.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

24/05/2018

facebook - até mete nojo de tão lindo que é





imagem - google




apetece-me desabafar – hoje vou falar sobre a puta da internet – bem sei que não vai ser fácil. não se fala da internet sem perder uns quantos amigos cibernautas e mesmo que não os perca na sua totalidade. sei que alguns vão aziumar e dizer baixinho: se fosse escrever ao caralho – mas tem que ser. apetece-me. e quando me apetece alguma coisa sou como as grávidas. ou faço ou posso perder para sempre esta raiva de escrever – não vai ser fácil… mas em boa verdade. nos dias que correm. não há nada fácil. anda tudo no ar e tudo que anda no ar ou é avião ou likes do facebook

[dito isto]

na minha juventude. sabia perfeitamente distinguir quando um amigo estava num daqueles dias em que o pai lhe tinha dado calor às orelhas. o rosto trazia instalado um sistema de alerta facial que nos colocava de sobreaviso:

-- estou com pouca paciência. toca a abanar as orelhas para longe

mas se pelo contrário conseguisse um suplemento na féria semanal o semblante abria-se num sorriso rasgado de orelha a orelha e a partilha do aprazimento contagiava a amizade do grupo mais rápido do que a gripe espanhola:

-- bora pessoal. hoje fuma tudo à borla

sabíamos tudo uns dos outros. eramos amigos desde que o sol nascia até ao seu sumiço – o nosso rosto era uma impressão digital. única. intransferível e só interpretável pelos valores da amizade – eram tempos do arco da velha

[trinta anos mais tarde]

desde que apareceu a internet os amigos passaram a comunicar pelas redes sociais numa linguagem de símbolos e sons universais – passamos a estar diariamente presentes na vida daqueles que estimamos e também daqueles que pouco ou nada nos dizem – basta ter um computador e um registo no facebook e os amigos começam a nascer de todos os cantos. mais de mil no primeiro dia e ao fim do mês dez mil e ainda não completamos seis meses e já temos amigos até do japão e por cada amigo cem likes. enganchados nos likes milhares de dedos virados para um céu que nem sabíamos existir – não é fácil envelhecer com as novas tecnologias. todos os dias uma nova ferramenta e eu sem escola profissional para me ensinar como se faz um ctrl-alt-delete – o mundo de pernas para o ar e eu também – não tenho tempo para tanto amigo. não tenho tempo nem que viva mil anos. e o botão enter do meu teclado gasto. sem tinta. prestes a furar de tanto bater que sim – parece que estou triste mas não estou. estou ansioso. as teclas chamam pelos dedos. os likes sorriem. e os corações cada vez mais vermelhos. e os lábios carnudos. e ursinhos e gatinhos e o jardim zoológico nas teclas e cada animal quer dizer todo o tipo de merdas que não consegui aprender – estou velho. só sei mesmo deixar um polegar virado para o céu – espero que todo mundo saiba que estou confiante e bem de saúde

[hoje é um dia especial]

sinto-me global. sinto que me entreguei por inteiro ao mundo das redes sociais – só não quero é que me convidem para jogar á bola. não é por nada. mas já não sou dado a correrias e também não quero que ninguém saiba da minha mazelas nos joelhos – estou todo fodido – estou ansioso que o facebook me comunique o numero de likes recebidos no último mês – tenho fé que vou bater um novo máximo. estou no encalço do  CR7 – eu e o melhor do mundo a viver debaixo do mesmo teto global – os humanos nunca param de surpreender. como muita boa gente não sabia exprimir os seus sentimentos logo encontraram ferramentas virtuais para interpretar as emoções num espaço sem fronteiras e tudo à distância de um clique – carrega num smile amarelinho com a boca para cima já todo o mundo sabe que se trata de uma dose controlada de felicidade. dez smiles seguidos é uma overdose de júbilo. podendo. se não for vigiada. trazer sérios problema de saúde – mas para além destas preocupações e benefícios há uma outra vertente que valorizo imenso. um smile não envergonha a língua portuguesa. não é necessário escrever. basta o tal clique inofensivo e camões agradece – o único problema destas carinhas redondas a sorrir é perceber a sua veracidade. nunca saberemos se é uma imposturice ou se saiu mesmo do coração e como recebemos resmas delas por dia rapidamente apreendemos que o melhor é aceitar tudo tal e qual como vem empacotado. sem questionar. sem argumentar e no mesmo instante. para não acumular e perder o sentido da coisa. devolver a cortesia em modo de correio azul. um dedo virado para o céu acompanhado com uma dessas carinhas amarelas rechonchudinhas e a amizade ficará presa a cimento para sempre – quem inventou esta comunicação é um génio. se tivesse nascido na minha terra garanto-vos que enquanto não tivesse uma rua com o seu nome não descansaria – não importa o grau de amizade que liga o emissor com o recetor que a carinha encaixa perfeitamente no perfil. não importa se é gordo ou magro. letrado ou analfabeto. cavalheiro ou marginal. viva em braga ou no chile e fale castelhano ou checheno tudo funciona sobre rodas – estou até convencido que um dia será com estas figurinhas que entraremos em contacto com os extraterrestres – comunicar é agora espontaneidade e dá centenas de amigos ao dia – como é fácil iludir o nosso universo habitável – para perceber-mos se realmente alguém está bem na vida das redes sociais faz-se uma contagem rápida dos amigos e dos likes conquistados:

-- foda-se. parece impossível aquele nabo do antunes já tem mais oito amigos do que eu 

ganhar ou perder amigos é agora um drama com consequências muito mais gravosas do que no meu tempo – nesse meu tempo. um gajo embrulhava-se nuns socos e pontapés e no dia seguinte. como todos eram sempre poucos  para jogar futebol o remédio era mesmo fazer as pazes – um aperto de mão e a amizade continuava no mesmo ponto em que tinha sido interrompida – a oferta de amigos no mercado das redes sociais neste momento é maior do que a procura – os amigos estão ao preço dada uva mijona – és muito amigo se colocares muitos likes. e um amigo de trampa se te esqueceres de carregar os likes – o nosso mundo de amigos é agora assim: esgadanham-se uns aos outros por meia dúzia de likes:

-- ó filho se me deixares ser teu amigo prometo que te faço uns likes tão loucos que até vês a estrela polar

socialmente um gajo com poucos amigos nas redes sociais é um gajo marginalizado pela irmandade da Internet – se não me dás um like também não levas nenhum meu – se tem poucos amigos é porque o gajo não deve ser grande pistola. deve ter a mania que é chico esperto. menino da mamã – vai longe. vai – a solução é nem passar cartão e passar ao lado das postagens e das fotos – comentar um gajo com poucos amigos nem pensar é mau para a sua reputação

-- a estes merdas elitistas que não dão likes nem lhes dou confiança. bloquei-os logo – quero que se fodam todos

o problema é que todos querem ser amigos de todos para serem aceites no mundo global da internet – estes amigos não pesam às costas. não tens que os compreender. não tens que os ouvir. não tens que os chamar a atenção num momento menos feliz. simplesmente existem – é fácil a sua manutenção e mesmo quando se zangam por algum motivo não andam ao soco. nem que apertar a mão como cavalheiros – agora bloqueia-se o tratante e logo de seguida posta-se um frase pesarosa no perfil a dar conta da morte prematura de um amigo que verdadeiramente nunca o tinha sido:

-- tão bem lhe fiz e o agradecimento é este. não merecia. não tenho sorte nenhuma com os amigos

e o milagre da multiplicação já não é pão nem vinho. são amigos aos milhares. a emergir como ratos. de cantos que nem imaginava existir. e likes. abraços. migo e migas aos beijinhos e jinhos a perder de vista:

-- força migo;

-- deus é grande;

-- não mereces. mas vais ultrapassar;

-- aconteceu-me na semana passada. é uma tristeza mas já passou;

-- não ligues migo. esse gajo deve ser um paneleiro de merda;

-- se fosse comigo fodia-lhe as trombas;

-- vais [ver] que tudo se vai resolver. tem fé; 

-- se precisares de uma amiga sabes que para ti estou sempre aqui. jinhos;

-- cabrão. eu sei o que merecia esse filho da puta – há gajos que não se enxergam - abraço

e um homem depois destas manifestações de carinho incha mais que o peixe balão – bem sei que a maior parte destes amigos nem os conheço pessoalmente. e outra grande parte apenas os conheço de um único aperto de mão. ou de uma palavra reles de circunstância. ou então porque são amigos de amigos que também não conheço – o amigo de verdade. aquele que é mesmo amigo amigo nem me fala pelas redes sociais quando pressente um problema. liga-me por um telefone que quando toca ilumina o seu nome no mostrador – atendo. e logo chega em letra grande um like que não tem o dedo para cima. tem alegria suficiente para alimentar uma conversa por tempo impossível de contar – e assim é. retoma-se a amizade exatamente no ponto em que a interrompemos – não importa o tempo que passou. conhecemos todas as inflexões de voz e recuamos ao passado na única máquina que nos faz viajar no tempo: a amizade – os amigos de verdade são sempre únicos. cada um deles é um mundo único

-- que saudades tenho desses catraios

neste novo movimento tecnológico o importante mesmo já não é só o número de amigos que se possa somar. para esta malta o que começa a contar é a rapidez com que se coloca o like – um verdadeiro amigo tem que estar sempre atento. sempre de sentinela e mal surja a oportunidade o seu like tem de ser o primeiro – acabamos de postar um texto de quatro páginas e nos primeiros dez segundos já temos cinquenta likes. aos trinta segundos chegaram já mais de mil e antes do minuto atinjo os nove mil novecentos e noventa e cinco – incrível – passada a primeira hora lá chegam os últimos cinco amigos. envergonhados de cabeça baixa. cheios de desculpas esfarrapadas. quatro lamentam não terem tempo para ler a correr. o outro alegou:

-- a culpa é da EDP cortou-me a eletricidade. fiquei sem net apenas por ter em atraso o pagamento de uma fatura

entender este novo movimento das redes sociais é trabalhão que arrasa completamente com a intuição de um cristão. melhor. creio até que nos dias que correm já não há pessoas infelizes no mundo – esta nossa sociedade é um bando de gente socialmente feliz  

-- tudo mundo aparece nas redes sociais a rir com dentes mais brancos que o branco branco. o pepsodent faz milagres inacreditáveis – os dentistas estão fodidos – o pessoal escova os dentes cem vezes ao dia para aparecer no facebook

todas as manhãs mandam beijos de bom dia em múltiplos de dez o que me leva a pensar que talvez despertem sem falar um para o outro. creio que tem a ver com o respeito do espaço de cada um. no meu tempo os quartos eram muito mais pequenos e não havia forma de não invadir o espaço da nossa companheira:

-- vê se te despachas a sair da casa de banho que quero ir aí

ou então quando o amor andava no ar ela dizia:

-- deixa tudo arrumado que eu não sou tua criada 

os casais começavam logo pela manhã a comunicar e a partilhar tarefas e em juras de amor que perduravam para toda a vida. ela prometia que se despacharia mais depressa das pinturas e ele jurava pela sua saúde que nunca mais deixaria as cuecas no chão do quarto – mas isto está tudo mudado para melhor. todo o mundo se ama numa loucura que chega até a ser constrangedora para os casais mais antigos – agora sei que no passado o amor era muito fatela. senão vejamos – de tempos a tempos. curtos. vão para a internet. e como se fosse promessa.  botam palavras de amor aos conjugues que derretem qualquer coração de pedra. ninguém resiste a tanto love

-- estou convencido que se o shakespeare fosse vivo tinha que dar o triplo do veneno para o romeu bater a soleta. com este amor não é fácil falecer

o que mais me encanta é que nos dias de hoje não há casais incultos. todo o mundo tem uma bagagem cultural que constantemente me faz chegar as lágrimas aos olhos. oferecem frases de autores tão desconhecidos que até os próprios autores citados ficam na dúvida se realmente escreveram aquilo – o amor embrulhado em fitas de arte dura muito mais tempo – fico sempre muito orgulhoso deste seres humanos tão especiais. ainda bem que os amigos ficam realmente a saber que adoram literatura e que aproveitam todos os bocadinhos livres do dia para lerem e promoverem autores desconhecidos – são os novos mecenas do mundo tecnológico – depois vem a parte pior deste amor que arde e até se consegue ver. um amigo daqueles do coração. comunicativo e muito sensível às coisas do amor e que é capaz de ir a tribunal jurar a pés juntos que aquele amor é a oitava maravilha do mundo das redes sociais deixa um comentário em lágrimas:

-- parabéns. continuem a regar esse jardim de amor. vocês são perfeitos. nunca vi um casal que se amasse tanto

responde logo a dona daquele amor que não cabe numa resma de papel A4

-- és lindo. tens um coração lindo. jinhos lindo

de seguida o face torna-se numa slot machine e caem em catadupa gostos e corações que dava para encher o cesto da capuchino vermelho – a sua avó ficaria com um ego do super homem e a história do lobo mau lá teria que ser reformulada. a avozinha comia o lobo de faca e garfo com tanta manifestação carinhosa – mas o que mais me surpreende nestes movimentos sentimentais são aqueles que substituem o gosto por aqueles bonequinhos de boca aberta. espantados. creio eu – ora aqui o caso torna-se grave porque fico sem saber se a intenção de oferecer este dito boneco é de uma amizade de espanto ou gozo para espantar a amizade – no meu entender a mensagem que deixam pode ser entendida de várias formas –

1º - não imaginava que gostavas tanto do teu marido. estou espantada; 

2º - nunca me passou pela cabeça que se amassem tanto depois do que já o vi fazer-te. estou espantada;

3º - olha que tu tens um lata do caraças. és mesmo uma vendida. andas sempre a dizer mal dele e agora vens para aqui meter nojo – se fosses lavar a loiça… sua cabra. estou espantado;

4º - nunca vos vi comunicar um com o outro mas aqui na net são o casal mais maravilhoso do facebook. – ó bonitona. deixa que te diga. és um exemplo para todos. só se pode ter inveja de um amor tão genuíno - são TOP. estou espantado;

5º - tenho tantas saudades vossas. a última vez que vos vi estavam a almoçar no zé das bifanas – estavam os dois lindos. são um casal fantástico – só não fui à vossa mesa porque deveriam estar preocupados com alguma coisa pois estiveram sempre ao telemóvel e saíram a correr – beijinhos e continuem assim.  estou espantada;

6º - vocês estão juntos ainda? são uns heróis – confesso que nunca me passou pela cabeça que o vosso casamento aguentasse tanto – chegaram a casar pela igreja ou foi só pelo civil? – parabéns.  estou espantada;

7º - tens o sorriso mais lindo da net. nunca tinha reparado. estou espantada;

8º - és uma guerreira para aguentar esse gajo. ele não te merece.  estou espantada;

9º - puta que pariu esse amor. até mete nojo de tão lindo que é.  estou espantada;

10º - adoro-vos. gostava que a minha maria me escrevesse coisas assim. infelizmente é uma puta e só sabe foder-me a cabeça – maldita hora em que levei aquela cabra ao altar. se não fosse os filhos já a tinha atirado da janela – beijinho para vocês. são um exemplo – felicidades e dá um abraço ao sortudo. estou espantado;

e assim continuariamos com mais uns quantos exemplos mas infelizmente também eu não tenho tempo para escrever mais nada – a minha maria está aos berros e já sei que ou me apresento rapidamente em passo ligeirinho ou acontece-me como da última vez. deu-me no focinho e de seguida ligou para o número verde de violência doméstica a queixar-se de défice de atenção – bem sei que acaba tudo bem. logo que apanha um computador esquece tudo e enche-me de beijos e likes e não se farta de dizer aos amigos que sou o homem da sua vida – com a idade aprendi a ser tolerante e nunca me esqueço do que dizia os meus avós: uma bofetada pode salvar o casamento – o meu já vai a caminho das bodas de ouro e nunca me queixei de uma bofetada mal dada – sou um homem com sorte





15/05/2018

o poeta




ignat-bednarik





o poeta sobrevive nas vísceras de um cérebro sempre imensamente insatisfeito – sofre dor na procura das palavras que nunca saberá escrever – por mais palavras escritas. por mais palavras pensadas. por mais que deixe o corpo arder no inferno. por mais que rasgue a carne. não será capaz nunca de passar às mãos o sofrimento de não as saber escrever – não há caminho feliz para quem gosta de escrever – escrever é mutilação


13/05/2018

carrossel










maldito poeta
que gira no carrossel
e se não gira
como gira carrossel
então…
não é coisa fiel.
mas se gira
como gira carrossel
então…
é poeta com nobel.
mas se for poeta e não for nobel
então…
é poeta a granel
porque gira
como gira um papel.
mas se for poeta poeta
e girar
ao contrário do carrossel
então…
é poeta cruel
porque gira
como mais ninguém gira
no carrossel.


maldito poeta
que gira com o carrossel
não importa se gira
depressa
ou
devagar
não importa se gira
para a direita
ou
para esquerda
ou
gira por girar
ou
gira por precisar
o que importa
para o poeta
é girar sem embaraçar
a palavra
que gira no carrossel.


mas poeta que é poeta
não gira triste no
carrossel
muito menos
gira contente
porque o importante
é girar como se estivesse
a não girar
e mesmo que escarre para o carrossel
ele vai girar sem parar
porque escarro
não para carrossel.
carrossel
gira porque gira
e todo o poeta gira porque o carrossel gira
e se tudo gira
com o carrossel
então...
o mundo gira
porque é no carrossel
que tudo gira sem parar.


mas que se lixe o carrossel.
e que se lixe quem gira no carrossel
porque em boa verdade
todo mundo gira porque tem que girar
girar sem parar
girar sem pensar
e até girar com pesar.


e é neste girar do carrossel
que mirrarei
com a palavra a girar
falar não sei
e mesmo que soubesse
quem me ouviria nesta roda viva
em que gira o meu carrossel. 



poema declamado por: maria joão.





12/05/2018

sábado





foto - sampaio rego




às vezes perdes um sapato só porque não tiveste o bom senso de apertar os cordões - era tão fácil - ainda tinhas o par de sapatos e mantinhas a dignidade no andar - assim. não é que andes mal. mas ficas coxo - mas que se lixe. ninguém dará conta a não ser que perguntes pelo sapato - mas... sapato perdido não volta a entrar no pé. nem com bom senso




07/05/2018

não tenho azia










acordei. como sempre. sem qualquer tipo de azia – nada tenho contra o futebol clube do porto. nada tenho contra o norte e nada tenho contra o desporto futebol – o que não gosto mesmo é de gente má. sem educação. sem preocupação pelo próximo. arruaceiros. imbecis e principalmente gente que me divida o país em regiões por causa de uma bola – sou nascido e criado no norte mas adoro cada pedacinho de terra do meu país – adoro lisboa. adoro a capital do meu país. adoro a luz que irradia lisboa e adoro o sport lisboa e benfica – há coisas que passam de geração em geração. o meu pai era benfiquista e os meus filhos também o são – mas atenção. que fique bem claro. nunca o meu clube. em qualquer circunstância.  estará acima da lei.  da ética desportiva e da honra – também não gosto de doentes do futebol que se aproveitam das redes sociais para se tornarem visíveis. tontos. provocadores e arruaceiros. levantam-se e deitam-se a pensar futebol e nos intervalos. em modo de descanso. enviam likes clubísticos ou postam frases e vídeos motivacionais sobre clubes de futebol – diria que o perfil do pessoal da bola é facilmente arquitetado: segunda feira falam do jogo de domingo. terça. falam do jogo de domingo. quarta. falam do jogo de domingo. quinta. falam do jogo de domingo. sexta. falam do jogo de domingo. sábado. falam do jogo de domingo e finalmente o domingo falam do jogo de domingo – e pronto. estamos conversados sobre a malta do desporto rei – claro que há exceções. felizmente – confesso que não gosto muito desta malta do futebol. toda ela. dirigentes. treinadores. jogadores e outros parasitas que gravitam neste mundo de milhões . o que gosto mesmo é de ver a bola a rolar e tudo o resto é desespero  – bem sei que nada posso fazer. doentes há em todos os clubes e em todos os desportos. mas isso não me impede de sonhar que. um dia. essa malta perceberá que está descontextualizada com a nova geração emergente das escolas e universidades – há cada vez menos gente analfabeta e as lavagens ao cérebro estão cada vez mais difíceis. a malta nova já não tolera comportamentos rascos e odientos. prefere. tal como o meu amigo hercule poirot. massa cinzenta.  cérebro – felizmente o ADN luso é mais virado para a treta do que para o confronto físico que. aliado a alguma sorte. vai adiando a tragédia. um dia esta sorte acaba e acontecerá como a tragédia dos fogos do ano passado e aqui-d’el-rei que a culpa é do sistema – mas que se lixe a malta doentia da bola. o importante mesmo é que o campeonato acabou. já há campeão – mesmo sem festejar qualquer título confesso-vos que estou muito feliz. sempre que um campeonato termina fico histérico. acaba a jagunçada. os “paineleiros” vão para férias. os jornais dedicam-se às mentiras das contratações e os doentes da bola tiram "vacances" e dedicam-se ao charme nas redes sociais. likes e beijos são aos milhões – afinal esta gente até tem bom coração – mas voltemos à bola.  o porto foi melhor do que o meu benfica e quando assim é só me resta endereçar felicitações aos meus amigos portistas. sei que estão contentes e tem toda a razão para estarem. foram quatro longos anos de jejum – eu estou também feliz por eles e quando assim é também posso dizer que sou um bocadinho de nada campeão – não se pode ganhar sempre – mas atenção. sei que sou boa pessoa mas não sou nem santo nem estúpido e muito menos hipócrita. e não dou o que tenho de melhor em mim a quem não merece – como disse atrás. as felicitações são para os meus amigos portistas. aqueles que não querem ganhar o campeonato a qualquer preço. aqueles que estão do lado bom e abominam a batota. aqueles que jamais trocariam uma derrota por uma vitória com desonra e por último aqueles que não gostam de magoar o próximo e celebram as vitórias com um abraço de conforto com os adversários – não posso festejar o título do porto com quem aproveitou o seu facebook para continuar a transmitir ódio. raiva. mentira. para quem não se lembrou de mim e me ofendeu com postagens insultuosas. caluniosas. pessoais [enquanto benfiquista]. divisionistas e revanchistas e principalmente para aqueles que teimam em dividir o meu país em norte e sul – esses terão o meu desprezo absoluto. o meu silêncio e principalmente a minha falta de respeito – não tenho respeito por essa gente mas continuarei a não lhes faltar ao respeito – para esses lunáticos que sustentam a sua vida com postagens diárias de grupos fanáticos. em empregados de comunicação sem escrúpulos. em gangues desportivos que perseguem e amedrontam agentes do futebol e adversários. em programas “desportivos” apinhados com gente sem dignidade. gente vendida. medíocre. rascos e sustentados por estações televisivas sem qualquer tipo de pungimento para com a sociedade fica bem expresso nas minhas palavras o risco que separa este mundo entre o lado bom e o lado mau – para estes covardes faço questão de lhe dizer que os consagro com o meu maior troféu: o desprezo – sei que nada mais entenderiam para além do desprezo – mas bem lá no fundo sou um homem com sorte. esta malta estranha não faz parte do meu rol de amigos de verdade – tenho a certeza de que não se sentiriam bem no nosso meio [portistas. sportinguistas. benfiquistas. entre outros] –  brevemente tudo voltará ao princípio e uma certeza tenho: os fanáticos de todos os clubes continuarão fanáticos – infelizmente são doentes e ainda não há vacina para os curar – passem bem





02/05/2018

clarice lispector










É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.




23/04/2018

um dia serei livro






pintura - willian michael harmett





um dia serei livro mesmo que não seja o dia mundial do livro – mas enquanto não sou livro. enquanto a lombada não se enche de mim. enquanto não engendro o título e o prefácio se faz e desfaz. numero os dias que escrevo como se em cada momento me escorresse pelo braço a espada de salomão – e tudo feito numa palavra-silêncio reles. tão reles como o artista. tão podre como poeta. tão chula como o sujeito [poético] que escreve o que mata e mata com o que escreve – o livro cheio de coisas que pode ser nada ou pode ser tudo o que um homem tem para sobreviver à morte – um dia serei capa. com letras enormes. redondas. pintadas a ouro e alinhadas numa estética pró venda. mágica. a ilustrar o que não é – do outro lado a contra capa. envergonhada por encerrar tudo que é livro. diz apenas o que o autor manda dizer – e o que está para lá da capa a falar baixinho. tão baixinho que só os pássaros de ruy belo sabem pousar nas entrelinhas de um livro fechado: um dia todo o livro terá a hora da morte assinalada como efeméride apoteótica [quase sempre morre o livro antes do autor] – para o escritor um livro é punhal encostado ao batimento da mão que escreve. é sofrimento e paixão. raiva e sossego. é vida feita palavra tantas vezes incompreendida. rejeitada. ostracizada e deportada para uma ilha sem olhos – bonita ou feia toda a palavra sozinha é inútil. mas cem palavras. cem palavras a falarem de si. fazem alimento para uma multidão – um livro é mais do que uma vida. é a vida de quem lê – hoje é o dia do livro e eu sem parir porra de livro nenhum – juro que um dia terei um livro só meu e os sinos baterão ao nome do seu criador: aleluia. aleluia. salvação e ressurreição às metáforas porque as portas do céu abriram-se ao inferno da vida – não importa quantos páginas se prendem à lombada. não. o que importa é que será para sempre um livro do mundo. mesmo sem ser mundial – todo o livro encerra dentro de si um mundo. o do seu criador – mas o meu livro. que será o livro da minha vida por não ter outra para escrever. será também vil. ordinário. será fodido. mas também será verdadeiro. guardará tudo o que presta como o que não presta – o meu livro será injusto. muito injusto e justo também. será fel e mel e terá letras direitas com tudo que nasceu torto dentro de mim – será raiva. será de gente que ainda vive e de outra gente que por não estar viva já partiu sem saber ler nem escrever – no meu livro. aqueles que o lerem encontrarão o que não procuram e descobrirão que o certo será quase sempre incerto – um dia serei livro mesmo que não seja o dia mundial do livro. ou do poeta egocêntrico ou mesmo de um escritor que nunca soube escrever e escreve. como aquele que não sabendo ler folheia página a página a história que vive na ponta dos seus dedos – um dia. mesmo que não seja o dia do livro. pode ser até a merda de um dia qualquer. serei livro contra a vontade do sonho e por cada página escrita entregarei um grito de clemência e tolerância – nesse dia serei o que o livro quiser. vontade e ilusão. vontade e nada ou nada de nada e serei também o que cada um souber ler – um dia. no meu livro. serei mesmo só o que quiserem que seja e se não quiserem... também nada serei para além do livro que sou






22/04/2018

depois de abril, antes de maio










um dia,
depois de abril
serei apenas 
o que sou
e nem mais um dedo 
do que sou.
e em boa verdade me interrogo
que mais poderia ser
não sei
talvez encantador
talvez altaneiro
ou talvez
louco
se me arrogasse 
num pedestal 
e vos cantasse
que sou mais
do que vos fala
esta 
boca intranquila.


mas aqueles
que antes de maio
dizem que nada sou
um dia,
que não sei
quando
mas será sempre depois abril
dirão
que sou este mundo 
e ainda outro 
que não sei onde fica.


lá terão 
as suas razões
que
não serão nunca as minhas
sejam de mil
ou 
apenas de um de abril


dirão que fui bobo 
e tolo
também 
mesmo que não saibam
verdadeiramente o que dizem
porque tudo o que sou
não está na razão
está no que 
não sou


e não sou tanta coisa







20/04/2018

deambulações noturnas XXVII






pintura - giovana santiago




noite: e por aqui ando a contar paralelepípedos enquanto os sinos dobram ao prevísivel