.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

17/01/2019

uma quinta-feira de 2019






pintura - dyanne



[o autocarro só passa uma vez à nossa porta]

depois de uma determinada idade perder o que quer que seja é um aborrecimento e. em meu entender. deve sempre merecer a nossa melhor atenção e reflexão. se essa perda se tratar de pessoas que prezamos – podemos perder a carteira por descuido. o cartão de crédito por tontice. o carro gamado por um meliante sem escrúpulos ou a pantufa para a boca do nosso fiel amigo – todas estas coisas se podem recuperar ou em último recurso redimensionar para baixo os danos da perda – é hábito dizer que só a morte não tem solução. e é verdade – mas há uma coisa que já não dá mais para perder. falo de amigos ou mesmo apenas de pessoas que estimávamos e que. com as suas diferenças. nos ajudavam a manter a nossa saúde mental e principalmente. lustram emocionalmente a nossa passagem terrena – o que seria de nós sem amigos – mas já todos perdemos um amigo. creio que são poucos aqueles que nunca tiveram uma desilusão com alguém que estimavam – eu não sou diferente. já perdi amigos e confesso-vos que não foi nada fácil – mas são estas perdas que nos fazem valorizar aquelas que resistem ao tempo. com diferenças. com brigas e com a nossa constante adaptação ao tempo que gastamos. o envelhecimento – como diz o ditado popular os amigos veem-se no hospital e na cadeia – por mais teorias. juras. abraços. boas palavras e sorrisos de orelha a orelha só saberemos o valor de uma amizade depois de testada – é nos momentos menos bons que ficamos a saber quem realmente está connosco e dá o corpo às balas – e não raramente temos surpresas. os que pensávamos estarem connosco são os primeiros a abandonar o barco. e quando olhamos para o lado somos surpreendidos com a presença de alguém que não imaginávamos ser possível estar ao nosso pé a segurar as pontas – o que acontece é que as amizades mais antigas. fruto dos anos. acabam por cair numa rotina impostora – isto é. fruto de um conhecimento adquirido ao longo do tempo acabamos por nos desviar de nós para agradar exclusivamente aos nossos amigos – os amigos fazem o mesmo e tudo parece perfeito até que um dia a faísca acontece. a combustão lenta mina a tolerância e a lealdade. os laços desfazem-se e quando ninguém espera dá-se a explosão – lá se foram dezenas de anos por água abaixo – no passado raramente demonstrava interesse por conquistar novas amizades. achava sempre que já tinha amigos suficientes – com o tempo passei a dar mais oportunidades às amizades recentes. surgem numa fase da vida em que estamos mais sábios e mais competentes para ver além do papel embrulho – geralmente. estas novas amizades. acontecem já fruto de uma comunhão de interesses. se gostamos de futebol fazemos esse novo amigo num jogo de casados e solteiros. se gostamos de pesca fazemos o amigo a vender o seu espólio na lota e por aí adiante – são momentos fantásticos. o mundo parece-nos perfeito e estamos-lhe grato pela sua imprevisibilidade – com milhões de hipóteses para o desencontro e contra todas as estatísticas a equação deu erro e o encontro aconteceu quando menos esperávamos – e dizemos os dois: olha a sorte que tivemos. quem havia de dizer que nos haveríamos de conhecer neste lugar – e é assim mesmo. quem haveria de dizer. ninguém. mas aconteceu e estamos todos muito felizes por habitar o planeta terra – olhamos em frente e passamos a acreditar no destino: estava escrito nas estrelas. ainda bem que assim foi. estamos agradecidos por fazerem parte da nossa vida – finalmente podemos arrasar com a teoria de que é necessário andarmos todos na escola para construir um relacionamento de amigo verdadeiro baseada no respeito mútuo. na verdade. na cumplicidade e na lealdade – mas com a idade. e apesar de toda a sapiência adquirida ao longo da vida. perder uma amizade levanta outros problemas: a vida começa a escassear e pode cair por terra aquela velha máxima de que o tempo coloca tudo no seu lugar – pode muito bem não colocar já coisa nenhuma e não coloca só por falta de tempo. não coloca também por falta de paciência. já não há força e muito menos a ingenuidade e perseverança da juventude – o corpo está cansado e a mente já não tem flexibilidade ou disposição para grandes reflexões sobre o que está certo ou errado. o que pode ser desculpado e o que não tem desculpa – as atenuantes para o erro. ou para o perdão cristão. já não são levados em conta. não porque não haja atenuantes ou por não querermos perdoar e desejarmos até um mal maior em forma de pena compensatória. não. o problema não é esse. é bem mais simples do que se possa imaginar – em boa verdade. há apenas o desejo de uma nova vida. um recomeço. os limites para a tolerância alteram-se e já não há pachorra para aceitar mais do mesmo. oferecer a outra face está definitivamente fora de hipótese e que se lixe o caminho para o céu – que se dane o paraíso. o preço da entrada é demasiado alto – dobramos a curva da tolerância. deixamos de a ver. e não fazemos conta de voltar para trás para a recuperar – já não dá. estamos esgotados e sem forças para compreender os outros chegou a hora de nos compreenderem. e principalmente. de nos aceitarmos exatamente como somos – já não dá para fazer fretes – recordo aqui uma frase de clarice lispector que no meu entender resume bem a perigosidade de conceder… “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” – já entrei naquele estágio da vida em que pago para não ter aborrecimentos e. sobretudo. não ter que aturar cromos – nem tudo na idade é mau. nestas coisas de gerenciar relações a idade é um posto e quando deixamos para trás qualquer coisa já não há volta a dar – se no passado era um problema que nos tirava o sono. ficávamos tristes. os dias confundiam-se com a noite. a comida não passava. os cigarros acumulavam-se na boca e a vontade de dar dois murros no culpado eram substituídos por um murro numa porta e os dedos é que pagavam com um inchaço durante oito dias – ficávamos para morrer. e não havia forma de acabar com a depressão. aziumávamos. sentíamos-mos injustiçados. protestávamos com o mundo e connosco e só o tempo nos lavava a alma – agora. maduro. mas ainda sem estar a cair de podre. percebo que a vida é assim mesmo. todos diferentes por dentro e todos iguais por fora. é feita de perdas e ganhos. de alegrias e dissabores. de gratidão e ingratidão e de opções que não podemos nem devemos questionar porque não nos dizem respeito – cada um sabe o que é melhor para si e para os seus – as amizades podem ser negociadas. mas nunca compradas – estes são apenas contratempos que nos obrigam a reajustar a nossa entrega aos que queremos e gostamos de ter por perto – fecha-se uma porta. abre-se outra. redireciona-se o tempo para mais de mil coisas que ainda nos falta fazer. a vida pode ser inventada todos os dias. há tanta coisa ainda por fazer – por mais que nos custe. estou certo. que o melhor para todos é a arquivação das comoções. boas e más na pasta dos diversos – já não compensa a trabalheira de refazer uma relação de amizade ou apenas de cordialidade – assim faço. sempre que uma pretensa amizade me aborrece. não há papas na língua. bato a porta e siga o andor que o santo tem pressa – confesso. nem quero saber se tenho muita ou pouca razão. sei que tenho a suficiente para não me aborrecer ou maltratar-me – o importante mesmo sou eu e quem comigo caminha – o autocarro só passa uma única vez na vida. se o perdes já não há volta a dar – podes mudar de local e apanhar outro. mas já não leva o mesmo destino nem os mesmos passageiros – uma coisa eu sei. tudo que fazemos tem um preço na vida – eu pago o meu preço. a diferença em relação ao que fui em tempos idos é quero sorrir para o futuro em vez de chorar para o passado





16/01/2019

uma quarta-feira de 2019





imagem google




escrevo
escrevo como se as palavras fossem um avião
como se eu fosse um avião sentado numa cadeira
que voa como voam os aviões
como se tudo em mim não fosse mais do que uma massa de ar
que sustenta todo os aviões do mundo
que são parentes das gaivotas que voam como voam os aviões  

gosto de voar com as palavras
voo em volta das recordações
em volta das cadeiras
das fotos
dos amigos e dos que não são amigos
dos dias soalheiros e
das noites geladas
da solidão
e das histórias que quero contar
e mais umas quantas coisas que estão no ar e que não sei se são aviões ou ilusões
ou magia
ou coisas que tenho dentro da cabeça e que não são capazes de se ligar à terra

e as mãos a escrever noutro mundo que é aonde vivo desde que nasci
para que as palavras se formem como se formaram as crianças do meu passado
nas ruas
atrás das bolas
dos amigos e das caricas que com “triclas” correm as beiras dos passeios num desvario de alegria
éramos dezenas
éramos tantos como são hoje as palavras que escrevo
tantos como piões
como abraços e juras de que assim seria para sempre  
e os aviões a rasgar os céus como se pudessem pousar no nosso campo de futebol
bonitos
a carregar sonhos de um lado para o outro
em bicos de pés
e a criançada de braços abertos
subia ao céu
e ali ficava até ser noite

escrevo
escrevo porque quem escreve sonha e sonhar é voar
não importa o que és desde que saibas sonhar e
tenhas um par de braços para voar  
uma história para contar
ou até um abraço para dar
estendo-me pela memória de braços abertos
a fingir que sou um avião e
quando não sou avião sou gaivota  
[como se as gaivotas voassem com braços]
e grito pelo cosmo que não é mais do que o meu espaço encefálico
carregado de neurónios que querem voar

só o chão da terra corre ao contrário dos aviões
a fugir para trás
com lamentos de nunca ter aprendido a voar
há um universo das coisas que não voam
não sonham
e nem medram
tenho pavor deste universo
das suas correntes
e das palavras que ofendem por nada saberem do que voa

quando não estou a querer voar não escrevo
levanto os pés na cadeira
meto os joelhos debaixo do queijo e encutinho-me ao redor dos braços
fecho os olhos
e adormeço amarrado a um pesadelo que me leve para o fundo do mar
e morro
morro afogado nos meus sonhos

e mesmo nas mais sombrias profundezas do mar
eu sonho
sonho que voo





15/01/2019

uma terça-feira de 2019






jean paul laurens





sei que um dia tudo o que escrevo neste equilíbrio desequilibrado tombará para dentro do meu peito – sei também que chegará o dia em que a balança pesará tudo o que escrevi. o que ficou nas entrelinhas e até o que pensei escrever e nunca escrevi – será o tempo da justiça terrena – os homens. todos. os que me ocuparam o corpo e os que passaram a meu lado. juntar-se-ão no sínodo do cadáver e representarão o papel de deus – assim será e nada poderei fazer. esta é a sua génese – o passado nunca morre esquecido às mãos dos puros – sei que não será um julgamento justo. mas quem se importará? – eles sabem quem eu sou mas não sabem como cresci. sabem o que escrevi mas não sabem a importância de cada palavra. sabem o que fiz mas não sabem a razão porque o fiz – o perdão à mão do morto – quem julga define-se – haverá sempre tantas sentenças como homens na terra – o mundo é sempre belo para quem quer viver – sei o que sou. o que não sou e o que gostaria de ser e que por obra do diabo. ou coisa que o valha. não fui capaz de ser – levarão então toda a minha palavra do zero aos oitenta. da forca à guilhotina. da bala de prata à espada. do credo ao ato de contrição. e o ponteiro da balança de um lado para o outro procura os contrapesos para a ressurreição: uma palavra bonita ali. um gesto acolá. uma esmola àquele. um sorriso. um abracinho e umas quantas ninharias que não servem para nada – querem-me enterrar sem pecado – e a balança sem saber para que lado cair – todo o mundo vai querer equilibrar o desequilíbrio de uma vida que não lhes pertenceu. foi minha. só minha. e de minha escolha e responsabilidade – finalmente o fogo do crematório fará a sua justiça salomónica. sem venda. sem espada e sem balança: o corpo ao pó voltará – só eu conheço o caminho percorrido. só eu serei capaz de me castigar. mais ninguém – os sapatos estão no armário para quem se quiser fazer ao caminho – sejam felizes neste dia de marte 





14/01/2019

uma segunda-feira de 2019






marianna gartner





três da manhã e eu às voltas com o mundo – o mundo é mais do que sinto nesta tristeza que me despedaça – o mundo é redondo. azul. com mar. sol e sal e ainda outras galáxias que desconheço – é infinitamente grande para que alguém o queira magoar com este corpo perdido num solstício de inverno – aqui estou eu à procura das palavras. as horas batem dentro de mim e o sol escondido atrás de uma lâmpada de sessenta velas – estou triste por dentro. por fora preparo-me para me entregar a quem me merece. carrego o alforge com o que me sobrou do fim-de-semana e espero que o sol se ponha em mim para que a semana comece a acontecer: um par de olhos meigos. uma manada rasa de gente feliz. um abraço apertadinho. uma conversa [inacabada] na madrugada. um copo de cerveja gelada. uma seta perdida de um cupido estúpido. uma boca parva que nunca se cansa de falar o que sente e um sorriso capaz de enganar uma multidão – aqui estou. os olhos alinhados com o destino. à espera do melhor e do pior. com uma mão a estrangular o que já não suporta e a outra a dizer: sampaio ri-te só mais uma vez. afinal ninguém melhor do que tu sabe que o mundo é redondo. azul. com mar. sol e sal e ainda outras galáxias que desconheces – és uma merda de um ignorante. acorda que já é quase dia e os espertos nunca dormem – bom dia e boa semana 





08/01/2019

fim do pecado






imagem google




num momento de fraqueza da minha fé resolvi recriar o meu mundo espiritual com uma numa nova ordem celestial
deus. após rezar o angelus com o papa e os fiéis presentes na praça são pedro. dirigiu-se a todos seus súbitos desejando-lhes um feliz ano novo – de seguida. em tom informal. reuniu com os seus representantes na terra para lhes transmitir a resolução do seu último concílio
-- dada a impossibilidade absoluta de continuar a prestar o meu trabalho espiritual no planeta terra: promover a espiritualidade.  a prosperidade e a justiça divina. quero informar-vos que me retirarei definitivamente da vida dos humanos – saio sem mágoas e com a certeza de que tudo o que estava ao meu alcance foi feito – até deus tem limites que não pode ultrapassar claro que ninguém melhor do que eu sabe que o homem é um ser complexo. fui eu que o criei com razão. com emoção e com espírito – toda esta complexidade tinha como objetivo o seu desenvolvimento sustentado numa espiritualidade esclarecida e na busca permanente da verdadeira felicidade: a misericórdia e a pureza no coração – ao longo de todos estes milénios não houve um único dia em que não seguisse a evolução interior e exterior do homem. acreditem que nunca foi fácil. mas eu sabia que não seria – a ambição humana nunca me facilitou a vida – no entanto. sempre acreditei na vitória do bem sobre o lado escuro do homem e também sempre acreditei que o erro ou o pecado seria sempre a verdadeira motivação para a sua renovação – aprender com os seus próprios erros e perceber a necessidade de se recriar diariamente com novos desafios para uma religiosidade assente na bondade e no perdão. tolerância nas relações humanas. proteção aos mais vulneráveis e promovendo a sua integração e adaptabilidade às novas e exigentes complexidades do mundo contemporâneo – infelizmente nada disso aconteceu. o homem multiplicou por mil as razões para pecar: mais egoísmos. mais ódio. inveja. ciúme. mágoa e tristeza. a estrutura familiar desmoronou-se. as novas tecnologias danificaram o tempo. as igrejas esvaziaram-se de fé. o consumismo selvagem promoveu o egocentrismo e multiplicou as desigualdades entre ricos e pobres. a fome descontrolou-se. as guerras intensificaram-se. as alterações climáticas ameaçam o apocalipse e outras tantas malignidades que recaem quase sempre sobre os mais fracos e debilitados: crianças e idosos – o homem dos nossos dias. para além da pobreza material. está infetado pela pobreza espiritual – em suma. habitamos um mundo caótico e em degradação acelerada onde a minha omnipresença é constantemente colocada em causa – confesso-vos com humildade que a desordem também já se instalou em mim. a sustentável leveza do meu ser foi contaminada e infetada gravemente e infelizmente não vislumbro solução capaz de reverter esta desordem agoniante – criei uma máquina à qual perdi o controle – estou no fim.  desiludido. cansado. mas com a consciência em paz. tudo fiz em prol deste planeta e dos seus seres vivos – chegou a hora de dar descanso ao corpo. é hora de entregar definitivamente o destino da terra nas mãos dos seus colonizadores – deliberei então que os humanos. sem exceção. ficarão livres do pecado como fator decisório para entrar no paraíso – assim. informo que a partir das vinte e quatro horas do dia de hoje o pecado será definitivamente despenalizado – é com amargura que vos comunico que me retirarei definitivamente para o céu e comigo levarei todos os anjos. santos. arcanjos e querubins. reconhecendo com humildade a vitória do pecado sobre a rendição – e agora que a nova palavra de deus parta por esse mundo fora a anunciar a boa nova: nasceu um mundo novo. o mundo sem pecado – sejam feliz e deixem voar os pecados da mesma forma que voam as gaivotas

nota final: sem pecado não quer dizer sem valores éticos e morais – vivam em consciência e iluminem a vossa vida com abraços   








31/12/2018

que se foda 2018. esperança para 2019






imagem google





que se foda o 2018. que se foda o 2017 que o concebeu. alimentou. pariu. e o encaminhou até mim no último dia de dezembro – estou extenuado deste 2018. eu e todos aqueles que comigo dividiram cada um destes trezentos e sessenta e cinco dias – finalmente 2019 à vista – e agora como será este novo ano? não sei e nem quero sequer pensar em prognósticos – prognósticos só mesmo no fim do ano – no último ano escrevia. na minha boa fé e bem-aventurança. que nada poderia ser pior do que o ano em término – enganei-me completamente – nunca imaginei que fosse possível assomar um ano tão horribilis. nunca mesmo. nem nos meus piores pesadelos poderia prever que 2018 descambasse para níveis tão miseráveis – foi o ano em que confirmei todas as minhas fragilidades e compreendi como a dor pode ser egoísta e a chave para abrir a porta de todos os infernos – descobri toda a solidão: entre os outros. a diferença. a sem rosto. a ostracizante. a pedir fim para tudo. para a saudade. para o perdão e para a redenção – em 2018 percebi que perder os pais é uma fatalidade que nunca será superada [ainda não sou capaz de escrever sobre a partida da minha mãe] – percebi também que a vida vale a importância do nosso sucesso. quando tudo corre bem queremos viver duzentos anos. se corre menos bem podemos partir no dia seguinte que não se faz falta nenhuma – em 2018 tornei-me mais humano. mudei meu jeito de ser. de sofrer e de amar também. talvez isto se chame envelhecimento – em 2018 só fiquei sem saber se a dor é punição ou purificação – por isso os meus votos para o meu 2019 são feitos em silêncio absoluto. tudo que vier por bem aceitarei com humildade e o que vier por mal terá o meu renovado haka de guerra: cerrarei com mais força os dentes e bradarei como bradam os neozelandeses. farei caretas horrendas. tão horrendas que se me aparecessem à frente o mais provável era sucumbir de susto. baterei com os pés no chão. com as mãos nos cotovelos e esbugalharei os olhos. arquearei as pernas. encherei os pulmões de ar e tornar-me-ei gigante para o medo. para o erro. para a adversidade. para a solidão. para a saudade e usarei todas as artimanhas para enfrentar o que resta da maldição de 2018 – em 2019 por cada passo em frente a memória dos meus antepassados em estandarte. por cada centímetro conquistado a honra glorificada. e por cada gota de sangue perdida o sorriso dos meus filhos a dizer que tudo valeu a pena por eles – a meu lado a companheira de uma vida. de mão dada. a sorrir. com olhos iluminados de bondade.  bonitos. caridosos. confiantes e contra tudo. a dizer: yes. we can e tudo o amor supera – hoje sei que a minha força nasce dentro dela – neste novo ano nenhum adamastor me roubará o encanto de a ver envelhecer a meu lado. sei que inventarei um novo sorriso para a fazer feliz – em 2019 quero que a minha família se reagrupe em cada clã. que encontre a sua própria identidade sem nunca esquecer que os nossos pais serão sempre a nossa estrela polar – os meus irmãos são tudo o que me resta. em cada um deles encontro um pouco de mim e tudo dos nossos pais – não os quero perder. mais do que nunca preciso deles a meu lado. preciso mesmo muito – prometo que 2019 será o ano dos reencontros – um beijo especial para as sobrinhas que vi crescer em casa dos meus pais: sandra e bárbara que 2019 vos cubra com o melhor que há no mundo. terão sempre um lugar privilegiado no meu coração – e agora a lurdes. a lurdes é do tamanho do mundo – tudo que se queira do 2019 para a lurdes será sempre pouco para tanta bondade – sabem os meus avós. depois os meus pais. de seguida eu. que me viu nascer. os meus irmãos. as minhas sobrinhas e agora os meus netos – meu deus – ensinaste-nos tanto e destes-nos tudo. chegou a tua hora. a hora do descanso. agora seremos nós a servir-te – esta é a tua casa e a tua família. estarás ao nosso lado até que deus te sorria – e para terminar. já que a missiva vai longa. espero também que 2019 ajude os meus filhos e suas companheiras a concretizar com ainda mais sucesso os seus projetos de vida. que lhes ilumine o engenho para o trabalho e arte para o diálogo e a sabedoria para amar as coisas simples – que se continuem a amar. a respeitar e renovem todos os dias os votos de afetividade – e nunca se cansem de alegrar o coração das suas amadas. elas serão sempre o vosso porto de abrigo – nada no mundo tem mais encanto do que uma mulher feliz – o segredo da longevidade dos casamentos está no diálogo. nunca no silêncio – uma palavra especial para o meu filho pedro. amo-o daqui até à lua – este ano espero que a vida e o destino o ajude a reencontrar o sorriso. é hora de deixar de fumar e acabar o que começaste no primeiro dia de escola – eu e a tua mãe temos todo o tempo do mundo. esperamos por ti – em 2019 quero que os meus netos continuem a viver a sua infância com muita alegria e que nunca lhes falte o abraço dos pais para se tornarem adultos estimados e bonitos – que “deus” proteja toda a sua família – para os meus amigos quero tudo que há de melhor no mundo. merecem tudo. a vossa companhia ajudou-me a superar este ano de merda – sem vocês tudo seria muito pior – o mundo seria sinistro sem os valores da amizade


seria injusto não referir o que 2018 trouxe de bom:

·  o meu filho do meio trouxe-me uma nova nora – adoro todas as minhas noras. todas diferentes e todas iguais – a bela será sempre recebida na nossa família com alegria. gratidão e humildade – eu e a sua mãe estamos-lhe eternamente gratos por encontrar no nosso filho as qualidades que fazem dele alguém muito especial para nós
·   reencontrei-me com os meus primos da juventude. toni. zé e filipe – foi um jantar e tanto – tanta história bonita relembrada. tanto abraço e tantos laços de sangue – percebemos que jamais nos perdoaríamos se voltássemos a cair na ratoeira do trabalho e falta de tempo – 2019 será o ano do reagrupar
·  revi o meu tio zeca. irmão do meu pai – foi o meu tio da juventude. um homem bom. tranquilo. sereno. um anjo na terra – amo este meu tio. é tudo o que resta do meu pai na terra – ele e o meu pai são a grande herança da nossa família 
·  recuperei uma amizade perdida. uma daquelas coisas que ninguém gosta de trazer dentro de si – acredito que finalmente é possível recomeçar tudo de uma forma diferente – espero que um dia este meu amigo me saiba ler com bondade em todas as palavras que escrevi – estou pronto para me explicar
·   confirmei que as pessoas boas nunca saem da nossa vida – foi um abraço especial de um amigo especial: MM
·  já são recorrentes nos anos… sempre presentes – um abraço afetuoso para carvalho araújo e paulo duarte


feliz ano 2019 para todos
e
que se foda o 2018



07/12/2018

deambulações noturnas XXXV







 ivan kulikov




 a memória de quem partiu ressuscita sempre que a minha palavra nasce  – 
por isso escrevo – escrevo saudade






29/11/2018

não sei









não sei
não sei se envelheci amalucado
se me perdi ou se abalei para fora do corpo no dia em que fiz dezoito anos
não sei mesmo
não sei se me maltratei por nunca querer saber nada de mim e querer saber tudo do mundo
não sei juro que não sei
gostava de sabermas não sei
não sei tanta coisa que deveria saber
não sei se um dia poderei recompensar quem não fui capaz de sossegar nem sei se um dia
poderei regressar e nascer de outro modo
voltar aos braços de minha mãe e esconder-me de novo no ventre da imortalidade
não sei... juro que não sei
a vida não nos deixa saber tanta coisa
há tanta dor escondida
há tudo que fiz
e o que deveria ter feito e não fiz
sei que um dia destes vou ficar sozinho no mundo
sei que um dia destes um rosto se vai apagar
o silêncio vai arranhar
e a saudade vai voltar
sei que estou apavorado
estou em desordem numa vida que tem a sua própria ordem
estou nos braços de minha mãe
e a minha mãe está nos meus


declamado por - maria joão



26/11/2018

deambulações noturnas XXXIV





cao hui





o pior defeito de um homem é a sua falta de memória e gratidão - e mesmo que a desculpa se esconda atrás de uma pseudo-arte a solidão e o vómito será sempre a sua companhia






23/11/2018

[mamã] emprestas-me a tua mulher











hoje acompanhei a maria joão na visita diária à minha mãe – chegarsorrir. beijarsorrir. sorrir e falar sem dizer quase nada porque não há nada para dizer – depois como se o tempo pudesse acabar a qualquer momento começa a arranjá-la para dormir. higiene mínima. pescoço acomodado à almofada. aconchego à roupa e por fim. um abraço de filha e um carinho tão apertado que me enche o coração – as mesmas rotinas há meses – já aconchegada. a minha mãe. olha para mim e como se não estivesse muito doente diz-me: emprestas-me a tua mulher para ficar comigo uma noite – desfez-me de riso e do coração – a uma mãe não se pode negar nada e disse-lhe: claro que sim mamã. para a semana vai ter uma noite inteira com a maria joão – será uma noite mágica pois para além de ser minha mulher é um anjo na terra – sou um homem de sorte – tenho a certeza de que a levará consigo para o céu tal e qual como levou o papá 






05/11/2018

conto e contar





caspar friedrich




nem sei se respire ou deite a alma ao lixo – estou assim. os dias a contar dentro de mim e eu sem saber que gaveta abrir – conto. conto tudo que pode ser contado: os botões da camisa. os dedos das mãos. as lâmpadas acesas e as que fundiram com o passar do tempo. conto pernas e sapatos cambados de tanto caminhar. conto dias em que sorri e outros em que desapareci estou assim. pesaroso. lamentado e perdido. procuro-me nas razões. na sorte e no destino. às vezes sozinho. outras. junto companhia como quem não quer a coisa – passo o tempo entretido a contar. a vida não é uma conta que se faz de cabeça baixa. tudo que conto hoje não sei se dá para contar amanhã. é tudo tão volátil. tão fácil de quebrar – o futuro corre sempre tão depressa – conto cada abril honrado. cada natal vivido e conto março como se fosse ontem – conto os vivos. os que já não estão vivos e os que estando vivos se fingem de mortos – um corpo aflito só resiste ao descanso eterno pela saudade – conto pelos dedos para não me enganar e não enganar o mundo das contas que se faz e desfaz consoante a vida passa – e eu defronte das minhas gavetas sem saber contar o tempo que me resta para abrir cada uma delas – conto comigo e quem comigo me ajudou a fazer as contas do tempo. as contas não se fazem sozinhas. dentro das minhas contas há contas de outras contas que nunca poderei compensar – conto as vezes que amei sem saber que o amor se pode contar como um conto: era uma vez uma princesa linda. tão linda que é impossível contar a sua formosura – e tudo que conto ligado por nós que não sei desatar. e os dedos gigantes enrodilham-se em contas que não tem fim – conto as noites que passei sem dormir. conto os fantasmas que inventei e outros que por serem invisíveis não sei contar. conto estrelas. conto gaivotas e conto as rugas de uma face velha. puída. a chamar morte. destino. horror – e as luzes do sótão acesas. a iluminar o mundo das contas e a faca entalada garganta a baixo grita em desespero: noves fora zero. zero. igual a nada 






27/09/2018

deambulações noturnas XXXIII

 
 
 
 
 
horace pippin
 
 
 
 
as noites estão cada vez mais escuras: escrevo não o que trago nas mãos mas o que trago do passado
 
 
 

24/09/2018

aqui estou

  
 
 
 
 
  

aqui estou eu. um pé no passado e outro no que há para vir – quem me dera que o mundo não fosse um segredo. um passarinho à procura dos porquês. ou esta coisa que sinto dentro de mim que não sei se é fé ou vontade de morrer – atiro-me para cima do que sou. escondo-me. a cama rebola. eu rebolo-me contra a cama. misturo-me num contrato sonolento. luto. fujo do segredo. fujo dos porquês e deixo de saber onde deito os pés – não quero caminhar mais. estou cansado – a dormir fico morto para o mundo das sombras – o candeeiro bamboleia entre uma janela e um guarda-roupa com os cabides de uma vida. encostado ao canto dos lamentos um casaco preto de bombazine forrado de procura e ambição. mangas puídas. cotovelos esfacelados e um lenço branco no bolso direito escarrado de atropelos – na parede a minha foto com menos quarenta anos. olhos negros. tristes. não sei se me fiz triste para a foto ou li o futuro na lente da máquina. lábio quebrado. cabelo puxado à esquerda. escorrido. à espera de tesoura para me compor. pescoço meio torto a tombar para o dono do destino e um cristo pregado por mim à parede – os olhos de deus perdidos em mim. vigilante. castrador. incómodo. sempre a falar mesmo calado: não devias ter feito isto. aquilo. aqueloutro. pecaste. erraste e a alma dorida de tantos porquês – entraste-me pela boca como se fosses palavra. eu disse amém e o teu corpo amarrotou-se na minha gula de viver – se realmente existes perdoa-me por nunca ter aceite o teu destino – se não perdoares dá-me um último vómito e parte de mim como entraste já não sou o da foto – aqui estou. tal e qual como sou. tal e qual como sinto – aqui estou
 
 
 
 

16/09/2018

a minha cidade. o notário e o iodo

 
 
 
 
 
pintura - eugène boudin
 
 

 

estou no coração da minha cidade – raramente me desloco ao centro da minha cidade. nunca fui muito de confusões nem vou muito à bola com multidões – pior. confesso que tenho medo dos carros que não são conduzidos por mim. das motas com escapes livre. dos polícias com pistolas e das janelas em edifícios que não param de crescer – as cidades já não são como antigamente. são confusas. impessoais. conflituosas. irritantes. barulhentas. fazem-me nervos. baralham-me o funcionamento do corpo e o coração começa a bater sem gostar. quando dou conta estou com arritmias. as pernas entram em desespero. os calcanhares começam a doer. perco o discernimento. a paciência. entro numa agitação masoquista. acalento. ruborizo. fico tresloucado e só me apetece fugir para o que é meu – este cansaço associado ao nervoso miudinho recorda-me os domingos de verão na minha infância – não havia domingo de bom tempo que os meus pais não aproveitassem para dar um pulinho à praia – nessa época. os médicos aconselhavam banhos de iodo para quase todos as maleitas do corpo e do espírito – os meus pais levavam muito a sério os conselhos dos senhores doutores. era gente que tinha estudado em coimbra – no sábado à noite já não havia sossego em minha casa: preparavam-se os fatos de banho. as toalhas. os bonés. o protetor solar. o prego para o jogo do espeto. a bola nívea. as cartas para jogar uma bisca lambida e uma data de sorrisos que não víamos em mais nenhuma altura do ano. eramos todos felizes com tão pouco –  a noite passava em passo de caracol. mas quando o dia raiava já a minha mãe e a lurdes [minha segunda mãe] andavam em bolandas a tratar do farnel – neste farnel não faltava nada. era tudo a multiplicar por dez. o ar do mar incrustado de iodo puxava um apetite desgovernado – comia-se até chegar com o dedo – a minha mãe ficava feliz. entendia que crianças bem alimentadas são mais resistentes às maleitas dos invernos. ficam menos expostas às pontadas de uma corrente de ar – eu acreditava. naquele tempo. contava-se a história de que napoleão tinha mais medo de uma corrente de ar do que de uma bala de canhão – passei a vida toda com medo das pontadas de ar e estive quase a morrer atropelado – há coisas do diabo – o meu pai tinha a seu encargo a compilação dos apetrechos que garantiam luxo e conforto à excursão domingueira: guarda-sóis. tapa ventos. mantas. cadeiras e banquinhos e uma cuba de plástico cheia de gelo para manter as bebidas frescas durante todo o dia – a questão que se colocava era como meter tudo na mala do carro – nunca nada ficou para trás – depois dos banhos de sol. sal e iodo refugiávamo-nos num pinhal a forrar o estômago com as iguarias preparadas pelas minhas duas mães – eram dias enormes. bonitos. afetuosos. era um abraço que ainda hoje aperta – chegávamos a casa já com o sol quase tomado pela escuridão – seria tudo perfeito não fosse eu regressar completamente arrasado de cansaço. sentia o corpo todo a colapsar. preso por arames. como se estivesse ligado à corrente elétrica e pudesse implodir os fusíveis a todo o momento – ficava um cangalho. quebrado e sem forças – a minha mãe dizia que era efeito do iodo. mexia com o meu sistema nervoso. a transmissão de sinais entre as diferentes partes do corpo estava em conflito. em rotura e as dores nas pernas completavam a moldura de um miúdo à beira do colapso – a praia era demasiadamente esgotante para mim – não era nada fácil aguentar aqueles domingos mergulhados em iodo – o problema piorava com a minha mãe a multiplicar por cem os sintomas. resultado: overdose quase mortal – mas aos poucos lá me ia acalmando dizendo que os benefícios destas tomas seriam para toda a vida e que uma noite de repouso traria tudo à normalidade – assim era. no dia seguinte acordava novo em folha – em troca destas dores benfeitoras o frio do inverno não passaria pela lã das camisolas interiores e as gripes e constipações curar-se-iam com sumos de laranja. vitamina C natural – já não uso camisola interior de lã. nem ceroulas. nem tenho aquela comichão da lã virgem que me comia o cérebro o dia todo – só eu e deus é que sabemos o que se sofria com aquele agasalho. mil vezes pior do que o iodo  – toda a comichão acabou quando chegou a camisola do século XXI: a thermotebe – foi uma bênção de deus – nunca percebi porque não foi contemplado com um nobel o sr. thermotebe. uma injustiça – o tempo passou. agora percebo que depressa demais. tudo está diferente. substitui o iodo pelo monóxido de carbono. comecei a fumar e só parei trinta anos mais tarde. engordei. fiquei feiíssimo. passei a usar óculos para ler. deixei de correr e pinchar. deixei de ter  pressa pelo dia seguinte. os prédios cresceram. desumanizaram-se. a mercearia do zeca lacota fechou. a casa de pasto luso-brasileira também e à praça do comércio já não chegam pela madrugada os camiões do algarve carregados com as primeiras uvas da época – quem a viu e quem vê a minha cidade. não conheço ninguém. ando aqui à meia hora e ainda não passou nenhum dos meus colegas de liceu. estou só numa cidade que era minha – as portas do comércio despidas de amizade. sem comerciantes enfarpelados. a sorrir. a dar bom dia. a enviar cumprimentos para os paizinhos. já ninguém me chama pelo nome. as crianças já não partem vidros a jogar à bola. nem jogam à macaca. nem há peditórios para as festas de santo antónio. olho para todo o lado e não encontro nada. nem o mário polícia sinaleiro. está tudo de pernas para o ar. só os sinos das igrejas batem as mesmas horas – sou um desconhecido na minha cidade – enquanto caminho vou recusando todas as emoções saudosistas – um homem tem que ter os olhos postos no futuro. sei ao que vim – vim ao centro da minha cidade por obrigação. o notário exige a minha presença. dito com mais rigor. exige uma assinatura presencial – aqui estou para fazer valer com verdade o meu nome num papel que deveria ser importante. não estou certo que assim seja – e o doutor notário confirma que sou mesmo o do cartão de cidadão – são casas estranhíssimas. povoadas de doutores. de vendedores e compradores. todos com sorrisos cuidados. os que vendem convencidos que venderam bem. os que compram inchados de vaidade por atestarem o seu poderio económico e os doutores juram que sem o conhecimento da lei o mundo seria uma selva – com ar sério só mesmo as funcionárias. estão-se nas tintas para os negócios. passam-lhes pelas mãos milhões e ganham tostões – já passou o tempo em que era simpaticamente coagido pelo advogado a entregar voluntariamente uma gorjeta ao funcionário como reconhecimento de bons serviços prestados – este. agradecido pela deferência. despedia-se com um aperto de mão que se não fosse o iodo lixava-me as falanges – subi ao notário para reconhecer uma procuração que permite alienar. no brasil. uma coisa que nunca produziu um centavo – que homem de negócios compreende isto? o melhor é manter este ex-negócio em segredo para não me envergonhar – esta coisa dos contratos escritos necessita de corpos robustos e com muito iodo – o tráfico comercial produz cada coisa mais estranha – só gente estranha produz coisas estranhas – mas acreditemos no futuro – saí para a rua feliz. o brasil em breve terá notícias minhas. a minha assinatura voará sobre o atlântico e me fará representar com tudo que existe em abundância em mim: imaginação e esperança – creio que este stock de imaginação e esperança se deve às doses maciças de iodo que apanhei em catraio – a minha mãe tinha razão. o iodo é para toda a vida – estou de regresso a casa. o tempo passou. os carros também e os semáforos ordenam ritmadamente o nosso mundo. agora passa a combustão fóssil para logo de seguida passar a combustão O2 – tudo a consumir energia que não é renovável e os filhos do criador cada vez mais acelerados e irritados afrontam as buzinadelas com movimentos de toureio a pé. e a classe para sobreviver é a forma como gingamos a coluna vertebral. o joelho metido para dentro e o corpo a equilibrar a desordem psíquica enquanto o físico acelera rumo ao inevitável: o fim dos sonhos – vivo nesta confusão que se tornou sobrevivência. ainda ando com verde. ainda paro com o vermelho – graças ao iodo ainda conservo o tino – a minha vida é um para-arranca e de tanto esticão e solavanco um dia fico sem caixa de velocidades – vai-me valendo o iodo para aguentar esta vida de trampa