sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia – não interessa. não interessa e não interessa – o corpo que morre emocionalmente ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próxima mas acima de tudo o amor por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração que não é mais do que uma viagem ao centro da dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa. acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. oferece a todos o que só pode dar a alguns – termino com uma frase do mia couto: “quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”

- a terceira parte do texto será dedicada à morte terapêutica
- *título extraído do livro de nuno camarneiro – no meu peito não cabem pássaros


11/06/2017

tratado simplificado de uma amizade magoada





caravaggio


1.

quando a desilusão se chama amigo – num tempo de interrogações amargurei. depois. em dificuldade. dei uma oportunidade à lucidez acabando esta por despontar num exercício prático de libertação do homem – nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro – não sendo guerreiro. mas em liberdade absoluta. resolvi então escrever um tratado simplificado de uma amizade magoada – bem sei que quem espera desespera. eu desesperei – mas as palavras acabaram por chegar no seu vagar. tal e qual como me foi chegando a vida cinzenta – tudo foi acontecendo numa demora estranha. tomada por uma nostalgia envelhecida ao tempo – dei então início à minha busca: encontrei-me nas origens. nas causas. nas motivações. na ambição. na imbecilidade e regressei ao ponto de encontro para poder chegar novamente ao desencontro – sei agora o que quero dizer numa escrita que desejo direita mesmo que a causa não me dignifique – perder um amigo é sempre uma culpa dividida – descobri a serenidade e despedi-me da alma para me encontrar mais de perto com a verdade. assumi a mortalidade e pedi a têmis que me ajudasse a derrotar o erro escrevendo a justeza numa consciência iluminada – encontrar a minha verdade decantada da imperfeição é fundamental – sei que será sempre uma verdade minha e que muito bem pode não ser a de mais ninguém – com o corpo em braços avaliar-me-ei pelo conhecimento num processo autocritico: colocar-me no centro da humanidade. avaliar escolhas. questionar processos. aceitar e compreender o erro. reconhecer a individualidade e por fim. com a verdade purificada. combater e derrotar a desilusão como uma das mais violentas formas de enfraquecimento e eliminação da estabilidade emocional – afinal tudo o que é desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada para um quarto vazio



2.

decompôs-me em segmentos finíssimos de lucidez. e à velocidade de uma bala alcanço o desencanto – corpo e mente aceitam a deceção num estado de alma de acolhimento cristão: perdoa-lhe que não sabe o que faz – estamos os dois perdoados. eu por te fazer existir num pedaço de terra que acabou desabitado. e tu por me trazeres enganado num abraço que acabou por nada abraçar – juro que não sabia que os abraços se perdiam como o vento – mas não há forma de nos esvairmos da condição humana que tragicamente carrega em si o erro. numa contagem de tempo sempre provisória – a imperfeição do homem é uma das razões da sua diversidade – sei agora que o corpo se me partiu em milésimos de segundos. onde estávamos juntos ficamos separados. marginalizamo-nos nas razões. as mãos desuniram-se violentamente. tu limpaste-as como pilatos. enquanto eu. em vergonha. as guardei para sempre na fundura dos bolsos – de seguida dividimos as palavras. tu recuperaste as tuas e eu quebrei as minhas para nunca mais as usar – há palavras que nunca deveriam ter nascido – ficamos os dois dentro de um quarto vazio. numa porta que se fechou quase sem fazer barulho – quando te virei as costas trouxe toda a raiva do mundo no corpo. explodi numa dor que me atravessou todos os anos da vida. num arrependimento alucinogénio. culpei o mundo. de seguida culpei as pessoas do meu mundo. depois a rua onde crescemos. o passeio onde jogamos à bola. o jogo da estátua. as caricas. e aquele candeeiro que se apagava sempre que lhe dávamos um pontapé –  eu é que deveria ter levado esse pontapé. afinal a minha casa ficava numa rua a descer mas eu sempre a quis subir. teimoso – a dor cortou-me os pulsos dias sem conta. e eu sem saber como estancar a raiva. e um murro na parede. e outro na mesa. e um ralhete a um deus que sempre me pareceu surdo – houve um tempo em que tu e eu acreditávamos nesse nosso deus. morava na mesma religião. na mesma pregação. na mesma prática do bem: “a lei de deus é justa e boa – “quem obedece à lei de deus faz o bem e ama as pessoas” – nós prometemos-lhe praticar o bem. amar as pessoas. não mentir e honrar os amigos – a humilhação serrava-me o corpo num barulho que me enlouquecia – tu não me honraste. mentiste-me com palavras que prometemos nunca usar – esqueceste-te do apalavrado com deus. esqueceste-te de mim e esqueceste-te de tudo que era meu – fiquei só. perdi-me do corpo. do que o meu pai me ensinou. da compaixão. do perdão. fiquei sem uma única palavra que me trouxesse de volta a casa – no corpo só cabia agora raiva e interrogações – o que fazer aos aniversários em que me desejaste muitos anos numa vida feliz? o que fazer aos natais sem aquele abraço-tradição? o que fazer ao teu número de telefone? o que dizer aos amigos? como viver apartados por um muro de cólera? – a amizade verdadeira é uma forma de amor incondicional – durante muito tempo andei desaparecido de mim. não me reconhecia. estranhava o corpo. os seus desejos. os medos e o que a memória desejava pela noite perdia-se na manhã – expulsar-te da minha humanidade não era tarefa fácil – magoei-me com tudo que tinha à mão. atirei-me para dentro de palavras que me torturassem até que a dor se tornasse numa raiva tão escura que nunca mais fosse possível encontrar-te pelo nome – mutilei-me com a confiança. sangrei honra. chorei humilhação. despedi-me da esperança e o que era amizade foi substituído por luto – quando um amigo nos morre nas mãos é para sempre – sempre amei os meus amigos – mas a tua morte resistia aos meus dias. nunca foi bom a mentir nem a matar a saudade: um café partilhado. uma conversa urbana. uma miúda cobiçada. um automóvel da mesma marca a caminho da tua casa. um nome geminado. e estas duplicações a dizerem-me que a tua partida foi um equivoco do tempo. uma noite mal dormida. um pesadelo horrendo depois de uma farra de copos – uma armadilha à amizade – quis acreditar que um guronzan e uma dietinha de arroz branco me devolveria novamente os dias como sempre foram – ao nascimento do sol recuperaria a luz da confiança. eu voltaria a aceitar-me tal e qual como sou. e tu tornavas a aparecer dentro daquele sorriso que nunca te deixou crescer – mas não. afinal o luto é muito mais que roupa negra. é o corpo negro. pisado. enraivecido numa acidez que me faz arder num inferno que não foi desejado por mim – não aguentei. atirei-te de um penhasco para o mar e nunca mais procurei o teu corpo – este meu luto durou um tempo que nunca quis aprender a contar – quanto mais tempo tivesses desaparecido mais prazo tinha para escapar do abismo – com os dias a passar tudo foi sendo substituído por silêncio. um silêncio que não é dor. não é raiva. não é azia. é uma saudade que nos enfeitiça e liberta serenamente. sem que nada possamos fazer. as memórias que obstinadamente escondemos – esta saudade dói. dói pela distância. dói porque os dois fomos um e agora somos ausência – não há forma de controlar esta saudade. simplesmente aparece. devagar devagarinho e o corpo tomado por um marasmo sereno. tranquilo. silencioso. sem arrependimento – à boca são roubadas todas as palavras que magoam. enquanto as mãos se espreguiçam delicadamente – é importante não amedrontar o dia seguinte – o tempo em silêncio assustou-as. envergonhadas esconderam-se no escuro dos bolsos que. em boa verdade. não as escondiam de nada – e o dia seguinte a exigir uma renovada aliança com a fé. as nuvens a correr para sul. sem pressa. enquanto um novo arco-íris adorna o céu num colorido de cores quentes – o sol rompe pelo corpo. as sombras estatelam-se no passado. e o coração retoma os batimentos numa alegria que é hino – beethoven – os olhos renovam-se. resplendecem em inesperados campos de flores: bem-me-quer. mal-me-quer. bem-me-quer e o vento a soprar de fininho. manso.  quente. de norte para sul. a envolver o erro numa carícia de indulto – o corpo recupera a inocência numa calmaria que já não anuncia mau tempo. finalmente – invadido por uma trégua delicada recuo ao passado. à pureza dos ideais. todos por um. um por todos. deito a cabeça a uma árvore. tapo os olhos. e conto até mais de cinquenta. depois. desenfreadamente. volto a correr pela vida. voltamos a jogar à bola. ao deita fora. e celebramos vitórias sem ganhar coisa nenhuma – sorrimos. somos puros. e o mundo também – para haver um mundo impuro é necessário haver gente impura – não havia. nesse tempo tudo era perfeito – juntamos a família às celebrações. os amigos também. festejamos o meu aniversário e de seguida o teu que acontecia sempre um dia depois do de meu pai – estamos em agosto. nunca senti frio em agosto. era um mês especial. não havia tristeza. nem solidão. nem saudade. nem medo. nem injustiça. nada. só havia sol. luz. muita luz e uma vontade enorme de a trazer para dentro do corpo – um dia o meu pai deixou de festejar a vida. e o agosto quase desapareceu. passaste a existir só tu num mês moribundo. mas também quiseste partir. deixaste de festejar a amizade e o agosto esfriou para sempre – eu gelei – juntei então tudo que era teu num dia depois de agosto. acrescentei-lhe os abraços. os sorrisos. as promessas. as juras. as palavras que nos tornaram amigos. os natais. principalmente aqueles em que me levavas a casa um abraço quente de verão. a tua bondade e aquela tua vontade única de partilhares a vida com afeição – nós amávamos o natal – prometo que este ano escreverei a verdadeira história do meu pai natal – quero guardar o melhor de ti – devo-te isso – há dividas que só se pagam com afetos – um homem grato faz o mundo muito mais bonito – nunca te deixei de ser agradecido nem mesmo no dia em que te atirei para o fim do mundo – o corpo ainda dói. sempre que o sol se esconde o corpo dói. e eu sem entender como lidar com uma dor que não quero que continue dor – e ali fico eu preso às horas da noite num emudecimento que me enlouquece – não é fácil perder o que se pensa ser eternal – o tempo passa e o teu corpo teima em reaparecer – aceitei o desafio – passaste a viver numa dimensão que não sabia existir: estás longe estando ao meu pé – és memória – reinventei para ti outro corpo. outros olhos. outros gestos. outro modo de andar e um outro sorriso. desocupei-te as mãos dos bolsos. tornei-os mais largos e mais fundos para te caber toda a cobiça do mundo. e dei-te um lugar na terra rodeado de gente por todos os lados – ficaste mais parecido com todos aqueles que não conheço. mais banal. menos divinizado. passaste a ser apenas mais um homem que envelhece no meu tempo – só os amigos não envelhecem –  tu envelheceste de um dia para o outro – afinal também já tens cabelos brancos. tens o corpo mais tombado para a frente. as unhas cada vez mais ruídas e o sorriso que te fazia criança está agora muito mais cansado. adulto. indiferente ao mundo. ao teu e ao meu – sem esse sorriso deixei de reconhecer aquele rapazinho franzino. magricela. sempre a correr desenfreadamente à frente da sua própria bicicleta. numa velocidade estonteante. louca. de um lado para o outro – só estavas bem onde não estavas – e assim ficaste para o resto da vida. sempre gostastes de estar em todo lado sem nunca estar em nenhum – escondi-te do erro. fingi que os amigos nunca falham e fui-te perdendo devagarinho para não me magoar – ultimamente já quase não falávamos. perdeste a fala. aprendeste a pisar. humilhar e fazias gosto em o mostrar – refugiei-me no tempo – quando gostamos de alguém somos capazes de jurar que o mundo não é redondo – perdeste a juventude. depois a inocência. as leis do teu deus. não faças aos outros o que não queres para ti. perdeste a coragem. as origens. escolhestes os mais fracos para te tornares mais forte. ficaste injusto. prepotente. cego. egocêntrico. interesseiro e vaidoso. mais vaidoso que a sé de braga – passaste a sentir-te bem com o mal dos outros – tu não eras assim – por mais de mais de mil vezes tentei dizer-te que estavas errado. que o sucesso não tem um só caminho – essa personagem magoava-me. avisei-te que mais tarde ou mais cedo a vida te iria cobrar. o teu deus não dorme – a justiça tarda. mas não falha não foi assim que te conheci – não me deste ouvidos. perdeste-os com a ambição e não foste capaz de tirar os olhos do papel e da montblanc – tiveste medo de me olhar nos olhos – desisti esperando. não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe – enganei-me. o tempo não te melhorou. pelo contrário. aprendeste a mentir sobre ti e sobretudo. sobre os outros – um homem mentiroso não vale nada – abandonei o diminutivo no teu nome e passei-te a chamar o que todos te chamam – eu também perdi o meu diminutivo – descobri que a vida é muitas vezes ingrata. aprendi a resignar-me. nem sempre as lutas nos levam à glória – mas também descobri que não te quero como inimigo. um amigo só necessita de um cantinho no coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo – não te darei o meu corpo. nasci sem inimigos e também morrerei sem eles – abri então uma porta que não dava para uma quarto vazio. deixei entrar o que sobreviveu de melhor dos dois. abracei-te com tudo o que me magoou. e chorei. chorei até que as lágrimas me enchessem as mãos de ti. expulsei-te da raiva e voltei à vida. fechei a porta. dois passos em frente. parei. e não voltei a olhar para trás – fui – jurei nunca mais te voltar a ver



3.

momentos de onde nunca te conseguirei apagar. momentos em que faria por ti tudo o que me pedisses – um homem honrado não pode esquecer o bem que lhe fizeram – não há dia nenhum que o esqueça – sempre te fui leal – e o que foi um caminho de afetos é agora um corpo encalhado numa pilha de palavras que não servem para te dizer quase nada – quando estou só já não sou capaz de falar contigo – aquele pedaço de terra desabitado perdeu a cor do céu. as gaivotas abrigaram-se do sal e as flores definharam com o pouco que restava da primavera. não resistiram à desilusão – gostava de lhes ter perguntado se a minha vida seria diferente se tivesse nascido noutra rua – não há uma única flor para me responder – morrerei sem saber – um homem quando perde os sonhos fica só. entranha-se no corpo à procura do que já não existe e acaba por se magoar com a ilusão de que ainda pode modificar o passado – não pode. por mais que volte a sonhar a história vai terminar sempre em dor  – o que está feito. feito está – há dois momentos que marcam a nossa vida. o primeiro ocorre com o nascimento. aparece sem que nada possamos fazer para o evitar. nascemos e pronto. toca a respirar para sobreviver – o segundo momento é aquele que se torna certo para quem tem a ousadia de nascer: a morte – não pode ser evitada mas pode ser dignificada. para isso basta que no dia da partida leves um sorriso na face – ainda há gente que o leva – procuro agora o meu sorriso. um que me recompense de todos os sonhos que não foi capaz de realizar – ainda não o encontrei mas sei que anda algures por este mundo – desencontrado? sim. culpa minha. creio eu – estou cansado. as noites esgotam-me. os olhos não fecham. deito-me em cima do corpo e ali fico de olhos abertos até que o cansaço me atire para a antecâmara da morte: o desespero – quero muito acreditar que há sempre uma razão maior para o que nos acontece de menos bom na vida – neste momento sobreviver é um desafio tremendo – sinto o corpo a pedir dignidade. estou sem fé e sem um único sorriso para me poder despedir – bato á porta do meu deus de criança e pergunto-lhe se ainda há lugar na sua cruz para crucificar uma amizade – não me responde. nunca me respondeu a coisa nenhuma – tento agora aceitar-me nesta infindável dor da perda – recebo em mim a inevitabilidade da desilusão e preparo o corpo para conhecer o seu último sorriso – o meu lugar está guardado no pedaço de terra desabitado



4.

ainda não te consegui perdoar. mas tento todos os dias – não sei se irei conseguir – creio que não. já não há tempo – envelheci