.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

31/12/2017

faleceu 2017. salve 2018





imagem - google



faz hoje um ano que publiquei a minha crónica de despedida do ano 2017 – habituei-me a fazê-lo anualmente num gênero de balanço emocional – o ano passado a escrita foi marcada pela raiva. estava desiludido. zangado com o destino e sentia o mundo às costas – sempre gostei de metáforas hiperbolizadas – hoje. percebo que não era a mãe de todas as raivas mas era unicamente a sensação-confirmação de que deus. seja a identidade que for. não vê tudo ou está desatento – este ano. o dito deus. continua ausente. não me liga nenhum. não me ama como seria pressuposto amar e também não está em todos os lugares como também seria pressuposto estar – na crónica de 2017 lembro-me de me conter nas palavras ordinárias. dissimulei-as. enfarpelei-as com etiqueta. embebedei-as com vasilhames alcoólicos que me ofereceram pela festa do santo natal e de seguida. matei-as como se matam os perus. depois. depois foi só temperá-las com uma manada de sal em pedra. levá-las ao calor da vida e finalmente empratá-las como se fosse um chefe agraciado com estrelas michelin – foi a forma que encontrei de proteger os meus familiares. amigos e amigos leitores do meu “año horrible” – foi um ano muito mau e como dizem os nossos nuestros hermanos: no creo en brujas. pero que las hay. las hay – passou um ano e as bruxas não me desocuparam o corpo. são sempre leais com quem amarga e geme. instalaram-se de malas e bagagens e não vejo forma de as despejar – por tudo isto a raiva não desapareceu. não diminuiu e creio até que dilatou – confesso-vos que me encontro perdido com as palavras. não sei o que fazer para que esta crónica-balanço. em oposição à do ano passado. ofereça uma diferença positiva no seu conteúdo – a minha vida está sistematizada pela adversidade. um género de existência em série. padronizada numa luta constante. com picos emocionais sofridos. incontroláveis e exponenciados por uma dúvida existencial – salva-me o pé-de-meia emocional. amealhado nos anos dourados. permite-me agora ter um fluxo do cash-flow positivo. garantindo desta forma o autofinanciamento anímico-cerebral sem ter que recorrer a químicos – tudo que tomo para me aguentar são palavras. analgésicas potentes que. depois de escritas. aliviam as mágoas aumentando os intervalos das recaídas – mas voltando ao novo ano. o que vos posso garantir [mesmo] que vai mudar é a hora de inverno com a chegada da primavera – [não se riam por favor. nem sempre sabemos ou vemos o óbvio] – também vos posso afiançar que em abril. se lá chegar. irei ficar mais velho um ano. certificando de vez a qualidade das minhas dores das costas – tudo o resto que possa dizer em relação às minhas expectativas aviso-vos que pode muito bem ser parte de uma maquiavélica maquinação do professor cuecas com um novo conto do vigário. desta vez numa história de banda desenhada – infelizmente também não mudarei o rating da fé. está no lixo e não creio que suba qualquer nível em 2018. tal e qual como o meu país o meu problema é estrutural. gasto mais tempo a pensar do que a produzir – olho para o 2018 apenas como o calendário olha para mim: tens os dias contados. comunico-te que acabas de consumir mais um dia da tua existência. estás cada vez mais perto de tombar para a eternidade – que sorte – do 2017 quero apenas recordar o casamento do meu filho. fui muito feliz nesse dia. oficializei a nora. sei que não era necessário porque já me estava no coração. nunca lho disse porque não sei falar. todo o mundo sabe que não me dou bem com a oralidade. mas a minha intuição diz-me que ela já sabia e que o meu filho também sabia porque os filhos quando se fazem adultos sabem tudo dos pais – antigamente era eu que sabia tudo deles. tudo mudou. envelheci por dentro e por fora. mas amo-os incondicionalmente – com a idade aprendemos a amar só com o coração. não necessitamos de os ver. tocar ou ouvir. amamos porque sabemos que existem em nós para além de todos os dogmas. eles são a única razão para o mundo existir e brilhar – o ano 2017 é o ano das noras. o meu filho mais novo apresentou-me a mais que provável nova nora. bonita. simpática. independente. comunicativa e determinada. como eu gosto. espero que se saibam guardar no coração com lealdade. a vida sem lealdade não presta – por fim o meu filho do meio anunciou um novo relacionamento e [finalmente] reconquistou a vontade e determinação para terminar o seu curso superior – como sempre estarei inteiramente a seu lado. aguardo por esse dia desde a sua chegada à escola. já dobramos tantos cabos das tormentas. não há dia nenhum que não torça por ele e já agora. que deixe de fumar. não por mim mas pela sua saúde – só quando os filhos atingem os seus objetivos nós atingimos os nossos – e é desta forma que aguardo o falecimento de 2017 agradecendo-lhe unicamente não ter levado ninguém que morasse no meu peito – tenho como certo que os amigos continuarão a usufruir do meu batimento afetivo em 2018 – no que diz respeito à família tudo continua firme e rijo. a minha mãe de noventa e três anos dá o exemplo prometendo estar por cá para 2019. a lurdes. minha segunda mãe. quase nos oitenta anos continua a teimar. o que vai ser de nós sem ela. devo tanto a esta mulher – da família da minha mulher faço figas para que o meu sogro continue a lutar por todas as recordações. orgulho-me de fazer parte dessa vida guardada e quero continuar vivo no seu olhar até 2019 – por fim. o que não muda à trinta e quatro anos é a companhia da minha mulher. sempre avançamos juntos e destemidos sobre os novos anos – assim será hoje. não há forma de os anos nos cansarem. brindaremos mais uma vez como crianças. trocaremos um beijo que nunca é igual e renovaremos os nossos votos de que estaremos unidos até que a eternidade nos separe – amo-a mais por cada ano que passa – é ela que inventa o sol que me ajuda a sorrir – obrigado também a todos aqueles que gastam o seu tempo a ler as minhas palermices. vocês são fantásticos. sem o vosso companheirismo nada disto faria sentido – espero-vos em 2018 – grato como sempre – feliz ano novo






23/12/2017

eu e:





pintura - álvaro cunhal 






7.    a oferenda aos meus dois amigos


estes dois pequenos excertos literários do escritor húngaro sándor mári - as velas ardem até ao fim. é uma oferenda aos meus amigos tiago e josé antunes. um género de final replicado para as duas crónicas anteriores – o livro. um romance intenso. dedicado a uma amizade entre dois homens. amigos de infância inseparáveis. que se encontram novamente quarenta anos mais tarde – uma reflexão penetrante e pessoal sobre a amizade que sándor mári disseca com amor. afabilidade. nostalgia. tristeza e perdão – o autor. na derradeira fase do envelhecimento. compreendeu que só relativizando os sentimentos é que conseguiria encontrar o indulto em si – sándor mári ensina-nos a encarar a verdade mesmo quando ela se apresenta difícil. complicada e desagradável. sabendo que ainda assim ela será sempre menos arrasadora do que a mentira – recuperar o passado para o questionar é uma missão penosa sobretudo quando se trata de recuperar um amigo de infância – neste romance o autor trouxe a verdade às palavras. a tolerância aos diálogos. o amor à compreensão e o perdão ao coração

“O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos...”


nunca é tarde para trazer os amigos para emergência dos dias que ainda restam viver – nunca é tarde para resgatar uma amizade da mágoa ou do esquecimento – a solidão. o silêncio e o envelhecimento dissipa de vez as multidões. o barulho e a escassez de tempo – com a aproximação do fim para o corpo aprendemos o valor das coisas simples. da ausência. da saudade. do perdão e da aceitação do desacerto – somos todos pecado e erro – 

 “ … Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quando já se sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com a exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice. Porém, há ainda algo vivo no teu coração, uma recordação, algum objectivo da vida indefinido, gostarias de tornar a ver alguém, gostarias de dizer ou saber alguma coisa, e sabes que um dia chegará esse momento e então, de repente, já não será tão fatalmente importante saber e responder à verdade, como pensaste durante as décadas de espera. Uma pessoa compreende o mundo, pouco a pouco, e depois morre. Compreende os fenómenos e a razão das acções humanas. A linguagem simbólica do inconsciente… porque as pessoas comunicam os seus pensamentos por símbolos, já reparaste?...” 

o carácter de um homem é inalterável. não envelhece. não se perde  tenho a certeza de que os meus amigos continuam jovens no seu carácter – um dia chegará o meu momento para resgatar todos os meus amigos silenciosos – escreveremos então [todos] um novo tratado de amizade




19/12/2017

eu e:



pintura - osvaldo lima



6.    eu e o zé do gerês 

o zé antunes com mais quatro anos do que eu era um dos primogénitos da praça do comércio – entre amigos. rapazes. quatro anos de diferença é uma enormidade de tempo. um é homem-feito. adulto. namoradeiro. com a personalidade formada e interesses perfeitamente definidos.  enquanto o outro ainda teima em sair da adolescência. inseguro. à procura do seu caminho. intranquilo com o futuro. com a pessoalidade a baloiçar entre o regresso ao protecionismo familiar ou a emancipação irrevogável – a adolescência é uma aurora dolorosa – batizámo-lo de zé do gerês porque as suas origens remontavam à vila do gerês-rio caldo. uma aldeia turística. integrada no parque nacional da peneda gerês. a norte de portugal – o zé veio com a sua mãe e irmã viver para a nossa rua – compraram um apartamento numa das laterais da praça do comércio e instalaram-se com a discrição de quem chega duma aldeia do interior – uma família da classe média. discreta. reservada. simpática. educada e muito religiosa – a mãe do meu amigo. para além das visitas regulares á igreja. raramente aventurava-se para a rua – este recolhimento obrigava o zé a alguns cuidados. ele não gostava de deixar a mãe sozinha e sempre que a irmã saía recolhia-se em casa – o pai emigrara para o brasil ainda o nosso país vivia debaixo da ditadura salazarista – éramos uma nação pobre. com uma repressão interna violentíssima.  triste. sem futuro. a viver uma guerra colonial onde os jovens eram obrigados a combater e a morrer – um país fechado ao mundo exterior. sem nenhuma perspetiva de melhoras políticas e económicas a curto prazo – a  geração dos nossos pais foi obrigada a deixar tudo para trás e a partir pelo mundo em busca de uma vida melhor para os seus – as famílias ficavam suspensas pela saudade e pela dor da distância – estas separações não eram fáceis nem para os que partiam nem para os que ficavam – o governo brasileiro na época de sessenta prometia melhores condições de vida para quem tivesse coragem de atravessar o atlântico – naquele tempo a distância era do tamanho de um oceano inteirinho. não havia voos comerciais a toda a hora. a internet não passava de ficção e as ligações telefónicas para além de serem caríssimas eram dificílimas – era o tempo da carta. do telex. do telegrama e da saudade silenciosa – o zé tornou-se adulto muito cedo. era o homem da casa e talvez por isso evitasse falar do seu pai. nós sabíamos que sofria. sabíamos que carregava em si uma ausência dolorosa. uma saudade escondida num emudecimento sofrido – todos os seus amigos respeitavam este seu silêncio magoado – nunca saberemos até que ponto este condicionamento familiar alterou a personalidade do meu amigo – mas nem tudo era mau para o zé antunes. fruto do sacrifício do seu pai a sua família era marcada por uma qualidade de vida elevada. em especial o zé. usufruía de uma poder financeiro invejável e raro para a época – ao zé antunes nada lhe faltava. vestia bem e caro. fumava cigarros com filtro e encantava com charme num estilo muito pessoal  apoiado numa masculinidade discreta mas de bom gosto – acredito que o meu amigo foi o primeiro metrossexual da nossa cidade – era um homem moderno. gostava de cuidar da sua higiene e principalmente do seu visual – com um pouco mais de um metro e setenta. magro. bonito. cabelo curto. espesso. orelhas tão pequeninas que nunca percebi como conseguia ouvir – uma pele branca produzida com cremes perfumados deixava emergir dois olhos vaidosos. negros. abertos à claridade. doces. encaixados numa boca pequena. educada. carregada de palavras difíceis e histórias de maravilhar – o zé era um excecional contador de histórias. como era bom ouvi-lo – sem barba. apenas alguns pelos rijos explodiam do queixo numa fúria selvagem – no entanto. numa postura séria e orgulhosa. fazia questão de dizer que os cortava com a última novidade do mercado para barbas difíceis: a gillette cup – o zé não andava. desfilava pelas ruas como se estivesse numa passarela de moda. olhos no ar. meio sorriso. quase importante. aprumado pela roupa. impecável. com gosto. num ar desportivo: blazer pela mão. pulôver com decote em bico com os colarinhos da camisa presos no seu interior. calça de ganga justa. sapato de pala. meia à cor da calça. cheiroso numa leveza subtil mas suficientemente eficaz para se sentir a fragrância num raio de dez metros – era assim que o meu amigo existia no nosso mundo – eu tinha vaidade no zé. gostava de o ver bonito. quanto mais bonito ele estivesse mais bonito ficava eu ao seu pé – sempre tive orgulho no meu amigo – a acumular com todas estas deferências positivas o meu amigo era um comunicador de excelência. aliado duma retórica eloquente. com variadíssimos recursos de argumentação apoiado em procedimentos enfáticos e aparatosos capazes de convencer qualquer pessoa sobre qualquer coisa – na sua retórica. e se necessário. o zé colocava o estilo acima do conteúdo e a convicção acima da verdade – era um mestre da oratória – esta lábia era também aplicada aos encantamentos do mundo feminino. o que levava a que o nosso amigo andasse sempre muito bem acompanhado – quase me arriscaria a jurar que o zé era constantemente vitima de assédio sexual – no seu caso. este assédio não era indesejado. o zé gostava de passear as amigas pelo casco velho da cidade. gostava de ostentar a sua virilidade – o zé do gerês era um rapaz muito vaidoso. sabia tudo sobre moda e fazia questão de a seguir com afinco trajando-a com brio e satisfação – vestia-se na pic pic. a loja de roupa da cidade mais procurada pela nata da sociedade bracarense – frequentava esta loja apenas os poderosos e ricos dos negócios. ilustres jogadores da bola e outros que não tendo nenhum título ou profissão aparente faziam também questão de se misturarem com o jet set bracarense – o zé antunes nunca saia de casa com as cores descombinadas. na época não havia nada que não combinasse com a sua figura. as cores da roupa misturavam-se umas com outras mas no final tudo batia com elegância. com graça. com etiqueta. por onde passava tudo se arrastava para dentro de si com graciosidade. como se houvesse um feitiço. o zé era um príncipe – gosto de o recordar no café [casa de pasto luso brasileiro]. sentado. de perna alçada. a esticar a meia pela silhueta da perna. com delicadeza. num ritual de afirmação pessoal. como se quisesse dizer: eu estou aqui – tudo à sua volta era um círculo mágico e todas as palavras eram dele. e ouvíamos. e tudo que dizia era para aprender. e mais uma palavra e mais magia e da cartola mais uma surpresa. o zé era encantador. e mais um vocábulo difícil e outro e o círculo aceso de admiração. pasmo. e bate com o cigarro no maço do tabaco. três ou quatro pancadas e o cigarro na boca com uma delicadeza proporcional aos seus encantos de oratória – é este o zé que guardo dentro de mim numa amizade pura. boa. que nunca parou de sorrir. em abraço. forte. calcificada pelo tempo. para sempre. até que a morte nos leve – eu gosto muito do meu amigo – o zé de gerês gostava de saber coisas que mais ninguém sabia. quer dizer. eu não sabia – o zé era um rapaz culto e gostava de mostrar tudo o que sabia aos amigos. também era vaidoso no conhecimento – uma espécie de google daquele tempo. o que não soubéssemos perguntávamos ao zé que logo ele dava um palpite – era um rapaz fantástico. calmo. sempre á procura de uma graça corrosiva. um humor de fino recorte sempre acompanhado de um sarcasmo delicado. com tiradas rápidas. seguidas de pausas que nos deixavam em suspensão. à espera da próxima piada. e aquele ar malicioso a cair-lhe do olhar. a roçar o gozo. o escárnio. mas tudo dito com elevação. com conta. peso e medida. nada e ninguém se ofendia. era um mestre no humor – o zé ao sábado comprava sempre o expresso. trazia-o debaixo do braço com o titulo virado para fora. tinha vaidade em ler o semanário. gostava de política – naquele tempo só os intelectuais é que comparavam o semanário – também passei a comprar o expresso mas nunca cheguei a intelectual e nunca aprendi tanto como ele – depois do jantar reuníamo-nos no café da nossa rua e quando este encerrava passava-mos para debaixo do alpendre da praça e ali ficávamos em conversa resistente. até que o sono ou os compromissos nos obrigassem a regressar a casa – com o aproximar da meia noite. o zé tornava-se inquieto e o controle dos ponteiros do relógio era feito ao minuto – antes da primeira badalada da meia-noite já ele tinha que ter a chave metida na porta de sua casa – e era assim todos os dias. foi assim todos os anos até ao dia em que partiu para coimbra para tirar o curso de direito – senti muito a falta do meu amigo – as noites nunca mais foram iguais. faltavam-me as suas histórias – o zé para mim também emigrara e a distância era muito mais do que um oceano – compensou com a sua licenciatura. nesse dia senti um enorme orgulho e vaidade. o meu amigo era finalmente advogado – aos domingos encontrávamo-nos sempre na sacristia da igreja do carmo. éramos nós que recolhíamos as dádivas dos fieis durante a eucaristia dominical – o zé recebia as esmolas no corredor direito. eu no esquerdo e o sacristão no corredor central – a missa dominical das onze e trinta agregava praticamente toda a comunidade crente da nossa área residencial – naquela época pertencer à família cristã era a chave mestra para que caíssemos nas boas graças de amigos. vizinhos e até família – a minha mãe enchia-se de orgulho sempre que alguém me elogiava na vocação de servir a deus – tenho que agradecer ao zé esse estado de graça granjeado em minha casa. foi da sua responsabilidade a minha participação na missa dominical – a única família que escolhemos livremente são os amigos. o zé era o meu irmão mais velho. adorava-o. tudo o que desejava era ser como ele – gosto de recordar aquela história que ele contava do judas – o judas era um rapaz mais ou menos da sua idade que depois dos pais emigrarem ficou a morar com a sua avó na sé. zona de braga com alguns problemas de integração social – por detrás das nossas casas havia uma área enorme de campos. onde uma vez por semana se realizava a feira de braga – era ali o nosso ponto de encontro nas férias para os confrontos amistosos [nem sempre] futebolísticos – de acordo com o que meu amigo contava. logo nos primeiros dias da sua chegada a braga. praticamente sem conhecer ninguém.  foi para o campo da feira quando avistou um rapaz muito mal vestido. esfarrapado e sujo a um bom par de dezenas de metros – mais tarde veio a saber que este indivíduo tinha a alcunha de judas – o judas conforme o nome diz não era um rapaz dócil. pelo contrário. não frequentava a escola. era arruaceiro. dedicava-se a pequenos furtos e o passatempo preferido dele era a briga – o judas andava sempre munido de uma fisga de elásticos de câmara-de-ar. era com esta arma que executava pequenos assaltos aos miúdos – é aqui que começa verdadeiramente a história.  o judas apontou a fisga a um rapazito que jogava a bola num dos campos pelados. e sem perder tempo com a mira. largou os elásticos e catrapus. em cheio na cabeça – enquanto o rapaz agoniava o judas calmante. já com a fisga recarregada. aproximou-se do puto e esvaziou-lhe os bolsos e partiu tão calmamente como tinha chegado – o meu amigo zé. acabado de chegar de uma vila-aldeia do interior nunca tinha visto uma coisa daquelas e pensou: estou perdido. este gajo é um terror. é um franco-atirador. um sniper de elite. estou lixado. vai infernizar a minha vida –  se depressa pensou mais depressa fugiu para casa – mais tarde veio a descobrir que afinal o judas não conseguia acertar nem num poste a dois metros. tinha um problema de visão e naquele tempo não havia dinheiro para óculos – riamos sempre com aquela história. principalmente com as expressões de terror que o zé imprimia na narração do evento – o zé adorava contar histórias e eu de as ouvir – o meu amigo era um homem bom. com ética. com carácter. com valores morais. justo com os amigos e com a amizade – o zé foi a pessoa que mais influência teve no meu crescimento. diria mesmo na minha vida – devo-lhe muito do que sou hoje – adorava-o. queria ser como ele. tinha vaidade na sua amizade – foi com o zé que descobri o valor da virtuosidade. da verdade e da justiça – não tenho nenhuma dúvida de que a sua proximidade permitiu-me crescer com mais confiança. mais segurança nas relações sociais. com sentimentos mais positivos e mais estabilidade emocional – a nossa amizade fez de mim um homem mais íntegro. mais justo e mais tolerante – ensinou-me a questionar  as minhas ações. entende-las. perceber se são boas ou más. corretas ou incorretas. justas ou injustas – só um homem justo sobrevive ao tempo. o zé vive em mim porque me educou com amizade – o zé antunes era o meu ídolo – sempre torci para que a vida fosse justa com ele – a amizade é um contrato para a vida – ainda hoje sou tanto dele





07/12/2017

eu e:





pintura - osvaldo lima





5.  eu e o tiaguinho

o tiago araújo era mais velho do que eu um ano – alto para caraças. magro-elegante. com uns olhos azuis acesos dentro de uma pele tão branca que cegava todos os que estivessem à sua volta – o cabelo. ligeiramente escuro-forte-ondulado. tombava serenamente sobre uma testa que nunca se acostumou às brigas de miúdos – o tiaguinho era um homem bom. correto. leal. dócil. aprumado na roupa e numa delicadeza requintada e harmoniosa – o tiaguinho não andava. marchava como um guerreiro em tempo de paz. herdou o passo do pai que era militar da infantaria – era um homenzarrão que caminhava sempre como se o mundo tivesse obrigação de esperar por ele. nunca o vi a correr – digo que nunca o vi correr porque mesmo quando se atrevia a jogar futebol era tão desengonçado que ninguém sabia ao certo se estava a cair ou a tentar levantar-se – em boa verdade não tinha muito jeito para a bola. mas também não era coisa que o preocupasse. tinha sempre lugar na equipa. todos o queriam no seu time pela sua robustez física – sempre que tentava correr a sua face transfigurava-se num fúria desgovernada. os adversários. aterrorizados. com medo de levar uma valente canelada. escolhiam deixá-lo passar – afinal tudo não passava de uma fúria dócil – o futebol trazia-lhe para a face uma excitação enfurecida que em mais nenhum momento poderia ser observada – o tiago era um homem de paz. sereno e tranquilo – todos os homens bons são de paz. são serenos e tranquilos – como era bonito o meu amigo. especialmente quando se trajava de fato. era o único da rapaziada que se vestia como um funcionário nobre.  um “self-made man” da época – que classe. se já era um homem alto. com o terno. enfarpelado de cima a baixo. num resplende algodão fino. ficava gigante. maior do que a torre eiffel. um verdadeiro monsieur – não havia mãe nenhuma dos meus amigos que não se encantasse com tiaguinho. a minha mãe não fugia à regra e fazia questão de me dizer: põe os olhos no teu amigo. anda sempre asseado. com brio. tu pareces um desgraçado – eu era um desgraçado ao seu pé – educadíssimo e sempre encavalitado num sorriso que quando virava gargalhada ecoava pelos confins do mundo como um rugido de leão – quem não se lembra das suas gargalhadas escangalhadas e contagiantes – a seu lado a tristeza esbatia-se paulatinamente acabando por abalar para outros finais – o meu amigo era uma mente humana distinta. culto. evoluído. esclarecido num pensamento aberto ao mundo. dotou-se de uma percepção visionária invulgar: foi o primeiro da nossa geração a possuir um computador zx sepectrum – em boa verdade vos digo. ninguém percebia muito bem o uso a dar àqueles monstrinhos – apenas os mais atentos e informados compreenderam que a viagem no tempo se faria com inteligência artificial – o tiago percebeu. foi o primeiro informático da nossa rua e um dos primeiros deste país – era singular – para lá desta novíssima bricolage tecnológica o meu amigo adorava automóveis. sabia tudo sobre motores e pilotos. nada lhe escapava em desportos motorizados com quatro rodas. uma paixão do seu tamanho – sempre que a tv transmitia carros a roncar aí estava o tiaguinho escorado à transmissão. ninguém o apanhava na rua – pela noite abrigávamo-nos debaixo do coberto da praça e ali ficávamos em cavaqueira amena. a queimar o frio com conversas iluminadas apenas pelo luar. a divagar. extasiados com tanta juventude. a falar de tudo para. muitas vezes. não dizer quase nada naquele tempo o nosso único inimigo era o relógio – adorávamos falar. o truque para uma boa camaradagem é falar. falar de tudo. de futebol. de mulheres. de carros. de ciência. de roupa. de vaidade. de livros e da sua leitura – foi do meu amigo a dica para ler agatha christie – adorei e fiz um parceiro para a vida. o belga hercule poirot – foi um período bonito. descobrimos melhor do que ler os livros da agatha era falar deles – assim fizemos. falamos do poirot. do seu enredo. do mistério. de venenos. de facas e pistolas. do expresso do oriente. de criminosos e inocentes. falamos como se para cada livro pudéssemos inventar um outro final – éramos os dois felizes – riamos muito – sua mãe tinha um quiosque numa das praças mais emblemáticas da nossa cidade. não era uma tabacaria como a de fernando pessoa. era um quiosque numa estética pós-moderna. em inox reluzente. tratado com modernices. envidraçado em trezentos e sessenta graus. com uma guarita de venda protegida em volta por jornais diários e revistas do jet set – no seu interior. em substituição da mãe. o meu amigo comandava o negócio com segurança – à postura profissional. acrescentava um sorriso gracioso enquanto  manuseava com delicadeza os valores selados. o tabaco avulso. guloseimas e ainda outras bugigangas que por serem de ofensa á moral pública estavam escondidas nas prateleiras subterrâneas do desejo carnal – ali ficava ele. em posse séria. de respeito. como se tivesse aos comandos de um carro de combate. enquanto eu intercalava a conversa com a chegada e partida dos clientes – mais tarde. este meu amigo. acabou por ser o meu padrinho de casamento – foi um dia muito especial para mim e para ele pois foi nesta celebração que conheceu o amor da vida dele – nunca me arrependi da escolha. era um homem bem-nascido. bom e honrado – que mais podemos querer para um amigo. mais nada. o tiaguinho tinha tudo – ainda hoje tenho orgulho de ter a sua assinatura como testemunha cristã num dos dias mais importantes da minha vida – éramos jovens. éramos jovens com sonhos. éramos bons rapazes – em memória um momento que marcou para sempre a sua personalidade afetiva no seio do nosso grupo de amigos – certo dia. por perto do natal [creio]. o tiago chega à porta da lusitana. padaria que juntava à venda do pão também algumas guloseimas. e já com a porta fechada. bate ao vidro e pergunta à funcionária: celestina tem bombocas? e ela responde num sorriso exclusivo construído só para si: não tenho não menino. estão esgotadas. só para a semana – a partir desse dia nunca mais deixamos de lhe perguntar pelas bombocas da celestinha que por mero acaso era uma mulheraça com um par de seios maiores do que uma dúzia de bombocas – não conheci ninguém que não tivesse um carinho especial pelo nosso tiaguinho. era realmente um catraio desigual de todos os outros – tenho saudades do meu amigo. tenho saudades de nós. tenho saudades dos passeios noturnos pela nossa cidade encantada. tenho saudades dos sonhos compartidos. das loucuras. das conversas sobre mulheres. principalmente das que tinham seios enormes e conduziam descapotáveis de óculos escuros – tenho saudades de lhe dizer: até amanhã. dorme bem. a vida vai ser nossa – tenho muitas saudades – a vida escolheu ruas diferentes para a nossa caminhada. mas a distância nunca me apagou nenhum afeto – tempo também é aprendizagem e saber – hoje ainda gosto mais deste meu camarada da juventude – vou gostar para a  eternidade numa terna ilusão de que um dia possamos reviver esta vida noutra dimensão. seremos então novamente crianças bondosas e retocaremos definitivamente a estrada que nos apartou – amigo não se esquece por mais longa e distante que tenha sido a viagem – o tiaguinho pertencia ao império dos homens bons


02/12/2017

eu e:





pintura - fabriano rocha




4.    eu e a estante dos livros à esquerda


à minha esquerda uma estante com dezenas de livros que ainda não li – sempre quis acreditar que a minha velhice seria feita de paz. silêncio. memória. afetos e leitura pacata graças ao meu pé-de-meia de livros – livro a livro desocuparia a estante da paixão. do conhecimento. da gratidão e o espasmo final consagrado a um dever consumado – finalmente o corpo mirrado de todas as sensações – no quarto ao lado. no vazio da mesinha cabeceira já pouco resta de mim. um perfume dior despojado de fragrâncias. restos de um lápis de grafite com os dentes cravados na sua extremidade. uns óculos com dioptrias ultrapassadas. um creme de corpo sephora de pouco mais de quatro euros. uma aliança preservada por um amor que dói sem saber onde dói e um envelope lacrado e escrito com os seguintes dizeres: para o dia seguinte – ao centro da mesinha. em diâmetro exato. uma lâmpada protegida por um abajur sombrio em completa harmonia com os deuses da escrita faz a guarda de honra ao livro que encerrará em si o meu último sopro de vida – ali estou eu guardado numa página interrompida. atracado a um eufemismo idiota que nos tenta impingir que os livros são eternos e perduram para além da morte – o livro só é eterno enquanto o seu leitor viver – na página interrompida eu morri – para a eternidade apenas um símbolo de que um dia existiu vida no interior daquelas resmas impressas: um marcador de livro a dizer “keep calm” – claro que estou calmo. estou morto e todos os mortos são calmos por mais agitação que tenha tido a sua vida – o único que poderá estar nervoso. se estiver vivo.  é o autor do livro que. sem o seu leitor. acabará também por desaparecer – nem todos os autores se tornam imortais. mas todos os leitores são mortais – só o livro insiste em negar uma morte decretada oficialmente pelo silêncio no seu interior – os dedos não mais acariciarão o papel – hoje morremos todos. eu. o autor e o seu leitor – nunca vivi sem livros. a minha primeira recordação com os livros chega-me dos almanaques da disney – aos dez anos apaixonei-me pelos cinco de enid mary blyton – os cinco na torre do farol foi a minha primeira leitura e aquela que me amarrou aos livros para sempre – aos doze anos fiz-me homem com os clássicos da literatura portuguesa: júlio dinis. eça de queiroz e camilo castelo branco são os meus favoritos – mas é com os romances do júlio dinis que descubro a bondade. a dignidade. a honra. a ética. a esperança e o verdadeiro amor – morgadinha dos canaviais. uma família inglesa e as pupilas do senhor reitor marcaram-me para a vida  – júlio dinis moldou o meu crescimento e tornou-se no meu guia literário – o romantismo “ é a arte do sonho e fantasia” – eu cresci num sonho e perdi-me em fantasias – aos dezasseis acrescentei a outros livros os amigos que ainda hoje guardo no coração – o bando da praça do comércio – éramos muitos. todos bonitos. todos diferentes e de todos tenho saudades – em especial do joca. luís vieira e mais recentemente o sérvio. acredito que partiram para um outro mundo mais perfeito e estão neste momento os três felizes – sempre amei os meus amigos mesmo quando a vida nos tramou com o crescimento – crescemos todos tanto e tanto ficou por dizer – nunca deveríamos ter ficado adultos – éramos muito mais divertidos a jogar à bola e à carica – infelizmente  não é assim a vida e para morrer em paz é obrigatório crescer – todos crescemos – os meus amigos cresceram mais que as montanhas. ficaram enormes. gigantes bons. alguns com cabelos brancos. mais curvados. com o céu pelas costas. a fazer peso. com as nuvens por baixo dos joelhos e os braços abertos como se pudessem voar a qualquer momento – sempre soube que os meus amigos um dia iriam voar. os anjos voam. os duendes também voam e as gaivotas também – os meus amigos são seres sensíveis. delicados. frágeis como o cristal de murano. rodeados de água e marés e histórias que fazem encantar a memória – tenho saudades dos meus amigos – tudo que me resta são recordações e é nestas que resisto à inglória velhice – ninguém quer magoar ou perder o que ama – sei que na vida o que gostamos de verdade traz medo e insegurança – tenho medo de os perder na saudade – os amigos são deuses que vivem na terra – honro este medo bom – mesmo com medo hoje apetece-me falar de dois amigos muito especiais – confesso-vos que estou aterrorizado. sinto-me gelado por dentro. uma parte de mim a cair para as palavras e a outra a serrar o que me resta das mãos – tenho medo – tenho medo que um dia não gostem de ver os seus nomes ligados a uma escrita meia tonta – bem sei que a minha escrita é também uma escrita de afetos. amiga. com paixão. com saudade. com um abraço que quase sufoca de sentimento afetivo – mas confesso que estou com receio – que me perdoem se um dia não gostarem desta minha partilha. estarei pronto para receber um puxão de orelhas. estarei pronto para pagar a minha ousadia carinhosa – mas não resisto. tenho que vos falar deles. tenho que falar com eles. tenho que os trazer para o meu pé. olhá-los novamente. de mais perto. segredar-lhe como tudo foi especial. como é bom saber que existiram. existiram na esperança. na camaradagem. na fraternidade. na viagem e no silêncio do mundo – sempre os guardei dentro de mim – hoje quero-os comigo neste bocadinho de palavras que são só minhas. quero que me acompanhem como se fosse mais uma das nossas deambulações imaturas. quero-os outra vez inconscientes. malandros. gaiatos. quero-os bonitos como nunca – mas também quero trazê-los para o meu universo crescido e apresentá-los aos meus leitores como os melhores dos melhores. mostrá-los ao “desconhecido espaço global de redes de computadores”. com honra. com estima. com porfia. com admiração e com gratidão – vou trazer até vós dois amigos muito especiais. amigos do peito que marcaram a minha vida de forma muito particular: *o tiago e o zé antunes – sem eles envelhecer seria muito mais difícil – a terra existe para que os deuses possam descansar – zé e tiago. espero que um dia encontrem aqui o descanso merecido


*[um dia escreverei sobre um terceiro amigo também muito especial – encerrarei então em definitivo o meu trio de companheiros de uma vida]


29/11/2017

eu e:






pintura google





3.    eu e as fotos à direita

sento-me em mim. a hora é do corvo profunda.  desmantelo os olhos do presente e começo a autenticar os quadros numa parede à minha direita – as fotos confirmam que existo – afinal não sou um produto de uma qualquer máquina do tempo – sei que existo aqui e neste momento porque estamos todos nas fotos – os que amo não se cansam de me olhar – mas para que não haja dúvidas com as fotos o melhor será citar decartes: “penso, logo existo” – e ali estou eu em mais uma velharia fotográfica: cara sisuda. cabelo escuro-jovem. calça bege. blusão de bombazine castanho. mãos nos bolsos e uns óculos enormes contra o sol do mundo – os olhos são a minha vulnerabilidade – os índios americanos não gostavam de tirar fotos porque acreditavam que estas lhes roubam a alma – não sou índio mas acredito nessa crença – não sei se foram as fotos mas alguém me roubou a alma. alguém me deixou vazio por dentro – apostava o pescoço de que perdi a alma pelos olhos. não há dia nenhum que não me doíam – enquanto tive alma nunca deixei que o futuro me assustasse – não tinha medo de nada. o corpo estava sempre aprumado. perpendicular à ambição. num ar sério. assim como se fosse um mistério. os olhos encovados. escuros. as mãos escondidas para ninguém saber o que pensavam e as pernas em posição de correr – sempre com um grande aprumo à avidez. não era vaidade. era segurança nas mãos – olho. olho com o que me resta da vontade de olhar. olho com saudade. olho com nostalgia. olho com raiva. olho com uma vontade de matar o futuro estatelado numa parede pastel – as primeiras fotos são de um cinzento ingénuo. aberto à coloração. imaginativo. num confiante forte-opaco. a contrastar com a moldura faia-clara – ao lado. numa moldura mais escura. sobressai o cinzento dúvida. com a tonalidade a puxar para a solidão. para o retiro. mergulhado em pessimismo e numa vontade única de fazer apenas o que estava certo – há cinzentos que nos enganam para a vida toda – ainda não tinha percebido que para sobreviver é necessário viver com o erro. ultrapassá-lo. moldá-lo para a invisibilidade. ajustá-lo às necessidades das maiorias. programá-lo para o sorriso enganoso e fazer de conta de que aceitamos aquela velha máxima: errar é humano – nunca foi bom a fazer de conta – o erro para mim nunca foi humano. com o erro uma parte da minha confiança morria de amargura – nunca fui capaz de recuperar destes erros – nunca aceitei o erro e isso trouxe-me um erro ainda maior: a busca de uma perfeição imaginária – nas últimas fotos encontrei-me num cinza triste. corroído. pouco afetivo. zangado e onde o prumo dá indícios de que está preso por um fio – ninguém aguenta tanto cinza-triste numa parede bege-pastel – *“a felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação” 


*imannuel kant


21/11/2017

eu e:




pintura - maluda





      1.    a escrevaninha;
2.    a janela da frente;
3.    as fotos à direita;
4.    a estante dos livros à esquerda;
5.    o tiaguinho;
6.    o zé do gerês;
7.     a oferenda aos meus amigos;
8.    as mulheres do meu cunhado;
9.    a minha circunferência;
10.  a vida.




1.    eu e a escrevaninha
sei que estou a desaparecer – um dia destes serei invisível. ausente. sem voz e sem uma única palavra que identifique o meu corpo. estarei retirado dos afetos. dos sorrisos. dos sonhos e das desilusões. serei sombra. memória e silêncio misericordioso – mas neste momento de assentimento. enquanto continuo a completar a existência da vida. observo em conciliação o que me resta da morada criada: desarrumo o que sempre esteve desarrumado. procuro o que nunca encontrei e perco-me a ler papelinhos quadrados sem nenhum tipo de relevância temporal – em tempo real subsiste o espectro dos papelinhos quadrados gizados a pó no tampo granítico da escrevaninha – o testemunho de que pelo menos num dia tudo tem a sua importância por mais insignificante que seja o seu conteúdo – abandono e esquecimento é o que me sobra desta desorganização validada pelo meu DNA – é daqui que vos escrevo num computador inimigo do cheiro a papel – é daqui que com as palavras esqueço o mundo das luzes – é daqui que me entrego em vocábulos de alforria – é daqui que me absolvo de pecados que ninguém compreende – é daqui que como anão me faço gigante quando opto por nunca usar maiúsculas – é daqui que emancipo as palavras preparando-as para o mundo da crítica – é daqui que me estarreço de medo pela vossa leitura – é daqui que me entrego num abraço metafórico maior do que “as dez mil coisas*” – eu não sei se sou mais do que dez mil coisas. sei que sou uma coisa que se magoa e chora e tem cada vez mais medo de um dia não saber o que fazer com o que escreve

*metáfora chinesa que chamam ao mundo “as dez mil coisas” – in: este ofício de poeta - jorge luís borges


2.    eu e a janela em frente

em frente. uma janela com um punhado de quase nada permite-me agarrar uma nesga de um mundo onde não existo por opção – não nos podemos impingir ao mundo. a multidiversidade negativa também contribui para a evolução da espécie – entre a persiana e a meditação um pedaço de céu deserto de tudo que me tentaram ensinar à força – o céu já não é destino final para quem sempre tentou fazer o mais certo – o céu é agora apenas o teto do que penso – mas está tudo bem. não há ressentimento. estão todos indultados. o culpado sou eu. nunca deveria ter tido a ousadia de querer questionar o que o mundo certifica de uma forma instintiva – a janela é agora a minha única oferta para os que ainda se sentem tentados em me reencontrar – quando não estou na janela estou a escrever para vocês – vocês são a minha única esperança para o que me resta do mundo faça sentido – todos os meus sonhos são maiores do que eu. carrego-os da mesma forma como os carregou fernando pessoa – também *“tenho em mim todos os sonhos do mundo” – saibam eles. todos os dias. que me faço existir mesmo que em frente à minha janela não exista nenhuma tabacaria – em boa verdade vos digo: a minha janela dá para nada. e não sei como vos descrever esse nada pois para isso teria que saber o que vale a palavra de um homem a uma janela que não dá para nada – não me tenho em boa conta. estou desiludido. triste e sem vontade de sonhar mesmo sabendo que todos os sonhos são feitos da vida que sonhei – nenhum homem sonha o que desconhece – escrevo. escrevo como se a janela estivesse prenha de uma tabacaria – não está. tudo que tenho entre mim e a janela é o que os olhos veem e o que veem é nada – sem tabacaria morre também o sonho – a morte será para sempre um sonho inacabado – perdoem-me. sei que perdi todos os sonhos – nenhum homem pode viver sem sonhos – estou morto dentro de um sonho que não vejo morrer – não quero saber o que há para lá dos sonhos porque tudo que sonho está a morrer de tristeza. está doente de um mal que não é mal nenhum é a vida a acontecer no seu melhor e pior – da minha janela não vejo nenhuma tabacaria. nem gaivotas. nem gente como eu. nem sonhos a chegar ou a partir. da minha janela vejo-me a olhar o que não há porque dentro de mim não há nada para além do sonho de um dia escrever qualquer coisa que não seja nada – a todos os outros sonhos peço que me esqueçam. tornaram-se em nada e não há nada que possa engrandecer um corpo que desistiu de sonhar

*fernando pessoa